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Psicanálise e ciências sociais.

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Academic year: 2017

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RES UMO:Este artigo busca apreciar as relações entre a psicanálise e as ciências sociais com um olhar crítico sobre os avanços referentes ao cam po de estudos psicanalíticos ligado ao social, bem com o aos estu-dos sociológicos perm eaestu-dos por um referencial psicanalítico, desde Freud até hoje em dia. O artigo se calca principalm ente na defesa da abordagem psicanalítica no plano social, m ostrando que não se trata de um uso inadequado da psicanálise, m as sim do fato de não ser possível pensar num a psicanálise fora daquele plano, um a vez que a constituição do sujeito se faz justam ente pela entrada no social.

Palavras - chave : Psicanálise, ciências sociais, Freud.

ABSTRACT: Psychoanalysis and social sciences. This article attem pts

to research the relations between psychoanalysis and social sciences w ith a critical sight on the advances concerning the field of psycho-analytical studies related to social subjects as well as that of socio-logical studies influenced by psychoanalysis, since Freud until nowa-days. The article is based specially on the defense of the psychoana-lytical approach of the social field, show ing that it’s not about an inadequate use of the psychoanalysis, but the fact that it’s not pos-sible to think in a psychoanalysis outside that field once the consti-tution of the subject is m ade exactly by the entrance in the social field.

Ke y w ords : Psychoanalysis, social sciences, Freud.

Professor e pesquisador no Laboratoire de Changem ent Social ( UFR-Sciences Sociales) , Université Par is 7

Tradução Pedro Cattapan

PS ICANÁLIS E E CIÊNCIAS SOCIAIS

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E

m “Dois verbetes de enciclopédia” ( 1923[1922]) , Freud definiu a se com o:

“1. um procedim ento para a investigação de processos m entais que são quase

inaces-síveis por qualquer outro m odo; 2. um m étodo ( baseado nessa investigação) para o

tratam ento de distúrbios neuróticos; e 3. um a coleção de informações psicológicas

ob-tidas ao longo destas linhas, e que gradualm ente se acum ula num a nova disciplina

científica.” ( FREUD, 1923 [ 1922] / 1996 p.253, grifo nosso)

Assim , a psicanálise não é unicam ente um procedim ento terapêutico; ela é, tam bém ( ou, para ser m ais exato, ela é tornada, pouco a pouco) um a ciência, aquela do psiquism o, aquela dos processos inconscientes que se desenrolam não apenas no indivíduo isolado, m as tam bém nos grupos, nas instituições, nas pro-duções do espírito. As “avaliações psicológicas” sobre os outros dom ínios têm , aliás, com Freud e a partir de sua obra, ganhado tal im portância que não há m ais dom ínios da vida hum ana e social que não podem ser subm etidos à investigação psicanalítica. Decerto, tal extensão da psicanálise coloca problem as trem endos. A “psicanálise aplicada” fora do tratam ento suscita apreensões e, em geral, rejei-ção. Jacques Lacan é bastante firm e a este respeito. Ele escreve: “A psicanálise não se aplica, no sentido próprio, senão com o tratam ento e, portanto, a um sujeito que fala e que escuta” ( apud JULIEN, 1990, p.55) . Apesar de tais reservas ou reprovações, a psicanálise anexou, pouco a pouco, novos cam pos do saber, de tal m odo que certos autores a concebem com o podendo dar nascim ento a um a nova “antropologia”.

Freud, aliás, tinha m anifestado bem cedo seu interesse pela junção das disci-plinas psicológicas e sociais. Desde “O interesse científico da psicanálise” ( 1913/ 1996) , ele sublinhava a originalidade da abordagem psicanalítica ( a exploração dos processos inconscientes e individuais com a finalidade de tratam ento das neuroses) e as contribuições que esta nova perspectiva científica ( e que renovam a própria concepção de ciência) poderiam oferecer às ciências sociais; com o inconsciente desem penhando um papel quase sem pre prim ordial e, de todo m odo, im portante na totalidade das condutas hum anas. Mais tarde, em seus textos ditos antropológicos ou sociológicos, de “Totem e tabu” ( 1913[1912-13]/ 1996) a “Moisés e o m onoteísm o” ( 1939[ 1934-38] / 1996) , ele se em penhará em dis-tinguir as origens e as transform ações do laço social.

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que se pode considerar, m esm o tendo sido escrito por um hom em , com o a prim eira obra “fem inista”. Certam ente, ele tinha resistido ( ele diz isto de m odo explicito) à sua tendência espontânea à especulação, que o fascinava e, ao m esm o tem po, o am edrontava, pois tem ia se deixar levar por algum as “divagações” ( com o testem unha seu interesse pelo ocultism o) , tendo em preendido estudos científi-cos severos com o objetivo de canalizar ou recalcar seus interesses prim ários.

Mas, apesar dos esforços, Freud não deixava de ser “um filho de seu tem po”, um filho de sua cidade, Viena-fim -de-século, local onde com eça a predom inar este “apocalipse alegre” denunciado por Karl Kraus ( 1910) , nesta cidade onde a turbulência social, agitações, violência, apatia e neurose disputavam a cena.

Apontarem os apenas dois dos elem entos desta “configuração”, m as que são essenciais para com preender o cam inho tom ado por Freud.

Em prim eiro lugar, Freud nunca renegou suas origens judaicas, apesar de seu agnosticism o e m esm o ateísm o. Com o teria podido fazê-lo quando precisava centrar-se em sua obra sobre a questão das origens? Origem da sexualidade, origem do sujeito, origem do social. Ora, um a das grandes questões que apare-cem em Viena, na época, é a questão judaica. Freud nunca suportou que seu pai tivesse podido, um dia, ser hum ilhado enqüanto judeu. E sentiu um a verdadeira alegria quando a constituição do m inistério austríaco, dito “burguês”, incluiu, pela prim eira vez, m inistros judeus. Experim entou um grande pesar ao constatar o crescim ento de um anti-sem itism o freqüentem ente virulento ( em parte indu-zido, sem dúvida, pela presença de duzentos m il judeus em Viena, em 1923, por conta do êxodo para a cidade de num erosos ‘judeus rurais’, pela obtenção de direitos cívicos pelos judeus e pelo papel essencial desem penhado por outros num erosos judeus — artistas, escritores, m úsicos — na vida intelectual do país) . Este anti-sem itism o tinha perm itido a Karl Lueger,1 anti-sem ita notório — cuja cam panha eleitoral se apoiou nas am eaças que os judeus representavam para o im pério — , ser eleito presidente da câm ara dos deputados da cidade. E isto ape-sar da oposição do im perador Francisco José, que protegia os judeus. ( O que faz com que muitos dos judeus, com o Joseph Roth (1927), autor de A marcha de Radetzsky, tenham perm anecido fiéis nostálgicos do Im pério Austro-Húngaro.) Sabe-se que Francisco José im pediu, por duas vezes, que Lueger se tornasse presidente da câ-m ara dos deputados câ-m as, na terceira vez, acabou cedendo à pressão eleitoral.

De m ais, Freud teve, graças às suas origens, a m aior dificuldade para ser no-m eado professor “extraordinário” ( e não ordinário, ou seja, titular, assino-m cono-m o ele desejava) . Tendo conhecim ento das teses de Theodor Herzl ( 1895/ 1960) sobre “o Estado judaico” e, m esm o que ele nunca tenha abraçado a causa dos

1 Lueger ( 1844-1910) , político vienense ultraconservador, considerou que para ser prefeito

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sionistas, m anteve relações com m uitos dentre eles ( em particular com o irm ão de Stefan Zweig, Arnold Zweig, que em igrou para Israel) . Essa questão judaica esteve sem pre presente em seus pensam entos, em bora Freud só vá abordá-la de frente em sua últim a obra: “Moisés e o m onoteísm o” ( 1939 [ 1934-38] / 1996) — publicado em vida, o livro que escreveu com o em baixador W. Bullitt sobre o presidente Wilson não apareceu senão postum am ente. Foi ela que o deixou tão receptivo aos problem as da origem , da filiação, da violência, do papel desem pe-nhado pelos “grandes hom ens” e, talvez antes de tudo, à potência do afetivo e do irracional, que lhe fornece o desejo e a vontade de os interpretar.

Em segu n do lu gar, Freu d, portan do u m olh ar lú cido sobre a sociedade vienense, e atualizado com as idéias dos escritores que lhe são próxim os, observa indivíduos neuróticos, histéricos, suicidas e suicidados, sujeitos com a vertigem do apocalipse, indivíduos que não têm m ais pontos de referência e que não sabem m ais para onde vão. Ele vê, ainda, burgueses com prim idos na m ais puri-tana m oral, ao m esm o tem po que correm atrás das m eninas fáceis que encon-tram em seus passeios sobre o Prater. Ele se dá conta tanto da explosão quanto da repressão de um a sexualidade exacerbada ( toda a obra de Arthur Schnitzler ( 1862-1911) , O despertar da primavera ( 1891) — que será prefaciada por J. Lacan quando traduzida para o francês — e Lulu ( 1913) — que se tornaria o protótipo da m ulher fatal de Franz Wedekind, da qual Alan Berg2 fará um a ópera sublim e — testem unham isto) . Tom a consciência do assujeitam ento das m ulheres e de sua im possibilidade de expressão, salvo sob a form a de sintom as neuróticos. O “m i-serável pequeno m onte de segredos”, para retom ar a expressão de André Malraux ( 1941) , se expõe na vida privada e na vida pública. O inconsciente e a sexualida-de são legíveis por toda parte. Restava sexualida-desnudar seus m ecanism os. Freud se apli-cará a esta tarefa.

Estes dados biográficos servem para com preender as razões do caráter neces-sário da existência das incidências da psicanálise sobre as ciências sociais posto que a démarche analítica é, em sua essência, um a démarche na qual o pesquisador não pode ser separado ao hom em de ação ( o cientista do terapeuta) , em que o pesquisador está pessoalm ente im plicado em seu projeto e em que o sucesso terapêutico é função da corrente afetiva e libidinal que liga o analista e seu paci-ente ( transferência e contra-transferência) . Se, então, Freud tivesse tido outros interesses, se tivesse nascido em outro m eio, ele não teria constituído seu objeto de ciência da m esm a m aneira. Se lem brarm os que a psicanálise, contrariam ente a todas as outras ciências ( naturais, físicas, sociais, hum anas) e apesar das influên-cias ( de Meynert, Brucké, Charcot, Janet, Breuer) a que ela se subm eteu e das quais ela deve se desfazer, é, de saída, a obra de um só hom em ( “a psicanálise é

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m inha criação”, escreve Freud) , a im possibilidade de se separar o projeto psica-nalítico da pessoa de Freud se tornará evidente. Jacques Lacan foi particularm en-te sensível a esen-te aspecto. Ele escreve, em um en-texto de sua m ocidade ( 1938) , sobre “os com plexos fam iliares”:

“O sublim e acaso da genialidade talvez não explique, por si só, que tenha sido em

Viena — centro, na época, de um Estado que era o melting- pot das m ais diversas form as

fam iliares, desde as m ais arcaicas até as m ais evoluídas, desde os derradeiros grupos

agnatos de cam poneses eslavos até as m ais reduzidas form as do lar pequeno-burguês

e as m ais decadentes form as do casal instável, passando pelos patriarcalism os feudais

e m ercantis — que um filho do patriarcado judaico im aginou o com plexo de Édipo.”

( LACAN, 1938, p.67)

Todavia, o interesse de Freud pela análise do cam po social não é suficiente para resolver os problem as epistem ológicos colocados pela aplicação de um a ciência do sujeito individual às ciências do coletivo ( sociologia, pedagogia, m i-tologia) , de um a ciência da realidade psíquica ( cujos m otores são o desejo e a fantasia e cujo dom ínio é aquele do im aginário e do sim bólico) às ciências da realidade histórica, que estão centradas sobre os grupos e m ovim entos sociais que definem conscientem ente projetos, defendem causas, em preendem lutas e constroem instituições.

Esta tensão entre dois tipos de ciências levou psicanalistas e sociólogos a des-confiarem da psicanálise aplicada e a distinguir, na obra freudiana, um a parte científica ( sua obra de desbravador e de decifrador da psique) de um a obra puram ente especulativa, na qual Freud se deixaria levar pelos dem ônios de sua juventude im aginativa ( o que acontece a m uitos hom ens sexagenários) , afastan-do-se de seu dom ínio, renunciando aos princípios m etodológicos e abandonan-do-se a um discurso geral sobre o laço social, a civilização, a horda, a m assa, etc., bastante banal porque não se apoiava em nenhum a investigação precisa. Discurso em contradição com aquele de um psicanalista no curso do tratam ento, que escuta com atenção a palavra de um cliente singular e que estabelece, com este, relações específicas.

Freud seria, assim , desautorizado.3 Ele teria aplicado os conceitos “da esfera de onde eles nascem e são desenvolvidos” a outras esferas sem retrabalhar os conceitos, sem os transform ar, sem lhes “ conferir a função de um a form a” ( CANGUILHEM, 1955) e teria abandonado um cam po acessível à com preensão

3 Quando apresentei m inha tese sobre as obras sociológicas de Freud, o presidente da m esa,

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e à interpretação por aquele acessível à explicação. Ele teria passado das “ciências do espírito” às “ciências da natureza”, não se interessaria m ais pelo sentido das condutas, ele descreveria encadeam entos de causas e efeitos.

Tal crítica não pode ser recusada por com pleto. Freud não tinha sabido ou podido ( e seus sucessores, apesar dos esforços, tam bém não) resolver todos os problem as epistem ológicos que se apresentavam .

Porém , duas razões im pedem que subscrevam os este julgam ento negativo. São elas:

1. a prim eira pode se enunciar assim : a psicanálise não é apenas um a ciência da psique do indivíduo isolado, ela é concernida ( pelo) e ela concerne diretam ente o social. Em um a palavra, a psicanálise tem por objetivo com preender com o se forja o laço social e perm itir aos sujeitos existirem da m aneira m ais autônom a possível no conjunto social com o qual eles assinam ( consciente ou inconscien-tem ente) um contrato narcísico ( AULAGNIER, 1975) .

2. O m étodo da escrita das obras sociológicas de Freud é coerente com a démarche adotada no tratam ento. Freud não argum enta, ele faz descobrir.

Retom em os estas duas razões.

1.Psicanálise e campo social

No com eço de “Psicologia das m assas e análise do eu” ( 1921/ 1996) , Freud declara:

“O contraste entre a psicologia individual e a psicologia social ou de grupo, que à

prim eira vista pode parecer pleno de significação, perde grande parte de sua nitidez

quando exam inado de perto. É verdade que a psicologia individual se relaciona com

o hom em tom ado individualm ente e explora os cam inhos pelos quais ele busca

en-contrar satisfação para seus im pulsos instintuais; contudo, apenas raras vezes ( … ) se

acha em posição de desprezar as relações desse indivíduo com os outros. Algo m ais

está invariavelm ente envolvido na vida m ental do indivíduo, com o um modelo, um

objeto, um auxiliar, um oponente, de m aneira que, desde o com eço, a psicologia individual,

nesse sentido am pliado, m as inteiram ente justificável das palavras, é, ao m esm o tem

-po, tam bém psicologia social.” ( FREUD, 1921/ 1996, p.81)

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narcisicam ente a fim de continuar a tradição ou de com batê-la ( com o evoca o contrato narcísico de Aulagnier [ 1975] ) . Os processos de socialização pelos quais oinfans passa e que são sem pre, para ele, as m arcas de um a violência “necessária” ( AULAGNIER, 1975) ( violência estruturante) e a experiência da castração sim -bólica perm itirão a passagem do infans à criança, quer dizer, a passagem de um ser associal, anim ado por um desejo de total-potência ( ligado, de fato, a um senti-m ento de real isenti-m potência) , a usenti-m ser social que integra os valores de seu grupo e se localiza em relação a eles, e o acesso à hum anidade. Hum anidade quer dizer ( pela interm ediação dos processos de recalcam ento e idealização que se instau-ram ) a capacidade de am ar o outro e de se am ar ( a libido objetal não sendo necessariam ente oposta à libido narcísica) , de trabalhar com os outros ( o ho-m eho-m “norho-m al”, coho-m o assinala Freud, não é aquele que pode aho-m ar e trabalhar?) , de sublim ar suas pulsões m ais violentas e m ais destrutivas nas artes, nas ciências e em toda atividade socialm ente valorizada. O indivíduo, com o escreveu Foulkes ( 1978, p.156) m ais tarde, é “o elo de um a longa corrente”; Freud teve essa intuição bem cedo. É por isso que a psicanálise não é redutível à psicologia. Ela é um a ciência psico-social tendo com o característica perceber que a outra cena ( aquela do inconsciente, aquela do im aginário) é tão ( e, talvez, m ais) interessan-te quanto aquela do visível, o objeto habitual das ciências sociais.

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repressão, canalização e sublim ação das pulsões) que são dem andados pela socie-dade na qual eles vivem .

2. O método de escrita da obra “sociológica”

A escrita de Freud, em suas obras, está ligada à sua postura de analista. Enquanto habitualm ente um trabalho explicativo tente, de m aneira soberana, desdobrar o conteúdo explorado ( ‘explicar’ quer dizer ‘desdobrar’ com pletam ente, fazer ver o conjunto sem om itir nada de significativo) , dito de outra form a, fazer surgir a verdade que se esconde nas dobras da aparência ( nós sabem os, desde a pintura da Renascença, que a dobra é o próprio sím bolo de um a verdade que não pode e que deve, ao m esm o tem po, ser exposta; certos autores m ostraram que a dobra era a característica decisiva da grande pintura italiana da época, pintura que exprim ia a própria essência da civilização ocidental que se instituía) , o trabalho de Freud se apresenta sem pre sob o m odo de fragmentos, de docum entos, de quebras, de idas e vindas, de hipóteses avançadas, m al desenvolvidas, às vezes abandonadas progressivam ente no desenrolar do texto, de repetições, de sugestões ou, ainda, diálogos. Se pensam os na hipótese essencial que coloca a existência de um a horda prim itiva e da m orte do Pai no capítulo IV de “Totem e Tabu” ( 1913[1912-13]/ 1996) , nada nos prim eiros capítulos anuncia nem prefigura esta hipótese escan-dalosa que suscitou tanto entusiasm o quanto reprovação. Além disso, esta será reafirm ada nas obras ulteriores, m as, a cada vez, acom panhada de adições ou, pelo contrário, extrem am ente resum ida, com o se Freud sentisse a necessidade de persuadir a si e ao leitor de sua justificação. Quando lem os “Psicologia das m assas e análise do eu” ( 1921/ 1996) não podem os deixar de adm irar os desen-volvim entos originais que se encontram na parte nom eada com m odéstia de “anexos” que dá, na realidade, todo um colorido a esta obra. Quanto a “O futuro de um a ilusão” ( 1923/ 1996) , sabem os que o trabalho é concebido com o um diálogo entre o m antenedor da ilusão religiosa e seu opositor, e que os argum en-tos apresentados não foram ( exceto a declaração final) a m elhor parte de ne-nhum dos dois protagonistas.

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que os textos parecem extrem am ente desorientadores: no lugar de teses forte-m ente arguforte-m entadas e afirforte-m adas, eles nos contaforte-m histórias, lendas, forjaforte-m forte-m i-tos, nos transm item “considerações”, convidam à im aginação e nos propõem um esquem a explicativo geral que tem sua coerência m esm o que possam os, num a prim eira leitura, ter o sentim ento de ler um discurso descosturado em bo-ra m uito sugestivo. Freud nos dá, tam bém , o adm irável exem plo de alguém que, através de sua escrita, se com prom ete em nos fornecer ao m esm o tem po explica-ções e interpretaexplica-ções, fazendo-nos partilhar sua visão com preensiva dos fenô-m enos estudados. Dificilfenô-m ente o leitor pode se afastar das idéias enunciadas, pois é sem pre desconfortável recusar um a bela história que se m antém apenas por argum entos brilhantes e que pareçam decisivos.

É decerto im pensável dar conta da com plexidade da obra freudiana concernindo o cam po e o laço social em um breve artigo. Em contrapartida, é possível precisar a preocupação central de Freud: estabelecer um a teoria do nascim ento da cultura e da civilização, de seus avatares, das condições de seu funcionam ento, de seus destinos possíveis: a destruição ou o progresso para a espiritualidade.

O que é um a cultura? Em “O futuro de um a ilusão” ( 1927/ 1996) , ele escreve:

“A civilização hum ana, expressão pela qual quero significar tudo aquilo em que a

vida hum ana se elevou acim a de sua condição anim al e difere da vida dos anim ais —

e desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização — , apresenta, com o sabem os,

dois aspectos ao observador. Por um lado, inclui todo o conhecim ento e capacidade

que o hom em adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair a

riqueza desta para a satisfação das necessidades hum anas; por outro, inclui todos os

regulam entos necessários para ajustar as relações dos hom ens uns com os outros e,

em especial, a distribuição da riqueza disponível.” ( FREUD, 1927/ 1996, p.15-16)

Se Freud não separa cultura de civilização é por duas razões: 1. para não participar da querela instituída na Alem anha entre a Kultur ( term o alem ão intro-duzido por Herder que designa a totalidade orgânica específica característica de um povo em particular) e a Zivilisation ( adaptação do term o francês civilisation que diz respeito ao refinam ento dos costum es, das boas m aneiras, do savoir- vivre, do caráter m edido e um tanto artificial das relações sociais) — term o pelo qual Luís XIV, e em seguida o Século das Luzes, quis estabelecer um a distinção estrita entre os povos “bárbaros” e os povos de elevada distinção, “civilizados” ( e, do m esm o m odo, no interior de um a nação, entre o povo m al educado e a aristocracia refinada) ;4 e 2. tam bém para m arcar que todas as organizações sociais são

4 A oposição entre a Kultur alem ã e civilisation francesa será profundam ente analisada, m ais tarde,

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procedentes de um a superação ou m esm o de um a negação frontal e total das condições anim ais da vida.

Aliás, Freud, em “Mal-estar na civilização» ( 1930[1929]) , dará um a definição de civilização bem próxim a daquela de cultura: “…a palavra civilização descreve a som a integral das realizações e regulam entos que distinguem nossas vidas de nos-sos antepassados anim ais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os hom ens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionam entos m útuos” ( FREUD, 1930 [1929]/ 1996, p.96) . Qual é a origem da civilização? Freud, apesar de ter escrito que a psicanálise deveria se interessar apenas pela realidade psíquica e não pela realidade histórica, que ela não deveria jam ais introduzir o padrão desta últi-m a realidade nas forúlti-m ações psíquicas recalcadas e, eúlti-m contrapartida, centrar-se na análise das fantasias, vai avançar um a tese que se baseia, pelo contrário, na força do acontecim ento. Em “Totem e Tabu” ( 1913[1912-13]/ 1996) , a partir de suas leitu-ras de Darwin, Frazer, Atkinson e Robertson Sm ith, ele avança a hipótese segundo a qual, na origem dos tem pos ( portanto, na m eta-história) existia “um a horda prim eva” subm issa a um grande m acho que reservava a si m esm o a posse sexual das m ulheres ( e que tinha acesso à linguagem ; esta últim a idéia sendo evocada em 1939, “Moisés e o m onoteísm o”) e que, então, se com portava com o um ser onipotente fazendo reinar apenas as relações de força. Os filhos excluídos ( talvez im -pelidos por sua m ãe, segundo Moscovici [1972/ 1994]) teriam se reunido e tra-m ado utra-m a conspiração contra o Pai ( ou, tra-m ais exatatra-m ente, o chefe da horda) para assassiná-lo e devorá-lo. Mais tarde, tom ados de rem orsos, eles teriam idealizado este ser e o teriam transform ado em totem ( em antepassado, em Deus) , fiador das leis que eles com eçaram , então, a estabelecer afim de não instaurar, após o assassinato do pai, a rivalidade entre os irm ãos. Assim , “No princípio foi o ato” ( Goethe, citado por Freud) . Teria sido necessário que o chefe ( e Freud escreveu que este ato deve ter se repetido certo núm ero de vezes na história) tenha sido assassinado de fato, e não apenas sim bolicam ente ( a hum anidade com eçou, as-sim , “por um crim e com etido em conjunto”) , para que o sentim ento de culpa possa ter nascido e que tenha se criado “as organizações sociais, as restrições m orais, as religiões”. Assim , o com plexo de Édipo, descoberto por Freud no nível do psiquism o individual, tem da m esm a form a um papel determinante e estru-turante no nível da vida coletiva. Certam ente, não continua sendo necessário que o ato ocorra ( particularm ente, é a tese de Lévi-Strauss ( 1949) analisando “Totem e Tabu”) para que a fantasia se desenvolva, pois a fantasia é inventiva, se nutre das im pressões e das projeções m ais inesperadas, é expressão da pulsão e do desejo; isto não im pede que a realidade ofereça seu ponto de partida e seu ponto de apoio à sua criação e à sua m anifestação.

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indivíduos. O laço libidinal é originário e é ele que perm ite o reconhecim ento da existência do outro. É justam ente porque ele não existe no tem po da horda que a horda perm anece um a horda e não um a civilização ou um a instituição; é porqu e ela é regida pala violên cia pu ra qu e os ou tros n ão podem aceder à existên cia. O crim e com etido em conjunto, fazendo do chefe um pai ( pelo fato do rem or-so)5 o constitui em outro ( em objeto de am or e de ódio) e instaura o reconheci-m ento reconheci-m útuo, a criação do outro generalizado. E cabe acrescentar que o próprio sujeito se constitui com o sujeito pela existência do outro: é porque um outro nos am a, nos fala e nos olha que nós existim os enquanto sujeitos hum anos. Sem a presença dos outros, nós não poderíam os aceder à hum anidade.

Este sujeito é o fruto das identificações m últiplas das quais Freud nos fala em “Psicologia das m assas e análise do eu” ( 1921/ 1996) . A identificação prim ária será aquela de cada sujeito ao cabeça, ao chefe. Por que razões? Porque o chefe ( esta pessoa central) , contrariam ente ao chefe da horda, em um a civilização, nas instituições, nas organizações, nos grupos, pronuncia em nossa consideração desta vez, aqui, um discurso de amor. Por este discurso de am or igualitário, ele cria o grupo, e cada um de seus m em bros vai introjetar o líder com o objeto ideal e vai substituir seu próprio ideal do eu pelo ideal encarnado nesta figura transcenden-te. O am o r q u e é d ad o, reto rn a. Não h á, en tão, gr u p o sem p ai, gr u p o sem a o b r igação in fin ita d a d ívid a d o d ireito à existên cia e d o d ireito ao sen tid o. E, com o todos os hom ens têm , neste m om ento, o m esm o ideal, eles poderão se identificar m utuam ente e tam bém se am ar.

“E no desenvolvim ento da hum anidade com o um todo, do m esm o m odo que nos

indivíduos, só o am or atua com o fator civilizador, no sentido de ocasionar a m

odifi-cação do egoísm o em altruísm o. E isso é verdade tanto do am or sexual pelas m

ulhe-res, com todas as obrigações que envolvem no sentido de não causar dano às coisas

que são caras às m ulheres, quanto do am or hom ossexual, dessexualizado e sublim

a-do,6 por outros hom ens, que se origina do trabalho em com um .” ( FREUD, 1921/

1996, p.114)

( dado que um grupo apenas pode vir à existência se há um projeto a realizar, um a causa a defender, um ideal a prom over) . Assim , contrariam ente aos sociólo-gos — que, de form a dom inante, pensam que são as m assas, as classes ou as nações que fazem a história — Freud, sem negar a im portância das determ ina-ções históricas, dá ao indivíduo ( e, em particular, ao indivíduo excepcional, ao

5 Que se cristaliza em sentim ento de culpa ( com efeito, pelo fato da am bivalência dos

senti-m entos, os filhos, tesenti-m iasenti-m o chefe da horda, senti-m as, ao senti-m essenti-m o tesenti-m po, o adsenti-m iravasenti-m e asenti-m avasenti-m ) .

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“grande hom em ”) um lugar na construção do social. Ele até chega a escrever, em “Moisés e o m onoteísm o” ( 1939 [ 1934-38] / 1996) , que “um hom em , Moisés, criou o povo judeu” e se interessará pelo destino de um “falso” grande hom em , o Presidente Wilson.

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de um a order from noise — um a ordem pelo barulho — tal com o será teorizada m ais tarde por Von Foerster — ou de um a “ordem saída da desordem ” que tenho evocado desde 1964) , ela desem penha um papel m ais próxim o daquele de Trickster — o bufão — “aquele que causa confusão, que transgride” ( BALANDIER, 1967) — do que daquele do bom organizador de relações entre os seres. Defini-tivam ente, quando Freud substitui ( ou confunde) a libido por Eros, ele troca um princípio de desligam ento ( de vida) por um princípio de ligação ( e de ordem perm anente) . Podem os com preender então por que certos psicanalistas preferi-ram continuar a falar de libido m ais do que de Eros. Sentia-se, confusa ou expli-citam ente, que havia um deslizam ento na teoria e que Freud, até o fim de sua vida, estava m ais sensível ao que podia ajudar as civilizações a perm anecerem sólidas do que o que podia pôr em questão a ordem cultural.

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Sendo assim , a pulsão de m orte pode ter efeitos benéficos e se colocar a serviço da pulsão de vida, ainda que esta, à força do em preendim ento de criar as “entidades cada vez m aiores”, term ine por criar um m undo hom ogêneo, um a m assa com pacta e dependente. Com efeito, a pulsão de m orte, em seu trabalho de desligam ento, rom pe as ligações m uito fortes, m ina as civilizações, as desafia e arruína as autoridades bem estabelecidas. Ela faz, então, surgir a novidade, ela im pede a repetição, favorece a criatividade, a divergência, o desvio, a m arginali-dade. Ela está na fonte de novos m odos de pensam ento e de ação. Ela pode fun-cionar, então, com o bem notou Nathalie Zaltzm an ( 1979) , com o “um a pulsão anarquista”.

O jogo entre pulsão de vida e pulsão de m orte é, assim , m uito com plexo. Mesm o se Freud, no fim de “Mal-estar na civilização” ( 1930[1929]/ 1996) , afirme que lhe resta esperar pelo triunfo da pulsão de vida ( pois ele vê, em sua época, se m anifestarem tendências deletérias e nauseabundas na Áustria e na Alem anha) , ele sem pre pensou que elas se apresentavam com m ais freqüência “intrincadas” e que am bas eram necessárias para o destino da hum anidade, com o Em pédocles observou m uito bem antes dele, nisso sendo seu inspirador.

A civilização, para perdurar, precisou de três ingredientes essenciais:1.Dar um grande espaço para as ilusões no fundam ento de toda crença; 2. Obter, da parte dos indivíduos, a m aior renúncia possível à satisfação ( pelo m enos im e-diata) das pulsões; 3. Forjar um a forte couraça estrutural, edificando Estados sólidos que serão os fiadores da renúncia dos indivíduos, da m anutenção da ilusão, da confiança na benevolência das instituições. No entanto, com o vere-m os, a vontade de poder dos Estados pode levá-los a fazer a guerra e contribuir, assim , para o declínio e, às vezes, para a destruição da civilização.

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ideologia encarnada em um chefe carism ático, excepcional, que fala sem pre, aliás, em nom e de um a instância transcendente) . Ele virá assegurar a cada um dos m em bros da com unidade a necessidade de sua existência e, assim , im pedir a aparição das feridas narcísicas que podem balizar a vida hum ana. Esta pessoa central, este pólo idealizado, assegurará, assim , ao conjunto da com unidade, sua potência ou, ainda, sua onipotência. Com este objetivo, m anifestar-lhes-á sua excelência em relação aos outros grupos, aos outros povos, etnias ou nações as quais ocuparão o lugar de projeção das fantasias m ais arcaicas e m ais violentas.

O narcisism o individual será protegido e, do m esm o m odo, o narcisism o grupal, o “narcisism o das pequenas diferenças”, por m eio do qual um a com uni-dade se distingue das outras.

Quando os pólos idealizados ( Deus, ideologia encarnada em um indivíduo onisciente e onipresente) vierem a faltar, a com unidade tornar-se-á por si pró-pria um novo sagrado ( com o já m ostravam , aliás, Rousseau [ 1755;1762] e os revolucionários franceses) e a identificação m útua virá substituir a identificação a um fiador transcendente. Com o diz Freud: “O qu e com eçou em relação ao pai é com pletado em relação ao gru po” ( FREUD, 1 9 3 0 [ 1 9 2 9 ] / 1 9 9 6 , p.1 3 5 ) . A m assa sem ideal se alim entará, então, de todas as ilusões procuradas pela vida social: a felicidade pela riqueza, a liberação sexual, o progresso científico e o advento de um futuro brilhante.

Certam ente, é possível aos indivíduos e às sociedades tom ar consciência das ilusões que subjazem em suas ações. Mas os indivíduos têm a necessidade de crer, de crer até m esm o no im possível e talvez de crer ainda m ais que o im possí-vel lhes foi predito. É por isso que, quando as religiões se pulverizam , as seitas as substituem e os m itos e as lendas proliferam . Que im porta que elas sejam frágeis, ingênuas, sem consistência, confusas? Assim , novas ilusões vêm substituir as an-tigas e a tom ada de consciência, na m aior parte dos hom ens, não dura. O ho-m eho-m teho-m necessidade de crer eho-m seus sonhos e eho-m todos os tipos de sonhos que os profetas lhes propõem . Um a civilização sem ilusões ( em bora Freud tenha sido um grande desilusionista, nas considerações de T. Mann [1918]) é im possível por-que ela é sem pre o lugar da m entira, do disfarce, do fazer-semblant. Ela é apenas isso, naturalm ente, m as sem estes elem entos, os hom ens estariam em tal estado de de-sam paro que sua coragem diante da vida se estiolaria definitivam ente.

Mas isso não é tudo, pois, num a situação dessas, as pulsões m ais arcaicas e as m ais essenciais que foram ocultadas retornariam com força e ocupariam todo o espaço: a pulsão sexual, a pulsão agressiva e seu triunfo significaria a im possibi-lidade definitiva de toda criação de um laço social durável.

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Com efeito, se os seres tentassem “satisfazer sua libido”, eles constituiriam pares e não grupos. Freud escreve: “Em nenhum outro caso, Eros revela tão clara-m ente o âclara-m ago do seu ser, o seu intuito de, de clara-m ais de uclara-m fazer uclara-m único; contudo, quando alcança isso de m aneira proverbial, ou seja, através do am or de dois seres hum anos, recusa-se a ir além ” ( FREUD, 1930 [1929]/ 1996, p.113) . É, portanto, essencial que a pulsão sexual se transform e em afeição, em am or m útuo, perm itindo identificações com uns.

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m atar sem culpa. A civilização pode, então, desem bocar na destruição de outras civilizações e destruir igualm ente a parte de civilidade que ela inculcou nos indi-víduos que a com põem . Tal é a m ensagem pessim ista de Freud que se exprim e em alto e bom som nas últim as linhas de “Mal-estar na civilização” ( 1930[1929]/ 1996) :

“Os hom ens adquiriram sobre as forças da natureza um tal controle, que, com sua

ajuda, não teriam dificuldades em se exterm inar uns aos outros, até o últim o

ho-m eho-m . Sabeho-m beho-m disso, e é daí que prového-m grande parte de sua atual inquietação, de

sua infelicidade e de sua ansiedade.” ( FREUD, 1930 [ 1929] / 1996, p.147)

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não sabem nunca o que devem fazer nem a significação do que fazem — um a história oscilante entre o sentido e o não-sentido e sem finalidade preestabelecida.

DEPOIS DE FREUD

Por m uito tem po, o Freud analista da sociedade pouco interessou aos psicanalis-tas e aos especialispsicanalis-tas em ciências sociais, e isso quando não os irritou profunda-m ente já que eles julgavaprofunda-m sua iniciativa coprofunda-m o uprofunda-m a pretensão exorbitante de invadir um cam po que não era o seu. No entanto, alguns analistas, sociólogos ou educadores seguiram a via prom issora que ele abria. Mas eles eram pouco num e-rosos e, na m aior parte das vezes, ligados desde m uito tem po à obra e à persona-lidade de Freud.

A obra sociológica de Freud só foi verdadeiram ente lida e com preendida durante a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, nos anos 1960, quando se viu crescer consideravelm ente o núm ero de trabalhos tentando adaptar a abordagem psicanalítica à investigação da vida social e, algum as vezes, m esm o de form a desconsiderada. Apesar dos esclarecim entos novos e apaixonantes que se pôde trazer aos fenôm enos sociais, serem os breves quanto a esse respeito pois não im porta aqui em preender um a história das incidências da psicanálise ( um livro inteiro seria ainda insuficiente) , e porque esses trabalhos, sem lhes fazer injusti-ça, não veriam a luz do dia sem a obra fundam ental de Freud que colocou a ( quase) totalidade das questões ainda hoje apreciadas por aqueles que foram “tom ados” pela óptica freudiana.

PS ICANÁLIS E, GRUPOS E ORGANIZAÇÕES

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recal-cam ento, de repressão, de idealização, de identificação e de projeção que atraves-sam as organizações, sobre o papel do líder e os fenôm enos de sedução recíproca entre o grupo e o líder, sobre as construções ideológicas, sobre o grupo com o objeto transicional. Os autores contribuíram para a definição de um novo dom í-nio extrem am ente prom issor ( nisso fiel ao propósito de Freud quando ele estu-dava a m ultidão, a Igreja e o Exército) e deram nascim ento ao que se nom eia hoje a psicossociologia e a sociologia clínica.

PS ICANÁLIS E E CIVILIZAÇÃO

Talvez tivesse sido preciso falar deste cam po prim eiro, pois foi nele em que estiveram m ais rapidam ente em penhados os discípulos ( m esm o os contestadores) de Freud, um a vez que estavam tam bém sensíveis à crise da cultura européia. Mas os trabalhos deste gênero estão parados há m uito tem po, se bem que te-nham retom ado seu vigor nos últim os tem pos.

William Reich ( 1933;1936) foi um dos prim eiros a insistir no papel da fam ília patriarcal ( efam particular, a alefam ã) na fabricação de ideologias e de cofam -portam entos autoritários e na civilização capitalista com o m odelo de repressão das pulsões. Engajado politicam ente, ele analisou de m odo aprofundado o regi-m e nazista, depois, tendo roregi-m pido coregi-m o coregi-m unisregi-m o, o regiregi-m e totalitário sovi-ético. Sem pre m anifestou sua confiança no papel subversivo e revolucionário da sexualidade, e se distanciara de Freud.

Tam bém discípulo de Freud, m as próxim o dos culturalistas norte-am erica-nos, Erich From m ( 1941/ 1963) analisou tam bém os regim es autoritários no m elhor livre que escreveu: “O m edo da liberdade”.

Vindos de um outra referência, da Escola de Frankfurt, que eles m esm os cria-ram , M. Horkheim er e T. Adorno ( 1947/ 1974) estão inclinados, por sua vez, sobre o problem a do autoritarism o, tendo em conta as contribuições da psicanálise.

Um dos m em bros da Escola de Frankfurt, H. Marcuse, se debruçou, nos anos 1950, sobre a questão da transform ação das sociedades teoricam ente dem ocráti-cas e, de fato, profundam ente repressivas. Se, contrariando Reich, ele não acredi-ta ser possível um a sociedade sem repressão, pensa, contudo, que a super-repres-são ( conseqüência do princípio de rendim ento, que é o princípio de realidade d a so cied ad e cap italista) p o d e ser su p r im id a graças à lu ta d as catego r ias desfavorecidas e m ais m arginalizadas contra o Estado m oderno, o qual tende a controlar a totalidade da vida social. Ele crê, assim , contrariam ente a Freud, no triunfo possível de Eros sobre Tânatos. É por isso que fez um grande sucesso em 1968 e seguintes. Recordam o-nos ainda do slogan dos estudantes contestadores: Marx, Mao, Marcuse.

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os indivíduos no registro infantil) e que nossa civilização está no ápice. Para ele, “a psicanálise pode lançar seu ‘Delenda est Carthago’ contra a tensão excessiva da civilização”.

Mais otim ista é Norbert Elias ( 1969) , que foi bastante inspirado por Freud do qual reconheceu a influência apenas nos últim os anos de sua vida. Ele descre-ve a evolução da civilização com o a substituição progressiva dos constrangim en-tos exteriores para o autoconstrangim ento.

Pode-se citar, ainda, fazendo parte da corrente de “interrogação da civiliza-ção”, E. Enriquez na França e J. F. Costa, J. Birm an e R. Mezan no Brasil.

Ps ic an ális e e p o lític a

Num erosos autores, vindos das m ais diversas disciplinas, visam explorar os pro-cessos de poder nas sociedades. Eles têm por am bição servir-se de certos concei-tos freudianos para explicar a m ontagem do Estado, o jogo dos líderes carism áticos, o papel da fantasia e do im aginário social e a participação dos indivíduos na edificação do totalitar ism o. Citam os, em particular, N. Brow n, P. Roazen, S. Moscovici, G. Mendel, F. Form ari, C. Castoriadis, P. Legendre e P. Ansart.

Notam os tam bém que m uitos dos analistas se interessam bastante pelos pro-blem as da educação e pelos fenôm enos estéticos que tanto apaixonaram Freud. Com o conclusão, deve-se constatar que jam ais a abordagem freudiana esteve tão viva quanto hoje e jam ais inspirou tantos trabalhos explorando o cam po social, sejam da autoria de psicanalistas interessados pelo funcionam ento social, sejam de psicossociólogos e sociólogos fortem ente m arcados pelo pensam ento psicanalítico. Eles estão sensíveis às causas m ais profundas da vida social, a saber: o am or e o ódio do outro, o desejo de criar e aquele de destruir; e eles se esfor-çam por dar conta disso, perm anecendo, m ais ou m enos, fiéis ao pensam ento freudiano.

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Eugène Enriquez

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