• Nenhum resultado encontrado

Vidas secas, do livro ao filme: estudo sobre o processo de adaptação

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2017

Share "Vidas secas, do livro ao filme: estudo sobre o processo de adaptação"

Copied!
226
0
0

Texto

(1)

De

pa

r

t

a

me

nt

o

de

Le

t

r

a

s

Cl

á

s

s

i

c

a

s

e

Ve

r

c

ul

a

s

Pr

ogr

a

ma

de

Pós

-

Gr

a

dua

ç

ã

o

e

m

Es

t

udos

Compa

r

a

dos

de

Li

t

e

r

a

t

ur

a

s

de

ngua

Por

t

ugue

s

a

J

úl

i

o

s

a

r

Bor

ge

s

Bomf

i

m

Vi

d

a

s

s

e

c

a

s

,

do

l

i

vr

o

a

o

f

i

l

me

Es

t

udo

s

obr

e

o

pr

oc

e

s

s

o

de

a

da

pt

a

ç

ã

o

(2)

Es

t

udo

s

obr

e

o

pr

oc

e

s

s

o

de

a

da

pt

a

ç

ã

o

Me

s

t

r

a

ndo:

J

úl

i

o

s

a

r

Bor

ge

s

Bomf

i

m

N

o

USP

3495332

Bol

s

a

F

APESP

07/

52226-

1

Di

s

s

e

r

t

a

ç

ã

o

a

pr

e

s

e

nt

a

da

a

o

Pr

ogr

a

ma

de

Pós

-Gr

a

dua

ç

ã

o e

m Es

t

udos Compa

r

a

dos de

Li

t

e

r

a

t

ur

a

s de Lí

ngua Por

t

ugue

s

a da

Fa

c

ul

da

de de Fi

l

os

of

i

a

, Le

t

r

a

s e Ci

ê

nc

i

a

s

Huma

na

s

da

Uni

v

e

r

s

i

da

de

de

o

Pa

ul

o,

c

omo

pr

é

-

r

e

qui

s

i

t

o pa

r

a obt

e

ã

o do t

í

t

ul

o de

Me

s

t

r

e

e

m

Le

t

r

a

s

.

Or

i

e

nt

a

dor

a

:

Pr

of

a

.

Dr

a

.

Fa

bi

a

na

Bui

t

or

Ca

r

e

l

l

i

Ma

r

que

z

i

ni

o

Pa

ul

o

(3)

Vi

d

a

s

s

e

c

a

s

,

do

l

i

vr

o

a

o

f

i

l

me

Estudo sobreo processo deadaptação

Dissertação apresentada ao Programa de Pós

-Graduação em EstudosComparadosde Literaturas

de Língua Portuguesa da Faculdade de Filosofia,

Letrase CiênciasHumanasda Universidade de São

Paulo,como pré-requisito paraobtenção do título de

Mestreem Letras.

Orientadora:

Profa.Dra.FabianaBuitorCarelliMarquezini

Aprovado em:____________________________________________________________

BancaExaminadora:

1oExaminador:___________________________________________________________

Instituição:______________________________ Assinatura:______________________

2oExaminador:___________________________________________________________

Instituição:______________________________ Assinatura:______________________

3oExaminador:___________________________________________________________

(4)

À minhamãe Valdete pormeconduzir,segurando minhamão,atéminhaprimeirasaladeaula;

Ao meu irmão Vinícius pormemostrarqueépossívelsedesfazer,serefazer...epersistir;

Ao meu pai Júlio (i.m.)

(5)

À ProfessoraFabianaBuitorCarelliMarquezini,maisdo queOrientadora,umaamigaque

meguiou pelasveredasdapesquisaacadêmica,sempreacreditando em minhacapacidade.

AosProfessoresBenjamin Abdala Juniore Eduardo Victorio Morettin,que enriqueceram

meus conhecimentoscom aulasbrilhantes e também participaram de minha Banca de

Qualificação,permitindo o aperfeiçoamento destetrabalho.

A todos os Professores e colegas de pós-graduação que,direta ou indiretamente,

contribuíram com estetrabalho,pormeio dedebates,seminários,leiturasebate-papos.

Aosprofissionaisda Faculdade de Filosofia,Letrase CiênciasHumanasda Universidade

deSão Paulo quesempremeauxiliaram naparteburocráticadesteprocesso.

Agradeço também à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP),

(6)

A dissertação VVidassecas,do livro ao filme se propõe a fazer um estudo da

estrutura e da questão narrativa dasobras Vidassecas,livro de Graciliano Ramose do

filme homônimo de Nelson Pereira dosSantos,levando-se em consideração asdiferenças

entreosdoismeios,osfenômenosdecorrentesdaadaptação,ascircunstânciasdeprodução

e a distância temporalentre asduasobras.A adaptação é maisuma questão dediálogo e

admiração do que dediferençasfundamentaisentre osautores.Maisdo que serapenasa

adaptação deuma obra-primada literatura nacional,aleitura cinematográfica queNelson

Pereira dos Santos fez de Vidassecas de Graciliano Ramos quis também ser uma

intervenção naconjunturapolíticacontemporânea,nessecaso como partedo debateentão

vigentesobreareformaagráriaeaestruturasocialbrasileiranadécadade1960.

O que pretendemoscom esta dissertação é,valendo-se de diversosembasamentos

teóricosligadosaosEstudosComparadoseà Literatura Comparada,chegara uma leitura

analítica focada na compreensão da construção dasduasformasnarrativasde Vidassecas:

romance (livro /narrativa original/linguagem literária)e filme (produto finalde uma

releituraaudiovisual/linguagem cinematográfica).

Palavras-Chave: Literatura e Cinema - Adaptação cinematográfica - Roteiro

cinematográfico -Narrativa etransmidialidade-Vidassecas-Graciliano Ramos-Nelson

(7)

Thedissertation BBarren Lives,from book to film aimsto comparatively study the

structureand theissueofnarration in Graciliano Ramos’sbook Vidassecasand in Nelson

Pereira dos Santos’film Vidassecas,taking into consideration the differences between

literature and film,the patternscreated by the processofadaptation,the circumstances

within which thetwo workswere produced and thetemporallap between the two pieces.

Adapting a book into film is,in our opinion,much more a matter ofadmiration and

dialogue than ofestablishing differencesbetween one piece ofwork and the other.More

than an adaptation ofoneoftheBrazilian contemporary literature’smasterpiecesinto film,

the cinematic reading of Vidassecasmade by Nelson Pereira dosSantosalso aimed to

intervene in itscontemporary Brazilian politicallife,especially in the debate concerning

theland ownership and theBrazilian socialstructurein the1960s.

In thisdissertation,ouraim isto build up an analyticalreading ofthesetwo works,

based on someconceptsfrom ComparativeStudiesand Comparative Literature,trying to

better understand the two pieces’different structures,the book’s “original” literary

narrative and the film’scinematic narrative,considering the lattera resultofan audi

o-visualcomprehension and re-creation ofthefirst.

Key-Words:Literature and Film -Cinematic Adaptation - Screenplay -Transmidiatic

narrative - Barren Lives-Graciliano Ramos-Nelson Pereira dosSantos-Comparative

(8)

Introdução …... 1

-

Ca

t

ul

o

I

-Panoramasnarrativos:daliteraturaao cinema;do cinemaàliteratura...12

Danarrativaliteráriaàcinematográfica:especificidades...25

Processo detransposição:narrativasquesetransformam …...29

-

Ca

t

ul

o

I

I

-As“armasinsignificantes”do regionalismo graciliânico …...39

Nelson PereiradosSantos:arteepolíticanaformação deum cineasta…...42

Um cinemadeescolhas…...45

-

Ca

t

ul

o

I

I

I

-O VidassecasdeGraciliano Ramos…...48

O VidassecasdeNelson PereiradosSantos…...66

-

Ca

t

ul

o

I

V

-Daliteraturaao cinema:asveredasdalinguagem …...100

(9)

Corroborando aspectosteóricosdaadaptação …...117

Duasobras-primas…...122

-

Ca

t

ul

o

V

-Literatura,cinemaesuasformasnarrativas…...127

“Vamosrepartiro boi”...130

Inferno intermidiático …...134

Baleia:personaliterária;personacinematográfica…...146

Traduzindo imagens;filmando pensamentos…...156

Sonsefalasdeum filme(quase)mudo …...167

-

Ca

t

ul

o

VI

-Miséria,fomeesecano CinemaNovo …...170

A transposição como objeto histórico:teorizando …...175

Literatura,históriaecinema:pilaresdeumacontra-análisesocial…...181

Sociedade,economia,política:1938-1963 …...187

Vidassecas:o livro,o filme,o hoje…...195

Glossário determoscinematográficos…...200

(10)

I

NTRODUÇÃO

Um julgamento simplesmente estruturalde Vidassecas,livro de Graciliano

Ramos,e do filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos,levando-se em

consideração as diferenças entre os dois meios de expressão,livro e filme,os

fenômenosdecorrentesda adaptação,ascircunstânciasde produção e a distância

temporalentre as duas obras seria inevitavelmente equivocado e criticamente

suspeito.Nestetrabalho,acreditamosqueaadaptação émaisumaquestão dediálogo

eadmiração do quedediferençasfundamentaisentreosautores.Nessesentido,esta

dissertação tem como objetivo fundamentalmostrarque,maisdo quesimplesmente

adaptarumaobra-prima daliteraturanacional,a leitura cinematográficaqueNelson

Pereira dosSantosfez de Vidassecasde Graciliano Ramosquistambém seruma

intervenção naconjunturapolíticacontemporânea,nessecaso,como partedo debate

então vigentesobreareformaagráriaeaestruturasocialbrasileira.

Tantosanosdepoisdaprimeiraedição deVidassecas,deGraciliano Ramos,e

da estreia do Vidassecas,de Nelson Pereira dos Santos,como revisitá-los hoje,

quando a importância do conceito de obra se diluiu na mobilidade do conceito de

texto? A diacronia modifica a leitura? E,sobretudo,como confrontar essas duas

produçõeseler,no confronto,sinaismultiplicadoresdeideias?

O problema enfrentado pormuitosobservadoresleigosou porprofissionais

da relação entreLiteratura e Cinema (ea chavepara a compreensão maisrica dessa

mesma relação) é que o estabelecimento de uma estrutura normativa entre a

(11)

autenticidade e o simulacro e,porextensão,entre a cultura de elite e a cultura de

massa,baseia-se na ideia da inviolabilidadeda obra literária e da sua especificidade

estética.Daíuma insistência na “fidelidade” da adaptação cinematográfica à obra

literária “originária”. Essa atitude resulta em julgamentos superficiais que,

frequentemente, valorizam a obra literária em detrimento da adaptação

cinematográfica,namaioriadasvezessem umareflexão maisaprofundada.

Enquanto um romancista tem à disposição a linguagem verbal,com toda a

sua riqueza metafórica e figurativa,um cineasta lida com,pelo menos,cinco

materiaisde expressão diferentes:imagensvisuais,linguagem verbaloral(diálogo,

narração eletrasdemúsica),sonsnão verbais(ruídoseefeitossonoros),música ea

própria língua escrita (créditos,títulose outros).A diferença básica entre osdois

meios não se reduz,portanto,à diferença entre a linguagem escrita e a imagem

visual,como se costuma dizer.Se o cinema tem dificuldade em fazerdeterminadas

coisasque a literatura faz,a literatura também não consegue fazero que um filme

faz.

A insistência na ideia da “fidelidade” (que deriva das expectativas que o

espectadorprojetasobreo filme,baseadasnasualeituraparticulardo texto literário)

geralmente ignora o fato de que a literatura e o cinema constituem doiscamposde

produção culturaldistintos,embora,em algum nível,relacionados.Quando um

cineasta fazum filme,está respondendo a questõeslevantadasou possibilitadaspelo

próprio campo artístico,em primeiro lugar,e pela sociedade ou outroscampos,em

segundo.Quando o Cinema Novo surgiu,no finaldosanos1950,começo dosanos

1960,posicionou-seem relação adeterminadastradiçõescinematográficas,enão em

relação aosproblemasenfrentadospelo campo literário.Isso não significa,é claro,

que tenha deixado de se posicionarquanto a outrasquestõessociaismaisamplas,

(12)

VidasSecas,livro e filme,quanto objetosartísticos,devem serjulgadosem relação

aosvaloresdo campo no qualse inserem,e não em relação aosvaloresde outros

campos,aindaqueafins.

O que pretendemos neste estudo é chegar a uma leitura analítica das

narrativas literária e cinematográfica em questão, que tenda menos a uma

interpretação fechada e mais à construção de um caminho para compreendê-las

como objetosartísticosdistintos.

Para entendereapreciarcompletamente asdiferençase semelhançasentre o

romance e o filme Vidassecas,devemosexaminara forma na qualsuasrespectivas

mensagenssão transmitidas.Deum modo geral,percebemosquehá elementosque

estavam no romance enão estão maisno filme,elementosqueestão no filmeeque

não estavam no romance e,finalmente,elementosque estão nosdois,porém,de

modo diferente.O que complica a relativa simplicidade desse esquema é que esses

fenômenosresultantesda adaptação acontecem em váriosníveis,que precisam ser

distinguidos.

Tendo em vista o detalhamento de talprocesso adaptativo,podemosdefinir,

demodo bem pontual,como osprincipaisobjetivosdestetrabalho:

-confrontaro texto literário e o filme,analisando cada uma dessasnarrativasde

acordo com suascaracterísticasespecíficas,semelhançase diferençasbem como as

problemáticasdaadaptação (cinematização);

-analisaro processo de“transposição”daslinguagens,pormeio dealgumasteorias

de roteirização: redução, adição, deslocamento, transformação, simplificação,

(13)

-procurarcompreendera estrutura e a temática do livro de Graciliano Ramose as

“escolhas”econcessõesfeitasporNelson Pereira dosSantosem relação à sua leitura

daobraliterária,diantesituaçõessócio-políticasdasépocasdeprodução do romance

edapelículaedasideiaseexperiênciaspessoaisdessesautores.

A metodologia escolhida para recolher,organizar e analisar osdados e as

informações para este trabalho foibaseada no desenvolvimento de uma extensa

pesquisa bibliográfica,participação em cursos,seminários,debates e grupos de

estudos,pesquisas de campo em bibliotecas,cinematecas e arquivos.Todas essas

atividades tiveram como escopo a análise individuale comparada das obras

estudadas,o que nos permitiu tanto elucidar aspectos históricos e sociológicos

mínimospara fundamentação analítica dasobrasquanto discorrer sobre detalhes

técnicosdo processo deadaptação.

Em busca deuma melhordelimitação doscaminhosmetodológicosa serem

seguidos neste estudo,principalmente no que tange às questões relacionadas à

técnica cinematográfica, utilizamos algumas obras que contribuíram,

substancialmente,em nosso trabalho,na medida em que analisam procedimentos

técnico-artísticosespecíficosdo fazercinematográfico.

Detalhando um pouco mais este processo,investigamos e estudamos,

segundo métodos específicos,os componentes literários,cinematográficos e os

caráteressubjetivosdasobrasem questão,atravésdeum complexo entendimento do

processo de adaptação da narrativa literária em narrativa fílmica.Para cingir de

formaobjetivatodasasfontesdeconhecimento envolvidasno trabalho,organizamos

cuidadosamente a fundamentação teórica da qualnosvaleremos,deixando espaço,

porém,parafuturasinserçõesquesefaçam necessárias.

(14)

para a confecção do trabalho,sempre cuidando para que o estudo não se afastasse

demais do universo crítico e teórico dos Estudos Comparados e da Literatura

Comparada.

Em relação à teoria da narrativa que fundamentará a análise e interpretação

dasobrasem estudo,utilizaremosconceitosprovenientesde obrasfundamentais

paraacompreensão deumateoriadosgêneros,além deobrasquediscutam arelação

entre narrativa e representação da realidade,tema importante para este trabalho,à

medida queum deseusobjetivoséanalisaro livro Vidassecase o filmehomônimo

enquanto narrativasde representação/interpretação dosmomentoshistórico-sociais

em queforam produzidas.Nestesentido,nosvaleremosdeestudosdeGeorg Lukács

(A teoria do romanceeEnsaiossobrea literatura)e MikhailBakhtin (Questõesde

literaturaedeestética).

A análisedasformasartísticasenquanto estruturasrepresentativasdeforçase

momentos sociais específicos também será fundamentada em manuais e obras

teóricassobreasnarrativasliteráriaecinematográfica,encontradasem volumesmais

específicoscomo que abarcam títuloscomo osdeAntonio Candido (A personagem

deficção,FormaçãodaliteraturabrasileiraeO discursoeacidade)eTheodorAdorno

(“Posição do narradorno romance contemporâneo”,em Notasdeliteratura)sob a

perspectiva maisespecificamenteliterária,e,pelo lado danarrativa cinematográfica,

obrasfundamentaiscomo asde SergeiEisenstein (A forma dofilmee O sentidodo

filme),André Bazin (O cinema:ensaios),Christian Metz (Linguagem e cinema),

JacquesAumont(A imagem),David Bordwell(Makingmeaninge Narration in the

fiction film)eIsmailXavier(O discursocinematográfico,A experiênciadocinemaeO

olhareacena).

Em relação às questões de roteirização e das relações entre Literatura e

(15)

texto cinematográfico,deSyd Field,O roteirodecinema,deMichelChion,e O chão

dapalavra:cinemaeliteraturano Brasil,deJoséCarlosAvellar.

ParafundamentaraleituradeGraciliano RamoseaanálisedaobradeNelson

Pereira dos Santos,foinecessário buscar textos críticos e historiográficos sobre

ambososartistas.Dentro da ampla fortuna crítica queosaborda,destacamos,entre

outras,asobras Graciliano Ramos,de Sonia Brayner(da série “Fortuna Crítica”),a

obra homônima organizada porJoséCarlosGarbuglio,etambém “Céu,Inferno”,de

Alfredo Bosi,arespeito do escritoralagoano;e,sobreo cineasta carioca,osvolumes

Nelson Pereira dosSantos:um olharneo-realista?,de Mariarosaria Fabris,e Nelson

PereiradosSantos:umacinebiografiado Brasil,deDoloresPapa.

Para acontextualização do trabalho deNelson PereiradosSantos,bem como

dos dados biográficos do cineasta,também foram importantes as obras de sua

biógrafa Helena Salem.Asconsideraçõesde Affonso Romano de Sant’Anna sobre a

análise estruturalde romancesbrasileirose suasformulaçõesforam essenciaispara

entendero transportedo conjunto desimilaridadesdo livro ao filmee,também,na

identificação deseusdesvios.

A leitura do livro Vidassecas e a análise do filme homônimo enquanto

narrativasde representação/interpretação dosmomentoshistóricosem que foram

produzidas também serão sumariamente fundamentadas em teorias da narrativa

historiográfica,como a proposta por Hayden White em Metahistória,já que esse

historiador propõe a História como estrutura narrativa,categorizando o discurso

historiográfico segundo uma adaptação das categorias de Northrop Frye,em

Anatomia dacrítica.Pretendemosanalisar,sob o ponto devista inverso,Vidassecas,

livro e filme,enquanto narrativasficcionaisque também se constituem,em certo

grau,como discursosdeteorhistórico-social,trabalhando a relação entreCinema e

(16)

História)e Eduardo Morettin (“O cinema como fonte histórica na obra de Marc

Ferro”e“A representação dahistóriano cinemabrasileiro (1907-1949)”).

Por fim,em se tratando,em última análise,de um trabalho de cunho

comparatista,buscaremos fundamentar nossa pesquisa em teóricos da Literatura

Comparada e dosEstudosComparadosque reveem postuladostradicionaisdessas

disciplinas,propondo não apenas a comparação entre obras artísticas produzidas

pelos mesmos sistemas culturais e linguísticos como,também,permitindo a

comparação entre trabalhosde naturezasafins,porém diversas,como é o caso da

literatura e do cinema. Nesse sentido, cabe destacar os volumes Literatura

comparada:textosfundadores,deEduardo Coutinho eTânia Franco Carvalhal,que

reúneostextosfundamentaisdaliteraturacomparadadesdeo século XIX atéo XX e

nosfornece uma ampla perspectiva histórica da disciplina e de obrascomo asde

Linda Hutcheon (Poética dopós-modernismo),Tânia Pellegrini(Literatura,cinema e

televisão),Maria do Rosário LupiBello (Narrativa literária enarrativa fílmica)e

Benjamin AbdalaJúnior(Literatura,históriaepolítica,Devôoseilhase“No fluxo das

águas”,em O eixoearoda,v.12).

Aslinhasmaisrecentesdeestudo dosautoressupracitadostêm evidenciado o

comparatismo e a natureza narratológica1 de obras o-literárias (sobretudo

adaptações cinematográficas), evidenciando que releituras e transposições

intersemióticasdão origem anovostextos,constituindo-secomo criaçõesautônomas

passíveisdenovasediferentesleituras.

A questão que investigamos baseia-se nas adaptações da literatura para o

cinema,uma vez que na busca de promover uma leitura com predominância de

(17)

imagens,pretereo discurso linguístico.Seriao cinemaum processo comunicativo de

constituição culturalanáloga à que apreendemosno livro em que a discursividade

contínua,numa sequência designosgeram asideias,ou na troca do sistema sígnico,

em virtude doscortesimagéticos,ossignificadosperderiam osvaloresencontrados

nasobrasliterárias?

Desde muito cedo, o cinema denominado comercial (ou industrial)

estabeleceu umaintensaligação com aliteratura.A princípio,apoiou-senaestrutura

oferecida pela narrativa do romance realista,bem como em textosjá consagrados

pela crítica e pelo público,numa busca de,por um lado,garantir uma maior

receptividade junto aos seus espectadores – tendo esses textos já sido testados

anteriormente– e,deoutro,assegurarparasio reconhecimento eo peso artístico,já

inscritosnasobrasliteráriasem queseinspirava.

E é a partir dessa experiência acumulada – decorrente dos trabalhos de

realizadores e estudiosos como Griffith,Eisenstein,Vertov entre outros – que o

cinema vaiconstruindo uma linguagem própria,detentora de novas formas de

narrarsuashistórias,porintermédio da imagem em movimento,e,desse modo,vai

se separando dasestruturasda narrativa literária.No entanto,apesarda narrativa

cinematográficaterseseparado damatrizliterária,ahistóricaligação entreo cinema

ealiteraturanão seesvaziariaapartirdaemancipação do cinema.

Entendemosque há aíum prisma especiala sertrabalhado,o qualse refere

aosteoresideológicosda adaptação,visto que,conformeoscasosdeadaptações,há,

quase que necessariamente,acertos ideológicos que estão em função de alguns

fatores,como o momento da distribuição do filme,da história do cinema,do

cineasta,da época edo seu público,entreoutros.Priorizamosassim o diálogo queo

cineasta trava com sua época,a qualele não escolhe,e com o seu público que em

(18)

Vidassecas,o filme que propusemosanalisar,é um marco de estilo para o

cinema nacional.Classificado como neo-realista deinfluência italiana,porcausa da

economiadesuassoluçõestécnicas,sabe-sequetalcaracterísticaestéticaéprecedida

pelosproblemasde dificuldade financeira da equipe do cineasta.A preferência por

soluções simples e rústicas nas filmagens não era (apenas) capricho e,sim,

necessidade.O filme de Nelson Pereira dos Santos já era defasado tecnicamente

quando surgiu,porque era muito pobre.No entanto,a técnica não defasou suas

qualidades,pois que a proficiência neste quesito não é imprescindívelpara se

produzirarte.Foiexatamenteisso queverificamosem nosso estudo etornarevelador

o debruçarsobreo trabalho cuidadoso deNelson PereiradosSantos.

Destemodo,buscamosidentificarno filme Vidassecasumacorrespondência

de elementos,temas,figurações e soluções estruturais presentes no romance

homônimo deGraciliano Ramos.Acredita-sequeessa correspondência entreo livro

e o filme exista e que há maisque uma semelhança temática.Osefeitosdasduas

obrasapontam para uma equivalência estruturale formal.Nosestudose pesquisas

efetuados,foipossívelidentificaressascorrespondênciasatravésdaanáliseestrutural

dosprocessosdeadaptação fílmica.

Não é objetivo deste trabalho “petrificar”a pesquisa,encerrando-a em seu

próprio texto,nem esgotar as possibilidades de análise,mas sim tornar o debate

sobreadaptaçõescinematográficaseintermidialidadeentreLiteraturaeCinemamais

rico edinâmico,tendo estadissertação demestrado,como baseeestudo decaso,um

exercício acadêmico que, porventura, poderá auxiliar outras pesquisas mais

abrangentes.

Nesse sentido é que,já no Capítulo Ideste trabalho,procuraremosexplorar

algunsconceitosrelacionadosàteoria da narrativaeà teoriado cinema,enfatizando

(19)

processo adaptativo,faz-se necessário conhecer teorias narrativas literárias e

cinematográficas bem como os mecanismos inerentes à intermidialidade.Este

capítulo embasa teoricamente a análiseda adaptação de Vidassecas,apontando que

livro efilmeestão intrinsecamenteligadosno tocanteateoriasdanarrativa.

No Capítulo II, trataremos da vida e obra de Graciliano Ramos e,

analogamente,da vida e obra de Nelson Pereira dos Santos,já introduzindo sua

participação einfluênciano CinemaNovo.

No Capítulo III faremos uma breve análise do romance Vidassecascom

ênfase em sua temática,linguagem,técnicas literárias e recepção na época de

lançamento.Há também uma análise maisdetida de cada capítulo do livro,com o

escopo de conhecera fundo sua estrutura eordem dosfatosnarrados.Em seguida,

neste mesmo capítulo,analisamostambém brevemente o filme Vidassecas,dando

ênfase à sua temática,fotografia e montagem,além de sua recepção na época de

estreia.A fim de conhecer asparticularidadesda adaptação fílmica,preparamos

umadecupagem quesegmentaapelícula em sequências,enfatizando ascenas,o uso

decâmeraeremetendo,quando necessário,ao roteiro do filme.

O Capítulo IV trazumaanálisedaadaptação deVidassecas,do livro ao filme,

num contexto mais amplo,abordando aspectos teóricos,narrativos e sociais

concernentes ao processo de tradução de um meio literário para um meio

cinematográfico.Este capítulo embasa osposteriores,em que são estudadosmais

detidamenteaspectosaquibrevementeapresentados.

No Capítulo V,são apresentadose exemplificadosalgunsrecursosutilizados

porNelson PereiradosSantosesuaequipeparatransporalinguagem eas“imagens”

do romance de Graciliano Ramos,com ênfase na fotografia,montagem e uso do

som.De posse de um esquema técnico-narrativo proporcionado pela decupagem,é

(20)

nos valeremos de um trechos análogo do romance e do filme,de maneira a

aprofundareexemplificaro estudo em aspectosmaispontuais.Aindanestecapítulo,

analisamosbrevemente osrecursos linguísticosde que se vale o romancista para

descrever o espaço e asestratégiasa que recorre o cineasta para produzir efeitos

análogos.Para tal,nosvaleremosde um aporte teórico quese baseia sobretudo nas

relaçõesentreLiteraturaeCinema.

O Capítulo VIconcluio estudo.Apósaanáliseteórica,estruturalecríticade

cadaobraindividualmente,pudemoscompará-lasdo ponto devistaautoral,estético,

técnico,socialepolítico,o quenospossibilitou chegaraumaleituraanalíticafocada

na compreensão da construção dasduasformasnarrativasde Vidassecas:romance

(livro /narrativa original/ linguagem literária),e filme (produto finalde uma

releitura audiovisual/ linguagem cinematográfica).Através de uma abordagem

baseada,além dasteoriasliteráriasecinematográficas,nosEstudosComparadosna

Literatura Comparada,é possívelverificarassim se o obra adaptada tem realmente

maisa vercom a época em queéproduzida do quecom a época abordada no texto

originário.Nestecapítulo,buscamoscompreendero filmeem questão como fontede

conhecimento em que o materialexposto,em seu conjunto,ultrapassa o limite das

intençõesdo diretordecinema,sendo quesualeituranão serestrinjasomenteauma

interpretação “colada” à obra e assim relacionar o filme a uma abordagem sóci

(21)

-

Ca

t

ul

o

I

-P

ANORAMASNARRATIVOS

:

DALITERATURAAOCINEMA

;

DOCINEMAÀLITERATURA

Em 1896,foiexibido,pelosirmãosLumiére,a imagem de um trem de ferro

indo em direção a uma plateia.Surgia,então,uma nova forma peculiar de

espetáculo.2Historiadoresde cinema concordam que o desenvolvimento do filme é

encontrado na progressão de George Mélièspara Edwin S.Porter,D.W.Griffith e

SergueiEisenstein.

Segundo RobertRichardson,em Literature and Film,Méliès,um mágico

profissional,deu-secontadosrecursosnascidoscom amontagem paraaexibição do

ilusionismo no filme.Seu trabalho é cheio de tomadas com truques,corpos

voadores,cabeçasqueexplodem emuito mais.Percebeu queo filmepoderiatratara

realidadedediversospontosdevista.

Edwin S.Porter,em 1903,deu o segundo passo,simplesemuito importante.

Antes,eracomum atuarem frenteàcâmera fixaemóvel,umaação contínua em um

mesmo lugar.Porterfilmou maisdeum lugaredepoisjuntou ascenasparacontara

estória.Foio início dalinguagem do filme.

André Malraux,em seu “Esboço de uma psicologia do cinema”,aponta o

cortedentro dacenacomo o ato inauguraldaartecinematográfica,explicitando algo

(22)

naquele momento presente na mente de muitosteóricos.3E um outro fato que teve

importância enorme no início do século,é a montagem paralela,focalizando

acontecimentossimultâneos,cujo modelo clássico é a montagem de perseguições.

Desde osprimeirosanosdo século,esse foium procedimento capitalnasnarrativas

de aventura extremamente popularesdadasà carga de emoçõesque caracteriza os

desfechosna baseda corrida contra o tempo,ondeo bem persegueo malea figura

do heróicontra obstáculos para salvar a heroína,prestes a ser vítima de algum

acidente ou cruelataque.Nesse modelo,temosum tipo de situação propícia a uma

montagem queestabeleça uma sucessão temporaldeplanoscorrespondentesa duas

açõessimultâneas,queocorrem em espaçosdiferentes,com um grau decontiguidade

podendo servariável.

A próprianaturezadasaçõesrepresentadascorrespondeauma situação mais

complexa do que a desenvolvida numa única ação.A necessidade de representara

evolução simultânea de doisespaços,e sua convergência,exige saltosda câmera e a

sucessão descontínua deimagens.Talcomo no caso elementarda mudança decena

do teatro filmado,também aquia motivação inicialpara o corte vem de uma

necessidade da narração e,porsua vez,a visualização explícita dosacontecimentos

só épossívelgraçasao recurso damontagem.

Asimagenssão definitivamenteseparadase,napassagem,temoso salto,mas

a combinação éfeita detalmodo queosfatosrepresentadosparecem evoluirporsi

mesmos,consistentemente.Isto constituiuma garantia para que o conjunto seja

percebido como um universo contínuo em movimento,em relação ao qualnão é

fornecido alguns momentos decisivos.Determinadas relações lógicas,presas ao

desenvolvimento dos fatos,e uma continuidade de interesse no nívelpsicológico

conferem coesão ao conjunto,estabelecendo aunidadedesejada.

(23)

Oscortesque decompõem uma cena contínua em pedaçosnão estilhaçam a

representação também em pedaços desde que sejam efetuados de acordo com

determinadasregras.Estas,deum lado,estão associadasà manipulação do interesse

do espectador;deoutro,ao esforço efetuado em favordamanutenção daintegridade

do fato representado.A seleção edisposição dosfatos,o conjunto deprocedimentos

usados para unir uma situação à outra,as elipses,a manipulação das fontes de

informação,todasestassão tarefascomunsao cineastaeao escritor.

A câmera só é posta em funcionamento uma vez e um registro contínuo da

imagem é efetuado,captando certo campo devisão;entre o registro e a projeção da

imagem nadaocorresenão arevelação ecopiagem do material.Nessecaso,temosna

projeção umaimagem queépercebidacomo um continuum.A primeiraconstatação

é que,mesmo nesse caso,o retângulo de visão efetivamente presente diante da

câmeraeimpresso napelículademodo afornecerailusão deprofundidadesegundo

leisda perspectiva.NoelBurch noslembra muito bem o fato elementarde que o

espaço que se estende fora do campo imediato de visão pode também serdefinido

em maior ou menor grau.Burch,em seu livro Práxisdo Cinema,é taxativo na

admissão davirtualpresençadesteespaço não captado pelo enquadramento:

Para entendero espaço cinematográfico,pode revelar-se útilconsiderá-lo como de fato por dois tipos diferentes de espaço:aquele inscrito no interior do enquadramento eaqueleexteriorao enquadramento.4

No caso contínuo da câmera,a constante abertura de um novo campo de

visão tende a reforçara característica básica do quadro cinematográfico conformea

tese de Bazin: ser centrífugo. O movimento da câmera é um dispositivo

(24)

tremendamentereforçadorda tendência à expansão.Concretamente,elerealiza essa

expansão e,como dizBurch,transformao espaço foradatelaem espaço diretamente

visado pela câmera.Asmetáforasquepropõem alentedacâmeracomo umaespécie

de olho de um observadorastuto,apoiam-se muito no movimento da câmera para

legitimarsua validade,poissão asmudançasda direção,osavançose recuos,que

permitem as associações entre o comportamento do aparelho e os diferentes

momentosdeum olharintencionado.Ao lado disso,o movimento decâmerareforça

a impressão dequehá um mundo do lado delá,queexisteindependenteda câmera

em continuidade ao espaço da imagem percebida.Talimpressão permitiu a muitos

estabelecerem com maior intensidade a antiga associação proposta em relação à

pintura:o retângulo daimagem évisto como umaespéciedejanelaqueabreparaum

universo queexisteem sieporsi,embora separado do nosso mundo pela superfície

da tela.Essa noção de janela aplicada ao retângulo cinematográfico,vaimarcara

incidênciadeprincípiostradicionaisàculturaocidental,quedefinem arelação entre

o mundo darepresentação artísticaeo mundo dito real.

Bela Balázs nos lembra taltradição e,ao mesmo tempo aponta a radical

modificação quevê no próprio estatuto de taljanela com o advento do cinema.Ele

apontaa convenção segundo aquala obradearteapresenta-secomo microcosmo,e

procura ressaltaro princípio vigente deque há uma separação radicalentreeste eo

mundo real,constituindo-se a obra numa composição contida em simesma com

suas leis próprias.Como Balázs nos diz,talmicrocosmo pode representar a

realidade, mas não tem nenhuma conexão imediata ou contato com ela.

Precisamente porque ele a representa,está separado dela,não podendo ser sua

continuação. A conclusão a que Balázs procura chegar é que a janela

cinematográfica,abrindo também um mundo,tendeasubvertertalsegregação,dado

(25)

dentro datela.Balázsdizem TheoryoftheFilm,que:

Hollywood inventou uma arte que não observa o princípio da composição contidaem simesmaeque,não apenaseliminaadistânciaentreo espectadorea obradearte,masdeliberadamentecriaailusão,no espectador,dequeeleestáno interiordaação reproduzidano espaço ficcionaldo filme.5.

No cinema,é permitida a construção de um todo atravésda combinação de

partesna realidade pertencentesa totalidadesdistintas;podemoscombinaro plano

de um rosto de uma pessoa com um plano das mãos de outra, e assim

sucessivamente para todo o corpo,compondo desse modo uma unidade originalna

tela.O que é importante para Kuleshov é o efeito de realidade obtido.E,dentro da

orientação realista,sua proposta representa um construtivismo radical– cada

imagem ou plano constituiapenasum pequeno fragmento deuma edificação,tijolo

portijolo,etem sua presença reduzida ao mínimo.Kuleshov não confia na imagem

isoladacomo lago eficientenaprodução dosefeitosem cinema.O plano tem desero

maiscurto possível;uma unidade mínima de informação,que deve sersimplese

clara demodo a permitiruma decodificação imediata – elevaichamaresta unidade

deplano-signo:“O plano cinematográfico não éuma fotografia (estática).O plano é

um signo,umaletraparaamontagem”6.

Pudovkin foio principaldiscípulo de Kuleshov,como cineasta e teórico.

Disso resulta uma convergência de atitudesante oselementosbásicosde produção

cinematográfica,havendo algumasdivergências,em parteligadasao organicismo de

Pudovkin,notávelem seu livro escrito em 1926.Como Kuleshov vêna montagem o

fundamentalda arte cinematográfica,e como vaiconstruiruma teoria da narração

5 BALÁZS,1970:p.50.

(26)

baseada no critério de continuidade,ritmo,equilíbrio de composição e sucessão

lógica.

A mudança do ponto devista dentro deuma mesma cena éuma importante

ruptura frente ao espaço teatral e pode ser aproximada a procedimentos

frequentemente usados pelo escritor ao compor literalmente uma cena qualquer.

Também esseexpõeosfatosatravésdeum conjunto dedetalhesparticularesou por

observaçõesque dizem respeito ao conjunto,talcomo na representação do cinema.

Essa aproximação,evidentemente,não pode ir além dessa indicação de uma

semelhança de estrutura.Em ambososcasostratam-se da representação dosfatos

construída pelo processo de decomposição e de síntese dos seus elementos

componentes,afirma-se também a presença de diversasinstânciasnarrativas,que

estabelecem suas escolhas de acordo com determinados critérios.O fato de ser

realizado pelamobilidadedemateriallinguístico edeoutro serconcretizado em um

tipo específico de imagem introduz todasasdiferençasque separam a literatura do

cinema.Diferenças que,em geral,são associadas ao suposto contraste entre o

realismo da imagem e a flagrante convencionalidade da palavra escrita.O que tal

comparação esconde é a natureza particular das convenções que presidem um

determinado método demontagem,poisa hipótese realista implica na admissão de

queháum modo normal,ou natural,desecombinarasimagens.

Em última instância,Balázsestá nosdizendo que há um antropomorfismo

inerente ao ato de representação,tendente a figurar uma realidade à medida do

homem.O aspecto rico deste antropomorfismo vem do fato de que a medida

humana não está de uma vez por todas definida,havendo desenvolvimento e

acumulação,numainteração com arealidadeobjetiva,o quetransformaasformasde

representação.Dependendo de condições de tempo e lugar,o trabalho artístico,

(27)

certasensibilidadeecertasformasparticularesderepresentação.

Dentro dainteração dialéticaqueenvolveosmeiosdisponíveis,ospadrõesde

cultura e a sensibilidade humana,o cinema representa um ponto de especial

interesse.Elesignifica arecuperação da cultura visual,segundo Balázs,atrofiadapor

séculosdetradição linguísticaeconceitual.

DePudovkin aAristarco,em nenhum momento,surgequalquerproposta de

destruição ou subversão das aparências contidas em cada imagem ou som.Pelo

contrário,sua proposta decinema realista implica em um respeito poresta imitação

e,inclusive,a admissão de regras de montagem cuja finalidade é garantir a

integridadedo chamado mundo diegético,mundo representado na obra.Permanece

a ideia dequeestemundo diegético deveapresentar-secomo um todo contínuo em

desenvolvimento, equilibrado, consistente em si mesmo, responsável pelos

acontecimentos que o espectador acompanha e motivador dos procedimentos

utilizadospelo cineasta.Segundo David Bordwell,

Ao verum filme,o receptoridentificacertasindicaçõesqueo incitam aexecutar numerosas atividades de inferência,que vão desde a atividade obrigatória e rapidíssima de perceber o movimento aparente,passando pelo processo mais penetráveldo ponto de vista cognitivo,de construir,digamos,vínculosentre as cenas,até ao processo ainda mais aberto de atribuir significadosabstratosao filme.Na maioria doscasoso espectadoraplica estruturasde conhecimento às indicaçõesquereconhecedentro do filme.7

Talcomo no cinemaclássico,trata-sedeprojetarnatelaum microcosmo que

sepropõenasua totalidade,como réplicaem relação ao mundo do lado decá;e,em

suasrelaçõesinternas,constituiumaredeconsistentedefatosqueparececontar-sea

(28)

simesmos,produzindo o efeito deanterioridade.Oseventosdeantemão estariam lá,

existindo independentementedacâmeraqueoscaptou.

O efeito deanterioridadeeo efeito dejanela,no níveldaconstrução espacial,

são doisaspectosdo mesmo tipo dediscurso:a narração queprocura esconder-sea

simesmacomo narração.

Eisenstein violava os princípios de obediência à decupagem clássica,

intervinha deliberadamenteno desenvolvimento dasaçõesenão sepreocupava com

a integridadedosfatosrepresentados,mascom a integridadedeum raciocínio feito

porimagens,seja na base de metáforas,de elementossimbólicosou de diferentes

conexõesabstratasentre osplanos.No seu discurso,frequentemente interrompe o

fluxo de acontecimentos e faz suas reflexões,dirigindo abertamente a leitura do

espectador.A introdução de elementos não pertencentes ao espaço da ação,a

inserção desequênciasinteirasdo discurso não-narrativo eamontagem dospróprios

acontecimentostotalmenteforadasleisdecontinuidadesão exemplosdeseu método

não realistaderepresentação.No finaldeA Greve(1925),o matadouro não pertence

ao espaço da ação em que se desenvolve o massacre dosoperários;a montagem o

introduzporqueo narradorqueriafazerumametáfora.Nasequênciadaescadariade

Odessaem O encouraçadoPotemkin(1926),o espaço-tempo criado narepresentação

do massacre está longe de imitarqualquerdesenvolvimento naturale contínuo das

ações.Segundo Mariado Rosário LupiBello,

(29)

meramente“decalcadas”darealidade.8

Atingir no cinema então uma representação dos fatos compatíveis com o

modelo proposto pelo realismo crítico significa,necessariamente,compor um

universo ficcionalapto a colocar os fatos narrados em perspectiva e capaz de

organizarsuasrelaçõesdemodo aqueseproduzaum efeito específico:aimagem eo

som não se combinam com o objetivo de mostrar algo,mas com o objetivo de

significá-lo,o queimplica a apresentação do fato,não como um ato detestemunho,

masem nomedeumaconstrução do seu significado.

Bazin é bem explícito nessa metáfora:ele insiste em que a fotografia

mantinha a integridade do realrecortado;ela não decompõe talrecorte nem o

reconstrói,elao captaem bloco.O olharneo-realistaseriaarealização do modelo

baziniano no níveldacaptação daessênciadarealidade.

Desde 1928,o manifesto de Eisenstein,Pudovkin e Alexandrov,assim como

inúmeras proclamações de cineasta e críticos,apontavam para outras direções e

faziam sua crítica incisiva ao princípio do som sincronizado com a imagem,

princípio queestabelecea colocação daspalavraseruídosnosexatosmomentosem

que vemosfuncionara fonte emissora de modo a produziruma correspondência

aceita como naturalentre a imagem e o som.9A passagem do mudo para o sonoro

representa um momento de extrema importância na construção da decupagem

clássica.Nessecontexto,Griffith concentraem torno desitodososméritos,porsero

grandesistematizador,o modelo a serseguido peloscineastas,quando mostra o uso

psicológico do primeiro plano,osseusgrandesfinaismarcadospelaconvergênciade

tensõese pela aceleração,combinação coerente dosváriosrecursosaté presentesde

8 BELLO,2008:p.129.

(30)

maneiradispersaem diferentesfilmes.

Ascontribuiçõesde Mélièse Porterforam devidasà sorte ou ao acidente.

Com David Griffith foidiferente.Como elepossuía umaformação literáriaeteatral,

a ideia de não usara câmera simplesmente para gravare,sim para interpretar,foi

uma consequência decorrente desua formação.O queelefezfoisepararo filmedo

teatro.Griffith deu mobilidadeà câmera.O filmepassa asercomposto portomadas

tiradasdetodosostiposdeângulosedistâncias.Tevefortesinfluênciasdeescritores,

entreelas,podemoscitarasdeTolstoi,ShakespeareeDickens.

De acordo com Richardson,depois de Griffith,SergueiEisenstein foio

homem que maisfez para darforma ao filme.SeusfilmesA grevee O encouraçado

Potemkineo não acabado filmemexicano QuevivaMéxico!serviram como padrões

pararenovaracinematografia.

Eisenstein possuía grande habilidade teórica,leitura vastíssima e ampla

insistênciaem detalhes.Seuslivrosefilmesnão sugerem umaconfiançanateoriada

verdade para a vida do filme.Elesinsistem em colocarque o filme é um meio de

grande arte.Para ele,a ideia crucialde montagem é que dois pedaços de filmes

colocadosjuntoscombinam-se em um novo conceito,uma nova qualidade,nascida

daquela justaposição.Eledizqueo estudo da técnica deliteratura éuma preparação

essencialpara o produtor do filme.Tanto para Griffith quanto para Eisenstein a

literaturateveumainfluênciadecisivasobreo filme.

Maistarde,osprodutoresdefilmesaprenderam a utilizarastomadasdesom

como utilizavam as tomadas visuais.Assim,o filme conseguiu retomar o seu

equilíbrio.Desde o início,o filme vem procurando adquirirsuasideias,formase

esquemasprópriosqueeram exclusivamenteliterários.

(31)

próprio uso das ideias,formas e esquemas que eram antes exclusivamente literárias,ou que podem ser expressaspor meio de analogia com a literatura. Permanece agora,pesquisar dentro da natureza e extensão do solo comum compartilhado pela literatura efilme,atéa extensão na quala literatura efilme, podem e usam sua óbvia e diferente mídia para expressar,criar,ou comunicar tipossemelhantesdeexperiências.10

Podem existir inúmeras semelhanças e divergências entre a linguagem

literária ealinguagem cinematográfica,ocorridasnatransformação deadaptação de

umaobraliteráriaàtela11.

Com o surgimento da montagem,o filme pôde narrarcom maisfacilidade.

Os cineastas se deram conta de que era possívelaproveitar textos da narrativa

literária,inspirando-seem umahistória(ou obra)ea reproduzindo passo a passo.A

fidelidadetotaldo filmeà obra originalémuito rara,poisnão podemosrepresentar

visualmentetodosossignificadosverbaisenem exprimirtudo o queestá escrito em

palavras.A imagem queformamosem nossasmentesatravésdaleituraédiferenteda

imagem fílmica.

A fidelidade de uma adaptação,transposição de uma obra literária a uma

obra cinematográfica,é feita com maisfacilidade quando se trata de descrever“do

exterior” sem emissão de pontosde vistassubjetivossobre aspersonagense seus

eventos. Haverá problemas difíceis de serem resolvidos se a narração

cinematográfica secolocarcomo espetáculo,sedescrever“do interior”com imagens

psicológicas.O fracasso de muitastransposiçõescinematográficasde obras-primas

sedeveaessasdificuldades.

Outra dificuldadedeadaptação épercebidana necessidadedea narrativa ser

(32)

perfeitamenteinteligível.Àsvezes,precisamosassistirao mesmo filmemaisdeuma

vez para captarmos todos os aspectos apresentados.A temporalidade é um fato

muito importantequeprecisamoslevarem conta em uma adaptação.Afirma Betton

que:

[...]é importante reuniro máximo de coisasnum mínimo de tempo,exprimir tudo pela ação num tempo limitado;donde a necessidade de estilizar,de suprimiruma grande parte doselementosdo romance que se está adaptando paraconservarsomenteo essencialdaação,o queexistedemaissignificativo nas individualidades.E nessesentido,a escolha éum ato decriação,pormaisquea adaptação seja passiva e altamente respeitosa e conscienciosa,como a de

WutheringHeights,deWyler.12

A transposição para o cinema é,assim,na maioria dasvezes,uma recriação.

O “tradutor”produz uma obra pessoale se considera como um verdadeiro criador

inspirando-seem umaobraliterária.

Muitosescritoresnão se importam com o que o cinema pode fazerde suas

obrasenquanto outrossepreocupam com apreservação deseusverdadeirossentidos

e significações.Uma grande vantagem das adaptações fiéis ou inteligentes e de

qualidade é permitir e facilitar o acesso das pessoas às obras-primas literárias.

Geralmente,essesfilmeslevam o espectadorao interesse pela leitura dosoriginais.

Podeacontecero contrário,seo filmefordecepcionanteemalfeito,podelevaraum

desinteressedaleiturado livro.

Como vimos,a adaptação é o tipo mais simples de transposição da obra

literária à obra cinematográfica.O cineasta ou osroteiristaspartem deum romance

ou umanovelaparaum filmedeficção.Além desteprocesso,temosmaisdoisoutros

(33)

tiposcomunsdetransposições:acontaminação eanarrativização.

Nacontaminação,o autorou osautoresdo roteiro partem deváriosromances

(geralmente dois)ou novelase fazem,a partirdeles,um filme de ficção com uma

únicahistória.

A narrativização é uma transposição onde osautoresdo roteiro partem de

umaou deváriasobrasnão narrativasenem ficcionaisparaum filmedeficção com

uma única história.Estasobrasdeorigem não narrativa são geralmente:memórias,

diários,relatos.O texto de partida é considerado como “hipotexto” e o texto de

chegadaéconsiderado como “hipertexto”13.

Dentro da adaptação,podemos dividir o seio narrativo em três níveis:a

diegese (origem da história), a história (sucessão de acontecimentos) e as

personagens.No nívelda diegese,percebe-sequeosromanceslevadosà tela,muitas

vezes,apresentam modificações do quadro (espacial,temporal,social).Pode ser

chamado como transposição diegética.No nívelda história,as transformações

constituem amaiorpartedo trabalho depassagem do hipotexto escrito ao hipertexto

fílmico.Toda pessoa que se entrega à adaptação cinematográfica faz uma escolha:

guardarasmesmasaçõese osmesmosencadeamentosdosconteúdosdo texto de

origem ou modificá-los,acrescentando e ou substituindo outras ações ou outros

conteúdos.Em relação àspersonagens,temostrêscritériosprincipais:o número,a

idadeeo sexo.O número daspersonagenspresentesno hipotexto podeserinferior,

superiorou igualao número deatoresdo hipertexto.No romance,aidadepoderáser

precisaedadapelo narradorou pelosdiálogos.Parao cineastaédiferente,poismais

complexo daraidadeexatadaspersonagens,anão seratravésdediálogosedeoutros

recursosvisuaisinerentesàlinguagem cinematográfica.

(34)

D

ANARRATIVALITERÁRIAÀCINEMATOGRÁFICA

:

ESPECIFICIDADES

A linguagem cinematográfica permitiu novas utilizações das relações de

tempo e espaço em sua reprodução do mundo.O espaço perdeu sua qualidade

estática e passou a ser movimento,incorporando as características do tempo

histórico.O espaço-tempo pode pararcomo noscloseups,voltarao passado,como

nosflash backs,darum salto erevelaro futuro,como nosflash fowards.É evidentea

fronteiraquesepararealidadeconcretaeficção.Essademarcação énecessáriaparase

percebero significado deficção.Ficção éumarealidadeinventada.

No cinema,no que tange à estrutura narrativa,o processo de produção é

segmentado e,para facilitar o trabalho,osrealizadores podem dividir o totaldo

tempo do filmeem blocosdetempo ou em rolos.Um filmetem uma média deuma

horaemeiaàumahoraequarentaecinco minutos,perfazendo o totaldenoverolos.

A sétima parte é aquela onde vaiacontecer,o clímax,que será resolvido na nona

parte.

A preocupação com aduração éimportanteparaevitaracriação decenasque

serão posteriormente cortadas.O número de atores,locaçõese cenários,variam de

um filme para outro.Porém,são interessantesque estesnúmerossejam osmenores

possíveis,poisfacilitao trabalho ediminuiosgastosdaprodução.

No romance,o tempo é codificado linguisticamente;no filme,com imagens

deaçõesconcretas.O tempo do filmeépercebido como análogo ao tempo real,em

que percebemos ação e movimento e não o tempo.O espaço é conceitualno

(35)

acontecimentoseo desenvolvimento daspersonagensdependam deleeo constroem

ao mesmo tempo.Dessa forma,o romance,tende para o espaço,enquanto o filme,

tendeparao tempo.

No filme,o tempo queo espectadorlevaparavê-lo coincidecom o tempo em

queahistóriaécontada.O tempo do espectadorégeralmentefixado porconvenção,

deumahoraàumahoraemeia,aindaquemuitosfilmesultrapassem esselimite.Ao

adaptarum romance,o cineasta,frequentemente,éobrigado acondensaro material,

dentro deparâmetrosdetempo maisou menospré-determinados.Para o leitor,esse

fator pode variar geralmente de romance a romance devido ao tamanho

indeterminado do gênero.A duração de eventosé basicamente igualno romance e

no filme.Ambos,filmeeromancepodem compactareestendero tempo,o romance

ao jogarcom a diferença entreo tempo do leitoreo tempo doseventosnarrados,o

filmepelo uso dacâmeralentaou acelerada.

AsdivergênciasentreDzigaVertov eEisenstein,asdiscussõessobreo cinema

prosaico e poético no cinema soviético dosanos1920 e 1930,a polêmica em torno

do neo-realismo italiano,os artigos de André Bazin sobre o conflito entre a

montagem e a fé na realidade,que constituem a base da nova vaga francesa,e

confirmam ainda maisasleisdo movimento sinoidalda arte cinematográfica,no

campo da tensão estruturalcriada por esses dois pólos.Sob este aspecto,é

interessante observar como o neo-realismo italiano,na sua luta contra a pompa

teatral,encaminhou-se para uma identificação totalda arte com a realidade extra

-artística.

A montagem é um dos processos cinematográficos que foram mais bem

estudadoseque,ao mesmo tempo,éobjeto deacesaspolêmicas.Eisenstein,um dos

(36)

suasObrasEscolhidasqueo cinema,éprimeiro quetudo,amontagem14.

Contudo,o “cinema de montagem” também teve,e ainda tem numerosos

inimigos.Entre osinúmerosteóricosque o não consideram a fórmula universalda

linguagem cinematográfica,podemoscitar,porexemplo,AndréBazin:

Distinguireiduasgrandestendênciasopostasdo cinema de 1920 a 1940:a dos realizadoresque acreditam na imagem e a dosque acreditam na realidade.”O sentido destadistinção residenaoposição entreum cinemaem queo realizador dispõe de “toda uma série de processos para impor ao espectador a sua interpretação do acontecimento representado” (um cinema em que “o sentido não estáimagem”,masconstituiasombra projetada pelamontagem no plano de consciência do espectador”:isto é,um cinema de interpretação)e,por outro lado,um cinemaquetendeafixarenão aconstruir,em queo objeto fotografado tem a primazia em relação à interpretação e o atorem relação ao realizador. Nestesegundo tipo decinema,amontagem não desempenhaum papelnotável,e André Bazin enumera os mestres do cinema mudo que não lhe dão grande importâncianasuapoética.15

Para André Bazin,esta segunda tendência predominou historicamente no

cinemafalado edeterminaasviasdessaartenasegundametadedo século XX.

Ao nosdetermosno entendimento sobreo queémontagem cinematográfica,

no sentido que a teoria soviética dá a esse termo (para além dasobrasatráscitadas,

convém lembrar o artigo de Eichenbaum, “Os problemas da estilística

cinematográfica”e o de Tynianov,“Asbasesdo cinema”,que surgem na compilação

A poética docinema16),a montagem éapenaso caso particulardeuma dasleismais

geraisda formação dassignificaçõesartísticas,ou seja,a justaposição (oposição e

(37)

integração)de elementosheterogêneos.Uma série artística – isto é,uma sequência

deelementosestruturaisem arte– constrói-sedeuma maneira totalmentediferente

dassériesestruturaisnão artísticas.Umasequênciatipo deelementosestruturaisnão

artísticosconstrói-se da seguinte maneira.Qualquersistema de comunicação pode

ser estudado sob doisaspectos:do ponto de vista da sua estrutura constante,ou

como realização de princípiosestruturaisdo sistema pormeiosmateriais.Quando

umasequência deelementosépornóssentida como correta,isto é,quando ao nível

da língua podemosconfrontá-la com certa norma estrutural,ela perdeo seu caráter

(38)

P

ROCESSODETRANSPOSIÇÃO

:

NARRATIVASQUESETRANSFORMAM

A justaposição de elementosheterogêneosé um procedimento amplamente

utilizado em arte.A montagem,que é um caso particular,pode definir-se como a

justaposição de diferenteselementosda linguagem cinematográfica.Certosestilos

artísticosestão centradosnum conflito agudo entre elementosque se chocam,mas,

sejaqualforo estilo queescolhamos,queressenosimpressionepelosseuscontrastes

ou nosdêaimpressão deumaprofundaharmonia,podedescobrir-senabasedo seu

mecanismo uma justaposição ou uma oposição doselementos.Esse imprevisto é

intrínseco à construção,esem o qualo texto não comunicaria qualquerinformação

artística.Porisso,a montagem,enquanto elemento da linguagem cinematográfica,é

tanto própria desse tipo de cinema,onde aparece em estado bruto e até mesmo à

superfície,equerecebeu o nomede“cinema demontagem”,como o tipo decinema

no qual André Bazin não vê qualquer tipo de montagem. A linguagem

cinematográfica constrói-se como um mecanismo “que conta histórias através da

projeção de imagensanimadas” e é pornatureza narrativa,isso dentro da tradição

realista.Masexisteumaligação internaprofundaentreanarrativacinematográficae

amontagem.

Pode-se igualmente distinguirdoistiposde montagenscinematográficas:a

associação deum plano a um outro ea associação deum mesmo plano asipróprio.

A montagem deplanosdiferentesativa a articulação semântica.Fazdela o principal

veículo de significação;a montagem de planosidênticostorna imperceptívelessa

(39)

A narração cinematográficaéantesdemaisnadaumanarração.E,pormuito

paradoxalqueisso possaparecer(pois,no caso presente,anarrativaéconstruídanão

com palavras,mascomo umasequênciadesignosicônicos),énelaqueserevelam da

maneira maisclara leisprofundasdequalquertexto narrativo.Acreditamosqueum

grandenúmero dosproblemasda teoria geraldasestruturastransfrásicas,quetanto

preocupam oslinguistasnessemomento,resolveriam-secaso a narrativa verbalnão

fosse considerada como a única possívele se chegasse a uma interpretação teórica

dasexperiênciasnarrativasdo cinema.ParaMariado Rosário LupiBello,

A narratividade é elo mais sólido e fecundo na aproximação da linguagem literária à cinematográfica,atravésda analise do modo como a consecutividade temporaldasunidadesnarrativasdeambosossistemassemióticossearticulam, e tendo consciência da vastidão do problema da adaptação quando tomado em todasassuasimplicações(deentreasquaisaquestão narratológicaéapenasuma dimensão,pormaiscrucialqueseapresente)[...].17

A teoria da montagem da narração cinematográfica também é um dos

aspectosmaiscomplexoseestudadosdaciênciacinematográfica.

“A montagem não éaligação dosplanos,éasucessão diferencialdosplanos,mas é porisso mesmo que são osplanosque têm entre siuma certa correlação que podem suceder-se.Esta correlação pode ter que ver com o entrecho,ou ser ainda,enumabem maislargamedida,decaráterestilístico.”18

Abordando o neo-realismo,éum fato indiscutívelqueo cinema desperta no

espectador esse sentimento de autenticidade que é absolutamente inacessívelàs

(40)

outrasartesequesó podesercomparado àssensaçõesprovocadaspelasimpressões

imediatasdavidareal.A intensidadedaimpressão artísticaganhamuito com isso.O

outro aspecto do problema,ou seja,asdificuldadeslevantadaspor essasmesmas

propriedadesao desenvolvimento daarte,despertam geralmentemenosatenções.

Se noslimitarmos aosproblemasligadosao tema,somosnecessariamente

levadosa mostraraté que ponto o tema enquanto tal,depende da faculdade que o

cineastatem demodificarcertoselementosdanarrativaàsuavontade.

Se a montagem e o movimento da câmara deram origem à linguagem

cinematográfica,osartifícios“maravilhosos”de Méliès– astrucagens– deram,por

seu lado,origem ao tema cinematográfico.Permitiram combinar a evidência

cinematográfica e a realidade visíveldo plano com a libertação em relação ao

automatismo davidaquotidiana.Permitiram ao cinemacolocaro heróiem situações

impossíveispara um objeto fotografado.Submeteram asucessão eacombinação dos

episódios do argumento a uma escolha artística e libertaram-nas do poder

automático dosmeiostécnicos.

Jean Mitry,em Esthétiqueetpsychologie,repetea ideia da impossibilidadede

traduzir um romance em filme.A adaptação implica o princípio absurdo de que

valoressignificadosexistem independentemente do significante expressivo que lhes

dávida.Quando sevaideum sistemaaoutro,háumamudançanecessáriadevalores

significadoscorrespondenteà mudança designificantes.Osvaloresexpressosnuma

obra,diz Mitry,existem apenascomo uma função da forma que lhesdeu sentido.

Pode-se,éclaro,descrevero filmeem linguagem verbal,masnão sepoderecuperaro

mesmo sentido nem obtero mesmo conteúdo latentequecaracteriza o filme.Mitry

vê duasopçõespara um cineasta que deseja adaptarum romance:ou ele segue a

estória passo a passo e tenta traduzirnão a significação daspalavras,masascoisas

(41)

desenvolvimento eoutro sentido.

A imagem fílmica também não tem nada que corresponda à primeira

articulação da linguagem verbal.Teorias cinematográficas tradicionais definem o

plano,a unidade elementardo discurso fílmico,como o equivalente a uma palavra

na linguagem-verbal.Assim como aspalavrasse combinam em frases,osplanosse

combinam em sequências Essa teoria está baseada na falta de uma profunda

investigação da natureza da unidade elementardo filme.A comparação é,até certo

ponto,válidanum nívelformalerelacional.

NateoriainicialdeMetz,o plano correspondeaumaou maisfrases.“Jáqueo

plano não éfeito com palavras,elenão podecorrespondersenão exteriormente,isto

é,em relação ao discurso”.Metz explica que mais do que pela quantidade de

significação,a imagem é frase pelo seu estatuto assertativo.A imagem é sempre

atualizada.Desde que ao filme faltam a primeira e a segunda articulação como

definidasem termosdelinguagem verbal,e,portanto falta-lherepertório deimagens

ou planoscomparáveisavocabuláriosdalinguagem verbal,Metzpostulaqueo filme

élinguagem sem línguaequeaimagem éum exemplo defala.

Deacordo com ateoria inicialdeMetz,então,o cinema éumalinguagem,já

que ele obviamente comunica,porém não é uma língua porque não pode ser

reduzido a unidades distintas além do nívelda linguagem.Não temos signos no

mesmo sentido dalinguagem verbal.

A teoriadeMetzdeexpressividadecinemáticaestábaseadana ideia falaciosa

de que o cinema é inerentemente incapaz de significar a não ser através da

reprodução deobjetosdo mundo real,isto é,darealidade.Segundo Metz,aliteratura

significaenquanto o cinemaexpressa.

(42)

diretamentedela,confunde-secom asuaprópriaforma.A significação poroutro lado,une um significante a um significado conceitual.Metz observa que a expressividadeestética seenxerta,no cinema,numa expressividadenatural,a da paisagem ou do rosto que nosmostra o filme.Nasartesdo verbo,ele não se enxerta numa verdadeira expressividade primeira,mas numa significação convencionalamplamenteinexpressiva,adalíngua.19

A literatura e o cinema comunicam diferentemente e faz pouco sentido

encontrar paralelos exatos entre os dois no nívelda comunicação denotativa.A

imagem fílmica não é como uma palavra,é maiscomo uma frase ou uma série de

frases.Uma palavra ou sequência de palavrascomunica principalmente atravésde

uma relação simbólica com sua referente,uma imagem,principalmente atravésda

relação icônicaeanalógica.Nem palavrasnem imagensdevem serconfundidascom

suas referentes respectivas,pois as duas são ilusórias.Palavra e imagem,assim

precisam,ambas,serem reconstruídasinternamente,ou percebidasconceitualmente,

paraserem entendidas.

A literatura,porém,só se pode tornar algo visívelsignificando-o,isto é,

representando o sensívelpor meio do conceito.Criado por meio dos signos

linguísticos,o visívelda narrativa éalgo desegundo grau,resultantedo trabalho do

conceito.Não setrataabem daverdade,deumapassagem ou deumatradução entre

a imagem visualpropriamente dita e a imagem construída por meio dos signos

linguísticosMas,precisamente,daquilo que não passa de um tipo de signo a outro,

ou seja,dadiferençaqueossepara.

Comecemospordizerqueentreimagem visualeacinematográficapouco ou

nada há de comum;entre texto e filme,já não se trata da mesma coisa,já não há a

mesma informação,queéapenastransportada porcanaisdistintos,ou então levada

Referências

Documentos relacionados

Segunda edição 2008 Súcubo Productions ISBN 978­1­4357­1645­2 Informação: Súcubo Productions PO Box 926344 Houston. TX 77292

O levantamento visa avaliar preliminarmente os locais com maior incidência e diversidade de colônias de fungos anemófilos no perímetro compreendido pelo Campus 11 da

A placa EXPRECIUM-II possui duas entradas de linhas telefônicas, uma entrada para uma bateria externa de 12 Volt DC e uma saída paralela para uma impressora escrava da placa, para

O PROGRAMA AGENTES LOCAIS DE INOVAÇÃO, por este Edital, torna público a Retificação do Edital 03/2011, a Lista de Convocados para Realização das Dinâmicas de Grupo e

Apesar do movimento da bola ser bidimensional (ao mesmo tempo em que a bola viaja até a base horizontalmente, ela sofre ação da gravidade e cai verticalmente) só precisamos

Com o uso do biodigestor os gases promotores do efeito estufa, como o metano e o carbônico, não são mais liberados naturalmente para a atmosfera, ao contrário, ele é conduzido

Em relação à influência do tipo e teor do aditivo utilizado, não foi possível verificar uma tendência do comportamento de espalhamento das pastas com o aditivo PC, pois