CAPÍTULO 1 BAIRRO DE BRÁS DE PINA: FORMAÇÃO DE UMA HISTÓRIA DE
1.4 IDENTIDADES CULTURAIS: BAIRRO E IMIGRAÇÃO AFRICANA
Tentando elucidar aspectos relativos à etnicidade como pressuposto para tecer uma análise sobre os indivíduos nas posições existentes na estrutura de classe, surgem as questões raciais no contexto da favelização (BRANDÃO, 2004).
É preciso entender o sentido de etnicidade e a lógica de sua reprodução no sistema social. Serão utilizados argumentos de diversos autores (SANSONE, 2003; D`ADESKY, 2001; CUNHA, 2007 e outros) como suporte teórico sobre a discussão da construção da identidade do migrante e o processo da formação de rede de apoio social em meio à cultura periférica. Assim, ao se pensar na formação do campo missionário dos imigrantes africanos em Brás de Pina, será preciso investigar a presença de rede de apoio entre as partes envolvidas.
Para Sansone (2003), a etnicidade tem sido usada como um termo relacionado a ideologias multiculturais produzidas pela globalização, a qual tem provocado conflitos menos românticos e menos transparentes em relação ao racismo. Desse modo, ele afirma que a cultura é apresentada como sendo praticamente equivalente à etnicidade e a produção cultural é vista como um todo estático. Isto influencia na maneira como as pessoas veem a questão de raça, cultura e etnia. O termo usado como raça é uma maneira de expressar e vivenciar a etnicidade.
Nessa composição, a etnicidade nos leva a examinar a questão da raça em termos dos negros e de como eles a vivenciam no contexto social. Sendo assim, seus traços, fenótipos, correspondem no imaginário social à classe mais baixa, devido à visão estereotipada que incide na relação com o trabalho e, consequentemente, no status. Brandão (2004) faz uma afirmativa que conduz à ideia em que o negro constitui uma força de trabalho em desvantagem se comparada ao branco devido ao legado histórico. Ou seja, equivale a uma produção estática proveniente da percepção de ser uma “subcultura” da cultura ocidental, quase diluída na cultura popular, sendo definida pela divisão existente entre as raças branca e negra. Interessante salientar que tal divisão foi realizada, no século XV, com conotação racista. O conceito foi retirado das ciências naturais, contribuindo para organizar o pensamento e a história natural da humanidade por meio de classificação da cor da pele.23
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Quanto à cultura negra, Whitten e Szwed (1970, p.31) a definem como mista e sincrética. O padrão de negritude se baseia na hierarquia social e as identidades decorrentes da sociedade vigente o definem. Pode-se entender a etnicidade de acordo com D´Adesky (2001), pela via da tentativa de homogeneização e de uniformização que tende a negar o direito de cada um ter uma identidade cultural e um enraizamento comunitário diferente.
As favelas podem ter em seu meio a possibilidade de demarcação de sua própria cultura, em função de suas limitações provenientes da estratificação social. Por essa razão, favorece-lhes a possibilidade de engendrar mecanismos que correspondam a um ethos sociocultural, associados às demandas inerentes a sua realidade. Porém, não menos fragmentada em seu constructo simbólico devido ao processo de hibridismo.
Hall (2006) nos ajuda a esclarecer o termo hibridismo ao concebê-lo como reconstrução de identidades a partir de sua fusão com outras formas de identidades culturais. São fontes criadoras de novas culturas, fruto do processo da globalização que tende a engendrar formas que correspondam, ao mesmo tempo, ao ethos sociocultural, acarretando a progressiva perda da identidade cultural devido ao relativismo que nela se encerra. Todavia, os pequenos grupos tendem a se tornar mais resistentes ao impacto da hibridez cultural.
Na tentativa de preservar a identidade, as comunidades desenvolvem o senso de solidariedade partilhado em meio às vicissitudes da vida, à coletividade e à força que se origina da própria identidade. Conforme Ledrut (1983, p.79): “[...] De agregado, o grupo passa a um estado mais consciente de si próprio”.
A etnicidade, no entanto, perpassa o campo da identificação social, produzido e reproduzido em meio ao ethos sociocultural e religioso, porque nele está contido o “estilo de vida, normas e crenças de suas comunidades” (Geertz, 1978, p.143).
É nesse cenário que surge a noção de rede de apoio social como metáfora e forma (BURITY, 1990), visto que nele se articulam vários atores sociais - igreja, imigrantes, comunidade - engendrando uma rede tecida pelo viés da escassez de recursos que pudessem lhes oferecer alguma forma de sobrevida socioeconômica.
Durante as entrevistas, não foi possível coletar dados sobre as motivações que levaram congoleses a residirem em Brás de Pina. Mas pode-se constatar que as pessoas que pertencem ao Campo Missionário Congoangolano moram, também, em outros bairros da cidade do Rio
do campo semântico e de uma dimensão temporal e espacial. Ou seja, há uma etimologia em que a palavra é acompanhada da evolução conceitual através do tempo – raça: significado etimológico do italiano razza e do latim ratio, usado inicialmente pela zoologia e pela botânica para organizar animais e vegetais em categorias (Oliveira e Siss, 2006).
de Janeiro. Cabe ressaltar que esses africanos participam dessa comunidade religiosa porque nela esta contida a identidade sociocultural, portanto, a demarcação de um espaço identitário: “para mim, eu me sinto em casa, na África, porque cantamos, dançamos e falamos a nossa língua, com meus amigos. É um pedaço da África” (entrevista realizada em 04/04/11).24
A discussão sobre etnicidade e rede de apoio, no que diz respeito à comunidade local e ao campo missionário, pode ser realizada porque se baseia na ideia de que há o processo de construção de um espaço de identidade sociocultural observada nas comunidades pela via da socialização.
A rede de apoio social é tecida quando nela contém elementos que possibilitam uma identificação individual e grupal, através de continuidade com o passado, mantida pelas práticas das tradições culturais, sendo dinâmica, variável e adaptável.
Atualmente, há um trabalho social do campo missionário com a comunidade do bairro. Essa atividade é recente, tendo sido planejada pelo pastor titular Leonardo Laza com a finalidade de tecer uma obra social para as comunidades carentes como ele mesmo diz: “Então, a gente faz isso para o povo carente. Isto é um trabalho social. A minha visão é para todo mundo” (entrevista realizada em 10/04/11).25
Anderson e Parker (1971, p.600) fazem um estudo sobre nacionalidade e como as pessoas tendem a criar padrões institucionais a partir de forte sentimento de unidade para sustentar sua herança cultural, sua identidade, ressaltando que: “As nacionalidades estranhas tendem a segregar-se em áreas residenciais comuns para preservar, com maior facilidade, sua forma de vida”.
Nesse contexto social e político, percebe-se a função que o imigrante passa a efetuar dependendo da cultura originária que é sustentada e organizada conforme a sociedade. As diferenças culturais podem trazer certa disposição a fim de criar um fluxo dinâmico de ações para se tornarem parte de um dado contexto social. Essa possibilidade opera na multiplicidade de diferenças - raça, classe, nação, gênero.
Face a essas considerações feitas neste capitulo, percebeu-se a necessidade de analisar o processo da formação de rede de apoio social a partir de demandas relacionadas à identidade cultural e etnicidade. Todos esses processos são entendidos como fatores subjacentes à incorporação de conhecimento e à troca que se estabelece da cultura local com a cultura
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Depoimento dado à pesquisadora por um dos membros da Igreja, que faz parte do grupo da música, tem 20 anos de idade e está no Rio de Janeiro há dois anos.
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Palavras do Pastor Leonardo Lazã Ndsi, pastor titular do Campo Missionário da Assembleia de Deus (entrevista gravada em 06/03/11, nas dependências da igreja, e se encontra, em anexo, na íntegra).
originária, como no caso desse estudo. As distinções entre as culturas são determinadas pela religião, língua, história, estilo, roupa. As suas práticas e visões socioculturais são sustentadas por atores sociais, participantes ativos e dinâmicos, motivados pela lógica de ser sujeito que busca transcender todas as objetivações contidas nas instituições e na linguagem. Consideramos a ideia de que o sujeito não vive fora das instituições de sentido (família, espaço religioso, instituição escolar, etc), porque nelas se constroem redes de apoio social para que suas ações sejam legitimadas por valores, símbolos, signos que demarquem um contexto social, cultural e religioso. Como no caso do campo missionário Congoangolano da Assembleia de Deus na cidade do Rio de Janeiro ou Igreja dos Africanos do bairro de Brás de Pina.