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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE HUMANIDADES E DIREITO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO NÍVEL MESTRADO

Márcia Denise Dutra Sias

ASSOCIATIVISMO RELIGIOSO E OS IMIGRANTES AFRICANOS: O caso do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus

na cidade do Rio de Janeiro

São Bernardo do Campo 2011

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Márcia Denise Dutra Sias

ASSOCIATIVISMO RELIGIOSO E OS IMIGRANTES AFRICANOS: O caso do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus

na cidade do Rio de Janeiro

Dissertação de Mestrado apresentada como requisito parcial para a obtenção de título de Mestre, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Orientadora: Profª Drª Sandra Duarte de Souza

São Bernardo do Campo 2011

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Márcia Denise Dutra Sias

ASSOCIATIVISMO RELIGIOSO E OS IMIGRANTES AFRICANOS: O caso do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus

na cidade do Rio de Janeiro

Dissertação de Mestrado apresentada como requisito parcial para a obtenção de título de Mestre, pelo Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo.

Orientadora: Profª Drª. Sandra Duarte de Souza

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A dissertação de mestrado sob o titulo “Associativismo religioso e os imigrantes africanos: o caso do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus na cidade do Rio de Janeiro”, elaborada por Márcia Denise Dutra Sias, foi apresentada e aprovada em 22 de agosto de 2011, perante a banca examinadora composta por: Profª Drª. Sandra Duarte de Souza (Presidenta/UMESP), Prof.Dr.Lauri Emílio Wirth (Titular/UMESP) e Profª Drª Irene Dias de Oliveira (Titular/PUCGoiás).

____________________________________________ Profª Drª Sandra Duarte de Souza

Orientadora e Presidenta da Banca Examinadora

____________________________________________ Prof Dr.Leonildo Silveira Campos

Coordenador do Programa de Pós-Graduação

Programa: Ciências da Religião

Área de Concentração: Ciências Sociais e Religião Linha de Pesquisa: Instituições e Movimentos Religiosos

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Ao meu pai (in memorian) que soube me ensinar a ser perseverante, a acreditar na vida, a valorizá-la e, verdadeiramente, a lutar pelas coisas em que se acredita. Por isso ele conseguiu dizer-me antes de ir: vá a luta!!!

À minha mãe pela força e persistência, pela ousadia em ser mulher, pois, com ela, pude aprender a ser o que sou.

Ao Alexandre e Vinícius, que, mesmo diante de minha ausência- presença, fizeram do meu projeto parte dos seus projetos.

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AGRADECIMENTOS

À Deus pela dádiva da vida, por fazer dela ”a arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.”

À minha orientadora Profª Drª Sandra Duarte de Souza que acreditou em mim, no meu trabalho e na capacidade de fazer brotar da pedra uma flor. Tudo isso devo ao seu exemplo como profissional que me causou desejo em prosseguir no campo da educação e, como pessoa, a lidar com maestria com os conflitos e tensões inerentes à vida pessoal e ao campo acadêmico. Pôde ouvir com paciência as minhas dificuldades, sendo amiga, e por esta razão soube ser firme ao apontar as limitações, as falhas para que eu pudesse enxergar as minhas próprias potencialidades.

A todos os outros professores do curso que, no ato de ensinar, puderam contribuir na aquisição de novos conhecimentos. Assim, não serão menos importantes, mesmo porque me ouviram e participaram com sabedoria da minha trajetória acadêmica.

Aos imigrantes pertencentes à igreja dos africanos que me acolheram afetuosamente em todo momento da pesquisa. Principalmente ao pastor Leonardo Laza Ndosi, pois sem ele este trabalho não teria sido concretizado. Obrigada pela confiança em mim depositada.

À Cáritas Arquidiocesana-RJ, onde pude dar os passos iniciais para o meu percurso acadêmico.

À UMESP que me acolheu durante esta jornada acadêmica, assim como o apoio financeiro recebido enquanto bolsista de pós-graduação do Mestrado em Ciências da Religião, confiado pela Agência Nacional fomentadora de pesquisa e ensino acadêmico- CNPQ.

Aos meus amigos Celena, João (Didio), Claudio, Magali, Margarida que carinhosamente me acolheram, me apoiaram, me incentivaram a prosseguir mesmo diante das adversidades da vida. Não dá para esquecê-los.

À minha amiga Heloisa Stopatto, que me ajudou a decifrar os enigmas de uma escrita e de sua compreensão, compartilhando do ato de gestar uma produção textual.

Aos meus amigos e amigas da pós Lidia (Lidinha), Maryuri, Emerson (rapper americano), Jefferson (Mineirinho), Junior, Alex (sindico), Max, Nilza (sábia), Sueli, Rodrigo, Silas. Enfim, a todos que puderam compartilhar (direta ou indiretamente - porque são muitos) de momentos de alegria e desespero diante dos grandes desafios. Valeu e sempre valerá a pena ter compartilhado com todos vocês este momento da minha vida.

Aos amigos, amigas e familiares que compartilharam deste momento, mesmo estando ausente.

Á Ana Beatriz que com competência ajudou-me a acreditar que era possível produzir um texto, apoiando-me e incentivando-me.

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Ao Alexandre, obrigada por tudo, por ter sido meu companheiro e amigo nos momentos mais difíceis. Deu-me carinho, incentivo, olhou e cuidou do nosso filho quando não pude fazê-lo. Creio que, assim, crescemos e amadurecemos juntos nos sucessos e nos infortúnios. Obrigada por tudo mesmo.

Ao meu filho Vinícius, que na tenra idade se esforçou para compreender a minha dedicação a este trabalho. Muitas vezes sem entender o que isto poderá significar para sua vida na maturidade. Te amo, filho.

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Ser africano não é questão de cor é sentimento, vocação, talvez amor. Não é questão nem mesmo de bandeiras de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento e nas parecenças de outras terras longe das disputas e das guerras encontro na distância esquecimento!

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RESUMO

SIAS, Márcia Denise Dutra. Associativismo religioso e os imigrantes africanos: o caso do

Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus na cidade do Rio de Janeiro.

Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião. Universidade Metodista de São Paulo: São Bernardo do Campo, 2011.

Esta pesquisa faz uma análise do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus, localizado no bairro de Brás de Pina - Zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Procura identificar a função desta comunidade religiosa para os imigrantes congoleses e angolanos que a ela pertencem. Desse modo, visa refletir sobre a formação de um espaço territorial religioso consolidado por elementos da religiosidade africana e do pentecostalismo assembleiano e sua imbricada associação com a formação de redes de apoio e de coesão social em torno da manutenção e sustentação de um espaço identitário. Esse espaço é marcado por elementos que expressam símbolos e signos dos países de origem de seus integrantes - Congo e Angola - ao utilizarem a liturgia africana em seus cultos. A pesquisa leva em consideração as demandas que norteiam o processo migratório, as leis que regem esses imigrantes e o quanto tal processo contribui para práticas associativas que envolvem fatores inerentes a inserção e integração sociocultural e econômica no interior do campo missionário.

Palavras-chave: imigração africana, pentecostalismo assembleiano, redes de apoio social, associativismo religioso.

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ABSTRACT

SIAS, Márcia Denise Dutra. Religious associations and African immigrants: the case of the

Congoangolano Mission Field of the Assembly of God in the city of Rio de Janeiro. Master´s

Thesis in Sciences of Religion. Methodist University of São Paulo: São Bernardo do Campo, 2011

This research is an analysis of the Congoangolano Mission Field of the Assembly of God, located in the district of Brás de Pina - northern region of the city of Rio de Janeiro. It intends to identify the role that this religious community plays for Angolan and Congolese immigrants who belong to it. This way, seeks to reflect on the formation of a religious territorial space consolidated by elements of African religiosity and the Assembly of God Pentecostalism and its imbricated association with the formation of support and social cohesion networks around the maintenance and sustaining of an identity space. This space is marked by elements that express symbols and signs from the countries of origin of its members - Congo and Angola – when using the African liturgy in their worship services. The research takes into account the demands that guide the migration process, the laws governing these immigrants and how much this process contributes to associative practices that involve factors inherent to the socio-cultural and economic insertion and integration within the missionary field.

Keywords: African immigration, Assembly of God Pentecostalism, social support networks, religious association.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 12

CAPÍTULO 1 - BAIRRO DE BRÁS DE PINA: FORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE LUTA E RESISTÊNCIA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO ... 19

1.1 ESCRAVIDÃO AFRICANA E SURGIMENTO DAS FAVELAS ... 20

1.1.1 Categorias sociais da população estratificada socialmente ... 22

1.1.2 Favela carioca: espaço de luta e resistência ... 25

1.2 BAIRRO DE BRÁS DE PINA: CONTEXTO HISTÓRICO ... 29

1.2.1 Bairro de Brás de Pina: “Um pedaço da África no Rio de Janeiro” ... 31

1.3 REDES DE APOIO SOCIAL E (I)MIGRAÇÃO: CONCEITUAÇÃO E CONTEXTUALIZAÇÃO ... 33

1.4 IDENTIDADES CULTURAIS: BAIRRO E IMIGRAÇÃO AFRICANA ... 36

1.5CONCLUSÃO...39

CAPÍTULO 2 - CAMPO MISSIONÁRIO CONGOANGOLANO: PENTECOSTALISMOASSEMBLEIANOEAFRICANIDADES...40

2.1 PENTECOSTALISMO ASSEMBLEIANO: CONTEXTO HISTÓRICO... 40

2.1.1 Carisma do sacerdócio pentecostal assembleiano ... 44

2.1.2 Aspectos da religiosidade do povo africano ... 46

2.1.2.1 Análise de elementos presentes no movimento pentecostal assembleiano e na religiosidade africana ... 48

2.2 O CORPO NO PENTECOSTALISMO: LUGAR DA FESTA ... 50

2.3 SURGIMENTO DO CAMPO MISSIONÁRIO CONGOANGOLANO DA ASSEMBLEIA DE DEUS: SUA HISTÓRIA E SUA GENTE ... 52

2.3.1 Imigrantes: leis que os regem ... 55

2.3.2 Migração e gênero feminino ... 62

2.3.3 Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus: espaço de imigração ... 65

2.4 PERFIL DA COMUNIDADE ... 66

2.4.1 Quem são esses imigrantes: contexto histórico ... 66

2.4.1.1 Angola: breve histórico ... 66

(12)

2.4.2 Quem são esses imigrantes? Identidade de um grupo ... 73

2.4.3 Descrição do espaço físico ... 76

2.5 CONCLUSÃO ... 78

CAPÍTULO 3 - ASSOCIAÇÃO DOS IMIGRANTES DA ASSEMBLÉIA DE DEUS: UM ESTUDO SOBRE A IMIGRAÇÃO AFRICANA NA COMUNIDADE RELIGIOSA ... 79

3.1 CONGREGAÇÃO DOS AFRICANOS DA ASSEMBLEIA DE DEUS E SUA ADESÃO ... 79

3.1.1 O papel da congregação da Assembleia de Deus para os imigrantes africanos ... 80

3.1.2 Adesão dos imigrantes: Igreja dos Africanos da Assembleia de Deus ... 81

3.2 FORMAÇÃO DE REDES DE APOIO SOCIAL E COMUNIDADE PENTECOSTAL DOS AFRICANOS ... 86

3.2.1 Rede de apoio dos imigrantes africanos: linguagem e identidade cultural ... 91

3.3 FATORES DE FORMAÇÃO DE REDE APOIO SOCIAL E COESÃO ... 94

3.3.1 Pastor-africano do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus ... 94

3.3.1.1 Pastor titular e a figura paterna ... 97

3.4 ADESÃO DE HOMENS E MULHERES AO CAMPO MISSIONÁRIO CONGOANGOLANO DA ASSEMBLEIA DE DEUS ... 103

3.4.1 Função de rede de apoio para homens e mulheres do Campo Missionário Congoangolano ... 103

3.5 CONCLUSÃO ... 109

CONCLUSÃO ... 111

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 119

ANEXOS...128

ANEXO 1 – QUESTIONÁRIO: PESQUISA DE CAMPO ... 128

ANEXO 2 – TERMO DE CONSENTIMENTO ... 131

ANEXO 3 ROTEIRO DA ENTREVISTA SEMI-ESTRUTURADA (AUDIOGRAVADA) ... 132

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INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, o fenômeno da globalização tem ocasionado profundas mudanças nos sistemas de produção, nas relações financeiras e nos meios de comunicação social, provocando, dentre outras coisas, deslocamento em massa, seja de imigrantes voluntários ou forçados. O maior problema em torno do mundo global é saber:

que migrantes e refugiados são parte de uma mesma epopéia: resgatar o respeito e a dignidade, recobrar forças diante de impressionantes violações dos direitos humanos, seja sobre suas liberdades individuais, seja sobre prestações sociais e econômicas que não são garantidas pelos governos (UNHCR, s/d, p.9).

Face a esta realidade, a assistência do Estado de origem e do de destino dos imigrantes se mantém precária diante da necessidade de atender a demandas da população de itinerantes diante da precariedade econômica. Com o advento da economia neoliberal, o Estado tende a sustentar interesses de países hegemônicos sem levar em consideração os fatores sociais e culturais de seu próprio povo e suas intercorrências. Criam-se políticas restritivas para a entrada de imigrantes nos países signatários da lei de refúgio, impondo mecanismos que de fato impedem que essas pessoas tenham acesso ao mundo do trabalho, à saúde, à escolaridade. Enfim, é notável a escassez de recursos que atendam aos direitos que lhes são legais e legítimos. Para minimizar tais impactos, seria importante que as instituições públicas e privadas aprendessem com as experiências dos imigrantes, que muitas vezes são dramáticas, fruto de um mundo cada vez mais intolerante ao processo migratório.

Vale destacar que já existe o trabalho de atendimento a imigrantes realizado pela Igreja Católica por meio da Cáritas Arquidiocesana - em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas, o governo estadual e o governo federal - com a finalidade de incentivar e promover a inclusão social dos refugiados.

Quanto a essa atuação, a pesquisadora participou como psicóloga, em meio a outros profissionais (educadores de artes, assistente social, advogados, coordenador da Casa de Acolhida para homens etc.), de atividades multidisciplinares no Rio de Janeiro junto aos refugiados, no período de 2007 a 2009. A vivência e a prática institucional a conduziram a refletir a respeito da diversidade e multiplicidade dos aspectos da imigração. Destaca-se, dentre eles, o papel do apoio social oferecido pela congregação dos africanos pertencentes à Igreja Assembleia de Deus (Brás de Pina, RJ). Esta igreja pertence ao Campo Missionário da

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Congregação da Assembleia de Deus de Boiúna, Jacarepaguá, RJ.1 A congregação dos africanos se situa próxima à favela Cinco Bocas, local onde reside parte dos 386 congoleses que vivem no Rio de Janeiro (UM PEDAÇO..., 2009).

Conforme observações in loco e entrevistas com os participantes durante todo o trabalho na Cáritas Arquidiocesana, constatou-se que a liturgia empregada parece seguir elementos da religiosidade africana da Angola e do Congo, já que grande número dos participantes é proveniente desses países; em sua maioria, os frequentadores são jovens, solteiros e poucos possuem cônjuges brasileiros. As razões que os motivaram a vir para o Brasil, mais precisamente para a cidade do Rio de Janeiro, foram questões relacionadas à guerra e aos conflitos políticos, questões de ordem familiar em alguns casos, mas ambos os casos gerados por situações que envolvem fatores culturais e religiosos. A análise desse estudo concentra-se no Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus.

Quando se iniciaram as atividades de pesquisa de campo e de observação, muitas indagações ocorreram sobre a função da comunidade Assembleia de Deus para esses imigrantes congoleses e angolanos, as quais se tornaram base para a problematização do projeto de pesquisa e a busca por suas respostas: como o associativismo religioso de imigrantes africanos pela congregação da Assembleia de Deus pode ser um espaço de formação de rede de apoio e coesão social na cidade do Rio de Janeiro? De que modo o associativismo religioso acontece entre homens e mulheres pertencentes à Congregação da Assembleia de Deus dos africanos na cidade do Rio de Janeiro? Em que grau ocorre o associativismo religioso dos imigrantes africanos na Congregação da Assembleia de Deus? A comunidade contribui positiva ou negativamente para a inserção social dos imigrantes na cidade do Rio de Janeiro?

Por meio de estudos bibliográficos (CORTEM, 1996; ROLIM, 1985; OLIVEIRA, 2004), percebeu-se a estreita relação entre o movimento pentecostal e os elementos da religiosidade africana, pois aquele se mostrou constituído em sua matriz de traços de africanidade na forma de expressar a religiosidade. Ao chegar à igreja dos africanos, como é denominada no bairro no qual está inserida, observou-se um espaço limitado por fronteiras e

1

As duas congregações pertencem à CONAMAD - Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil Ministério de Madureira - que surgiu a partir da dissidência entre pastores da CGADB - Convenção Geral das Assembleias de Deus do Brasil - sob a liderança do pastor (hoje bispo) Manuel Ferreira por discordarem de normas administrativas. Em 1989, esses pastores não aceitaram as decisões aprovadas e, assim, foram excluídos pela diretoria da CGADB, tornando-se completamente independentes uma da outra. Cf.

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territórios que a tornam um lugar de demarcação de uma identidade sociocultural religiosa a ser preservada. D´Adesky (2001, p.51) faz uma citação que a exemplifica: “(...) a religião é uma importante referencia de identidade”. Durante esta pesquisa, é feita uma análise acerca da identidade e diferença como parte do processo de integração do imigrante, identidade essa marcada pelas diferenças. Esta razão faz com esse seja um território com traços de nacionalidade, mesmo que sofra todo um processo que leva os imigrantes a conflitos e tensões quanto à manutenção e preservação de seu ethos sociocultural religioso. Sobre a questão de território, há estudos sobre o processo de desterritorialização e reterritorialização no contexto migratório e o quanto tais elementos compõem todo o processo de adaptação cultural. Principalmente, diante da experiência da diáspora que norteou o presente estudo.

Quanto à adesão dos congoleses e angolanos ao Campo Missionário Congoangolano, inicialmente pensava-se que era mantida pela fidelidade religiosa do país de origem, ou seja, por se acreditar que os imigrantes já vinham convertidos ao pentecostalismo assembleiano. No entanto, a resposta encontrada se refere a fatores determinados: pela linguagem utilizada nos cultos (Lingala); pela liturgia ser africana e nela estarem constituídos a dança, os cânticos, a louvação africana, marcadas por um espaço identitário. Assim, homens e mulheres passaram a (re)significar tal espaço de acordo com as representações sociais as quais as religiões, como as pentecostais, proporcionam, por meio das reproduções de papéis sociais e culturais. Interessante perceber detalhes onde há uma imbricada associação entre os papeis masculinos e femininos comuns ao pentecostalismo assembleiano e a forma de ser do africano e da africana. Nesse sentido, as redes sociais se apóiam nessas identidades culturais. Todavia, muitos dos frequentadores não pertenciam à Assembleia de Deus nos países de origem, mas participam da igreja no Brasil em função de ser um espaço africano.

Em relação ao grau de associativismo religioso, as religiões ao longo dos anos têm se apropriado de algumas tarefas que o Estado não consegue atender. Isso se deve ao efeito que a globalização tem tido sobre o Estado, pois o torna gerenciador das necessidades de grandes corporações (empresas, indústrias, etc), tendo apresentado poucos projetos que atendam à população estratificada socialmente. É nesse sentido que as comunidades evangélicas nos últimos anos têm se aproximado da função mediadora no atendimento de demandas dos fieis.

As igrejas evangélicas formam um cenário onde existem características inerentes ao campo religioso (espiritual, fé) e ao campo das demandas objetivas ao formarem redes de acolhimento, ajuda financeira, de inserção social, por meio de atores sociais que, em função de sua atuação, possuem maior ou menor influência na comunidade religiosa. Nesse caso, a

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referência é feita ao Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus, que tem buscado criar mecanismos para o atendimento da necessidade de seu povo - como veremos em todo o trabalho.

Ao dar inicio à pesquisa com os africanos dessa comunidade religiosa, foram observadas as implicações sociais e culturais, uma vez que a pesquisadora era conhecida do líder religioso e de outros atores sociais que compõem tal comunidade.

Mas a motivação para o presente estudo baseou-se na possibilidade de esclarecer problemas complexos que envolvem teorias no campo das Ciências Sociais e, mais especificamente, a Ciências da Religião, tendo sofrido algumas alterações para se adequar às explicações no tocante ao campo dos fenômenos religiosos (pentecostais). Tal fato demandou a abordagem de temas de outras áreas de conhecimento, como a Antropologia, a História, para o auxílio na compreensão do conceito de cosmovisão africana, desde o período anterior à colonização até a pós-colonização,2 o que tornou possível a observação de semelhanças entre os dois aspectos religiosos (pentecostalismo assembleiano e a religiosidade africana) como fonte de coesão social.

Portanto, o objetivo deste trabalho é descrever a adesão dos imigrantes congoangolanos ao campo missionário da Assembleia de Deus como espaço de manutenção e sustentação do ethos sociocultural e religioso, bem como a formação de rede de apoio e coesão social no interior desse espaço. Baseia-se, portanto, em itens de ordem subjetiva e de ordem objetiva, que serão vistos no decorrer do trabalho.

A justificativa de se fazer um estudo dessa natureza deve-se à crescente necessidade de se estabelecerem diálogos com outras áreas do conhecimento (multidisciplinar) para que se possam divulgar, nos meios acadêmicos, em instituições afins, as questões relativas ao processo migratório, o papel do imigrante no país que o acolhe e quanto sua atuação pode favorecer o crescimento urbano por intermédio de ações legitimas e melhoria de sua própria condição e de seus familiares. Tratar desse assunto por meio do campo religioso possibilitará debater a respeito do estabelecimento da formação de redes sociais mais ampliadas para a inserção socioeconômica.

Devemos acrescentar que a análise desse estudo foi viabilizada pelo fato de a pesquisadora ter realizado trabalhos com alguns de seus lideres.3 A começar pelo pastor titular

2

É preciso ressaltar que o termo pós talvez seja passível de revisão, porque, no caso da África, a colonização persiste, na atualidade, sob outra perspectiva, porém não menos dilapidadora de sua cultura.

3

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do campo missionário, que abriu espaço para que as pesquisas e as entrevistas pudessem ser realizadas. A pesquisa foi realizada com o consentimento do pastor por meio de documento escrito e assinado, além de os entrevistados assinarem o Termo de Livre Consentimento.

Desse modo, as pesquisas ocorreram em dezembro (12 e 19) de 2010; março (de 6 a 28) e abril (de 3 a 10) de 2011. Inicialmente foram realizadas de forma aleatória (levantamento do campo) e, posteriormente, mais sistemática (entrevistas, questionários e observação do campo participativa).

A metodologia empregada foi a pesquisa qualitativa, delineada através de estudo de caso e etnográfico. A escolha dessas duas abordagens deveu-se aos processos fenomenológicos existentes no campo das Ciências Sociais, pois traduzem e expressam demandas do mundo social dentro de um determinado contexto em que o sujeito está inserido. Ao mesmo tempo, possibilitaria a interpretação dos fenômenos que ocorrem no dia a dia, os quais revelam parte de uma realidade por meio de símbolos representativos de um determinado grupo social.

Assim, participaram dois pastores - titular e ajudante; 10 membros da comunidade religiosa - cinco homens e cinco mulheres – de idade entre 17 e 51 anos. Foram utilizados entrevistas semi-estruturadas com os pastores e questionários com os participantes da igreja. Foi realizada a observação do campo da pesquisa – observação participante (igreja). A amostra foi assim composta em função da realidade sociocultural desta população, pois as dificuldades para a realização da pesquisa deveram-se: à disponibilidade das pessoas em dela participar, pois dependiam do consentimento do pastor para serem entrevistadas; ao fato de esse ser um grupo resistente a tal tipo de atividade (fatores que compõem a realidade sociocultural devido a demandas como: conflitos étnicos, guerras, rupturas afetivas do país de origem); aos horários de atendimento das pessoas, que não ocorriam no tempo marcado, sendo realizados com atrasos significativos por parte dos entrevistados (as pesquisas deveriam ser realizadas 2 horas antes do início dos cultos em respeito à dinâmica do campo). O número de membros do campo missionário é de aproximadamente 80 participantes, segundo o pastor titular. Vale ressaltar que, durante a passagem da pesquisadora pelo campo, percebeu-se a presença de, aproximadamente, 30 pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Desse modo, as observações realizadas apontaram no sentido da imprecisão quanto ao número de participantes dado pelo pastor, o que influenciou na escolha do número de pessoas entrevistadas.

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As entrevistas buscaram investigar: as motivações que levaram os imigrantes a aderirem à igreja dos africanos da Assembleia de Deus; os aspectos da formação dessa Igreja e a história dos participantes; o processo de formação de rede de apoio e coesão social e de sua integração social e cultural através da comunidade religiosa; questões relacionadas a elementos religiosos africanos nos cultos e de sua identificação sociocultural no bairro de sua localização. Para alcançar os objetivos propostos, foram enfatizados os dados relacionados à relação igreja/bairro, ao associativismo religioso e à formação de rede de apoio e coesão social, assim como o papel do pastor e da instituição religiosa no processo de inserção social e da identidade sociocultural/coesão social.

Diante das colocações expostas, o trabalho será desenvolvido a partir de três capítulos. O primeiro, cujo titulo é Bairro de Brás de Pina: formação de uma história de luta e resistência na cidade do Rio de Janeiro, irá descrever a história do bairro Brás de Pina como cenário de luta e resistência de seus moradores durante o período do desenvolvimento e urbanismo da cidade do Rio de Janeiro. Foram elementos merecedores de nossa atenção: o fato de imigrantes congoleses escolherem tal lugar para fixarem residência, onde surgiu o Campo Missionário Congoangolano e o fato de a favela possuir características que expressam o sentido de etnicidade para as populações estratificadas socialmente. Isto inclui os imigrantes dentro da conjuntura desse estudo a partir da concepção de redes de apoio social marcadas pelas identidades sociais, culturais e econômicas presentes nas comunidades-favelas.

Com o titulo CAMPO MISSIONÁRIO CONGOANGOLANO: PENTECOSTALISMO ASASEMBLEIANO E AFRICANIDADES, o segundo capítulo fará breve descrição histórica do surgimento do pentecostalismo nos Estados Unidos e do início da Assembleia de Deus no Brasil, com a chegada dos missionários, em 1911, no Pará. Nesse caso, tal análise buscará oferecer o entendimento do pentecostalismo como uma religião possuidora de matriz africana e que, por esta razão, estabelece uma relação intrínseca do seu crescimento no Brasil e na África Subsaariana (“África negra”) com características que a tornam uma denominação fortemente constituída por negros. Ao se fazer uma análise dessa natureza, seria possível estabelecer parâmetros da forma como os imigrantes da igreja dos africanos expressam sua religiosidade. São aspectos que revelam uma Igreja que contém elementos do pentecostalismo assembleiano com o uso da liturgia africana, mantendo-se, assim, um cenário plural em uma conjuntura de formação de coesão social por meio da religiosidade com símbolos e signos que a ela pertencem. Será traçado, desse modo, breve histórico sobre o Congo e Angola para se ter

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uma ideia da constituição dos imigrantes do campo missionário e das leis que os regem na cidade do Rio de Janeiro.

No terceiro e ultimo capitulo, intitulado Associação dos imigrantes da Assembleia de Deus: estudo sobre a imigração africana na comunidade religiosa, serão realizadas considerações sobre o associativismo religioso dos imigrantes (Angola e Congo) e a formação de redes de apoio social. Por essa razão, serão utilizados conceitos sobre redes de apoio social no contexto da imigração e no tocante aos movimentos religiosos pentecostais, assim como será abordada sua função nas camadas estratificadas socialmente. A partir de tais conceitos, será analisada a função que esta comunidade religiosa possui para homens e mulheres que a ela se consociaram e o papel do líder religioso como elemento de sustentação do ethos sociocultural e de ajuda para a inserção social dos congoleses e angolanos da igreja dos africanos na cidade do Rio de Janeiro.

Enfim, tais dados puderam ser analisados a partir das entrevistas e da observação participante e comporão todos os capítulos, a fim de estabelecer diálogos possíveis entre os teóricos do campo das Ciências da Religião, das Ciências Sociais, da História e da Antropologia e atores sociais (participantes) do campo missionário Congoangolano da Assembleia de Deus.

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CAPÍTULO 1

BAIRRO DE BRÁS DE PINA: FORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE LUTA E RESISTÊNCIA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Luta e resistência caracterizam a história do povo africano. Percebe-se, por meio de histórias do Congo e de Angola e das situações vividas por seus povos, uma realidade marcada pela diáspora que resultou em um grande contingente humano que transita por todo o mundo, inclusive no Brasil (COSTA e SILVA, 2006; OLIVEIRA e SISS, 2006).

No século XVIII, o Brasil - com o declínio da produção de açúcar e a eclosão do ciclo do ouro - recebeu cerca de dois milhões de escravos (CEHILA, 1987). A partir disso, o contingente de população escrava influenciou enormemente a urbanização dos grandes centros e o surgimento das favelas, devido à maneira de os governos lidarem com uma questão que se tornou bastante complexa com o passar dos anos: a ausência de políticas públicas no atendimento às populações marginalizadas sociais (migrantes, afrodescendentes, etc). É preciso considerar, sobretudo, a realidade do Rio de Janeiro, por ter sido uma das cidades do país que mais recebeu escravos da África Centro Ocidental - Congo e Angola - na primeira metade do séc. XIX (KARACH, 2000), determinando aspectos importantíssimos no tocante à estreita relação entre a formação de “espaço afro-carioca” e o processo de favelização.

Esse fato traz à tona uma questão relevante sobre a história do bairro de Brás de Pina e a conjuntura que perpassou o campo da luta e da resistência, semelhante ao que se passou com os africanos. Afinal, existe um sentido que explica a escolha, pelos congoleses, desta região para morar: fatores econômicos e de identidade sociocultural.

A partir dessa perspectiva, o presente capítulo examina o surgimento de Brás de Pina, com a intenção de proporcionar uma associação entre a presença dos imigrantes africanos e o surgimento do Campo Missionário Congoangolano da Assembleia de Deus. Diante desse fato, surgiu a necessidade de abordar a história do bairro e da favela como espaços de etinicidade e de formação de redes de apoio social.4

4

Quanto à noção de campo missionário: “Normalmente na Assembleia de Deus o nome usado para designar uma igreja-sede e suas congregações é setor ou campo, enquanto ministério é um conjunto de campos ou setores com convenção e presidência própria” (FAJARDO, 2011, p.77). No caso do campo missionário do presente estudo, designa um setor afiliado a uma igreja sede – Boiúna/Jacarepaguá.

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1.1 ESCRAVIDÃO AFRICANA E SURGIMENTO DAS FAVELAS

A história do povo africano se assemelha aos demais povos no mundo tocante às assimetrias políticas, culturais, religiosas etc. É detentor de costumes diferentes das demais culturas, mas isto não é um fator que o coloque em desvantagem, salvo na invisibilidade histórica a que foi submetido em nome de sua colonização. Decerto, entre os africanos havia conflitos e guerras semelhantes aos que ocorriam em outros grupos sociais (europeus, asiáticos etc.). Diante de tal fato, a escravidão surgia a partir do processo da divisão de trabalho e da cooperação entre as unidades locais de produção (SERRANO e WALDMAN, 2008), estabelecendo-se um processo servil diferente do que foi estabelecido pelo colonizador europeu.5 Como exemplo, o povo vencedor, em um dado momento, poderia tornar-se vencido e os prisioneiros eram negociados por meio de resgates; do mesmo modo, seriam possíveis alianças ou casamentos entre os membros rivais; ou ainda a realização de acordos de paz por intermédio de amizades ou por inclusão devido a algum tipo de merecimento. Nesse termo, o escravo é visto mais como um “patrimônio” (SERRANO e WALDMAN, 2008, p.170)

No século XV, a escravidão - realizada tal como descrito acima - visa a lucratividade quando os portugueses aportam no continente, promovendo o tráfico negreiro e impulsionando a expansão desse tipo de comércio. Os reis ou chefes tribais recebiam bens dos colonizadores, estabelecendo uma relação de troca pela via da mercantilização, tornando cos nativos objetos das mais variadas transações: venda, compra, empréstimo, doação, transmissão por herança, penhor, sequestro, embargo, deposito, arremate. Era uma escravidão pelo senso de propriedade, o que ocorria nas instituições sociais (família, igreja, escola).

Quanto ao papel da Igreja, os jesuítas contribuíam para que as capturas ocorressem com os nativos que se rebelassem ou com aqueles que apresentassem algum comportamento visto como sendo anti-religioso. No tocante à escravidão africana, não houve contestação por parte da Igreja, pois aquela era legitimada por membros da Companhia de Jesus que possuíam escravos nas fazendas e nas instituições religiosas, sendo detentora de mais de 2.000 escravos no Brasil (em colégios, seminários e residências). Vainfas (1986, p.151) faz uma afirmativa que nos ajuda a entender o papel que os jesuítas tiveram na disseminação da escravidão africana: “a forma máxima de consciência, expressa pelos jesuítas e seus discípulos, atingiu a

5

Vale ressaltar que, nesse contexto, a escravidão africana anterior à colonização europeia era tratada como um “produto social” (SERRANO e WALDMAN, 2008, p.169) que envolvia relações sociais, militares,

econômicas, jurídicas e políticas, dando-lhes um caráter de servidão e não de propriedade ou simples mercadoria.

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formulação de um amplo projeto, preocupado em legitimar e normatizar a ordem escravista”. Tudo partia de um projeto que justificava a escravidão africana na condição de mão de obra escrava para um trabalho compulsório na cana de açúcar e nos demais postos de trabalho manual da sociedade brasileira dos períodos colonial e monárquico. Durante muito tempo, ficou no imaginário social que os africanos e seus descendentes, tomados como escravos, aceitavam pacificamente tal situação. No entanto, no século XIX, houve uma luta de classes entre os colonizadores e os escravos que procuravam fugir tanto dos engenhos no interior do estado do Rio de Janeiro quanto das casas grandes na capital. Os escravos, nas fugas, iam para as encostas dos morros, charques, mangues e fazendas, onde cometiam pequenos furtos por não terem condições econômicas para sobreviverem a tal condição precária de vida. E os ex-escravos foram para as periferias, como as áreas da baixada Fluminense.

Segundo algumas fontes (KARACH, 2000; CEHILA, 1987; PINSKY, 1987), a ausência de um projeto que pudesse garantir uma estrutura de vida para os escravos após a abolição (1888) contribuiu para que muitos continuassem sendo escravizados devido à precariedade em que se encontravam, como nos sinaliza a literatura. Dessa maneira, os negros estão vinculados a uma história de pobreza e escravidão, pois o legado de miséria e negligência se inscreve em sua trajetória como uma herança cultural que persiste na memória da sociedade.

Contudo, os africanos cativos que chegaram ao Brasil tiveram um papel crucial para o desenvolvimento cultural e econômico do país. Isto pode ser percebido de várias maneiras: nos traços marcantes de sua luta e resistência, na articulação no campo político e religioso, na conjuntura histórica do povo brasileiro, nas tradições demarcadas por símbolos e ritos que compõem todo um acervo linguístico, nas artes, na fabricação e utilização de objetos, nas vestes, na música, na medicina caseira. Ou seja, toda uma conjuntura que marca o papel que os africanos tiveram para a construção social, cultural e histórica de uma nação. Ainda assim não há o reconhecimento que os faça sentir sua importância na construção do cenário socioeconômico brasileiro. Na verdade, é digno de nota que a maioria dos desempregados, moradores dos bairros periféricos dos centros urbanos, sem a devida atenção do poder público para sua saúde, moradia e educação seja de pardos e negros e quanto esse aspecto influencia na formação social, como veremos a seguir.

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1.1.1 Categorias sociais da população estratificada socialmente

Dando um salto na história brasileira, é possível perceber que a partir dos anos 50 a população se tornou mais urbana, devido ao processo de industrialização. O resultado, porém, foi a proliferação das favelas e, consequentemente, da pobreza em função da ausência de políticas públicas, notável nas grandes metrópoles.

As populações estratificadas socialmente se concentraram nas periferias, como as favelas, e nas regiões empobrecidas dos centros urbanos, sendo estabelecida uma relação de profunda desigualdade social sem precedentes. Esse cenário demonstra a ausência de serviços de infra-estrutura básica para o atendimento das necessidades sociais e de ações públicas de saúde, educação e moradia, que garantiriam à população melhores condições de vida. A precariedade de assistência termina por tornar socialmente vulneráveis os estratificados sociais.

As situações de vulnerabilidade social devem ser analisadas a partir da existência ou não, por parte dos indivíduos ou das famílias, de ativos disponíveis e capazes de enfrentar determinadas situações de risco. Logo, a vulnerabilidade de um indivíduo, família ou grupos sociais refere-se à menor capacidade de controlar as forças que afetam seu bem-estar, ou seja, a posse ou controle de ativos que constituem os recursos requeridos para o aproveitamento das oportunidades propiciadas pelo Estado, mercado ou sociedade (KAZTMAN, 2000, p.7).

Isto deve ser analisado por meio do contexto socioeconômico, relativo a demandas essenciais para a busca de bem-estar. Por esta razão, deve estar agregado primeiramente a valores humanos, relacionados ao trabalho como ativo principal, e aos investimentos em saúde, educação, qualificação e, segundo, aos aspectos sociais também vinculados a redes sociais, confiança e acesso a informação. Assim, em termos de vulnerabilidade social, é preciso considerar a situação das pessoas em relação à inserção no mercado de trabalho, à debilidade de relações sociais e ao grau de acesso ao serviço público ou outras formas de proteção social.

As populações das favelas vivem uma realidade de precariedade socioeconômica provocada por anos de negligencia política e social, sempre em busca de novas perspectivas para uma vida melhor, parecendo assim buscar conquistar o pertencimento a outro grupo socioeconômico onde as condições de vida sejam mais favoráveis. Evidentemente, parte de todo esse processo se deve a clivagens socioeconômicas inerentes aos aspectos raciais como

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nos mostra a História do Brasil, mais precisamente a do Rio de Janeiro, com a escravidão dos africanos e, posteriormente, a abolição da escravatura (PINSKY, 1987).

Hasenbalg (1979, p.67) enfatiza a formação de cinturões de pobreza devidos a diferenças raciais, correspondentes à clivagem entre brancos e negros, ao afirmar que os negros brasileiros possuem um ciclo de desvantagens acumulativas presentes em toda a sua vida: “[...] não apenas o ponto de partida dos negros é desvantajoso (a herança do passado), mas em cada estágio da competição social, na educação e no mercado de trabalho, somam-se novas discriminações que aumentam tal desvantagem”.

Assim, com apoio na ideia da discriminação racial como um dos fatores que têm contribuído para as desigualdades no âmbito sociopolítico, é possível concluir que isso está associado às competições por posições nas estruturas sociais. Para Sansone (2003, p.55):

A relação entre cor e classe é, obviamente, complexa. Se, historicamente, a cor e a classe estiveram estreitamente associadas, no sentido de a tez escura e o fenótipo africano se associarem a uma posição de classe baixa, a relação entre mobilidade social e a identidade negra é comumente mais complexa do que se costuma presumir.

Decerto, a análise da relação entre mobilidade humana, associada ao fenótipo e a tez escura se torna complexa por questões que envolvem discriminações que se descortinam nas estruturas sociais, cuja composição pode ser assim desenhada: brancos no topo da pirâmide, pardos no meio e, na base, os negros.6 Para ilustrar a limitação em torno das categorias sociais e suas consequências, Sansone (2003, p.95) afirma que “os traços africanos tinham que ser eliminados da vida das ruas e do mercado. As cidades brasileiras tinham que parecer europeias, mesmo que a expectativa média de vida fosse frequentemente pior que a da África”.

Sob esse ponto de vista, seria possível dizer que a expectativa de que o modelo europeu fosse a melhor solução para condições favoráveis nas cidades brasileiras pode ter agravado a situação de vida do negro, acentuando um prejuízo socioeconômico cumulativo e, consequentemente, acelerando a baixa qualidade de vida.

Quanto a resultados do processo de mobilidade humana apontados por Sansone (2003), parece que se referem ao estigma de um povo sem identidade - fruto da diáspora que os fez migrarem de seus países de origem pela força, circunstanciada pela hegemonia

6

,É possível que essa seja uma noção um tanto simplificada de nossa parte como tentativa de organizar conceitos que ao longo dos anos foram criados para estabelecer categorias de tipos humanos. Melhor dizendo, status.

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econômica dos países colonizadores. Assim, o negro e o afrodescendente se enquadram no contexto de mão de obra barata, devido à falta de qualificação, sendo privados de direitos igualitários à educação e capital intelectual.

Dados do IBGE (2000) informam que 54% da população brasileira se declara branca, 45,9% de seu total constituindo-se de pretos (5.4%), de pardos (39.9%) e de amarelos ou indígenas (0.6%). Diante desses dados, é possível fazer a seguinte leitura: 54% de pessoas se consideram “brancas”, sentem-se identificadas com a população dominante e não se identificam com as especificidades como raça, cor da pele ou qualquer outro traço físico

visível,7 tão importantes para o resgate da historia cultural de um povo – este seria um dos pontos cruciais para saídas mais satisfatórias e igualitárias de melhoria das condições de todos. Também pelo citado estudo, a população branca se concentra mais no sul, enquanto a preta e a parda no sudeste e a amarela e indígena no norte.8

Desde os tempos coloniais a sociedade brasileira procurou estabelecer diferenciações entre pretos e pardos, que não eram vistos como iguais. Neste caso, esta distinção provoca uma “cortina de fumaça” na tentativa de se comparar a mobilidade social ascendente. Nessa escala, o pardo possui certa ascendência social em relação ao negro, situando-se numa posição intermediaria entre o branco e o negro. Existem esforços de organizações civis que defendem a mudança de parâmetros existentes para a compreensão da sociedade e que defendem a mudança de análise associando o conhecimento, a experiência e recursos no sentido de ajudar as pessoas a construírem uma vida melhor. Segundo Wood (1991), os indicadores raciais podem estar associados a fatores que influenciam na percepção do individuo acerca de sua raça; um sistema contínuo de cores que determinam as graduações entre os negros e brancos e o sistema de classificação racial que circula no senso comum.

A comunidade internacional (166 países) tem se esforçado para transformar os parâmetros de entendimento da convivência entre povos, suas especificidades raciais e culturais, reconhecendo-os como aspectos importantes a se fortalecer na busca de soluções, agregando o conhecimento e a experiência para viabilizar recursos de maneira mais adequada

7

D´Adesky (2001) faz uma leitura importante sobre o sentido de pertencimento que perpassa o âmbito da coletividade e os atributos culturais a ele inserido. Parte dessa noção se relaciona ao ideal de

“embranquecimento” que se apresenta a partir da miscigenação como anti-racismo e que revela um

racismo heterófobo em relação ao negro. Nesse sentido os dados compilados pelo censo não correspondem a uma informação fidedigna quanto à cor do individuo.

8

Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/censo/: Acesso em 20 mai. 2011.

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(que não uma priorização da visão de classes dominantes). Entende-se, portanto o quanto a questão de identidade é um importante na contextualização acima exposta.9

A análise de dados, oferecida por estudos da Fundação Getúlio Vargas a respeito da distribuição da população brasileira por classes A, B, C (abordagem socioeconômica – AQUINO, 2010), indica que mais da metade dos negros brasileiros pertence à classe C (classe média popular).

Estudos do ano de 2008 (Pesquisa da PNAD - Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio) revelam que a participação dos negros na classe média cresceu 110% em 15 anos, enquanto, no mesmo período, a participação dos brancos cresceu 42%.10 Essa nova realidade parece corresponder a uma política socioeconômica que resultou no aumento do poder de compra da população negra. Contudo, as comunidades menos favorecidas não deixam de estar constituídas, em sua maioria, por negros. De outro modo, podemos também dizer que os riscos de vulnerabilidade social não são reduzidos. Assim aconteceu no Rio de Janeiro, onde parte da população reside na favela, situação provocada pela clivagem social e econômica, como veremos a seguir.

1.1.2 Favela carioca: espaço de luta e resistência

Na história do Rio de Janeiro, há uma estreita relação entre a abolição da escravidão africana e o período de urbanização e desenvolvimento da metrópole, além da migração e do surgimento das favelas nas várias regiões metropolitanas. Dupas (1999, p.13) afirma que a “face da pobreza” no Brasil remete em grande parte às regiões metropolitanas. A demolição de cortiços para eliminar focos de epidemias e liberar as áreas valorizadas da cidade foi parte de um processo político de incremento social e de expansão urbana que já dava indícios do aspecto desenvolvimentista nos períodos colonial e pós-colonial. Diante disso, o surgimento das favelas no séc. XVIII foi a solução encontrada por escravos-libertos, migrantes rurais e imigrantes europeus.

9

PNUD- Programa das nações Unidas para o Desenvolvimento é a rede global de desenvolvimento da Organizaçao das Nações Unidas - está presente em 166 países; seu mandado principal é combater a pobreza. Atua em conjunto com governos, iniciativa privada e sociedade civil, conectando países a conhecimentos, experiências e recursos, ajudando pessoas a construir uma vida digna e trabalhando conjuntamente nas soluções traçadas pelos países-membros para fortalecer capacidades locais e proporcionar acesso a recursos humanos, técnicos e financeiros, à cooperação externa e a sua ampla rede de parceiros.

Disponível em: http://www.pnud.org.br/pnud/. Acesso em: 25mar. 2011.

10

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No século XX, as favelas sofreram ampliação e disseminação e sua denominação passou a significar, segundo Silva (2005), conglomerado de casebres visíveis nos morros cariocas. As favelas se concentraram nas áreas urbanas e, diante disso, passaram a integrar o processo de urbanização com loteamentos de terras tanto nas áreas das elites quanto nas áreas proletárias. Tal fato acarretou a consolidação das favelas tanto nos morros quanto nas áreas planas que foram loteadas para atender ao desenvolvimento industrial, além de ocuparem terrenos pantanosos e mangues (áreas de pescadores).

A natureza das mudanças ocorridas pelo desenvolvimento urbanístico fez com que as favelas se assemelhassem entre si no tocante às características de seus habitantes, empobrecidos em comparação ao restante da população. No entanto, diferenciando-se dado o caráter social e conjuntural em que estejam inseridas, como áreas com maior expansão imobiliária, desenvolvimento industrial e outros fatores que contribuíram para a expansão das favelas, como ocorreu no Rio de Janeiro.

Foi nos anos 90 que houve maior desenvolvimento na região metropolitana, principalmente no setor terciário (comércio de mercadorias, prestação de serviços, serviços de auxiliares da atividade econômica, transporte, comunicação social e administração publica), havendo um crescimento significativo no total de ocupação.

O intenso crescimento demográfico resultou em um padrão periférico de urbanização, relacionado à produção de loteamentos por grandes empresas do setor imobiliário, por pequenas empresas locais ou por empreendedores individuais. Kowalick (2000, p.29-30) faz uma análise a esse respeito quando afirma que “o custo baixo da ocupação para o morador tinha em contrapartida - e podemos dizer que ainda tem - um custo social”. Trata-se de uma alternativa citada pelo autor como “espoliativa”, que acarreta o aumento da jornada de trabalho dos membros das famílias ou a entrada precoce destes no mercado de trabalho. A consequência foi “uma moradia destituída de serviços públicos, de péssima qualidade habitacional e (...) longe do local de emprego”, evidenciada pelas transformações do mercado de força do trabalho que as famílias pobres tiveram de enfrentar como estratégia econômica.

Matéria jornalística de Ronaldo França e Ronaldo Soares (2005) na revista Veja: “nos últimos anos 70% dos mecanismos de financiamento imobiliário foram destinados a pessoas com renda anual acima de 150.000 reais. Ou seja, a classe média e os ricos. Os pobres têm de economizar ou ir construindo aos poucos”. Isto deflagra o seguinte contexto: atualmente, não são mais os “sem teto” que primeiro chegam e constroem as favelas, são os especuladores que

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constroem barracos para vender ou alugar. São criadas, assim, ações de explorações frente à necessidade de qualquer cidadão, como o direito à moradia.

Cabe ressaltar que isto se afina com a ideia de que na favela se formam verdadeiros “currais eleitorais”. Constituíram-se, durante anos, um bom negócio nas mãos de muitos políticos que veem nesse espaço a criação de uma rede de ações assistencialistas como: oferecimento de vagas em creches, mantidas pelas prefeituras; centros sociais; disputas políticas que chegam às associações de moradores. Ou seja, manutenção de recursos que, aparentemente, buscam atender às demandas dessa população, mas que, na verdade, são resultados de anos da lógica pautada no assistencialismo e, não, em medidas que de fato pudessem minimizar a clivagem entre ricos e pobres, negros e brancos, como citado anteriormente.

Tudo isso aponta para o fato de que o Estado tem sido negligente ao proporcionar um vácuo nas ações para uma política pública que atenue esse processo.

Contudo, não é somente o fator econômico que compõe as favelas. Precisamos considerar a cor, raça, gênero como fatores que se agregam a sua formação, constituindo estigmas e preconceitos que contribuem na determinação das desigualdades subjacentes à realidade socioeconômica do Rio de Janeiro. Segundo informação extraída do artigo “Desigualdades e favelas cariocas: a cidade partida está se integrando?” (2010),11

em relação a gênero, existe uma diferença na renda atribuída aos homens e mulheres nas favelas. No período de 2007-2008, os ganhos de renda foram de R$442,00 (quatrocentos e quarenta e dois reais) para eles contra R$267,00 (duzentos e sessenta e sete reais) para elas. Essa diferença entre os gêneros vem diminuindo ao longo dos anos. Quanto a cor ou raça: a renda de negros e pardos teve um crescimento da ordem de 7,45%, equivalente a R$339,00 (trezentos e trinta e nove reais) mensais, cujo resultado é a diminuição dos diferenciais de renda por cor. Conforme a escala de classificação da cor em detrimento da origem, os afrodescentes podem tentar se colocar junto aos brancos na escala racial. Principalmente, se há um profundo vinculo com o capital econômico ou cultural que dê certo status mesmo no contexto da favela. Outro aspecto é a escolaridade, pois, segundo Brandão (2004) reafirma, a situação dos negros é a de grupo na classe dos analfabetos; a situação de cônjuges negros e pardos é a de maior presença na escolaridade relativa ao ensino fundamental incompleto.

11

Este artigo foi elaborado pela equipe do Instituto Pereira Passo a pedido da Fundação Getúlio Vargas para a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, tendo sido coordenado por Marcelo Cortes Neri.

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O Rio de janeiro é possuidor de uma vocação voltada para questões nacionais e a reciprocidade é verdadeira. O Rio é um estado no centro das atenções do mundo. Isto ocorre desde o tempo da presença da corte portuguesa ate o período do estabelecimento da emissora Rede Globo que influencia na visibilidade do Estado. As imagens apresentadas pela mídia televisiva nem sempre correspondem ao que a população desejaria. Ao contrário, são imagens que retratam profundas desigualdades sociais e econômicas, dentre as quais a violência, os deslizamentos de terras e o desemprego nas favelas.

Ainda em relação ao artigo citado o Estado (em suas três esferas: Federal, Estadual e Municipal) tem demonstrado certa incapacidade para lidar com a crise que se instalou nas metrópoles, particularmente no que tange a saúde, trabalho e habitação. É um problema complexo que as favelas cariocas tem tido necessidade de enfrentar: seja por dificuldades concretas ou simbólicas, precisam resistir e lutar pela cidadania. Para isso foi atualizado o diagnóstico das áreas em que foram usadas as PNADS (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) até 2008, assim analisadas: a) Ação integrada: o Estado deve implementar ações que tornem o mercado de trabalho acessível aos pobres, no sentido de estabelecer maior crescimento econômico e atenuar as desigualdades sociais. Ou seja, por meio do crescimento sustentável que viabilize a ascensão socioeconômica da população das favelas. Além disso, o Estado tem se empenhado em combater a criminalidade, com a instalação das Unidades de Policia Pacificada (UPPS), que tem provocado o aumento do mercado imobiliário onde não havia segurança. Esse tipo de ação (UPPS) pode ser justificado como critério para que todos tenham acesso ao ganho de capital como um todo; b) legal e aí!: a relação do Estado com a sociedade retrocedeu nos últimos anos. Tal fato deve-se ao clamor da população contra o caos que se instalou nas ruas, favelas, campos.

Desse modo, o Rio de Janeiro vem se constituindo como uma cidade dividida entre o asfalto e o morro, produzindo assimetrias entre as condições de trabalho e renda nas favelas cariocas e no restante da cidade. É um cenário complexo e polimorfo, em que algumas dimensões estão se integrando e outras se desintegrando frente às diversidades políticas e econômicas. No entanto, a convivência com essas diferenças provoca a luta e resistência de pessoas - moradoras das favelas e do asfalto – por uma cidade que venha corresponder aos seus anseios: local onde a presença do Estado, em suas atribuições, seja mais eficaz no combate às situações que resultam em um espaço paradoxalmente desigual.

Por esta razão, será feita uma narrativa sobre o bairro Brás de Pina, local para onde parte dos congoleses residentes na cidade do Rio de Janeiro migrou - para a favela Cinco

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Bocas. Apresentaremos abaixo alguns aspectos que descrevem o surgimento do bairro Brás de Pina e o processo de acolhimento do grupo congolês, objeto do presente estudo.

1.2 BAIRRO DE BRÁS DE PINA: CONTEXTO HISTÓRICO

Ao analisar estudos do IBGE da década de 60 (Censo do IBGE), Coelho (1966 apud SILVA, 2005, p.93) constatou a existência de um total de 147 favelas no Rio de Janeiro, com um contingente populacional que cresceu 50,17 % (de 196.305 para 337.412) enquanto o crescimento da população do estado não excedeu 39.11% no mesmo período. Silva (2005) revela que as favelas mais populosas se concentrariam na região da Penha,12 onde o Bairro de Brás de Pina está inserido. Nas décadas de 1950-1960, essa região era composta predominantemente de favelas. Porém, no período da ditadura militar, estabeleceu-se uma política de remoção da população das favelas e a de Brás de Pina estaria dentro do projeto de remoção para outras regiões, longe das áreas do grande centro.

A política de remoção das favelas para áreas distantes fazia parte da política desenvolvimentista apregoada durante o processo de industrialização e urbanização do Estado do Rio de Janeiro.13 Contudo, essa transformação, na verdade, se embasava nas teorias de marginalidade urbana (RIBEIRO & LAGO, 2001), segundo as quais havia uma preocupação com a descentralização das comunidades como estratégia de controle político – na época, contou-se com o impedimento das propostas oriundas do Comunismo na América Latina, espelhadas na experiência da revolução cubana. Os moradores seriam removidos para habitações populares num total de doze mil unidades na Vila Kennedy.14 Essa era uma

12

É um bairro da classe média e média-baixa da zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Faz divisa com Olaria, Brás de Pina, Cordovil. Vila da Penha, Vila Cosmos, Engenho da Rainha, Complexo do Alemão e Complexo da Maré. Atualmente, possui aproximadamente 80 mil habitantes, tendo como referência central a Igreja da Penha situada no alto de uma pedra e construída em 1635 pelo capitão Baltasar de Abreu Cardoso, senhor abastado, proprietário de uma grande quinta, dentro da qual se achava um penhasco, local da construção da Igreja. O bairro foi ocupado em 1670. No final do século XIX, a estrada de ferro do norte chegou à Penha e, no século XX, foi a vez do bonde elétrico. A oferta de transporte aumentou ainda mais a população. Em 1920, foi implantado o Curtume Carioca que contribui enormemente para o desenvolvimento dessa região.

Disponível em: http://www.oriodejaneiro.net/bairros/penha.htm. Acesso em: 12mar.2011.

13

Cabe resssaltar que em 1970, os moradores do Morro da Catacumba, centro da cidade do RJ, foram removidos para Brás de Pina, dando lugar a um parque. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Epoca/. Acesso em 12 mar.2011.

14

Fundada em 20/01/1964 pelo governador Carlos Lacerda. O nome foi em homenagem ao idealizador do programa de colaboração para a América Latina e Aliança para o Progresso, o presidente John Kennedy. Ele investiu parte do recurso na construção e cedeu uma verba para a manutenção, doando aos moradores uma réplica da Estátua da Liberdade esculpida pelo mesmo autor da existente em Nova York. Localizada entre o Morro do Retiro e a Serra do Mendanha, no km 35 da Avenida Brasil, a comunidade foi construída com

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resposta do Estado para o controle de possíveis movimentos populares: “remoção de eventuais focos de revolta e controle social intenso pelas mãos do catolicismo assistencialista” (PULHEZ, 2008, p.110).

Importantes focos de resistência entre moradores razoavelmente organizados receberam apoio imediato de membros de comunidades religiosas, especialmente da Igreja Católica e da imprensa, reduzindo a força do processo de remoção realizado pelo Estado. Houve uma estratégia de transformação dos locais de moradia: inicialmente construídos em terrenos pantanosos, sobre palafitas, os moradores passaram a construir suas casas em aterros, dentro do bairro de origem, o que lhes ofereceu maior dignidade e respeito. Essas espontâneas organizações incentivaram a organização de outras partes da sociedade civil, solidária à busca de uma urbanização mais adequada.

Uma experiência a ser lembrada é a do grupo Quadra Arquitetos Associados, constituído de arquitetos recém-formados, liderados pelo professor urbanista e antropólogo Carlos Nelson Ferreira dos Santos. O professor acreditava que a favela deveria ser um investimento social. Após dois anos de experiência (de 1964 a 1966), o Governador Negrão de Lima convidou o grupo Quadra para compor o grupo de assessores realizando consultoria e execução de planos urbanísticos e habitacionais junto à Companhia de Desenvolvimento de Comunidades (CODESCO). Desse modo, iniciou-se a execução de levantamento de campo, desmonte e remanejamentos de barracos, obras de aterro e implantação da infra-estrutura, como a instalação de redes de esgoto, água e luz. Enfim, situação que resultou em uma parceria entre os arquitetos e a população, a qual se deu em um processo empírico que envolveu conhecimento técnico, precariedade e improvisação. Os moradores apresentavam um desenho de suas futuras casas aos arquitetos na tentativa de compor uma realidade tangível que contivesse um saber da casa que de fato fosse real, e não apenas acadêmico (PULHEZ, 2008).

Brás de Pina15 se desenvolveu em meio à complexidade histórica que envolvia o surgimento e a consolidação das favelas. Atualmente, é um bairro de classe média-baixa,

padrões americanos, com ruas amplas que mais pareciam avenidas e ruas estreitas, com características de vilas que integrariam a vizinhança, tudo com ajuda técnica de operários, e a pequena indústria que objetivaria o desenvolvimento socioeconômico.

Atualmente, a população da Vila Kennedy ultrapassa os 100 mil habitantes espalhados pelas diversas vilas. O programa Aliança para o Progresso não foi concluído e o descaso do poder público tornou a comunidade caótica. A associação de moradores busca por melhorias, o que antes seria um exemplo de evolução social. Cf. JUNIOR, 2011.

15

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localizado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, cortado pela linha férrea que dá acesso à Central do Brasil e tem divisa com os bairros de Cordovil e Penha Circular. Possui cerca de 59.000 mil habitantes e é cercado por três favelas: Quitungo, Cinco Bocas e Vila do Pequim.16 É um bairro que cresceu de maneira desordenada, onde ruas formadas por casas melhor estruturadas coexistem com áreas bem precárias, de baixa infraestrutura, habitadas por populações empobrecidas, até hoje.

1.2.1 Bairro de Brás de Pina: “Um pedaço da África no Rio de Janeiro”

O bairro de Brás de Pina possui um contingente significativo de imigrantes africanos provenientes da República Democrática do Congo - Congo (Kinshasa), segundo site Geledés.17 Dos 386 congoleses que residem na cidade do Rio de Janeiro, alguns escolheram a favela Cinco Bocas – Brás de Pina, como moradia.18

Segundo informações de refugiados africanos,19 o fato de que o bairro oferece acessos a outras regiões na cidade a custo baixo por meio de metrô, trem e ônibus incentiva a moradia nesse local; é o mesmo que acontece na favela Cinco Bocas.20Ao ser indagado sobre as motivações que levaram os africanos congoleses a se fixarem no bairro Brás de Pina, o pastor do campo missionário da Assembleia de Deus nos informou apenas que “um foi chamando o outro” (entrevista com Pastor Laza realizada em 06/03/11), sem detalhar os aspectos acima mencionados.21

de açúcar no século XVIII. Enquanto foi dono, construiu um cais dos mineiros para escoar tanto os açúcares quanto o azeite de baleia usado na iluminação pública. O contrato era monopólio real datado de antes de 1639. As terras se estendiam até as margens da baia da Guanabara, o que lhe favoreceu o contrato de pesca das baleias. Esta informação foi extraída de um artigo denominado “Subúrbio cultural: Brás de Pina, a princesinha da Leopoldina”. Disponível em: http://www.originaldobras.com.br/suburbio-cultural.htm . Acesso em: 28mar. 2011.

16

Dados extraídos do site oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, que contém uma síntese das

informações sobre a cidade, seus 160 bairros e as 33 regiões administrativas. Permite uma visão geral dos seguintes temas: território e meio ambiente; população; domicílios; saúde; educação; imóveis; ocupação; renda e tributos. Disponível em: http://portalgeo.rio.rj.gov.br/bairroscariocas/default.htm. Acesso em: 20mar.2011.

17

Cf.: <http://www.geledes.org.br/>.

18

Não há na matéria do site dados sobre quanto dos 386 congoleses foram morar nessa favela.

19

Dados obtidos em uma conversa, no período em que a pesquisadora desenvolvia trabalho junto aos refugiados na Cáritas Arquidiocesana – RJ (1° semestre de 2009).

20

Informação dada por um congolês por ocasião do trabalho da pesquisadora junto aos refugiados e solicitantes de refúgio na Cáritas Arquidiocesana - RJ (ano de 2008).

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Diante dos dados do site Geledés, a pesquisadora fez contato com a XI Região Administrativa da Penha (bairros de sua jurisdição: Brás de Pina, Cordovil, Olaria, Parada de Lucas, Jardim América, Vila Esperança e Vila da Penha) e com a Subprefeitura do mesmo bairro para saber se há algum tipo de registro sobre a existência desses congoleses na favela Cinco Bocas. Não há informação formal sobre o grupo de imigrantes

Referências

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