FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS
ESCOLA BRASILERIA DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E DE EMPRESAS CENTRO DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E PESQUISA
CURSO DE MESTRADO EXECUTIVO EM GESTÃO EMPRESARIAL
PAULO ROBERTO KOSOSKI
VISÃO PROSPECTIVA DA DEMANDA DE AÇOS PLANOS NO BRASIL
i
PAULO ROBERTO KOSOSKI
VISÃO PROSPECTIVA DA DEMANDA DE AÇOS PLANOS NO BRASIL
Dissertação apresentada ao Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Gestão Empresarial.
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Marques
ii
PAULO ROBERTO KOSOSKI
VISÃO PROSPECTIVA DA DEMANDA DE AÇOS PLANOS NO BRASIL
Dissertação apresentada à Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas como requisito para obtenção do grau de Mestre em Gestão Empresarial.
Data de aprovação: ___ / ___ / _______.
Banca examinadora:
__________________________________ Professor Doutor Eduardo Marques
(Orientador)
__________________________________ Professor Doutor Antonio Freitas
iii
DEDICATÓRIA
Dedico esta dissertação à minha filha,
Ana Beatriz, que nasceu ao longo desta
caminhada e muito me inspirou para a
iv
AGRADECIMENTOS
Inicialmente, a Deus pela oportunidade de continuar o meu ciclo evolutivo e pelo amparo nos momentos mais cruciais de minha existência.
Aos meus pais, Algacir e Alzira, pelo amor incondicional e por me conduzirem ao caminho do conhecimento, da justiça e da verdade.
Aos meus avôs, Romeu e Cecília, in memoriun, que sempre me apoiaram na realização de meus objetivos e tiveram um relevante papel na minha formação intelectual.
A minha esposa, Adriane, pelo amor e que tanto se privou de minha presença para que mais um sonho se realizasse.
Ao meu orientador, Eduardo Marques, que me inspirou desde o primeiro instante, acreditou numa idéia desafiadora e soube me conduzir pacientemente e com sabedoria na execução deste trabalho.
Ao Sr. Carlos Feu Alvim, que carinhosamente se disponibilizou em colaborar na elaboração de cenários macroeconômicos para o Brasil e gentilmente cedeu-me a sua obra Brasil: o crescimento possível.
Ao meu amigo, Roseval Sanches Nunes Costa, exímio conhecedor do mercado siderúrgico no Brasil, que durante muitos anos trabalhou na USIMINAS e pode compartilhar comigo a sua experiência.
Ao Sr. Moacir Brandt da USIMINAS por fornecer excelente material de pesquisa, imprescindível para a compilação de sólida base de dados da siderurgia brasileira.
v
“A idéia revolucionária que define a
fronteira entre os tempos modernos e o
passado é o domínio do risco: a noção
de que o futuro é mais do que um
capricho dos deuses e de que homens
e mulheres não são passivos ante a
natureza”.
vi RESUMO
Kososki, Paulo Roberto. Visão Prospectiva de Aços Planos no Brasil. Rio de Janeiro, 2010. 150p. Dissertação de Mestrado – Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa, FGV-EBAPE.
vii
prazo, baseados em dados históricos que simplesmente extrapolam para o futuro a imagem do passado. Finalmente, recomendamos pesquisas adicionais para a formalização da integração de métodos qualitativos com métodos quantitativos de elaboração de cenários e a utilização de estudos prospectivos nas empresas participantes da cadeia de valor que utilizam o aço plano como matéria-prima essencial nos seus processos produtivos.
viii ABSTRACT
Kososki, Paulo Roberto. Visão Prospectiva de Aços Planos no Brasil. Rio de Janeiro, 2010. 150p. Dissertação de Mestrado – Centro de Formação Acadêmica e Pesquisa, FGV-EBAPE.
ix
usage for the companies within the value chain that use flat steel as an essential raw material in their production processes.
x
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Classificação dos produtos laminados planos... 47
Tabela 2 - Consumo aparente por setores consumidores finais - 2007... 61
Tabela 3 - Consumo aparente (%) por setores consumidores finais - 2007... 61
Tabela 4 - Consumo aparente de produtos planos - resultados estatísticos de regressão... 62
Tabela 5 - Consumo de aço em função do PIB... 62
Tabela 6 - Variáveis ... 74
Tabela 7 - Hierarquização de variáveis (com grau de tolerância de 0%)... 79
Tabela 8 - Hierarquização de variáveis (com grau de tolerância de 10%)... 81
Tabela 9 – Variáveis motrizes... 83
Tabela 10 - Componentes da FBCF a preços correntes - 2002-2006... 94
Tabela 11 - Atores x Objetivos estratégicos... 112
Tabela 12 - Parâmetros exógenos do modelo Projetar_e ... 121
Tabela 13 - Cenário integração competitiva... 127
Tabela 14 - Cenário crise continuada...129
Tabela 15 - Evolução do PIB e consumo aparente de aços planos (1990-2008)...136
Tabela 16 - Consumo aparente de aços planos projetado... 137
Tabela 17 - Cenários comparativos...137
LISTA DE FIGURAS Figura 1 - Prospex – 12 passos para o futuro. Etapas do processo de elaboração de cenários ... 29
Figura 2 - O diamante da prospectiva... 30
Figura 3 - Principais componentes de um cenário... 36
Figura 4 - A pirâmide prospectiva... 36
Figura 5 - Participação (%) por país – exportação mundial de aço... 50
Figura 6 - Participação (%) por país – importação mundial de aço... 51
Figura 7 - Distribuição geográfica do consumo de mundial de aço... 53
Figura 8 - Participação (%) por produto – exportação mundial... 54
Figura 9 - Distribuição do consumo aparente de aços planos por segmento... 64
xi
Figura 11 - Produção brasileira de veículos automotores e sua participação
mundial... 65
Figura 12 - Matriz URCA... 76
Figura 13 - Matriz Booleana... 77
Figura 14 - Plano motricidade x dependência – tolerância: 0% ... 80
Figura 15 - Plano motricidade x dependência – tolerância: 10%... 82
Figura 16 - Evolução da taxa selic... 85
Figura 17 - Carga tributária brasileira... 88
Figura 18 - Distribuição da carga tributária... 88
Figura 19 - Operações de crédito do sistema financeiro em relação ao PIB... 90
Figura 20 - Inflação - IPCA -IBGE... 91
Figura 21 - Evolução da formação bruta de capital fixo - % do PIB... 93
Figura 22 - Evolução da formação bruta de capital fixo – em R$ milhões ... 93
Figura 23 - Produção Física – insumos típicos da construção civil – sem ajuste sazonal... 95
Figura 24 - Produção Física – bens de capital... 97
Figura 25 - Índices acumulados no ano – bens de capital... 97
Figura 26 - Licenciamento de autoveículos novos... 98
Figura 27 - Evolução da população total, segundo censos demográficos e projeção Brasil-1980-2050... 100
Figura 28 - Matriz atores X objetivos ... 113
Figura 29 - Matriz de divergências... 114
Figura 30 - Divergências entre os atores... 115
Figura 31 - Matriz de divergências... 115
Figura 32 - Convergências entre os atores... 116
Figura 33 - Matriz morfológica – demanda de aços planos no Brasil... 118
Figura 34 - Poupança Interna – Cenário integração competitiva... 122
Figura 35 - Poupança Interna – Cenário crise continuada... 122
Figura 36 - Razão capital / produto – Cenário integração competitiva... 123
Figura 37 - Razão capital / produto – Cenário crise continuada... 123
Figura 38 - Comércio exterior – Cenário integração competitiva... 124
Figura 39 - Comércio exterior – Cenário crise continuada... 124
Figura 40 - Balança comercial – Cenário integração competitiva... 125
xii
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS
ANFAVEA Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores
ABIMAQ Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos
ABRAMAT Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Construção
BCB Banco Central do Brasil
CADE Conselho Administrativo de Defesa Econômica
CAMEX Câmara de Comércio Exterior
CBIC Câmara Brasileira da Indústria da Construção
CGEE Centro de Gestão e Estudos Estratégicos
CHIVAS Cálculo de Hierarquização de Variáveis em Análise de Sistemas
Cisa14 China Iron and Steel Association
CMN Conselho Monetário Nacional
CNAE Código Nacional de Atividade Econômica
CO2 Dióxido de Carbono
CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
DIEESE Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos
EUA Estados Unidos da América
FBCF Formação Bruta de Capital Fixo
FGV Fundação Getúlio Vargas
Finep Financiadora de estudos e Projetos
FIPE Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
FOB Free on Board
IAB Instituto Aço Brasil
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBRAM Instituto Brasileiro de Siderurgia
IBS Instituto Brasileiro de Siderurgia
IISI International Iron and Steel Institute
INDA Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
MBA Mercado Brasileiro do Aço
MDIC Ministério do desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior
OMC Organização Mundial do Comércio
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PIB Produto Interno Bruto
xiii
K Capital
Kg Quilogramas
Seplan-PR Secretaria de Planejamento da Presidência da República
SELIC Sistema Especial de Liquidação e Custódia
SCN Sistema de Contas Nacionais
SINDUSCON Sindicato da Indústria da Construção Civil
SIR Sistema de Informações Relevantes
TEC Tarifa Externa Comum
xiv SUMÁRIO
1. O PROBLEMA
1.1 Introdução... 16
1.2 Objetivos... 19
1.2.1Objetivo geral... 19
1.1.1Objetivos específicos... 19
1.3 Delimitação do estudo... 19
1.4 Relevância do estudo... 20
2. REFERENCIAL TEÓRICO 2.1 A Visão prospectiva... 21
2.2 A Evolução da visão prospectiva... 21
2.3 Cenários prospectivos... 24
3. METODOLOGIA 3.1. Tipo de esquisa... 28
3.2. Método... 28
3.2.1 Estudos prospectivos... 34
3.2.2 A pirâmide prospectiva... 36
3.2.2.1 Sistema... 37
3.2.2.2 Estratégia de atores... 37
3.2.2.3 Modelos... 39
3.2.2.4 Sistema de informações relevantes (SIR)... 40
3.2.2.5 Teoria... 41
3.3. Coleta de dados... 43
4. APLICAÇÃO DA METODOLOGIA 4.1. Prospectiva... 44
4.1.1. A Siderurgia de aços planos... 45
4.1.1.1. A Oferta - Produção brasileira de aços plano... 47
4.1.1.2. A demanda de aços planos... 48
4.1.1.2.1. O Fator China... 55
4.1.1.2.2. A demanda brasileira... 58
4.1.1.2.2.1. Demandantes brasileiros... 63
xv
4.1.1.3.1. Aço Bruto... 66
4.1.1.3.2. Aço plano... 68
4.1.1.3.3. Informações recentes... 70
4.1.1.4. Definição e justificativa das variáveis ...………. 74
4.1.1.5. Análise estrutural... 75
4.1.2. Atores...………103
4.1.2.1. Definição...103
4.1.2.2. Estratégia...111
4.1.3. Análise Morfológica...117
4.2. Econometria Prospectiva...119
4.3. Cenários da demanda de aços planos no Brasil... 129
4.3.1. Cenário 1: Demanda crescente e sustentável (com integração competitiva)... 130
4.3.2. Cenário 1: Demanda estabilizada (com crise continuada)...133
5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES... 139
1. O PROBLEMA
Neste capítulo apresentaremos o problema de pesquisa, abordando uma avaliação prospectiva da demanda de aços planos no Brasil.
Adicionalmente, trataremos sobre o objetivo geral, os objetivos específicos, a delimitação e a relevância do estudo.
1. 1 Introdução
Segundo Roberti (1999, p.1) “o aço constitui fator de progresso na sociedade tecnológica moderna, sendo o seu consumo tomado como valor apreciativo do grau de desenvolvimento da atual civilização”.
Roberti ainda comenta que:
A chamada “era moderna”, tem no aço um fator determinante. O ciclo de desenvolvimento da humanidade, iniciado com a Revolução Industrial e ainda em curso, está estruturado no modelo metal-mecânico. O aço é o material que viabilizou este modelo. O desenvolvimento dos transportes, desde o surgimento da rudimentar máquina a vapor, passando pelas antigas ferrovias, até chegar-se ao atual estágio industrial, nada seria possível sem o desenvolvimento da tecnologia siderúrgica.
O setor siderúrgico fornece insumo indispensável aos mais variados processos industriais, por este motivo é chamado de indústria de base. Ele exerce grande efeito multiplicador na economia, pois interage multilateralmente com praticamente todos os demais setores.
Esta indústria apresenta um caráter cíclico em razão dos projetos de investimentos em capacidade produtiva não-coordenados em nível mundial e da pouca flexibilidade da tecnologia da produção siderúrgica em ajustar a oferta à demanda.
Até 2001, a produção mundialsiderúrgica encontrava-se relativamente estagnada. O processo de fusões e aquisições havia se iniciado com a intenção de racionalizar a produção à demanda estável. Entretanto, a partir do forte crescimento da demanda siderúrgica na China, o ritmo desse processo arrefeceu, por causa das grandes margens obtidas pelas empresas decorrentes do aumento dos preços em nível mundial.
Não somente o processo de consolidação teve sua lógica econômica enfraquecida, como ainda a forte demanda chinesa e os altos preços ainda viriam a incentivar novos projetos de expansão na siderurgia e nos seus fornecedores de matéria-prima.
Aqui no Brasil, o período pós-privatização – 1994 a 2002 – foi pleno de programas de investimentos com objetivo de modernização tecnológica, redução de custos, melhoria da qualidade, enobrecimento da produção, proteção ambiental e, em menor escala, aumento de capacidade instalada. Tal ciclo foi bem-sucedido em sua proposta inicial, entretanto não houve aumento significativo da capacidade produtiva.
A indústria siderúrgica nacional produz uma ampla gama de produtos planos e longos, acabados e semi-acabados, capaz de atender a quase totalidade (95%) da demanda do mercado doméstico. Estes produtos são comumente classificados em laminados (ou acabados) longos, planos e semi-acabados. Os laminados planos constituem-se no principal segmento do mercado siderúrgico mundial, tanto em volume como em valor.
Assim, tendo em vista a importância da indústria siderúrgica brasileira relacionada à demanda de aços planos e às incertezas que se apresentam num contexto global, torna-se imperiosa uma análise criteriosa do seu futuro com o intuito de se estabelecer cenários factíveis de ocorrência.
Para tanto, este trabalho se utilizará a técnica prospectiva, que Godet (1983) define como “uma reflexão sistemática que visa orientar a ação presente à luz dos futuros possíveis”.
Aliado a isto, os cenários identificados estarão apoiados num modelo macroeconômico de projeção, o Projetar_e, que indicará o nível de atividade econômica e o possível desempenho das variáveis relevantes para o estudo no período analisado.
O modelo Projetar_e calcula o comportamento futuro do PIB a partir dos comportamentos da poupança interna (P) da relação capital/produto (K/Y), da corrente de comércio (X+M) e dos saldos da balança comercial.
Estas são variáveis exógenas, cujos comportamentos futuros, coerentes entre si, definem os demais agregados da economia. Como se verá mais à frente, os valores destas variáveis exógenas, que serão introduzidas no modelo Projetar_e, serão “calibrados” através dos cenários qualitativos gerados pelo modelo PROSPEX.
Esta proposta metodológica corresponde a um desafio levantado pelo orientador em sua disciplina: buscar uma aplicação concreta da junção Prospectiva-Econometria, gerando resultados quantitativos a partir de cenários qualitativos. É o que o orientador, professor Eduardo Marques, denomina de Econometria Prospectiva. A aplicação se faz em busca da identificação de cenários para a demanda de aços planos no Brasil.
1.2 Objetivos
1.2.1 Objetivo Geral
O objetivo desse trabalho é realizar um estudo prospectivo de longo prazo, sobre a demanda de aços planos no Brasil.
1.2.2 Objetivos Específicos
• Fazer uma descrição retrospectiva e um diagnóstico da situação atual da
demanda de aços planos no Brasil;
• Verificar a influência de eventos econômicos, sociais e setoriais no
comportamento do mercado e como esses fatores retrospectivos influenciarão na demanda de aços planos no país;
• Elaborar cenários da demanda de aços planos, condicionados ao nível de
atividade econômica para ano de 2015, utilizando uma combinação de um modelo de análise qualitativa com um de análise quantitativa.
1.3 Delimitação do Estudo
Dificilmente um projeto de pesquisa engloba todos os aspectos de um determinado tema e, no caso da demanda de aços planos no Brasil, o estudo pretende, à luz da teoria prospectiva, estabelecer seu panorama geral, levando em consideração aspectos qualitativos e quantitativos, com o objetivo de explicitar cenários possíveis de ocorrência.
O estudo se restringirá à demanda de aços planos tendo em vista à sua magnitude no contexto mundial e brasileiro, pois, em 2007, representou 61% de todo consumo de produtos siderúrgicos no país e qualquer mudança estrutural no seu comportamento poderá afetar significativamente o sistema.
1.4 Relevância do Estudo
No Brasil a siderurgia tem grande importância, pois responde por aproximadamente 3% do PIB, 5% do valor total das exportações, com volumes de vendas externas crescentes da ordem de US$ 6,6 bilhões e saldo na balança comercial da ordem de US$ 4,7 bilhões no ano de 2007, representando em torno de 12% da balança comercial brasileira.
Além disto, o setor siderúrgico é um dos maiores geradores de renda e de investimentos do setor produtivo e, por conseqüência, um grande gerador de tributos e de empregos.
A indústria siderúrgica também fomenta o desenvolvimento de diversos setores industriais de grande importância, tais como o automobilístico, produção de máquinas e equipamentos, a indústria petrolífera, naval, a construção civil, dentre outros.
Ademais, a instalação e a manutenção de um complexo siderúrgico nacional tornam-se estratégicos para um país em pleno detornam-senvolvimento como o nosso, extremamente dependente de uma infra-estrutura que nos permita a inserção completa no mercado internacional.
Em relação ao tipo de produto, verifica-se que a produção de aço bruto no Brasil, que em 2007 totalizou 33,8 milhões de toneladas, está concentrada nos laminados planos e longos, que atingiram o patamar de 25,6 milhões de toneladas de produtos finais. Dentre os produtos laminados acabados, 15,7 milhões de toneladas (61,3% do total) constituíram-se em produtos planos.
Assim estudar as variáveis que afetam a demanda de aços planos e as relações que elas mantêm entre si é de fundamental importância para a gestão do setor.
Neste capítulo vimos o problema de pesquisa, abordando a importância do estudo da demanda de aços planos no Brasil, bem como os objetivos finais e específicos, a delimitação e a relevância do estudo.
2. REFERENCIAL TEÓRICO
Neste capítulo apresentaremos a fundamentação teórica da pesquisa e considerações sobre os estudos a respeito da teoria prospectiva e da elaboração de cenários.
2.1 A visão prospectiva
Desde há muito tempo, vários esforços foram feitos na tentativa de prever o futuro. Isto não somente como uma forma de antever possíveis situações, como também de estabelecer mudanças de objetivos tendo em vista as alternativas apresentadas.
Inúmeros questionamentos surgem ao longo deste processo e invariavelmente estão centrados no quesito “incerteza” dos eventos: o que poderá acontecer e qual a sua magnitude? Quando? Como? Quem será afetado? Obviamente as respostas podem ser variadas e muitas vezes não condizentes com as expectativas presentes. Então, podemos alterar o curso dos acontecimentos para atingir um estado desejado?
A palavra prospectiva, por definição, indica questões concernentes ao futuro. “Que faz ver adiante, ou ao longe; visão prospectiva” ¹. Assim, antecipar o futuro permite ao indivíduo analisar as incertezas e refletir sobre as suas opções de ação no presente, prosseguindo para o objetivo estabelecido, criando e construindo progressivamente o futuro desejado.
__________________________
A prospectiva não trata de “acertar as previsões” ou inventar novas técnicas de entendimento do passado. São diversas as forças que atuam contra a realização de um planejamento elaborado a partir de acontecimentos que já ocorreram. A prospectiva trata de aprimorar o entendimento de como o futuro pode dar-se.
Pierre Wack (1985) acredita que o futuro tornou-se um alvo móvel e que o primeiro passo para planejá-lo é aceitar as incertezas desse futuro, tentar entendê-las e torná-las parte do raciocínio.
A análise prospectiva não é uma simples extrapolação, uma previsão ou perspectiva a longo prazo. Tampouco é um prognóstico feito às pressas e nem mesmo uma questão tendencial. Para um dos primeiros proponentes, Berger, a prospectiva não é uma doutrina (GODET, 1979); é um modo de focar e concentrar-se no futuro imaginando-o totalmente novo ao invés de deduzi-lo a partir do presente.
As previsões, tendências e extrapolações constroem um futuro conforme a imagem do passado, enquanto a prospectiva desvincula o futuro do passado, imaginando-o totalmente diferente do passado procurando antecipar as mudanças que certamente virão. Godet (1983) define a prospectiva como “uma reflexão sistemática que visa orientar a ação presente à luz dos futuros possíveis”.
2.2 A Evolução da visão prospectiva
Os sacerdotes associariam seu conhecimento e experiência para predizer os acontecimentos, o que para Wack (1985) seria uma extrapolação do planejamento tradicional: metodologia que olha para o passado e assume que o futuro deverá seguir a mesma tendência, praticamente sem mudanças: o amanhã será uma repetição de hoje, que já é uma repetição de ontem.
Conforme Cristo (2002), a preocupação com o futuro reaparece com o Renascimento e se transforma em importante forma literária com Júlio Verne no Século XIX, obra esta que inspira e direciona o futuro, que reproduz a sua arte. Após isto, no início do século XX, novos pensadores abordam o futuro: George Wells, Vernon Lee e Berthand Russel. Na década de 30 uma obra literária ficcionista torna-se famosa: o Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, que aponta uma direção para a tecnologia e um alerta sobre a questão política que invariavelmente foi considerado como importante instrumento para guiar o futuro numa direção melhor.
As duas guerras do século passado e o seu efeito assustador, a Guerra Fria, estimularam o desenvolvimento de instrumentos de planejamento que superassem os tradicionais planos qüinqüenais, sendo menos determinísticos e mais probabilísticos, buscando evitar situações de catástrofe e tendo em vista a alta capacidade de autodestruição incorporada pela humanidade.
Ainda segundo Cristo (2002), neste contexto, surgem, na década de 60, a Rand Corporation, na Califórnia, e posteriormente o Hudson Institute, como centros de referência de estudos prospectivos. Notabilizaram-se pessoas como Herman Kahn, com a obra “O ano 2000”, e Michel Godet e trabalhos como o “World Dynamic”, sobre sistema ecológico, e o estudo prospectivo da Shell (Wack, 1985) que, em 1969 possibilitou uma visão de futuro de um possível choque do petróleo e cuja conseqüente estratégia levou a Shell a obter petróleo nas águas do Mar do Norte, antes das demais concorrentes, alçando-a ao segundo lugar no “ranking” da sua categoria (WACK, 1985).
choque do petróleo de 1973, obrigaram os governos a uma maior eficiência, portanto, a um melhor planejamento.
Mais recentemente, as profundas mudanças decorrentes da Nova Economia, com a aceleração da competitividade mundial, a alteração das geografias política e econômica, da valorização da ciência e tecnologia, as mudanças no processo produtivo industrial com o surgimento das Alianças Estratégicas, das redes, das novas relações cliente-fornecedor, com o aumento do grau de complexidade nas atividades humanas, associado às novas infra-estruturas de comunicação e de processamento de dados, obrigam a uma vigília permanente em direção ao futuro.
Os ciclos evolutivos lentos, com avanços tecnológicos distantes cronologicamente, possibilitavam uma projeção do futuro baseada numa tendência histórica, durante longos períodos de tempo. Já com as tecnologias de informação e de comunicação, estes ciclos se tornaram muito curtos e o estudo do futuro tornou-se um exercício de muita incerteza. É lidar com esta incerteza e reduzi-la, antecipando os processos de ruptura, ou de inovação, o objetivo principal dos estudos de prospectiva.
2.3 Cenários Prospectivos
Para Godet et al. (2000a, p. 19), “um cenário é um conjunto formado pela descrição de uma situação futura e do encaminhamento dos acontecimentos que permitem passar da situação de origem a essa situação futura.”
Porter (1986), por sua vez, afirma que um cenário é uma “visão parcial e internamente consistente de como o mundo será no futuro e que pode ser escolhida de modo a limitar o conjunto de circunstâncias que podem vir a ocorrer”.
Kahn & Wiener (1967) definem “cenários como tentativas para se descrever, com alguns detalhes, uma seqüência hipotética de acontecimentos que possa conduzir, plausivelmente, à situação que se tem em mira”.
Os cenários podem ser de cunho exploratório, projetivo ou normativo. Segundo Buarque (2003, p. 22), “os cenários exploratórios tem um conteúdo essencialmente técnico, decorrem de um tratamento racional das probabilidades e procuram intencionalmente excluir as vontades e os desejos dos formuladores no desenho e na descrição dos futuros.”
O propósito dos cenários exploratórios é identificar o sentido em que caminha o ambiente, fornecendo suporte para a tomada de decisão, no presente, em face dos futuros possíveis.
Os cenários projetivos são obtidos pela extrapolação dos fatos passados e consideram que as forças que moldaram o passado e construíram o presente continuarão a atuar e modelar o futuro.
Os cenários exploratórios ou prospectivos, por outro lado, ampliam as possibilidades do futuro, analisam diversas tendências e consideram que o futuro pode ser completamente diferente do passado.
O cenário normativo representa um futuro desejado, mas não necessariamente o ideal. Conforme argumenta Buarque (2003, p. 23), o cenário normativo deve ser exeqüível, sua descrição “deve ser plausível e viável e não apenas a representação de uma vontade ou de uma esperança.” Argumenta ainda o referido autor que, “desse ponto de vista, pode-se dizer que o cenário normativo ou desejado é uma utopia plausível, capaz de ser efetivamente construída e, portanto, demonstrada – técnica e logicamente – como viável”. Contudo, tendo em vista a proposta exploratória do nosso estudo, esta abordagem não será levada a efeito.
sociedade. Nos Estados Unidos, por outro lado, a tradição de previsão na área tecnológica, iniciada na Segunda Guerra Mundial, prosseguiu no pós-guerra.
Desse modo, os estudos de novas ferramentas para auxiliar o processo de tomada de decisão culminaram em duas metodologias distintas. A primeira, destinada a compilar a opinião de um grande grupo de peritos, deu origem ao método Delphi. A segunda, um modelo de simulação para analisar as conseqüências da implementação de políticas alternativas, deu origem a uma das técnicas de construção de cenários prospectivos (BRADFIELD, 2004).
Segundo Cornish (1977, apud BÖRJESON et al., 2005), os conhecimentos obtidos na área militar foram transferidos para outras áreas quando o projeto RAND (Research And Development) se transformou na Rand Corporation, e seu propósito mudou de estudos alternativos de armas para estudos exploratórios de políticas nacionais.
Na Europa, no mesmo período, surgiu o conceito de prospectiva. Segundo Marcial & Grumbach (2004), a palavra foi usada pela primeira vez por Gaston Berger com o propósito de fazer oposição à palavra “retrospectiva”. De acordo com Berger (2004, apud Franco, 2007), prospectiva, “formada da mesma maneira que retrospectiva, a ela se opõe, pois olhamos para frente e não para trás. Um estudo retrospectivo examina o passado, enquanto uma pesquisa prospectiva se dedica a estudar o futuro”.
Em seguida, os estudos e técnicas de cenários foram impulsionados pelos trabalhos de Pierre Wack, da Shell International Petroleum Company. Segundo Bradfield (2004), foi o estudo conduzido por Wack, em 1967, que despertou o interesse empresarial em modelagem de cenários. Esse estudo concluiu que o crescimento contínuo do setor petrolífero não iria além de 1985, o que, de certa forma, antecipou a enorme flutuação dos preços do petróleo na crise de 1973 (WACK, 1985).
Bradfield (2004) divide as metodologias de construção de cenários em três escolas básicas: (i) a escola de lógica intuitiva, cujas bases foram os estudos de Pierre Wack, em 1967, para a Shell; (ii) a escola probabilística, cujas bases são os trabalhos de Gordon & Helmer, na Rand Corporation, na década de 1950, e que incorpora os modelos de análise de impacto de tendências e análise de impactos cruzados; e (iii) a escola francesa, que teve inicio com os trabalhos de Gaston Berger na década de 1950, sendo largamente ampliada com os trabalhos de Michael Godet, a partir de 1970.
No Brasil, segundo Buarque (2003), as primeiras empresas a adotarem a prática de construção e utilização de cenários foram o BNDES, a Eletrobras, a Petrobras e a Eletronorte, na década de 1980. O documento “Cenário para a economia brasileira”, do BNDES, pode ser considerado um dos primeiros experimentos nessa área (COSTA, 2004).
Além disso, o trabalho de Eduardo Marques, “Um modelo de geração de cenários em planejamento estratégico”, é um referencial em estudos prospectivos no Brasil e que recentemente, inclusive, foi inserido no banco de idéias do BNDES na comemoração dos 50 anos da instituição (BNDES, 2002).
Em 1987, foi elaborado pelo BNDES, inclusive com a participação de Eduardo Marques, o cenário da Integração Competitiva, concluindo que o país estava bem preparado para competir internacionalmente, desde que fossem resolvidas algumas condições relativas à competitividade da indústria. Este cenário inspirou a abertura econômica posterior.
Outros estudos importantes realizados no Brasil foram: CNPq em 1989, Finep em 1992, Seplan-PR, com o Projeto Aridas em 1994, e IPEA em 1997, com o estudo “O Brasil na virada do século: trajetória do crescimento e desafios do desenvolvimento” (BUARQUE, 2003).
como seu respectivo desenvolvimento no mundo e no Brasil, ressaltando inclusive algumas contribuições importantes para a sociedade.
3. METODOLOGIA
Este capítulo apresenta a metodologia a ser empregada, segundo os seguintes itens: tipo de pesquisa e o seu método.
3.1. Tipo de Pesquisa
Para a classificação da pesquisa, utilizamos como base a taxionomia proposta por Vergara (2007) que a qualifica em dois aspectos: quanto aos fins e quanto aos meios.
Quanto aos fins, a pesquisa será exploratória e descritiva. Exploratória porque, embora existam vários trabalhos sobre a demanda de aços planos no Brasil, não verificamos evidências de estudos que o abordem sob a ótica prospectiva delineada por Michel Godet e apoiada num modelo macroeconômico de projeções sugerido por Eduardo Marques. Descritiva, porque visa descrever a evolução da demanda de aços planos no país, além de evidenciar as principais variáveis de influência sob o ponto de vista prospectivo.
Quanto aos meios, a pesquisa será bibliográfica. Bibliográfica, porque para a fundamentação teórico-metodológica do estudo será realizada uma investigação em livros, revistas, artigos e trabalhos científicos que dizem respeito à demanda de aços planos no Brasil, a teoria prospectiva e levantamento de cenários acoplados a um modelo macroeconômico.
3. 2. Método
O modelo de realização do estudo de cenários é o proposto por Eduardo Marques (2006), denominado PROSPEX e está definido nas etapas da figura abaixo.
PROSPEX - 12 PASSOS PARA O FUTURO ETAPAS DO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DE CENÁRIOS
1. ESCOPO DO ESTUDO - TEMA / HORIZONTE - SISTEMA / DIMENSÕES - VARIÁVEIS ELEVANTES - ATORES RELEVANTES
2. SITEMA DE NFORMAÇÕES RELEVANTES - VARIÁVEIS QUANTITATIVAS - VARIÁVEIS QUALITATIVAS - BANCO DE DADOS EXTERNOS
3. ESTUDOS RETROSPECTIVOS - TEMAS RELEVANTES - ESTUDOS ESPECÍFICOS - ESTUDOS SETORIAIS
4. AVALIAÇÃO-CONJUNTURA - ECONÔMICA - POLÍTICA - SOCIAL - TECNOLÓGICA - AMBIENTAL
5. CONSULTAS A PARTES INTERESSADAS - NOMES/ TEMAS VARIÁVEIS/ ATORES - QUESTIONÁRIOS/ ENTREVISTAS - MESAS REDONDAS
6. CONDICIONANTES DO FUTURO - INCERTEZAS CRÍTICAS, TENSÕES, ESTRANGULAMENTOS - TENDÊNCIAS DE PESO - GERMES DE FUTURO
7. ANÁLISE ESTRUTURAL - MATRIZ ESTRUTURAL (URCA) - HIERARQUIZAÇÃO (CHIVAS) - SEQÜÊNCIA DE EVENTOS (TRILHA)
- IMPACTOS S/ VARIÁVEIS ALVO (IMPACT)
8. ESTRATÉGIAS DE ATORES - ATORES RELEVANTES - OBJETIVOS E MEIOS - ALIANÇAS/ CONFLITOS (MACTOR)
9. ANÁLISE MORFOLÓGICA - MATRIZ MORFOLÓGICA - COMBINAÇÕES ENTRE ESTADOS FUTUROS - CENÁRIOS IDENTIFICADOS
10. QUANTIFICAÇÃO - MODELOS DE CONSISTÊNCIA ATIVIDADES ANTRÓPICAS X
RECURSOS NATURAIS - IMPACTO S/ VARIÁVEIS ALVO ( IMPACT)
- GRÁFICO DINÂMICO
11. CONSOLIDAÇÃO - CENÁRIOS INICIAIS - APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO - ESCOLHA DOS CENÁRIOS
12. CENÁRIOS
Fonte: Marques (2006).
Figura 1 – Prospex – 12 passos para o futuro. Etapas do processo de elaboração de cenários.
Portanto, O Método PROSPEX está dividido em 12 etapas principais: 1. Definição do escopo do estudo
2. Estabelecimento de sistema de informações relevantes 3. Estudos retrospectivos
4. Avaliação de conjuntura
5. Consultas a partes interessadas 6. Análise dos condicionantes do futuro 7. Análise estrutural
8. Análise de estratégia de atores 9. Análise morfológica
11. Debates e consolidação dos resultados 12. Redação final dos cenários
Com o objetivo de melhor esclarecer o processo PROSPEX, em seguida descreve-se sucintamente as suas 12 principais fadescreve-ses:
Na primeira etapa define-se o propósito do estudo. Esta é essencial, pois o seu objetivo deve estabelecer um equilíbrio entre tempo e os recursos disponíveis, bem como o aprofundamento necessário. Os resultados dessa etapa são os seguintes:
• Tema / Horizonte: um “nome” para o estudo que reflita a abrangência dos
cenários e o seu horizonte de tempo (período terminal).
• Sistema e dimensões: o sistema objeto do estudo e suas subdivisões em
dimensões ou subsistemas. É o denominado Diamante da Prospectiva (Figura 2).
Fonte: MARQUES, 2006
Figura 2 – O Diamante da Prospectiva.
• Variáveis Relevantes: variáveis importantes que serão estudadas conforme as
dimensões selecionadas.
• Atores Relevantes: os atores mais proeminentes que serão capazes,
A segunda etapa tem o fito de organizar a informação necessária à elaboração dos estudos de cenários. Mas não é indispensável que sistema de informações seja totalmente concluído neste momento, pois o mesmo será elaborado normalmente ao longo dos trabalhos. Também não há a necessidade de um extraordinário modelo de base de dados, porém será de grande utilidade que as suas informações e respectivas fontes estejam organizadas.
A terceira etapa objetiva estudar de que maneira o sistema evoluiu anteriormente no médio prazo, inclusive em relação aos atores. Procura-se identificar “germes” de mudanças, isto é, fenômenos que estão em andamento e que podem desencadear mudanças futuras. Identificam-se temas relevantes para o estudo e escolhem-se os estudos específicos e setoriais e serem executados.
Em seguida, efetua-se a avaliação de conjuntura. Nessa etapa analisam-se os principais fatores que definem a conjuntura econômica, política, social, tecnológica, ambiental, ou de qualquer outra dimensão considerada relevante, que servirão de base para o desenvolvimento dos cenários.
Na quinta fase, inicia-se a consulta às partes interessadas. Aqui, o objetivo é captar as visões de futuro dos grupos externos interessados no objeto dos cenários que serão organizadas e arquivadas em um acervo. O seu resultado apresentará maior solidez ao processo de cenários.
Adiante, ocorre outra etapa essencial no processo de identificação dos condicionantes do futuro. Nesse momento as variáveis são classificadas pelas suas características de comportamento futuro e selecionadas conforme sua relevância:
• Incertezas críticas: variáveis de alta relevância e com alta incerteza.
• Germes de Futuro: eventos de pouca relevância, mas que podem impactar
significativamente no futuro do sistema.
• Tensões sociais: representam impasses nas relações sociais.
• Estrangulamentos: são insuficiências encontradas na infra-estrutura física do
• Tendências de peso: variáveis cujos desempenhos apresentam alta
previsibilidade.
Contudo, para fins deste trabalho não adotaremos esta classificação, tratando as variáveis apenas incertezas críticas e que serão abordadas no item Definição e justificativa das variáveis.
Na sétima etapa ocorre a denominada análise estrutural. Esta fase caracteriza-se como essencial para o entendimento das inter-relações das variáveis selecionadas na fase anterior, pois as mesmas determinarão o comportamento futuro dessas variáveis. O método PROSPEX baseia-se na geração de uma matriz estrutural que é uma matriz quadrada com células preenchidas com os valores 1 ou 0 (indicando relação ou não). Quando uma variável em linha influencia uma variável em coluna, preenche-se 1 nesta célula. Caso não haja influência, coloca-se 0 na célula ou deixa-se vazia. Assim, o preenchimento da matriz é efetuado de forma sistemática, percorrendo as linhas e verificando a existência de influências nas colunas.
Eduardo Marques desenvolveu um modelo denominado de URCA, que facilita o preenchimento da matriz estrutural. Neste, apenas uma metade da matriz é preenchida com as informações: U = unidirecional; R = reversa; C = circular; A = ausente – e a outra metade é preenchida automaticamente.
Após a fase de preparação da matriz, o modelo CHIVAS hierarquizará automaticamente as variáveis do sistema, o que permitirá uma priorização e redução das variáveis a serem consideradas nos cenários.
Posteriormente à hierarquização, inicia-se o modelo TRILHA que permitirá a identificação de seqüências de variáveis que se influenciam sucessivamente. Muito embora esse processo seja muito útil na tarefa de descrição do futuro, melhorando a coerência dos cenários identificados, o mesmo não será utilizado neste estudo por questões de conveniência.
esses objetivos estratégicos são cruzados com as variáveis do sistema e entre os outros atores. Assim será possível identificar as alianças ou conflitos entre os atores e as influências exercidas pelos mesmos sobre as variáveis. As interações resultantes deste processo exercerão fundamental importância na identificação do comportamento futuro das variáveis. O processo é realizado por intermédio do modelo MACTOR de Michel Godet.
Já o objetivo da nona etapa é de executar a análise morfológica a fim de descobrir cenários plausíveis de ocorrência. Utiliza-se como instrumento auxiliar a matriz morfológica na tarefa de pensar sobre os eventos futuros e interligá-los uns aos outros. Basicamente, o método consiste em dispor em linhas as variáveis condicionantes de futuro identificadas na análise estrutural, conforme hierarquização efetuada pelo modelo CHIVAS, e seus possíveis comportamentos futuros em colunas para formar a matriz. Em seguida relaciona-se um estado futuro de cada condicionante com um estado futuro da condicionante seguinte, e assim sucessivamente, construindo uma combinação de estados futuros e que resultará na identificação de um cenário. Cabe ressaltar que a descrição destes estados futuros deve seguir critérios de coerência, especialmente no que diz respeito à sua combinação. Adiante, no capítulo 4, demonstraremos pormenorizadamente os passos a serem seguidos por ocasião da construção da matriz morfológica e de acordo com o escopo do nosso trabalho.
atividade econômica e o possível desempenho das variáveis relevantes para o estudo. O seu funcionamento será descrito posteriormente no capítulo 4, item 4.2.1.
A décima primeira etapa trata da consolidação de todas as informações anteriormente obtidas em um todo coerente. Nesta fase, os cenários iniciais gerados são apresentados a grupos, entidades e especialistas, debatidos e posteriormente calibrados, se necessário, devido à reavaliação do processo para retificar e/ou complementar os estudos realizados anteriormente. Este trabalho não será objeto de avaliação de especialistas, devendo ser visto pela ótica acadêmica da metodologia e também tendo em vista as restrições das disponibilidades de tempo e recursos.
Finalmente, deve-se elaborar o relatório final sobre os cenários identificados. Imprescindível frisar que este documento deverá ter uma boa qualidade de apresentação e capaz de transmitir adequadamente o seu conteúdo e angariar a aprovação necessária, considerando que será base para decisões estratégicas.
3.2.1. Estudos Prospectivos
Segundo Marques (2006), a metodologia dos estudos prospectivos teve sua origem na necessidade de abordar, concomitantemente, fatores quantitativos, qualitativos, descontinuidades estruturais, incertezas e estratégias de atores.
Avaliar o futuro significa pesquisar as possíveis continuidades e descontinuidades que possam ocorrer em fatores quantitativos e qualitativos, como, por exemplo, o comportamento econômico em função de diferentes futuros, bem como as mudanças de valores sociais dos consumidores e de seus hábitos de consumo e das forças políticas envolvidas no processo. Nesse sentido, para cada estudo prospectivo existem vários futuros possíveis, para os quais os atores precisam estar devidamente preparados.
uma análise do futuro significa admitir que haverá estabilidade estrutural no ambiente externo (Sociedade, Política, Economia, Tecnologia, etc), o que na prática não ocorre. Verifica-se, sim, uma aceleração nas mudanças estruturais originadas do rompimento entre padrões conhecidos no passado e as expectativas de futuro.
É possível explorar situações futuras de variáveis (ou fatores) que compõem um determinado sistema, incluindo na análise as relações que se estabelecem entre estas variáveis. Isto se denomina estruturar a incerteza do futuro que é feita a partir da definição de um sistema e de sua estrutura.
Assim, estudar o futuro implica em simular situações hipotéticas sobre o comportamento das variáveis e de suas inter-relações, levando em consideração, inclusive, as estratégias que os atores poderosos tentam estabelecer em seu benefício próprio e que influenciam nas alternativas de futuro.
Para Marques (2006), estudar o futuro significa vencer três grandes dificuldades: a incerteza, que deve ser estruturada; a complexidade que deve ser reduzida; e a organicidade do sistema que deve ser respeitada.
Tendo em vista a complexidade do ambiente externo, deve-se trabalhar com um número limitado de variáveis relevantes para o sistema objeto da investigação. A seleção destas variáveis e a especificação das relações estabelecidas entre elas são efetuadas através do conhecimento cientifico e do saber disponíveis na economia, na ciência política, na sociologia, nas técnicas, etc.
O método de cenários caracteriza-se pela procura sistemática de descontinuidades que poderiam ocorrer no futuro e, também, pela compreensão do papel dos atores que influenciam a construção da realidade. Isto se explica porque o futuro está sujeito às condicionantes herdadas do passado e às estratégias dos atores mais proeminentes.
Fonte: MARQUES, 2006
Figura 3 - Principais componentes de um cenário
3.2.2. A Pirâmide Prospectiva
De acordo com Marques (2006), a operacionalização das idéias do estudo prospectivo passa pelo estabelecimento de cinco conceitos essenciais, representados abaixo na Pirâmide Prospectiva. Através dela, os prospectivistas interpretam a realidade e procuram descrever futuros possíveis.
3.2.2.1. Sistema
Marques (2006, p. 9) define o sistema como sendo “um conjunto de elementos em relação entre si e suficientemente determinados para serem distintos de seu ambiente”.
Na representação S = (X, R), X indica o conjunto de elementos do sistema e R o conjunto de suas inter-relações. O sistema deve ser visto como um todo indissociável de elementos ativos, cujo significado só pode ser completamente percebido quando analisado simultaneamente com o conjunto de suas inter-relações. Isso significa afirmar que o sistema é composto por diversas variáveis inter-relacionadas, cujas relações devem ser devidamente analisadas com o objetivo de determinação dos possíveis futuros.
Conforme Marques (2006) são estas relações que estabelecem a lei de evolução do sistema, a sua dinâmica, e refletem a sua estrutura.
Com o intuito de melhor descrever o sistema, o mesmo é dividido em subsistemas ou dimensões que reúnem um conjunto de variáveis homogêneas e úteis para o estudo prospectivo. O conceito de homogeneidade está relacionado a um grupo de fatores que usualmente descrevem a realidade, tais como a Economia, a Ciência Política, a Psicologia, a Tecnologia e outras consideradas importantes para o sistema. Já o preceito de utilidade possibilitará a revelação dos aspectos ambientais mais relevantes.
3.2.2.2. Estratégia de Atores
Segundo Marques (2006), uma das grandes contribuições da prospectiva foi evidenciar o papel que os atores exercem sobre a formação do futuro e os define como sendo "um grupo ou organização que tenha interesses diretos sobre o sistema em estudo e que tenha poder para influir na sua formatação".
Assim sendo, Mojica (2004) conclui que se é importante o exercício do poder, o conhecimento de quem o exerce e como o controla é igualmente fundamental, pois conhecer as várias alternativas de cada ator implica em dominar o panorama e ter o poder adicional que proporciona a informação e o conhecimento da situação global.
Portanto, Mojica (2004, p.11) descreve que se existe uma ação coletiva, livre e arbitrária, e há um agente que a realiza, utilizando o poder e as estratégias que possui, o qual pode não ser bem sucedido na medida em que lide com a incerteza gerada por tais ações, este agente é um ator social.
Assim, a reflexão prospectiva iniciou-se com a crítica aos métodos tradicionais de extrapolação de tendências e, desde logo, descobriu-se que uma das fontes de incerteza eram os atores que, ao tentar implementar seus projetos de futuro, influenciavam na própria formação do futuro. Assim, ao estabelecer objetivos e trabalhar para a sua concretização, os atores forjam progressivamente o futuro. Evidentemente, a intensidade da influência varia com o poder dos atores. No nosso caso, interessamo-nos apenas pelos atores mais proeminentes, aqueles capazes, efetivamente, de exercer influência sobre o sistema.
No desenvolvimento de cenários, o papel dos atores é introduzido em duas situações: na análise de suas estratégias e na análise de sua influência sobre variáveis, isto é, como e qual o impacto ocasionado por um ator sobre o comportamento futuro de uma ou mais variáveis.
A influência dos atores sobre as variáveis é considerada no momento em que se analisa o comportamento futuro destas. Este desempenho futuro será influenciado pelas estratégias dos atores mais proeminentes.
pares de atores em função dos objetivos, obtém-se o quadro final de alianças e conflitos no cenário. Para Marques (2006), essa conclusão tem duas finalidades: determinar se o ator patrocina ou se opõe ao cenário e subsidiar de informações para justificar sua influência sobre o comportamento futuro das variáveis.
3.2.2.3. Modelos
Marques (2006, p.13), descreve que os modelos podem ser quantitativos ou conceituais, sendo que o primeiro caso trata exclusivamente de variáveis quantificáveis, portanto mensuráveis como os agregados macroeconômicos, coeficientes técnicos, e outras. Já o segundo, busca as relações lógicas entre as variáveis, sejam elas quantitativas ou qualitativas (conceituais).
Muito embora os modelos quantitativos sejam mais “amigáveis” para se trabalhar, grande parte das mudanças estruturais ocorre a partir de variáveis qualitativas, como as de caráter político, que muitas vezes se sobrepõem às variáveis econômicas.
A concepção prospectivista oferece uma série de modelos qualitativos que, aliados aos quantitativos, instrumentalizam um considerável aprofundamento conceitual a respeito do ambiente externo.
Assim, como os modelos prospectivos procuram captar rupturas, prestam-se aos ambientes turbulentos e a longo prazo, mas que são extremamente dependentes de julgamentos de especialistas no assunto objeto do estudo. Por outro lado, têm a grande vantagem de ser um processo bastante participativo e que melhora sobremaneira o entendimento das pessoas envolvidas sobre o ambiente externo e sua evolução futura.
Para Marques (2006), “o bom estudo prospectivo é aquele em que há judiciosa combinação de modelos, permitindo cobrir a zona cinzenta do curto para o longo prazo e dando a transição ao longo do tempo entre o que permanece e o que muda”.
pesquisadas, pois a percepção de germes de mudança e de tendências de peso inspira os atores mais proeminentes a antecipar as suas ações, o que poderá provocar mudanças em um ambiente já conturbado.
Existem vários métodos disponíveis que realizam a análise estrutural. Em nosso estudo, porém, será utilizado o método URCA/CHIVAS (Cálculo de Hierarquização de Variáveis em Análise de Sistemas).
O método CHIVAS parte das inter-relações entre variáveis, através da matriz estrutural construída com o modelo URCA. O propósito do URCA/CHIVAS é hierarquizar as variáveis pela sua capacidade de influir no sistema como um todo, um critério natural quando se pensa no caráter pró-ativo do planejamento. Como conseqüência também se obtém a hierarquização pela receptividade das variáveis às influências do sistema (Marques, 2006).
O cálculo da hierarquização é feito com o uso de uma função exponencial da matriz estrutural. A potenciação da matriz permite levar em conta os efeitos das influências indiretas. As variáveis mais importantes na hierarquização, muito influentes ou muito sensíveis, serão especialmente observadas nos cenários (Marques, 2006, p.15).
3.2.2.4. Sistema de Informações Relevantes (SIR).
Segundo Marques (2006), os principais problemas de um sistema de informações dizem respeito à sua complexidade, à disponibilidade de dados e informações e à inexatidão dos dados.
A complexidade dos sistemas é uma realidade e o que se faz normalmente é adotar instrumentos que permitam reduzi-la, mediante a diminuição do número de variáveis significativas a avaliar. O método CHIVAS pretende atender esta necessidade.
Uma conseqüência dos problemas anteriormente citados é que os analistas são influenciados a adotar modelos simplificados, cuja arbitrariedade pode comprometer os resultados. Ainda, a estrutura matemática muito rígida dos modelos pode não se adaptar à complexidade do problema estudado.
De um modo geral, então, uma base de dados somente será útil se for passível de uma ampla exploração de sua riqueza informativa e o processo prospectivo não deve ser interrompido ou desacelerado à espera de um sistema de informação concluído, sob pena de perder o “timing” do processo. Do ponto de vista da realização de cenários, um SIR deve conter pelo menos o histórico (quantitativo e/ou qualitativo) das variáveis relevantes do estudo (Marques, 2006, p.16).
3.2.2.5. TEORIA
De acordo com Marques (2006), um mesmo fato encontra várias explicações, dependendo da teoria adotada e mesmo com o uso de métodos sofisticados para tratar a informação, não se consegue evitar totalmente a possibilidade de erro de interpretação. Na expressão de Michel Godet, “o fato é um, sua leitura é múltipla”. Dados só se tornam informações depois de submetidos a um corpo de teoria. Infelizmente, sabe-se que uma teoria falha pode dar resultados corretos e uma teoria correta pode ser muito difícil de comprovar, conforme ainda lembra Godet.
Embora não seja habitual, é desejável nos estudos prospectivos que a teoria inserida seja claramente identificada, tanto pelos autores, quanto pelos usuários dos cenários.
Em síntese, a aplicação do método PROSPEX será feita nas seguintes etapas:
• Definição do sistema “Indústria Siderúrgica Nacional”, através das variáveis
que o compõe e das suas inter-relações [S = (X,R)];
• Hierarquização destas variáveis, a fim de determinar as variáveis motrizes,
“incertezas críticas”. A construção do “plano motricidade-dependência” ajuda a ilustrar o significado destas variáveis;
• Identificação dos atores e de suas estratégias e alianças ou conflitos; as
estratégias serão usadas para ajudar a avaliar a plausibilidade dos cenários;
• Identificação (“descoberta”) dos cenários futuros possíveis por intermédio da
matriz morfológica;
• Junção dos cenários qualitativos assim determinados, com o modelo
macroeconômico Projetar-e; as variáveis exógenas deste – poupança interna, relação capital/produto, corrente de comércio e saldo da balança comercial - são introduzidas em um conjunto que define um cenário e os valores destas variáveis (portanto, o significado do cenário) são calibrados por intermédio dos cenários qualitativos revelados na matriz morfológica;
• Determinação da demanda de aços planos, como resultado do modelo
Projetar-e, para cada cenário.
Do ponto de vista metodológico, esta aplicação reúne explicitamente técnicas qualitativas da prospectiva a um modelo econométrico, o que não é habitual em estudos de cenários. Como se verá, coloca também um problema interessante para a pesquisa: criar um mecanismo formal de junção dos dois tipos de modelos².
Para facilitar o entendimento dos modelos e das suas especificidades, os modelos serão descritos concomitantemente com a sua aplicação no capítulo 4.
______________________________
3.3. Coleta de Dados
Na pesquisa bibliográfica, buscaremos estudos sobre a teoria prospectiva e a demanda de aços planos. Serão pesquisados, livros, revistas, periódicos técnicos, dissertações, artigos e teses.
Este capítulo abordou o tipo de pesquisa a ser realizada, o método a ser utilizado e como a coleta de dados será efetuada.
4. APLICAÇÃO DA METODOLOGIA
Neste item os modelos utilizados na dissertação serão descritos em conjunto com as respectivas aplicações.
Prospectiva
Fase 1: definição do sistema “Siderurgia Brasileira”, inserido na siderurgia mundial, através de variáveis e atores intervenientes, de suas estratégias, de variáveis críticas através das quais são identificados cenários futuros alternativos; esta identificação se faz via um instrumento denominado matriz morfológica.
Econometria Prospectiva
Fase 2: junção dos modelos qualitativos com o modelo econométrico Projetar-e, cujas projeções são constrangidas a respeitar o ponto futuro (cenário) identificado na etapa anterior.
Cenários da demanda de aços planos no Brasil
4.1. Prospectiva
A construção de uma base, de uma imagem do estado presente, de um diagnóstico, é o ponto de partida para o estudo prospectivo e deve conter:
• detalhamento e compreensão, tanto quantitativa como – principalmente -
qualitativa;
• escopo amplo nas diversas áreas: econômica, tecnológica, política, social,
etc.
• dinâmica e explanatória (mecanismos de mudança) e os atores envolvidos.
A elaboração do diagnóstico fornecerá importantes questões que poderão ser discutidas com diferentes atores envolvidos, especialistas e profissionais da área. A análise destes dados contribuirá para definir os germens do futuro, sendo que os resultados obtidos irão permear as bases para determinar as variáveis-chave qualitativas.
Para atingir o referido propósito, utilizaremos a análise estrutural, cujo objetivo principal é a identificação das principais variáveis que influenciam (motrizes) e aquelas que são dependentes, demonstrando assim a relevância das mesmas para a evolução do sistema. Esta análise descreve um sistema com o auxílio de uma matriz que relaciona todos os elementos constituintes desse sistema (GODET, MONTI, MEUNIER & ROUBELAT, 1999).
Existem vários métodos disponíveis que realizam a análise estrutural. Em nosso estudo, a matriz estrutural será preenchida via modelo URCA (MARQUES, 1988) e as variáveis serão automaticamente hierarquizadas pelo modelo CHIVAS (MARQUES, 1988).
Para Godet (1979) e Herrera et al. (1994) a retrospectiva se remete ao passado com o objetivo de compreender o presente, mas não delinear o futuro, necessariamente; é comum encerrar a retrospectiva com um diagnóstico, uma síntese que pretende situar a problemática até os dias mais recentes e fornecer dados numéricos, os quais, por sua vez, irão alimentar a base de dados para os próximos tópicos.
O entendimento dos acontecimentos e o papel dos atores ou agentes envolvidos com a demanda de aços planos no Brasil é o ponto de partida desta retrospectiva, a qual foi dividida em tópicos a fim de elucidar alguns conceitos iniciais e contextualizar o assunto de uma forma coerente.
Neste sentido, primeiramente descreve-se a classificação dos produtos siderúrgicos e o seu processo produtivo, até revelar a importância dos produtos planos dentro de um contexto mundial. Posteriormente procura-se identificar as características fundamentais da produção brasileira de aços planos e a sua importância relativa no cenário mundial, determinando aspectos preponderantes para a compreensão da formação da oferta.
Em seguida, evidenciam-se as particularidades da demanda de aços planos, tanto num âmbito nacional como internacional, culminando com uma síntese da retrospectiva e diagnóstico.
Mormente, ao longo da seqüência descritiva, evidenciar-se-ão os atores relevantes que interferem no sistema e que contribuirão decisivamente para o estabelecimento futuro do nível de demanda de aços planos no Brasil.
4.1.1. A siderurgia de aços planos
A classificação geral dos produtos siderúrgicos, quanto à forma geométrica, é a seguinte: semi-acabados, planos e longos.
Os produtos planos, obtidos através de processo de laminação, possuem largura extremamente superior à espessura e são comercializados na forma de chapas e bobinas de aço carbono e especiais. Costumam ser classificados em revestidos, não-revestidos e em aços especiais.
Os produtos longos são oriundos de processo de laminação, possuem seções transversais em formato poligonal e comprimento extremamente superior a maior dimensão da seção. São ofertados ao mercado em aços carbono e especiais.
Os laminados planos constituem-se no principal segmento do mercado siderúrgico mundial, tanto em volume como em valor. Segundo o IISI, eles correspondem em torno de 57% da produção mundial de laminados, e representam 50% do total (incluindo semi-acabados) de aço exportado mundialmente.
Em geral, os planos são produzidos por grandes usinas siderúrgicas integradas, caracterizadas pela larga escala de produção e pela utilização de alto-fornos no processo de redução. A constante evolução tecnológica dos processos siderúrgicos permitiu o surgimento de melhorias nos insumos (redução direta) e na laminação (lingotamento de placas finas) e que vem possibilitando a entrada das usinas semi-integradas neste mercado, em especial as mini-mills.
Os produtos laminados planos são classificados, quanto à constituição e tratamento superficial destinado à sua proteção, em: revestidos, não-revestidos e especiais.
Tabela 1- Classificação dos produtos laminados planos.
Aços Carbono / Não Revestidos · Chapas e Bobinas Grossas
· Chapas Finas e Bobinas a quente · Chapas Finas e Bobinas a Frio
Aços Carbono / Revestidos · Folhas-de-Flandres
· Chapas Cromadas
· Chapas Zincadas ou Galvanizadas
Aços Especiais Ligados · Chapas e Bobinas Inoxidáveis
· Chapas e Bobinas Siliciosas · Chapas e Bobinas de outras ligas
Fonte: BNDES
4.1.1.1. A Oferta - Produção brasileira de aços planos
O parque siderúrgico no Brasil, em 2007, era composto por 25 usinas, sendo 11 integradas e 14 semi-integradas, administrada por 8 grupos empresariais, com uma produção de 34 milhões de toneladas/ano de aço bruto. Este número representa aproximadamente:
• 2,5% da produção mundial (nona posição no ranking mundial); • 50 % da produção da América Latina.
Os oito grupos produtores de aço no país são a ArcelorMittal Brasil (ArcelorMittal Inox Brasil, ArcelorMittal Aços Longos, ArcelorMittal Tubarão), Gerdau, Usiminas/Cosipa, Companhia Siderúrgica Nacional, Aços Villares, Siderúrgica Barra Mansa, V&M do Brasil e Villares Metals. Dentre os grupos, apenas os quatro últimos não produzem aços planos.
A indústria siderúrgica nacional detém uma ampla gama de produtos planos e longos, acabados e semi-acabados, capazes de atender praticamente toda a demanda do mercado interno dos mais variados segmentos.
logística e da infra-estrutura, a disponibilidade de energia elétrica e de mão-de-obra, além do processo produtivo extremamente evoluído tecnologicamente. Por outro lado, a principal desvantagem da siderurgia brasileira está na dependência de importação de carvão mineral.
A distribuição geográfica, por estado, da produção brasileira se constitui da seguinte forma: Minas Gerais (35,3%), São Paulo (20,4%), Espírito Santo (19,9%), Rio de Janeiro (18,4%) e outros (6%). Desta maneira, pode-se afirmar que a produção siderúrgica está concentrada na região sudeste, onde se encontra o estado que detém a maior reserva de minério de ferro do Brasil (MG), o maior estado consumidor de aço (SP), e os dois estados litorâneos que, simultaneamente, configuram-se como grandes consumidores, além de possuírem portos por onde é escoada a maior parte da produção brasileira (ES e RJ).
O grupo Usiminas/Cosipa é o maior produtor nacional de aços planos com uma representatividade de 48,3%, seguido da CSN com 28,1%, da ArcelorMittal Tubarão com 18,7% e da Acesita com 4,9%, empresa do grupo ArcelorMittal, que é a única fabricante de aços especiais ligados.
A produção brasileira de aços planos foi de 15,69 milhões de toneladas em 2007, superior a de laminados longos que foi de 10,16 milhões de toneladas, representando, portanto 61% do total de laminados produzidos no país e manteve uma tendência crescente com um aumento de 8,9% em relação ao ano de 2006. Há a predominância dos não-revestidos, entre os laminados planos, com 55,2% do total de planos.
4.1.1.2. A demanda de aços planos
Principalmente a partir do início da década de 1990, conforme dados do World Steel Association (WSA), o volume total exportado que era de aproximadamente de 170 milhões de toneladas de aço acabado, passou para 432,6 milhões de toneladas em 2007 e o percentual exportado teve um aumento importante, passando de aproximadamente 26,2% no ano de 1990 para cerca de 35,8% em 2007.
Isso denota a crescente importância da influência do mercado externo sobre os mercados domésticos, além de condicionar, cada vez mais, o destino do setor e de seus membros ao comportamento, regras e peculiaridades do comércio internacional.
O comércio internacional de produtos siderúrgicos é marcado por concentrações, tanto no que concerne à exportação quanto à importação.
Quando se considera como indicador a tonelagem negociada, a exportação mundial foi liderada em 2007 pela China, seguida por Japão, Ucrânia, Alemanha, Rússia, Bélgica, Coréia do Sul, França, Itália, Taiwan, Países Baixos, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Áustria, Turquia, Canadá e Índia.
Já em relação à importação, os maiores compradores em 2007 foram os Estados Unidos, Alemanha, Coréia do Sul, Itália, Bélgica, França, China, Espanha, Turquia, Iran, Tailândia, Reino Unido, Taiwan, Países Baixos, Vietnã, Polônia, Canadá, Índia e Rússia.
Considerando que no ano de 2007 foram exportadas 432,6 milhões de toneladas (WSA, 2009) de produtos acabados e semi-acabados de aço, constatam-se fortes concentrações de importância de alguns países nesse comércio.