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A LINGUAGEM METAFÓRICA EM UM RIO CHAMADO
TEMPO, UMA CASA CHAMADA TERRA
Maria Nery dos Santos (UESPI) Rubenil da Silva Oliveira (UESPI) RESUMO
A linguagem metafórica na obra Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, de Mia Couto, torna-se o eixo fundamental para a compreensão da narrativa. Por essa razão, pretendeu-se analisar o uso das figuras de linguagens, sobretudo a metáfora, no romance. Para isso, fundamenta-se essa análise em Ilari (2006), Petrov (2014), Cançado (2008), e outros. Nessa perspectiva, a metáfora consiste em uma alteração de significado por traços de similaridade entre dois conceitos, trata-se de uma comparação implícita. Esse recurso estilístico torna as mensagens emitidas mais expressivas e promove embelezamento ao texto, confere-lhe qualidades poéticas, além de provocar no leitor profundas reflexões acerca da temática abordada. Portanto, esse estudo considerou que Mia Couto ao permear o enredo de Um rio chamado tempo uma casa chamada
terra com uma linguagem metafórica poeticamente bem elaborada, transportou o leitor
para um universo muito mais amplo, que são as questões de identidade, memórias e tradições africanas.
Palavras- chave: Linguagem metafórica. Tradição. Ancestralidade. Mia Couto.
Mia Couto, no romance, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, vale-se da expressividade da linguagem metafórica para narrar o retorno de Marianinho à Ilha Luar-do-Chão para a cerimônia fúnebre do avô-pai. Esse recurso remete o leitor a uma viagem à riqueza dos elementos de tradições africanas e ao contato com o estilo de sua escrita.
O moçambicano de codinome Mia Couto, de registro António Emílio Leite Couto, nasceu na cidade Beira, em 1955. Um biólogo de formação, que após a Independência Nacional, dedicou-se a atividades jornalísticas. Sobre o premiado escritor de contos, poemas e romances, sabe-se que na composição de suas obras bebeu em muitas fontes como inspiração, conforme afirmado em: “influenciado primeiramente por Luandino Vieira, autor angolano, […], Adélia Prado, Guimarães Rosa, Drummond
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de Andrade, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego, Manuel Bandeira, entre outros” (BRATKOWSKI, 2014, p. 206). Essa marca da escrita de Mia Couto sugere que a sua obra é formada a partir das vivências com outras culturas literárias como a brasileira e a do continente africano, o que por sua vez dá margem para a ocorrência das intertextualidades literárias e para a polifonia dos discursos do africano diasporizado.
Neste sentido, é que resgata toda a força das tradições africanas, colocando em relevo os conflitos de Marianinho enquanto ser diaspórico, ou seja, aspectos que remetem a questão da identidade. Pois, conforme aponta Petrov:
Um tema de primordial importância das literaturas que surgiram após as independências dos países africanos é o da identidade cultural, aspecto que se encontra particularmente presente na ficção de Mia Couto. Nas suas narrativas romanceadas, por exemplo, a problemática das identidades ambivalentes assume um papel preponderante e tem a ver com relativização de valores numa sociedade tradicional a caminho da modernidade (PETROV, 2014, p. 76).
Cumpre observar também, que nesta obra, o escritor moçambicano consegue despertar os vários sentidos do leitor, remetendo-nos às descobertas de culturas, particularmente, inerentes ao povo africano. Por outro lado, exprime de forma inusitada uma escrita que o difere de outros romancistas e poetas moçambicanos, uma peculiar metaforicidade, a qual, quando analisada na obra, revela segredos, descreve mitos, assim como lendas e costumes locais.
Nesta perspectiva, convém esclarecer que: “A força sugestiva da sua linguagem tem a ver, em primeiro lugar, com a criação linguística que desafia a imaginação e encanta do ponto de vista estético” (PETROV, 2014, p. 59). Com isso agrega novas densidades aproximando-se da linguagem poética. Ainda segundo Petrov (2014).
Na linha rosiana (Guimarães Rosa), as narrativas de Mia Couto veiculam uma preocupação fundamental: oferecer sugestões para um novo modelo de prosa, para um modo diferente de utilização da língua portuguesa. O seu processo transforma-se num exercício experimental, porque liberta a palavra de condicionalismos, no sentido de desafiar o leitor, transformando-o num participante activo do universo representado (PETROV, 2014, p.55).
Essas considerações visam a sugerir que a possibilidade de conhecer o cerne do povo moçambicano em sua profundidade é difícil de revelar em palavras, e que ainda assim Mia consegue, através do seu modo de escrita. Para isso, ele recorre, sobretudo,
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ao uso das metáforas, ao discorrer sobre a passagem de Mariano em Luar-do-Chão, a fim de guiar o leitor para uma viagem pelo rio, a terra e o tempo.
Uma viagem permeada de conflitos e descobertas, sobretudo a respeito de Mariano, ele que retorna a Ilha para o demorado funeral do avô-pai, “O falecido estava com dificuldade de transitação, encravado na fronteira entre os mundos” (COUTO, 2003, p. 41) e ainda, “um mal-morrido” (COUTO, 2003, p. 238). Percebe-se que a expressão “encravado na fronteira entre dois mundos” é retomada por “mal-morrido”, o que reforça a necessidade de compreensão dos fatos pelos quais o avô-pai Mariano não pretendia deixar o seu lugar e partir para o mundo dos mortos. Situação consoante às tradições, lendas e crendices do lugar, que segue até que o próprio falecido alerte para aquela hora que já era a sua, como admitido em: “Me leve agora para o rio. Já chegou o meu tempo” (COUTO, 2003, p.237).
No decorrer na narrativa, além de nomes dos personagens que metaforicamente remetem às experiências destes, outras passagens evidenciam a falta de progresso do lugar, por exemplo: “A nossa Ilha está imitando o Avô Mariano, morrendo junto de nós, decompondo-se perante o nosso desarmado assombro” (COUTO, 2003 p. 92). Observa-se que o uso do verbo “estar” contribui para que haja a aproximação entre a morte do lugar, a “Ilha” e a morte do avô, o que reforça a ideia de que o progresso não chegou até à Ilha de Luar-do-Chão. Há também espaço para a metaforização dos conflitos familiares, como visto na representação da personagem Miserinha: “Solteira, chorei. Casada, já nem pranto tive. Viúva, a lágrima teve saudade de mim – Miserinha” (COUTO, 2003, p. 133). A escolha do nome reflete a condição da personagem na narrativa, uma vez que ela tivera um caso com o cunhado e, agora, cumpre, na velhice, a sua solidão como meio de expiação por seus erros do passado, embora na cultura moçambicana seja comum a poligamia por parte do homem.
Também, na narrativa, a desordem de sentimentos e pensamentos do narrador-personagem é manifestada pelo uso da linguagem metafórica, como se vê em: “Renasce em mim essa estranha sensação que me acontece só em Luar-do-Chão: o ar é uma pele, feita de poros por onde escoa a luz, gota por gota, com um suor solar” (COUTO, 2003, p. 55). O uso da metáfora para aproximar o elemento da natureza “ar” à pele do negro e ao trabalho deste “suor” remete ao esforço da personagem protagonista para reconstruir
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o seu lugar, isto é, Moçambique, após o período da colonização europeia, o que é também o esforço do povo moçambicano para manter viva sua tradição.
Nesta missão empreendida por Mariano da cidade rumo à Ilha, para a organização do cerimonial fúnebre do avô. A estada do jovem universitário é permeada de enigmas, acontecimentos misteriosos, como as cartas que recebe com orientações de Dito Mariano acerca de não enterrá-lo até que se cumpram as determinações, bilhetes que transportam Mariano a uma viagem no tempo de seus antepassados e faz surpreendentes e inesperadas revelações. Nessa perspectiva, percebe-se que: “A escrita é a ponte entre os nossos e os seus espíritos" (COUTO, 2003, p.126), assim, o romance Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra representa o encontro entre o homem moçambicano e sua terra antes do apossamento de Moçambique pelos colonizadores.
O uso do recurso estilístico metáfora, no romance Um rio chamado tempo, uma
casa chamada terra, de Mia Couto é uma constante enquanto marca estética da criação
literária, servindo para aproximar o leitor das experiências da personagem-protagonista. Nessa perspectiva, o referido recurso foi constituído como uma influente ferramenta no processo de comunicação, contribuindo para compreensão das informações implícitas no texto. Por isso, assume-se que “temos metáfora toda vez que, indo além da simples apresentação de propriedades comuns, pensamos uma realidade nos termos de uma outra” (ILARI, 2001, p. 109).
Conforme o autor a metáfora extrapola o senso comum da linguagem, repercutindo assim as mil faces secretas evidentes no sentido conotativo da linguagem, pois o sentido metafórico vai além e, por isso, possibilita ao leitor pensar uma realidade ressignificada. Quando proposto o exercício de refletir sobre a realidade numa perspectiva do que não é, a metaforização proporciona grandes e novas descobertas. Assim, a metáfora se constitui em uma “poderosa fonte de novos conhecimentos e novos comportamentos” (ILARI, 2001, p. 69).
Na percepção do autor a utilização da metáfora serve para expressar as inovações necessárias à linguagem literária para distanciá-la das formas comuns de emprego da palavra e como reforço à função do entretenimento e ludicidade da forma literária. Por essa razão, considera-se que: “Esse recurso estilístico, tem sido vista tradicionalmente como a forma mais importante de linguagem figurativa”, pois seu uso
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expressa uma maneira relevante de se pensar e falar sobre o mundo, assim, “atingindo o seu maior uso na linguagem literária e poética" (CANÇADO, 2008, p. 97).
Para melhor esclarecer sobre o uso da metáfora como recurso que ressignifica as experiências do autor, Cançado (2008) ao traduzir Lakoff &Turnner (1989) afirma: “As metáforas nos permitem entender um domínio de experiências em termos de outro. Para existir essa função, devem existir alguns tipos de conceitos básicos, alguns tipos de conceito que não são entendidos de uma maneira totalmente metafórica, para servirem de domínio de fonte” (CANÇADO, 2008, p. 35). Nesta perspectiva, a autora aponta que a metáfora pode ser caracterizada pelos seguintes fatores – convencionalidade, sistemacidade, assimetria e abstração.
Na perspectiva da convencionalidade, “há uma associação à questão do grau de novidade da metáfora” (CANÇADO, 2008, p. 99), este fator é visto em: “[...] mais falador que o corvo no coqueiro” (COUTO, 2003, p. 117). Nesta metáfora, a referência feita ao médico que quase embriagado, falava muito, o que revela ainda o excesso, aquilo que já irritava os demais personagens por seu alongamento nas conversas, associando-o ao pássaro indesejado. Entretanto, no sentido da caracterização por convencionalidade indica que esta já se tornou fossilizada pelo sentido literal. Esta ave é associada a elementos sombrios e até mesmo à morte, há quem diga que imitam a voz humana, sem falar na longevidade tanto livres quanto em cativeiro.
Já a sistemacidade “refere-se à maneira que a metáfora estabelece um campo de comparações e não somente um único ponto de comparação, ou seja, estabelece-se uma associação não somente entre um conceito e outro, mas entre vários conceitos participantes do mesmo campo semântico do alvo e da fonte” (CANÇADO, 2008, p. 100). Considerando a imbricação das categorias conceituais, as quais reforçam o sentido do texto menciona-se, por exemplo, os fragmentos: “O bom do caminho é haver volta. Para ida sem vinda basta o tempo” (COUTO 2003 p.123) e “O rio é como o tempo. Nunca houve princípio, concluía”. (COUTO 2003, p. 61). O campo de comparações veladas entre caminho e tempo, e do caminho em sentido contrário ao tempo e rio e tempo, reforça a ideia de o personagem estar diante de sua limitação em saber a origem do rio, compara-o com o tempo, afirmando a inexistência de fim. Por isso, identifica-se a sistematicidade do mapeamento entre os dois conceitos e seus domínios.
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Quanto à assimetria, admite-se que este fator “refere-se à natureza direcional de uma metáfora”, como em expresso em: “Eu apenas estou usando a morte para viver” (COUTO, 2003, p. 260). No emprego deste recurso, compreendeu-se que o mapeamento funciona em uma direção oposta, a qual não apresenta verossimilhança com o real, uma vez que, teoricamente, ninguém usaria a vida para morrer.
Com relação à abstração, este fator “relaciona-se à assimetria. Neste sentido, afirma-se que existe na língua a ideia de que uma metáfora pode fazer uso de uma construção concreta com a intenção de descrever um alvo mais abstrato” (CANÇADO, 2008, p. 101). Essa assertiva foi verificada em: “Você estar entrando em sua casa, deixe que a casa vá entrando dentro de si” (COUTO, 2003, p. 56). Observa-se que a casa é um elemento real enquanto o fato de desejar que ela entre na personagem revela-se uma abstração, o que vem a reforçar a ideia de que o narrador-protagonista deveria conhecer os costumes de seus ancestrais e da sua terra natal para que assim pudesse ajudar na passagem do avô para o mundo dos mortos.
Do ponto de vista teórico, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, apresenta diversas possibilidades da escrita miacoutiana que se configuram como metáforas. Consoante os conceitos supracitados, evoca-se, por exemplo, a morte. Nessa acepção, destaca-se a seguinte metáfora: “A morte é como um umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência” (COUTO, 2003, p. 15). Por isso, entende-se que a morte enquanto substantivo feminino, o qual carrega o sentido literal de extinção da vida é comparado a um umbigo, o qual surge de um corte, o sinal material que remete a um parto. Associa-se, portanto parto e morte, nascimento e falecimento.
Diante do exposto, corroborando com a visão de Cançado (2008), constatou-se que o uso do recurso estilístico metáfora contribuiu para o entendimento de que prevalece o domínio das experiências de um sujeito sobre o outro. O entrelaçamento de conceitos baseado na utilização deste recurso possibilitou a compreensão dos principais elementos abordados na obra, na perspectiva da elucidação das expressões que são ou não metaforizadas.
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BRATKOWSKI, Bianca Rodrigues. Mia Couto e sua maneira de emendar, apagar e enfeitar através da literatura. Nau Literária. v. 10, n. 01, Jan./Jun. 2014. Disponível em: <http://www.seer.ufrgs.br/NauLiteraria/article/viewFile/46921/30156>. Acesso em 01 nov. 2015.
CANÇADO, Márcia. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
COUTO, Mia. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. São Paulo. Companhia das Letras, 2003.
ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica: brincando com a gramática. São Paulo: Contexto. 2001.