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Agonistas adrenérgicos ß2

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Academic year: 2021

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ARTIGO DE REVISÃO

Agonistas adrenérgicos ß 2 e produção animal:

III - Efeitos zootécnicos e qualidade da carne a ß 2 - Adrenergic agonists and animal production:

III – Zootechnical effects and meat quality a

Fernando Ramos* e Maria Irene Noronha da Silveira

Centro de Estudos Farmacêuticos da FCT - Laboratório de Bromatologia, Hidrologia e Nutrição Faculdade de Farmácia Universidade de Coimbra, 3000-295 Coimbra

Resumo: O presente trabalho constitui a terceira e última parte de uma revisão sobre agonistas adrenérgicos ß

2

e produção animal e nele são abordados os efeitos zootécnicos e a qualidade da carne. São apresentados os resultados da acção dos agonistas adrenérgicos ß

2

sobre o ganho médio de peso diário de ratos, frangos, suínos, ovinos e bovinos, dando-se particular destaque ao aumento da massa muscular e ao decréscimo da gordura corporal dos citados animais. A dose de fármaco administrada, a duração do tratamento e a idade e o sexo dos animais são, também, analisados. A qualidade da carne produzida, nomeadamente o aspecto, tenrura e paladar, constituem outro dos assuntos estudados, bem como se destacam algumas das características desta carne importantes para a sua transformação industrial. A revisão conclui com a avaliação da segurança/

toxicidade dos agonistas adrenérgicos ß

2

no animal, no meio ambiente e no Homem, neste caso quer como manipulador, quer, sobretudo, como consumidor. As intoxicações resultantes da ingestão de carne e fígado contendo clembuterol, com especial destaque para o caso português, encerram o artigo.

Summary: Zootechnical effects and meat quality are the subject of the third part of the review on β

2

-adrenergic agonists and animal production. Anabolic results of the referred drugs in rats, chickens, swines, ovines and bovines are presented, particularly their special action in increasing protein and decreasing fat.

Considerations about animal age and sex, β-agonist intake dosage and treatment period are also related. Meat quality including general appearance, colour, tenderness or taste is stu- died, as well as other important characteristics for meat industry transformation. Man, animal and environmental β-agonists toxicity evaluation is studied on the last chapter of the paper.

Foods intoxication’s following consumption of liver and meat from clenbuterol treated animals are reviewed. A special note is done of Portuguese situation.

Introdução

A população dos chamados países do primeiro mundo está cada vez mais preocupada com os aspectos da sua saúde, sobretudo ligada ao que come. A

gordura é, hoje em dia, considerada pela maioria dos consumidores como um nutriente desnecessário ou, pelo menos, a evitar, sendo que a sua produção envolverá, então, custos desnecessários. Nesse sentido, os agricultores, particularmente os ligados à pecuária, tentam melhorar o rendimento das suas explorações através da produção de mais e melhor carne magra e no mais curto espaço de tempo. A utilização de agonistas adrenérgicos ß

2

pode facilitar esta acção (Ramos e Silveira 2000 e 2001), embora as consequências daí resultantes nem sempre sejam as melhores, como a seguir se pode constatar ao analisarmos os seus efeitos a nível zootécnico, sobre a qualidade da carne e, também, sobre a segurança/toxicidade que evidenciam, enquanto promotores do crescimento animal.

Efeitos zootécnicos

Os quadros 1, 2, 3, 4 e 5 revelam-nos os resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

sobre o ganho médio de peso diário (G.M.P.D.), o músculo e a gordura de ratos, frangos, suínos, ovinos e bovinos, tomando-se o valor 100 (cem por cento) como relativo aos controlos efectuados paralelamente.

A observação do quadro 1 permite verificar que os agonistas adrenérgicos ß

2

, em ratos, são capazes de desenvolver o aumento da massa muscular em percentagens que variam entre 6 e 18%, ao mesmo tempo que promovem a diminuição da gordura em teores que oscilam entre 6 e 33%.

Cardoso e Stock (1996) e Carter et al. (1991) explicam que a diminuição da gordura no peso da carcaça é acompanhada por um aumento do teor em água que andará associado ao correspondente incremento da proteína.

Os estudos com ratos demonstraram ainda que as fêmeas eram mais sensíveis ao efeito de promotor de crescimento do salbutamol do que os ratos jovens ou machos (Correia et al., 1992) e que o clembuterol era capaz de estimular o crescimento dos músculos

* Correspondente: e-mail: [email protected]

a

Os artigos anteriores que fazem parte deste trabalho foram:

Agonistas adrenérgicos ß

2

e produção animal: I – Mecanismo de acção. RPCV, (2000) 95: 99 – 110

Agonistas adrenérgicos ß

2

e produção animal: II – Relação estrutura-actividade e farmacocinética. RPCV, (2001) 96:

167-175

R E V I S T A P O R T U G U E S A

DE

CIÊNCIAS VETERINÁRIAS

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RPCV (2002) 9 7 (542) 51-62 Ramos, F. e Silveira, M.

esqueléticos e do conteúdo proteico da carcaça inde- pendentemente da idade dos animais (Carter et al., 1991).

Quadro 1 - Resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

como promotores de crescimento em ratos

Fármaco G.M.P.D. Músculo Gordura Bibliografia Salbutamol 138 113 - (Correia et al., 1992) Clembuterol 110 106 94 (Bates e Pell, 1991) Clembuterol 126 108 67 (Cardoso e Stock, 1996) Clembuterol 101 116 68 (Carter et al., 1991) Clembuterol 161 118 91 (Orcutt et al., 1989)

Em frangos, quadro 2, a utilização de agonistas adrenérgicos ß

2

é traduzida por um pequeno aumento do G.M.P.D. com o conteúdo proteico a ser também minimamente afectado, sendo a gordura o parâmetro onde mais consistentemente se verifica a acção dos fármacos em análise.

A avaliação dos efeitos do cimaterol em frangos no período de horas, máximo 48 horas, não permite encontrar grandes diferenças entre o grupo de controlo e o grupo alimentado com suplemento do agonista adrenérgico ß

2

referido. No entanto, quando o tra- tamento é por um período de dias, máximo 14, verifica-se que o cimaterol já consegue fazer notar os seus efeitos como promotor de crescimento (Gwartney et al., 1992).

Muramatsu et al. (1991) estudaram o efeito promo- tor de crescimento do clembuterol em frangas com uma dose na ração de 0,25 ppm desde as 3 até às 6 semanas de vida. Os resultados obtidos não evidencia- ram nenhum aumento da síntese proteica, confirmado através da injecção endovenosa de fenilalanina titriada [

3

H], nem nenhum ganho de peso extra, quando com- parados com o grupo de controlo. No entanto, a gordura apareceu significativamente reduzida quer no fígado quer no músculo do peito.

Quadro 2 - Resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

como promotores de crescimento em frangos

Fármaco G.M.P.D. Músculo Gordura Bibliografia Cimaterol 104 106 93 (Gwartney et al., 1991) Clembuterol 102 - 94 (Buyse et al., 1991) Clembuterol 105 101 92 (Dalrympe et al., 1984) Clembuterol 98 96 83 (Muramatsu et al., 1991)

Os outros dois estudos consultados sobre a utiliza- ção de clembuterol em frangos (Buyse et al., 1991;

Dalrympe et al., 1984) provam o ganho de peso das aves acompanhado de um aumento da proteína e da redução na deposição de gordura, continuando, no entanto, a ser este o efeito mais evidente.

A diminuição da gordura verifica-se mais nos adipó- citos situados ao nível subcutâneo abdominal e nas fêmeas (Williams, 1987), já que estas acumulam, no geral, mais gordura que os machos, tendo Dalrympe et al. (1984) verificado que o aumento da proteína da carcaça é mais evidente também nas fêmeas, o que pressupõe uma melhor resposta ao clembuterol das fêmeas destas aves do que os machos respectivos.

Buyse et al. (1991) demonstraram ainda que a redução da gordura é mais visível se o tratamento for efectuado apenas no período final antes do abate e que a administração prolongada de clembuterol não apresenta qualquer vantagem acrescida, notando-se mesmo uma diminuição no peso se tal se verificar, quando comparado com o grupo de controlo.

A importância dos ovos na alimentação humana conduziu à pesquisa de eventuais efeitos dos agonistas adrenérgicos ß

2

sobre a postura. Contudo, tal não se mostrou significativamente feliz. Apenas se conse- guiu identificar um estudo realizado por Merkley e Garwood (1989) com codornizes, cujos resultados não foram conclusivos quanto aos efeitos anabolizantes do cimaterol. No entanto, os resultados foram inequívocos num ponto: a idade do primeiro ovo das aves foi retardada, entre 6 e 7 dias com 0,5 ppm de cimaterol na dieta, quando comparadas com o lote testemunha.

Dado que os resultados do cimaterol sobre o teor de gordura das carcaças de codorniz não apontam para a sua redução, julgamos que tal efeito pode ser atribuído a um atraso na maturação sexual das codornizes, uma vez que a quantidade de lípidos disponível é mais que suficiente para o desenvolvimento da gema do ovo.

No quadro 3 apresentam-se os resultados de treze estudos diferentes efectuados em suínos com agonis- tas adrenérgicos ß

2

, verificando-se que na maioria dos estudos o ganho médio diário de peso não é significativamente aumentado com a administração de agonistas adrenérgicos ß

2

, o que vai ao encontro do que foi também verificado por Moloney e Allen (1992). A acção a nível muscular é traduzida por um aumento médio de cerca de 10%, em relação aos grupos de controlo, com oscilações que vão de um máximo de 30% a um mínimo de 1%, enquanto em relação à gordura se constata uma diminuição média do seu teor a rondar os 9%, com o intervalo maior de variação a situar-se entre 1 e 16%, sendo que o seu efeito é mais pronunciado na gordura subcutânea e inter-muscular do que na intra-muscular (Engeseth et al., 1992).

Quadro 3 - Resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

como promotores de crescimento em suínos

Fármaco G.M.P.D. Músculo Gordura Bibliografia Ractopamina 110 114 91 (Bark et al., 1992) Ractopamina 111 130 84 (Crome et al., 1996) Ractopamina 142 126 86 (Engeseth et al., 1992) Ractopamina 103 106 96 (Gu et al., 1991a) Ractopamina 105 101 99 (Mills et al., 1990) Ractopamina 98 103 94 (Mitchell et al., 1991) Ractopamina 109 106 93 (Stites et al., 1991) Ractopamina 112 105 96 (Yen et al., 1991) L-644,969 102 107 85 (Wallace et al., 1987) Salbutamol 109 107 86 (Cole et al., 1987) Salbutamol 105 106 84 (Warris et al., 1990) Cimaterol 103 110 90 (Jones et al., 1985) Cimaterol 106 103 97 (Walker et al., 1989)

Wallace et al. (1987) compararam a utilização

do agonista adrenérgico ß

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L-644,969 (6-amino-a-

{[(1-metil-3-fenilpropil)amino]metil}-3-piridina-meta-

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nol) na ração de suínos em concentrações de 0; 0,25;

1 e 4 ppm durante um período de 7 semanas. A dose de 1 ppm foi a que produziu melhores resultados, par- ticularmente no período inicial do tratamento. A partir das 7 semanas parece não haver qualquer benefício acrescido sendo que esse tempo é reduzido para 5 semanas no caso de 4 ppm. A dose de 0,25 ppm, tirando a primeira semana onde se verificou cerca de 5% de ganho de peso, apresentou resultados idênticos aos do grupo controlo.

Numa experiência levada a cabo com salbutamol em suínos, fêmeas e machos castrados, verificou-se que as fêmeas apresentavam uma redução maior na espessura da gordura dos presuntos do que os machos castrados, embora quanto à eficácia da ração, a expressão dos resultados fosse mais visível nos machos castrados, se bem que moderadamente (Cole et al., 1987).

Os resultados obtidos por Bark et al. (1992) e Engeseth et al. (1992) indicam que a adição de ractopamina à dieta de suínos numa concentração de 20 ppm na ração alimentar melhora o rácio e a eficácia do crescimento bem como as características da carcaça, especialmente se os suínos forem geneti- camente seleccionados para produção de carne magra e se o seu abate for efectuado até aos 114 kg de peso (Gu et al., 1991a,b). Com o aumento de peso, para além do referido, o crescimento em carne magra vai diminuindo, o que reduz a eficiência da ração alimentar que os suínos comem, aumentando, portanto, os custos de manutenção e enfraquecendo o rendi- mento da produção (Gu et al., 1991b)

O aumento de peso diário é mais conseguido numa fase inicial, primeiros catorze dias, diminuindo com o tempo até às 4 semanas, sendo o efeito da ractopamina, a partir deste período, praticamente sem significado, quando comparado com o grupo controlo (Bark et al., 1992; Engeseth et al., 1992). Por outro lado, a ractopamina demonstrou ser mais eficaz quando a sua administração é feita a animais mais pesados (Crome et al., 1996) o que vem corroborar a ideia geral de que a administração de agonistas adrenérgicos ß

2

é mais rentável quando é feita no período final de engorda.

Mitchel et al. (1991), por sua vez, concluíram que o efeito da ractopamina nos metabolismos proteico e lipídico dos suínos estava associado com a disponibi- lidade energética da ração e que o impacto da restrição de energia no crescimento animal era muito maior do que a restrição proteica.

Nos estudos com cimaterol em suínos, verificou-se que intervalos de segurança de cinco dias (Walker et al., 1989) ou sete (Witkamp e van Miert, 1992) parecem ser suficientes para que os animais recuperem a gordura perdida durante o tratamento. No que diz respeito aos músculos constatou-se que, apesar de haver uma redução do peso ganho durante o trata- mento, o efeito do cimaterol ainda se mantinha visível, ao fim de sete dias de retirada (Jones et al., 1985). Já o teor de água avaliado na carcaça dos suínos tratados

era superior ao existente na dos animais controlo, embora em pequena percentagem (± 2%) (Walker et al., 1989; Witkamp e van Miert, 1992).

No que concerne às lesões nos cascos de suínos, Jones et al. (1985) encontraram uma relação directa entre estas e a dose administrada no caso do cimaterol, que Walker et al. (1989) e Hill e Dalrymple (1987), curiosamente com doses idênticas do mesmo agonista adrenérgico ß

2

, não referem, afirmando inclusive que não existem quaisquer outras alterações significativas nas capacidades de locomoção quando se comparam os animais tratados com os do grupo controlo. Já Wallace et al. (1987) e Biolatti et al. (1994) utilizando, respectivamente, L-644,969 e clembuterol concluíram pela presença de um maior número de lesões nos cascos caracterizadas por um aumento da erosão e ulceração dos mesmos acompanhados de uma vermelhidão das partes que contactavam directamente o solo.

O quadro 4 mostra os dados de onze estudos efec- tuados com ovinos, sendo de referir que a acção dos agonistas adrenérgicos ß

2

se manifesta por um aumento muscular médio de 20%, com um máximo de 41% e um mínimo de 4%, e uma diminuição média de gordura a rondar os 25%, com 8 e 48% a cotarem-se como os valores de menor e maior redução do teor de gordura.

Rikhardsson et al. (1991) estudaram a acção do cimaterol enquanto promotor do crescimento na dieta de ovinos, tendo verificado que o aumento da retenção de azoto pelos animais ocorria principalmente nas pri- meiras três semanas de tratamento, sobretudo quando comparado com seis e mais semanas. Tal constatação poderá levar à conclusão que a acção sobre a síntese proteica dos agonistas adrenérgicos ß

2

só se desenvolve durante um curto período de tempo. Kim et al. (1987) verificaram que os animais tratados apresentavam uma maior área do músculo dorsal bem como uma confor- mação das ancas muito superior quando comparados com o grupo não tratado, o que proporciona um maior rendimento, já que as partes referidas são as mais nobres da carcaça.

Quadro 4 - Resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

como promotores de crescimento em ovinos

Fármaco G.M.P.D. Músculo Gordura Bibliografia

L-644,969 116 111 72 (Koohmaraie et al., 1991) L-644,969 109 105 92 (Koohmaraie et al., 1996) L-644,969 108 106 71 (Koohmaraie e Shackelford, 1991) L-644,969 134 104 72 (Kretchmar et al., 1990) Cimaterol 129 139 78 (Kim et al., 1987) Cimaterol 163 111 91 (Rikhardsson et al., 1991) Cimaterol 125 127 78 (Warris et al., 1989) Clembuterol 124 123 63 (Baker et al., 1984) Clembuterol 107 141 52 (Bohorov et al., 1987) Clembuterol 101 123 67 (Sordo e Berzal, 1990) Clembuterol 121 134 90 (Warris et al., 1989)

Baker et al. (1984) observaram que o conteúdo

em água da carcaça dos animais tratados com clembu-

terol aparecia aumentado, embora o rácio humidade/

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proteína se mantivesse constante, indicando, portanto, que o aumento de ambos se encontra associado. Os mesmos autores verificaram também que os cordeiros mais pesados responderam melhor que os mais leves ao tratamento o que parece induzir uma eficácia acrescida do clembuterol na fase final da engorda dos animais.

Os efeitos de “repartição” dos agonistas adrenérgi- cos ß

2

em bovinos podem ser observados no quadro 5.

O crescimento muscular varia entre um mínimo de 5%

e um máximo de 18% com um valor médio da ordem dos 14%, enquanto a redução da gordura se cifra numa média de 30% com 20% e 42% como as menor e maior percentagens alcançadas para este parâmetro.

Quadro 5 - Resultados de agonistas adrenérgicos ß

2

como promotores de crescimento em bovinos

Fármaco G.M.P.D. Músculo Gordura Bibliografia Cimaterol 118 115 67 (Quirke et al., 1988) Cimaterol 106 117 65 (Williams, 1987) Clembuterol 11 6118 60 (Miller et al., 1988) Clembuterol 12 4105 58 (Parat et al., 1990) Clembuterol 92 113 80 (Ricks et al., 1984) Clembuterol 98 111 77 (Sordo et al., 1990) Clembuterol 100 113 80 (Williams, 1987) Clembuterol 107 117 74 (Williams, 1987)

O clembuterol, num estudo onde foi administrado na dose diária de 10 mg por animal durante 98 dias, mostrou que, apesar de um G.M.P.D. negativo em comparação com o controlo, mantinha as suas propriedades de diminuir a gordura e aumentar a musculatura, com o conteúdo em água da carcaça a apresentar-se também aumentado em cerca de 5%

(Ricks et al., 1984).

Num estudo com cimaterol em bovinos provou-se que o tratamento era eficaz durante, pelo menos 21 dias, embora o período ideal de utilização para obtenção dos efeitos anabolizantes atinja os melhores resultados nos primeiros 14 dias de administração (Byrem et al., 1998).

Em geral, podemos então afirmar que os agonistas adrenérgicos ß

2

não parecem perder a sua actividade metabólica no tubo digestivo, quer de ruminantes quer de monogástricos (Williams, 1989), sendo adminis- trados por via oral, misturados nos alimentos com- postos ou na água de bebida, por forma a atingir a sua acção como promotores do crescimento animal, aumentando a deposição da proteína ao mesmo tempo que se observa uma diminuição na acumulação de gordura ou seja, como “agentes de repartição”.

O tipo de tratamento (dose, sexo, duração, idade) é mais importante no rendimento final dos animais do que propriamente nos “efeitos de repartição” dos agonistas adrenérgicos ß

2

, enquanto a eficácia dos dife- rentes fármacos apresenta algumas variações, embora uma dose entre 2 e 4 ppm na ração pareça ser a indicada para ruminantes, enquanto para aves oscile entre 0,25 e 0,50 ppm (Moloney e Allen, 1992). No entanto, a ractopamina, numa dose de 20 ppm, estará

especialmente indicada no caso de suínos (Gu et al., 1991a; Mitchell et al., 1991; Stites et al., 1991).

As doses referidas são, no mínimo, 10 vezes supe- riores às utilizadas para fins terapêuticos nos mesmos animais, conforme referem Boenish e Quirke (1992) e como se pode comprovar com o clembuterol, único agonista adrenérgico ß

2

autorizado em medicina vete- rinária. A administração para fins terapêuticos de medicamentos de uso veterinário (MUV) autorizados que contenham agonistas adrenérgicos ß

2

é permitida em bovinos, equinos e animais de companhia como antitússico, broncodilatador ou tocolítico, neste caso só para vacas parturientes, desde que a sua utilização se faça de acordo com as especificações do fabricante (Directiva 96/22/CE; Lopes, 1999/2000; Miller et al., 1988; Ricks et al., 1984).

As fêmeas respondem melhor ao tratamento com agonistas adrenérgicos ß

2

, sobretudo em ratos (Correia et al., 1992), frangos (Muramatsu, 1991; Williams, 1987) e suínos (Cole et al., 1987), provavelmente devido à maior capacidade de mobilizar os lípidos que possuem, em quantidade superior à dos machos, e cuja diminuição é principalmente evidente no tecido adiposo subcutâneo e negligenciável no tecido adiposo intramuscular (Ferrando e Vanbelle, 1989).

A duração do tratamento afecta a resposta do mesmo, sendo notório que deve ser levado a cabo no período antes do abate e em animais que já tenham atingido a maturidade, ou seja, quando a capacidade de retenção das proteínas começa a ser mais fraca, mais eficazes se tornam os agonistas adrenérgicos ß

2

e melhor é, portanto, o resultado obtido (Moloney e Allen, 1992;

Moloney e Beermann, 1996; Williams, 1989). O ana- bolismo proteico, no entanto, ocorre principalmente ao nível do músculo esquelético, enquanto ao nível dos outros músculos, vísceras, por exemplo, há mesmo uma redução da proteína. Porém, e atendendo a que é proibido o tratamento zootécnico com este tipo de fármacos, a sua utilização como MUV, em animais destinados à produção de alimentos para consumo humano, está condicionada a algumas restrições, como sejam a sua não utilização em animais em produção de leite para uso humano e ao respeito pelo intervalo de segurança no caso em que a carne e vísceras se destinam à alimentação humana (Directiva 96/22/CE;

Lopes, 1999/2000).

Do ponto de vista da hipertrofia muscular, e como se observa pela análise dos quadros 1 a 5, a ordem de eficácia é superior nos bovinos e ovinos, seguindo-se, por ordem decrescente, os suínos e as aves (Mersmann, 1998; Moloney e Allen, 1992; Ribeiro, 1995; Williams, 1989).

Qualidade da carne

Independentemente dos hábitos das diferentes popu-

lações, verifica-se que dois factores são importantes

quando se trata do consumo de carne, tenrura e paladar,

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englobando este os conceitos de suculência, sabor e odor. Associado a estes factores, um outro se torna imprescindível: o aspecto aquando da sua aquisição, onde a cor e a gordura visível influenciam, muitas vezes, a decisão de qual carne comprar. Para além destes factores relativos à “carne verde”, importa também equacionar a qualidade da carne transformada industrialmente pelo que todos estes factores serão objecto de abordagem neste ponto, por forma a verifi- car a influência dos agonistas adrenérgicos ß

2

sobre aqueles parâmetros.

Porém, hoje em dia, é cada vez mais frequente o consumidor, para além dos factores referidos, preocu- par-se preferencialmente com os possíveis efeitos que essa carne possa trazer à sua saúde. Nesse sentido, e dada a importância do assunto, este será desenvolvido mais à frente no ítem segurança/toxicidade.

Aspecto

As carnes tratadas com agonistas adrenérgicos ß

2

apresentam-se com uma diminuição da gordura de cobertura e mais escuras do que as não tratadas, sendo possível atribuir esses factos à acção dos fármacos em estudo. Atendendo a que já foi referido a acção sobre a gordura, apenas se explica o efeito dos agonistas adrenérgicos ß

2

sobre a cor da carne.

A estimulação ante-mortem da glicogenólise, pro- movida pelos agonistas adrenérgicos ß

2

leva à redução da concentração do glicogénio muscular, limitando a normal acidificação post-mortem (Ferreira e Bastos, 1994) em cerca de 0,3-0,4 unidades de pH (Warris et al., 1989; Williams, 1987) devido às menores concentrações de ácido láctico muscular (Fernandes, 1995) e constitui a explicação mais frequentemente apontada como responsável por esse escurecimento, apesar da menor concentração do pigmento heme (Fer- reira e Bastos, 1994; Moloney e Allen, 1992; Warris et al., 1989 e 1990) ou de uma menor quantidade de mioglobina oxigenada, como preferem chamar-lhe Sordo e Berzal (1990).

No entanto, Berge et al. (1990), num estudo com clembuterol em bovinos, referem que o fármaco não exerce qualquer efeito sobre a cor da carne, enquanto Kim et al. (1987) afirmam mesmo que o cimaterol produz carne de ovino mais clara quando comparada com a do grupo de controlo.

O aspecto DFD (dark, firm and dry) característico da carne de animais tratados com agonistas adrenérgicos ß

2

e descrito, por exemplo, por Warris et al. (1990) não parece ser assim tão característico, tanto mais que, para além do relatado no parágrafo precedente, não podemos esquecer os dados referidos anteriormente onde se mostrou que havia um incremento da quan- tidade de água das carcaças dos animais tratados, associado ao aumento da proteína. Aliás, o mesmo grupo, num outro estudo (Warris et al., 1989), refere que a capacidade de retenção de água da carne está aumentada sendo, inclusivé, reduzida a perda por

“gotejamento” durante o armazenamento.

Estas características da carne, apesar de tudo apete- cíveis à vista, não são impeditivas de uma mais rápida deterioração da mesma, principalmente se tivermos em consideração que o pH se encontra mais elevado, o que favorece a contaminação microbiana com as resultantes consequências prejudiciais em termos de higiene alimentar (Fernandes, 1995; Ferrando e Van- belle, 1989; Ribeiro, 1995).

Tenrura

Os agonistas adrenérgicos ß

2

levam à obtenção de uma carne mais dura conforme é demonstrado por vários estudos em frangos (Gwartney et al., 1991 e 1992), suínos (Jones et al., 1985; Walker et al., 1989; Warris et al., 1991), ovinos (Kim et al., 1987;

Koohmaraie et al., 1996; Kretchmar et al., 1990) e bovinos (Berge et al.,1991 e 1993; Williams, 1987).

Entre as propostas para explicar as acções dos agonis- tas adrenérgicos ß

2

na tenrura da carne incluem-se os efeitos da rápida refrigeração, “cold shortening”, (Fernandes, 1995; Ferrando e Vanbelle, 1989; Ribeiro, 1995; Sordo e Berzal, 1990; Williams, 1987), o aumento da produção do tecido conjuntivo e das fibras de tipo II nos músculos (Moloney e Allen, 1992;

Williams, 1989) e a redução da proteólise post-mortem (Berge et al., 1993; Correia, 1995; Gwartney et al., 1992; Koohmaraie et al., 1996; Kretchmar et al., 1990), a que se acrescentam a dependência directa da dose, sendo que quanto maior for mais dura encontra- remos a carne que resultar desse animal (Moloney e Beermann, 1996; Walker et al., 1989).

O chamado efeito “cold shortening” fica a dever-se à redução da gordura da carcaça que leva a um arrefecimento mais rápido desta durante a maturação com um encurtamento das fibras musculares e o consequente aumento da dureza da carne (Sordo e Berzal, 1990; Williams, 1987).

A existência de uma carne mais dura não será alheia

a uma acção mais efectiva dos agonistas adrenérgicos

ß

2

sobre as fibras de contracção rápida (tipo II),

especialmente as glicolíticas, (Williams, 1987 e 1989)

o que, segundo Warris et al. (1990) é traduzido na

necessidade de uma força de corte mais elevada do

que no grupo controlo, em carne cozinhada de suíno

tratado com salbutamol. Aliás, um aumento da força

para cortar a carne cozinhada é um efeito consistente

atribuído ao tratamento com agonistas adrenérgicos ß

2

(Moloney e Beermann, 1996). Gwartney et al. (1991)

estudaram a força de corte da carne do peito de frango

tratado com cimaterol e demonstraram claramente que

era superior à dos animais controlo, enquanto Warris et

al. (1991) compararam os resultados de um painel de

provadores com a avaliação mecânica da força de corte

da carne de suíno alimentado com dieta suplementada

com salbutamol. Este último estudo demonstrou que,

embora a avaliação mecânica da carne mostrasse que

era necessária uma força superior para o lote com

(6)

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salbutamol, tal passou praticamente despercebido ao painel de provadores. O facto terá ficado a dever-se a uma maior suculência aparente da carne tratada referida pelos provadores que consideraram a mesma média de aceitação, 4,87, para ambas as carnes numa escala de 1, detestar, a 8, extremamente gostosa.

No entanto, a diminuição da tenrura da carne que acompanha o tratamento com agonistas adrenérgicos ß

2

não resulta tanto das modificações da estrutura do tecido conjuntivo muscular, mas mais como conse- quência dos efeitos da diminuição lipídica do músculo e das alterações das miofibrilhas musculares, como se pode constatar durante os processos de maturação da carne, particularmente os que se encontram relaciona- dos com a proteólise post-mortem (Berge et al., 1993;

Jiang, 1998; Kretchmar et al., 1990). Esta é devida essencialmente a dois tipos de enzimas proteolíticos:

as proteases dos lisossomas, catepsinas, activas a valo- res de pH baixos, e as proteases cálcio-dependentes que actuam a valores de pH próximos da neutralidade, calpaínas I, activada por micromoles de cálcio, e II, activada por milimoles de cálcio (Fernandes, 1995). É sobre estas últimas que, neste caso, recaem principal- mente as atenções, com todo o processo a ser associado ao sistema calpaína/calpastatina, verificando-se que a actividade da calpastatina, enzima cálcio-dependente inibidor da capacidade proteolítica, permanece ele- vada durante a armazenagem post-mortem produ- zindo, assim, uma carne mais dura (Correia, 1995;

Koohmaraie et al., 1996).

Koohmaraie e Shackelford (1991), num estudo com cordeiros e utilizando o agonista adrenérgico ß

2

L-644,969, demonstraram o que se descreveu no último parágrafo ao administrarem cloreto de cálcio, por via intravenosa, imediatamente após o abate dos animais, com os resultados a serem expressos num aumento da tenrura da carne devido à promoção/

facilitação do efeito das proteases cálcio-dependentes.

Um outro processo de actuar sobre este efeito negativo consiste na introdução de um período de retirada, verificando-se que quanto maior ele for mais tenra será a carne (Moloney e Beermann, 1996).

Contudo, intervalos de segurança superiores a 7 dias eliminaram as vantagens acrescidas obtidas na compo- sição da carcaça de frangos com cimaterol (Gwartney et al., 1991), enquanto um ciclo de 14 dias mostrou limitar substancialmente o endurecimento da carne sem comprometer significativamente os efeitos anabo- lizantes do clembuterol em bovinos (Berge et al., 1993; Parat et al., 1990). O decréscimo da tenrura da carne não é afectado, porém, por todas as espécies da mesma forma, sendo importante verificar que ele é menos evidente na carne de suíno do que na dos ruminantes ou de frangos (Moloney e Allen, 1992).

Paladar

A diminuição da deposição da gordura em animais tratados com agonistas adrenérgicos ß

2

leva a uma

diminuição da sapidez da carne, sobretudo de bovino (Correia, 1995). Os ácidos gordos saturados são os mais afectados, aumentando a relação insaturados/

saturados, com a ácido linoleico a ser particularmente importante na composição da carne resultante do tratamento com agonistas adrenérgicos ß

2

(Williams, 1989; Fernandes, 1995). A relação de ácidos gordos saturados/ácidos gordos insaturados passará segundo Carraud (1989) de 1/1,2 para 1/2,3 com o tratamento com agonistas adrenérgicos ß

2

.

Porém, Engeseth et al. (1992) demonstraram que a ractopamina provocava, principalmente, esse efeito ao nível do tecido adiposo, já que ao nível muscular não encontraram alterações significativas nesse rácio, mesmo quando a dieta foi suplementada com ácidos gordos. Ferrando e Vanbelle (1989), ainda em relação à carne de suíno, afirmam que esta apresenta um défice de ácidos gordos essenciais ao nível dos principais músculos, tornando os hipotéticos benefícios para o consumidor como provavelmente ineficazes.

Se a redução dos ácidos gordos saturados constitui um aspecto desejável, tendo em vista os conceitos médicos actuais que aconselham a diminuição da ingestão das gorduras e, especialmente, da gordura saturada, já o decréscimo da gordura intramuscular, embora pouco provável em bovinos (Sordo e Berzal, 1990), pode conduzir a uma menor qualidade da carne, especialmente ao nível do paladar, com uma suculência diminuída, após o respectivo processamento culinário (Moloney e Beermann, 1996).

Por outro lado, não existem por ora dados sobre a digestibilidade, pelos seres humanos, das proteínas da carne dos animais tratados com agonistas adrenérgicos ß

2

. Mas se estes diminuem a proteólise post-mortem nas carnes tornando-as mais duras é possível que a sua digestibilidade e, consequentemente, o seu valor nutritivo também esteja diminuído (Correia, 1995).

Também a quantidade de água mais elevada em carcaças produzidas com o auxílio de agonistas adre- nérgicos ß

2

, reflecte-se, como é óbvio, na culinária e, em definitivo, no prato, com as desvantagens não só para o sabor, mas também para a qualidade em geral, onde o bolso do consumidor sai afectado com o naco de carne cozinhado a libertar a água que possui, ficando o seu tamanho final mais reduzido (Fernandes, 1995; Ferrando e Vanbelle, 1989; Warris et al., 1989).

Transformação industrial

Os lípidos da carcaça, depositados em menores quantidades e com um rácio mais favorável aos insa- turados, como já foi referido, se podem transformar a carne num alimento mais interessante do ponto de vista dietético, convertem-no, de certeza, num produto menos vantajoso durante os processos de armazenagem, devido à maior oxidação que essa composição facilita (Fernandes, 1995; Ferrando e Vanbelle, 1989).

No entanto, Stites et al. (1991) num estudo destinado

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a avaliar a ractopamina como promotor de crescimento em suínos bem como os seus efeitos no processamento industrial da carne proveniente de porcos tratados, particularmente na obtenção de presunto e “bacon”, demonstraram que, apesar da diminuição média da espessura da pele de porco, coirato, não havia qual- quer problema durante o tratamento industrial para a obtenção de “bacon”. Também Crome et al. (1996) chegaram à conclusão que os presuntos de porcos tratados com ractopamina se tornam mais desejáveis uma vez que apresentam maior quantidade de carne magra, menos osso e menor quantidade de gordura subcutânea, quando comparados com o grupo de controlo. Logo, e neste caso, os benefícios de mais e melhor pernil e lombo em porcos tratados traduzem-se, pois, em mais e melhores benefícios económicos sem alteração do processamento industrial nem da qualidade dos produtos em causa, presunto e “bacon”.

Segurança/Toxicidade

A avaliação da segurança/toxicidade dos fármacos utilizados em zootecnia situa-se, principalmente, a três níveis diferentes: no animal, no meio ambiente e no Homem (Ramos, 1990).

No animal

Nos aspectos relacionados com a segurança dos agonistas adrenérgicos ß

2

em relação aos animais a quem são administrados, verifica-se que são os efeitos secundários aqueles que se revestem de maior impor- tância. O efeito que mais se evidencia na terapêutica prolongada é a tolerância, ou seja, por exemplo, redução da relação dose/efeito em indivíduos pré- expostos. Ora, apesar da tolerância estar habitualmente ligada a uma diminuição da toxicidade, já que se necessita de maior dose para desencadear os mesmos efeitos adversos, uma posologia aumentada, como é o caso, conduz ao aparecimento de efeitos tóxicos, uma vez que os parâmetros cinéticos são característicos da molécula e não dependentes da dose. Outro fenómeno que afecta os efeitos sobre os animais tem a ver com a especificidade dos receptores que, sendo elevada, não é, no entanto, total. Doses muito elevadas de agonistas adrenérgicos ß

2

produzem estimulação dos receptores ß

1

, tratando-se aqui de um efeito secundário clara- mente de teor tóxico (Fontes, 1995).

Portanto, no animal, os agonistas adrenérgicos ß

2

podem originar desde efeitos profiláticos a tóxicos, passando pelos chamados “efeitos de repartição”, consoante a dose administrada, o que nos leva a concluir que o respeito pelas normas de “Boas Práticas Veterinárias” (G.V.P.) e “Boas Práticas Agrícolas”

(G.A.P.) se reveste de vital importância para a saúde dos animais e, mesmo, para a do Homem e para o próprio meio ambiente (Ramos, 1990; Ramos e Silveira, 1997).

No meio ambiente

Atendendo a que não se espera que os agonistas adrenérgicos ß

2

tenham qualquer acção ao nível da actividade antimicrobiana que possa exercer efeito quer na flora intestinal, quer nos microorganismos uti- lizados no processamento industrial ou, quer mesmo, ao nível dos microorganismos do meio ambiente, pode-se dizer que os mesmos não apresentam proble- mas de ecotoxicidade (Boenisch e Quirke, 1992).

É com agrado que registamos que, apesar dos agonistas adrenérgicos ß

2

serem eliminados sobretudo pela urina e pelas fezes, não lhes são atribuíveis quaisquer efeitos nefastos sobre as qualidades do solo ou da água.

No homem

A toxicidade dos agonistas adrenérgicos ß

2

no homem pode manifestar-se em dois momentos distin- tos que se podem definir ao nível da saúde ocupacio- nal, enquanto manipulador dos fármacos referidos, e ao nível da sua ingestão, enquanto consumidor de alimentos (Ramos e Silveira, 1997).

Manipulador

Os agonistas adrenérgicos ß

2

actuam por via inala- tória o que transforma o seu manuseamento numa actividade perigosa para os manipuladores de pré- misturas e de alimentos compostos para animais onde se incorporem esses fármacos (Ribeiro, 1995). Nesse sentido, atrevemo-nos a desaconselhar essa profissão a pessoas que sofram doenças relacionadas com o sis- tema cárdio-respiratório como, por exemplo, a asmá- ticos.

Os problemas dermatológicos e, sobretudo, pulmo- nares, surgirão mais cedo ou mais tarde nesta profissão, desde que as normas de segurança e higiene no ambiente de trabalho, como utilização de vestuário apropriado, luvas e máscara, não sejam respeitadas (Ramos e Silveira, 1997).

Consumidor

A proliferação do uso ilegal de medicamentos de uso veterinário, em geral, e dos agonistas adrenérgicos ß

2

, em particular, levanta novas preocupações com a sua segurança/toxicidade, particularmente as que dizem respeito ao consumidor.

O impacto da disponibilidade de carne magra sobre

a saúde dos consumidores pode eventualmente tradu-

zir-se por uma redução dos casos clínicos agudos

de doenças cardiovasculares e outras doenças poten-

cialmente relacionadas com a gordura da dieta. Porém,

as elevadas concentrações de ácidos gordos livres

já referidas podem, só por si, ser perigosas, já que

possibilitam o desencadear de alterações ao nível das

membranas celulares, podendo alterar o endotélio dos

vasos e favorecer o desenvolvimento de situações

de arteriosclerose ou, mesmo, permitir a agregação

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plaquetária com subsequente formação de um trombo, um enfarte e, até, a morte (Correia, 1995).

Ora, tudo isto tanto pode acontecer ao nível dos animais tratados com agonistas adrenérgicos ß

2

como ao nível do consumidor dos produtos alimentares pro- venientes desses animais, onde os principais perigos, para além das hipóteses referidas anteriormente, se ficam a dever à ocorrência dos resíduos dos fármacos nos alimentos, sobejamente comprovada (Brambilla et al., 1997; Cruz, 1998; Garay et al., 1997; Maistro et al., 1995; Martinez-Navarro, 1990; Pulce et al., 1991;

Ramos et al., 2001a, b).

A avaliação dos riscos que corremos quando ingeri- mos alimentos provenientes de animais tratados com agonistas adrenérgicos ß

2

depende da qualidade e da quantidade de resíduos neles presentes no momento da ingestão. Qualidade e quantidade essas que dependem (Ferreira e Bastos, 1994): a) do tempo que mediou entre a última administração do fármaco ao animal e o abate ou aproveitamento alimentar, leite, por exemplo; b) do efeito pernicioso directo da molécula do agonista adrenérgico ß

2

como tal; c) da capacidade de biotransformação do fármaco pelo animal em meta- bolitos porventura mais tóxicos do que a droga-mãe;

d) da capacidade do fármaco e/ou dos seus metabolitos reagirem ou não irreversivelmente com as macromo- léculas tecidulares, formando resíduos ligados; e) das alterações que possam ter ocorrido durante o processamento culinário e o armazenamento a que a carne tiver sido submetida.

Acresce, ainda, a todas estas situações, o tempo de exposição do consumidor ao mesmo resíduo (Hermus e van der Kreek, 1987), uma vez que a ingestão regular de pequenas quantidades da mesma substância pode conduzir a manifestações tóxicas a longo prazo, por exemplo, de tipo canceroso (Rico, 1986).

No entanto, as situações de toxicidade identificadas como tendo origem na ingestão de alimentos contendo resíduos de agonistas adrenérgicos ß

2

foram todas de natureza aguda e todas devidas ao clembuterol. Os efeitos nefastos sobre o consumidor daí resultantes manifestaram-se particularmente devido a dois aspec- tos: sobredosagem no animal com período de retirada não respeitado e quando o consumidor estava sujeito a terapêutica com o mesmo grupo de fármacos (Fontes, 1995).

A primeira situação a ser relatada ocorreu em Espa- nha (Martinez-Navarro, 1990) e englobou quarenta e três famílias num total de 135 pessoas afectadas.

Noventa e sete por cento dos casos foram devidos à ingestão de fígado, cozinhado de diversas formas, e os sintomas apareceram 30 minutos a 6 horas após a ingestão e foram os seguintes: tremores facilmente perceptíveis, taquicardia, nervosismo, cefaleias e mial- gias que duraram entre 8 a 96 horas, não tendo nenhuma situação sido fatal nem deixado sequelas posteriores. A urina de dois dos pacientes revelou conter clembuterol nos teores de 2 e 4 µg/l e as cinco

amostras de fígado que conseguiram ser analisadas apresentaram concentrações de clembuterol entre 160 e 291 µg/kg.

Um outro caso foi também descrito em Espanha (Garay et al., 1997), afectando quinze pacientes prove- nientes de quatro famílias, após ingerirem fígado de vitela contaminado. Os sintomas apareceram logo trinta minutos a duas horas após a ingestão e consis- tiram principalmente em tremores, palpitações, ansie- dade, taquicardia, mal estar geral e cefaleias. O electro- cardiograma confirmou a taquicardia em todos os casos, as análises ao sangue dos pacientes demonstra- ram hipocaliémia em 2/3 dos casos e todas as dez amostras de urina colhidas apresentaram positividade ao clembuterol com valores a oscilarem entre 5 e os 90 ng/ml. A análise de uma amostra de fígado colhida no talho onde as famílias se tinham abastecido, revelou teores de clembuterol bastante elevados, 500 µg/kg.

Todos os pacientes evoluiram bem, apenas tendo havido necessidade de um internamento por um perí- odo de doze horas de uma doente com antecedentes de miocardiopatia dilatada e que sofreu uma crise hipertensiva. Os sintomas duraram entre 3 e 72 horas.

Vinte e duas pessoas de oito famílias diferentes de duas regiões de França foram afectadas por uma intoxicação com clembuterol após terem, igualmente, ingerido fígado de vitela (Pulce et al., 1991). Os sinto- mas comuns foram tremores e cefaleias, apresentando ainda a grande maioria dos afectados, palpitações, vertigens, mialgias e, mesmo, algumas cãibras muscu- lares. Os sinais clínicos descritos apareceram 1 a 3 horas após a ingestão do fígado contaminado e regrediram passados 1 a 3 dias, a maioria dos casos sem qualquer tipo de terapêutica e sem deixar sequelas.

Duas amostras do fígado idêntico ao que havia sido ingerido foram analisadas por GC-MS e revelaram possuir teores de clembuterol de 375 e de 500 µg/kg.

Em Itália, três famílias (Maistro et al., 1995) e 62 pessoas (Brambilla et al., 1997) sofreram os efeitos do clembuterol após comerem carne de vaca. Dez minutos a três horas depois das refeições apareceram os sintomas de tremores, palpitações/taquicardia, ner- vosismo, associados a distúrbios gastrointestinais, cefa- leias, mialgias e, em alguns casos isolados, fraqueza e uma certa confusão (Brambilla et al., 1997; Maistro et al., 1995). No entanto, uma das pessoas de uma família que estava a tomar 50 mg diários de atenolol, um bloqueador dos receptores ß, não apresentou qual- quer sintomatologia, o que prova que os medicamentos utilizados como ß-bloqueantes podem ser usados no tratamento sintomático das intoxicações por clembute- rol, caso seja necessário (Maistro et al., 1995). Numa amostra de carne analisada foram encontrados 500 µg/kg de clembuterol (Maistro et al., 1995), enquanto noutra se encontraram concentrações médias da ordem dos 4500 µg/kg, verdadeiramente absurdas (Brambilla et al., 1997).

No nosso País já foram descritos três casos, a saber:

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• Em Ourém foram afectadas dez pessoas de duas famílias diferentes com idades compreendidas entre os 5 e os 60 anos, tendo-se verificado que a sintoma- tologia começou a manifestar-se 7 a 8 horas após a ingestão de carne de borrego. A determinação de agonistas adrenérgicos ß

2

em três amostras de carne idênticas às que haviam sido ingeridas pelas famílias demonstrou a presença de clembuterol em todas elas, sendo que duas apresentavam quantidades relativa- mente elevadas, 343 e 275 mg/kg, enquanto a terceira continha apenas 9,7 mg/kg (Cruz, 1998).

• Em Aveiro, numa amostra de fígado, já confeccio- nado, proveniente do frigorífico da família intoxicada foi determinada uma concentração de clembuterol verdadeiramente preocupante, 1171 mg/kg, enquanto uma amostra de músculo colhida no talho abastecedor continha 116 mg/kg (Ramos et al., 2001b)

• Em Coimbra, dois pacientes, pai e filha, de 58 e 28 anos de idade, deram entrada nos serviços de urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra com tremores grosseiros das extremidades, taquicar- dia, ansiedade, mal estar geral, cefaleias, náuseas, palpitações e tonturas, 2 horas após terem ingerido fígado de vitela frito. Os antecedentes familiares e pessoais não acrescentaram nada de relevante para o esclarecimento clínico da situação, apenas se tendo registado, nos exames complementares de diagnóstico, uma hipocaliémia como elemento significativo em ambos pacientes. A administração de 10 mg de diaze- pam I.M. na urgência e a prescrição de cloreto de potássio 600 mg i.d., bem como de propanolol 40 mg 3 i.d., ambos por via oral, constituiu a terapêutica eleita, a que se seguiu a alta hospitalar com conse- quente acompanhamento na consulta externa. Dois dias depois, os pacientes voltaram aos serviços de urgência com o mesmo quadro clínico, excepto a hipocaliémia, tendo sido verificado que não tinha ocorrido a toma de propanolol, conforme tinha sido prescrito. Administrado o propanolol de acordo com a prescrição inicial, a situação clínica ficou totalmente resolvida, e sem sequelas, ao fim de cinco dias. Uma amostra de fígado remanescente analisada revelou a concentração de 1420 mg/kg de clembuterol (Ramos et al., 2001a)

O limite máximo de resíduos (LMR) de clembuterol permitida num alimento é determinado a partir da dose do medicamento que não é capaz de provocar qualquer efeito espasmolítico brônquico, “NOEL – nível sem efeitos observáveis”, ou seja, 42 ng/kg/dia (Kuiper e Groot, 1996). A dose diária de ingestão aceitável (DDA) é calculada através da divisão da NOEL por um factor de segurança, neste caso 10, o que dá uma quantidade de 4,2 ng de clembuterol/kg/dia (DDA = NOEL/10 = 4,2 ng), que poderá ser ingerida sem qualquer problema de toxicidade. Com este dado, e partindo do princípio que uma pessoa pesa 60 kg e come, em média, 500 gramas de carne por dia, repartidos entre 300 g de músculo, 100 g de fígado,

50 g de gordura e 50 g de rim, encontramos um LMR de 0,5 µg/kg de carne, muito distante, portanto, das quantidades que deram origem às intoxicações relatadas (Boenisch e Quirke, 1992).

Meyer e Rinke (1991) fizeram o estudo do período de retirada do clembuterol em bovinos para obter uma concentração de resíduo da ordem de 0,8 µg/kg na carne, por forma a evitar os efeitos secundários aquando da ingestão desse alimento proveniente de animal tratado com o clembuterol. Duas semanas foi o tempo encontrado pelos autores, embora, mesmo assim, desaconselhem o consumo de fígado e de gordura, enquanto recomendam a análise de resíduos no olho do animal para verificar a presença/ausência de resíduos de clembuterol uma vez que neste tecido ele se acumula durante mais tempo e em maior quantidade (Ramos et al., 2001c).

Conclusões

A revisão sobre agonistas adrenérgicos ß

2

e produção animal que, agora, se dá por concluída, abordou diver- sos aspectos, entre os quais se incluem os receptores adrenérgicos, o mecanismo de acção dos fármacos referidos, a sua relação estrutura-actividade, a sua farmacocinética, os seus efeitos zootécnicos e as suas implicações sobre a qualidade da carne. A questão principal que levou a este conjunto de três artigos foi enunciada logo no primeiro da série: os problemas de Saúde Pública resultantes da utilização ilegal dos agonistas adrenérgicos ß

2

.

A BSE, “doença das vacas loucas”, colocou a questão da segurança alimentar na ordem do dia, com os consumidores a exigirem, cada vez mais, que a sua dieta não contenha os chamados “OCNIs” (Objectos Comestíveis Não Identificáveis).

A quantidade de fármacos utilizados como promo- tores do crescimento animal tem vindo a crescer exponencialmente, sobretudo devido às novas formas de pecuária intensiva, com o resultado a ser traduzido, é certo, pelo aumento das disponibilidades alimentares, embora, nalguns casos, com a presença de resíduos desses fármacos nos alimentos, em quantidades não desprezíveis.

No caso da carne, o seu controlo de qualidade, mais do que avaliar o produto final como era prática corrente até há pouco tempo atrás, começa a estar, hoje em dia, organizado de forma diferente, compreendendo o rastreio completo da vida do animal, desde o seu nascimento até ao seu abate, onde a alimentação e o próprio habitat constituem factores primordiais a ter em conta quanto à excelência pretendida. O controlo completo e permanente em todas as fases do processo da produção, da quinta ao garfo do consumidor, torna-se, assim, imperioso.

Como se deixou escrito na revisão efectuada, os

principais efeitos tóxicos dos agonistas adrenérgicos

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ß

2

são reflexo de respostas farmacológicas exageradas devidas à administração de doses elevadas. Contudo, e considerando o significado potencial dos seus resíduos nos tecidos comestíveis derivados de animais produto- res de carne, deve existir uma rigorosa vigilância, especialmente tendo em atenção as populações-risco.

Esta população é constituída, principalmente, pelos que sofrem de cardiopatias isquémicas, hipertensão arterial e/ou que apresentam problemas hidro-electro- líticos (Garay et al., 1997). Também os que necessitam de tomar diuréticos e todos aqueles que se encontram sob tratamento com fármacos do mesmo grupo tera- pêutico, ou seja, cerca de 10% da população mundial que sofre de problemas asmáticos em maior ou menor grau (Fontes, 1995), devem merecer especial atenção.

Nesse sentido, e apesar do diagnóstico de intoxica- ção por agonistas adrenérgicos ß

2

, num paciente iso- lado, ser extremamente difícil, os autores atrevem-se a propor que essa hipótese seja seriamente encarada quando a sintomatologia descrita no capítulo anterior aparecer num grupo de pessoas que tenham ingerido fígado, dado ser este o tecido edível onde os citados fármacos se acumulam em maior quantidade e por mais tempo.

Os autores atrevem-se ainda, e como contributo para a melhoria da segurança alimentar, a sugerir que, em casos semelhantes, as autoridades sanitárias sejam logo alertadas, nomeadamente a nova Agência para a Qualidade e Segurança Alimentar, tendo em vista a sua imediata actuação. Salvo melhor opinião, o procedimento a adoptar deverá obedecer aos seguintes passos: após a recolha de urina e de sangue dos pacientes na unidade de saúde, bem como dos alimen- tos envolvidos na intoxicação que ainda permaneçam na casa das famílias afectadas ou no talho onde foram adquiridos, identificar o talho distribuidor da carne, o matadouro e a exploração pecuária, por forma a poder agir contra a eventual “rede de tráfico de droga para animais” por crime contra a Saúde Pública.

Os autores, com esta revisão, esperam ter contribu- ído para que os problemas de Saúde Pública, ocorridos em Portugal e que resultaram da utilização ilegal dos agonistas adrenérgicos ß

2

, possam vir a ser minorados, quer em quantidade, quer em qualidade.

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