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Obstáculo de comunicação no centro de reabilitação e integração social: consequencia funcional ou estrutural?.

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Academic year: 2017

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ARTIGO D E ATUA L I ZAÇÃO

OBSTAcU LO D E COM U N I CAÇAO NO CENTRO DE R EAB I L l TACAO E I NTEG RACAO SOC IAL ­ CONSEQÜ E N C I A F U NC IONAL OU EST R UTU RAL ?

Vera Regina Sa l les Sobra P , Marcos Antonio dos Santos Lima2

SOB RAL, V. R . S. & LIMA, M . A. dos S. Obst:ículo de comunicação no Centro de Reabilitação e Integração

Social - cOllseqUência funcional ou estru tural? Rev. Bras. Ell., Brasília , 3 7 (3/4 ) : 25 1 -256, jul./dez. 1 9 84.

R ESUMO. O estudo discute a dinâmica de vida/trabaiho de cl ientes, funcionários e técnicos do Centro de Reab i litação e I ntegração Social ( C R IS) da Colônia Jul iano Moreira da cidade do R io de Janeiro, entendido pelo Ministério da Saúde como uma alternativa às práticas psiqu iátricas asilares brasileiras. Para tal bu.scaram-se os estudos de m icropol f­ tica de GO F F MAN e das representações antropológicas de B O L T ANSK I , associados a observações assistemáticas da práxis desenvolvida. O objeto do trabalho reside na anál ise cr ítica dos d iscursos e prática do C R I S, objetivando discutir se os obstácu los de comuni­ cação entre os dois eram de ordem funcional e/ou estrutural. E m acréscimo, os autores sugerem pesqu isas que envolvam observação participativa nas reuniões do CR I S, entre­ vistas e anál ise de documentos.

ABSTRACT. The study discusses l ife/work dynamics of cl ients a nd staft at Social Rehab i l itation and I ntegration Center (SR I C) of Co lônia J u l iano Moreira, R i o de Janeiro, considered by M i n i stry of Health as an a l ternative to asylum psychiatric pratice in B razil. Therefore, reference was made to G O F F MAN and B O LTANS K I studies associated to observation of assystematic prax is. The object of the study is a criticai analysis of what is said and done at SR I C, seeking to find out if the existing communication hindrance would have funcional and/or structural cause. The authors suggest stud ies uti l izing observation of systemltic meetings between cl ients and �taff, interviews and documenta l ana lysis as metodological technique.

I N T RODUÇÃO

O modelo de exclusão social que gerou os discursos psiquiátricos tradicionais é combatido pela psiquiatria atual na medida em que esta des­ loca a qestão da segregação para a sociedade.

1 . Enfermeira. rofessor Assistente 11 da UF Ac.

2. Psicólogo. Secretaria da Saúde do Piauí:

Na Colônia Juliano Moreira (CJ M), os inter­ nos procuraram adaptar-se à "normalidade" atra­ vés de execução de tarefas : os "piorados" execu­ tando alguma tarefa para os "melhorados" que por sua vez são explorados por funcionários ou pela instituição .

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Uma pesquisa realizada em 1 9 80 detectou esses elos de poder e concluiu quan to à necessi­ dade de se recompor a capacidade laborativa do interno como única medida capaz de possibilitar ao doente mental sua destinação social.

Os documentos que contam a história da CJM a partir desta pesquisa mostram um novo discurso institucional onde a palavra de ordem

é a ressocialização.

Tal , discurso apregoa a ressocialização através da reabilitaç'ão pelo trabalho remunerado, propi­ ciando aos internos a vivência de relações sociais inerentes ao aprendizado do trabalho, o que os levará à assunção de um novo papel social. Desta forma, o trabalho remunerado é entendido como instrumento ressocializante , pois leva os intenos a questionarem a sua situaçãO , oportunizando-lhes assim o resgate de sua cidadania.

Para implementação dessa idéia, criou-se o Centro de Reabilitação e lntegraçro Social (CRIS) como uma proposta altcrnativa à instituição psi­ qui:Hrica asilar e que tcm na sua prática e dinâmica do trabalho a base de sua práxis.

O CRIS ten ta recuperar a capacidade produ­ tiva dos intenos, já que o modelo assistencial a que estavam submetidos levou-os a uma auto­ desvalia - de tanto ouvirem de todos que são incapazes ; não sabem nada ; são "loucos", enfer­ mos, indolentes - tudo isto faz com que terminem por se convencerem da sua própria incapacidade .

Daí ter o CRIS dois momentos distintos: Reabitação - Onde os internos, agora clien­

tes, vão comprometendo-se na prática do trabalho. Ressocialização -Onde a dinâmica do traba­

lho leva os clien tes ;) transformação de suas reali­ dades de psiquiatrizados.

Esses dois momentos fazem com que os intenos operem a reestruturaçro de scus v ínculos (sociais, políticos, econômicos, afetivos etc.) resultando por m no resgate de sua identidade , da forma mais integral possível...

As diretrizes gerais do PROJETO CRIS trazem como estra tégia terapêutica "que so­ mente a práxis social assistida, acompanhada por outros recursos de caráter propriamente médico-psicológico, pode reverter o cantinho da

deterioração ." .

Isso pressupõe que se pensou nas diiculdades adaptativas que os indivíduos poderiam vir a ter, já que para eles seria uma mudança profunda de estilo de vida onde novos valores serão incorpora­ dos como também em possíveis recidivas de quadro clínico psiquiátrico.

252 -Rev. Bras. EnJ, Brasília, 3 7 (3/4), jul./dez. 1 984.

É evidente que o CRIS estabeleceu-se como forma de proporcionar inicialmente aos 25%* de internos da instituição com ausência de distúrbios' mentais a possibilidade de passarem da condição de cidadãos de fato e não de direito à de cidadãos de fato e de direito.

No entanto, parece que seria pertinente levan­ tar a hipótese da possibilidade de que o CRIS a despeito de suas intenções transformadoras, esteja pautado em cima da noção de ajustamento secun­ dário de GOFFMAN ( 1 96 1 ), segundo o qual, os indivíduos encontram meios de se ajustarem às instituições através de mecanismos próprios não normatizados.

OBJETIVO DO ESTUDO

Coerente com uma das prerrogativas do Pro­ jeto CRIS, que preconiza uma avaliação constante de sua prática como forma única de adequar-se à realidade de sua demanda, realizou·se um seminá­ rio, no primeiro semestre de 1 983 , objetivando uma revisão metodológica dadas as constantes cri­ ses da clientela e da instituiçãO ; definição de papéis dos técnicos, monitores, equipe administra­ tiva e auxiliares de ressocialização. O evento contou com a participação de todos os funcioná­ rios e técnicos e alguns clientes.

Entre os pontos mais relevantes evidenciados pelo seminário destacam-se quatro :

1)

O reconhecimento do monitor e do auxiliar

de ressocialização como agente primário de resso­ cialização ;

2) A dicotomia existentc entrc a práxis da ressocialização e a produtividade ;* *

3) O atendimento das crises evolutivas ;

4) A necessidade do fortalecimento das redes sociais horizontais.

• O Projeto Centro de Reabilitação e Interação Social, faz refcrência ao Diagnóstico Psicossocial dos Intenos d a CJ M , rea lizado em 1980, reveland o que dos 2.600 intenos, 70% tinham idade acima de quarenta anos, com média de internação de 21 anos ; 25% não apre­ sentavam quadro psiquiátrico que justificasse sua inter­

nação e 60% não recebiam qualquer visita de parentes ou amigos .

. . Produtividade é o resultado do trabalho arteanal das oficinas (sapatria, vime, cana a India, ráfica, col­ choaria, plantas onamentais e eostura) os quais são posteriormente comercializados e que financiam parte do Projeto CRIS. Ressalta-se que há uma intenção explicitada de, a médio prazo, o Projeto e auto­

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Esses quatro pontos vê1l mostrar que "não h:i uma compreensão homogênea ia projeto" c/ou que há pessoas agrupadas em tono Ie Iiscursos que se chocam na prática (SlUNÁRIO,

1983).

Porém , o evielen te consenso dos elel11el l tos integrantes do CRIS (clientes, runcioruírio� e técnicos) quanto à di iculdade de comunicação oportuniza questionar se esta di iculdade expressa um obstáculo de cultura e/ou de comunicação . Além disso , a prática e os discursos institu­ cionais foram observados como conlitantes, suge­ rindo a existência de mais de uma cultura, isto é ,

um peril cultural d o cliente e outro d o técnico e funcionários e ainda insinuando existir interesses da instituiçãO e dos institucionalizados.

JUSTI F I CATI VA

Um trabalho que se propõe altenativo às práticas psiquiátricas asilares brasilei ras e que está se desenvol vendo há apenas dois anos, por si só, já é justiicativa suficien te para um estudo .

No en tan to , faz-se necessário discorrer sob re alguns aspectos pert inen tes e relevantes do CRIS.

No ge ral , o discurso do C RIS é coerente com o da CJM como U1l todo , a partir ia análise de documentos. Semanticamente , as palavras e suas conceituações são as mesmas. Pode-se , en tretan t o , questionar como esse discurso está sendo lido e/ou im plemen tado .

Para se desenvolver uma atuação eiciente a nível da saúde men tal , deve-se partir d a percepção e in tervenção concret a em todas as dimensões do indivíduo e não apenas de uma conscientização da proissionalização e das rel ações sociais advin­ das deste processo . Aqui se questiona a problema­ tização das situações de aprendizagem/trabalho ocorridas no dia-a·dia do CRIS como instrumento único de ab ranger o indivíduo como um todo. Aliada a este fato, há a evidente dicotomia entre o discurso da práxis da rcssocializaçro e o da produtividade.

O reconheciJilen to do moni tor e d o auxiliar de ressocialização como agen te primário de resso­ cializaç:lo pode révelar, a princ ípio , a ten tativa de se fortalecer as redes horizontais d e pode r , isto é, de lega-se a esse agcnte maior responsabilidade e espaço-ação , junto ao cliente . Por outro l ado , isso pode viabilizar uma reprodução ideológica, haja vista que a visTo do técnico se ampliará na deste agente , ratiicando assim uma airmativa de FOUCAULI ( 1 982) , onde - "a delimitação do

campo de atuação é uma questão de saber e de poder" .

E onde se amplia a visão dos c1icn tes ?

BASAG LIA

( 1979)

revela que "enquanto não

mudar a relação de poder n ão poderá mudar a saú­ de ( . . . ) porque quem mandar de terminad sempre o

. nosso pensamento num único sentido ... "7

A alegada dificuldade d e comunicação pode ser traduzida como una caracterização de duas diferentes classes e seus respectivos discursos o que , teoricamente , eÍlcon tra respaldo nas repre­ sentações de corpo, doença e mundo estudadas por BO LI ANSKI ( 1 979).

Desta forma o obstáculo na comunicação é

a própria visão que cada uma dessas classes tem de mundo.

Questiona-se se este descompasso passa apenas pelo aspecto funcional ou se tem também implica­ ções de ordem estrutural .

FREI RE

(I979)

mostra que se educa enquall­ to se constró i , isto é, educar é um processo com seqüências c etapas que se repe tem a cada vez ;

uma história coletiva de criar e fazer . Isso assegura uma partici pação de lodos como um t odo

(e

não de t odos COl1l0 partes), comprometidos permanen­ temente num processo radical de transformação .

AS PRÁT I CAS E OS DISCU RSOS

Uma abordagem micropol ftica

As instituições são formadas p�r pessoas que se reúnem num mesmo ambiente , por um certo período de tempo , para alcançar determinados objetivos. A obrigMoriedade de várias pessoas compartilharem de um mesmo espaço/tempo impõe uma situação de intimidade que propicia os processos de aj ustamentos secundários.

Esta realidade exemplilica a abordagem de GOFFMAN

(1961)

sobre insti tuição total .

O autor deine aj ustamento secundário "COIllO qualquer arranjo habit u al , l I Iediante o qual , o me mbro de ullla organização u ti liza meios n To­ sancionados, atinge obje tivos não-sanciona dos, ou faz ambas as coisas, contonando assim as previsOes da organizaçro quanto ao que ele deveria ser". Diz ainda que , quando o(s) aj ustamento(s) sccund,í­ rio(s) tona(m)-se coletivo(s) , tem-se a chamada

"vida subterrânea" da instituiçTo - mani pulação do sistema, ou seja, uma adequação do que o indivíduo é , quer, ou pode fazer diante das pers­ pectivas institucionais numa explícita e implícita relação e poder.

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Tl fato é ratiicado pela airmação de GOFFM AN ( 1 96 t ) quanto ao hospital psiqui<Hrico como instituiçlO tolal que o ferece t odas as condi­ ções de promover intensa vida íntlma e, portanto, eminentemente fértil ao desenvolvimento de ajus­ tes secundários tanto da parte dos funcionários, quanto dos clientes e ainda entre ambos.

A partir de observações assistemáticas sobre as teias de relações sociais do CRIS, podem-se traçar parâmetros de comparação com os estudos de GOFFMAN ( 1 9 6 1 ) sobre ajustamentos secun­ dários, lguns dos quais serão descritos abaixo .

O CRIS mantém os seus clientes sob um regi­ me de trabalho remunerado por oito horas diárias. Porém, algumas vezes, essa norma não é cumprida por clientes, técnicos e funcionários, na medida em que os primeiros realizam outras tarefas (lavagem de carro , faxina, compras ou mesmo passam o dia passeando pela CJM) nesse período de tempo, sendo que algumas dessas tarefas são feitas atendendo a pedidos dos já citados técnicos e funcion;írios.

Ressaltam-se , ainda, algumas situações onde determinados clientes deixam de executar suas atividades rotineiras nas oicinas para atender a algum pedido de UI1l artesanato específico . Tal solicitação. envolve sempre a pessoa do monitor como agente intermediário na transação .

Para o cliente , tudo isso reverte em garantia de status, na medida em que lhe é assegurado um tratamento diferenciado do restante da clien tela. Uma outra situaçãO que exempliica vários tipos de ajustamentos secundários descritos por GOFFMAN ( 1 9 6 1 ) é o uso constante e abusivo

. do lcool por parte de alguns clientes.

Certa vez um relacionamento altamente agres­ sivo entre clientes alcoolizados culminou em injúria física de um para outro . Esse episódio levou a institutição a realizar reuniões em vários âmbitos de poder, discutindo-se amplamente o problema com a inalidade de dissipar ou minimizar o clima de medo e desconten tamento en tre clientes, técni­ cos e funcionários. Aqui, determinadas "falações" de clientes ocorridas em uma Assembléia Geral do CRIS merecem destaque :

- "Isto estava acontecendo porque três clien­ tes que controlavam o uso da bebida na casa não estavam mais e ninguém assumiu o lugar deles". - "Os clientes que bebem mesmo e sempre , têm esconderijos para guardar as garrafas onde só eles sabem" .

254 -R ev. Bras. Enl, Brasíla, 3 7 (3/4), jul./dez. 1 9 84.

- "Fui injustamente acusado de fazer "avião­ zinho" por possl'ir uma bicicleta. Garanto que não faço isso" .

-- "Nada adianta fazer, pois qulquer cliente poderia beber o quanto quisesse , fora do CRIS e chegar bêbado sem que ninguém o impedisse de entrar ou mesmo fosse castigado por essa atitude ."

- "Os guardas da noite e dos fms de semana bebem Com os clien tes".

Dessa Assembléia, após exaustivas discussões, resultou que todos (clientes, técnicos e funcioná­ rios) iriam iscalizar a entrada e ingestão de bebi­ das alcoólicas no CRIS e os clientes que se apresen­ tassem alcoolizados receberiam sanções.

Durante uma semana houve um acordo tácito entre as partes envolvidas: uma parte implemen­ tou a iscalização e a outra fez abstenção lcoólica. Mas, após esse período , .a bebida voltou a _morar 110 CRIS em menor intensidade , não havendo con­ fronto entre iscalizadores e iscalizados.

Pode-se citar ainda uma situação relacionada à di l1culdade de adaptação do cliente ao mundo

exteno à CJ M . Em princípio o CRIS tem como

meta maior o retono do cliente à sociedade após

vivenciar as relações sociais inerentes ao trabalho . Entretanto, há casos em que os clientes saem do CRIS com o propósito de arranjar emprego e man­ ter uma vida socialmente aceita.

Em geral, isso se dá ao receberem o salário, que é todo gasto , quando então retornam pela casa, comida e estilo de vida sobejamente conhe­ cido .

A saída do CRIS implica no desligamento automático do Projeto Centro de Reabilitação e Integração Social, mas já aconteceram casos, como por exemplo , de um ex-cliente , que ao voltar ten­ tou o suic ídio e desta forma manipulativa conse­ guiu que sua situação fosse apresentada à reunião técnica, onde seu procedimento foi analisado e sua volta deferida.

Todas essas observações assistemáticas ora descritas encontram respaldo em GOFFMAN ( 1 96 1 ) , quando ele airma que existem três arb (­ trios que permitem a uma pessoa dispor de bens e serviços do próximo : "a coerção privada, o inter­ câmbio econômico e o in tercâmbio social" .

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da instituição como diiculdades puramente comu­ nicacionais .

Uma abordagem metodológica através d as representações

Na sociedade , as pessoas se agrupam em torno de percepções diferentes de um mesmo mundo . As classes sociais espelham essa realidade na medida em que elas adotam diversos estilos de vida com respectivos hábitos e costumes caracterís t icos. Esses estilos de vida desiguais estão também presentes, conforme assegura BOLTANSKI ( 1 979), nas práticas de saúde de uma população .

O autor assegura que " a relação doente-mé­

dico é também uma relação de classe , modiican­ do-se a atitude do médico em função principal­ mente da classe social do doente" . Mostra como as classes baixas são marginalizadas já que , além dos doentes pobres não falarem a mesma lingua­ gem dos médicos, esses "em geral , não dão expli­ cações senão àqueles que julgam bastante evol uí­ dos para compreenderem o que vai lhes ser expli­ cado" .

Acerca d a utilizaçãO d o corpo e das sensaçOes corporais. doentias ou não , as classes sociais têm caracterizaçOes e expressOes próprias que as diferenciam e que precisam ser percebidas e entendidas.

Para BOLT ANSKI ( 1 979), essas diferenças em relação aos cuidados corporais de beleza e/ou de saúde "exprimem as regras e os valores que , e m cada classe social , regem a relação que os indiv íduos mantém com o seu corpo " .

N o CRIS, um assunto sempre presente é o que envolve a higiene , seja a pessoal ou a ambiental , havendo uma preocupação por parte dos técnicos e que os clientes absorvam seus hábitos e costu, mes mais siinples.

Em uma reunião técnica, um funcionário foi alvo de elogios por ter conseguido , após meses de insistên cia, que uma cliente , lotada no seu mesmo local de trabalho : tomasse banho. Segundo ele , o odor exalado pela cliente era insuportável, mas após o banho ate o rel acionamento no trabalho mudou . . O técni�o que coordenava a reuniro convidou a todos para seguirem o exemplo des­ crito sem tentar discutir o que representava para os clientes o uso do b anho cotidianamente .

Sobre a higiene ambien tal, um cliente re­ latou que ele mesmo lavava a sua louça de re­ feiçoes e as paredes do banheiro de sua ala. Tudo isso com a mesma esponja com a qual

t omava banho , mas tinha o cuidado de lavá-Ia bem após cada uso . A reação do técnico foi de tentar arranjar-lhe outras esponjas ou material equivalente para a limpeza do banheiro e de suas louças, mas o cliente se negou a aceitar a idéia, pois da sua esponja ele poderia dispor quanto e quando quisesse . Este fato traduz a idéia da limpeza, mas não da higiene , diferença essa que passa pelos caminhos da Saúde Pública, conforme adverte BOL T ANSKI ( l 979), que teima em ter uma prá­ t ica homogênea. negando assim as peculiarid ades ineren tes às classes sociais.

Observa-se ainda, no CRIS, alguma estranheza por parte de técnicos e funcionários, com o vestuá­ rio de clientes que combinam cores variadas ou as usam em várias t onalidades.

Acredita-se que , apoiado nos conceitos for­ mulados na análise micropol ítica de GOFFMAN ( 1 96 1 ) e nos de representaçOes t.ropológicas de BOLT ANSKI ( 1 979), pode-se explicar as tensões existentes entre a práxis e os discursos que envol­ vem a instituição.

CONCLUSÃO

A análise da práxis e dos discursos do CRIS à luz dos estudos da micropol ítica de GOFFMAN ( I 9 6 1 ) e das represent ações antropológicas de BOLTANSKI ( 1 979), evidencia que os obstáculos de comunicação existentes não são puramente funcionais corno pretendem os documentos insti­ t ucionais estudados.

Há subsídios claros e relevantes sobre questões estruturais, os quais ratiicam o sistema de poder hierárquico tradicional aqui mascarado por termos, situações e personagens novos.

, No cômputo geral , existe uma multiplicidade de ajustamentos secundários de toda ordem, bem como pessoas que se agrupam em tono de estilos de vida com hábitos e costumes característicos. No entanto, para uma postura mais decisiva e coerente sobre a dinâmica da vida/trabalho do CRlS , são necessários estudos .mais profundos e sistemáticos, envolvendo a observação partici­ pativa de re uniões en tre clientes, funcionürios e técnicos, en trevistas e análises mais abrangen tes e acuradas de documentos.

Acredita-se que pesquisas assim aj udem a fortalecer o período de b uscas, ora experimentado na Colônia J uliano Moreira, de uma prática psi­ quiátrica alternativa que possa resultar no reco· nhecimento do d oente mental como um ser

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carcnte de aj uda mas t ambém capaz de ajuda: àque les que se proponham a uni r , de fo rla ade­ quad a , os scus sabc re s aos delcs c juntos c n con t ra­ rem um cstilo de vida participativo , saud,ível , produtivo , alegre , mais humano enim e ainda, revelem também a essência das contradições que esse processo desencadeia.

SOll RAL. V . R . S. & IMA, M . A . d o s S. COlll lllunica t ioll h indrancc - [unctional o r structura l causc ? ReI'. Bras.

Enf. Brasília, 3 7 (3 /4 ) : 25 1 -256, Jul./Dec . 1 9 84.

R E F E R � N C I AS B I B L l O G R A F I CAS

1 . BASAGLIA, F . A psiquiatria altentativa. São Paulo,

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PROJ ETO d o Ccntro de Rcab i l i tação c Integração

Social da Co lonia J uliano Moreira. Rio dc J anei­

ro, s.d. (mimeografado ) .

SEM I N Á R IO INTE R N O DO C E N T R O D E REAIlI­ L1TAÇ\O E INTEGHAÇÃO SOCIAL DA

CO LO N I A J U Ll ANO MORERA, 1 9 , Rio d c

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