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Academic year: 2021

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Article on website Researchgate

Por que é razão a maioria dos líderes são homens?

Uma análise biossocial

For what reason most leaders are men?

A biosocial analysis

Paulo Finuras Independent Researcher

Se ouvir alguém que se candidata a um cargo de liderança dizer que o faz «sem nada querer em troca» ou que «não tem nenhum interesse», simplesmente sorria. Isso faz parte do autoengano de quem o diz, porque isso permite ao próprio não só acreditar no que verbaliza como fazer os outros acreditar também.

Quando queremos compreender o comportamento humano, uma das primeiras perguntas a fazer é saber «quem ganha o quê com qualquer coisa que acontece?» Neste caso, quem ganha o quê em ser líder?

Não sei se já pensou por um momento por que é que alguém quererá ser líder e ter de suportar os custos que normalmente estão associados a esse papel, nomeadamente o escrutínio e o controlo da vida pessoal, para além das responsabilidades que o cargo envolve?

Porquê estar disposto a suportar esses custos? Quais são os benefícios que o candidato a líder pretende obter para compensar os custos que terá de suportar?

E já agora, por que é que são normalmente os homens que dominam os papéis de liderança em todas as esferas da vida social? E qual a relação entre estas duas questões?

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A abordagem biossocial e evolutiva da liderança baseia-se nalguns pressupostos relativamente simples: os seres humanos são tanto uma parte da natureza como qualquer outro animal e são, portanto, sujeitos aos processos evolutivos, biológicos e genéticos que influenciam o resto do mundo natural[1].

Se sabemos que somos animais da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominídeos, do género homo e da espécie sapiens, sabemos também, como o refere E. Morin[2] (Op. Cit.) que «somos uma máquina com mais de 3 mil milhões de células controladas e procriadas por um sistema genético que se constituiu no decurso de uma longa evolução natural de milhões de anos e que o cérebro com que pensamos, a boca com que falamos e a mão com que escrevemos são órgãos biológicos».

Portanto, seria no mínimo bizarro que nós e o nosso comportamento não fosse também o produto das forças evolutivas.

Mesmo que não gostemos, a investigação mostra que aquilo que os homens pretendem obter com a liderança são os habituais 3 Ss.: Salário, Statu e Sexo[3].

E porquê? Porque os homens, especificamente, são os principais beneficiários pelo facto de serem líderes e não o são por terem qualquer talento ou dom especial para o ser (embora muitos julguem que sim)!

Do ponto de vista evolutivo os homens sempre procuraram (e procuram) obter e acumular recursos, seja através de ganhos materiais e/ou simbólicos, seja estatuto, seja oportunidades para mais sexo. Ora, como todos sabemos bem, os líderes conseguem acumular mais e melhores benefícios e recursos seja financeiros, de posição e estatuto social seja mais e melhores oportunidades de sexo, acasalamento e eventual reprodução[4]. E porquê, novamente? Porque são eles quem beneficiam tanto mais quanto mais oportunidades de acasalamento tiverem, não as mulheres. As mulheres, ao contrário dos homens, não beneficiam de mais oportunidades reprodutivas pelo facto de poderem fazer mais sexo.

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Mais uma vez, o objetivo final (embora inconsciente) acaba por ser o sucesso reprodutivo no quadro da seleção natural e sexual, refletido na competição intra sexual (masculina) para obter recursos e chamar a atenção das parceiras sexuais.

O «problema» que daqui resulta é que agora parece haver um desfasamento entre o novo ambiente em que vivemos e o ambiente adaptativo que percorremos até aqui o qual equipou e moldou o nosso «computador orgânico», ou seja, o nosso cérebro.

Esta «carga evolutiva» acumulada leva tempo a ser atualizada para responder ao novo ambiente se é que o será alguma vez, considerando a crua repartição na partilha dos custos de investimento reprodutivo que cabem ao homem e à mulher.

De facto, confesso que não sei se sou eu próprio que me estou a enganar a mim mesmo e afinal o ambiente atual, no fundo, não obstante todos os progressos técnicos e tecnológicos, continua, bem no fundo, e na sua essência, a ser de certa forma, o mesmo. Os genes afinal continuam egoístas![5].

Se repararmos bem, não se conseguem vislumbrar razões especiais para não ter mais mulheres a liderar. Pelo contrário. Algumas investigações sugerem mesmo melhores desempenhos de gestão nas organizações e instituições onde há mais mulheres nos cargos de liderança e na gestão. Porquê, então, a persistência por parte dos homens em liderarem e a consequente sobrerepresentação deles nesses cargos?

Por duas razões essenciais. Primeiro, por uma herança evolutiva que ainda carregamos, a qual foi compensadora globalmente para a nossa sobrevivência face ao permanente estado de guerra em que vivemos. Em segundo lugar, porque os homens continuam em competição intra sexual (entre eles) na procura de recursos que os tornem mais atrativos aos olhos das mulheres para serem por estas selecionados.

No ambiente em que vivemos hoje, muito mais do que anteriormente, o estatuto (com tudo o que ele representa e lhe está associado) é a principal fonte do capital de atração para o homem não perder a corrida da reprodução. E como é que o estatuto se representa

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A teoria evolutiva e biossocial consegue assim ligar a liderança, a procura de riqueza, poder, recursos e sexo, e deste modo «desvendar» as razões pelas quais há mais homens do que mulheres a liderar em todas as esferas da vida social e o que é que os líderes procuram ganhar quando se candidatam a sê-lo. E isto acontece mesmo que os homens digam o contrário porque na verdade não têm consciência do que está a acontecer e os argumentos que propõem para justificar o seu comportamento são absolutamente irrelevantes.

Gostemos ou não, o sucesso reprodutivo através da criação de cópias genéticas é o fim último da vida para todas as criaturas, e nós não somos uma exceção na natureza. Tudo o mais, até mesmo a sobrevivência, não é mais do que um meio para o sucesso reprodutivo. Por isso, qualquer comportamento humano, na generalidade, funciona tanto como um executor adaptativo como um maximizador de aptidão inclusiva. Os homens, contudo, na esmagadora maioria dos casos, desconhecem a lógica evolutiva por trás dos seus motivos. Preferem chamar-lhes «desafios» ou «vontade de servir causas», etc.

Porém, e basicamente, o que aqui acontece é que a liderança obedece também à lógica evolutiva na concorrência (intra) sexual masculina: Se as mulheres preferem acasalar com os homens com mais recursos e estatuto, então os homens podem aumentar as suas perspetivas reprodutivas através dos cargos de liderança e da aquisição de recursos materiais e simbólicos que esta permite (nomeadamente, poder, dinheiro, reputação, etc.).

A questão final é a de saber se algum dia seremos capazes de fazer um upgrade ao nosso cérebro da idade da pedra, para um cérebro mais ajustado à sociedade da idade da informação.

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Bibliografia citada e de referência

Barkow, J. (2005). Darwin, sex and prestige. Princeton: Princeton University Press. Buss, D. M. (1994). The strategies of human mating. American Scientist, 82, 238–249. De Waal, F. (1982). Chimpanzee politics: Power and sex among apes. New York: Harper and Row.

Dunbar, R. (1998) The social brain hypothesis. Evolutionary Anthropology. 6:178 – 190 Finuras, P. (2015). Primatas Culturais – Evolução e Natureza humana. Lisboa: Ed. Sílabo

Kanazawa, S. (2004). The Savanna principle. Managerial and Decision Economics, 25:41-54.

152-176 DOI: 10.1177/1069397105283404

Kashdan, T. & Biswas-Diener, R. (2014). The Upside of Your Dark Side. New York: Plume Book

Kenrick, D., (2010). Sex, Murder and the meaning of life. New York: Basic books. Masters, R. (1989). The nature of politics. Yale University Press

Mele, A., 2001, Self-Deception Unmasked, Princeton: Princeton University Press. Miller, G. (2001). The mating mind. New York: Vintage

Morin, E. (1973).O Paradigma Perdido. Lisboa: Europa-América Nelissen, M. (2013). Darwin no Supermercado. Lisboa: Sinais de Fogo

Perusse, D. (1993). Cultural and reproductive success in industrial societies: testing the relationship at the proximate and ultimate levels. Behavioral and Brain Sciences, 16:267-322.

Rubin P. (2002).Darwinian Politics: The Evolutionary Origin of Freedom. New Brunswick: Rutgers U Press

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Van Vugt, M. (2008). Follow me: The origins of leadership. New Scientist, 14 June, 2660. Van Vugt, M. (2006). The evolutionary origins of leadership and followership. Personality And Social Psychology Review, 10, 354-372.

Wilson, D. (2015). Does Altruism Exist? Culture, Genes, and the Welfare of Others. N. Haven: Yale Press.

Wright, R. (1996). The Moral Animal: Why We Are The Way We Are. New York: Free Press

Zahavi, A. (1975). "Mate selection-A selection for a Handicap" Journal of Theory Biology 53 (1): 205–214. doi: 10.1016/0022-5193(75)90111-3

Notas

[1] O funcionamento básico do nosso cérebro não mudou muito nos últimos 12.000 anos. Podemos dizer que, simplesmente, estamos 12 000 anos mais «espertos».

[2] 1974, Op. Cit.

[3] Cf. M. Van Vugt, 2010, Kashdan & Biswas-Diener, 2014.

[4] É sabido que homens mais ricos e de maior estatuto social têm mais parceiras sexuais e copulam mais frequentemente do que homens mais pobres e de baixo estatuto (Kanazawa, 2003; Perusse, 1993).

[5] Apesar de mandarmos sondas e telescópios para o espaço e construirmos estações espaciais, continuamos a ter de fechar a porta de casa à chave e a evitar estar em certos sítios para não sermos assaltados. Como há centenas de milhares de anos acontece.

Referências

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