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(1)

E ficácia provisória e

definitiva dos tratados internacionais

Ives Gandra da Silva Martins*

Neste breve artigo pretendo expor mi­

nha opinião sobre a eficácia dos tratados internacionais à luz do Direito Constitucio­

nal brasileiro (1).

Aspecto preambular é necessário que se examine, qual seja, a correta dicção do Texto Constitucional sobre a celebração de tratados.

Reza o art. 84, inciso VIII, da Lei Su­

prema que:

Art. 84 Compete privativamente ao

'Professor Emérito da Universidade Mackenzie, em cuja Faculdade de Direito foi Titular de Direito Econômico e de Direito Constitucional.

(1) Manoel Gonçalves Ferreira Filho ensina: "Dife­

rentemente, a Constituição de 1946 (art. 87, VII) apenas submetia à aprovação do Congresso Nacional os tratados e convenções internacionais. Ora, a expressão atos interna­

cionais abrange muito mais do que tratados e convenções.

É um gênero onde aparecem os tratados e as convenções inseridos como espécie.

Dessa forma, interpretado literalmente, decorre do pre­

ceito em tela que todo ato que importe criação de direitos e obrigações para o Brasil na órbita internacional deveria ser celebrado pelo Presidente da República e aprovado pelo Congresso Nacional para ser válido em face do direito inter­

no. Isto seria exato quer em relação aos atos unilaterais (reconhecimento, protesto, notificação, renúncia), quer em relação aos acordos internacionais (tratados, convenções).

Esta interpretação iria além da intenção do constituin­

te. Certamente quis este reagir contra a tendência univer­

sal da celebração pelo Executivo de acordos internacio­

nais, sem a forma de tratado e convenção, e assim fugindo ao controle do Legislativo. Com efeito, tais acordos esca­

pariam à necessidade de aprovação por parte do Legislativo, muito embora sejam relevantes e graves, não raro, as suas repercussões.

Tal interpretação, ademais, não pode prevalecer, em face do disposto no art. 49, I, desta Constituição (v. supra). Com efeito, a menção a referendo deve ser interpretada em conso­

20 - Revista do TRF - la Região - março/200l

Presidente da República:

(...)

VIII. celebrar tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a refe­

rendo do Congresso Nacional (2),

tendo-o comentado da forma seguin­

te:

Cabe ao Presidente da República a celebração de tratados, convenções e atos internacionais, sujeitos a refe­

rendo do Congresso Nacional.

O referendo exterioriza o princípio

nância com esse dispositivo constitucional, o qual somente exige referendo com relação a atos internacionais que 'acarre­

tam encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio naci­

onal'." (grifos meus) (Comentários à Constituição brasileira de 1988, v. 2, ed. Saraiva, 1992, pp. 156/57).

(2) A. A. Meira Mattos explica: "O tratado é uma das fontes principais do Direito internacional, conforme dis·

põe o Estatuto da Corte Internacional de Justiça (CIJ) das Nações Unidas (art. 38), ao lado dos costumes e dos princi­

pios gerais do Direito.

Para a citada Convenção de Viena, 'tratado significa um acordo internacional celebrado por escrito entre Estados e regido pelo Direito internacional, quer conste de um ins­

trumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação especifica' (art. 2°, I, 'a'). A Convenção de Havana sobre tratados, de 1928, já considerava ser a forma escrita condição essencial do trata­

do. Existe, contudo, doutrina que acata a validez do tratado não escrito ou oral.

Note-se, ainda, que a Convenção de Viena enfatiza o papel dos Estados na celebração dos tratados. Nada obsta, entretanto, que outros atores internacionais concluam tra­

tados e a própria Convenção o admita em seu art. 3°. Desta forma, tais acordos, até mesmo se celebrados em forma não escrita, terão seu valor; jurídico assegurado. E válída será a aplicação a eles de quaisquer regras enunciadas na pró­

pria Convenção, a despeito de estarem excluídos de seu âmbito" (grifos meus) (Enciclopédia Saraiva do Direito n.

74, Ed. Saraiva, pp. 431/32).

(2)

da legalidade pelo qual ninguém pode ser obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei.

É o que dispõe o art. 5°, inciso 11.

Sendo o Congresso Nacional o Poder que representa a totalidade do povo, pois a ele todas as correntes de pensa­

mento político têm acesso, à evidên­

cia, é o referendo que oferta validade ao tratado internacional, às conven­

ções ou atos, visto que a iniciativa pre­

sidencial apenas sinaliza a intenção do Governo, que poderá ou não obter a concordância do Poder Legislativo.

Até ser referendado, todavia, as normas de Direito Internacional pre­

valecem, mormente no que diz respei­

to àquelas de aplicação imediata.

Se apenas quando aprovados pelo Congresso entrassem em vigor os tra­

tados assinados, à evidência, a dicção do texto deveria ser 'sujeitos à apro­

vação do Congresso Nacional'.

Tenho para mim que a interpreta­

ção adequada é a da imediata vigên­

cia do ato internacional assinado, su­

jeito a confirmação futura, deixando de ter validade ex nunc apenas se não referendado.

..,0

ato de celebrar

é

privativo do Presidente, embora sujeito

a referendo do Congresso, que

o

convalidará ou não.

Entre sua assinatura e o referendo, todavia, em minha maneira

de interpretar

o

texto, tem eficácia provisória, mas real. "

Embora muitos divirjam desta in­

terpretação, parece-me a mais ade­

quada.

Faz, por exemplo, o § 2° do art. 5°, referência a tratados internacionais garantidores de direitos individuais e o Código Tributário Nacional refere­

se, em seu art. 98, à prevalência de tais tratados sobre o direito interno.

Ora, o tratado é tratado desde o mo­

mento de sua assinatura, razão pela qual a interpretação que lhe dá eficá­

cia provisória a partir de então pare­

ce-me a mais adequada e conforme ao espírito das relações internacionais.

Os mais importantes documentos legais internacionais são os tratados e as convenções, que geram um regi­

me jurídico específico, como, a título exemplificativo, serão os tratados con­

tra a dupla tributação de que o Brasil firmou mais de uma vintena. No mes­

mo nível, mas de espectro mais abran­

gente e menos específico, encontram­

se as Convenções, de que a Conven­

ção de Genebra sobre o cheque é exemplo. Por fim, os atos internacio­

nais são diplomas de relevância me­

nor, regulando aspectos variados do convívio internacional (3).

Sei, perfeitamente, que parte conside­

rável da doutrina não oferta maior valida­

de ao vocábulo "referendado", que, nos tex­

tos constitucionais anteriores, vinha na dicção latina ad referendum.

Volto, todavia, a insistir que o discur­

so constitucional não é "acidental" nem o constituinte - em homenagem que faço a seu conhecimento do vernáculo - um po­

bre manejador do idioma, que utiliza a mes­

ma palavra com significados diversos no mesmo artigo veiculador de comandos su­

periores.

(3) Comentários à Constituição do Brasil, 4° V., tomo lI, Ed. Saraíva, 1997, pp. 295/299.

Revista do TRF - la Região - março/200l - 21

(3)

"A deft,nitividade do

Com efeito, lê­

tratado, acordo ou

festação prévia e "refe­

se também, no inciso

XIX do referido dispo­

convenção internacional ao

rendo", posterior aos atos de que cuidam os sitivo, o seguinte:

que me parece,

é

obtida com

incisos XIX e XX.

XIX. declarar guerra no caso de agressão es­

trangeira, auto­

a edição

de

decreto legislativo do Congresso,

É, de resto, o sentido, também, que o art. 14 da Lei Supre­

rizado pelo Con­

gresso Nacional ou referendado por ele, quando

ocorrida no in­

tervalo das ses­

sões legislati­

precária e provisória, com sua assinatura. "

embora a eficácia obtenha-se,

de

forma ainda

ma oferta ao distin­

guir o "referendo" do

"plebiscito", estando assim veiculado:

Art. 14 A soberania popular será exercida vas, e, nas mes­

mas condições,

decretar, total ou parcialmente, a mo­

bilização nacional (grifos meus) (4), e o XX hospeda a dicção abaixo:

XX. celebrar a paz, autorizado ou com o referendo do Congresso Nacional (grifos meus).

Inequivocamente, o constituinte dá ao vocábulo "referendado" o sentido clássico de

"aprovação posterior", pois tanto no inciso XIX como no XX, ao utilizar-se do conceito de "referendo" ao lado de "autorização" res­

ta claro que "autorização" se refere a mani­

(4) Escrevi, ao criticá-lo: "Quem tem o poder de de­

clarar a guerra, tem aquele de celebrar a paz. Hoje é mais fácil celebrar a paz do que declarar a guerra, na medida em que as guerras não são mais declaradas.

É bem verdade que também a cessação de hostilida­

des sem declaração formal de acordo de paz é a hipótese mais freqüente, mas a cessação de hostilidade representa, de rigor, a celebração de acordo de paz, quando negociada.

Pode, pois, o Presidente da República celebrar a paz, devendo ser autorizado pelo Congresso ou ser, o seu ato, por este referendado.

Nas autorizações, o presidente submete antes o acor­

do de paz e somente após a autorização assina o tratado ou documento que a assegure. Na outra hipótese, assina, o Presidente, o acordo antes da autorização, submeten­

do o ato ao Congresso Nacional, que poderá referendá-lo ou não. Se referendada, a declaração presidencial tem validada sua assinatura, se não, o acordo perde toda a eficácia" (Comentários à Constituição do Brasil, 4° v., tomo 11, Ed. Saraiva, 1997, pp. 347/49).

(5) José Cretella Júnior assim esclarece: "Pontes de

pelo sufrágio univer­

sal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:

I. plebiscito;

11. referendo;

III. iniciativa popular (5).

Ocorre que o inciso VIII do art. 84 da Con9tituição Federal, refere-se exclusiva­

mente à expressão "sujeitos a referendo do Congresso Nacional", não ofertando, a meu ver, sentido diverso daquele exposto nos in­

cisos XIX e XX. Vale dizer, nos três casos, pode

Miranda (cf. os Fundamentos atuais do Direito Constituci­

onal, p. 363) acentua que 'como contrapeso aos males do parlamentarismo, e ao vício, comum ao regime parlamen­

tar e ao presidencial, das Câmaras divorciadas da opinião pública ou esquecidas dos interesses gerais, para os quais é notável a intuição popular, a intervenção do povo funci­

ona como as melhores esperanças. A democracia mista constitui um dos traços mais sedutores das Constituições novas'.

'Em alguns países, o povo não se satisfaz em escolher os seus representantes: quer ter a iniciativa das leis e o direito de recusá-las ou sancioná-las com o próprio voto. É

o processo do referendum' (cf. Aráujo Castro, A Constitui­

ção de 1937, Rio de Janeiro, Ed. Freitas Bastos, 1938, p. 45).

O referendum é medida 'a posteriori', sendo o instituto de Direito Constitucional, de Direito interno, pelo qual as

coletividades se pronunciam sobre decisão legislativa, des­

de que os pronunciamentos reúnam determinado número de assinaturas, fixado em lei. Desse modo associa-se o povo ao processo legislativo, complementando a tarefa do legis­

lador" (grifos meus) (Comentários à Constituição brasilei­

ra de 1988, v. 11, Ed. Forense Univr., 1989, p. 1.096).

(4)

o Presidente da República praticar atos com plena eficácia, embora seja esta provisória, que poderão ser ou não referendados pelo Congresso Nacional.

Que a eficácia dos atos é plena, é de se interpretar pela luz lançada na explici­

tação feita pelo constituinte no inciso XIX e no inciso XX, em que a declaração de guer­

ra a ser referendada pode implicar a mobi­

lização total ou parcial dos brasileiros an­

tes da manifestação do Congresso. Em ou­

tras palavras, se aprovado previamente ou referendado posteriormente, o ato de decla­

rar a guerra produz seus efeitos plenos até que seja examinado pelo Parlamento (6).

A meu ver, a mesma eficácia precária, mas real, ocorre na celebração dos tratados internacionais, convenções ou atos, na me­

dida em que o ato de celebrar é priva­

tivo do Presidente, embora sujeito a re­

ferendo do_Con­

gresso, que o conva­

lidará ou não. En­

tre sua assinatura e o referendo, toda­

via, em minha ma­

neira de interpre­

tar o texto, tem efi­

cácia provisória, mas real.

Tal exegese parece-me a única capaz de conciliar a tripla utilização, no mesmo dispositivo, do vocábulo "referendado", duas delas claramente sinalizando a "efi­

cácia precária" do ato e, no caso do inciso VIII, com implícita indicação da validade provisória, por força de idêntico vocábulo utilizado. A melhor homenagem que posso prestar ao constituinte é considerar que a mesma palavra tem o mesmo sentido, pois aplicada no mesmo artigo para definir com­

petências privativas do Presidente da Re­

pública (7).

Tal "eficácia precária", todavia, ganha sua definitividade quando expressamente aprovada, pelo Congresso Nacional, via de­

creto legislativo, acordo internacional ce­

lebrado pelo Presi­

dente da República.

"A tese da

'vigência sem eficácia'

Com efeito, reza o art. 49, inci­

dos tratados assinados

so I, da Lei Supre­

ma brasileira que:

e dos decretos legislativos

Art. 49. É da com­

publicados não só não se

petência exclusiva do Congresso Naci­

coaduna com a jurisprudência e

onal:

com a doutrina, como fere

I. resolver defini­

tivamente sobre tra­

elementar princípio ético... "

(6) Pinto Ferreira esclarece: "A competência para declarar a guerra ê da União (art. 21, 11), tratando-se de ato interestatal. A guerra é a luta armada entre Estados.

Ao Congresso Nacional compete autorizar o Presiden­

te da República a declarar a guerra no caso de agressão estrangeira. O consentimento deve ser prévio, sem nenhum referendo quanto a tal decisão. Pode entretanto ocorrer exceção quando a agressão estrangeira ocorrer no interva­

lo das sessões legislativas, quando deve ser referendada, e, nas mesmas condições, decretar, total ou parcialmente, a mobilização nacional" (grifos meus) (Comentários à Cons­

tituição brasileira, v., Ed. Saraiva, 1992, p. 586).

(7) Wolgran Junqueira Ferreira escreve: União compete celebrar tratados e convenções com os estados estrangeiros (art. 21 - I). Ao Congresso Nacional, compete resolver definitivamente sobre os tratados, acordos ou atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional; (art. 49 - I)", continuando ''A celebração do contrato, convenção ou ato internacio­

nal, consiste na assinatura material do acordo internacio­

nal. Será feita diretamente pelo Presidente da República ou por pessoa por ele credenciada" (grifos meus) (Comen­

tários à Constituição de 1988, v. 2, la ed., Ed. Julex Livros, 1989, pp. 660/61).

Revista do TRF - la Região - março/200l - 23

(5)

tados, acordos ou atos internacio­

nais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patri­

mônio nacional.

o

texto continua, a meu ver, sendo de clareza meridiana. O constituinte faz menção a ser da competência do Congresso Nacional:

resolver definitivamente

o que vale dizer, declara nitidamente ser de­

fmitivo o comprometimento internacional do País e a transformação da "eficácia pre­

cária e provisória" do acordado pelo presi­

dente em "eficácia defmitiva". O advérbio, inclusive, utilizado é "definitivamente", o que significa que, a partir do referendo do Congresso Nacional, ganha, a "eficácia" até então provisória, sua dejinitividade.(8)

Entender que, apesar de o constitu­

inte fazer menção à "definitividade" da aprovação, esta aprovação ainda não é de­

finitiva, dependendo de "promulgação pre­

sidencial" é, novamente, não homenage­

ar o domínio vernacular do constituinte e admitir que desconheceu o sentido se­

màntico dos termos, devendo-se "proviso­

riamente" ler onde está "definitivamen­

te", visto que a "definitividade" apenas se obteria não com a publicação de decreto legislativo, mas com a promulgação do de­

creto presidencial.

(8) Celso Ribeiro Bastos escreve: "Aliás, o tratado de­

pende sempre de aprovação do Congresso Nacional, o que é feito por um decreto legislativo. Na verdade a força legal do tratado no direito interno depende da força desse pró­

prio ato legislativo. É este que o entroniza na ordem jurídi­

ca interna e, enquanto componente dessa ordem, fzca sujei­

to a ser alterado por atos do mesmo nível hierárquico"

(grifos meus) (Comentáríos à Constituição do Brasil, 4° v., tomo I, 2" ed., Ed. Saraiva, 1999, p. 111).

(9) Nesta linha, leia-se Manoel Gonçalves Ferreira Filho: "Assim, em face do Direito pátrio, a vontade do Esta­

do brasileiro relativamente a atos internacionais, inclusi­

ve o tratado e as convenções, surge de um ato complexo Revista TRF - Região - março/200l

Tal forma de exegese jurídica, à evi­

dência, não honraria nem o intérprete, nem o constituinte, pois o legislador supremo teria sido substituído pelo exegeta na pro­

dução de uma nova dicção normativa, em que o adjetivo "definitivo" utilizado pelo constituinte ainda não seria "definitivo"

para o intérprete.

A "definitividade" do tratado, acordo ou convenção internacional ao que me pa­

rece, é obtida com a edição de decreto le­

gislativo do Congresso, embora a eficácia obtenha-se, de forma ainda precária e pro­

visória, com sua assinatura (9).

Se se viesse, todavia, a argumentar contra o Texto Constitucional, ou seja, que a eficácia definitiva não se obteria com o

"decreto legislativo", mas com a promulga­

ção do decreto presidencial, dois aspectos deveriam ser ressaltados de plano.

. O primeiro deles é que a promulgação presidencial consiste em mera formalidade reiterativa de seu comprometimento ante­

rior, quando da celebração do tratado. Vale dizer: uma segunda vez reafirma, S. Exa., o que se comprometeu quando o assinou.

Nitidamente, o Presidente da Repúbli­

ca só pode sancionar tratado que tenha as­

sinado e o Congresso apenas "resolver de-

onde se integram a vontade do Presidente da República, que os celebra, e a do Congresso Nacional que os ratifica.

A exigéncia de ratificação decorre da magna impor­

tância das matérias que são em geral reguladas nos atos internacionais. Nestes se dispõe quase sempre sobre as­

suntos que tocam de muito perto a existência e a indepen­

dência da nação. Por isso, convém que a Representação Nacional seja ouvida, dizendo a última palavra. E verda­

deiramente a ultima palavra, já que, após a manifestação do Congresso Nacional, não mais cabe qualquer interven­

ção do Executivo (grifos meus) (Comentários à Constitui­

ção brasileira de 1988, ob. cit., p. 21)" (grifos meus) (A Constituição na visão dos tribunais, v. 2, 1997, p. 533).

(6)

fmitivamente" aquilo que foi acordado com outras nações.

Em outras palavras, nem o Congresso Nacional pode alterar, sem a concordância de outras nações, o tratado, podendo, no máximo, rejeitá-lo, nem o Presidente, ao promulgá-lo por decreto, poderá promulgar algo diverso daquilo que assinou ou do que a publicação do decreto legislativo tornou definitivo (lO).

A promulgação, portanto, por "decre­

to presidencial", de tratado internacional ao qual já fora dado publicidade em "decre­

to legislativo" que conferiu, definitividade a sua eficácia, é mera formalidade que não gera eficácia a partir daquele momento, mas apenas reitera a eficácia provisória da época da assinatura e a eficácia definitiva da data da publicação de decreto legislati­

vo do Congresso (11).

o

segundo aspecto reside em que uma vez tendo sido publicado o decreto legisla­

tivo, a matéria acordada ganha definitivi­

dade no Direito interno e a eficácia defini­

tiva impede que a legislação ordinária in­

terna venha a modificá-lo, salvo denúncia do acordo assinado.

(10) José Torres Pereira Júnior ensina: "De todo o ex­

posto, concluimos: a) Em face dos textos constitucionais brasileiros, forçoso é reconhecer, como regra geral, que os tratados, qualquer que seja o rótulo em que se apresen­

tem, devem ser aprovados pelo Congresso Nacional, para o fim de obrigarem o Estado a seu cumprimento e de se incorporarem ao Direito interno. Essa a orientação da gran­

de maioria de nossos comentadores constitucionais e do decisório do STF' (grifos meus) (Enciclopédia Saraiva do Direito n. 74, Ed. Saraiva, 1977, p. 463).

(11) Não discutirei, no presente estudo, por me pa­

recer superada, à luz do que atrás argumentei, a tese que muitos dos autores do livro "Tributação no Mercosul" (Pesquisas Tributárias Nova Série 3, Ed.

Revista dos Tribunais/Centro de Extensão Universitá­

ria, 1997, coordenação minha) de que o decreto

Em outras palavras, não pode o Legis­

lativo ou o Presidente da República, por me­

dida provisória, após a publicação do decre­

to legislativo, alterá-lo sob a alegação de que entre a publicação do decreto legislativo e a futura promulgação do decreto presidencial poderá o País dispor de forma diversa daque­

la acordada internacionalmente.

Restaria ferida a ética legislativa e os compromissos internacionais assumidos anteriormente, se, por absurdo, se admitis­

se que a "solução defmitiva" de tratado pu­

blicado pelo decreto legislativo, pudesse ser alterada, entre sua publicação e a promul­

gação do decreto presidencial, por legislação diversa, que viria a perder eficácia, quando da promulgação do decreto presidencial!

No momento em que o Presidente assi­

nou o tratado e que o Congresso deu-lhe defi­

nitividade, não pode o Presidente ou o Con­

gresso dispor de forma diferente do que foi acordado internacionalmente, sob a alegação de que o Tratado apenas terá validade após a promulgação do decreto presidencial (12).

A tese da "vigência sem eficácia" dos tratados assinados e dos decretos legislati­

legislativo obriga o cumprimento do tratado internacio­

nal, internamente, sendo a promulgação mero ato infor­

mativo com seu depósito na entidade internacional ou entre os países assinantes para efeitos externos, pois, embora sob enfoque diverso, o resultado seria rigorosa­

mente igual, em termos de eficácia, à posição aqui ex­

posta. Aliás, Francisco Rezek parece admitir a tese dife­

rencial entre o Direito interno e externo, ao dizer: "Rati­

ficação é o ato unilateral com que o sujeito de Direito internacional, signatário de um tratado, exprime defini­

tivamente, no plano internacional, sua vontade de obri­

gar-se" (grifos meus) (Direito Internacional Público, 7a ed., Ed. Saraiva, 1998 p. 53).

(12) José Grandino Rodas ensina: "Os governos nor­

malmente concluem tratados somente com aqueles que parecem aptos a cumprir o prometido" (grifos meus) (Enci­

clopédia Saraiva do Direto n.74, ob. cit., p. 486).

Revista do TRF -r Região - março/200l - 25

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200J

vos publicados não só não se coaduna com a jurisprudência e com a doutrina, como fere elementar princípio ético dispor, no plano interno, de forma diversa do que foi acorda­

do, sob a alegação de que, embora tendo as­

sinado o Tratado, o Presidente ainda não as­

(13) Sérgio Feltrin Corrêa lembra que: "Observe-se que a ratificação de um acordo internacional pelo Presidente da República não possibilita que de tanto se conclua no sentido de automática introdução dessa norma internacio­

nal no Direito interno brasileiro. E tal se dá, essencialmen­

te, por competir ao Congresso Nacional a aprovação de tratados. Além disso, esse agir do Congresso Nacional se dá por meio de Decreto Legislativo, e como previsto no art.

59, VI, da CF" (grifos meus) (Código Tributário Nacional p.429).

(14) José Augusto Delgado, de forma gráfzca, esclarece:

"O sistema constitucional adotado para os Tratados está circunscrito ao esquema seguinte:

26 - Revista do TRF - la Região - março/2001

sinara O decreto promulgador!!! (13)

Afasto, quanto a este aspecto, essa vi­

são aética da questão, que, de resto, não é hospedada, nem pela doutrina, nem pela parca jurisprudência existente (14)

a) a celebração de Tratados, Convenções e Atos Inter­

nacionais é da competência privativa do Presidente da República, sujeitos, contudo, a referendo do Congresso Nacional;

b) é da competência exclusiva do Congresso Nacional resolver definitivamente sobre Tratados, Acordos ou Atos internacionais que acarretem encargos ou compromissos gravosos ao patrimônio nacional;

c) os Tratados devidamente assinados pelo Brasil de­

verão ser respeitados quanto aos direitos e garantias nele previstos" (grifos meus) ("Tributação no Mercosul" - Pes­

quisas Tributárias Nova Série-3, Co-ed. CEU/Revista dos Tribunais, 1997, p. 70).

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