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O último trabalho de Mário Schenberg.

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O

Ultimo Trabalho de Mario Shenberg

MarioShenberg'slastwork

Henrique Fleming

Institutode FsiadaUniversidadede S~aoPaulo,

CaixaPostal66318, 05315-970,S~aoPaulo,SP

Reebidoem21dedezembrode2001. Aeitoem27dedezembrode2001.

A ideia deque asestruturas matematias,omoidentiadas pelaesola Bourbaki, transendem

a matematia e estabeleem uma hierarquia entre as teorias dafsia, era ara ao grande fsio

brasileiro Mario Shenberg. Um episodio de sua arreira que ilustra este fato e desrito neste

trabalho.

Theideathatthemathematialstrutures,asidentiedbytheBourbakishool,gobeyond

mathe-matisandestablishahierarhyamongthephysialtheories,washerishedbythegreatBrazilian

physiistMarioShenberg. Thisisillustratedbyanepisodeinhisareer.

Sal~ao nobre da Fauldade de Filosoa, Ci^enias e

Letras,MariaAntonia,naldosanos50. Umprofessor

doDepartamentodeFsia,reemtornadodosEstados

Unidos, onde realizara seutrabalho de tese,

defendia-a diante da bana. A umerto ponto, uma disuss~ao

surge elogoseaalora,envolvendovariosmembrosda

omiss~ao examinadora, menos um, Mario Shenberg,

quepareedormirprofundamente,alongainzadeseu

harutodesaandoagravidade.Aorda,abreumolho,

umso,eexplia laramenteoproblema(easolu~ao)a

todos. E aresenta: \Isto esta no trabalho de Bethe

e Heitler". Comenta o andidato: \Engraado,

on-sultei o proprio Bethe sobre isso, e ele n~ao soubeme

expliar..." Responde Shenberg: \Com erteza ele

esqueeu, ne?"

Estaurtaanedotaservepara mostrarumaspeto

do fsio Mario Shenberg que se ostuma ignorar,

ou negar: seu ompleto domnio da tenia, na fsia

teoria. Otrabalhoaqueserefere,deBetheeHeitler,

n~ao tem muitode losoo. Trata de umimportante

alulo,diilimoalulo,daradia~aoemitidaporuma

partulaarregadaaoserdesaelerada,a\radia~aode

freiamento". Shenberg havia estudado atentamente

essetrabalho,e,adist^aniademuitosanos,onheia-o

aindaem seusdetalhes. Sabia,omestre,queepreiso

nafsia,omo,porexemplo,namusia,estudar

regu-larediligentementeos instrumentos;sabiaqueafsia

N~aose aprende, Senhor,na fantasia,

Sonhando,imaginando ouestudando,

Sen~aovendo, tratandoe pelejando.

Neste artigo vou tratar de outros prediados de

Shenberg. Vamosv^e-loonstruindoestruturasteorias

muitoabstratas,ozendoideiasumasasoutras,\av

al-gando nas nuvens", na bela express~ao de Newton da

Costa. Mas n~ao queria deixar de menionar o outro

lado,otenio,indispensavelparaessasavalgadas.

Raramenteosfsiosrevelamaosseusleitoreso

a-minhoqueoslevouaumadesoberta.

E pena,porque

em alguns asos a motiva~ao tem a mesma fora da

desoberta, uma fora persuasiva que diilmente e

atingida por uma demonstra~ao formal. O que levou

Pasalaestudar apress~aoatmosferia,earealizar

ex-peri^enias minuiosas om tubos de merurio, quando

sua abea gostava de tratar de assuntos muito mais

abstratos?

Equevianaexperi^eniadeTorrielli 1

uma

possveldemonstra~aodaexist^eniado vauo,

ontra-riando uma das pedras angulares de Aristoteles. Em

seutextoistoestalaro.

Eomitidoemtodososlivros.

Noentanto,saberquePasalestavasemedindoomo

Filosofo, da outra dimens~ao aqueles trabalhos. Outro

asofamosoeodeEinstein. Imaginou-seviajandoa

ve-loidadedaluz,e aompanhandouma ondaluminosa.

Oque\via": amposeletriosemagnetiosnovauo,

quevariavamdeumpontoaoutro,masquen~ao

depen-diamdotempo,poisaondaestavaparadaemrela~aoa

PubliadooriginalmentenaRevistadaUSP50,pp.34-38,julho(2001).

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ele. Ora,ateoriadeMaxwelln~aopermiteaexist^enia

desses ampos. Logo,haalgumproblemaemseviajar

aveloidadeda luz. A teoriadarelatividade viria

or-ganizaressasideiasemudartodoopensamentosobrea

natureza. Masasimples\experi^eniaideal"(gedanken

experiment)tornou-ainevitavel,omosefosseumapr

e-demonstra~ao.

Shenbergeradessetipo. Nuna,ouraramente,

tra-balhava a partir de estruturas esboadas por outros.

Suas pesquisas eraminevitaveis: nasiamde uma

ob-serva~ao sagaz danatureza e, apenas tomavamforma

denida, exigiam sua aten~ao, omo uma terapia

tor-nadaindispensavel.

OprimeirofasulodaRevistaBrasileiradeFsia

ontem um artigo singular, de sua autoria.

Denomi-nado Eletromagnetism and Gravitation 2

, possui uma

lista de refer^enias exgua: um unio ttulo, o livro

de Helgason \Dierential Geometry and Symmetri

Spaes". N~aoelaro aque por~ao espeado livro

ele sereferia. Talvezquisesseindiaronvelde

onhe-imentos de geometria diferenial que estava supondo

do leitor.

E a este artigoque me rero aqui, quando

falodeseu\ultimotrabalho". Tiveafortunadepoder

onversaromele,atedemoradamente,sobre esse

tra-balhoesua g^enese. Passoadesrev^e-la.

E umalonga

historia,quen~aomeesforareiparatornarbreve. Tudo

omeouomEinstein.

A desoberta mais impressionante de Einstein foi

a sua teoria da gravita~ao, usualmente onheida

omo Relatividade Geral. Apresenta uma teoria da

gravita~ao que e tambem uma geometria do espa

o-tempo,umasuperfiequadri-dimensionalqueeaarena

dosfen^omenos. Umpontodessasuperfieeumevento,

algoqueaonteeemumpontodoespao,emum

ins-tante do tempo. A teoria e toda formulada em

lin-guagemgeometria,mastrata-sedemuitomaisdoque

uma linguagem: os teoremas dessa geometria s~ao leis

dafsia;medidasfsiass~aoopera~oesgeometrias. A

ideiaenantouomundo. Sobretudo,enantouEinstein,

que dediou todo o resto de sua vida a tentar

esten-deressageometriza~aoaoutrosfen^omenos quen~aode

arater gravitaional. Ao eletromagnetismo, para ser

maispreiso. Einsteinprop^osvariasTeorias deCampo

Uniado, omo as hamava, em que uma parte da

geometria desrevia a gravita~ao, outra o

eletromag-netismo. Jamais obteve suesso. O problema,

refor-muladopara inluirafsia qu^antia eoutrostiposde

foras desobertas desdeent~ao,eaindaum dostemas

entraisdanossafsia.

Shenberg enfrentou a quest~ao inovando-a de

maneirasurpreendente. SemelhantementeaoqueMarx

fez om a dialetia Hegeliana, inverteu o problema:

prourou uma unia~ao entre o eletromagnetismo e

a gravita~ao, sim, masom o eletromagnetismoomo

modelo,ouseja,agravita~aoomosubordinadaaele.

BemoopostodoquepretendiaEinstein.

Os motivos para isso foram, prinipalmente, dois.

O primeiro, uma observa~ao dogrande Paul Dirade

que toda medidae denaturezaeletromagnetia. Mais

preisamente, dada a materia, isto e, deixando-se de

lado as varias foras responsaveis pelas propriedades

mirosopias da materia (uma das quais e o proprio

eletromagnetismo),oproessodemedireinteiramente

eletromagnetio. Bastanotarqueooneitopratiode

retaeeletromagnetio. Amelhorreta,aretaduiaria,

e o aminho da luz num meio homog^eneo. Medidas

de dist^anias preisas s~ao feitas om feixes de laser

e interfer^ometros, e mesmo as medidas grosseiras s~ao

dessa natureza(feitas \aolho", otermo popular

aer-tando em heio, neste aso). Shenberginfere da que

oeletromagnetismo, ateoriada luz, tem uma posi~ao

hierarquiaprivilegiada,naestruturadai^enia,omo

teoriadasmedidas.

O segundo motivo e mais omplexo. A esola

franesadematematiadenominadaBourbaki

dediou-se a re-esrever boa parte da matematia em um

es-tilonovo,introduzidopormuitos,masque

verdadeira-menteelodiunassuasm~aos. Umoneitomatematio

era poreles disseadoe analisado em suas estruturas.

Exemplos dessas estruturas s~ao a estrutura algebria,

aestruturatopologia(queintroduzooneitode

on-tinuidade),aestruturadiferenial(queintroduzo

on-eito dederivada, ouaproxima~aolinear),aestrutura

metria(queintroduzooneitodedist^ania).

Shen-bergfoiumpassoalem,eimaginouqueasestruturasse

transportassem tambem as aplia~oes da matematia,

introduzindo ali uma hierarquia. Nafsia,por

exem-plo, as teorias mais fundamentais seriam aquelas que

neessitassemde menosestruturas. Ora, o

eletromag-netismo,emsuaformula~aomatematia,emuitomais

simplesdoqueagravita~ao,sobesseriterio. Defato,

para formular asequa~aode Maxwell do vauo numa

hipersuperfiequalquer,preisa-seapenasdooneito

de derivada exterior, dispensando-se estruturas mais

ompliadas, omo a de onex~ao e de metria.

Es-sas duas s~ao neessarias, ontudo, para formular a

gravita~ao, pois a urvatura do espao-tempo revela,

mede, o ampo gravitaional (para se falar de

ur-vaturaeneessarioooneitodeonex~ao),eametriae

neessaria,porexemplo,paraaraterizaraquelas

ur-vasdoespao-tempoquepodem sertrajetoriasde

or-pos materiais. Assim, de novo ahamos o

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netismoomoateoriamaisfundamental.

Umadasdiferenasfundamentaisentreagravita~ao

de Newton e ade Einstein e que, nesta ultima, aluz

sofre a atra~ao gravitaional, omo uma pedra

qual-quer. O fato experimental que levou a gravita~ao

Einsteiniana aos jornais, e Einstein a fama, foi a

ob-serva~ao,em Sobral,Ceara,enaIlha doPrnipe,por

oasi~ao de um elipse solar em 1919, de uma estrela

queestavaatrasdoSol! Aa~aodagravidade,segundo

Einstein,enurvaria oraio deluzemitido pela estrela,

e que iria para longe de nos, apos tangeniar o Sol,

fazendo-o hegaraos nosso olhos. Nateoria uniada

deShenberg,fen^omenosgravitaionaisganhariamuma

interpreta~ao eletromagnetia. Ora, sabemos que um

raio de luz se enurva, distinguindo-se de uma reta,

quando o meio em que se propaga e inomog^eneo. O

que ausa a urvaturaeondie de refra~ao variavel.

Shenberg ent~ao pensou em interpretar o ampo

gra-vitaionaleletromagnetiamente,supondoquea

gravi-daden~aofosseoutraoisasen~aoumndiederefra~ao

dovauo. Seriavariavelquandooampogravitaional

ofosse,ouseja,quase sempre. Aurvatura doraio de

luz ganhavaassimumainterpreta~aosimplese

intuiti-va.

Ha tr^es testes lassios da teoria de Einstein: a

anomalia doperielio deMerurio,odesvioparao

ver-melho devido aos poteniais gravitaionais,e odesvio

da luz nos elipses. Uma nova possibilidade apareeu

oma tenologiadoradar. Haanosque omovimento

dosplanetassolaresedetalhadamente,minuiosamente

aompanhado por antenas de radar, semalhantes as

do tr^ansito. Enviampulsosde ondaseletromagnetias

para osplanetas. Essespulsos batemlae s~ao

reeti-dos de volta para as antenas. Um estudo do tempo

que transorre entre a sada ehegada,na antena, do

pulso, fornee informa~oes detalhadas sobre a posi~ao

e a veloidade dos planetas. Uma outra previs~ao da

teoriade Einstein (oquarto teste,omoehamado) e

que a gravita~ao ausa uma mudana, um atraso, no

tempodeviagem,idaevolta,dopulsoeletromagnetio

do radar. A demonstra~ao desse fato n~ao e simples.

Na teoriade Shenberg,eperfeitamente natural,uma

vezqueumndiederefra~aoausaumadiminui~aoda

veloidadedaluz.

N~ao reomendamos a leitura do artigo de

Shen-berg para o leitor fragil (oorre-me a express~ao

in-glesa faint-hearted).

E leitura para espeialistas, e

nem mesmo para todos. O mestre, quando se

assi-nava \Shonberg" 3

, n~ao ostumava aliviar o trabalho

dosleitores.

Ha alguns anos, tive omo estudante de mestrado

Jo~ao Franiso Justo Filho, que, alem de estudante

talentoso, era ntimo de Shenberg e de sua famlia.

Oorreu-me ent~ao a ideia de, om Justo, tentar

en-tender melhor as ideias do mestre, usando-as omo

nosso tema de pesquisas. Infelizmente, este estava, ja

ent~ao, inapaitado para aompanhar nossos esforos

e tropeos. Usando um metodo de Julian Shwinger,

perguntamo-nosseosefeitos depolariza~ao dovauo,

prevista pela eletrodin^amia qu^antia, seriam apazes

deriar uma fora, entre duas partulasneutras,que

pudesseserinterpretada omo agravita~ao. Apos um

arduomasmuitoestimulantetrabalho,obtivemos,sim,

uma fora atrativaentre aspartulas, eom a

inten-sidade orreta. A debilidade daatra~ao gravitaional

era onsequ^enia da presena, proposta pornos omo

hipotese,departulasdemassaextremamentegrande,

masquepoderiamexistirapenasomoestadosde

ener-gia negativa, no mar de Dira, podendo n~ao ter sido,

ouvira ser,observadas. Shenbergseguramente teria

imediatamente nos alertado de que o que estavamos

obtendo era uma formamuito sostiadade trataras

forasdeVanderWaals,essasforasquegrudamuma

naoutra assuperfiesdesses plastios nosde

emba-lagem usadosnos supermerados. Na faltadele,

leva-mosmuitotempopara pereber,e soatinamos omo

fatoquandovimosqueadepend^enia,daforaobtida,

omadist^ania,eraaquelatpiadasforasdeVander

Waals. N~ao importa, aprendemos muito, e,

prinipal-mente,pensamosmuitosobreasideiasdonossogrande

professor.

Reentemente oprofessorF.Hehl, daUniversidade

de Col^onia, Alemanha, publiou um trabalho em que

obtinha alguns resultados na linha de pensamento de

Shenberg. Foi alertado pelo professor Jose Wadih

Maluf, da Universidade de Braslia, de que tinha sido

preedido nisso por varias deadas pelo grande fsio

brasileiro, ereonheeu, elegante e publiamente, este

fato. Assim, emboranos faa imensa falta a estatura

de Shenberg, suas ideias ontinuam onoso, vivas e

inspiradoras.

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