Psicanalista. Professor titular do Departam ento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília
Lu iz Au g u s to Ce le s
* Texto produzido com o resultado parcial de projeto de pesquisa com
apoio do CNPq, na form a de bolsas de pesquisador e iniciação científica e financiam ento parcial. Este texto foi inicialm ente apresentado no gr u-po de pós-doutorado, sob orientação do Prof. Dr. Luís Cláudio Figueiredo, na PUC-SP, de cujo grupo recebeu com entár ios diversos que ensejaram profundas m odificações. Nem todas as críticas, porém , foram tom adas, pois partiam de fundam entos distintos dos aqui desenvolvidos. Ao Prof. Luís Cláudio Figueiredo e ao grupo agradeço a atenção, leitura e obser-vações. Tam bém agradeço à leitura e úteis com entários da m inha colega, Profa. Tania Rivera, por ocasião de disciplina que conjuntam ente m inis-tram os na pós-graduação em psicologia da UnB.
RES UMO: Buscam -se as relações entre a sedução e a transferência em psicanálise. Segue-se o desenvolvim ento laplanchiano de que a trans-ferência é provocada pelo analista, sendo essa provocação entendida ao m odo de um a reativação da situação originária de sedução e pas-sividade. Argum enta-se, então, sobre a facilitação, em psicanálise, do estabelecim ento de circulação de fantasias da sexualidade “fem inina”, entendida tam bém com o originária. Discute-se, por fim , a presença da alteridade na relação transferencial em face da idéia, de Jacques André, do outro com o o fem inino.
Palavras - c h ave : Transferência, fem inilidade em análise, alteridade.
ABSTRACT: Seduction and fem ininity in transference. This essay de-velops considerations on the relations between seduction and ference in psychoanalysis. Follow ing Laplanche’s suggestion, trans-ference, in so far as it reactivates the originary situation of seduction and passivity, it is understood to be provoked by the analyst. Psycho-analysis is considered to facilitate the circulation of fantasies of “fem i-nine” sexuality — also regarded as originary. The presence of alterity in transference is discussed from the point of view of J. André’s com -prehension of the other as fem inine.
E
ste ensaio tem com o objetivo desenvolver algum as reflexões sobre a correla-ção entre seducorrela-ção e transferência em psicanálise, havendo sido esse propósi-to instigado, por um lado, pela leitura do livro de Jacques André ( 1996) , As origens femininas da sexualidade; e, por outro, em virtude de considerações surgidas de efeti-vas situações transferenciais no decorrer de processos analíticos.1 O argum ento central é o de que a transferência é provocada pelo analista, provocação esta entendida com o um a reativação da situação originária ( LAPLANCHE, 1988, p.165) , ou seja, um a reativação da sedução e da passividade originárias ( ANDRÉ, 1996, p.144) . Devido à condição de transferência, a psicanálise fica propensa a estabelecer e facilitar a circulação de fantasias de sexualidade “fem inina”, esta tam bém entendida com o originária. Por fim , a presença da alteridade na relação transferencial é discutida em face da idéia do outro com o o fem inino, cunhada por J. André.Na expressão “sexualidade fem inina” acim a m encionada, o adjetivo está en-tre aspas por diversos m otivos. O prim eiro é para que não se confunda esse term o com a classificação de gênero. O gênero envolve caracterizações sociais que não constituem nosso interesse neste m om ento, porque não dizem respeito necessariam ente à sexualidade inconsciente, m as a com portam entos. A propósi-to desse tem a, aliás, frise-se que a palavra “sexualidade”, na m esm a expressão, é decisiva, pois nos referim os à sexualidade fem inina no sentido psicanalítico de “sexualidade” e de “fem inino”. Ora, o “fem inino” constitui assunto que con-centra m uitas contradições e im precisões em psicanálise; o m esm o não acontece com a sexualidade — ou, pelo m enos, as im precisões e indefinições a ela relaci-onadas não se dão da m esm a m aneira. Se a psicanálise tom a o fem inino ( ou a fem inilidade) com o um enigm a — se não o enigm a da sexualidade hum ana, “o continente negro da investigação psicanalítica”, segundo a expressão freudiana — , o m esm o não ocorreu com a sexualidade em sentido geral. Ela foi desvelada desde os prim eiros m om entos da psicanálise, não gerando incertezas irredutí-veis, m as sim provocando reações de aceitação e rejeição.2 À sexualidade “deci-frada” em sua condição infantil, opôs-se um a ferrenha concepção da sexualidade genital com o naturalm ente determ inada. Depois, inclusive, e acom panhando-se
1 Abster-m e-ei, no entanto, de fazer referências expressas a essas psicanálises. Tom arei casos de
Freud, que serão tratados segundo m inha com preensão, estabelecida a partir das tais “ situa-ções efetivas de transferência” .
2 É verdade que as coisas não se dão nem se deram assim tão linearm ente. Nós m esm os m
a história da psicanálise desde Freud, viu-se não raras vezes a sexualidade desti-tuída de sua função estruturante e determ inante das condições subjetivas.3
Neste texto, a sexualidade é tom ada no sentido perverso polim orfo da se-xualidade infantil ( ainda que se trate da sese-xualidade genital) ; já o “fem inino” é considerado próxim o ao sentido de “passivo”, m as sob o aspecto pulsional, pos-suindo por característica “alvos passivos da sexualidade”. No entanto, note-se que o fem inino não tem de todo o sentido de passivo, porque fem inino e passivo ( ou passividade) não são sinônim os, ainda que a passividade — no sentido pul-sional, dos fins da pulsão — não possa ser desprezada com o um a das caracterís-ticas do que se cham a em psicanálise de sexualidade fem inina. Nesta abordagem , tam bém se tom a o fem inino em seu sentido originário, e com o protótipo da fem inilidade ( inclusive a fem inilidade de gênero) , com o o sugerem André ( 1996) e Ribeiro ( 2000) . O originário e o passivo da sexualidade fem inina sobre os quais versam os não se confundem , assim , com as definições de gênero, ainda que entre essas concepções e definições se constituam ligações e associações tenazes.
Desse m odo, as palavras “fem inino” e “fem inilidade” serão utilizadas e m anti-das neste trabalho. Pretende-se m ostrar que a sexualidade a em ergir em análise não se esgota na sua característica de passividade. Intenta-se, assim , constituir um a possibilidade de alcance de sua dinâm ica e significação, qual seja, a dinâm ica trans-ferencial im posta pelo fem inino com o efeito de sedução, e o sentido do vínculo desse fem inino de análise com a situação originária cham ada “fem inina”.
INSTIGAÇÃO DO S ENTIDO S EXUAL EM PS ICANÁLIS E
Em estudo anterior sobre o Caso Dora ( CELES, 1995) , em bora não estivesse ocupa-do em caracterizar a transferência havida naquele caso, sugeri desejar Freud que Dora am asse a análise. Com efeito, Freud se decepcionou com o abandono de Dora, ocorrido quando ele tinha as m elhores esperanças de a análise alcançar bom êxito. A suposição de sucesso parece ter-se apoiada apenas nas expectativas do ana-lista, inebriado que parecia estar com suas próprias peripécias interpretativas, e crente — talvez não sem razão — do efeito sedutor de suas interpretações sobre o ânim o de Dora, o que a faria em penhar-se no trabalho analítico, quiçá de longa duração. Fazer com que Dora se interessasse pela análise parece ter sido, pode-se dizer agora, tarefa que Freud tom ou corajosam ente para si, diante dessa m oça
3 A desim portante condição da sexualidade na com preensão dos m odos e processos de
levada a ele pelo pai e que dem onstrava, ela própria, pouco interesse por seu tratam ento ( o taediumvitae de que se queixava podia m uito bem caracterizar seu m ovim ento afetivo em direção a esse novo m édico, Freud, que a tratava) . No entanto, apesar de seu aparente desinteresse, a narrativa freudiana m ostra que Dora se engaja no trabalho associativo, ainda que em purrada pelas interpretações de seu analista; talvez ela estivesse até m esm o respondendo transferencialm ente ao desa-fio de Freud. Prenunciou-se, assim , para Freud, é possível crer, a aderência de Dora ao tratam ento que lhe fora proposto. As anim adas sessões que parecem ter ocorri-do, a abundância do m aterial inconsciente, a sustentação do papel da interpretação de sonhos, o intrincado rom ance fam iliar, os gestos e os sonhos de Dora — tão claram ente sexuais — decerto trouxeram conforto para Freud em sua posição, bem com o fundam ento para sua esperança quanto ao bom êxito da análise.
Outra característica do caso perm ite determ inar, com bastante segurança, a sedução com a qual se com prom eteu Freud na conquista da analisante Ida Bauer. Freud — com o ele próprio declara na introdução do caso — aplicou-se decidi-dam ente em tratar da sexualidade com essa m oça já de todo instigada pela curio-sidade sexual, com o a análise acabou por m ostrar, inclusive. De acordo com o que sugere Forrester ( 1990) , Freud, conferindo atenção especial ao caráter sexu-al dos sintom as, dos gestos e das fsexu-alas de Dora, colocou-se justam ente na posição da Senhora K., aquela com quem Dora aprendera os segredos da sexualidade e com quem m antivera freqüentes e prolongadas conversas sobre a sexualidade e sobre a “anatom ia” sexual. Tais colóquios constituíram segredos de Dora, a fonte jam ais revelada de seu conhecim ento da sexualidade; foram esses segredos que Freud se em penhou em desvendar, incitando Dora a contá-los com o que m ovido por curiosidade infantil ( com o se estivesse ele m esm o, Freud, diante do enigm a da sexualidade de Dora) .
A equivalência entre o em penho de Freud em fazer falar e o ato da instigação sexual, da sedução — ou seja, a com preensão do falar com o equivalente do toque, da penetração, do exam e acurado e porm enorizado — foi estabelecida pelo pró-prio Freud já nas prim eiras páginas da narrativa do caso, quando avoca a si os direitos do ginecologista. “Pour faire une omelette il faut casser des oeufs”, assim justifica Freud ( 1905/ 1976, p.44) , não sem razão, a necessária presença das “conversas” sexuais na análise da histeria. Mais especificam ente falando, o tratam ento da his-teria requer de fato a interpretação de caráter sexual, já que a hishis-teria está sexu-alm ente determ inada. Dessa form a, a psicanálise — por força de sua estrutura e por seu m odo de se fazer — com o seu objeto, a sexualidade im plicada nas falas e nos sintom as, desvelando, assim , relações de am or, com o as de Dora pela go-vernanta, pela Senhora. K., por seus pais, pelo Senhor K. e pelo próprio Freud.
psica-nalista ocupa um a posição sedutora. Com o no exem plo de Freud com Dora, a “iniciativa” sedutora — iniciativa que consiste em fazer circular a sexualidade ( m ais prudente seria dizer: fazer circular o sentido sexual daquilo que se trata) , ainda que em abstinência — parte do analista, porque a psicanálise tem por fundam ento a com preensão da determ inação sexual da neurose e da própria subjetivação hum ana. Ainda que o analisando som ente dem ande alívio de seu sofrim ento, e que, então, suponha unicam ente um sujeito saber no psicanalista, ou apenas perm aneça aparentem ente num a dem anda de “ternura”;4 ainda que o
caráter erótico da transferência não se m anifeste de im ediato, m as tão som ente a partir das interpretações efetuadas — m esm o que tudo isso aconteça, o analista, por exigência de seu pré-m undo psicanalítico ( de seu m undo conceitual) , e até com suas interpretações, instiga o sentido sexual das falas, dos sintom as, dos gestos e da própria transferência.
A caracterização da situação psicanalítica com o acim a descrita favorece sua aproxim ação estrutural ao que Laplanche ( 1988) designou de sedução generali-zada. Com este paralelo, sugere-se que a suposição psicanalítica do fundam ento sexual da neurose ( e do próprio hum ano) se introduz no tratam ento de psicaná-lise tal com o a sexualidade inconsciente adulta se introduz no trato da criança. Mais especificam ente, estou aderindo à proposição laplanchiana ( LAPLANCHE, 1993a) da reativação em análise da sedução entendida com o situação originária. Para sua utilização nos term os que interessam ao argum ento deste texto, algum as m atrizes devem ser determ inadas.
Quando se sugere entender que em análise se verifica a reativação da sedução originária, não se está afirm ando com o se fosse um a conseqüência inexorável que em análise se encontra a presença plena do analista em seu caráter inconsciente sexual — posição essa últim a que Laplanche ( 1993b) designaria, se o interpreto bem , “transferência em cheio”. Se assim o fosse, estaríam os diante da situação analítica francam ente perversa ou com pletam ente atravessada pela neurose. Não obstante, a im pessoalidade da presença do analista — que é com o proponho en-tender a sua posição — não im pede a interferência ou a reativação de sua própria sexualidade inconsciente e infantil. A abstinência pode — e talvez deva — signifi-car a suspensão do ato ( sexual) , m as não apenas; ela tam bém denota a suspensão da realização de fantasias, seja no que se refere ao sintom a, às expectativas ou aos preconceitos, não significando isso a supressão de todo desejo e fantasia. Tal refle-xão perm ite com preender que a sexualidade na análise — com o observara Lacan ( 1964/ 1979, p.140) a respeito do caso Anna O. — vem da parte do analista.
4 Term o usado por Ferenczi ( 1933/ 1992) para caracterizar a fala da criança em diferença
No caso de Breuer com essa paciente, a “sexualidade” tornou-se presente a partir da queixa cium enta da esposa do analista, cujas conseqüências todos sabe-m os. No Caso Dora, é Freud quesabe-m introduz o relato, chasabe-m ando a atenção para a inevitabilidade do sentido sexual alcançado nas interpretações — dos sintom as, dos sonhos e da própria constituição da histeria — e para a necessária disposição do analista para em brenhar-se em “conversas” sobre a sexualidade. Tam bém a atitude de o analista ignorar a sexualidade em análise — com o o constata Bollas ( 2000) — traz im plicada a sexualidade ( em form a denegada, talvez?) advinda da “casa” do analista.
Aparentem ente, esses não são bons exem plos para nuançar e dar delim ita-ção à instigaita-ção da sexualidade provocada pelo analista. Nos casos citados, es-tão por dem ais presentes as conseqüências da “ ignorância” do efeito transfe-rencial da atualização da sexualidade im plicada na análise ( no caso de Breuer, a sexualidade está francam ente envolvida sob a perspectiva de seu inconsciente sexual; no de Freud, sob o aspecto, no m ínim o, dos fundam entos teórico-práticos da psicanálise) .5 Nos casos m encionados, os analistas não estavam “
pre-venidos” da transferência que faziam transitar, em bora isso não invalidasse suas “ iniciativas” sexualm ente determ inadas. O fato de os analistas se atropelarem com a sexualidade que avocam em análise, o que pode im pedi-los de se m anter em certa “ reserva” — para usar um conveniente term o sugerido por Figueiredo ( 2000) — , não transform a a presença sexuada ( inconsciente) do analista em um caso especial. Porém , em vez de nos precipitarm os em direção a conclusões contratransferenciais — com o m uito am iúde acontece em sem elhantes avalia-ções — , é necessário introduzir um contraponto a essa idéia da sexualidade reativada pela análise.
Esse contraponto — outra m atriz das considerações sobre a provocação da sexualidade em análise — diz respeito à presença do analista; no entanto, em análise, essa presença deve ser “im pessoalizada”, no sentido de se suprim ir o peso da intencionalidade inconsciente ( e m esm o a intencionalidade consciente) do analista. Com o apontam os antes, trata-se de privilegiar o suposto teórico-psicanalítico a respeito da determ inação sexual na constituição subjetiva, o que retira, certam ente, o peso da pessoalidade do analista, perm itindo-se sua presen-ça em reserva. Mas tendo-se por certo que a teoria-psicanálise não deve se colo-car no front do tratam ento psicanalítico — em bora ela tam bém se faça presente — , estam os sugerindo, portanto, o seu lugar com o o de um “inconsciente” no fazer desse trabalho. Ou seja, inconsciência da teoria enquanto — e isso tem
5 É sabida a determ inação da sexualidade inconsciente de Freud nos desdobram entos do caso
m esm o o sentido tem poral — acontece psicanálise. Essa proposta não m e parece absurda, e sim m uito bem conform e à idéia de que um a psicanálise não pode ser entendida com o aplicação da teoria. Sobretudo porque considero a teoria ( a m etapsicologia) com o teoria da psicanálise, isto é, teoria do trabalho que é a psicanálise ( CELES, 2000a, b, c) .
Retom ando, sob essas m atrizes, os dois casos nom eadam ente citados aqui, é possível com preender suas dificuldades. No caso de Breuer com Anna O., parece estar-se diante do efeito da ausência da teoria, daquilo que, depois, se produziu com o teoria psicanalítica. Essa ausência im pediu Breuer de se m anter em reserva ( em abstinência) e o colocou, pessoalm ente, com todo o peso de seu incons-ciente dom éstico, no front da instigação da sexualidade de Anna O. durante o tratam ento. Freud, por sua vez, parece ter m ovido para a prim eira linha de bata-lha a teoria da sexualidade no atendim ento de Dora — pelo m enos é disso que ele nos avisa na introdução do caso. Ao inverso de Breuer, é verossím il supor que Freud tom ou sua então quase-teoria da sexualidade para em preender o trata-m ento de Dora levado por utrata-m afã justificativo de sua conquista. ( CELES, 1995) . A certeza de sua teoria parece ter im posto o apagam ento das presenças inconscientes da psicanálise e do próprio Freud; a teoria da sexualidade, tor-nando-se m oeda corrente nesse tratam ento, afastou sua presença “ inconsciente” e, em conseqüência, lançou Freud diretam ente na relação de tratam ento na qual se julgava em reserva — a teoria da sexualidade fez-se denegatória da sexualidade inconsciente de Freud ( e — por que não? — de Dora) . Nesse caso, portanto, a reativação da sexualidade quase se deu propositalm ente ( com o trans-ferência em cheio, ainda que não precisem os concordar com o par com ple-m entar dessa noção, ou seja, a possibilidade de uple-m a transferência eple-m vazio) . Anna O. e Dora são exem plos no sentido de que, com o no m odelo do cristal usado por Freud, revelam de m aneira hiperbólica a “ estr utura” do trabalho que é a psicanálise.6
Quero, no entanto, ir além da constatação da atualização da sexualidade em análise, e m ostrar que a “sedução” im plicada na posição do analista ganha im -portância precisa no seu efeito de fem inizar, de fazer circular a fantasia fem inina, esta tam bém entendida com o reativação da posição originária fem inina, tom an-do-se por base a hipótese de J. André ( 1996) .
6 O caráter revelador do trabalho de psicanálise que assum e esses casos, aparece na
FEMINILIDADE EM TRANS FERÊNCIA
“Freud, psicanalista que reivindica os ‘direitos do ginecologista’, herdeiro transferencial dos sedutores
históricos de Dora, ilustra com seu dito ( ‘eu dou nom e aos bois’) a m aneira com o os significantes
verbais da sexualidade adulta procedem à m arcação e, com ela, à constituição da psicossexualidade
infantil.” ( ANDRÉ, 1 9 9 6 , p.1 0 0 )
Talvez m ais do que ilustrar, Freud, analista prim eiro, esteja repetindo a sedução originária, introduzindo no dispositivo analítico a revivescência ou o revigora-m ento da sedução infantil, entendida erevigora-m sua concepção generalizada. A discus-são aqui apresentada m ostrou que isso im plica a instigação da sexualidade, que partirá do analista. De m odo suplem entar, essa idéia supõe a sujeição do anali-sando à sedução do analista — tam bém sob um a concepção de reativação da situação originária — , identificando-se sua posição com o a de seduzido. Em conseqüência, seguindo-se a com preensão de J. André ( 1996) de que a posição seduzida infantil é a posição fem inina, pode-se sugerir entender o necessário desper-tar da sexualidade feminina em análise. Um lugar fem inino-infantil para o analisando, subjugado à “sedução” do adulto-analista.
A posição e o lugar do analista são aspectos sobejam ente discutidos em psica-nálise, com o nós m esm os fizem os no item anterior. O que parece ter sido m uito m enos tem atizado é a posição do analisando; na verdade, até m esm o a idéia de um a posição para o analisando carece de m aiores debates — não se desconhe-cendo o entendim ento do analisando na situação analítica com o sendo de pro-pensão regressiva. Talvez isso se deva ao fato de um a designação de posição trazer certa com preensão ativa, do ponto de vista pulsional, que não parece ser a preva-lecente no caso do analisando. Neste texto, proponho justam ente um a explicita-ção do lugar do analisando, definindo-o ou delim itando-o com o pulsionalm en-te fem inino — ou, m elhor dizendo, libidinalm enen-te fem inino. É o que passo, então, a justificar.
u m a posição secundária.7 Com a m esm a rapidez de delim itação, pode-se dizer que o desejo fem inino, tam bém profundam ente recalcado, é entendido por J. André com o constituído originariam ente, estando situado nos prim órdios da sexualidade e, a bem dizer, caracterizando essa origem . O tem or desse desejo fem inino se deveria m uito m ais à sua condição de recalcado originário que de recalcado secundário. Apesar da diferença de com preensão da origem do desejo fem inino recalcado, não se poderia, segundo penso, falar propriam ente em fe-m inilidade ou desejo fefe-m inino senão considerando-se a disputa edípica e a passagem pela castração. Estou sugerindo, portanto, um a com preensão que acom -panhe J. André e Freud, assum indo-se a sexualidade com o originariam ente fem i-nina e tom ando-se a castração e o Édipo na determ inação do vir a ser fem inino. É pertinente dizer que a fem inilidade concebida com o enraizada na passivi-dade originária — trazendo com o posterior conseqüência noções de passivipassivi-dade efetiva ou de “rebaixam ento” na percepção do fem inino — carregue um a valo-rização de nosso tem po. No entanto, para a com preensão da análise, o que está em jogo é de fato certa valorização — os valores, as crenças, as fantasias de caráter sexual que se atualizam na relação analítica, não se tratando de desprezar o espírito do tem po ou as condições culturais de um m odo m ais geral. A “fem i-nilidade” buscada por Dora, evitada pelo Hom em dos Lobos e transform ada em delírio pelo Presidente Schreber ( FREUD, 1911/ 1976) perderia por com pleto seu sentido e sua força “traum ática” se convertida sim plesm ente em “passivida-de originária”, “passivida-desprovida dos “ valores” advindos dos “passivida-desdobram entos por que passa, em seguida à situação originária, a sexualidade. Se a passividade originária da criança de que fala J. André, diante do adulto sexuado ou do inconsciente sexuado do adulto, pode ser entendida com o um a passividade com o condição geral da dependência e do desam paro inicial, deve ser ela com preendida, em seu aspecto sexual, com o um caráter pulsional. Som ente assim podem os escapar da falácia da oposição ativo/ passivo na com preensão do m asculino/ fem inino. À passividade do fim pulsional de que se trata na instigação sedutora do adulto a partir de suas fantasias sexuais particulares corresponde a sexualidade recebida no corpo próprio da criança com o — para não nos afastarm os de Freud — prazer de órgão. A excitação provocada pelo adulto, bem com o sua solução — tam bém proporcionada pelo adulto — , induzem ao prazer com o passividade, ao prazer recebido. Assim , talvez se possa referir à passividade originária com o a condição necessária, m as não suficiente, da sexualidade fem inina que se institui
7 O desejo prim ário para Freud é, com o se sabe, o desejo m asculino, o desejo fálico. Em bora
e se recalca. É sob essa perspectiva que tom o a idéia da origem fem inina da sexua-lidade proposta por J. André, em bora a esteja interpretando e com pletando, m as, por outro lado, sequer esteja acom panhando toda a argum entação desse autor.
Retom ando a fem inilidade — abordada no caso do Hom em dos Lobos com o intuito de se am pliar a sua com preensão com o efeito inelutável da transferência provocada pela atualização da sedução — , podem os ainda recorrer ao caso Dora. É curioso lem brar que, tam bém em Dora, o ponto fundam ental ao qual che-ga o encam inham ento sexual im posto por Freud à análise é a questão da fem ini-lidade dessa analisanda, expressa na form a da hom ossexuaini-lidade, sendo esta a do am or incondicional pela Senhora K. Trata-se, provavelm ente, de hom ossexuali-dades distintas, a do Hom em dos Lobos e a de Dora. Se aquela do Hom em dos Lobos perm ite ser caracterizada pela idéia do rebaixam ento im plicado na posi-ção da relaposi-ção por trás — e que tem , com o se sabe, a funposi-ção significante da excitação desse analisando e de seu investim ento apaixonado — , no caso de Dora, a hom ossexualidade talvez possa ser qualificada com o idealizada. Suposta-m ente, Dora deseja aquela que é seu ideal, aquela coSuposta-m queSuposta-m se identifica, aquela que representa para ela o enigm a da fem inilidade, ou a sua solução: a Senhora K. Assim , Freud, analista-pai no Hom em dos Lobos, é apreendido — seguindo-se a sugestão de Forrester ( 1990) — com o analista-m ãe ( Sra. K.) em Dora, o que significa ter sido nessa posição fem inina que Dora transferencialm ente colocou Freud. Este, por sua vez, assim se deixou, ou m esm o se fez tom ar, facilitando a transferência do investim ento de Dora, da Senhora K. para ele próprio.
A com preensão, que aqui estou sustentando, de Dora — seguindo Forrester ( 1990) e m eu próprio entendim ento ( CELES, 1995) — diferencia-se daquela de J. André, pois este últim o privilegia a sedução paterna no entendim ento do caso, a fim de resgatar a posição fundam ental que a sedução teve na constituição da psicanálise. A conjectura aqui estabelecida é no sentido de que Dora “adere” à sexualidade fem inina recalcada de seu analista, na m edida que este ensejou o falar sobre a sexualidade, ocupando assim a posição de “sedutor” de Dora.
Dois casos que não perm item generalizações. No entanto, o intuito é identificar certas condições estruturais, e o caráter fundam ental dessas condições é o que está em questão. Por outro lado, ao se pensar em certos desenvolvim entos de análise sob a perspectiva inescapável da transferência introduzida pelo analista com o sedu-ção, certam ente haverá um proveito na com preensão desses desenvolvim entos.
RELAÇÃO S EDUTOR/ S EDUZIDO NA CONSTITUIÇÃO DA FEMINILIDADE
indicativa — não apenas atando-se a noção do fem inino ao seduzido e à sua “reação”, m as tam bém acom panhando os desdobram entos dessa “reação”, na form a do recalque e do recalque propriam ente dito.
Tal com o proposto por Jacques André na obra citada, a prem issa da sedução envolve fem inizar o seduzido, que responderia a partir da sexualidade fem inina recalcada. A sexualidade fem inina é tom ada com o origem da sexualidade ela m esm a. O argum ento desenvolvido por Jacques André esbarra no lim ite, segun-do entensegun-do, de som ente perm itir pensar o originário fem inino recalcasegun-do com o um traço da “posição” fem inina im plicada na sedução, ou seja, com o o traço do seduzido. A sedução deixaria na criança, assim , significantes do seduzido: passi-vo, penetrado, orificial, etc. Essa com preensão aparece de m odo m ais evidente quando o autor discute a idéia da alteridade com o fem inino, opondo a esse “outro” fem inino a “m esm ice fálica”. Essa concepção do fem inino originário, que transparece de m aneira m ais evidente na argum entação de J. André, parece-m e liparece-m itada, pois exclui a presença ( ou o traço da presença) do sedutor, isto é, aquilo que no traço do seduzido aponta para o sedutor.
Paulo de Carvalho Ribeiro, em texto inédito,8 propõe, a m eu ver, um a corre-ção da com preensão de Jacques André. Para isso, desloca a ênfase para a relacorre-ção penetrante/ penetrado, evitando separá-la em pólos distintos. Em J. André, ao contrário, parece ser possível tornar o penetrado independente do penetrante e vice-versa; em conseqüência, fica esboçada a idéia do recalque da situação de penetrado, que se daria de m aneira autônom a — ou seja, ocorreria a m anuten-ção do traço de seduzido, a partir da experiência da seduanuten-ção generalizada, inde-pendente do traço do sedutor. Assim , J. André propõe entender o fem inino com o o outro, porque recalcado e porque efeito da sedução na criança. No argum ento deste texto, pretendo restabelecer a situação originária em sua plenitude — a da relação sedutor/ seduzido — , perm itindo com preender-se que o propriam ente outro, na perspectiva da criança na situação de sedução originária, é o adulto sedutor, o inconsciente sexual deste, o adulto com sua linguagem sexuada. A partir daí, m as não em linha direta, na situação analítica, privilegia-se a possibi-lidade de m arcar o valor de alteridade do analista.
Outro aspecto im portante a ser com pletado na abordagem de J. André, para a elucidação do outro e do fem inino em análise, diz respeito à condição do recal-que em dois tem pos, recal-que deverá tornar possível a com preensão do fem inino e da fem inilidade no sentido com plexo, ou seja, passível de análise. Se adotarm os a noção da fem inilidade sugerida por J. André — alinhada com a passividade, o
8 Texto com o título “Identidade de gênero e identificação fem inina prim ária”, apresentado no
penetrado ou o orificial, estabilizada pela condição do recalcado da sexualidade fem inina prim ária — , deverem os acrescentar o sentido do recalque propriam en-te dito na sua constituição. A concepção do traum a enen-tendido em dois en-tem pos, que enseja o recalque, m ostra que, à fem inilidade no sentido originário ( com o passividade) com o traço de seduzido ( com o paixão) , se associa um a sexualidade outra com o “reação” à sedução. Isso significa que no recalque se pode apreender um a criança já sexuada ( segundo um a sexualidade infantil) , reativa à sua fem ini-lidade com o paixão, com o sim ples traço de seduzido.
Para a sustentação desse argum ento, recorro à observação de Laplanche ( 1988) quanto ao desdobram ento da relação adulto/ criança. Em prestando de Ferenczi os term os de designação, ele sugere que, no processo de sedução e constituição da sexualidade, a criança passa da ternura à sexualidade, enquanto o adulto que trata a criança, que a seduz, vai da sexualidade à ternura. Não é necessário tom ar essas considerações ao pé da letra, com o se houvesse estados de pura ternura e de pura sexualidade ( puram ente perverso) . A observação de Laplanche é útil por-que cham a a atenção para os m ovim entos inversos entre a criança e o adulto, apontando para um duplo processo. No prim eiro, o da criança, evidencia-se a inoculação ou instigação da sexualidade ( da ternura à sexualidade) ; no segundo, o do adulto, expressa-se a ação do recalque, ou do afastam ento do adulto em relação à criança, o desinvestim ento da criança com o objeto da satisfação, seu desinvestim ento com o o falo m aterno ( se esse esquem a for pensado sob um a perspectiva freudo-lacaniana) . Assim , quando o adulto sexualm ente se retira, interditada que está a sua perm anência, abre-se a possibilidade da significação sexual da experiência da criança — o que, com o Freud já estabelecera desde os
Estudos sobre a histeria, induz ao recalque. Trata-se do recalque da experiência origi-nária ( passiva, seduzida — significante enigm ático, segundo Laplanche [ 1988] ) , que então é significada com o sexual ( plenam ente sexual) ; essa m esm a significa-ção se constitui com o a causa e o efeito do recalque. A significação sexual da expe-riência originária confere a essa expeexpe-riência, protótipo da fem inilidade, o senti-do da fem inilidade propriam ente dita. No entanto, a presença senti-do sedutor na constituição da sedução generalizada e do recalque não pode ser ignorada: a sexualidade recalcada envolve a relação sedutor/ seduzido, penetrante/ penetra-do. Assim , fica possível, por fim , pensar a sexualidade fem inina recalcada com o a presença m arcante da relação sedutor/ seduzido na perspectiva do seduzido — o que não vai im pedir, um a reação ativa, ou um a tentativa de instalação de um a sexualidade ativa ( fálica ou m asculina) . A propósito, lem brem o-nos da reação do Hom em dos Lobos à sedução praticada pela irm ã: é com o sedutor ( portanto, fálico) que ele investe, por sua vez, sobre a querida Babá.
fem inilidade — e a sexualidade fem inina recalcada propriam ente dita — com o supom os ser, por exem plo, a que se m ostra na relação transferencial entre Freud e Dora. Em síntese, proponho considerar duas posições da sexualidade: 1) a “sexualidade infantil” com o a “ternura” ( de que falou Ferenczi 1933/ 1992) já sexualm ente significada, um passo no m ovim ento de aderência que a criança faz à sexualidade do adulto, um a certa apropriação inconsciente ( recalque prim á-rio) da sexualidade nela introduzida pela sedução adulta; 2) a “sexualidade in-fantil recalcada”, já subm etida a um segundo tem po significante, tem po do recalque propriam ente dito. Essas posições perm item distinguir dois aspectos com -plem entares em posterioridade da fem inilidade: a “fem inilidade” com o passivi-dade originária, e a fem inilipassivi-dade recalcada, que seria aquela atravessada pela significação genital, ou m elhor dizendo, fálica.
TRANS FERÊNCIA FEMININA EM ANÁLIS E
No Hom em dos Lobos, Freud posiciona-se no tratam ento quase em linha direta, a partir da im ago paterna do analisando. A constituição dessa im ago pater-na ( fálica) , objeto do desejo e da identificação do Hom em dos Lobos, é alcança-da por m eio de transform ações alcança-da sexualialcança-dade fem inina, que é recalcaalcança-da e dá lugar a um a sexualidade fálica. Segundo a com preensão de Freud, teria ocorrido a atualização da herança filogenética que perm itiu ao Hom em dos Lobos tom ar seu pai com o castrador ( fálico, sedutor) , e não a babá — de quem teria vindo efetivam ente a am eaça de castração. Desse m odo, fica possível com preender com o Freud “facilita” sua própria apreensão transferencial, ao se tornar objeto do dese-jo hom ossexual do Hom em dos Lobos e substituto paterno. A atuação dessa trans-ferência ( fem inina, rebaixada, no sentido do fem inino recalcado e não apenas do fem inino originário passivo) , resultado da sedução do analista, pode ser apreen-dida com o transferência fundam ental em todo o tratam ento, o que se m ostra na subm issão e docilidade do Hom em dos Lobos aos “cânones” técnicos das m ano-bras de Freud, incluindo-se a precipitação do fim da análise, por exem plo.
Em Dora, Freud participa dos desdobram entos da sexualidade que instiga. A partir da resposta fem inina da analisanda, Freud é deslocado para um a posição tam bém fem inina, quando Dora parece esperar de Freud um a conclusão para o enigm a de sua fem inilidade recalcada. Poder-se-ia dizer, ainda, que Freud vem ocupar um a posição identificada com a Senhora K ( e com a m ãe de Dora) . Essa identificação à qual parece que Freud fica subm etido à sua revelia, pode ser en-tendida, com elem entos já explanados, com o um a confluência entre a disposição freudiana de tratar da sexualidade com Dora e a disposição de Dora, esta instiga-da que está pela curiosiinstiga-dade sexual herdeira de suas conversas com a senhora K. Freud, portanto, abre a possibilidade, ou “dá a deixa”, para que Dora o tom e na posição fem inina. E, ele m esm o, é tom ado ( no sentido passivo, nesse m om ento) pela identificação com essa posição fem inina. Talvez se configure aqui um caso bastante característico de identificação projetiva — com a participação exata e adequada dos dois envolvidos na dinâm ica transferencial, Freud e Dora, não sen-do o caso de se com preender um deles com o alvo da transferência ( e da proje-ção) do outro. Assim parece se configurar um a relação transferencial no m olde da relação sedutor/ seduzido. Com ênfase em um ou em outro dos term os, Freud e Dora se posicionam na análise ( m elhor dizendo, são posicionados na análise) . Com efeito, Freud se coloca prom otor do sentido sexual em análise, ao que Dora responde transferencialm ente com sua sexualidade fem inina recalcada, em form a de hom ossexualidade, repetindo ( ou atualizando) a relação seduzida/ sedutora.
Antes de concluir, gostaria de introduzir determ inada questão, que será ex-posta afirm ativam ente.
sexua-lidade fem inina prim ária recalcada. Retom ando-se, no entanto, a relação entre a origem da transferência com o sedução e os desdobram entos sexuais efetivam en-te havidos nos casos em referência — de Dora e do Hom em dos Lobos — , pode-se aspode-severar que eles introduzem a questão específica da generalização possível da resposta fem inina com o hom ossexualidade. Sugere-se, então, a adm issibilida-de da generalização do issibilida-destino da sedução reativada em análise com o sendo no sentido da reativação da fem inilidade caracterizada pela hom ossexualidade.
A fem inilidade com o resultado da “sedução” provocada em análise se atuali-zaria na form a transferencial da hom ossexualidade. A idéia de hom ossexualidade assim sugerida não diria respeito nem ao sujeito nem ao seu objeto am oroso ( nem hom ossexualidade de sujeito nem hom ossexualidade de objeto) . “Hom os-sexualidade” teria de ser entendida no sentido de o mesmo sexual, o sexual que é o m esm o — o m esm o da sexualidade recalcada, resultado da sedução originária e do recalque propriam ente dito, o que im plica, com o exposto m ais acim a, um a sexualidade fem inina. Tal significaria tam bém se referir, em análise, a um a ho-m ossexualidade a partir da posição feho-m inina.
A sexualidade fem inina tom ada com o o m esm o — o m esm o do recalcado — diferencia-se da concepção de J. André na obra já citada, pois esse autor com pre-ende o fem inino com o o outro — e não o m esm o — , porque recalcado. De qualquer m odo, a idéia que se propõe aqui — a da hom ossexualidade ( em aná-lise e com o efeito da “sedução” do analista) com o o m esm o fem inino recalcado — perm ite sugerir a hom ossexualidade transferencial em análise com o hom os-sexualidade fem inina. Hom osos-sexualidade de análise que apenas teria seu sentido se a fem inilidade dita originária e a fem inilidade recalcada secundariam ente fo-rem tom adas em conjunto. Em certo aspecto, trata-se de um a regressão ao fem i-nino recalcado, que em análise se m ostraria na form a da repetição da sexualida-de fem inina com o hom ossexualidasexualida-de. Nos casos acim a m encionados, isso se revela na repetição da busca do outro com o sedutor: no Hom em dos Lobos, o sedutor paterno; em Dora, a sedutora e ideal que foi a Senhora K.
O entendim ento que aqui se propõe será, então, o de um a certa universalida-de do universalida-desenvolvim ento da transferência hom ossexual em análise — ou seja, da reativação do m esm o sexual — com o posição originária de seduzido.9 Isso
per-m itiria coper-m preender a torção havida no caso de Dora, pois essa per-m oça teria de-senvolvido tão inesperadam ente um a transferência hom ossexual com Freud —
9 Fédida ( 1988) sugere, com entando sua intervenção em um determ inado caso, a m esm a
tom ando-o no lugar da Senhora K — , que o analista chegou a não reconhecê-la, ou se sentiu im pedido de fazê-lo. Por outro lado, essa torção provocada por Dora — ainda que num a espécie de resposta à posição freudiana — m ostra que a passividade a que nos referim os com o fundam ento da fem inilipassividade não pode ser com -preen dida com o passividade pessoal ou m oral. Tal é n ossa opin ião, ain da que essa passividade m oral não deixe de ser tom ada inconscientem ente com o m eio de apresentação da sexualidade fem inina, com o aconteceu com o Hom em dos Lobos em sua posição “rebaixada”.
No entanto, não pretendo m e estender, neste m om ento, na justificação da polêm ica que a questão e o esboço de resposta que sugeri possam trazer, inclusi-ve a respeito da denom inação “hom ossexualidade fem inina”. Passo, portanto, à conclusão do texto.
CONCLUINDO
Conhece-se a postura fundam ental de Freud no que se refere à transferência ( “isso não é com igo pessoalm ente”) , bem com o a sua com preensão da relação da transferência com a análise ( “a análise não cria transferência, ela não é um m al a m ais criado pela psicanálise, esta som ente a atualiza”) — ou seja, sabe-se que Freud isenta a si próprio ( com o na “Introdução” do Caso Dora) e a psicaná-lise da constituição e da m anutenção da transferência. Ora, é possível supor que esses aspectos tenham im possibilitado o m anejo adequado das transferências e da condução das análises. A isenção freudiana quanto ao caráter sexual das inter-pretações que oferece a seus analisandos ( “para fazer om elete é necessário que-brar os ovos”) e o alheam ento de sua responsabilidade na constituição da trans-ferência teriam m arcado os casos narrados por Freud com um a espécie de ce-gueira para a presença atual do outro ( ele m esm o, o analista) — o outro com o o outro sexual ( que não será necessariam ente o outro sexo) , o sedutor. Essas atitu-des teriam im pedido a elaboração da transferência constituída com o hom osse-xualidade fem inina, já que a face atual do analista estaria excluída por Freud do m anejo e da condução da transferência em análise. Essa face se expressaria de início com o condição da análise — tanto na constituição da transferência pela psicanálise com o na análise propriam ente dita, pois que “exercita” a com preen-são determ inante, senão subjetivante, da sexualidade.
m enos em teoria, alertados para sua recusa precipitada — , m as com o exigência de atenção à alteridade que se dá na transferência, ou m elhor dizendo, que ocor-re no lim ite, nas bordas da transferência. O lim ite da transferência — a ocor- resistên-cia à transferênresistên-cia im posta pela diferença do analista ( e do analisando) com relação à im ago transferida, o que significa a im possibilidade de consum ação da transferência — apóia-se no outro atual que é o analista ( e analisando) .10 A interpretação da transferência talvez possa ser entendida, assim , com o o m anejo do seu lim ite. Desta form a, tão im portante quanto dar sentido regressivo à trans-ferência seria trabalhar a transtrans-ferência ela m esm a, bem com o os seus lim ites. Frise-se, de novo, que a transferência é aqui concebida com o sexual e hom osse-xual fem inina.
Podem os entender o caráter hom ossexual da sexualidade fem inina em trans-ferência ( com o aconteceu com Dora e o Hom em dos Lobos) com o um a exigên-cia transferenexigên-cial enredada no vigor de sua consum ação com o força de repetição, de busca pelo m esm o, pelo igual, pelo com um . Mas isso deve ser tom ado com o com prom isso entre um a m oção de apagam ento da diferença sexual e um m ovi-m ento de ovi-m anutenção da ovi-m esovi-m a diferença — portanto, coovi-m o uovi-m retorno ao pré-recalque e ao recalque, ao pré-edípico e ao edípico. A hom ossexualidade fem inina despertada por obra da transferência — resultado da “sedução” do analista e da psicanálise — seria o propriam ente interpretável da transferência, seria o que se presta a restabelecer ( construir/ reconstruir, no sentido freudiano) a relação infantil. Por outro lado, a abstinência do analista — que não leva a cabo a sedução — e sim plesm ente a sua singularidade — que im pede ou resiste à consum ação da transferência — m arcariam os lim ites da transferência, nos quais haverá a possibilidade da presença ( do analista para o analisando) com o alterida-de. A com preensão do analista com o atual-sedutor e atual-diferença abre as con-dições para a transferência e para seus lim ites, para a elaboração — com o m ergu-lho em si m esm o, carregado da série de outros-si-m esm os próprios à cadeia de deslocam entos dos objetos e das repetições das identificações — e para a alteri-dade — com o abertura para a diferença e para a presença.
Recebido em 20/ 9/ 2004. Aprovado em 12/ 4/ 2005.
1 0 Discuto as noções de “resistência à transferência” e do lim ite da transferência com o o lugar
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Luiz Augusto Celes