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PRODUÇÃO DE SENTIDO E CENA DE ENUNCIAÇÃO NO GÊNERO CHARGE

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PRODUÇÃO DE SENTIDO E CENA DE ENUNCIAÇÃO NO GÊNERO CHARGE

Rosemeri Passos Baltazar MACHADO (UEL) Dayane Caroline PEREIRA (PG/UEL)

RESUMO

É por meio da linguagem que os sentidos são proferidos/captados e revelam, por assim dizer, as práticas sociais e discursivas de uma sociedade. Nesse sentido, o presente trabalho tem como objetivo analisar, no gênero charge, o processo de constituição dos sentidos e, ainda, verificar como um determinado acontecimento histórico passa a ser discursivizado no meio social e, consequentemente, como as ideologias são materializadas no discurso. Para as análises propostas, a pesquisa conta com o suporte teórico da Análise do Discurso de orientação francesa, com ênfase nos estudos acerca da enunciação, proposto por Maingueneau (os quais envolvem as três cenas de enunciação, além do conceito de aforização). Com relação à charge, trata-se de um gênero que possui relação direta com a memória e com o sócio-histórico. É um gênero pertencente à esfera do humor, amplamente ancorado no todo da imagem e, por meio de estratégias comunicativas, consegue promover a ruptura na qual os sentidos são materializados. Este trabalho está vinculado ao Projeto de Pesquisa intitulado “Argumentação na publicidade e em outros discursos da mídia impressa”, realizado na Universidade Estadual de Londrina, no qual colaboram alunos da Graduação, Pós-Graduação e professores da instituição.

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INTRODUÇÃO

Diante do intuito de verificar como os sentidos se constituem e circulam em nossa sociedade, este trabalho, sob a perspectiva da Análise do Discurso de orientação francesa, objetiva mostrar o funcionamento discursivo do gênero charge, ou seja, como as relações dialógicas são construídas e, consequentemente, como produzem sentidos por e para os sujeitos. Além do caráter comunicativo, a charge, por meio das especificidades do seu discurso, implica uma série de fatores, dentre eles, linguísticos, sócio-históricos, ideológicos, temporais, entre outros. Esses aspectos corroboram não só para a emissão e compreensão dos sentidos, mas para a própria constituição dos discursos e das ideologias que neles se materializam.

A partir dos estudos acerca da enunciação, propostos por Maingueneau, e de outros conceitos inerentes ao suporte teórico selecionado, é perfeitamente possível, observar como o discurso funciona e como são mobilizados os recursos linguísticos e extralinguísticos, para que assim, os sentidos sejam produzidos e captados eficientemente pelo enunciador e enunciatário, respectivamente. E, mais do que revelar um determinado ponto de vista, ao trabalhar no nível macro do discurso, é possível compreendermos o funcionamento discursivo e ideológico de uma época e de uma sociedade, afinal, é por meio da linguagem, que se torna ossível observar como são construídas as relações humanas.

ENUNCIAÇÃO: A RELAÇÃO ENTRE LÍNGUA E MUNDO

Na Análise do Discurso, trabalha-se com a noção de língua como um sistema sujeito a falhas e abarca-se a questão da ideologia como constituinte tanto do próprio discurso quanto como real condição de existência do sujeito. Seguindo por esse prisma, encontramos um sujeito que é fruto do linguístico-histórico, que é interpelado pela ideologia e se constitui pelos esquecimentos e a partir da sua relação com o outro. Brandão (2002, p.49) defende a ideia de que o sujeito é essencialmente histórico pelo fato de que:

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...sua fala é produzida a partir de um determinado lugar e de um determinado tempo (...). Sua fala é um recorte de representações de um tempo histórico e social. Dessa forma, como ser projetado num espaço e num tempo e orientado socialmente, o sujeito situa seu discurso em relação aos discursos do outro. Outro que envolve não só o seu destinatário para quem planeja, ajusta a sua fala, mas também envolve outros discursos historicamente já constituídos e que emergem na sua fala.

Nesse sentido, o sujeito deixa de ser pensado enquanto dono de seu dizer, como o detentor da origem do sentido, pois, discursivamente, ao falar, ele traz à tona muitas outras vozes que também falam e que, consequentemente, o constitui e o legitima como tal.

Para melhor compreendermos como funcionam esses processos (de constituição, legitimação dos sujeitos e dos discursos, e a forma como os sentidos são produzidos e circulam em nosso meio social), devemos seguir os apontamentos acerca da enunciação que, de acordo com Charaudeau e Maingueneau (2004, p.193), constitui o pivô da relação entre a língua e o mundo. Se por um lado, a enunciação permite representar fatos no enunciado, por outro, constitui, por si mesma, um fato, um acontecimento único definido no tempo e no espaço. Para os referidos autores, a enunciação é uma questão central e se desdobra em dois níveis que interagem constantemente. O nível local das marcações de discurso citado, de reformulações, de modalidades etc., que permite confrontar diversos posicionamentos ou caracterizar gêneros do discurso. O nível global, em que se define o contexto no interior do qual se desenvolve o discurso. Nesse nível, pensa-se em termos de cena de enunciação, de situação de comunicação, de gênero do discurso... (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, p.195).

De acordo com a perspectiva discursiva, ultrapassa-se a concepção de uma enunciação analisada apenas do ponto de vista linguístico, pois, de fato, as práticas discursivas e o próprio uso da língua, não podem ser considerados apenas acerca de seu funcionamento individual, mas sim, a partir

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de uma rede de imbricações e implicações sociais as quais o indivíduo está exposto e que são fundamentais no processo de sua constituição, transformando-o em sujeito.

Pensando no caráter global do discurso, Maingueneau formula o conceito de cenas de enunciação, pois para ele, “todo discurso, por uma manifestação mesma, pretende convencer instituindo a cena de enunciação que o legitima”, (MAINGUENEAU, 2008, p.87). Nesse sentido, o processo de construção dos sentidos não é algo simples, é relevante observar os enunciadores, a situação em que eles se encontram, qual o contexto social, histórico, ideológico e cultural que estão envoltos no momento do dizer e, ainda, analisar quais são os recursos linguísticos mobilizados em prol da argumentação e, consequentemente, da discursivização do acontecimento em questão, no meio social.

Maingueneau (2008, p. 86-88) institui as três cenas enunciativas que, segundo ele, servem para comprovar que um texto não é algo fechado em si mesmo, como um conjunto de signos inertes, pelo contrário, o texto é movimento, é um processo discursivo no qual a fala é encenada e “ganha” voz. Primeiramente, tem-se a cena englobante, que corresponde ao tipo de discurso, ou seja, a capacidade de determinar a que tipo de discurso pertence tal texto. Dessa forma, é necessário perceber em qual cena englobante o sujeito deve se situar para compreender o que foi dito. A cena genérica se refere aos gêneros do discurso, tendo em vista que, cada gênero de discurso define seus papéis. Assim, essas duas cenas definem o quadro cênico do discurso, ou seja, de certa forma, são essas duas cenas que definem o espaço no qual o enunciado passa a adquirir sentido.

E, por fim, a última cena é a cenografia, que passam as duas primeiras cenas para segundo plano, pois de acordo com Maingueneau:

... A cenografia não é simplesmente um quadro, um cenário, como se o discurso

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aparecesse inesperadamente no interior de um espaço já construído e independente dele: é a enunciação que, ao se desenvolver, esforça-se para constituir progressivamente o seu próprio dispositivo de fala (MAINGUENEAU, 2008, p. 87).

Nesse sentido, é possível notar que é na cenografia que ocorre a interação entre os interlocutores e, por meio do próprio discurso, é construída a discursivização dos fatos que, consequentemente, produz sentidos e acaba por revelar os posicionamentos ideológicos do enunciador.

Ainda no que se refere à enunciação, tem-se a ideia de que ela é fundamentalmente tomada no interdiscurso. Charaudeau e Maingueneau (2008, p.195) argumentam que a enunciação equivale a colocar fronteiras entre o que é “selecionado” e o que é rejeitado. De fato, a noção de interdiscurso é de grande relevância ao se estudar a enunciação, pois é o ponto-chave de sua constituição, materializando a sua existência no meio social. Orlandi aponta que:

O interdiscurso é todo conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam o que dizemos. Para que minhas palavras tenham sentido é preciso que elas já façam sentido. E isto é efeito do interdiscurso: é preciso que o que foi dito por um sujeito específico, em um momento particular se apague na memória para que, passando para o “anonimato”, possa fazer sentido em “minhas” palavras. (ORLANDI, 2007, p.33-34).

Dessa forma, os já-ditos vão sendo ressignificados nos novos dizeres que são colocados em evidência no jogo discursivo, assim, esse processo de retomada dos dizeres se configura a partir do trabalho da memória, do histórico, do social, do ideológico. Tais aspectos não são

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aleatórios, eles são regidos pelas formações discursivas, por isso podemos entender que o interdiscurso é inseparável da formação discursiva.

As formações discursivas são conjuntos de restrições semânticas que gerenciam o funcionamento do discurso, ou seja, os diferentes sentidos que se produz a partir de diferentes posicionamentos discursivos e ideológicos. No quadro teórico da análise do discurso, Pêcheux propunha que toda “formação social”, caracterizada por uma relação entre as classes sociais, implica a existência de posições políticas e ideológicas, que se organizam em formações e mantém relações entre si de antagonismo, de aliança ou de dominação. Nesse sentido, Pêcheux diz que essas formações ideológicas incluem uma ou várias formações discursivas que determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada, além de ser responsável pelo assujeitamento e interpelação do sujeito em sujeito ideológico (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, p.241). Pêcheux define que:

“Uma formação discursiva não é um espaço estrutural fechado, já que ela é constitutivamente ‘invadida’ por elementos provenientes de outros lugares (i.e., de outras formações discursivas) que nela se repetem, fornecendo-lhes suas evidências discursivas fundamentais (por exemplo, sob forma de ‘pré-construídos e de ‘discursos transversos’).” (PÊCHEUX, 1983, p. 297, apud CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008, p. 241).

Outro ponto a ser comentado, que também envolve a questão da enunciação e da circulação dos sentidos, é a noção de aforização. Maingueneau (2010) afirma que a aforização institui uma cena de fala na qual não há interação entre dois protagonistas colocados no mesmo plano. Na aforização, o enunciado pretende exprimir o posicionamento de seu locutor, aquém de qualquer jogo de linguagem: nem resposta, nem argumentação, nem narração, mas pensamento, dito, tese, proposição, afirmação soberana.

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Maingueneau, ao falar de aforização, distingue duas formas tratando uma como aforização setenciosa e a outra como aforização pessoal. A aforização setenciosa ocorre quando o locutor atribui a responsabilidade de seu dizer a uma instância anônima, a um “hiperenunciador” cuja autoridade garante a adequação do enunciado aos valores de um grupo. A aforização pessoal evoca palavras ditas em uma outra cena por um locutor autorizado, que não é um ‘hiperenunciador’, mas um indivíduo colocado na esferas das pessoas “competentes”. As aforizações pessoais são frases de alguém, ditas em um outro momento, que uma outra pessoa resgata e enuncia em tom aforizante.

Segundo Maingueneau (2010, p. 13), na enunciação aforizante: “... não há posições correlativas, mas uma instância que fala a uma espécie de ‘auditório universal’, que não se reduz a um destinatário localmente especificado: a aforização institui uma cena de fala onde não há interação entre dois protagonistas colocados num mesmo plano. O locutor não é apreendido por tais ou tais facetas, mas em sua plenitude imaginária: não há ruptura entre uma instância fora da enunciação e uma instância que é um papel discursivo. É o próprio indivíduo que se exprime, além/aquém de todo papel, “ele mesmo‟, de alguma forma. Fundamentalmente monologal, a aforização tem como efeito centrar a enunciação no locutor.

Na enunciação aforizante o enunciado tende à homogeneidade, ou seja, o sujeito vai falar sempre a partir de uma perspectiva enunciativa; o indivíduo que se exprime e a forma como se destaca o texto, vão indicar o caminho interpretativo.

GÊNERO CHARGE

A charge se configura como um gênero pertencente à esfera midiática, este gênero se utiliza da linguagem para construir sua argumentação, ou seja, são empregados os recursos linguísticos (oferecidos

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pela língua) e os extralinguísticos (externos à língua), ordenadamente, com a finalidade de convencer o interlocutor, tanto consciente quanto inconscientemente. Nesse sentido, o gênero chargístico, por meio de seu discurso, infere valores e ideologias que acabam por revelar os aspectos socioculturais de uma sociedade, exatamente no momento em que se materializa e se irrompe nela.

A charge se enquadra em um gênero subjetivo e com alto poder argumentativo, pois, ao se deparar com esse tipo de discurso, o interlocutor deve recorrer à memória e verificar o sócio-histórico para compreender os sentidos, estabelecendo, dessa forma, uma relação direta com o exterior e, consequentemente, com a realidade. Por isso o texto chárgico deve atender ao interesse do leitor, ou seja, ao que o público está prestando atenção naquele determinado momento.

De acordo com ROMUALDO (2000, p. 21), a charge é compreendida “como o texto visual humorístico que critica uma personagem, fato ou acontecimento político específico. Por focalizar uma realidade específica, ela se prende mais ao momento, tendo, portanto, uma limitação temporal.”

Enfim, em relação à charge pode-se dizer que trata-se de um gênero amplamente ancorado no todo da imagem apresentada, por isso a charge também pode ser definida como um texto visual. Nesse sentido, o desenho, recorrente na charge, é a manifestação de uma linguagem visual e também argumentativa, e deve ser entendido como uma unidade portadora de sentido, sentido este que o locutor prefere revelar por meio do humor.

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ANÁLISE DO CORPUS

Disponível em: http://existevidanaterra.blogspot.com/

A charge selecionada foi retirada da internet e refere-se ao momento em que Bin Laden foi encontrado pelos militares. Quanto ao aspecto linguístico há alguns pontos a serem destacados, pois determinadas escolhas e usos linguísticos é o que tornam, de fato, possível apreendermos os sentidos e as ideologias. Dessa forma, é por meio da seleção das estratégias argumentativas que informações são transmitidas e, consequentemente, a interação entre enunciador e enunciatário é estabelecida. Nesse sentido, Charaudeau (2007, p.39) argumenta que:

Comunicar, informar, tudo é escolha. Não somente escolha de conteúdos a transmitir, não somente escolha das formas adequadas para estar de acordo com as normas do bem falar e ter clareza, mas escolha de efeitos de sentido para influenciar o outro, isto é, no fim das contas, escolha de estratégias discursivas.

Assim, logo no primeiro enunciado presente na charge “E se, em vez dos EUA...”, há o uso da partícula condicional no sentido de formular

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proposições, hipóteses a respeito do tema abordado (captura do Bin Laden), juntamente com as reticências, estabelecendo o diálogo com as demais situações apresentadas na charge e, consequentemente, instaura a interação entre os interlocutores. O referido enunciado remete a toda uma filiação de dizeres que são da ordem do sócio-histórico, pois ao se deparar com tal discurso o leitor constrói significados acerca de tal acontecimento, ou seja, passa a refletir sobre a postura dos diferentes países ao, hipoteticamente, encontrar Bin Laden em seu esconderijo. Dessa forma, os ditos presentes na charge não revelam qual foi a postura dos EUA, mas ao recorrer à memória discursiva, o indivíduo, por meio do trabalho dos não-ditos, consegue resgatar qual foi o desenrolar dos fatos e as atitudes dos Estados Unidos, por exemplo, diante de tal situação. Assim, as reticências, no final do primeiro enunciado, permitem que o enunciatário, ao observar os próximos quadros presentes na charge, subentenda a postura de cada país ao se deparar com Bin Laden, levando em consideração a formação ideológica de cada lugar/sociedade em questão. Lembrando Maingueneau (2010, p. 15), o leitor vai fazendo suas asserções e atribuindo ao enunciado, “aparentemente trivial, um sentido que vai além de seu sentido imediato.”

A charge é dividida em quatro cenas, cada uma se referindo a um determinado país e apresentando (encenando) a situação hipotética do encontro de Bin Laden por cada um deles. Essas construções estereotipam a imagem de cada lugar de acordo com a formação ideológica de cada país em questão. A primeira cena refere-se à Inglaterra, retomando um acontecimento no qual o brasileiro Jean Charles foi morto pela polícia inglesa ao ser confundido com um terrorista; a segunda diz respeito ao Paquistão que, apesar da consideração pelo terrorista, tinha que cumprir as ordens; a terceira diz respeito à Itália, fazendo uma associação ao caso “Ruby”, o qual envolvia o chefe de governo Silvio Berlusconi e, por fim, a última cena, refere-se ao Brasil.

Neste discurso, a verdade é construída por meio das representações do pré-construído, ou seja, a retomada de acontecimentos discursivos partilhados socialmente que se constituiu antes, independentemente, em algum momento da história, e agora, em outro

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momento se irrompe na materialidade linguística, passando a ressignificar em outros contextos. Dessa forma, a homogeneidade do enunciador e a consciência enunciativa acabam levando a uma determinada interpretação e, consequentemente, a um reconhecimento ideológico (cada povo reage de uma forma, dada a sua cultura, época...).

Na análise proposta, apesar de conhecermos os demais fatos apresentados, somos “habilitados”, de certa forma, a construir sentidos e a delimitar o que é possível de ser apreendido no último quadro, pois é a situação que se inscreve em nossa formação discursiva e ideológica e que constitui a memória da sociedade brasileira. Segundo, Orlandi (2007, p.31) explicita que a memória discursiva é “o saber discursivo que torna possível todo o dizer e que retorna sob a forma do pré-construído, o já-dito que está na base do dizível, sustentando cada tomada de palavra”.

Podemos dizer que há um responsável pelo dizer (locutor) que leva o leitor para além do sentido imediato expresso. No último quadro da charge de Osama Bin Laden, por exemplo, além da interpretação de que o povo brasileiro é corrupto, com baixo conhecimento formal (“os dólar”), é possível ir além e inferir tratar-se de um povo cuja preocupação maior não é o cumprimento de ordens. Enquanto, em todos os outros povos, apesar das implicações ideológicas inerentes a cada um, cumprir a ordem (matar o terrorista) é uma prioridade que ainda prevalece, como por exemplo, no terceiro quadro, conforme já comentado, o pedido de perdão ocorre (“Perdão Sahib...”), justamente, porque a missão de matar o terrorista deve ser cumprida. Tal preocupação em manter o cumprimento da ordem já não fica claro (interpretável), no último quadrinho, em relação aos brasileiros. Essa interpretação acaba levando à aforização, ou seja, é possível pensar na homogeneização discursiva, pois ao leitor capaz e com conhecimento de mundo suficiente, tal entendimento é perfeitamente possível, uma vez que o brasileiro não é conhecido, definitivamente, por sua ilibada moral e idoneidade.

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Assim, o gênero humorístico é apenas um meio, neste caso, para propiciar as interpretações que vão além, e até mesmo de se estabelecer uma crítica, de forma mais leve e, ao mesmo tempo, mais reflexiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De fato, o processo de constituição dos sentidos não é simples, pois implica levar em conta quem são os enunciadores e os interlocutores, em qual situação se encontram, em que contexto histórico e cultural vivem e, por fim, quais os recursos linguísticos e extralinguísticos empregados na construção do enunciado sobre o acontecimento em questão.

Desse modo, para apreender os sentidos é necessário desconstruir o texto, pois a sua essência não se encontra na evidência, mas sim, perpassada em sua subjetividade e em tudo que está silenciado nos discursos. Para compreendê-lo, é preciso unir as experiências de mundo, as memórias constituídas ao longo da vida, para assim, alcançar o que os discursos podem revelar e, consequentemente, encontrar-se enquanto ser social, pois ao significar, o sujeito acaba se significando. E, cabe ressaltar, que esses processos são única e exclusivamente materializados por meio da linguagem.

Pode-se, ainda, dizer que é no interior de uma comunicação que os discursos tomam forma e vão estabelecendo sentidos. A análise aqui proposta contribuiu para demonstrar que os sentidos, apesar de estarem diretamente ligados aos fatores memória, esquecimento, aspecto sócio-histórico, podem produzir uma constância de outros novos saberes. Mesmo que esses discursos remetam a já-ditos, é sempre possível ir além e inferir novos sentidos. Afinal, os sentidos representam a cultura e, consequentemente, refletem a própria ideologia.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. 8ª edição. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2002.

CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENEAU, Dominique. Dicionário de Análise

do Discurso. Trad. KOMESU, Fabiana. São Paulo: Contexto, 2004.

_________________________. Discurso das mídias. Trad. Ângela S. M. Corrêa. 1ª ed. São Paulo: Contexto, 2007.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. Tradução de Cecília P. de Souza-e-Silva, Décio Rocha. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2008. _________________________. Doze conceitos em Análise do Discurso. (Orgs.) Sírio Possenti, Maria Cecília de Souza-e-Silva; Trad. Adail Sobral... [et al.]. São Paulo: Parábola Editorial, 2010.

ROMUALDO, Edson Carlos. Charge jornalística: intertextualidade e

polifonia: um estudo de charges da Folha de São Paulo. Maringá: Eduem,

2000.

ORLANDI, Eni. Pulcinelli. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 7ªed. Campinas, SP: Editora Pontes, 2007.

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