ARTIGO D E ATUA L I ZAÇÃO
OBSTAcU LO D E COM U N I CAÇAO NO CENTRO DE R EAB I L l TACAO E I NTEG RACAO SOC IAL CONSEQÜ E N C I A F U NC IONAL OU EST R UTU RAL ?
Vera Regina Sa l les Sobra P , Marcos Antonio dos Santos Lima2
SOB RAL, V. R . S. & LIMA, M . A. dos S. Obst:ículo de comunicação no Centro de Reabilitação e Integração
Social - cOllseqUência funcional ou estru tural? Rev. Bras. Ell., Brasília , 3 7 (3/4 ) : 25 1 -256, jul./dez. 1 9 84.
R ESUMO. O estudo discute a dinâmica de vida/trabaiho de cl ientes, funcionários e técnicos do Centro de Reab i litação e I ntegração Social ( C R IS) da Colônia Jul iano Moreira da cidade do R io de Janeiro, entendido pelo Ministério da Saúde como uma alternativa às práticas psiqu iátricas asilares brasileiras. Para tal bu.scaram-se os estudos de m icropol f tica de GO F F MAN e das representações antropológicas de B O L T ANSK I , associados a observações assistemáticas da práxis desenvolvida. O objeto do trabalho reside na anál ise cr ítica dos d iscursos e prática do C R I S, objetivando discutir se os obstácu los de comuni cação entre os dois eram de ordem funcional e/ou estrutural. E m acréscimo, os autores sugerem pesqu isas que envolvam observação participativa nas reuniões do CR I S, entre vistas e anál ise de documentos.
ABSTRACT. The study discusses l ife/work dynamics of cl ients a nd staft at Social Rehab i l itation and I ntegration Center (SR I C) of Co lônia J u l iano Moreira, R i o de Janeiro, considered by M i n i stry of Health as an a l ternative to asylum psychiatric pratice in B razil. Therefore, reference was made to G O F F MAN and B O LTANS K I studies associated to observation of assystematic prax is. The object of the study is a criticai analysis of what is said and done at SR I C, seeking to find out if the existing communication hindrance would have funcional and/or structural cause. The authors suggest stud ies uti l izing observation of systemltic meetings between cl ients and �taff, interviews and documenta l ana lysis as metodological technique.
I N T RODUÇÃO
O modelo de exclusão social que gerou os discursos psiquiátricos tradicionais é combatido pela psiquiatria atual na medida em que esta des loca a qestão da segregação para a sociedade.
1 . Enfermeira. rofessor Assistente 11 da UF Ac.
2. Psicólogo. Secretaria da Saúde do Piauí:
Na Colônia Juliano Moreira (CJ M), os inter nos procuraram adaptar-se à "normalidade" atra vés de execução de tarefas : os "piorados" execu tando alguma tarefa para os "melhorados" que por sua vez são explorados por funcionários ou pela instituição .
Uma pesquisa realizada em 1 9 80 detectou esses elos de poder e concluiu quan to à necessi dade de se recompor a capacidade laborativa do interno como única medida capaz de possibilitar ao doente mental sua destinação social.
Os documentos que contam a história da CJM a partir desta pesquisa mostram um novo discurso institucional onde a palavra de ordem
é a ressocialização.
Tal , discurso apregoa a ressocialização através da reabilitaç'ão pelo trabalho remunerado, propi ciando aos internos a vivência de relações sociais inerentes ao aprendizado do trabalho, o que os levará à assunção de um novo papel social. Desta forma, o trabalho remunerado é entendido como instrumento ressocializante , pois leva os intenos a questionarem a sua situaçãO , oportunizando-lhes assim o resgate de sua cidadania.
Para implementação dessa idéia, criou-se o Centro de Reabilitação e lntegraçro Social (CRIS) como uma proposta altcrnativa à instituição psi qui:Hrica asilar e que tcm na sua prática e dinâmica do trabalho a base de sua práxis.
O CRIS ten ta recuperar a capacidade produ tiva dos intenos, já que o modelo assistencial a que estavam submetidos levou-os a uma auto desvalia - de tanto ouvirem de todos que são incapazes ; não sabem nada ; são "loucos", enfer mos, indolentes - tudo isto faz com que terminem por se convencerem da sua própria incapacidade .
Daí ter o CRIS dois momentos distintos: Reabitação - Onde os internos, agora clien
tes, vão comprometendo-se na prática do trabalho. Ressocialização -Onde a dinâmica do traba
lho leva os clien tes ;) transformação de suas reali dades de psiquiatrizados.
Esses dois momentos fazem com que os intenos operem a reestruturaçro de scus v ínculos (sociais, políticos, econômicos, afetivos etc.) resultando por m no resgate de sua identidade , da forma mais integral possível...
As diretrizes gerais do PROJETO CRIS trazem como estra tégia terapêutica "que so mente a práxis social assistida, acompanhada por outros recursos de caráter propriamente médico-psicológico, pode reverter o cantinho da
deterioração ." .
Isso pressupõe que se pensou nas diiculdades adaptativas que os indivíduos poderiam vir a ter, já que para eles seria uma mudança profunda de estilo de vida onde novos valores serão incorpora dos como também em possíveis recidivas de quadro clínico psiquiátrico.
252 -Rev. Bras. EnJ, Brasília, 3 7 (3/4), jul./dez. 1 984.
É evidente que o CRIS estabeleceu-se como forma de proporcionar inicialmente aos 25%* de internos da instituição com ausência de distúrbios' mentais a possibilidade de passarem da condição de cidadãos de fato e não de direito à de cidadãos de fato e de direito.
No entanto, parece que seria pertinente levan tar a hipótese da possibilidade de que o CRIS a despeito de suas intenções transformadoras, esteja pautado em cima da noção de ajustamento secun dário de GOFFMAN ( 1 96 1 ), segundo o qual, os indivíduos encontram meios de se ajustarem às instituições através de mecanismos próprios não normatizados.
OBJETIVO DO ESTUDO
Coerente com uma das prerrogativas do Pro jeto CRIS, que preconiza uma avaliação constante de sua prática como forma única de adequar-se à realidade de sua demanda, realizou·se um seminá rio, no primeiro semestre de 1 983 , objetivando uma revisão metodológica dadas as constantes cri ses da clientela e da instituiçãO ; definição de papéis dos técnicos, monitores, equipe administra tiva e auxiliares de ressocialização. O evento contou com a participação de todos os funcioná rios e técnicos e alguns clientes.
Entre os pontos mais relevantes evidenciados pelo seminário destacam-se quatro :
1)
O reconhecimento do monitor e do auxiliarde ressocialização como agente primário de resso cialização ;
2) A dicotomia existentc entrc a práxis da ressocialização e a produtividade ;* *
3) O atendimento das crises evolutivas ;
4) A necessidade do fortalecimento das redes sociais horizontais.
• O Projeto Centro de Reabilitação e Interação Social, faz refcrência ao Diagnóstico Psicossocial dos Intenos d a CJ M , rea lizado em 1980, reveland o que dos 2.600 intenos, 70% tinham idade acima de quarenta anos, com média de internação de 21 anos ; 25% não apre sentavam quadro psiquiátrico que justificasse sua inter
nação e 60% não recebiam qualquer visita de parentes ou amigos .
. . Produtividade é o resultado do trabalho arteanal das oficinas (sapatria, vime, cana a India, ráfica, col choaria, plantas onamentais e eostura) os quais são posteriormente comercializados e que financiam parte do Projeto CRIS. Ressalta-se que há uma intenção explicitada de, a médio prazo, o Projeto e auto
Esses quatro pontos vê1l mostrar que "não h:i uma compreensão homogênea ia projeto" c/ou que há pessoas agrupadas em tono Ie Iiscursos que se chocam na prática (SlUNÁRIO,
1983).
Porém , o evielen te consenso dos elel11el l tos integrantes do CRIS (clientes, runcioruírio� e técnicos) quanto à di iculdade de comunicação oportuniza questionar se esta di iculdade expressa um obstáculo de cultura e/ou de comunicação . Além disso , a prática e os discursos institu cionais foram observados como conlitantes, suge rindo a existência de mais de uma cultura, isto é ,um peril cultural d o cliente e outro d o técnico e funcionários e ainda insinuando existir interesses da instituiçãO e dos institucionalizados.
JUSTI F I CATI VA
Um trabalho que se propõe altenativo às práticas psiquiátricas asilares brasilei ras e que está se desenvol vendo há apenas dois anos, por si só, já é justiicativa suficien te para um estudo .
No en tan to , faz-se necessário discorrer sob re alguns aspectos pert inen tes e relevantes do CRIS.
No ge ral , o discurso do C RIS é coerente com o da CJM como U1l todo , a partir ia análise de documentos. Semanticamente , as palavras e suas conceituações são as mesmas. Pode-se , en tretan t o , questionar como esse discurso está sendo lido e/ou im plemen tado .
Para se desenvolver uma atuação eiciente a nível da saúde men tal , deve-se partir d a percepção e in tervenção concret a em todas as dimensões do indivíduo e não apenas de uma conscientização da proissionalização e das rel ações sociais advin das deste processo . Aqui se questiona a problema tização das situações de aprendizagem/trabalho ocorridas no dia-a·dia do CRIS como instrumento único de ab ranger o indivíduo como um todo. Aliada a este fato, há a evidente dicotomia entre o discurso da práxis da rcssocializaçro e o da produtividade.
O reconheciJilen to do moni tor e d o auxiliar de ressocialização como agen te primário de resso cializaç:lo pode révelar, a princ ípio , a ten tativa de se fortalecer as redes horizontais d e pode r , isto é, de lega-se a esse agcnte maior responsabilidade e espaço-ação , junto ao cliente . Por outro l ado , isso pode viabilizar uma reprodução ideológica, haja vista que a visTo do técnico se ampliará na deste agente , ratiicando assim uma airmativa de FOUCAULI ( 1 982) , onde - "a delimitação do
campo de atuação é uma questão de saber e de poder" .
E onde se amplia a visão dos c1icn tes ?
BASAG LIA
( 1979)
revela que "enquanto nãomudar a relação de poder n ão poderá mudar a saú de ( . . . ) porque quem mandar de terminad sempre o
. nosso pensamento num único sentido ... "7
A alegada dificuldade d e comunicação pode ser traduzida como una caracterização de duas diferentes classes e seus respectivos discursos o que , teoricamente , eÍlcon tra respaldo nas repre sentações de corpo, doença e mundo estudadas por BO LI ANSKI ( 1 979).
Desta forma o obstáculo na comunicação é
a própria visão que cada uma dessas classes tem de mundo.
Questiona-se se este descompasso passa apenas pelo aspecto funcional ou se tem também implica ções de ordem estrutural .
FREI RE
(I979)
mostra que se educa enquall to se constró i , isto é, educar é um processo com seqüências c etapas que se repe tem a cada vez ;uma história coletiva de criar e fazer . Isso assegura uma partici pação de lodos como um t odo
(e
não de t odos COl1l0 partes), comprometidos permanen temente num processo radical de transformação .AS PRÁT I CAS E OS DISCU RSOS
Uma abordagem micropol ftica
As instituições são formadas p�r pessoas que se reúnem num mesmo ambiente , por um certo período de tempo , para alcançar determinados objetivos. A obrigMoriedade de várias pessoas compartilharem de um mesmo espaço/tempo impõe uma situação de intimidade que propicia os processos de aj ustamentos secundários.
Esta realidade exemplilica a abordagem de GOFFMAN
(1961)
sobre insti tuição total .O autor deine aj ustamento secundário "COIllO qualquer arranjo habit u al , l I Iediante o qual , o me mbro de ullla organização u ti liza meios n To sancionados, atinge obje tivos não-sanciona dos, ou faz ambas as coisas, contonando assim as previsOes da organizaçro quanto ao que ele deveria ser". Diz ainda que , quando o(s) aj ustamento(s) sccund,í rio(s) tona(m)-se coletivo(s) , tem-se a chamada
"vida subterrânea" da instituiçTo - mani pulação do sistema, ou seja, uma adequação do que o indivíduo é , quer, ou pode fazer diante das pers pectivas institucionais numa explícita e implícita relação e poder.
Tl fato é ratiicado pela airmação de GOFFM AN ( 1 96 t ) quanto ao hospital psiqui<Hrico como instituiçlO tolal que o ferece t odas as condi ções de promover intensa vida íntlma e, portanto, eminentemente fértil ao desenvolvimento de ajus tes secundários tanto da parte dos funcionários, quanto dos clientes e ainda entre ambos.
A partir de observações assistemáticas sobre as teias de relações sociais do CRIS, podem-se traçar parâmetros de comparação com os estudos de GOFFMAN ( 1 9 6 1 ) sobre ajustamentos secun dários, lguns dos quais serão descritos abaixo .
O CRIS mantém os seus clientes sob um regi me de trabalho remunerado por oito horas diárias. Porém, algumas vezes, essa norma não é cumprida por clientes, técnicos e funcionários, na medida em que os primeiros realizam outras tarefas (lavagem de carro , faxina, compras ou mesmo passam o dia passeando pela CJM) nesse período de tempo, sendo que algumas dessas tarefas são feitas atendendo a pedidos dos já citados técnicos e funcion;írios.
Ressaltam-se , ainda, algumas situações onde determinados clientes deixam de executar suas atividades rotineiras nas oicinas para atender a algum pedido de UI1l artesanato específico . Tal solicitação. envolve sempre a pessoa do monitor como agente intermediário na transação .
Para o cliente , tudo isso reverte em garantia de status, na medida em que lhe é assegurado um tratamento diferenciado do restante da clien tela. Uma outra situaçãO que exempliica vários tipos de ajustamentos secundários descritos por GOFFMAN ( 1 9 6 1 ) é o uso constante e abusivo
. do lcool por parte de alguns clientes.
Certa vez um relacionamento altamente agres sivo entre clientes alcoolizados culminou em injúria física de um para outro . Esse episódio levou a institutição a realizar reuniões em vários âmbitos de poder, discutindo-se amplamente o problema com a inalidade de dissipar ou minimizar o clima de medo e desconten tamento en tre clientes, técni cos e funcionários. Aqui, determinadas "falações" de clientes ocorridas em uma Assembléia Geral do CRIS merecem destaque :
- "Isto estava acontecendo porque três clien tes que controlavam o uso da bebida na casa não estavam mais e ninguém assumiu o lugar deles". - "Os clientes que bebem mesmo e sempre , têm esconderijos para guardar as garrafas onde só eles sabem" .
254 -R ev. Bras. Enl, Brasíla, 3 7 (3/4), jul./dez. 1 9 84.
- "Fui injustamente acusado de fazer "avião zinho" por possl'ir uma bicicleta. Garanto que não faço isso" .
-- "Nada adianta fazer, pois qulquer cliente poderia beber o quanto quisesse , fora do CRIS e chegar bêbado sem que ninguém o impedisse de entrar ou mesmo fosse castigado por essa atitude ."
- "Os guardas da noite e dos fms de semana bebem Com os clien tes".
Dessa Assembléia, após exaustivas discussões, resultou que todos (clientes, técnicos e funcioná rios) iriam iscalizar a entrada e ingestão de bebi das alcoólicas no CRIS e os clientes que se apresen tassem alcoolizados receberiam sanções.
Durante uma semana houve um acordo tácito entre as partes envolvidas: uma parte implemen tou a iscalização e a outra fez abstenção lcoólica. Mas, após esse período , .a bebida voltou a _morar 110 CRIS em menor intensidade , não havendo con fronto entre iscalizadores e iscalizados.
Pode-se citar ainda uma situação relacionada à di l1culdade de adaptação do cliente ao mundo
exteno à CJ M . Em princípio o CRIS tem como
meta maior o retono do cliente à sociedade após
vivenciar as relações sociais inerentes ao trabalho . Entretanto, há casos em que os clientes saem do CRIS com o propósito de arranjar emprego e man ter uma vida socialmente aceita.
Em geral, isso se dá ao receberem o salário, que é todo gasto , quando então retornam pela casa, comida e estilo de vida sobejamente conhe cido .
A saída do CRIS implica no desligamento automático do Projeto Centro de Reabilitação e Integração Social, mas já aconteceram casos, como por exemplo , de um ex-cliente , que ao voltar ten tou o suic ídio e desta forma manipulativa conse guiu que sua situação fosse apresentada à reunião técnica, onde seu procedimento foi analisado e sua volta deferida.
Todas essas observações assistemáticas ora descritas encontram respaldo em GOFFMAN ( 1 96 1 ) , quando ele airma que existem três arb ( trios que permitem a uma pessoa dispor de bens e serviços do próximo : "a coerção privada, o inter câmbio econômico e o in tercâmbio social" .
da instituição como diiculdades puramente comu nicacionais .
Uma abordagem metodológica através d as representações
Na sociedade , as pessoas se agrupam em torno de percepções diferentes de um mesmo mundo . As classes sociais espelham essa realidade na medida em que elas adotam diversos estilos de vida com respectivos hábitos e costumes caracterís t icos. Esses estilos de vida desiguais estão também presentes, conforme assegura BOLTANSKI ( 1 979), nas práticas de saúde de uma população .
O autor assegura que " a relação doente-mé
dico é também uma relação de classe , modiican do-se a atitude do médico em função principal mente da classe social do doente" . Mostra como as classes baixas são marginalizadas já que , além dos doentes pobres não falarem a mesma lingua gem dos médicos, esses "em geral , não dão expli cações senão àqueles que julgam bastante evol uí dos para compreenderem o que vai lhes ser expli cado" .
Acerca d a utilizaçãO d o corpo e das sensaçOes corporais. doentias ou não , as classes sociais têm caracterizaçOes e expressOes próprias que as diferenciam e que precisam ser percebidas e entendidas.
Para BOLT ANSKI ( 1 979), essas diferenças em relação aos cuidados corporais de beleza e/ou de saúde "exprimem as regras e os valores que , e m cada classe social , regem a relação que os indiv íduos mantém com o seu corpo " .
N o CRIS, um assunto sempre presente é o que envolve a higiene , seja a pessoal ou a ambiental , havendo uma preocupação por parte dos técnicos e que os clientes absorvam seus hábitos e costu, mes mais siinples.
Em uma reunião técnica, um funcionário foi alvo de elogios por ter conseguido , após meses de insistên cia, que uma cliente , lotada no seu mesmo local de trabalho : tomasse banho. Segundo ele , o odor exalado pela cliente era insuportável, mas após o banho ate o rel acionamento no trabalho mudou . . O técni�o que coordenava a reuniro convidou a todos para seguirem o exemplo des crito sem tentar discutir o que representava para os clientes o uso do b anho cotidianamente .
Sobre a higiene ambien tal, um cliente re latou que ele mesmo lavava a sua louça de re feiçoes e as paredes do banheiro de sua ala. Tudo isso com a mesma esponja com a qual
t omava banho , mas tinha o cuidado de lavá-Ia bem após cada uso . A reação do técnico foi de tentar arranjar-lhe outras esponjas ou material equivalente para a limpeza do banheiro e de suas louças, mas o cliente se negou a aceitar a idéia, pois da sua esponja ele poderia dispor quanto e quando quisesse . Este fato traduz a idéia da limpeza, mas não da higiene , diferença essa que passa pelos caminhos da Saúde Pública, conforme adverte BOL T ANSKI ( l 979), que teima em ter uma prá t ica homogênea. negando assim as peculiarid ades ineren tes às classes sociais.
Observa-se ainda, no CRIS, alguma estranheza por parte de técnicos e funcionários, com o vestuá rio de clientes que combinam cores variadas ou as usam em várias t onalidades.
Acredita-se que , apoiado nos conceitos for mulados na análise micropol ítica de GOFFMAN ( 1 96 1 ) e nos de representaçOes t.ropológicas de BOLT ANSKI ( 1 979), pode-se explicar as tensões existentes entre a práxis e os discursos que envol vem a instituição.
CONCLUSÃO
A análise da práxis e dos discursos do CRIS à luz dos estudos da micropol ítica de GOFFMAN ( I 9 6 1 ) e das represent ações antropológicas de BOLTANSKI ( 1 979), evidencia que os obstáculos de comunicação existentes não são puramente funcionais corno pretendem os documentos insti t ucionais estudados.
Há subsídios claros e relevantes sobre questões estruturais, os quais ratiicam o sistema de poder hierárquico tradicional aqui mascarado por termos, situações e personagens novos.
, No cômputo geral , existe uma multiplicidade de ajustamentos secundários de toda ordem, bem como pessoas que se agrupam em tono de estilos de vida com hábitos e costumes característicos. No entanto, para uma postura mais decisiva e coerente sobre a dinâmica da vida/trabalho do CRlS , são necessários estudos .mais profundos e sistemáticos, envolvendo a observação partici pativa de re uniões en tre clientes, funcionürios e técnicos, en trevistas e análises mais abrangen tes e acuradas de documentos.
Acredita-se que pesquisas assim aj udem a fortalecer o período de b uscas, ora experimentado na Colônia J uliano Moreira, de uma prática psi quiátrica alternativa que possa resultar no reco· nhecimento do d oente mental como um ser
carcnte de aj uda mas t ambém capaz de ajuda: àque les que se proponham a uni r , de fo rla ade quad a , os scus sabc re s aos delcs c juntos c n con t ra rem um cstilo de vida participativo , saud,ível , produtivo , alegre , mais humano enim e ainda, revelem também a essência das contradições que esse processo desencadeia.
SOll RAL. V . R . S. & IMA, M . A . d o s S. COlll lllunica t ioll h indrancc - [unctional o r structura l causc ? ReI'. Bras.
Enf. Brasília, 3 7 (3 /4 ) : 25 1 -256, Jul./Dec . 1 9 84.
R E F E R � N C I AS B I B L l O G R A F I CAS
1 . BASAGLIA, F . A psiquiatria altentativa. São Paulo,
Deba t e s , 1 979. 20 1 p .
2. llO LTA N S K I , L. A s c/asses sociais e o corpo. Rio 6. de Janciro , Graal, "1 97 9 . 1 9 1 p.
3. FOUCAU LT , M . Microfísica do poder. 3 ed. Rio
d l' J aneiro, Graal . 1 9 82. 295 p. 7.
4. F R E IR E . 1'. Consciel/tização. :io Paulo, Cor tes &
Mora es, 1 979. 1 0 1 p .
5 . GOFFMAN , E. lmemados: ensayos sobre la
situa-256 -Rev. Bras. Ellf. Brasília, 37 (3/4), jul./dez. 1 9 84.
ciÓI! social de los el/femzos mentales. Bucnos Aires, Ailllorrortu , 1 96 1 . 378 p.
PROJ ETO d o Ccntro de Rcab i l i tação c Integração
Social da Co lonia J uliano Moreira. Rio dc J anei
ro, s.d. (mimeografado ) .
SEM I N Á R IO INTE R N O DO C E N T R O D E REAIlI L1TAÇ\O E INTEGHAÇÃO SOCIAL DA
CO LO N I A J U Ll ANO MORERA, 1 9 , Rio d c