REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
OfficialPublicationoftheBrazilianSocietyofAnesthesiologywww.sba.com.br
ARTIGO
CIENTÍFICO
Sufentanil
intratecal
para
revascularizac
¸ão
do
miocárdio
Caetano
Nigro
Neto
a,∗,
Jose
Luiz
Gomes
do
Amaral
b,
Renato
Arnoni
a,
Maria
Angela
Tardelli
be
Giovanni
Landoni
caInstitutodeCardiologiaDantePazzanese,UniversidadeFederaldeSãoPaulo,SãoPaulo,SP,Brasil
bUniversidadeFederaldeSãoPaulo,SãoPaulo,SP,Brasil
cUniversitàVita-SaluteSanRaffaele,Milano,Itália
Recebidoem11demaiode2012;aceitoem11dedezembrode2012 DisponívelnaInternetem15demarçode2014
PALAVRAS-CHAVE Cirurgiacardíaca; Raquianestesia; Sufentanil; Interleucina6
Resumo
Contexto:pacientes de cirurgia cardíaca submetidos a revascularizac¸ão do miocárdio com circulac¸ãoextracorpórea.
Objetivo: avaliaroefeitohemodinâmicodaadic¸ãodesufentanilintratecalparaanestesiageral.
Desenho: estudo prospectivo,randômico e aberto, apósaprovac¸ão do Comitê de Ética em Pesquisa.
Cenário:estudomonocêntricofeito noInstitutoDante PazzanesedeCardiologia,SãoPaulo, Brasil.
Pacientes: foramsubmetidos àrevascularizac¸ãoeletiva40pacientesdeambosossexosque assinaramotermodeconsentimentoinformado.
Critériosdeexclusão: doenc¸a renal crônica, procedimentos de emergência, reoperac¸ões, contraindicac¸ãopararaquianestesia,frac¸ãodeejec¸ãodoventrículoesquerdoinferiora40%, índicedemassacorporalacimade32kg/m2eusodenitroglicerina.
Intervenc¸ões:ospacientesforamrandomizados parareceber(ounão) 1g/kgdesufentanil intratecal.Anestesiafoiinduzidaemantidacominfusãocontínuadesevofluranoeremifentanil. Principaismedidasdedesfecho:variáveishemodinâmicas,níveissanguíneosdetroponinaI car-díaca,peptídeonatriuréticodotipoB,interleucina-6efatordenecrosetumoralalfadurante eapósacirurgia.
Resultados: ospacientesdogruposufentanilprecisaramdemenossuporteinotrópicocom dopa-mina,comparadosaosdogrupocontrole(9,5%vs58%,p=0,001),emenosaumentosdedoses deremifentanil(62%vs100%,p=0,004).Osdadoshemodinâmicosemoitointervalosdetempo diferenteseosdadosbioquímicosnãoapresentaramdiferenc¸asentreosgrupos.
Conclusões: ospacientesquereceberamsufentanilintratecalapresentaramumaestabilidade hemodinâmicamaior, como sugeridopelosuporte inotrópicoreduzido, emenos ajustesnas dosesintravenosasdeopiáceos.
©2013SociedadeBrasileira deAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todosos direitosreservados.
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](C.N.Neto).
0034-7094/$–seefrontmatter©2013SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Todososdireitosreservados.
Introduc
¸ão
Opiáceo administrado por via intratecal em combinac¸ão com anestesia geral reduza intensidade dador e o con-sumo deanestésicos, facilitaa remoc¸ão precoce do tubo endotraquealemelhoraaanalgesiapós-operatóriaem paci-entessubmetidosàrevascularizac¸ãodomiocárdio(RM)com circulac¸ãoextracorpórea(CEC).Alémdisso,podediminuira respostaaoestressecirúrgicoetemefeitocardioprotetor.1---5
Em cirurgia de revascularizac¸ão miocárdica, a prevenc¸ão de eventos adversos perioperatórios, como taquicardia e infartodomiocárdio,éaconselhável.Estabilidade hemodi-nâmicaereduc¸ãodarespostaaoestressecontribuem,em parte,parareduzirosdanosaomiocárdio.1,6
Comparadoà morfina,o sufentanilintratecal proporci-onaanalgesiamaisrápidaeintensa.3,7Defato,porcausada
solubilidadelipídicadamorfina,osefeitosanalgésicos pós--injec¸ãointratecalsãoretardadosesomentegrandesdoses (10mg)administradasporviaintratecalpodeminiciar anal-gesiaintraoperatóriaconfiávelnessecenário.3 Alémdisso,
algunsautoressugeremquesufentanilintratecal proporci-onamelhorestabilidadehemodinâmicaemcomparac¸ãocom outrosopiáceos.2,8
O objetivo desteestudo foi avaliar,pela primeira vez, os efeitos hemodinâmicos da adic¸ão de sufentanil intra-tecal para anestesia geral em pacientes submetidos à revascularizac¸ãodomiocárdiocom circulac¸ão extracorpó-rea.
Métodos
A aprovac¸ão para este estudo (número do protocoloCEP 3458)foifornecidapeloComitêdeÉticaemPesquisado Ins-titutoDantePazzanesedeSãoPaulo,Brasil,em29deagosto de2006.Apósreceberoconsentimentoinformadoassinado, 40pacientesforamincluídosnoestudoeprogramadospara sersubmetidosàRMcomCECe2-4enxertos,comumdos enxertossempredeartériamamáriainternaesquerdaeos outrosdeveiasafenamagna.
Oscritériosdeexclusãoforamdoenc¸arenalcrônica; pro-cedimentos de emergência; reoperac¸ões; contraindicac¸ão para raquianestesia, de acordo com a Conferência de Consenso de 2002da Sociedade Americana de Anestesia Regional9;frac¸ãodeejec¸ãodoventrículoesquerdoinferior
a40%;índicedemassacorporal(IMC)acimade32kg/m2e
usodenitroglicerina.
Os pacientes foram randomicamente designados para doisprotocolosanestésicosdiferentes(gruposufentanilou grupocontrole),adependerdereceberemounãosufentanil intratecal.Uma tabelarandômica gerada porcomputador determinouem quegrupo ospacientesforamalocados.A designac¸ãorandômicafoimantidaemenvelopesseladosaté oúltimomomentopossível(iníciodaanestesia).
Ospacientesreceberamsuasmedicac¸õeshabituaisatéo diadeoperac¸ão,comaexcec¸ãodeagenteshipoglicêmicos orais,osquaisforamdescontinuadose/ousubstituídospor insulinapelomenostrêsdiasantesdacirurgia.Todosos paci-entesreceberam7,5mgdemidazolamporviaintramuscular umahoraantesdacirurgia.
Omonitoramentoincluiueletrocardiogramacontínuoda DIIeV5modificada;análisedosegmentoSTnasderivac¸ões
DII,DI eV5 modificada;oximetriadepulso; pressão arte-rial média (PAM) invasiva de artéria radial; análise do índicebispectral(BIS);capnografia;gasometria;medic¸ãode temperaturanoterc¸oinferiordoesôfago;cateterizac¸ão uri-nária;avaliac¸ãodafunc¸ãoneuromuscularcomTOF-Watch®
e avaliac¸ão dos dados hemodinâmicos feita com cateter deartéria pulmonar(modelo Swan-Ganz,saída contínua), posicionadonaveiasubcláviadireita(monitorVigilanceII®,
EdwardsLifesciences,Irvine,CA,EUA).
Após acompanhamento inicial, os pacientes do grupo sufentanilforamcolocadosemposic¸ãosentadae submeti-dosapunc¸ãolombaremL3-L4comumaagulhaWhitacrede calibre25.Apósconfirmarapunc¸ãodoespac¸osubaracnoide, raquianestesiafoifeitacomsucessoemtodosesses pacien-tes, com administrac¸ão de 5mL de soluc¸ão salina a 0,9% com 1g/kg de sufentanil (sem exceder 100g) durante
10segundos.Aanestesiageralfoientãoiniciada.
Nogrupocontrole,aanestesiageralfoiiniciada imedia-tamenteapósoacompanhamentoinicial.
Todosospacientesforamsubmetidosàinduc¸ãoinalatória daseguinteforma:máscarafacialcomusodesevoflurano a2% em oxigênioa 100%e fluxode gásfrescode6L/min por 30segundos. Aconcentrac¸ão inspirada de sevoflurano foientãoaumentadapara7%atéaperdadeconsciênciae, depois,reduzidapara2%.Em seguida,aperfusão intrave-nosaderemifentanilteveiníciocomumadosede1g/kg
duranteumminutoe0,1mg/kgdepancurôniofoi adminis-tradotrêsminutosantesdaintubac¸ãotraqueal.Ventilac¸ão controladaporvolumefoiiniciadacomosseguintes parâme-tros: volumecorrente 8-10mL/kg, frequência respiratória adequadaparamanteroCO2nofimdaexpirac¸ãoentre30
e35mmHge fluxodegásfrescode2Lcom60%defrac¸ão inspiradadeoxigêniomisturadocomoarcomprimido.
NosperíodosanterioreposterioràCEC,aanestesiafoi mantidacomsevofluranoemfrac¸ãoexpiradacomvariac¸ão entre0,5%e2%paramanteroBISentre40e65. Remifenta-nilfoiadministradoaumataxadeinfusãoaté0,4g/kg/min
paramanterosníveisdapressãoarterialmédiaentre60e 80mmHg.Umbolusde0,02mg/kgdepancurôniofoi admi-nistradoquandoaterceirarespostaàsequênciadequatro estímulosapareceunomonitorTOF-Watchatéofimdo pro-cedimento.
DuranteaCEC,aanestesiafoimantidacomsevofluranoa níveisentre0,5%e2%,administradaemconjuntocomuma mistura deoxigênio earcomprimido nocircuitodo oxige-nadoratravésdevaporizadorcalibradoparamanterovalor doBISentre40e65eremifentanilaté0,4g/kg/minpara
ocontroledapressãoarterialmédiaentre45e70mmHg. Após a conclusão do procedimento cirúrgico, todos os pacientesreceberamumainfusãointravenosacontínuade 2g/kg/mindepropofolcomosedativo eforam
transferi-dosparaaUTI,ondepermaneceramsedadosporumahora. Oprotocolodeanalgesiafoiiniciadonasprimeiras24horas, comumaúnicadoseintravenosade1g/kgdefentanil,
jun-tamentecom1gdedipirona.Amesmadosededipironafoi repetidaacadaseishoras.
Após a extubac¸ão traqueal, analgesia controlada pelo paciente (ACPvenosa)com umabomba deACPVigon® foi
instaladacomosseguintesparâmetros:modosóembolus,
intravenosa.Protocoloslocaisforamseguidosparaaltasda UTIehospitalar.
Osobjetivos hemodinâmicosdurantea anestesiaforam manutenc¸ãodapressãovenosacentral(PVC)epressão capi-larpulmonar(PCP)entre8e12mmHg,comadministrac¸ão decristaloidesecoloidesemanutenc¸ãodapressãoarterial média(PAM)entre60e80mmHg.
Hipotensãoarterial foidefinidacomoPAM<60mmHg(< 45mmHgduranteCEC)pormaisde30segundos.Hipertensão foidefinida como PAM>80mmHg(>70mmHgduranteRM) pormaisde30segundos.
O controle da hipotensão incluiu bolus de 0,1mg de fenilefrina (quando agentes anestésicos esta-vam em níveis mínimos, podia ser repetido a cada minuto); dopamina (quando agentes anestésicos esta-vam em níveis mínimos, pressões de enchimento elevadas e quando IC <2,4L/m2/min) a uma dose de
5g/kg/min, com incrementos de 1g/kg/min até
atin-gir o nível desejado da PAM; norepinefrina (quando IC manteve-se < 2,4L/m2/min a doses de dopamina de
10g/kg/min) a uma dose de 0,1g/kg/min, com
incre-mentos de 0,1g/kg/min até atingir o nível desejado
da PAM. O uso de dopamina, como desfecho primá-rio, foi estritamente regulado por protocolos, como IC baixo documentado (< 2,4L/m2/min); PVC ou PCP
elevada.
O controle da hipertensão incluiu remifentanil (bolus
de0,5g/kg,seguido deaumentodadosedeperfusãode
0,1g/kg/min, com a sequência repetida a cada minuto
atéa taxamáxima deinfusão de0,4g/kg/min),seguido
de nitroprussiato de sódio (0,5g/kg/minaumentado por
incrementos de 0,5g/kg/min até atingir a dose máxima
de2g/kg/min).Sevofluranofoi usadoquandoo valordo
BISexcedeu65.Aconcentrac¸ãoinspiradadesevofluranofoi aumentadapara4%eofluxodegásfrescoa6L/mindurante umminuto,enquantoofluxo degásfrescofoiretornado a 2L/mineaconcentrac¸ãodesevofluranoreduzidapara2%. CasooBISnãoretornasseaosníveispredeterminados,o pro-cedimentoerarepetidoenaausênciadeumaresposta,uma dosede0,05mg/kgdemidazolameraadministrada.
O clampeamento da aorta (durac¸ão máxima de 15minutos, com intervalo de pelo menos doisminutos) foi feito em hipotermia leve (34◦C). Soluc¸ão salina foi
usadaparapreencherooxigenadordemembrana(Vital®
---Nipro,Brasil).
Todososdadosforamcoletadosporobservadores treina-dosqueconheciamoregimeanestésicousado.
OhemogramaincluiutroponinaIcardíaca(cTnI),medida comousodeummétododeimunoensaio(CMIA---Architect®,
Abbott Laboratories, Brasil --- com intervalo normal = 0-0,3ng/mL); peptídeo natriurético tipo-B (PNB), medido com o usode ummétodode imunoensaio (MEIA --- AxSym System®Abbott Laboratories, Brasil --- com valores de
1.400pg/mL parapacientescomclassefuncional[NYHA]I e 3.400pg/mL paraaqueles comclasse funcionalII consi-derados limites normais); interleucina 6 (IL-6) e fator de necrosetumoral␣(TNF␣),medidoscomousodeummétodo
deensaioimunométrico(Immulite®System---Siemens
Medi-cal,EUA),comintervalonormal<3,4pg/mLparaIL-6e < 8,1pg/mL para TNF␣. Todos os hemogramas foramfeitos
noinício do estudo, enquanto PNBe cTnIforam medidos 24horasapósaCECeIL-6eTNF␣10minutosapósainduc¸ão
1000
100
T0 Grupo N Grupo ST0
T1 T1
Log
10
(pg/mL)
T2 T2
T3 T3
T4 T4
T5 T5 10
1
IL 6
Figura1 Níveissanguíneosdeinterleucina6(IL-6).
anestésica, 15minutos, seishoras, 24horas após a CEC e quatrodiasapósacirurgia.
Combasenosdadospessoaisanteriores,previmosquea quantidadedepacientesqueprecisariamdesuporte inotró-picocomdopaminaseriade10%e50%nosgrupossufentanil econtrole,respectivamente.Calculamosqueprecisaríamos deumaamostrade20pacientesporgrupo.Todosos pacien-tesforamanalisadosdeacordocomosprincípiosdeintenc¸ão detratar,cominícioimediatamenteapósarandomizac¸ão.
Análiseestatística
Os dados foram expressos como número (percentagem), média±desviopadrãooumediana(intervalointerquartil). OtestetdeStudent,otesteexatodeFisher,aanálisede qui-quadradodePearsoneotestenãoparamétricode Mann--Whitneyforamusados,quandoapropriado,comoprograma Pacote EstatísticoparaCiênciasSociais (SPSS).Análisede variância(Anova)foiusadaparamedidasrepetidasdedados contínuos,comomarcadoresbioquímicos.
Resultados
Osdadospré-operatóriosforambemequilibradosentreos grupos sufentanil e controle (tabela 1). Os pacientes do grupo sufentanil precisaram de menos suporte inotrópico comdopamina tanto nodesmamequando após a CEC em comparac¸ãocom ogrupocontrole (9,5%vs.58%p=0,001) e de menos aumentos no uso de remifentanil (62% vs. 100%=0,004),comomostraatabela2.
Troponina I cardíaca foi detectada em todos os paci-entesno pós-operatório, sem diferenc¸as entreos grupos: 1,62(0,80-5,59)ng/mLnogruposufentanil vs.1,68 (0,73-3,53)ng/mLnogrupocontrole(p=0,506).Damesmaforma, PNBfoidetectadoemtodosospacientesnopós-operatório, semdiferenc¸asentreosgrupos(p=0,667).PNBaumentoude 36,13(21,70-73,79)pg/mL noperíodo pré-operatóriopara 207,58(89,95-236,77)pg/mL noperíodopós-operatório no gruposufentanilversus39,15(25,77-54,88)pg/mLa188,97 (84,31-247,96)pg/mL nogrupo controle.Osníveis sanguí-neosdeIL-6(fig.1)eTNF␣(fig.2)foramsemelhantesentre
osgrupos.
Tabela 1 Características dos pacientes e tempos cirúrgicos. Dados expressos como números e percentagens ou como média±desviopadrão
Grupocontrole n=19
Gruposufentanil n=21
Dadospré-operatórios
Sexofeminino 6(32%) 7(33%)
Idade(anos) 56±7,2 58±6,7
Índicedemassacorporal(kg/m) 26±3,9 27±2,5
ASAII 19(100%) 20(95%)
ASAIII 0 1(4,8%)
NYHAI 7(37%) 9(43%)
NYHAII 12(63%) 12(57%)
Diabetesmellitus 6(32%) 9(43%)
Hipertensão 15(79%) 19(90%)
Dislipidemia 11(58%) 16(76%)
Fumante 5(26%) 10(48%)
Infartodomiocárdioprévio 5(26%) 6(28%)
Dadosintraoperatórios
Durac¸ãodaanestesia(min) 299±57 292±39,4
Durac¸ãodacirurgia(min) 235±51,7 223±35,5
Durac¸ãodaisquemia(min) 52±14,9 50±15,0
Durac¸ãodaperfusão(min) 74±23,0 69±20,0
1000
100
T0
T0 T1
T1
Log
10
(pg/mL)
T2
T2 T3
T3 T4
T4 T5
T5 10
1
TNFα
Grupo N Grupo S
Figura 2 Níveis sanguíneosdo fator de necrose tumoral␣ (TNF␣).
entreosgrupos,comexcec¸ãodapequenadiferenc¸aapósa CEC.
Episódiosdeconsciênciaforamdetectadosnesteestudo.
Atabela 3 mostra consumo semelhantede analgésicos
duranteasprimeiras24horaspós-operatóriasentreos gru-pos.
O tempode ventilac¸ão mecânica foi de 300 (212-450)
vs. 255 (230-315)minutos nos grupos controle e sufenta-nil,respectivamente(p=0,4),enquanto apermanênciana UTI foide2,7+0,89vs.3,9+3,75dias(p=0,2)e otempo deinternac¸ãohospitalarfoide8,9+6,98vs.9,1+6,1dias, respectivamente.
Atabela4mostraquenãohouvediferenc¸anaincidência decomplicac¸õespós-operatórias,excetopelanecessidade de uma transfusão de sangue, que foi significativamente maior no grupo controle (quatro pacientes, 21%) versus
gruposufentanil(nenhumpaciente),p=0,042.
Tabela 2 Medicamentos usados no período intraoperatório. Dados expressos como números e percentagens ou como
média±desviopadrão
Grupocontrole n=19
Gruposufentanil n=21
p
Medicamentosvasoativos
Dopamina 11(58%) 2(9,5%) 0,001
Fenilefrina 12(63%) 9(43%) 0,2
Nitroprussiatodesódio 17(89%) 19(90%) 0,9
Agentesanestésicos
Aumentosdesevoflurano 0 3(14%) 0,2
Bolusderemifentanil 19(100%) 13(62%) 0,004
Sevoflurano(mL/h) 14±2,4 14±2,5 0,8
Tabela3 Dadospós-operatórios.Dadosexpressoscomonúmero(percentagem),mediana±desviopadrãooumediana(intervalo interquartil)
Variáveis Grupocontrole
n=19
Gruposufentanil n=21
p
Tramadolem24h,n◦depacientes 13(68%) 18(86%) 0,3
Bolusdemorfina,númerodebolusporpaciente 1,5±1,26 1,2±0,98 0,5
ACP/consumodemorfinaem24h,mgporpaciente 8,0±3,15 7,6±3,25 0,8
ACP:analgesiacontroladapelopaciente.
Tabela4 Complicac¸õespós-operatórias.Dadosexpressoscomonúmero(percentagem)
Variáveis Grupocontrole
n=19
Gruposufentanil n=21
p
Reoperac¸ão 1(5,3%) 0 0,5
Reintubac¸ão 0 1(4,8%) 0,9
Arritmiassérias 2(11%) 0 0,2
Consciênciaperioperatória 0 0
---Náuseae/ouvômito 5(26%) 1(4,8%) 0,085
Prurido 0 0
---Óbito 0 1(4,8%) 0,9
Necessidadedetransfusãodesangue 4(21%) 0 0,042
Umpacientedogruposufentanilfoiaóbitonoquintodia pós-operatórioporcausadeumAVCqueocorreunoterceiro diapós-operatório,documentadoportomografia computa-dorizada.
Discussão
O principal resultado deste estudo é que ospacientes no gruposufentanilapresentarammaiorestabilidade hemodi-nâmica,comosugeridopelosuporteinotrópico reduzidoe pelospoucosajustesnasdosesdeopiáceosintravenosos.
Nossoestudotambémconfirmaqueastécnicas neuraxi-ais produzemanalgesia eficaz em pacientes submetidos a cirurgiacardíaca, comodemonstrado porumareduc¸ão do consumoderemifentanilporviaintravenosanospacientes dogruposufentanil.
Aocontrário,nãohouvediferenc¸aemrelac¸ãoaos marca-doresinflamatórios(IL-6eFNT␣)ebiomarcadorescardíacos (cTnI e PNB). O padrão de libertac¸ão (TIc, IL6 e TNF␣) aolongodotempofoisemelhanteaoobservado porMeng etal.,10oqueconfirmaqueemambososgruposaresposta
inflamatória porcausadaelevac¸ão daIL6e TNF␣não foi
atenuadaequea protec¸ãocardíacaporcausadareduc¸ão docTnIePNBnãoocorreu.
Nosso estudo só pode ser comparado ao de Bettex e colaboradores,4queconduziramoúnicoestudorandômico
comadministrac¸ãoounãodesufentanilintratecalem cirur-giacardíaca.Emboraosautorestenhamadicionadomorfina aosufentanilintratecal,osresultadospós-operatórios mos-traramqueacombinac¸ãodesufentanilemorfinapropiciou umperíodopós-operatóriomaiscurtodeintubac¸ãoe anal-gesiaadequadaemcomparac¸ãocomatécnicaintravenosa padrão---diferentementedenossoestudo,quenãomostrou qualquerdiferenc¸anosresultadosobtidos.
Emumestudonãorandômico,Swensonetal.,2
descobri-ramquea combinac¸ãode50gdesufentanil intratecale
500gdemorfinaintratecalemanestesiageralem
pacien-tessubmetidosarevascularizac¸ão domiocárdiopromoveu maiorestabilidade hemodinâmica intraoperatória e redu-ziuoconsumointraoperatóriodeopiáceosintravenosos.Em nossoestudo,apesardenãotermosusadomorfina, obser-vamosqueousodesufentanilintratecalreduziuoconsumo intraoperatóriodeopiáceosintravenosos.
Hansdottiretal.,11conduziramoprimeiroestudoda
far-macocinética no plasma e no líquido cefalorraquiano de sufentaniladministradoporviaintratecalemcirurgia torá-cica.Osautoresconcluíramque,empacientessubmetidosà toracotomia,aadministrac¸ãode15gdesufentanil
intra-tecalem combinac¸ãocom anestesia geralproduziu efeito analgésicomaispotente,comuminíciodeac¸ãomaisrápido e durac¸ão mais curta em comparac¸ão com doses equi-potentes de morfina ou meperidina. Isso foi atribuído à elevadasolubilidadelipídicadesufentanilquandopresente no líquido cefalorraquiano e à rápida transferência para o plasma. Contudo, os mesmos autores mostraram que o líquido cefalorraquiano (LCR)e asconcentrac¸ões plasmá-ticasdesufentanilnãoatingiramo equilíbriomesmo após 10horasdainjec¸ãoinicial.Defato,10horasapósainjec¸ão inicial,aconcentrac¸ãonoLCSaindaera10vezesmais ele-vada do que a plasmática. Esse estudo esclareceu que o principal efeito analgésico de sufentanil administrado no espac¸osubaracnoideé viaabsorc¸ãolocalem vezde sistê-mica.
Há vários fatores que podem determinar a ocorrência de dor, incluindo o aumento do tempo necessário para extubac¸ãoeaocorrênciadeeventosadversosqueresultam em deteriorac¸ão da func¸ãoventricular durante o período pós-operatóriologoapósacirurgiacardíaca.12,13Oalívioda
con-trolar.Emnossoestudo,nãohouvediferenc¸assignificantes entreosgruposemrelac¸ãoaoconsumototaldeanalgésicos nas24 horas após a extubac¸ão. Esses resultados demons-traramqueoesquemapropostodeumaúnicadosealtade sufentanilintratecalnãofoisuficienteparapromover anal-gesiaadequadaduranteoperíodoinicialde24horasapósa remoc¸ãodacânulaorotraqueal.
Hansdottir et al.,11 também mostraram que, embora
sufentanilsejamaislipofílicoeeliminadomaisrapidamente dolíquidocefalorraquianodoqueoutrosopiáceos,comoa morfina,quandodosesdesufentanilde15gforam
injeta-dasnoespac¸osubaracnoide,aconcentrac¸ãodeopiáceono líquidocefalorraquianopermaneceuemconcentrac¸ões resi-duais15±5vezesmaioresdoquenoplasmaporaté10horas (600minutos)apósainjec¸ão. Fournieretal.,14 em estudo
noqualpacientesforamsubmetidosàartroplastiatotaldo quadril,concluíramqueumaúnicadosede7,5gde
sufen-tanilintratecalfoisuficienteparareduziraintensidadeda doremanterovalordaEVAabaixode3porumperíodode 224±100minutos.Emnossoestudo,asdosesdesufentanil intratecaladministradasforamatésetevezesmaisaltasdo queas propostaspor Hansdottir e 14 vezes maisaltas do queaspropostasporFournier.Mesmoassim,tiveramefeito apenasnoperíodoperioperatório,enãonocontroledador pós-operatória.
Oaumentodanecessidadedeconcentradodehemácias nogrupocontrolefoiumachadoinesperadoeosautoresnão conseguiram encontrar uma hipótese fisiopatológica para justificá-la(provavelmente,umefeitodopequenotamanho daamostra).
Em nossa instituic¸ão, a induc¸ão inalatória é conside-radaparacirurgiacardíacaporqueéfácildefazer,mesmo empacientes adultos,etemmelhor estabilidade hemodi-nâmica,emcomparac¸ãocomalgunsagentesintravenosos, comodescritoporoutrosautores.15,16
A dose raquidiana de1g/kg, limitadaa 100g/kg, é
usada em nossa instituic¸ão porque concordamos com os autoresqueconcluíramquea ac¸ãoprincipaldesufentanil énamedulaespinhal11;logo,asdosesrelacionadasaopeso
ouàalturagarantiriammaiordispersãonoLCSem pacien-tescommaispesooualturaeresultariamemaltosníveisde analgesiae,consequentemente,melhorcontrole dos estí-mulosdaincisãotorácicaalta,diferentementedeSwenson e Bettex,2,4 que descrevemuma única dose intratecal de
50gdesufentanilparacirurgiacardíaca.
Limitac¸õesdoestudo
Oestudofoiabertoparaousodesufentanilporvia intra-tecal.Noentanto,todososprotocolosincluídosnoestudo foramseguidosrigorosamente.
Conclusão
O principal resultado deste estudo é que os pacientes que receberam sufentanil intratecal apresentaram maior estabilidadehemodinâmica, em comparac¸ão com aqueles quereceberamumtratamentopadrão,comosugeridopelo suporteinotrópicoreduzido(dopaminanodesmamedaCEC eduranteoperíodoperioperatórioparamanterosvalores
hemodinâmicos)epelospoucosajustesnasdoses intraveno-sasdeopiáceos.
Financiamento
EstetrabalhofoisubsidiadopeloInstitutoDantePazzanese de Cardiologia e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
Referências
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