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Disciplina Sem Dramas - Cap1 (Ed Portuguesa)

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Academic year: 2021

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Ficha Técnica Ficha Técnica

Título original:

Título original: No Drama D No Drama Disciplisciplineine Aut Autor: Daniel J. Sior: Daniel J. Siegel; Tina Payne Bryegel; Tina Payne Bryson Tson Traduzido do inglraduzido do inglês pês poror Maria João Camacho

Maria João Camacho Henrique Frederico Henrique Frederico

Revisão: Dulce Gonçalves Capa: Ideias com Peso Composição: José Domingues ISBN: 9789892333151 Revisão: Dulce Gonçalves Capa: Ideias com Peso Composição: José Domingues ISBN: 9789892333151

LUA DE PAPEL

LUA DE PAPEL

[Uma chancela do grupo Leya] [Uma chancela do grupo Leya] Rua Cidade de Córdova, n.º 2 Rua Cidade de Córdova, n.º 2 2610-038 Alfragide – Portugal 2610-038 Alfragide – Portugal Tel Tel. (+351) 21 . (+351) 21 427 22 00427 22 00 Fax Fax. (+351) 21 . (+351) 21 427 22 01427 22 01 © 2014, M

© 2014, Mind Yind Your Brain, Inc. e Bryson Creative Productions, Inc.our Brain, Inc. e Bryson Creative Productions, Inc.

Tradução licenciada por Bantam Books, uma chancela da Random House, Random House LLC Tradução licenciada por Bantam Books, uma chancela da Random House, Random House LLC

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em [email protected]@leya.pt

http://editoraluadepapel.blogs.sapo.pt

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Toda a informação que possa identificar pessoas ou situações reais foi alterada, exceto a relacionada com o autor e sua família. Este livro não pretende substituir os Toda a informação que possa identificar pessoas ou situações reais foi alterada, exceto a relacionada com o autor e sua família. Este livro não pretende substituir os

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 Para os jovens de todo o mundo,de todo o mundo, nossos professores fundamentais. (DJS) nossos professores fundamentais. (DJS)  Para os meus pais:

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Uma questão

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Uma taça de cereais é atirada ao ar, salpicando a parede toda da cozinha.

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O cão entra em casa, vi

O cão entra em casa, vindo do quinndo do quintal e, tal e, inexinexpliplicavelmencavelmente, está todo pite, está todo pintntado de ado de azuazul.l.

Um dos seus filhos ameaça o irmão mais novo.

Um dos seus filhos ameaça o irmão mais novo.

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O que faz perante cada uma dessas situações? Antes de responder, pedimos-lhe que esqueça tudo o

O que faz perante cada uma dessas situações? Antes de responder, pedimos-lhe que esqueça tudo o

que sabe sobre disciplina. Esqueça-se do significado da palavra e do que os outros pais acham que se

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Comece antes por perguntar: Será que estou disposto a pensar num método alternativo, no que diz

Comece antes por perguntar: Será que estou disposto a pensar num método alternativo, no que diz

respeito à disciplina? Um método que me ajude a atingir, não só os meus objetivos imediatos de levar

respeito à disciplina? Um método que me ajude a atingir, não só os meus objetivos imediatos de levar

os meus filhos a fazer o que está certo no momento certo, mas, também, os objetivos a longo prazo de os

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ajudar a serem boas pessoas, felizes, bem-sucedidas, generosas, responsáveis e, ainda,

ajudar a serem boas pessoas, felizes, bem-sucedidas, generosas, responsáveis e, ainda,

autodisciplinadas?

autodisciplinadas?

Em caso afirmativo, este livro é para si.

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Disciplina sem Conflito

Incentivar a cooperação enquanto se estrutura o cérebro de uma criança

Não está sozinho.

Se já não sabe o que fazer para que os seus filhos discutam menos ou não lhe faltem ao respeito… Se não consegue arranjar maneira de o seu filho de dois anos parar de trepar para o beliche de cima ou que vista qualquer coisa antes de ir a correr abrir a porta a alguém…. Se está cansado de repetir a mesma frase vezes sem conta: Despacha-te! Vais chegar atrasado à escola!… Se está farto das mesmas cenas de sempre quando chega a hora de ir para a cama, de fazer os trabalhos de casa, ou de parar de ver televisão … Se já sentiu momentos de frustração desse género, saiba que não é o único.

Pelo contrário, há muitos pais que passam pelo mesmo. Afinal, é isso que é ser mãe e é isso que é pai.

É difícil saber qual a melhor forma de educar os filhos. É assim e pronto. A maior parte das vezes a história é esta: eles fazem qualquer coisa que não deviam, nós ficamos furiosos, eles amuam, alguém acaba a chorar (às vezes até são os miúdos).

É cansativo. Desesperante. As cenas, a gritaria, as ofensas, a culpa, a angústia, a falta de comunicação.

Depois de uma cena daquelas, não costuma ficar a matutar, a achar que tinha obrigação de fazer melhor, de se controlar e impor com calma em vez de piorar a situação?

O seu desejo era conseguir acabar com o mau comportamento, mas sem complicar a relação com os seus filhos. Pelo contrário, gostava de melhorar, de aprofundar essa relação. O ideal era que houvesse menos conflitos e não mais.

Pode ficar certo de que vai conseguir.

Com efeito, essa é a mensagem principal deste livro: é mesmo possível disciplinar de uma forma que garanta o respeito e o carinho, mas que imponha, também, limites bem definidos e consistentes. Por outras palavras, é possível fazer melhor.  Conseguirá disciplinar de forma a reforçar a relação, a aumentar o respeito e a diminuir o drama e o conflito. E, ao longo desse processo, fomentar um desenvolvimento que produza boas técnicas de relacionamento e melhore a capacidade de as suas crianças tomarem boas decisões, começarem a pensar nos outros e a agir de um modo que constitua uma preparação para que tenham sucesso e felicidade ao longo da vida.

Falámos com milhares de pais por todo o mundo, transmitindo-lhes as noções básicas sobre o funcionamento do cérebro e de que modo ele afeta a nossa relação com as crianças, tendo constatado quão ávidos estavam por obter conhecimentos sobre a melhor forma de abordar o comportamento das crianças, com respeito e eficácia. Os pais revelaram-se saturados de tanto gritar, frustrados por verem os filhos ficarem tão magoados, mas, também, cansados do seu mau comportamento. Mostraram saber o tipo de disciplina que não queriam usar, simplesmente não dispunham de outras alternativas a que pudessem recorrer. Desejavam disciplinar os filhos de forma mais suave e carinhosa, mas sentiam-se exaustos e sobrecarregados quando chegava a altura de mandar os filhos cumprirem os deveres e as regras. Desejavam um método de disciplina que funcionasse e com o qual se sentissem bem.

Neste livro, vamos introduzir o leitor numa abordagem àquilo que designamos por Disciplina sem Conflito e com a Totalidade do Cérebro, disponibilizando princípios e estratégias que irão pôr fim à

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maioria dos dramas e das emoções fortes que tão tipicamente caraterizam o processo da disciplina. O objetivo é tornar mais fácil a sua vida enquanto pai ou mãe, assegurando uma parentalidade mais eficaz. E, mais importante ainda, irá estabelecer ligações no cérebro das suas crianças, desenvolvendo competências emocionais e sociais que lhes serão úteis agora e pela vida fora – tudo isto ao mesmo tempo que fortalece a sua relação com elas.

O que desejamos que descubra é que os momentos que requerem disciplina são dos mais importantes no que toca à parentalidade, dado constituírem oportunidades para moldarmos as nossas crianças de forma mais eficaz. Quando estes desafios surgirem, e eles irão surgir, o leitor irá ser capaz de os encarar, não apenas como situações de disciplina, repletas de raiva, frustração e drama, mas, também, como uma oportunidade para interagir com os seus filhos e redirecioná-los para um comportamento mais adequado para eles e para toda a sua família.

Seja o leitor um educador, um terapeuta ou um treinador, isto é, alguém responsável pelo desenvolvimento e bem-estar de crianças, irá constatar que estas técnicas resultam tanto para os seus alunos, como para os seus pacientes, clientes ou equipas.

Estudos recentes acerca do cérebro revelam-nos profundas perceções das crianças de quem cuidamos, do que elas necessitam e de como discipliná-las de forma a promover o desenvolvimento ideal. Escrevemos este livro para todos aqueles que se preocupam com crianças e estão interessados em conhecer estratégias eficazes, afetuosas e cientificamente informadas que ajudem as crianças a crescer de forma saudável. Ao longo de todo o livro, utilizaremos a palavra pais, porém, se é um avô ou uma avó, um professor ou qualquer outra pessoa importante na vida de uma criança, este livro é igualmente para si.

As nossas vidas ganham mais sentido quando trabalhamos em colaboração e esta união de esforços pode começar com os adultos que colaboram na formação de uma criança desde os seus primeiros dias de vida. Esperamos que todas as crianças tenham muitos cuidadores nas suas vidas, conscientes da forma como interagem com elas e, quando necessário, as disciplinem de modo a gerar competências e a reforçar a sua relação.

Recuperar a palavra Disciplina

Comecemos com o verdadeiro objetivo da disciplina. Quando o seu filho se porta mal, o que deseja alcançar? O seu objetivo são as consequências desse comportamento? Por outras palavras, o objetivo é o castigo?

Claro que não. Quando estamos aborrecidos, podemos sentir vontade de castigar o nosso filho. Que a situação desperte irritação, impaciência, frustração ou apenas insegurança, é perfeitamente natural, compreensível e até mesmo comum. Porém, uma vez calmos e com a cabeça arejada, sabemos que penalizar não é a nossa meta final.

Então, o que queremos? Qual é o objetivo da disciplina?

Comecemos com uma definição formal. A palavra disciplina deriva diretamente do vocábulo latino disciplina  e a sua utilização remonta ao século XI, com o significado de ensinar, aprender e dar

instrução. Assim, e desde a sua origem, disciplina significa ensino.

Atualmente, a maioria das pessoas associa a prática de disciplina apenas ao castigo ou a penalizações. Foi o que aconteceu com a mãe de um bebé de dezoito meses que perguntou ao Dan: Tenho ensinado muitas coisas ao Sam, mas quando deverei começar a discipliná-lo?. A mãe notou que precisava de abordar o comportamento do filho e presumiu que disciplina se resumia a castigo.

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disciplinamos os nossos filhos, o nosso principal objetivo não é castigar ou penalizar, mas ensinar. De referir, ainda, que a origem de disciplina é a palavra discípulo  que significa aluno, pupilo e aprendiz. Um discípulo, a pessoa que é objeto de disciplina, não é um preso ou alguém que recebe castigos, mas sim alguém que está a aprender através da instrução. O castigo pode pôr fim a um comportamento a curto prazo, porém, ensinar, fornece competências que duram uma vida.

Ponderámos muito sobre se realmente pretendíamos usar a palavra disciplina no título do nosso livro. Não tínhamos a certeza da designação a dar a esta prática de estabelecer limites, mantendo-nos, em simultâneo, emocionalmente ligados às nossas crianças; a esta abordagem que pretende ensinar e trabalhar com os nossos filhos no sentido de os ajudarmos a desenvolver as competências necessárias para fazerem boas escolhas. Decidimos que queremos recuperar a palavra disciplina, bem como o seu significado original. Pretendemos, igualmente, reenquadrar toda esta questão e distinguir disciplina de castigo.

O nosso objetivo é, essencialmente, fazer com que os cuidadores comecem a encarar a disciplina como uma das coisas mais construtivas e afetuosas que podemos fazer pelas crianças.

As nossas crianças precisam de aprender  competências como inibir impulsos, gerir sentimentos agressivos e ter em consideração o impacto do seu comportamento nos outros. Aprender estas questões essenciais da vida e das relações humanas é o que mais necessitam, e se lhes conseguirmos assegurar essas competências, estaremos a conceder uma importante dádiva, não só aos nossos filhos, como a toda a família e, ainda, ao resto do mundo. Podemos garanti-lo. Não se trata de uma mera hipérbole. A Disciplina Sem Dramas ou Disciplina sem Conflito, tal como a descrevemos nas páginas seguintes, irá ajudar as suas crianças a tornarem-se nas pessoas que estão destinadas a ser, quer melhorando a sua capacidade de autocontrolo, quer ensinando o respeito pelos outros, a estabelecerem relações profundas e a viverem de acordo com os princípios éticos e morais. Imaginemos só o impacto geracional que os nossos filhos terão quando, tendo crescido com estas dádivas e estas competências, começarem a criar os seus filhos que, por sua vez, poderão transmitir estas mesmas dádivas às gerações futuras.

O presente livro começa com uma reflexão sobre o verdadeiro significado da disciplina, reafirmando-o como um termo que não está relacionado com castigo ou controlo, mas antes com ensinar e formar competências e fazê-lo a partir de uma base de amor, respeito e ligação emocional.

O duplo objetivo da Disciplina sem Conflito

Uma disciplina eficaz pretende alcançar dois objetivos básicos. O primeiro é, obviamente, conseguir que os nossos filhos colaborem e se comportem corretamente. Quando, por exemplo, um dos nossos filhos, em pleno restaurante, atira um brinquedo para o chão ou é malcriado ou se recusa a fazer os trabalhos de casa, apenas pretendemos que a criança faça o que é o correto. Pretendemos que deixe de atirar o brinquedo; pretendemos que nos trate com mais respeito; queremos que faça os trabalhos de casa.

Com uma criança pequenina, alcançar o primeiro objetivo pode implicar ter de convencê-la a dar a mão para atravessar a rua ou ajudá-la a colocar a garrafa, que está a balançar como se fosse um taco de basebol, de novo na prateleira do supermercado. Com um filho mais velho, poderá significar descobrir uma forma de o levar a cumprir as suas tarefas a tempo e horas ou explicar-lhe o que sente a irmã sempre que este a chama gorda solitária.

Ao longo do livro, iremos referir, repetidamente, que todas as crianças são diferentes e que nenhuma abordagem ou estratégia parental irá resultar sempre. Porém, o objetivo mais óbvio em todas as

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situações é conseguir obter cooperação e ajudar a criança a comportar-se de forma aceitável (tal como, utilizar palavras simpáticas ou colocar a roupa suja no cesto) e evitar comportamentos inaceitáveis (como bater em alguém ou mexer na pastilha elástica que um estranho colou debaixo do tampo da mesa da biblioteca). Este é um objetivo da disciplina a curto prazo.

Para muitas pessoas, porém, esse é o único objetivo: obter uma cooperação imediata. Querem que os filhos parem de fazer o que não devem ou comecem a fazer o que deveriam estar a fazer. É por essa razão que é tão frequente ouvirmos os pais proferirem frases como: Pára já  com isso! e o eterno Porque eu mando!

Mas, francamente, queremos mais do que a mera cooperação, não é verdade? Queremos impedir que a colher com que estão a comer os cereais do pequeno-almoço se torne numa arma. E é óbvio que pretendemos promover comportamentos agradáveis, respeitadores e reduzir os insultos e a beligerância.

Há, com efeito, um segundo objetivo igualmente importante e, enquanto obter cooperação é um objetivo de curto prazo, este é de longo prazo. Consiste em disciplinar os nossos filhos de modo a desenvolverem competências e a capacidade de enfrentarem, com resiliência, situações difíceis, frustrações e tempestades emocionais que podem levá-los a perder o controlo. Estas são as competências internas que podem ser generalizadas para lá desse comportamento momentâneo e utilizadas, não só no imediato, mas, também, posteriormente e numa série de diferentes situações. Este segundo grande objetivo da disciplina, que é interno, pretende ajudar as crianças a desenvolverem o autocontrolo e a adquirir uma bússola moral, para que, mesmo quando não está presente uma figura de autoridade, sejam ponderadas e corretas. Trata-se de ajudar as crianças a crescerem e a tornarem-se pessoas cordiais e responsáveis que possam estabelecer relações pessoais bem sucedidas, usufruindo uma vida plena de significado.

Designamos esta abordagem à disciplina como a Totalidade do Cérebro porque, tal como iremos explicar, quando nós, os pais, usamos a totalidade do cérebro, podemos concentrar-nos, simultaneamente, nos ensinamentos externos imediatos e nos ensinamentos internos de longo prazo. Do mesmo modo, quando as nossas crianças recebem esta forma de ensino intencional, também elas acabam por utilizar a totalidade do cérebro.

Ao longo das gerações, foram inúmeras as teorias que surgiram sobre como ajudar os nossos filhos a crescer bem, desde a escola que considera que Quem poupa a vara, odeia o seu filho, até à que defende o individualismo, a tolerância e a neutralidade de género. Porém, nos últimos vinte anos, durante a designada década do cérebro, e nos anos subsequentes, os cientistas descobriram uma imensidão de dados sobre a forma como o cérebro funciona, informação essa que tem muito para nos dizer sobre disciplina consistente e eficaz, mas com amor e respeito.

Sabemos, agora, que a forma a que podemos recorrer para ajudar uma criança a desenvolver-se o melhor possível, é ajudando-a a estabelecer ligações no seu cérebro – na totalidade do seu cérebro; ligações essas que desenvolvem competências que, por sua vez, conduzem a melhores relacionamentos, melhor saúde mental e a uma vida com mais significado. Podemos considerar isto como a tarefa de esculpir o cérebro, de o alimentar ou de o formar. Independentemente da expressão que preferirmos, a questão é fundamental e apaixonante: em resultado das palavras que usarmos e das atitudes que tivermos, o cérebro das crianças irá realmente mudar e ser edificado à medida que for submetido a novas experiências.

 Disciplina eficaz significa que não estamos apenas a pôr termo a um mau comportamento ou a  promover um bom comportamento, mas, também, a ensinar competências e a alimentar as ligações no cérebro dos nossos filhos que os ajudarão a tomar melhores decisões e a lidarem bem consigo  próprios no futuro. E de modo automático, porque terá sido dessa forma que o cérebro terá sido ligado.

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Estamos, por conseguinte, a ajudá-los a compreender o que significa gerir emoções, a controlar impulsos, a ter em consideração os sentimentos dos outros, a ponderar as consequências, a tomar decisões responsáveis e muito mais. Estaremos a ajudá-los a desenvolver o seu cérebro e a torná-los pessoas que serão melhores como amigos, irmãos, filhos ou filhas, em suma, melhores seres humanos. E depois, um dia, eles próprios serão melhores pais.

O grande bónus, porém, é que quanto mais ajudarmos a construir o cérebro dos nossos filhos, menos teremos de nos debater para alcançar o objetivo a curto prazo que é conquistar a sua cooperação. Encorajar a cooperação e desenvolver o cérebro: são estes os objetivos duplos – o externo e o interno  – que orientam uma abordagem à disciplina com carinho, eficácia e envolvendo a totalidade do cérebro.

É, afinal, educar os filhos tendo o cérebro em mente!

Alcançar os nossos objetivos: dizer não ao comportamento, mas sim à criança

De que modo é que os pais costumam alcançar os seus objetivos de disciplina? O mais comum é através de ameaças e castigos. Os filhos portam-se mal e a reação imediata dos pais é ripostar.

Os filhos agem, os pais reagem e, depois, os filhos reagem. É um círculo vicioso. E para muitos pais, provavelmente para a maioria dos pais, o resultado (juntamente com uma considerável dose de gritos) é, essencialmente, o recurso às estratégias básicas da disciplina: mandar a criança sentar-se a um canto para pensar, ou dar um par de palmadas, ou a suspensão de um privilégio, um castigo e por aí em diante. Não admira, pois, que haja tanto drama! Porém, tal como iremos explicar, é possível impor disciplina de uma forma que elimina muitas das razões que nos levaram a castigar.

Com efeito, os castigos e as reações punitivas são, na verdade, frequentemente contraproducentes, não só no que toca a formar o cérebro, como, também, no que toca a conseguir que as crianças cooperem. Com base na nossa experiência pessoal e clínica, bem como nas últimas descobertas científicas sobre o cérebro em desenvolvimento, podemos referir que castigar automaticamente não é a melhor forma de alcançar os objetivos da disciplina.

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Qual é, então a melhor forma? As bases da abordagem da Disciplina sem Conflito, resumem-se a uma simples expressão: estabelecer contacto e redirecionar.

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Estabelecer contacto e redirecionar

Mais uma vez, é necessário lembrar que cada criança, tal como cada situação, é diferente. Porém, uma constante que se aplica a todos os momentos é que o primeiro passo a dar para se alcançar uma disciplina eficaz é estabelecer uma ligação emocional com os nossos filhos. A nossa relação com os nossos filhos deve estar no centro de tudo o que fazemos.  Quer estejamos a brincar com eles, a conversar ou a rir ou, também, obviamente, a discipliná-los, é importante que eles sintam, a um nível muito profundo, toda a força do nosso amor e do nosso afeto, o que tanto se aplica durante o reconhecimento de uma atitude simpática, como durante uma chamada de atenção por mau comportamento. Ao estabelecermos uma ligação, transmitimos aos nossos filhos a certeza de lhes estarmos a prestar toda a nossa atenção, de os respeitarmos tanto que nos predispomos a ouvi-los, de valorizarmos o contributo deles na resolução de um problema e que estamos do lado deles – quer tenhamos gostado da atitude deles ou não.

Quando disciplinamos, queremos unir-nos aos nossos filhos de uma forma muito profunda que demonstre quanto os amamos. Com efeito, os momentos em que os nossos filhos se portam mal são, frequentemente, aqueles em que mais precisam de estabelecer uma ligação connosco.

As respostas, em termos de disciplina, devem diferir de acordo com a idade da criança, com o seu temperamento, estádio de desenvolvimento e, obviamente, com o contexto da situação. Contudo, há uma constante ao longo de toda a interação disciplinadora: a comunicação clara e a ligação profunda entre os pais e a criança. O relacionamento supera todo e qualquer comportamento.

Contudo, ligação não é o mesmo que permissividade. Estabelecer uma ligação com os nossos filhos durante um ato disciplinador não significa deixá-los fazer tudo o que entenderem. Na verdade, é exatamente o oposto. Amar verdadeiramente os nossos filhos é dar- lhes o que necessitam; significa, em parte, impor-lhes limites claros e consistentes e, desse modo, dotar a sua vida de uma estrutura previsível, bem como manter elevadas expetativas relativamente a eles. As crianças precisam de compreender o funcionamento do mundo: o que é permissível e o que não é. Um conhecimento bem definido das regras e dos limites ajuda-os a obterem sucesso nas suas relações e em outras áreas da sua vida. Quando adquirem essa estrutura na segurança da sua casa, é-lhes mais fácil florescer nos ambientes exteriores: na escola, no trabalho, nos seus relacionamentos, onde serão numerosas as expetativas relativamente a um comportamento correto da sua parte. Os nossos filhos precisam de viver certas experiências repetidas vezes para conseguirem desenvolver aquelas ligações no cérebro que os ajudam a adiar a gratificação, a reprimir a urgência de reagir aos outros com agressividade e a lidar de uma forma flexível com o facto de nem sempre conseguirem o que querem. A ausência de limites e de fronteiras provoca, na verdade, muita tensão e uma criança tensa torna-se muito mais reativa. Como tal, quando dizemos não e estabelecemos limites, ajudamo as nossas crianças a descobrir a previsibilidade e a segurança num mundo que, de outra forma, seria caótico. E construímos ligações no cérebro que lhes permitem às crianças enfrentar bem as dificuldades com que se depararem no futuro.

Por outras palavras, ligações profundas e empáticas podem e devem ser combinadas com limites claros e firmes que gerem a necessária estrutura na vida dos nossos filhos. É aqui que entra o redirecionamento. Assim que estabelecemos uma ligação com o nosso filho e o ajudamos a acalmar-se, de modo a conseguir ouvir e compreender totalmente o que temos para lhe dizer, poderemos redirecioná-lo para um comportamento mais apropriado e ajudá-lo a encontrar uma forma melhor de lidar consigo próprio.

Mantenha, no entanto, bem presente que o redirecionamento raramente resultará enquanto as emoções da criança estiverem elevadas. Os castigos e os sermões são ineficazes quando a criança está

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perturbada e incapaz de ouvir os ensinamentos que lhes estiver a transmitir. É como tentar ensinar um cão a sentar-se quando ele está a lutar com outro. Um cão encolerizado não se vai sentar. Porém, se conseguir ajudar uma criança a acalmar-se, irá torná-la mais recetiva e permitir-lhe-á compreender o que está a tentar transmitir-lhe, muito mais rapidamente do que se optar, simplesmente, por castigá-la ou dar-lhe um sermão.

É isso que explicamos quando as pessoas levantam a questão da dificuldade em estabelecer uma ligação com os filhos. Alguém poderá dizer: Essa parece ser uma forma de disciplinar cheia de respeito e carinho, e consigo ver em que medida ela poderia, a longo prazo, ajudar os meus filhos, ou até mesmo a facilitar o processo da disciplina. Mas, convenhamos, eu trabalho! Tenho outros filhos! E o  jantar para preparar! E aulas de piano, ballet, treinos de futebol e centenas de outras coisas para fazer! Mal me consigo desdobrar por tanta coisa, como é possível ainda arranjar tempo para estabelecer uma ligação e redirecionar os meus filhos quando estou a discipliná-los?

Percebemos tudo isso, perfeitamente, pois ambos trabalhamos, os nossos cônjuges trabalham e somos ambos pais empenhados. Sabemos que não é fácil; porém, aquilo que aprendemos à medida que fomos colocando em prática os princípios e as estratégias que apresentaremos nos próximos capítulos, é que a Disciplina sem Conflito não é um tipo de luxo apenas disponível a pessoas que dispõem de imenso tempo livre. Na verdade, nem nos parece possível que esse tipo de pais exista.

A abordagem da Totalidade do Cérebro não requer que disponha de uma imensidão de tempo para envolver os seus filhos num debate sobre a forma correta de fazer as coisas. Com efeito, a Disciplina sem Conflito é uma abordagem que tem por objetivo aproveitar as situações com que os pais se depararam no dia-a-dia e usá-las como oportunidades para, no momento, estabelecerem contacto com os filhos, ensinando-lhes aquilo que é importante. Poderão considerar que gritar Parem com isso!, ou Pára de choramingar!, ou dar um castigo imediato será mais rápido, simples e eficaz do que tentar estabelecer uma ligação com os sentimentos da criança, mas tal como iremos explicar em breve, prestar atenção às emoções do nosso filho, permite-nos alcançar uma maior calma e cooperação por parte da criança, e consegui-lo com mais rapidez do que com uma explosão dramática de autoridade parental que só serve para aumentar as emoções à sua volta.

E, agora, o aspeto mais importante: quando evitamos gerar mais caos e drama nas situações que envolvem disciplina (por outras palavras, quando aliamos a imposição de limites claros e consistentes com empatia e carinho), todos ficam a ganhar. Porquê? Por uma simples razão: a abordagem sem emoção, envolvendo a totalidade do cérebro torna a vida mais fácil, tanto para os pais, como para os filhos. Por exemplo, em momentos de elevada tensão, como quando o nosso filho ameaça lançar o comando remoto da televisão para dentro da sanita, segundos antes de começar o último episódio da temporada da nossa série preferida de televisão, podemos apelar à parte mais elevada e racional do seu cérebro, em lugar de estimular a parte inferior e mais reativa. (Explicamos esta estratégia, pormenorizadamente, no Capítulo 3.)

Desta forma, seremos capazes de evitar grande parte da gritaria, do choro e da raiva que a disciplina tantas vezes provoca, já para não referir a importância de manter o comando a salvo e de conseguirmos sentar-nos a ver o episódio desde o início.

Mais importante, ainda, e colocando a questão da forma mais simples possível, é o facto de que, ao estabelecermos uma ligação com os nossos filhos redirecionando-os, estaremos a ajudá-los a tornarem-se pessoas melhores, tanto no pretornarem-sente, como ao longo de todo o processo de crescimento até à idade adulta. E estaremos a dotá-los das competências internas de que necessitarão ao longo da sua vida. Não só passarão de um estado mais reativo a um estado mais recetivo que lhes permitirá aprender realmente  – esta é a parte externa, mais cooperativa –, como também estarão a estabelecer as ligações no seu

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cérebro. Estas ligações permitir-lhes-ão ir crescendo e tornarem-se pessoas capazes de se controlar, de pensar nos outros, de regular as suas emoções e de fazer boas escolhas. Iremos ajudá-los a construir uma bússola interior na qual poderão aprender a confiar. Em lugar de nos limitarmos a dizer aos nossos filhos o que devem fazer e a exigir que se comportem como lhes pedimos, estaremos a dotá-los de experiências que reforçam as suas funções executivas e desenvolvem competências relacionadas com empatia, perceção pessoal e moral. Essa é a vertente interna e de edificação cerebral.

A investigação é extremamente clara neste aspeto. As crianças que obtêm os melhores resultados na vida – a nível emocional, relacional e até mesmo educativo – têm pais que as educam com um elevado grau de ligação e estímulo, embora também transmitam e mantenham limites muito claros e expetativas elevadas. Os seus pais permanecem consistentes, mesmo quando interagem com elas de uma forma que transmite amor, respeito e compaixão. Em resultado disso, as crianças são mais felizes, têm um melhor desempenho na escola, envolvem-se em menos problemas e desfrutam de relacionamentos mais construtivos.

Nem sempre o leitor será capaz de disciplinar de forma a estabelecer uma ligação e, simultaneamente, redirecionar. Também nós não conseguimos fazê-lo na perfeição com os nossos filhos. Contudo, quanto mais estabelecermos contacto e redirecionarmos, menos emoções extremadas veremos quando reagirmos ao comportamento dos nossos filhos. Além disso, e mais importante ainda, à medida que forem crescendo e se forem desenvolvendo, os nossos filhos aprenderão melhor e estabelecerão connosco uma relação ainda mais forte.

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Acerca deste livro

O que é que envolve a conceção de uma estratégia de disciplina, que é elevada em relacionamento e baixa em emoções? É a resposta a esta pergunta que o resto do livro explica.

O Capítulo 1, Repensar a disciplina, coloca algumas questões sobre o que é a disciplina, ajudando o leitor a identificar e a desenvolver a sua própria abordagem, tendo presente estas estratégias e evitando envolver a emoção.

O Capítulo 2, O nosso cérebro em disciplina, apresenta o cérebro em desenvolvimento e o seu papel na disciplina. O Capítulo 3, Da birra à tranquilidade, concentra-se no aspeto da ligação que a disciplina pode estabelecer, dando ênfase à importância de transmitirmos à criança a certeza de que a amamos e a compreendemos tal como ela é, mesmo quando estamos a discipliná-la.

No Capítulo 4, mantemo-nos neste tema, disponibilizando estratégias e sugestões específicas para o leitor estabelecer ligação com os seus filhos, de modo a acalmá-los o suficiente para que o consigam ouvir e aprender e, por conseguinte, possam tomar boas decisões, tanto a curto como a longo prazo.

É depois altura de redirecionar, que é o tema central do Capítulo 5. O ênfase é dado na ajuda aos pais, para que se lembrem da única definição de disciplina (ensinar); nos dois princípios-chave (aguardar até que a criança esteja pronta e ser firme, mas não rígido); e nos três resultados desejados (perceção, empatia e reparação).

O Capítulo 6 concentra-se, então, em estratégias específicas de redirecionamento que podemos usar para alcançar o objetivo imediato de suscitar a cooperação no momento e para ensinar os nossos filhos a fazerem introspeção, a estabelecerem uma empatia relacional e a darem os primeiros passos no sentido de fazerem boas escolhas.

A Conclusão transmite quatro mensagens de esperança que pretendem ajudar o leitor a retirar a pressão de cima de si no momento em que estiver a disciplinar os seus filhos. Tal como iremos explicar, todos cometemos erros quando estamos a disciplinar. Todos somos humanos. Não existem pais perfeitos. Porém, se dispusermos de um modelo que nos oriente na forma como devemos resolver os nossos erros e reparar a relação, até mesmo as nossas respostas imperfeitas ao mau comportamento podem ser valiosas e dar aos nossos filhos a oportunidade de lidarem com situações difíceis, desenvolvendo novas competências. (Ufa!) A Disciplina sem Conflito não tem a ver com perfeição, mas antes com ligação pessoal e com reparação de ruturas quando elas inevitavelmente ocorrem.

Tal como o leitor irá descobrir, incluímos, no final do livro, uma secção com Recursos Adicionais. Esperamos que este material adicional contribua para tornar ainda melhor a experiência de leitura do livro e para ajudá-lo a implementar, na sua própria casa, as estratégias de ligação e redirecionamento.

O primeiro documento, a que damos o nome de Folha para o Frigorífico, contém os conceitos fundamentais referidos no livro, apresentados de uma forma que permite ao leitor recordar-se, facilmente, dos princípios e das estratégias essenciais da Disciplina sem Conflito. Esteja à vontade para copiar esta folha e afixá-la no seu frigorífico, colá-la ao tabliê do carro ou em outro lugar qualquer que lhe possa ser útil.

Em seguida, encontrará uma secção intitulada Quando um perito em parentalidade perde o controlo, onde são relatadas situações em que nós, Dan e Tina, no desempenho dos nossos papéis enquanto pais, deixámos que nos saltasse a tampa, enveredando pelo caminho menos certo, em vez de disciplinarmos os nossos filhos numa abordagem sem emoção e envolvendo a totalidade do cérebro. Ao partilharmos estas histórias com o leitor, pretendemos apenas reconhecer que nenhum de nós é perfeito, e que todos nós cometemos erros com os nossos filhos. Esperamos que se ria connosco à medida que

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for lendo e que não nos julgue com demasiada severidade.

Segue-se uma Nota para quem cuida dos nossos filhos. Estas páginas são apenas aquilo que indicam: uma nota que o leitor poderá transmitir a outras pessoas que tomam conta dos seus filhos. A maioria de nós confia os filhos aos avós, a amas, a amigos e a outras pessoas para nos ajudarem a criá-los. Esta nota apresenta, numa lista breve e simples, os princípios-chave da Disciplina Relacional. É semelhante à Folha para o Frigorífico, mas é escrita a pensar nas pessoas que não tenham lido o livro. Desta forma, o leitor não terá de pedir aos seus familiares que o comprem e leiam na íntegra (embora ninguém esteja a impedi-lo de o fazer, caso o deseje!).

Depois da nota aos cuidadores, encontrará uma lista intitulada Vinte erros de disciplina que até os melhores pais cometem. Trata-se de mais um conjunto de recomendações para o ajudar a refletir sobre os princípios e questões que apresentamos nos capítulos que se seguem.

O livro termina com um excerto da nossa obra anterior, The Whole-Brain Child. Com a leitura deste excerto, o leitor ficará com uma ideia mais clara sobre o que queremos dizer quando falamos em  parentalidade,  na perspetiva da totalidade do cérebro. Não é necessário que leia este excerto para

compreender o que apresentamos aqui, mas fica incluído para o caso de pretender obter um conhecimento mais aprofundado destas ideias e aprender outros conceitos e estratégias para desenvolver o cérebro dos seus filhos, orientando-os no sentido de uma vida saudável, da felicidade e da resiliência.

Neste livro, o nosso objetivo global é transmitir uma mensagem de esperança que transforme o modo como as pessoas entendem e colocam em prática a disciplina. Um dos aspetos que, por norma, é menos agradável no que toca ao trabalho com crianças – a disciplina – pode, na verdade, ser um dos mais importantes, não sendo forçoso que tenha de estar envolto em constante drama e cheio de de reação emotiva de ambas as partes. O mau comportamento dos seus filhos pode, com efeito, ser transformado em ligações mais positivas, não só na sua relação com eles, como no interior do cérebro das crianças. Disciplinar do ponto de vista da totalidade do cérebro irá permitir-lhe mudar completamente a forma como encara as interações com os seus filhos quando eles se portam mal e reconhecer esses momentos como oportunidades para dotá-los de competências que os ajudarão ao longo do seu crescimento, tornando a vida mais fácil e mais agradável para toda a família.

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RePENSAR a disciplina

Apresento aqui alguns depoimentos de pais com quem trabalhámos. Identifica-se com alguma das situações?

Estes comentários parecem-vos familiares? São muitos os pais que se sentem assim. Quando os filhos estão a esforçar-se por fazer as coisas bem, os progenitores querem agir corretamente; porém, são mais as vezes em que acabam por reagir à situação, do que aquelas em que agem de acordo com um conjunto de princípios e de estratégias bem definidas. Mudam para piloto automático, abandonando o controlo das decisões parentais mais decisivas.

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Na verdade, um piloto automático pode ser muito útil quando estamos a viajar de avião – basta carregar no botão, recostar, descontrair e deixar que o computador nos leve para onde foi programado. Porém, no que toca a disciplinar crianças, trabalhar a partir de um piloto pré-programado, já não é tão fantástico. Pode conduzir-nos na direção de um qualquer banco de nuvens negras de tempestade que esteja a formar-se, o que significa que, tanto os pais como os filhos, vão deparar-se com um percurso acidentado.

Em vez de sermos reativos, queremos ser dialogantes com os nossos filhos. Queremos ser determinados  e tomar decisões conscientes, baseadas em princípios sobre os quais ponderámos e concordámos antecipadamente. Ser determinado significa considerar diversas opções e, depois, escolher aquela que implique uma abordagem ponderada dos resultados pretendidos. Pretendemos designar como Disciplina relacional sem emoções o resultado externo e de curto prazo dos limites e estrutura comportamentais e o resultado interno de longa duração do ensino de competências de vida.

Imaginemos, por exemplo, que o nosso filho de quatro anos nos bate. Talvez por ter ficado zangado quando lhe dissemos que precisávamos de terminar um e-mail  antes de podermos ir com ele fazer construções de Lego, dá-nos uma palmada nas costas. (É sempre uma surpresa constatar que um ser tão pequenino pode infligir tamanha dor, não é?)

Que fazemos? Se estamos em modo de piloto automático, ou seja, se não estamos a funcionar de acordo com uma filosofia específica sobre a forma como devemos agir perante um mau comportamento, é possível que nos limitemos a reagir de imediato, sem grande reflexão ou intenção. Talvez seguremos no nosso filho, possivelmente com mais força do que necessário, e lhe digamos, entre dentes cerrados: «Bater é feio!». Em seguida, é possível que lhe apresentemos algum tipo de consequência, como mandá-lo para o quarto, de castigo.

Será esta a pior reação parental possível? Não, não é. Mas poderia ser melhor? Sim, sem dúvida. O que é necessário é um claro entendimento do que pretendemos alcançar quando o nosso filho se  porta mal.

Este é o objetivo global deste capítulo: ajudar a compreender a importância de funcionar de acordo com uma filosofia intencional, dispondo de uma estratégia consistente para dar resposta a um comportamento incorreto. Tal como dissemos na Introdução, o duplo objetivo da disciplina é a promoção de um bom comportamento externo, a curto prazo, e a construção de uma estrutura interna do cérebro para garantir um melhor comportamento e competências de relacionamento a longo prazo. É importante termos presente que disciplinar é, em última análise, ensinar.

Como tal, quando cerramos os dentes, cuspimos uma regra e apresentamos uma consequência, essa atitude vai ser eficaz no que toca a ensinar o nosso filho de que não deve bater?

Bem, sim e não. Poderá ter, a curto prazo, o efeito de o levar a não nos bater. O medo e o castigo podem ser eficazes no momento, mas não resultam a longo prazo. E serão o medo, o castigo e o drama aquilo a que pretendemos, realmente, recorrer como principais motivadores dos nossos filhos? Em caso afirmativo, o que estaremos a ensinar é que a força e o controlo são as melhores ferramentas para levarmos os outros a fazerem o que queremos.

Refiro, mais uma vez, que é perfeitamente normal reagirmos, simplesmente, quando ficamos zangados, em especial quando alguém nos inflige dor física ou emocional.

Existem, porém, respostas mais positivas, respostas que podem atingir o mesmo objetivo a curto prazo, que é reduzir a probabilidade de aquele comportamento indesejado se repetir no futuro, ao

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mesmo tempo que geram competências. Como tal, em vez de se limitar a temer a nossa reação ou inibir um impulso, o nosso filho irá ser submetido a uma experiência de aprendizagem geradora de uma competência interna que vai além de uma simples associação de medo. E toda esta aprendizagem pode ocorrer ao mesmo tempo que reduzimos a influência emocional da interação e reforçamos a nossa ligação com o nosso filho.

Vejamos de que modo podemos tornar a disciplina, não tanto numa reação geradora de medo, mas antes uma resposta que dote a criança de competências.

As três perguntas: Porquê? O quê? Como?

Antes de reagir a um mau comportamento, tire algum tempo para se colocar três simples perguntas:

1. Por que razão o meu filho reagiu desta forma?

No meio da nossa irritação, a nossa resposta poderá ser Porque é uma criança mimada ou Porque está a tentar ver até onde consegue ir!. Porém, quando abordamos a situação com curiosidade em vez de utilizarmos suposições, tentando perceber o que está subjacente a determinado comportamento, é frequente compreendermos que o nosso filho estava a tentar expressar ou alcançar alguma coisa, mas simplesmente não o fez da forma correta. Se compreendermos isto, podemos responder de forma mais eficaz e compassiva.

2. Que lição quero dar neste preciso momento?

Mais uma vez, o objetivo da disciplina não é mostrar uma consequência. Pretendemos transmitir conhecimento, seja sobre autocontrolo, sobre a importância de partilhar, sobre agir com responsabilidade ou sobre qualquer outra competência.

3. Como posso transmitir esta lição da melhor forma?

Tendo em conta a idade da criança e o estádio de desenvolvimento, assim como o contexto da situação (terá a criança percebido que o megafone estava ligado antes de o ter encostado à orelha do cão?), de que modo podemos comunicar de forma mais eficaz aquilo que pretendemos fazer entender? É com demasiada frequência que reagimos ao mau comportamento como se as consequências fossem o objetivo da disciplina. Por vezes, as consequências naturais resultam da decisão de uma criança e a lição é transmitida sem que tenhamos necessidade de fazer muita coisa. É frequente, porém, haver formas mais eficazes e carinhosas de ajudar os nossos filhos a compreenderem o que estamos a tentar comunicar-lhes, do que apresentarmos, de imediato, um castigo usado para todo o tipo de situações. Ao colocarmo-nos estas três perguntas – porquê, o quê e como – quando os nossos filhos fazem alguma coisa de que não gostamos, podemos mais facilmente sair do modo piloto-automático. Isso significa que será muito mais provável que reajamos de uma forma eficaz para travar o comportamento imediatamente, ao mesmo tempo que estaremos a transmitir lições e competências que durarão uma vida e contribuirão para a construção do caráter e para preparar os nossos filhos para tomarem boas decisões no futuro.

Analisemos, mais atentamente, em que medida estas três perguntas nos podem ajudar a reagir a um filho de quatro anos que nos dá uma palmada quando estamos a escrever um e-mail. Quando ouvimos a pancada e sentimos nas costas uma dor em forma de mão, é possível que demoremos algum tempo a acalmar e a evitar deixarmo-nos levar pela reação. Nem sempre é fácil, pois não? Com efeito, o nosso cérebro está programado para interpretar a dor física como uma ameaça, ativando o circuito neural que nos pode deixar mais reativos e nos coloca em modo de combate. Por conseguinte, implica algum

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esforço, por vezes um esforço intenso, conseguir manter o controlo e colocar em prática a Disciplina sem Conflito. Temos de dominar o nosso cérebro primitivo e reativo, quando isso acontece. Não é fácil. (A propósito, torna-se muito mais difícil fazer isto quando estamos com privação de sono, com fome, sobrecarregados ou não estamos a priorizar o cuidado connosco próprios.)

Esta pausa entre reatividade e resposta é o início da escolha, da intenção e da competência enquanto pais.

Por conseguinte, devemos tentar fazer uma pausa, com a maior brevidade possível, e colocar-nos as três perguntas. Então, conseguiremos ver, com maior clareza, o que está a acontecer na nossa interação com o nosso filho. Cada situação é diferente e depende de muitos e diversos fatores; porém, as respostas às perguntas poderão ser sensivelmente estas:

1. Por que razão se comportou o meu filho desta maneira?

Ele bateu-lhe porque queria a sua atenção e não estava a consegui-la. Esta é uma atitude típica numa criança de quatro anos, não é? É desejável? Não. É própria nesta fase de desenvolvimento? Absolutamente. Para uma criança desta idade, é difícil esperar, o que faz com que se manifestem sentimentos profundos que só pioram a situação. A criança ainda não tem idade suficiente para saber acalmar-se, de forma suficientemente consistente e rápida, de modo a evitar aquele tipo de atitudes. Desejaríamos que ela se acalmasse e declarasse, com compostura: Mãe, estou a sentir-me frustrada por me estar a pedir para continuar a esperar; e, neste momento, estou a sentir o impulso fortíssimo e agressivo de lhe bater – mas optei por não o fazer e, em vez disso, por manifestar-me por palavras. Contudo, não é isto que vai acontecer. Na verdade, seria muito estranho se acontecesse. Naquele momento, agredir é a estratégia pré-definida de que o seu filho dispõe para expressar os seus profundos sentimentos de frustração e impaciência; ele ainda precisa de algum tempo de prática para desenvolver as competências necessárias para aprender a lidar com a gratificação retardada e a gerir devidamente a cólera. Foi por essa razão que lhe bateu.

Colocada nestes termos, a situação parece muito menos pessoal, não é? Por norma, os nossos filhos não nos batem simplesmente por serem malcriados ou por nós sermos uns pais incompetentes. Batem-nos porque ainda não dispõem da capacidade de regular os seus estados emocionais e de controlar os seus impulsos.  E sentem-se suficientemente seguros connosco para saberem que não perderão o nosso amor, mesmo quando se encontram no seu pior.

Com efeito, quando nos deparamos com uma criança de quatro anos que nunca bate e que se comporta sempre de modo perfeito, ficamos preocupados com o tipo de ligação que terá com os pais. Quando as crianças se sentem fortemente ligadas aos pais, sentem-se suficientemente seguras para testarem a sua relação. Ou seja, o mau comportamento dos nossos filhos é, frequentemente, um sinal da sua confiança e da sua segurança relativamente a nós. Muitos pais reparam que os seus filhos guardam tudo para eles, portando-se muito melhor na escola ou com outros adultos do que em casa. É esta a razão. As suas exaltações são, frequentemente, um sinal de segurança e confiança, e não apenas uma forma de rebelião.

2. Que lição pretendo dar neste momento?

A lição não deverá ser a de que aquele mau comportamento merece um castigo, mas sim, de que há formas mais apropriadas para obter a sua atenção e gerir a cólera, do que recorrer à violência. Deverá querer que o seu filho aprenda que bater não é correto e que há muitas formas corretas de expressar os seus sentimentos.

3. Qual é a melhor forma de transmitir esta lição?

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a ponderar duas vezes antes de voltar a bater-lhe, há uma alternativa melhor. Que tal se estabelecer uma ligação com ele, puxando-o para si e mostrando-lhe que conseguiu obter toda a sua atenção? Nessa altura, poderá mostrar que compreende os sentimentos dele e ensiná-lo a comunicar essas emoções: Eu sei que é difícil esperar. Queres muito que vá brincar contigo e estás zangado porque e estou no computador. Não é verdade?. O mais provável é obter do seu filho um sim zangado. Isso não é nada mau; é sinal de que o seu filho sabe que obteve toda a sua atenção. E que o leitor também obteve a atenção dele. Nesse momento, já poderão conversar e, à medida que este se for acalmando e se torne mais recetivo, será possível estabelecer contacto visual, explicar que bater nunca é uma atitude correta e apresentar-lhe algumas alternativas, como usar as palavras para expressar a sua frustração, opção alcançável numa próxima situação.

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Esta abordagem também funciona com crianças mais velhas. Vejamos uma das situações mais comuns com que os pais de todo o mundo se deparam: as guerras dos T.P.C.

Imagine o leitor que a sua filha de 9 anos faz sempre uma guerra quando chega a altura de fazer os trabalhos de casa e entram os dois sistematicamente em choque, além de, pelo menos uma vez por semana, ela entrar em colapso. Fica tão frustrada que acaba lavada em lágrimas, gritando consigo e apelidando os professores de cruéis por mandarem trabalhos de casa tão difíceis, e considera-se estúpida, por ter tantas dificuldades. Depois destas declarações, enterra a cabeça na dobra do braço e desata num pranto, enchendo a mesa de lágrimas.

Para um pai ou para uma mãe, esta situação pode ser tão exasperante quanto a de levar uma palmada nas costas dada por um filho de quatro anos. A resposta automática seria a de ceder à frustração e, no calor da indignação, discutir com a sua filha e dar-lhe um sermão por não saber gerir o tempo e por não estar atenta nas aulas. O leitor muito provavelmente estará familiarizado com este sermão: Se tivesses começado os T.P.C. mais cedo, quando eu te pedi, por esta altura já os terias terminado! Nunca ouvimos uma criança responder a esta reprimenda com um Tem razão, pai. Deveria mesmo ter começado quando me disse. Vou assumir a responsabilidade de não ter começado quando devia. Já aprendi a lição. Amanhã, vou agarrar-me aos trabalhos de casa bem mais cedo. Obrigada por me ter esclarecido nesta questão.

Em vez do sermão, que tal colocar as perguntas porquê, o quê e como?

1. Por que razão o meu filho agiu desta maneira? De novo, as abordagens à disciplina devem mudar,

de acordo com a criança e com a sua personalidade. Talvez o trabalho de casa seja uma dificuldade para ela, uma batalha que nunca consegue vencer, e isso a deixe frustrada. Talvez haja qualquer coisa que lhe pareça demasiado pesada ou esmagadora e a faça sentir-se mal consigo própria ou, ainda, talvez esteja a precisar de mais atividade física. Neste caso concreto, os principais sentimentos poderão ser a frustração e o desalento.

Talvez a escola não seja, por norma, tão difícil para ela, mas sucumbiu porque, neste dia, está particularmente cansada e a sentir-se sobrecarregada. Levantou-se cedo, esteve na escola durante seis horas, depois teve uma reunião dos escuteiros que durou até à hora do jantar. Agora que já jantou, será de esperar que se sente na mesa da cozinha e esteja a trabalhar em frações durante 45 minutos? Não é de admirar que se descontrole um pouco, pois é pedir muito a uma criança de 9 anos (ou até mesmo a um adulto!). Isto não significa que não continue a ter de fazer os trabalhos de casa, mas devemos mudar a nossa perspetiva e a nossa reação, assim que nos recordemos do que a criança esteve a fazer.

2. Que pretendo ensinar-lhe neste momento? Talvez queira ensinar a sua filha a gerir melhor o se

tempo e as suas responsabilidades. Ou a fazer escolhas no que toca às atividades nas quais participa. Ou, ainda, como lidar com a frustração de forma mais flexível.

3. Qual será a melhor forma de transmitir esses ensinamentos? Independentemente da sua resposta à

segunda questão, um sermão numa altura em que a criança já está perturbada, não será, de forma alguma, a melhor abordagem. Esse não é um momento pedagógico, porque partes emocionais e reativas do cérebro estão ao rubro, esmagando a parte mais calma, racional e recetiva do cérebro. Por conseguinte, poderá querer ajudar a criança com as frações e acabar depressa com aquela crise em particular: Sei que tens muito que fazer esta noite, e que já é muito tarde, mas consegues fazer isto. Vou sentar-me aqui contigo e, juntos, vamos acabar este trabalho. Assim, quando ela tiver acalmado e

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estiverem os dois a saborear uma taça de gelado, ou até mesmo no dia seguinte, poderão verificar  juntos se a sua filha estará com demasiadas atividades, tentar perceber se ela está a ter dificuldade em

compreender algum conceito ou, ainda, explorar a possibilidade de ela estar mesmo a conversar com os colegas, durante as aulas, e a trazer para casa trabalhos que deveriam ter sido feitos na aula, acabando por ter mais trabalho extra. Deverá, por conseguinte, colocar-lhe questões, procurando conjuntamente soluções para os possíveis problemas, tentando descobrir o que estará realmente a passar-se. Pergunte-lhe o que está a impedi-la de concluir os trabalhos de casa, o que considera não estar a correr bem e quais são as suas sugestões. Encare toda esta situação como uma oportunidade para colaborar e contribuir para tornar a realização dos trabalhos de casa numa experiência mais agradável. A sua filha poderá estar a necessitar de ajuda para criar competências que lhe permitam encontrar soluções, mas envolva-a o mais possível nesse processo.

Lembre-se de que é importante escolher uma altura em que estejam ambos num estado de espírito tranquilo e recetivo. Comece por lhe dizer qualquer coisa como: A questão dos trabalhos de casa não está a correr muito bem, pois não? Tenho a certeza de que seremos capazes de encontrar uma solução. Na tua opinião, o que poderá resultar? (A propósito: no Capítulo 6, onde debatemos as estratégias de redirecionamento da Disciplina sem Conflito, apresentamos uma série de sugestões específicas e práticas que ajudarão o leitor neste tipo de conversas.)

Crianças diferentes requerem respostas diferentes às perguntas porquê, o quê, como, pelo que não podemos afirmar que estas respostas específicas se apliquem, necessariamente, aos seus filhos e num determinado momento. O objetivo é encarar a disciplina de uma forma totalmente diferente; é repensá-la. Depois disso, o leitor poderá ser conduzido por uma filosofia global quando estiver a interagir com os seus filhos, em lugar de se limitar a reagir de forma instintiva quando eles fizerem alguma coisa de que não goste. As perguntas porquê, o quê e como  apresentam-nos uma forma de passarmos de uma atitude parental reativa a estratégias parentais recetivas e intencionais que envolvem todo o cérebro.

É certo que nem sempre os pais terão tempo para colocar e ponderar as três perguntas. Quando uma disputa útil e bem-intencionada, travada na sala de estar, se transforma numa luta sangrenta numa arena, ou quando temos filhas gémeas que já estão atrasadas para o ballet , torna-se difícil seguir o protocolo das três perguntas. Nós sabemos. Pode parecer completamente irrealista que alguém possa ter tempo para estar tão consciente no calor do momento.

Não estamos a insinuar que o leitor seja perfeito todas as vezes, ou que seja capaz de ponderar a sua resposta de imediato quando os seus filhos ficam perturbados. Porém, quanto mais considerar e praticar esta abordagem, mais natural e automática se tornará uma avaliação rápida e obter uma resposta intencional. Essa poderá, inclusivamente, tornar-se na sua resposta padrão, à qual recorrerá automaticamente. Com prática, estas perguntas poderão ajudá-lo a manter-se determinado e recetivo face a interações que, até então, induziam em si uma reação. Colocar as perguntas porquê, o quê e como pode ajudar a gerar um sentido interior de clareza, mesmo perante situações de caos.

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Consequentemente, o leitor receberá o bónus de ter de disciplinar cada vez menos, não só porque estará a moldar o cérebro do seu filho de modo a que ele tome melhores decisões e aprenda a estabelecer a ligação entre os seus sentimentos e o seu comportamento, como também porque estará mais atento ao que estiver a acontecer com o seu filho – por que razão ele faz o que faz –, o que significa que estará mais apto a orientá-lo antes que a situação piore. Além disso, será capaz de ver as situações do ponto de vista da criança, reconhecendo os momentos em que o seu filho precisa da sua ajuda, não da sua ira.

Não Conseguir vs. Não Querer: a disciplina não é uma medida única para todas as situações

De um modo simples, colocar as perguntas porquê, o quê e como ajuda-nos a recordar quem é que os nossos filhos são e do que precisam. As questões levam-nos a ter consciência da idade e das necessidades específicas de cada indivíduo. Afinal de contas, o que funciona para uma criança, pode ser o oposto do que outra precisa. E o que funciona com uma criança, numa determinada altura, pode não funcionar com ela dez minutos mais tarde. Por conseguinte, não considere a disciplina como sendo uma medida única para todas as situações. Em vez disso, tenha sempre presente a importância de disciplinar cada criança de acordo com cada situação.

Ao disciplinarmos os nossos filhos no modo piloto automático, reagimos frequentemente muito mais em função do nosso estado de espírito do que em função das necessidades que o nosso filho está a sentir nesse preciso momento. É fácil esquecermo-nos de que as nossas crianças não passam disso mesmo, de crianças, e esperarmos que tenham um comportamento que fica além das capacidades do seu estádio de desenvolvimento. Não podemos esperar, por exemplo, que uma criança de quatro anos lide bem com as suas emoções quando está zangada porque a mãe nunca mais larga o computador; assim como não podemos esperar que uma criança de 9 anos não entre, ocasionalmente, em desespero por causa dos trabalhos de casa.

Recentemente, Tina viu uma mãe e uma avó a fazerem compras. No seu carrinho das compras estava um rapazinho que aparentava ter cerca de quinze meses. Enquanto as mulheres circulavam, observando malas e sapatos, este chorava incessantemente, pretendendo, claramente, que o tirassem dali. Precisava de se mexer, de andar e de explorar. As cuidadoras iam-lhe dando, absortamente, objetos para o distraírem, o que o deixava ainda mais frustrado. A criança ainda não sabia falar, mas a sua mensagem era clara: Estão a exigir demasiado de mim! Preciso que vejam as minhas necessidades!. O seu comportamento e os seus lamentos eram totalmente compreensíveis.

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Com efeito, deveríamos  partir do princípio  que as crianças irão, por vezes, sentir e manifestar reatividade emocional, bem como um comportamento de oposição. Em termos de desenvolvimento, ainda não estão a funcionar com o cérebro totalmente formado (tal como iremos explicar no Capítulo 2), pelo que se encontram literalmente incapazes de corresponder, constantemente, às nossas expetativas. Isso significa que, quando disciplinamos, devemos ter sempre em consideração a capacidade de desenvolvimento da criança, o seu temperamento pessoal e o estilo emocional, assim como o contexto da situação.

Uma distinção importante é a ideia do não conseguir vs. não querer. A frustração dos pais diminui radical e drasticamente quando fazemos a distinção entre um não conseguir  e um não querer. Por vezes, partimos do princípio de que os nossos filhos não querem  portar-se da forma que pretendemos quando, na verdade, eles simplesmente não conseguem, pelo menos nesse momento em particular.

A verdade é que uma enorme percentagem dos maus comportamentos devem-se mais a incapacidade do que a falta de vontade. Da próxima vez que o seu filho revelar dificuldade em controlar-se, pergunte-se: Será que o comportamento dele faz sentido, tendo em consideração a idade e as circunstâncias?. Na maioria das vezes, a resposta será Sim. Andar às voltas, durante horas, com uma criança de três anos dentro do carrinho das compras, obviamente que a deixará agitada. Uma criança de onze anos que tenha ficado a pé até tarde para ver o fogo-de-artifício, e tenha de se levantar cedo na manhã seguinte para uma atividade da Associação de Estudantes, terá, naturalmente, durante o dia, alguma quebra. Não porque não queira evitar, mas porque não consegue.

Estamos sempre a reforçar esta questão junto dos pais, o que foi particularmente eficaz com um pai que procurou Tina no seu consultório. Encontrava-se esgotado porque o filho de cinco anos, embora demonstrasse capacidade para se comportar de modo apropriado e tomasse decisões acertadas, havia alturas em que se descontrolava pelos motivos mais insignificantes. Vejamos de que modo Tina abordou a conversa:

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Comecei por tentar explicar a este pai que, por vezes, o filho não conseguia  controlar-se, o que significava que não estava a escolher ser obstinado ou desafiador. Em termos de linguagem corporal, a resposta do pai à minha explicação foi muito clara: cruzou os braços e recostou-se na cadeira. Embora não tivesse declaradamente rolado os olhos, era notório que não iria criar um Clube de Fãs da Tina. Como tal, disse-lhe: Quer parecer-me que não concorda comigo neste ponto.

Respondeu-me o pai: É que não me faz qualquer sentido, porque o meu filho, por vezes, é fantástico a lidar até mesmo com grandes desapontamentos, como aconteceu na semana passada, por exemplo, em que não conseguiu ir ao jogo de hóquei. Porém, há alturas em que perde simplesmente a cabeça porque não pode usar a caneca azul por estar na máquina de lavar louça! Não se trata aqui de coisas que não possa fazer. O problema dele é ser mimado e precisar de uma disciplina mais firme. Precisa de aprender a obedecer. E isso ele pode! Já deu provas de poder escolher como lidar consigo próprio.

Decidi correr um risco terapêutico: fazer uma coisa fora do comum sem saber ao certo onde me levaria. Acenei com a cabeça e depois perguntei: Tenho a certeza de que, na maior parte do tempo, é  um pai carinhoso e paciente, não é verdade?

Resposta: Sim, na maior parte das vezes. Mas há outras em que não sou, obviamente.

Tentei incutir algum humor ao tom da minha voz, dizendo: Ou seja, consegue ser paciente e carinhoso mas, por vezes, escolhe não o ser?

Felizmente, aquele pai sorriu, começando a perceber onde eu queria chegar. Como tal, prossegui: Se amasse o seu filho, não faria melhores escolhas e não seria um melhor pai em todas as situações?  Por que razão escolhe ser impaciente ou reativo? Ele começou a acenar e o rosto foi-se abrindo, num

sorriso ainda mais rasgado, à medida que foi reconhecendo o meu tom de brincadeira e refletindo sobre a questão.

Continuei: O que torna mais difícil, para si, ser paciente?

Disse o pai: Bem, depende de como me estou a sentir; se estou cansado, por exemplo, ou se tive um dia difícil no trabalho.

Sorri e perguntei-lhe: Sabe onde quero chegar com isto, não sabe?

Claro que ele sabia. Tina continuou a explicar que a capacidade de uma pessoa para lidar bem com as situações e para tomar decisões acertadas, pode realmente flutuar de acordo com as circunstâncias e com o contexto de uma dada situação. Pelo simples facto de sermos humanos, a nossa capacidade de lidarmos connosco não é estável, nem constante. E esse é, certamente, o caso de uma criança de cinco anos.

Aquele pai entendia claramente o que Tina estava a dizer: que era incorreto partir do princípio de que o filho, só porque conseguia gerir bem as suas emoções em determinados momentos, seria capaz de o fazer sempre. E que o facto de o filho, por vezes, não controlar os seus sentimentos e comportamentos, não era sinal de que, nesses momentos, estivesse a ser mimado e a precisar de ser disciplinado com mais firmeza. Pelo contrário, era sinal de que precisava de compreensão e ajuda, e que o pai, mediante uma ligação emocional e o estabelecimento de limites, poderia aumentar e expandir as capacidades do filho. A verdade é que, em todos nós, a nossa capacidade vai flutuando de acordo com o estado de espírito e o estado físico, e que estes estados são, por sua vez, influenciados por uma série de fatores  – em especial quando se trata do cérebro em desenvolvimento de uma criança em crescimento.

Tina e aquele pai continuaram a conversar e tornou-se óbvio que o pai captou perfeitamente o que Tina lhe transmitiu. Percebeu a diferença entre não poder e não querer, e reconheceu que estava a

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colocar, relativamente ao filho, e também à filha, expetativas demasiado rígidas e inapropriadas em termos de desenvolvimento (não pode haver uma medida única para todas as situações). Esta nova perspetiva deu-lhe competências para desligar o seu piloto-automático parental e começar a trabalhar de forma a tomar decisões pensadas, de acordo com o momento e em função da personalidade dos filhos, pois cada um tinha a sua própria personalidade e as suas próprias necessidades, que variavam, também, em diferentes momentos.

O pai não só constatou que poderia continuar a estabelecer limites claros e firmes, como verificou que o poderia fazer de forma ainda mais eficaz e com mais consideração, pois iria ter em conta o temperamento individual de cada filho, a flutuação da sua capacidade e o contexto de cada situação. Consequentemente, iria ser capaz de alcançar os dois objetivos da disciplina: assegurar menos situações de falta de cooperação do filho e ensinar-lhe importantes competências e lições de vida que iriam ajudá-lo ao longo de todo o seu crescimento, até à idade adulta.

Este pai estava a aprender a desafiar determinados pressupostos em que sempre acreditara, tais como a ideia de que o mau comportamento era sempre uma atitude intencional de desafio, e não um momento em que a criança encontra dificuldade em gerir sentimentos e comportamentos. Posteriores conversas com Tina levaram-nos a questionar, não só este pressuposto, como a sua ênfase na necessidade de que os seus filhos lhe obedecessem incondicionalmente e sem exceção. Sim, era razoável e justificável que pretendesse que a sua disciplina encorajasse os filhos a cooperarem. Agora, obediência total e inquestionável? Pretenderia ele que os filhos crescessem a obedecer cegamente a toda a gente, e que continuassem a fazê-lo pela vida fora? Ou preferiria que desenvolvessem as suas personalidades e identidades individuais, aprendendo, ao longo do processo, o que significa entenderem-se com os outros, observar os limites, tomar boas decisões, serem autodisciplinados e atravessar situações difíceis pensando por si próprios? Mais uma vez, este pai percebeu a ideia e isso fez toda a diferença para os seus filhos.

Outra ideia preconcebida que este progenitor começou a colocar em causa, foi a de que existe uma espécie de bala de prata ou varinha mágica que pode ser usada para resolver qualquer problema de comportamento ou qualquer preocupação. Gostaríamos que houvesse qualquer coisa que curasse tudo, mas não há. É tentador seguir um tipo de prática disciplinar que promete funcionar em todas as situações e mudar radicalmente uma criança em poucos dias. Porém, a dinâmica da interação com crianças é sempre muito mais complexa do que isso. Questões de comportamento não podem, simplesmente, ser resolvidas com uma abordagem única que apliquemos em todas as circunstâncias, em todos os ambientes, ou a todas as crianças.

Tomemos agora alguns minutos para debater as duas técnicas de disciplina de medida única a que os pais recorrem mais frequentemente: palmadas e castigo no quarto.

O castigo físico e o cérebro

Uma resposta automática a que alguns pais recorrem são as palmadas. Perguntam-nos com frequência qual é a nossa posição relativamente a esta questão.

Embora sejamos grandes defensores dos limites, opomo-nos ambos fortemente ao castigo físico. Este é um tópico complexo e muito polémico, não estando no âmbito deste livro apresentar um debate aprofundado sobre a investigação, os vários contextos nos quais o castigo físico tem lugar, nem os seus efeitos negativos. Contudo, e com base na nossa perspetiva neurocientífica e na análise da literatura científica, acreditamos que o castigo físico é, muito provavelmente, contraproducente no que toca a estabelecer relações com os nossos filhos, que devem ser baseadas no respeito, ensinar às crianças as

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