REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
ARTIGO
CIENTÍFICO
Efeito
da
lidocaína
venosa
intraoperatória
sobre
dor
e
interleucina-6
plasmática
em
pacientes
submetidas
a
histerectomia
夽
Caio
Marcio
Barros
de
Oliveira
a,b,c,
Rioko
Kimiko
Sakata
d,∗,
Alexandre
Slullitel
e,
Reinaldo
Salomão
f,
Vera
Lucia
Lanchote
ge
Adriana
Machado
Issy
daUniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),SãoPaulo,SP,Brasil bServic¸odeDordoHospitalSãoDomingos(HSD),SãoLuís,MA,Brasil
cSociedadedeAnestesiologiadoEstadodoMaranhão(Saem),SãoLuís,MA,Brasil
dSetordeDordoDepartamentodeAnestesiologia,DoreTerapiaIntensivadaUniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),
SãoPaulo,SP,Brasil
eDepartamentodeAnestesiologia,Associac¸ãoPaulistadeMedicina,SãoPaulo,SP,Brasil
fDepartamentodeInfectologia,UniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),SãoPaulo,SP,Brasil
gFaculdadedeCiênciasFarmacêuticasdeRibeirãoPreto,UniversidadedeSãoPaulo(USP),RibeirãoPreto,SP,Brasil
Recebidoem27deabrilde2013;aceitoem15dejulhode2013 DisponívelnaInternetem7denovembrode2014
PALAVRAS-CHAVE
Lidocaína; Viavenosa; Dorpós-operatória; Histerectomia; Interleucina-6
Resumo
Justificativaeobjetivos: Ainterleucina-6(IL-6)épreditoradeintensidadenotrauma.O
obje-tivodesteestudofoiavaliaroefeitodalidocaínaporviavenosasobreaintensidadedadore IL-6apóshisterectomia.
Método: Oestudofoiprospectivo,randomizado,comparativoeduplo-encobertoem40
paci-entes,entre18e60anos.Foiadministradalidocaína(2mg.kg---1.h---1)noG1ousoluc¸ãosalinaa
0,9%noG2duranteaoperac¸ão.AanestesiafoicomO2/isoflurano.Foiavaliadaaintensidade da dor (T0: despertar e seis, 12, 18 e 24 horas), a primeira solicitac¸ão de analgésico, adosedemorfinanas24horas.AIL-6foimedidaantesdoiníciodaoperac¸ão(T0),apóscinco horasdoinício(T5)e24horasapósotérmino(T24).
Resultados: Nãohouvediferenc¸anaintensidadedadorentreosgrupos.Ocorreudiminuic¸ão
daintensidadedadorentreT0eosoutrosmomentosavaliadosnoG1.Otempoparaprimeira complementac¸ãofoimaiornoG2(76,0±104,4min)doquenoG1(26,7±23,3min).Nãohouve diferenc¸anadosedemorfinacomplementarentreG1(23,5±12,6mg)eG2(18,7±11,3mg). Houve aumento dasconcentrac¸ões de IL-6 em ambos os grupos de T0 para T5 eT24. Não houvediferenc¸anadosagemdeIL-6entreosgrupos.Aconcentrac¸ãodelidocaínafoi856,5± 364,1ng.mL---1emT5e30,1±14,2ng.mL---1emT24.
夽
TrabalhodesenvolvidonaUniversidadeFederaldeSãoPaulo(UNIFESP),SãoPaulo,SP,Brasil.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](R.K.Sakata). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2013.07.017
Conclusão:Alidocaína(2mg.kg-1.h---1)porviavenosanãopromoveureduc¸ãodaintensidadeda
doredosníveisplasmáticosdeIL-6empacientessubmetidasahisterectomiaabdominal. ©2014SociedadeBrasileira deAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
KEYWORDS
Lidocaine; Intravenously; Postoperativepain; Hysterectomy; Interleukin-6
Effectofintraoperativeintravenouslidocaineonpainandplasmainterleukin-6 inpatientsundergoinghysterectomy
Abstract
Backgroundandobjectives: Interleukin-6(IL-6)isapredictoroftraumaseverity.Thepurpose
ofthisstudywastoevaluatetheeffectofintravenouslidocaineonpainseverityandplasma IL-6afterhysterectomy.
Method: Aprospective,randomized,comparative,double-blindstudywith40patients,aged
18-60years.G1receivedlidocaine(2mg.kg−1.h−1)orG2received0.9%salinesolutionduring
theoperation.AnesthesiawasinducedwithO2/isoflurane.Painseverity(T0:awakeand6,12,
18and24hours),firstanalgesicrequest,anddoseofmorphinein24hourswereevaluated.IL-6 wasmeasuredbeforestartingsurgery(T0),fivehoursafterthestart(T5),and24hoursafter theendofsurgery(T24).
Results:Therewasnodifferenceinpainseveritybetweengroups.Therewasadecreaseinpain
severitybetweenT0andothermeasurementtimesinG1.Timetofirstsupplementationwas greaterinG2(76.0±104.4min)thaninG1(26.7±23.3min).Therewasnodifferencein sup-plementaldoseofmorphinebetweenG1(23.5±12.6mg)andG2(18.7±11.3mg).Therewere increasedconcentrationsofIL-6inbothgroupsfromT0toT5andT24.Therewasnodifference inIL-6dosagebetweengroups.Lidocaineconcentrationwas856.5±364.1ng.mL−1inT5and
30.1±14.2ng.mL−1inT24.
Conclusion: Intravenous lidocaine(2mg.kg−1.h−1)did not reduce pain severity and plasma
levelsofIL-6inpatientsundergoingabdominalhysterectomy.
© 2014SociedadeBrasileirade Anestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Allrights reserved.
Introduc
¸ão
Adosee adurac¸ão dainfusãovenosadelidocaína perma-necemcontroversas.Alémdisso,aindanãofoideterminada suaeficácia.Otraumacirúrgicocausaliberac¸ãode citoci-nas,quesãoresponsáveisporrespostasinflamatóriaslocais epromovemacicatrizac¸ãotecidual.1Ainterleucina-6(IL-6)
éumacitocinaqueédetectadaprecocementeemresposta aotraumaeseuaumentoestácorrelacionadocomograude lesãotecidual.1,2
Algunsautorestêmmostradoquealidocaínavenosa pro-move reduc¸ão de citocinas,3,4 doconsumo de anestésicos
inalatórios5 e de opioides6,7 e reduc¸ão da intensidade da
dor pós-operatória.3,6,7 Além disso, doses baixas de
lido-caína venosa (concentrac¸õesplasmáticas menores doque 5g.ml−1)nãointerferemcomaconduc¸ãonervosanormal,
eestãoassociadascommenorincidênciadeefeitosadversos dosopioides.3,6,8
A lidocaína promove efeito analgésico,6
anti-hipe-ralgésico6,9 e anti-inflamatório.4,10 A analgesia pode
per-sistir, mesmo após reduc¸ão das suas concentrac¸ões plasmáticas.10,11
Os canais de sódio voltagem-dependentes são os alvos clássicos da lidocaína.12 A ac¸ão analgésica e
anti--inflamatória também ocorre através de canais de cálcio
e potássio e receptores acoplados à proteína G.13,14 Pela
ac¸ãosobreoscanaisdesódioepotássiocausabloqueioda transmissãoneuronal e reduz a respostaneurogênica.13,15
Ometabólitodalidocaína,monoetilglicinaxilidida(MEGX), tambémpodeexercerefeitoanalgésico.16Alidocaínareduz
acaptac¸ãode glicina somenteem concentrac¸õestóxicas, aocontráriodaMEGX.Entretanto,outrosestudosnãotêm evidenciadoefeitoanalgésicodalidocaína.17,18
Assim, o objetivo primário deste estudo foi avaliar o efeitodalidocaína venosaintraoperatóriasobrea intensi-dadedadorpós-operatóriaeosníveisplasmáticosdeIL-6 apóshisterectomiaabdominal.
Métodos
Após aprovac¸ão do Comitê de Ética em Pesquisa da Uni-versidadeFederaldeSãoPauloeconsentimentoinformado assinado,foramestudadas40pacientes,ASA1ou2,entre 18e60anos,submetidasàhisterectomiatotaleletiva,por viaabdominal,pormeiodeincisãodePfannenstiel.
ouoncológica;quereceberamqualquertipodeanalgésico nasemanaanterioràoperac¸ãoequereceberam hemoderi-vadosduranteoperíododoestudo.
Oestudofoiprospectivo,duplamenteencobertoecom distribuic¸ãoaleatóriadaspacientesparacadaumdosdois grupos:G1---infusãodelidocaínaeG2---infusãodesoluc¸ão salinaa 0,9% (controle). As pacientesforam divididas em doisgruposdeigualtamanhoporsorteio.Adistribuic¸ão alea-tóriafoifeitapormeiodosregistrosdoG1edoG2,colocados emenvelopeslacrados,preparadosantesdoiníciodoestudo eabertos,aproximadamente,30minutosantesdaanestesia porummédico,quepreparouasoluc¸ãovenosae identificou--acomo númerodopaciente, deacordo como envelope sorteado.Asoluc¸ãofoientregueaoutromédico responsá-velpelaanestesia,quenãosabiadoconteúdodassoluc¸ões preparadas.O volumedasoluc¸ãofoi igual.O pesquisador responsávelnãoteveconhecimentodogrupoescolhidoaté ofimdoestudo.
AspacientesdoG1(n=20)receberam2mg.kg−1.h−1de lidocaínaeasdoG2(n=20)soluc¸ãosalinaa0,9%,emigual volume,cujainfusão foi iniciada nomomentodainduc¸ão anestésicaemantidaatéotérminodaoperac¸ão.
Foi administradomidazolam, na dose de15mgpor via oral, uma hora antes da anestesia. As pacientes foram monitoradas com eletrocardiografia e oximetria de pulso contínuase medidasintermitentesde pressãoarterialpor métodonão invasivo a cada cinco minutos. A induc¸ão da anestesiafoifeitacom5g.kg−1defentanilae2mg.kg−1de
propofol;obloqueioneuromuscularfoiobtidocomatracúrio (0,5mg.kg−1).A anestesia foimantida com O
2/isoflurano, nadose suficiente paramantera pressãoarterialsistólica nolimite de 20% do valorbasal. O bloqueio neuromuscu-larfoimantidocom0,2mg.kg−1deatracúrio,administrado a cada 30 minutos. Durante o procedimento cirúrgico, nãoforamusadasdosesadicionaisdeopioidesnemoutros analgésicos.Não foifeitaprofilaxia para náuseae vômito pós-operatórios.
Apósaoperac¸ão,aspacientesforammonitoradasnasala derecuperac¸ãoanestésicae,posteriormente,levadaspara aenfermaria.Foramadministrados5mgdemorfinaporvia subcutâneaporescalpe23G,conformenecessário.
Amostras de sangue foram coletadas, em tubos de EDTA(ethylene diaminotetra acetate),logo após punc¸ão venosa em membro superior contralateralantes do início da operac¸ão (T0), cinco horas após o início da operac¸ão (T5)e24horasapósotérminodaoperac¸ão(T24).As amos-trasdesangueforamcentrifugadaseoplasmafoiseparado e armazenado a -70◦C atéa análise. As dosagens de IL-6
foramanalisadaspelotesteimunoenzimáticoElisa(enzyme linkedimmunosorbentassay).Alidocaínaeseumetabólito MEGXforamanalisadosporHPLC(cromatografialíquidade altaperformance),cincohorasapósoiníciodaoperac¸ãoe 24horasapósaoperac¸ão.
Aintensidadedadorfoiavaliadaem repouso pormeio daescalanuméricaverbal(EN),de0a10(0correspondeà ausência de dor e 10, à dor mais intensa possível). Tam-bém foi aplicada a escala descritiva verbal (EV): 0=dor ausente, 1=dor leve, 2=dor moderada e 3=dor intensa. Os escores foram registrados nos seguintes momentos: T0=imediatamenteaodespertar;T6=seishorasapóso des-pertar;T12=12horasapósodespertar;T18=18horasapós odespertar;T24=24horasapósodespertar.
Paraanalgesiapós-operatória, morfina(5mg)foi admi-nistradapor viasubcutânea, conformea necessidade,por umaenfermeira. Foramanotados o momentoda primeira solicitac¸ão de analgésico, a dose de morfina suplementar necessária nas primeiras 24 horas e a dose de isoflurano usada no período intraoperatório. Também foi registrado qualquerefeitocolateral.
Análiseestatística
O cálculo do tamanho da amostra foi feito com o pro-gramaGraphPadInstat®(GraphPadSoftwareInc.,SanDiego, CA,EUA).Para isso,foiconsiderada areduc¸ão da intensi-dadedadorcausadapelalidocaína.Baseadoemumestudo piloto conduzido pelo mesmo grupo de pesquisadores, o desvio-padrão (DP) foi estimado em 2,2. Uma diferenc¸a de pelo menos 3 na escala numérica (0-10) foi conside-rada clinicamente relevante. Como a dor é subjetiva e individual,trêsníveisdediferenc¸aforamconsideradosum padrão significante demudanc¸a ouum fator de melhoria oupioraimportante.Olimitedeconfianc¸aadotadofoide 95%.Assim,foicalculadaumaamostracomummínimode 20pacientesemcadagrupo.Osseguintestestesforam usa-dos: de Mann-Whitney para comparar idade e índice de massa corporal (IMC); t de Student para comparar peso, altura,durac¸ãodaanestesia,durac¸ãodaoperac¸ão,tempo paraprimeirasuplementac¸ãoanalgésica, quantidadetotal demorfinausada em24horas,intensidadedador, quanti-dadedeisofluranoconsumidoeníveisdeIL-6plasmática.Os dadosforamexpressosemmédia±DP.
Resultados
Asequênciadoestudoestánofluxograma(fig.1).19Os
gru-posforamsemelhantesemrelac¸ãoaosdadosdemográficos eàdurac¸ãodaoperac¸ãoedaanestesia(tabela1).
Não houve diferenc¸a na intensidade da dor entre os doisgruposnosmomentosavaliados(tabela2).Nãohouve diferenc¸aestatisticamentesignificantenaconcentrac¸ãode IL-6entreosgrupos(tabela3).
O tempo para requerer a primeira dose de morfina paraanalgesiapós-operatóriafoimaiornoG2(76±104,4) que no G1 (26,7±23,3) (tabela 4). Não houve diferenc¸a entre os grupos na dose de morfina complementar e de volume de isoflurano (tabela 4). As concentrac¸ões de lidocaína e de seu metabólito, MEGX, estão expostas na tabela5.Ocorreunáuseaemsetepacientesdecadagrupo.
Discussão
Não foi obtido efeito analgésico com infusão venosa de lidocaína e também não houve reduc¸ão da concentrac¸ão plasmáticadeIL-6.
Nesteestudofoiescolhidahisterectomiaabertaporque está associada com dor intensa durante o período pós--operatório, com grande chance de haver mudanc¸as no processamentoneuronaldocornodorsaldamedulae,desse modo,permitircompararosgrupos.20
Avaliadas para o estudo (n = 80)
Excluídas (n = 34)
• Sem critériode inclusão (n = 34)
• Recusou participar (n = 0)
Randomizadas (n = 46)
Alocado ao G2 (n = 22)
• Submetido ao placebo (n = 22)
• Não submetido ao placebo (n = 0) Alocado ao G1 (n = 24)
• Submetido à lidocaína (n = 24)
• Não submetido à lidocaína (n = 0)
Perda de seguimento (n = 4)
Descontinuou (n = 0)
Perda de seguimento (n = 2)
Descontinuou (n = 0)
Analisados (n = 20) Excluída da análise (n = 0)
Analisados (n = 20)
Excluídos da análise (n = 0)
Arrolamento
Alocação
Seguimento
Análise
Figura1 FluxogramabaseadonoConsort.19
Tabela1 Dadosdemográficos,durac¸ãodaanestesiaedaoperac¸ão
G1 G2 P
Idade(anos) 44,1±6,6 42,9±5,7 0,646a
Peso(Kg) 72,2±13,7 74,2±12,6 0,379b
Altura(cm) 159,12±6,5 158,0±6,6 0,343b
IMC(Kg.m−2) 28,5±5,4 29,7±5,3 0,133a
Durac¸ãodaoperac¸ão(min) 102,6±49,4 93,0±48,2 0,122b
Durac¸ãodaanestesia(min) 145,1±51,8 124,0±43,8 0,172b
G1,lidocaína;G2,soluc¸ãofisiológica;IMC,índicedemassacorporal. a TestedeMann-Whitney.
b TestetdeStudent.
oque podeexplicar aausênciadeefeitoanalgésiconeste estudo.3,5---7
Emumestudo,3foramadministrados2mg.kg−1de lido-caínaembólusemantidainfusãode3mg.kg−1.h−1.Emoutro estudo,oefeitoanalgésicoepoupadordemorfinafoimais
evidentenoterceirodiapós-operatório,6porémesteestudo
foilimitadoa24horas.
Deve ser lembrado que a dose e a durac¸ão dainfusão venosadelidocaína,comoobjetivodeobteranalgesia pós--operatória,aindanãoforambemdefinidas.21 Entretanto,
Tabela2 Intensidadedadorpelaescalanumérica
Momentos(h) G1(n=20) G2(n=20) Pa
Escores IC95% Escores IC95%
T0 3,2±3,9 1,3---5 2,5±3,7 0,7---4,2 0,602
T6 1,4±1,8 0,5---2,3 1,8±1,6 1---2,5 0,307
T12 0,8±1,5 0---1,4 1,3±1,8 0,4---2,1 0,307
T18 0,9±1,5 0,1---1,5 1±1 0,5---1,5 0,476
T24 1±1,6 0,3---1,8 1,3±1,6 0,5---2 0,602
G1,lidocaína;G2,soluc¸ãofisiológica;IC95%,intervalodeconfianc¸a95%;T0:despertar;T6,T12,T18eT24:6,12,18e24horasapós despertar.
Tabela3 Concentrac¸ãodeIL-6plasmática(pcg.ml−1)
Tempos(h) G1(n=20) G2(n=20) Pa
T0 0,95±4,25 2,56±7,55 0,602
T5 20,34±17,83 19,44±17,88 0,841
T24 24,95±14,82 34,73±15,62 0,056
G1,lidocaína;G2,soluc¸ãofisiológica;T0,antesdaincisãocirúrgica;T5,cincohorasapósaincisão;T24,24horasapósasuturadapele. aTestedeMann-Whitney.
Tabela4 Volumedeisofluranousado,tempoparaoprimeirorequerimentoanalgésicoedosesuplementardemorfinaem24 horas(média±DP)
G1(n=20) G2(n=20) Pa
Tempoparaaprimeiracomplementac¸ão(min) 26,7±23,3 76,0±104,4 0,046 Dosedemorfinacomplementarem24h(mg) 23,5±12,6 18,7±11,3 0,217 Volumedeisofluranousado(ml) 25,2±8,9 26,5±10,6 0,679
G1,lidocaína;G2,soluc¸ãofisiológica. aTestetdeStudent.
algunsestudostêmdemonstradobonsresultadoscomdoses baixasdelidocaína(concentrac¸ãoplasmáticamenordoque 5g.ml−1).6
Como as dosagens de lidocaína plasmática não faziam parte do objetivo deste estudo e serviam apenas como informac¸ãoadicional,suaanálisefoifeitanosmesmos tem-pos dedosagem daIL-6: antesdo inícioda cirurgia (T0), apóscincohorasdoiníciodacirurgia(T5)e24horasapóso términodaanestesia(T24).Comoomaiortempode cirur-gianoG1durouaté210minutos,nãofoicoletadaamostra desangue durante ainfusão delidocaína intraoperatória. Porisso,nãofoipossívelmediralidocaínanoauge desua concentrac¸ão. Nos tempos T5 e T24, a medida de lido-caína alcanc¸ou a média de 0,86g.ml−1 e 0,55g.ml−1,
respectivamente. Esses resultados estão bem abaixo das concentrac¸õesconsideradaseficazes,osquaisvariamde2a 10g.ml−1.22 Nesteestudo,alidocaínaporviavenosanão
reduziua intensidade dador pós-operatória, semelhante-mente a alguns estudos,16,18 provavelmente por causa do
curtotempodeinfusãoedaausênciadedosebólusinicial. Emboratenhasidocitadoquehaveriamaiorefeito anal-gésicoqueaumentariaotempodeinfusão,emvezdadose delidocaína, o estudo de Koppert et al.,6 que usou
infu-são de dose baixa de lidocaína por até uma hora após cirurgia, apresentou resultados positivos prolongados por até 72 horas. Em nosso estudo, a infusão de lidocaína foi interrompida no fim da operac¸ão, como em outros estudos.3,5,8,23---26Adosedelidocaína foibaseadanoestudo
deLauwicketal.5Defato,bólusdelidocaínanãofoiusado
Tabela5 Níveisplasmáticosdelidocaínae monoetilglici-naxilidida(MEGX)(ng.ml−1)noG1
Momentos(h) Lidocaína MEGX
T5 856,5±364,1 545,6±212,9
T24 30,1±14,2 ND
G1,lidocaína;T5,cincohorasapósaincisão;T24,24horasapós
asuturadapele;ND,nãodetectável.
antesdainfusão,porqueemalgunsestudoshouvereduc¸ão dadorpós-operatóriasomentecominfusão.23,27
Neste estudo, as pacientes que receberam lidocaína requisitaramaprimeirasuplementac¸ãoanalgésicamais pre-cocementedoqueogrupocontrole.Umapossívelexplicac¸ão paraesseresultadopodemseragrandevariabilidade indi-vidual dos limiares de dor e as respostas das pacientes aosanalgésicos.Comohouveconsideráveldiscrepâncianos temposdesolicitac¸ãodaprimeiradosesuplementarde anal-gésicoentreaspacientesdoG2,odesviopadrãofoimaior doqueamédiadogrupo.
Ainterleucina6(IL-6) é ummarcadorprecoce delesão tecidualeseuaumentoexcessivoeprolongadoestá relacio-nadoamaiormorbidadepós-operatória.2Emnossotrabalho,
aIL-6foidosadaantesdoiníciodacirurgia(T0),apóscinco horasdoiníciodacirurgia(T5)e24horasapósotérminoda anestesia(T24),deacordocomopicoplasmáticodescrito notrabalhodeHongetal.,28noqualaIL-6édetectávelem
60minutos,compicosanguíneoentrequatroeseishorase podepersistirpor10dias.
Houveaumentoprogressivoestatisticamentesignificante na dosagem deIL-6 em cada grupo. O maiorvalor foi no últimotempodecoleta(24horasapósasuturacirúrgica). Esse fatocontrastacomostrabalhosdeLinetal.1 e
Her-roederetal.,4 compico deIL-6entrequatroeseis horas
no período pós-operatório, e Kuo et al.,3 com pico 10 e
12 horasapós acirurgia.Houve tendênciadeaumentona última dosagem de IL-6 no G2 em relac¸ão ao G1, o que demonstrapossívelefeitoanti-inflamatóriodalidocaínaou de seumetabólito ativo MEGX, mesmoapós o término da infusãovenosaealémdameia-vidadeeliminac¸ão. Provavel-mente seriademonstradadiferenc¸aestatísticasignificante entreosgruposseaumentássemosotamanhodaamostra.
EstudosexperimentaistêmevidenciadoqueMEGX,mas não a lidocaína, aumentou a atividade glicinérgica (neu-rotransmissão inibitória) por meio do bloqueio de GlyT1 (transportador de glicina 1) no sistema nervoso central emconcentrac¸õesclinicamenterelevantes.16,29,30Emnosso
semelhanteaonívelquelevaàinibic¸ãoinvitrodotransporte deglicinaequefoiobservadoduranteainfusãocontínuade lidocaína.29
Aocontráriodealgunsestudosanteriores,6,7alidocaína
nãoapresentouefeitopoupadordemorfinaeisofluranoem nossoestudo.Alémdisso,nãohouvediferenc¸anadosetotal de morfinaconsumida entreos grupos. Da mesma forma, certosestudosnãodemonstraramefeitoanalgésicocomo usodelidocaína.17,18 Épossívelqueessesachadosestejam
relacionados aos padrões únicos de sensibilizac¸ão perifé-ricaecentralquevariamcomosdiversostiposelocaisde cirurgia.23
Osefeitosanalgésicos dalidocaína sãomais pronuncia-dosquandosuainfusãoocorrenoperíodointraoperatório6
e podem continuar por dias ousemanas, isto é, além do tempodeinfusãoedasuameia-vidaplasmática,11,31oque
indica sua ac¸ão sobre outros alvos, não só os canais de sódio voltagem-dependentes, e sugere uma prevenc¸ão da hipersensibilidadedosistemanervosocentralouperiférico ouambos.7Emcirurgiasabdominais,alidocaínatem
dimi-nuído a durac¸ão do íleo paralítico, a intensidade da dor pós-operatórioeoconsumodeopioides.32---34
Reduc¸ãoclinicamenterelevantenaintensidadedadorfoi observadanotempodedespertardaanestesiaemrelac¸ão aosoutrostemposdeavaliac¸ãocomlidocaína,masnãono G2,oquepoderefletirefeitobenéficodalidocaínaouefeito analgésicodamorfina.
Nenhumaoutradiferenc¸afoiobservadaentreosgrupos emqualquertempodeavaliac¸ão.Nesteestudo,infusãode lidocaínavenosaintraoperatória(2mg.kg−1.h−1),sembólus inicial,nãomelhorouaanalgesiapós-operatórianem redu-ziuosníveisplasmáticosdeIL-6empacientessubmetidasa histerectomiaabdominalaberta.
Maisestudossãonecessáriosparaconfirmaresses resulta-doseavaliarosefeitosbenéficosdalidocaínaempacientes submetidas a outros tipos de cirurgia. Além disso, falta determinar dose adequada, momentode inícioe durac¸ão deinfusão de lidocaína requerida para reduzira dor pós--operatória.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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