CONSTRUÇÕES PASSIVA E IMPESSOAL:
DISTINÇÕES FUNCIONAIS
1Roberto Gomes CAMACHO2
• RESUMO: A caracterização tipológica da passiva, necessariamente escalar e não discreta, envolve, segundo Givón (1981), três domínios funcionais: atribui-ção de um tópico, impessoalizaatribui-ção e detransitivizaatribui-ção. O principal interesse deste trabalho é fornecer uma caracterização funcional à diferença morfossin-tática entre as construções passiva e impessoal do português falado.
• PALAVRAS-CHAVE: Voz passiva; voz impessoal; topicalização.
Introdução
De u m ponto de vista fun cion al, as con str uções de voz exer cem uma diver sidade de valores sem ân tico-or acion ais e p r agm át ico-d iscu r sivos, codificados na sin taxe por difer entes tip os de con figu r ações est r u t u r ais. Em r azão dessa complexidade gr am atical, a liter atur a fu n cion al t em p r e-fer ido defin ir voz como u m dom ínio m u lt ifat or ial, tendo por base algum a car act er ização pr ototípica a par tir da qual outr os tip os de con st r u ção gan ham contor no pr ópr io. A ad oção do p r in cíp io de que estr utur as lin gü ís t ica s n ão são isoladas, mas ten dem a apr esentar sim ilar idades par
-1 Es t e artigo é uma ve rsão parcial do trabalho
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Construções de voz, apre se ntado no X Se m inário doProjeto de Gram ática do Po rtuguê s Falado , Campos de Jo rdão , SP, de 8 a 1 3 .2 .1 9 9 8 . a s e r publicado no volume XIII da Gram ática do português falado, e m pre paração. Como um a forma de ho me
na-ge m , de dico -o ao Prof. Borba, que faz linguis tica com e nna-ge nho e arte , e s e rie dade , m as s e m perder jam ais o humor e a cam aradage m .
2 Pe squisador do CNPq (Proc. n° 301185/ 921) De partame nto de Te oria Lin gu is tica e Lite rária In s -tituto de Bio ciê n cias , Le tras e Ciê n cias Exatas - UNESP -1 5 0 5 4 -0 0 0 - São Jo s é do Rio Preto - SP - Bras il - cam acho 8 tll.ibilce .une s p.br.
ciais entr e s i, tem levado lin gü ist as de diver sas t e n d ê n cia s a adotar uma visão escalar e n ão-d iscr et a da lin guagem (cf. Hopper & Thom p-son , 1980; Shibat an i, 1985), ponto de vista que t am b ém se ap lica a este tr abalho.
Ser u m conceito m u lt ifat or ial sign ifica que a voz ver bal r epr esenta u m gr ande númer o de valores e de possibilidades cor r espondentes de exp r essão que, segundo Givón (1981, 1994), envolvem tr ês d om ín ios
fun cion ais: a)
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
topicalidade: at r ibu ise a fun ção de Tóp ico a u m ar gu -mento n ã o-Age n t e ; esse compor ta-mento é oposto ao da se n t e n ça ativacor r espondente, em que o Tóp ico é comumente o Sujeito/ Agente; b) im -pessoalidade: supr ime-se a iden tidade/ pr esen ça do ar gum ento Age n t e , ger almente o Sujeito expresso da se n t e n ça a t iva ; c) detransitividade: a con st r u ção de voz é sem anticam ente menos "at iva", menos t r a n sit iva , m ais estativa que a con str ução "ativa" cor r espondente.
Givón (1994) consider a centr ais tr ês d im en sões s e m â n t ica s par a a com p r een são dos conceitos de t r an sit ivid ad e/ d et r an sit ivid ad e, que defin em o que ele denomina "evento t r an sit ivo p r ototíp ico" e, por exten -sã o, a base da voz at ivo-t r an sit iva: a) a or ação t r an sit iva pr ototípica envolve um Agen t e ativam en te in iciad or , contr olador , volicion al, que é r espon sável pelo evento, p or t an t o, sua causa saliente; b) envolve t a m -b é m u m Paciente não-contr olador , in a t ivo, n ão-volicion al, que r egistr a uma m u d a n ça de estado, p or t an t o, seu efeito saliente; c) o ver bo cod ifi-ca u m evento com pacto, lim it a d o, e r eal. Como se n ota, esse pr otótipo se der iva do estudo sobre t r an sit ivid ad e de Hopper & Thom pson (1980), por ém a for m ulação de Givón id e n t ifica o essencial nos dez fator es ar-rolados por aqueles autor es para id en t ificar a t r an sit ivid ad e m ais em ter mos se m â n t icos que m or fossin t át icos.
Ao examinar as con st r uções passivas em u t e, Givón (1981) observa dois fatos m or fossin táticos: o Agen t e é necessar iamente ausente e t o-dos os dem ais p ar t icip an t es (in clusive o novo Tópico) m an t êm o mesmo estatuto da at iva. A passiva, que é, ela pr ópr ia, mar cada com um sufixo ver bal, m an t ém a mar ca de númer o do ar gum ento n ão-exp r esso, o Age n t e . Isso sign ifica que o Sujeito/ Agente m an t ém contr ole sobre a categor ia de númer o e não o cede ao ar gumento topicalizado da senten-ça passiva. Alé m disso, a atr ibuição da fu n ção de Tóp ico n ão sofre res-tr ição selecionai: ar gumentos ger almente baixos na Hier ar quia de Fu n çõe s Se m â n t ica s (Dik, 1989), como Tempo e Locat ivo, podem r ece-ber a fu n ção t óp ica.
A passiva de lín gu a s, como o in glê s, mostra com por tam ento oposto ao m encionado: além de não preservar sua mar ca or igin al de caso, o ar
gum ento n ão-Su jeit o, n ã o-Age n t e não é necessar iamente su p r im id o; a categor ia de númer o é contr olada pelo novo Tóp ico; há r estr ições à s fu n ções s e m â n t ica s dos p ar t icip an t es da at iva cor r espondente par a que possam ser pr omovidos a Sujeito/ Tópico da passiva. Em con s e q ü ê n cia desses tr aços difer enciador es, o in glês e o ute con st it u em , par a Givó n ,
dois pólos de u m
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
continuum em cujos inter valos se enquadr am outr as con st r u ções. Os par âm etr os que for necem as bases par a a con st r u çãodessa escala r esultam de cat egor izações e gen er alizações (cf. Givón , 1981, p.168) dos seguin tes tr aços m or fossin táticos:
(a) O gr au em que as pr opr iedades de m ar cação de caso pr esentes no Sujeito/ Agente da ativa se ap licam t am bém ao Tóp ico n ão-agen t ivo da passiva (baixo no u t e , que se compr ova na con ser vação de m a r ca çã o de caso; alto na passiva do in glê s, em que o Sujeito/ Tópico se tor n a o SN n om in at ivo).
(b) O gr au em que a iden tidade do Sujeito/ Agente da ativa est á au-sente na passiva (completamente auau-sente no ute e facultativa no in glês). (c) O gr au em que a se n t e n ça passiva conserva as pr opr iedades se-m â n t ica s e sin t á t ica s de at ivid ad e e t r an sit ivid ad e (baixo ese-m in glê s , alto em u t e , em que se conser va a m ar cação de caso: o Age n t e ausente m an t ém contr ole de númer o e se pr eser va, sem an ticam en te, o car áter ativo do evento).
(d) O gr au em que é p ossível at r ib u ir a fu n ção de Sujeito/ Tópico a ar gumentos com difer entes fu n ções s e m â n t ica s (alto em u t e , em que n ão ocor r em quaisquer r estr ições; baixo no in glê s, em que somente o Paciente é p r om ovid o).
Essas d im en sões escalares t ip ológicas in ter agem sobre u m sistem a de in t er d ep en d ên cias que atua, assim , como uma escala abr angente par a a r ep r esen t ação in t egr al das d im en sões gr am aticais da passiva. As cor r elações est ão baseadas na r elação do p r im eir o par âmetr o (at r i-b u içã o de Tóp ico) com os demais (cf. Givón , 1981, p.169). Assim , quanto menos uma lín gu a at r ibu ir m ar cação de Agente/ Sujeito a Tóp ico na passiva, tan to mais as s e n t e n ça s passivas: (i) tender ão a su p r im ir o Agen t e da ativa (a-b); (ii) m anter ão tr aços t r an sit ivos e ativos (a-c); (iii) aceit ar ão ar gumentos n ão-Sujeit o n ã o-Age n t e como seu Tóp ico (a-d).
Objetivos e pressupostos metodológicos
Em sentido am plo, r econhece-se a e xist ê n cia de duas con st r u ções p r in cip ais de voz em p or t u gu ês: voz passiva e voz im pessoal. A passiva,
t am b ém chamada
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
analítica, é con st it u íd a por auxiliar , em qualquer um de seus tempos ver bais, e u m p ar t icíp io passado, seguido ou n ão de umSP agen t ivo.
A im p essoal,3 t am bém chamada passiva sintética, é con st it u íd a
pela fórmula ver bo na 3a pessoa da forma ativa com binada com o pr
onome se, na chamada função de apassivador, que é como t r ad icion alm en -te se q u alifica o clít ico, quando se r epor ta a u m sujeito de 3a pessoa que,
na r ep r esen t ação lin gü íst ica , n ão figur a como Sujeito at ivo.
Nessa con st r u ção de voz, o clít ico se n ão apr esenta r elação anafór i-ca, e, por con seguin te, t am bém n ão cor r efer encial com o SN Sujeito, es-tan do antes em seu lugar ; sendo assim , pode ser encar ado como um mor fema sinalizador de passiva, que a d en om in ação pronom e apassiva-dor, cunhada pela gr am át ica t r ad icion al, tr aduz apr oxim adam en te. O efeito s e m â n t ico mais car act er íst ico desse t ip o de for m ulação é um ca-ráter d esin d ivid u alizan t e ou impessoalizador , com a in d et er m in ação da entidade p r ot ot ip icam en t e agen t iva.
O objetivo deste tr abalho é mostrar que as con st r u ções passiva e impessoal cor r espondem, na gr am át ica do p or t u gu ês falado, aos dois extr emos da escala, embora sejam r egidas pelas mesmas r estr ições se-m â n t ica s ese-m r elação ao t ip o de pr edicado subjacente en volvido. Para examinar as duas con st r u ções de voz de uma per spectiva p r a gm á t ica , tom ar -se-á por par âmetr o que o p r in cip al componente desse fen ôm en o é a r elativa top icalid ad e do Agen t e e do Paciente no evento sem an tica-m ente t r a n sit ivo, t al cotica-mo pr oposto por Givón (1981).
A d e scr içã o das gr a m á t ica s t r ad icion ais sustenta que con st r u ções impessoais são passivas r eais em r azão de ser o ar gum ento ú n ico o Su-jeit o for mal: embora posposto, contr ola a con cor d ân cia n úm er o-p essoal com o ver bo. En t r et an t o, nem todas as con st r u ções desse t ip o se fazem marcar por se, elim in ação que, de r esto, acompanha a per da de clít icos já atestada no p or t u gu ês (cf. Kato & Tarallo, 1986). Alé m disso, nem sempr e, como se sabe, o ar gumento ú n ico do pr edicado na con st r u ção impessoal se compor ta como Sujeito r eal: além de ocupar uma p osiçã o destin ada ao Objeto, nem sempre se m an t ém a cod ifica çã o m or fossin
-3 Câm ara Júnio r (1 9 7 2 , p.185) se refere ao surgime nto, no domínio indo-e urope u, de uma voz pas s iva de forma reflexivo-pronominal que as línguas românicas tornaram impe sso al com a inte gração do suje ito no pre dicado: "Em po rtuguê s , como e m italiano, isso se e xprime pe la falta de co nco rdância e ntre o nome e o ve rbo, que fica invariáve l no s ingular". Em razão da te ndê ncia s e m anticam e nte impe ssoalizadora das co ns truçõ e s m é dias , re se rva-se a e s s e tipo de co ns trução de voz, ne ste tra-balho, o rótulo "im pe s s o al", també m adotado alhure s na lite ratura funcionalista (cf. Noonan, 1994; Arce -Are nale s et al., 1994; Givó n , 1994, e ntre outros).
t á t ica que r egula o com por tam ento n om in at ivo desses SNs. Cr ia-se, as-s im , uma e as-s p é cie de voz ativa impeas-sas-soal in d eter m in ad or a, em que o ar gum ento Paciente n ão r ecebe fu n ção de Sujeito, cuja p osiçã o fica
mar cada for malmente pela p r esen ça do clít ico
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
se.A impessoalidade in er en te a esses casos, em que o evento é p r ot o-t ip icam en o-t e o-t r a n sio-t ivo, se eso-tende a con so-t r uções com verbos in o-t r a n s io-t i-vos em que nem há ar gum ento p acien te para se pr omover a Sujeito, como em vivese bem aqui. Inter essa a este tr abalho ver ificar essa t e n -d ê n cia est r u t u r al -das con st r u ções impessoais, ligan-do-a a cor r elações fun cion ais de or dem se m â n t ico-p r a gm á t ica .
O r oteir o de tr abalho é empreender uma d is cu s s ã o q u a lit a t iva das duas con st r u ções de voz, empr egando, sempre que p ossível, dados ex-tr aídos do corpus com par tilhado do Projeto de Gr a m á t ica do Por t u gu ês Falado, que consiste num a amostr agem do m ater ial coletado pelo Proje-to da Nor ma Urbana Culta (Nur c)/ Br asil, gr avado com infor m antes cu l-tos pr ocedentes de Recife, Salvador, Rio de Jan eir o, São Paulo e Porto Ale gr e .4 Pr edom inar á, neste tr abalho, uma d iscu ssã o q u a lit a t iva de
ca-sos e xp lícit os, ilu m in ad a por u m conjunto de op er ações q u an t it at ivas im p lícit as que, apesar de poder em reforçar decisivam en te a ar gu m en -t a çã o , -ter ão de ser om i-t id as, por absolu-ta fal-ta de e s p a ço.
In icialm en t e, faz-se uma an álise das con d ições s e m â n t ica s que p e r m it e m codificar sin t at icam en t e u m estado de coisas nas con st r u -ções passiva e impessoal. Passa-se, em seguida, ao exame, no âm b it o das d et er m in ações p r a gm á t ica s , às d ifer en ças funcionais que as duas con figu r ações estr utur ais de voz pr ojetam no uso.
Distinçõe s se mânticas
A grande maior ia das constr uções passivas e impessoais ocorre com
verbos de a çã o, em cujo esquema de pr edicado, o ar gumento A2
corres-ponde a um papel de paciente (Meta e Meta-Exper ienciador ), r epr
esenta-do por uma entidade afetada ou efetuada, e o ar gumento A1 corresponde
a uma entidade agentiva que envolve t am bém os tr aços humano e con
-4 Tal amostrage m, que já ve m se ndo e xaustivame nte de s crita, é composta pelos s e guinte s inqué ri-tos: Porto Ale gre : EF 2 7 8 , DID 0 4 5 , D2 2 9 1 ; Rio de Jane iro : EF 3 7 9 , DID 3 2 8 , D2 3 5 5 ; São Paulo: EF 3 3 7 , DID 131, D2 360: Re cife : EF 3 3 7 , DID 131, D2 0 0 5 ; Salvador: EF 0 4 9 . DID 2 3 1 , D2 0 9 8 .
trolador. Os exemplos (la-c) abaixo ilustr am esse t ip o de esquema de pr e-dicado:
(1) a. todo seu material
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
bélico foi arrasado? (EF-RJ-379) b. com pra-se m ais um título... (D2-RJ-355:30)c. faz esse refogado e põe tom ate, um ou dois tom ates (D2-POA-291:129)
A passiva manifesta-se t a m b é m com pr edicados de Pos içã o, que são sem anticam ente marcados pelo tr aço [-(-controlei. Posiçã o, na visão teór ica de Dik (1989), aq u i adotada, in clu i os verbos de p e r ce p çã o, ou p osiçã o m en t al, como considerar e seus similar es com ver bo-supor te, como levar em conta, con tid o em (3-a); e verbos que p r essup õem p osi-cionam ento físico de um ser contr olador , como considerar, m anter, con-servar, confor me se observa em (2b-d).
(2) a. aum entos... salariais... que anualm ente são levados em conta (DID-RE-131)
b. os sindicatos são realm ente entidades... que têm ... determ inados elem entos que são considerados com o postos...(...) quer dizer que são considerados com o elem entos chaves (DID-RE-131: 70-1)
c. o período presidencial... é mantido... durante três anos... (DID-RÈ 131:225)
d. outros tipos de alim ento que podem ser conservados (DID-POA-044)
O que par ece mais in t r igan t e e estr anhável é haver in cid ê n cia de pr edicados de Processo, em que a entidade envolvida n ão exer ce qual-quer contr ole, sendo, antes, afetada. Processos im p lica m , por d efin ição, a at u ação involuntár ia dos p ar t icip an t es, afastando-se, p or tan to, do evento t r an sit ivo pr ototípico. Em razão dessas pr opr iedades, é raro ob-ter-se uma con st r u ção passiva, que, no corpus consider ado, r estr inge-se a pr edicados como lem brar, entender, perceber, ver, este com vár ias r e-p e t içõe s, e e-perder, conforme se observa em (3a-d).
(3) a. a relação salário aluguel... já que o assunto foi lembrado aqui... (D2-RJ-355:213)
b. a im agem não foi feita para decorar a caverna ou para ser vista por outras pessoas... certo? (EF-SP-405: 254)
c. bom ... ocorre a guerra e... nada nessa história acontece por acaso... né?se... realm ente a guerra foi perdida pelos países do eixo... é que as condições... sociológicas... econôm icas epolíticas etc. etc. fizeram com que fosse perdida a guerra... (EF-RJ-379)
d. agora o dinheiro no Brasil nunca foi tão difícil de ser entendido... (D2-RJ-355)
Todos os pr edicados envolvidos são pr ocessivos com um sujeito Ex-per ienciador . A exp er iên cia por que se passa pode ser física, como ocor-re com
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
ver e perdei, ou m en tal, como ocorre com entender, perceber, lem brar. Sobre essas con st r u ções, o que se pode dizer é que se desviam do evento t r an sit ivo p r ototíp ico. Cer tamente o envolvim ento n u m esta-do de coisas pr ocessivo n ão acar r eta qualquer ato voluntár io e in t e n cio-n al da ecio-n tidade exper iecio-nciador a.Na con st r u ção impessoal, a in cid ê n cia de outr os t ip os se m â n t icos de pr edicados é pouco sign ifica t iva , mas p er m it e observar u m dado r e-levante: aplicam -se a ela as mesmas con d ições s e m â n t ica s que se a p li-cam à passiva. Acom pan ha essa cor r elação o fato de ter em os dados do corpus manifestado in clusive ocor r ên cias de pr edicados de Processo, t am b ém com papel sem ân t ico de Exper ienciador e de Posiçã o, que p r essup õem entidades contr olador as, comuns à s con st r u ções passivas. As s e n t e n ça s in clu íd as em (4a-c) são exemplos r epr esentativos de p r e-d ica çã o e-de Posiçã o, e as e-de (4e-d-e), e-de Processo.
(4) a. som ente levando em consideração a realidade social... em adequa-ção à lei por exem plo (EF-RE-337:224)
b. porque tem que manter um certo padrão:: e não dá (D2-SP-360:686) c. alim entos assim que não se pode guarda(r) por m uito tem po, não é? (DID-POA-044: 207)
d. e com o se vê fogueira o olindense faz fogueira (D2-RE-05:290) e. se encontra por exem plo hoje... no Japão... quer dizer um a situação DIFERENTE daquele Japão pós-guerra (EF-RJ-379:340).
Observe-se, de passagem, que a constr ução impessoal pode in cluir p r edicações de Estado que não ter iam formulação correspondente na pas-siva, como é o caso de constr uções com verbo-suporte, que se vê em (5).
(5) tinha-se esperanças... em que dona Ana Cândida tendo assum ido a procuradoria geral do Estado... em ela sendo m ulher... que ela defen-desse um pouco m ais a classe não? (D2-SP-360)
Não é estr an hável que ocor r am con st r u ções como essa. A sin taxe ver üo + se serve à fun ção de expressar a pr opr iedade que assume u m pr edicado de n ão se r efer ir ao Sujeito, seja ele exp lícit o ou im p lícit o. Como um d om ín io fun cion al am plo, in clu i difer entes con figu r ações va-len ciais, o que p er m it e in clu ir pr edicados m onoar gum entais, como em riu-se m uito durante a festa, vive-se bem no interior e t c , categor ias que podem in clu ir ver bos-supor te, como ter esperança.
Em termos estr itamente sem ân t icos, há uma cor r elação sign ificat iva entr e as constr uções de voz passiva e impessoal: ambas estão for temente
condicionadas pela pr esen ça de um verbo de Açã o , em detr im ento de pr edicados de Processo, Posição e Estado. Se isso é ver dadeir o, o que de-ter m in a a escolha de uma das estr utur as alde-ternativas?
Um aspecto sem ân t ico im p or t an t e que deve deter m inar essa sele-ção est á justam en te no dom ínio fun cion al da t r a n sit ivid a d e . A natur eza at ivo-t r an sit iva do pr edicado, que se m an t ém na con st r u ção impessoal, alivia a r estr ição m otivada pela necessidade de d ist in çã o entr e os par -t icip a n -t e s, própria da passiva. Assim , bloqueiam a con s-t r u ção passiva pr edicados de Açã o em que o Objeto afetado é par te in alien ável da en-t id ad e agen en-t iva:
(6) a.
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
João lavou-se.b? João foi lavado por si. (7) a. João levantou o braço.
b. ?0 braço foi levantado por João. (8) a. João tom ou banho.
b. IBanho foi tom ado por João.
O tr aço car acter izador de u m esquema de pr edicado b ivalen cial, que con st it u i o evento t r an sit ivo p r ototíp ico, r epr esenta-se, por d e fin i-ção, na d ist in çã o entr e dois p ar t icip an t es exer cendo p ap éis se m â n t icos igualm en te d ist in t os, que é como se id e n t ifica uma r elação t ip ica m e n t e assim ét r ica (Kemmer, 1994). O evento r eflexivo de (6a) evoca dois pa-p éis se m â n t icos sepa-par ados, mas que conver gem pa-par a uma ú n ica e n t i-dade r efer encial. Já o Agen t e e a entii-dade afetada de (7a) r epr esentam uma ú n ica en t id ad e, uma vez que jbraço r epr esenta uma par te in alien á-vel de João. Assim , (6a-b) e (7a-b) con st it u em subconjuntos do mesmo fenôm eno s e m â n t ico, isto é, os ar gumentos r epr esentam en tidades com gr au baixo ou nulo de d is t in t ivid a d e . A con se q ü ê n cia mais evidente dessa pr opr iedade se m â n t ica par a a or gan ização sin t á t ica é o bloqueio da con st r u ção passiva (8b), que n ão se aplica, no en t an t o, à con st r u ção impessoal:
(9) a. levantou-se m uito o braço na assem bléia para votar tantas propostas. b. tom ou-se banho só de rio durante a pescaria.
Em termos estr itamente sem ân t icos, a possibilidade de se constr uí-r em passivas e impessoais no pouí-r tuguês está associada às mesmas uí-r est uí-r i-ções de seleção, mas uma sen t en ça passiva é pr ototipicam en te sen sível à pr om oção de entidades afetadas à p osição de Sujeito/ Tópico e à de-t r an side-t ivid ad e do pr edicado ver bal, e n ão necessar iamende-te à im pessoa-lidade do Agen t e; nesse aspecto, as impessoais são absolutas: n ão
autor izam a m a n ife st a çã o for mal de u m SN agen t ivo. Obser vem-se as s e n t e n ça s contidas em (10a-c):
(10) a. João
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
quebrou o vidro da janela. b. O vidro da janela foi quebrado (por João).c. O vidro da janela (se) quebrou (?por João).
A p r er r ogativa especial da passiva de ser capaz de m anter o SN agentivo pode ser observada em (10a) e (10b), con st r u ções que m anifestam exp licit am en t e SNs lexicais que r epr esenanifestam uma en tid ad e agen -t iva , con-tr olador a, in d ivid u ad a:
(10) a. então lá fui recebido pela empregada (D2-RJ-355)
b. onde ele estabelece índices salariais... baseados em cálculos que são feitos... se não m e engano pela Fundação Getúlio Vargas... (DID-RE-131)
Tam bém os casos de anáfor a zero são SNs in d ivid u ad os, clar am en-te id en t ificad os no conen-texto d iscu r sivo:
(11) então a m inha de onze anos... ela supervisiona o trabalho dos cinco... então ela vê se as gavetas estão em orde/ ... em ordem s e t r : m aterial escolar já foi re/ arrum ado [entenda-se pelos cinco] para o dia seguinte (D2-SP-360)
Nessa ocor r ência, o Tóp ico discur sivo são os cin co filhos da infor -m ante, que passa a enfocar u-m deles, ou seja, a -menina de onze anos. A sit u ação textual deixa claro que o SN agentivo elip t ico de arrum ar se id en t ifica por r elação anafór ica e cor r efer encial com o SN os cinco. Em outr o tip o de con str ução, a r efer ência ao nominal está bem mais pr óxima:
(12) se... realm ente a guerra foi perdida pelos países do eixo... é gue as condições... sociológicas... e econôm icas e políticas etc. etc. fizeram com que fosse perdida a guerra... [entenda-se pelos países do eixo] (EF-RJ-79)
A d em oção sin t á t ica do SP agen tivo, embora facu lt at iva, é estatis-t icam en estatis-t e p r efer ida. Há casos de passivas que m an ifesestatis-tam enestatis-tidades ge n é r ica s , (13a) ou , se in d ivid u ad as, desconhecidas do emissor, e se co-n hecid as, pr opositadam eco-nte co-não eco-nuco-nciadas por ele (13b).
(13) a. a ciranda é cantada durante o verão em Olinda
b. se a gente lem brar que aquele prédio foi feito para conter (D2-RJ-355)
As ocor r ên cias de SNs lexicais plenos r epr esentam ger alm ente en-tidades ge n é r ica s , n ão-in d ivid u ad as:
(14) a.
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
seus representantes que são por sua vez ou devem ser eleitos dire-tam ente pelo povo (DID-RE-131)b. toda parte jurídica do Estado é feita por procuradores do Estado (D2-SP-360)
c. a im agem não foi feita para decorar a caverna... ou para ser vista por outras pessoas (EF-SP-405)
Em alguns casos, o SN agentivo n ão-d em ovid o é d efin id o e apar en-tem en te in d ivid u a d o, mas t em uma r efer ência ge n é r ica , já que o assun-to de que se t r at a é a con st it u içã o jur íd ica de sin dicaassun-tos em ger al:
(15) a. reajuste esse que é... debatido... entre os associados através das cham adas assem bléias... que são convocadas pelo seu presidente (DID-RE-131)
b. são entidades sem fins lucrativos... portanto são/ têm por obrigação PRESTAR... toda assistência devida... aos seus sindicalizados... rece-bendo todas aquelas im portâncias... que são pagas pelos seus associa-dos e revertendo-as... integralm ente em benefício... dos m esm os (DID-RE-131)
A for ma de m an ifest ação dos SNs sin t át ica e pr agm aticam ente n ão-demovidos é lexical, zero anafór ico e pronome anafór ico e, como se espe-r ava, espe-refeespe-rem-se a entidades humanas. Emboespe-ra n ão se ten ham conside-rado os SNs demovidos, uma r ápida in sp eção nas ocor r ências p er m ite logo observar que con sistir iam t am bém em alguma entidade humana. Observe-se (16a), cuja ativa correspondente poder ia ser (16b) com u m sujeito animado:
(16) a. naquelas m ensalidades... que são pagas... ao órgão (DID-RE-131) b. alguém (as pessoas) pagam as m ensalidades ao órgão.
Distinçõe s pragmático-discursivas
Para avaliar , agor a, o efeito da acessibilidade an afór ica que car ac-ter iza a natur eza t óp ica do Sujeito da passiva, obser vem-se a seguir , em (17a) e (17-b), dois casos t íp icos de SNs na fu n ção de Sujeito/ Tóp ico sob a for ma de pr onome an afór ico e zero an afór ico, r esp ectivam en te.
(17) a. a Arquitetura
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
quando foi prá lá estava do prim eiro ao oitavo andar m obiliado... com m obiliário m elhor possível... então... o que acontece...quando ela foi sendo comprimida... ela não foi deixando os m óveis (D2-RJ-355)
b. a criança vai ao m aternal som ente pra brincar... ser educada ser al-fabetizada (DID-SA-231)
É óbvio dizer que zeros costum am desempenhar o p ap el de p on to t er m in al de uma cadeia an afór ica, que, m u it as vezes, com e çou com u m SN lexical p len o. Obser vem-se alguns exemplos:
(18) a. esse nódulo terá que ser... exam inado..0. terá que ser retirado... 0 terá que ser.mandado para a... anatopatologista... para eh::eh::/ para então... ele dizer... se há m alignidade ou nao nesse nódulo (EF-SA-049) b. ele é responsável pela chefia lá e:: 0 n ã o foi preenchida (D2-SP-360)
Há , no en t an t o, casos de sin taxe VS. Em dois deles, o papel da po-siçã o p ós-ver bal é esclarecer a r efer ência de uma en tidade que o locutor pr esume n ão ter ficado exp lícit a par a o in ter locutor , o que acontece nos casos de a n t it óp ico:
(19) a. foram dim ensionadas as estradas (D2-SA-98)
Algu n s casos de SNs r epr esentados por entidades d efin id as e r efe-r en ciais acham-se pospostos em viefe-r t u d e do caefe-r áteefe-r focal de u m outefe-r o SN, que é estr ategicam en te enunciado na p r im eir a p osiçã o da p r ed ica-çã o, como se obser va em (20a-d).
(20) a. nós vam os localizar onde foram encontrados esses vestígios (EF-SP-405)
b. como pode ser percebida a vocação de um a pessoa? (DID-POA-044) c. porque a este setor é confiado todo o levantam ento (DID-RE-131) d. aos sindicatos não é perm itido o cham ado lucro (DID-RE-131)
Há casos de con st r u ção passiva em que se m anifesta um a pr efer ên -cia pela p osiçã o pós-ver bal par a o ar gum ento ú n ico do p r ed icad o, como se observa em (21).
(21) enquanto não for estruturado esse projeto não há possibili/ não pode ser feito concurso (D2-SP-360
Nã o se t r at a de in for m ação nova em (21), já que o SN m a n t é m r ela-çã o an afór ica com algu m outr o que o antecede, p ar t icu lar m en t e m ar ca-da no d et er m in an t e do SN gr ifado ca-da p r im eir a or ação. Sendo assim , a
pr efer ência pela p osp osição do sujeito se ju st ifica no fato de a in for m a-ção focal in cid ir sobre o próprio pr edicado e n ão em seu ar gum ento.
Nas estr utur as impessoais, r einam absolutas as entidades in an im a-das na p osição ar gum entai ú n ica . Um bom in d ício para ver ificar o esta-t u esta-t o dado/ novo desses referenesta-tes é seu gr au de acessibilidade an afór ica. A gr ande m aior ia dos SNs das con st r u ções clít ica s e n ã o-clít ica s apr e-senta liga çã o an afór ica com algum con st it u in t e no t ext o an teceden te, com por tam ento que car acter iza as entidades r epr esentadas por esses SNs como discur sivam en te dadas.
Essa alta in cid ê n cia de r eferentes anafor icamente a ce s s íve is nas con st r u ções de voz impessoal se ju st ifica r ia se pudessem ser subcate-gorizados como Tóp icos; nesse caso, o ar gum ento afetado ser ia pr om o-vid o, de um ponto de vista p r a gm á t ico, par a a fu n ção de Tóp ico e, de u m ponto de vist a sin t á t ico, par a a p osição de Sujeito, como, a liá s, é co-m u co-m ocorrer coco-m a passiva. En t r et an t o, d ificilco-m e n t e se poder ia at r ib u ir
aos casos de voz impessoal do
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
corpus exemplos claros e in eq u ívocos de con st r u ção pr omotor a de entidades Processadas à p osiçã o de Sujeito, jáque a m aior ia absoluta delas tem seu ar gumento ú n ico in equivocam en -te flexionado no singular .
Para reforçar esse ar gum en to, ver ifiquem os como se com por tam as con st r u ções im pessoais, cujos ar gumentos ú n icos e xigir ia m , caso fos-sem in ter pr etados como Sujeito, a a p lica çã o de con cor d ân cia no ver bo, o que, de fato ocorre com apenas um caso, o de (22)
(22) quer dizer além de chegar ao plano m uscular... se retiram os elementos musculares... ou sejam... os peitorais... grandes e pequenos. (EF-SA-049)
Observe-se o cuidado especial do infor m ante com a con cor d ân cia ver bal que o leva a pr oduzir um caso típ ico de hiper cor r eção mais adian -t e , quando usa a locu ção ou seja como se fosse um ver bo no p lu r al. Isso pode in dicar que somente em sit u ações m u it o tensas um falante com es-colar idade de nível superior, que é como se car acter izam os infor m antes do Nur c, pr oduzir ia esse t ip o de constr ução em que o ar gumento ú n ico é codificado como Sujeito em função de marca de con cor d ân cia núm er o-pessoal.
Os demais casos r epr esentam todos in d ícios claros de que o falante n ão tr ata o ar gumento posposto ao ver bo como o Sujeito legít im o da s e n t e n ça . É ver dade que alguns deles são con st r u ções impessoais n ão-clít ica s , em que a au sên cia de mar ca exp lícit a de voz tor na mais rara a con cor d ân cia. As s e n t e n ça s (23a-c) ilust r am alguns desses casos.
(23) a. e mistura então os frutos do mar gue
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
vêm é polvo, m ariscos, as m ais variadas espécies (D2-POA-291)b. então, naquele arroz m exe, quebra dois ovos aí e, e depois então com prim e esse arroz num pirex (D2-POA-291)
c. quando aquele queijo fica todo derretido, envolvendo o cam arão, aí retira os dois e serve-se (D2-POA-291)
Já em outr os casos, como os de (24a-c), a con st r u ção impessoal é in equivocam en te assinalada com o mar cador clít ico. A despeito disso e da r elativa for m alidade da sit u a çã o in t er acion al, o SN plur alizado n ão
aciona a con cor d â n cia .
(24) a. não se pode criar assim profissões ou citar(r) profissões gue se;'am m ais im portantes ou m ais necessárias entende? (DID-POA-044)
b. tam bém s e faz a aquelas compras pequenas que... alim entos assim que não se pode guarda(r) por m uito tem po, né?{...] só outros tipos de alim entos que podem ser conservados (DID-POA-044)
c. é o m esm o caso das estradas brasileiras... dimensionou-se... foram dimensionadas as estradas para um tráfego m ais leve do que elas es-tão suportando (EFI-SA-98)
É inter essante observar que, em (24b), o locutor usa a alt er n at iva impessoal com u m SN no p lur al que, mesmo assim , n ão acar r eta a con -cor d ân cia de núm er o no p r edicado. Na s e q ü ê n cia , apesar de alim entos apar ecer em p osiçã o pr é-ver bal contr olando a liga çã o an afór ica com o pr onome r elativo na p osição de Sujeito, esse SN n ão é capaz de acionar a r egr a de con cor d ân cia com o auxiliar modal poder. Na m u d a n ça de Su b t óp ico que faz em segu id a, r efer indo-se a outr os t ip os de alim en t os, o locutor alter na par a a con st r u ção passiva numa or ação r elat iva, cujo cor r efer ente é de fato u m nome no p lu r al. Difer en tem en te do que ocorre na con st r u ção impessoal que acabou de ser en un ciad a, nesta se aplica r igor osam ente a con cor d â n cia .
Já o enunciador da s e n t e n ça (24c) in tr od uz u m Su b t óp ico, as estradas brasileiras, faz uma pausa e constr ói uma p r e d ica çã o só com o ver -bo dim ensionar. O fato de estar o SN que r epr esenta o ar gum ento ú n ico do pr edicado sob a for ma de u m zero an afór ico o conduz à n ão-ap lica-ção de con cor d ân cia; em seguid a, ele empr ega a con st r u lica-ção passiva, mas dessa vez, como o locutor de (24b), par ece cor r igir -se aplican do con cor d â n cia , a despeito mesmo da p osp osição do SN, aq u i en t en d id o como o Sujeito le git im o do ver bo. Outr o casos acham-se id en t ificad os a seguir em (25a-c).
(25) a.
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
o que é interessante que até bom que se discuta um pouquinho é a sign, os acessórios secundários, o principal, etcétera algum a dúvida? (EF-POA-278)b. ainda se usa até hoje em dia... um ou dois... dois tostões... (D2-RJ-355:95)
c. gue são as três moedas que se consegue realmente trocar com m ui-ta facilidade... (D2-RJ-355:195.
Em (25a), a a u s ê n cia de con cor d ân cia é a m b ígu a , um a vez que pode ter havido um a m ot ivação cogn it iva par a em it ir u m SN singular , depois t r u n cad o, momento em que o locutor faz um a r ep ar ação par a manifestar u m SN no p lu r al. Presume-se, t od avia, que à r epar ação de u m t er m o do SN poder ia seguir -se t a m b é m a r ep ar ação do ver bo, caso o in for m an te estivesse plenamente segur o de que se t r at ar ia ali de u m SN Sujeito e q u e, como t a l, dever ia acionar a con cor d ân cia ver bal. A con st r u ção (25b) é sim ilar : o SN sofre um a cor r eção que n ão se ap lica sim ultaneam ente ao ver bo.
Já (25c) é u m caso especial, sim ilar à se q ü ê n cia de (24b) já aponta-da. O SN plur alizado é anafor icamente retomado por u m pronome r e la t i-vo. A p osição pr é-ver bal dever ia detonar autom aticam ente a m ar cação de plur alidade no ver bo, caso o infor m ante intr ojetasse a id éia de que o ar gumento ú n ico do pr edicado fosse de fato o Sujeito.
As con st r uções impessoais ainda r epr esentam casos de a m b igü id a -de estr utur al no p or tuguês falado culto em r azão -de um m ínim o -de cons-tr uções no p lur al, cer tamente motivadas pela cons-tr adição n or m ativa que r ege a modalidade escr ita. Esses poucos casos podem ser id en t ificad os como con st r uções que pr omovem sin taticam en te o SN semanticamente afetado à p osição de Sujeito. Todavia, a pr efer ência est at íst ica por cons-tr uções impessoais no singular é cer tamente um in d ício claro de que se acha subjacente algum t ip o de inter pr etação sin t át ica r elevante.
A esse pr opósito, Nunes (1991, p.34) a t r ib u i duas difer entes con figu -r ações est-r utr ais, nos quad-ros da G-r am át ica Ge-r ativa, pa-ra con st-r u-ções como (22) e como (24b), denominadas r espectivamente "con str ução com se apassivador" e "constr ução com se indeter m inador ", conforme se observa em (26a-b):
(26) a (expl) retiram -se ^ elem entos m usculares e i 5
b. pro 9g faz-se
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
QQ aquelas com pras QJ5 Em s u a análise 9 e , 9 i e 60 re pre se ntam pape l te m ático re s pe ctivam e nte re se rvado ao argume nto e xte rno, ao argume nto inte rno e aus ê ncia de absorção de pape l te m ático .
Em (26a), o clít ico
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
se absorve o papel t e m á t ico do ar gum ento exter -no e caso acusativo; o SN elem entos m usculares, detentor do papel te-m á t ico do ar gue-m ento in t er n o, r ecebe caso n oe-m in at ivo ee-m cadeia coe-m o exp letivo que ocupa a p osição de sujeito. Em (26b), ocupa a p osiçã o de sujeito u m pr onome nulo r efer encial, que é in d eter m in ad o pelo clít ico se; ao SN aquelas com pras, que preserva o papel t e m á t ico do ar gum en -to in t er n o, é atr ibuído caso acu sat ivo.6 Em que pese a d ifer en ça de t r a
-t am en -t o, os r esul-tados fin ais par ecem equivaler -se.
Retornando ao paradigma funcional, é possível acrescentar que a pr e-fer ência pela constr ução passiva é motivada pela deter m inação p r agm áti-ca de con stituir um Tóp ico, o que não se apliáti-ca à impessoal, em que o processo é apresentado em si mesmo, independentemente de uma entida-de que lhe sir va entida-de r efer ência, a mesma m otivação que dá lugar à s frases sem sujeito. A própria configur ação sin tática da constr ução impessoal, ar-gumento ún ico em posição pós-ver bal, é um resultado explícito dessa mo-tivação p r agm ática; além disso, ela preserva a estr utur a pr edicacional ativo-tr an sitiva. Configurando-se a necessidade de se manifestar em SNs Tóp icos, é necessár io optar por uma estr utur a em que o ar gumento p r in ci-pal seja sintaticamente promovido a Sujeito e pr agmaticamente a Tóp ico, o que define a constr ução passiva. Nesse caso, o estatuto sem ân t ico de-tr ansitivo r esultante é secundár io em razão da deter m inação p r agm ática de atr ibuição tóp ica, hier ar quicamente dominante.
Conside raçõe s finais
O p r in cip a l inter esse deste tr abalho foi estabelecer uma car act er i-zação s e m â n t ica e p r a gm á t ica à diver sidade m or fossin t át ica das cons-t r u ções passiva e impessoal, m edian cons-te a com b in a çã o dos facons-tores de-t r a n side-t ivid a d e , impessoalidade e de-t op icalid ad e.
O p r in cip a l dom ínio fun cion al enfocado, o p r a gm á t ico, p e r m it iu comparar as con st r u ções de voz, entendendo-se por "p r agm át ico" a r e-lat iva top icalid ad e do p acien te no evento sem anticam ente t r a n sit ivo,
6 A pas s iva im pe s s o al, que Nune s de nomina "co nstrução com se inde te rminador", é re sultado da re
-análise de três as pe cto s : i) o s e apassivador pas s a de elemento ide ntificador da e strutura do pre di-cado a participante da re lação anafórico-pronominal que s e e s tabe le ce com o pronome nulo da po s ição de suje ito ; ii) o argumento interno pas s a de suje ito a objeto do verbo; iii) o e xple tivo que ocupa a po s ição de suje ito pas s a à co ndição de pronome nulo re fe re ncial (cf. Nune s , 1 9 9 1 , p.3 7 ).
no sentido de Cooreman (1985, 1987, apud Givon , 1994). A d efin ição p r agm át ica das con st r u ções de voz aq u i focalizadas é a segu in t e:
Co ns truçõ e s de Voz Topicalidade Re lativa At i v a AGT > PAC
Pas s iva AGT < PAC Impe ssoal AGT « PAC
A ativa define-se p r agm aticam en te como a con st r u ção de voz em que o Agen t e é m ais tóp ico que o Paciente, que, t od avia, ainda r etém con sid er ável top icalid ad e (AGT > PAC). Relativamente a essa nor ma n ão-m ar cad a, os dois tipos de con st r u ções de voz aq u i enfocados po-dem ser en t ão definidas como:
a) passiva: o Paciente é mais t óp ico que o Agen t e, embora este r e-tenha con sid er ável t op icalid ad e, sendo, por isso, facu lt at ivo, na m edida em que pode ser m an t id o ou supr imido/ demovido (AGT < PAC);
b) impessoal (clítica e n ãclit ica): o Agen t e é extr em am ente n ã o-Tóp ico, sendo por isso su p r im id o, mas o Paciente, embora m ais o-Tóp ico que o Age n t e , pode ou não adquir ir as car act er íst icas de su bjet ivid ad e (AGT « PAC).
Assim , das duas con st r u ções, apenas a passiva pr omove e xp licit a -mente a Sujeito/ Tópico o p ar t icip an t e afetado e p er m it e r eter a en t id a-de agen t iva, que se manifesta no inter ior a-de u m SP. Mesmo que o Agen t e nem sempre se m anifeste, en u n ciá-lo depende un icam en te do ponto de vist a do falante em r elação ao evento e n ão de algum a r est r i-ção sin t á t ico-se m â n t ica . Nesse aspecto, a con st r u i-ção passiva contr asta com a voz impessoal em que o Agen t e é sem anticam ente su p r im id o.
Tendo mostr ado a im p or tân cia da at r ibu ição t óp ica par a a con figu r ação for mal dos dois tip os de con st r u ção, r estanos d iscu t ir , fin alm en -t e , como os -tr ês dom ín ios funcionais conver gem para pr oduzi-los.
A con str ução impessoal está deixando pr ogr essivamente de ser se-m an ticase-m en te d et r an sit iva e o dose-m ínio fun cion al pr edose-m in an te é o da impessoalidade, que, nesse caso, supera a at u ação da d et r an sit ivid ad e s e m â n t ica . Ao menos como t e n d ê n cia e st a t íst ica , a passiva t a m b é m é, como vim os, mar cada pela impessoalidade, cujo in d ício mais evidente é a im p ossibilid ad e de se recuperar a id en t id ad e r efer encial do SN agentivo n ão manifesto for m alm ente. De qualquer modo, essa con d ição n ão é obr igatór ia, ficando ao ar bítr io do enunciador selecionar a cons-t r u ção com ou sem SN agen cons-tivo, conforme as e xigê n cia s d iscur sivas.
Quanto à d et r an sit ivid ad e, a passiva é uma con str ução sem antica-m ente estativo-pr ocessiva, se coantica-mparada ao alto gr au de t r an sit ivid ad e do pr edicado da ativa cor r espondente. A passiva se submete a uma clara t en d ên cia pela topicalidade da entidade Paciente pr omovida a Sujeito, o que se ver ifica na alta in cid ên cia de an t ep osição de SNs n om in ativos; al-guns casos de p osp osição são tam bém pr agm aticam ente m otivados.
De u m ponto de vista sin t á t ico, as pr opr iedades de m a r ca çã o de ca-so, pr esentes no Sujeito/ Agente da at iva, são autom aticam en te tr an s-postas para o Tóp ico n ão-agen t ivo da passiva. Como a id en t id ad e do Sujeito/ Agente pode n ão estar totalm en te su p r im id a, a modalidade de voz passiva que se p r at ica no p or t u gu ês apr oxima-se t ip ologicam en t e
da do in glês e n ão da do u t e, consider ando os dois extr emos do
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
conti-nuum da h ip ót ese exp licat iva avan çad a por Givón (1981,1994). De fato, n ão é obr igatór ia a sup r essão da id en t id ad e do Age n t e , o pr edicado n ão m an t ém tr aços de t r an sit ivid ad e e não é ad m issível que qualquer ar gu-mento n ão-Su jeit o da at iva venha a se con st it u ir como Sujeito/ Tópico da passiva.
Na con st r u ção impessoal, mais bem car acter izada como n ãpr o-motor a, as pr opr iedades de m ar cação de caso, pr esentes no Sujeito/ Agen t e da a t iva , não são tr anspostas para o Tóp ico n ã o-á ge n t ivo. É em r azão disso que essa estr utur a m an tém o tr aço a t ivo-t r a n sit ivo, o que sign ifica aplicar -se a cor r elação entr e os par âm etr os (a-c): quan to me-nos uma lín gu a at r ibu ir m ar cação de Sujeito/ Agente a Tóp ico, tan to mais a con st r u ção de voz m an t ém tr aços t r an sit ivos e ativos e tende a sup r im ir o agente da ativa (cor r elação a-b). Essas pr opr iedades p e r m i-t em alinhar a impessoal com as con si-t r u ções sii-tuadas no exi-tr emo da es-cala que car acter iza a passiva do u t e.
As con st r u ções passiva e impessoal apr esentam-se, assim , em d is-t r ibu ição complemenis-tar em r elação aos is-t r aços s e m â n is-t icos e p r a gm á is-t i-cos envolvidos, o que sign ifica t am bém difer entes gr aus de r estr ições para a for m ulação de cada t ip o. Para constr uir um exemplar de voz im -pessoal, basta in d et er m in ar a entidade contr olador a do evento, que exer ce a fu n ção de Sujeito no esquema de pr edicado subjacente, p r e-ser vando-se as car act er íst icas at ivo-t r an sit ivas do ver bo. Isso explica a exp an são cada vez mais acentuada dessa con st r u ção de voz par a outr os t ip os se m â n t icos de ver bos, como os estativos. Já a passiva necessita de r estr ições m ais gr aves: sua d et r an sit ivização, em com p ar ação com uma con st r u ção a t iva , só é p ossível m ediante o r ecur so a p r oced im en -tos m or fossin t át icos, in ser ção de au xiliar e pr edicado p a r t icip ia l que a tor nam uma con st r u ção estativo-pr ocessiva.
CAMACHO, R. G. Passive and impersonal constructions: functional
distinc-tions.
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Alfa (São Paulo), v.44, p.215-233, 2000.• ABSTRACT: According to Givón (1981), the typological characterization of passive, which is necessarily scalar and non-discrete, includes three
func-tional dom ains: clausal topic assignm ent, im personalization and de-transi-tivization. This paper's m ain objective is to give a functional characterization to the m orphosyntactic difference between passive and im personal con-structions of spoken Portuguese.
• KEYWORDS: Passive voice: im personal voice: topicalization.
Re fe rê ncias bibliográficas
ARCE-ARENALES, M. et al. Active voice and middle diathesis: a cross-linguis-tic perspective. In: FOX, B., HOPPER, P. J. Voice: form and function. Am-sterdam, Philadelphia: John Benjamins, 1994. p. 1-22.
BACELAR DO NASCIMENTO, M. F, MARTINS, A. M. Construções verbais portuguesas em -se m édio observadas em textos m edievais e em textos contem porâneos. Texto inédito não publicado, s. d.
CAMACHO, R. G. O papel da estrutura argumentai na variação de perspectiva. In: KOCH, I. G. V. (Org.) Gram ática do português falado: desenvolvimentos. Campinas: Ed. Unicamp, Fapesp, 1996, v.I.
CÂMARA Júnior, J. M. Princípios de lingüística geral. 4.ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica, 1972.
DIK, S. C. The theory of functional gram m ar. Dordrecht: Foris, 1989.
GIVÓN, T. Typology and functional domains. Studies in Language, v.5, p.163-93, 1981.
. The pragmatics of de-transitive voice: functional and typological as-pects of inversion. (Introduction). In: . (Ed.) Vbj'ce and Inversion. Am-sterdam, Philadelphia: John Benjamins Publishing, 1994. p.3-46.
HOPPER, P. J., THOMPSON, S. A. Transitivity in grammar and discourse. Lan-guage (Baltim ore), v.56, n.2, p.51-299, 1980.
KATO, M. A., TARALLO, F. Anything YOU can do in Brazilian Portuguese. In : JAEGGLI, O., SILVA-CORVALAN, C. (Org.) Studies in rom ance linguistics. Dordrecht: Foris, 1986.
KEENAN, E. L. Towards a universal definition of "suject". In: LI, C. (Ed.) Subject and topic. New York: Academic Press, 1976.
KEMMER, S. Middle voice, transitivity and the elaboration of events. In : FOX,
B, HOPPER, P. J. (Ed.)
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Voice: Form and function. Amsterdam, Philadelphia: John Benjamins, 1994. p.179-230.NOONAN, M. A tale of two passives in Irish. In : FOX, B., HOPPER, P. J. Voice: Form and function. Amsterdam, Philadelphia: John Benjamins, 1994. p.279-312.
NUNES, J. M. Se apassivador e Se indeterminador: o percurso diacrónico no português brasileiro. Cadernos de Estudos Linguísticos (Cam pinas), n.20, p.33-58,1991.
SHIBATANI, M. Passives and related constructions. Language (Baltim ore), v.61, n.4, p.821-48,1985.