A influência e o uso da mídia na guerra híbrida, o caso da Síria
ESCOLA DE COMANDO E ESTADO MAIOR DO EXÉRCITO ESCOLA MARECHAL CASTELLO BRANCO
TC Eng HELMUT AUGUSTO RAMÍREZ BRAUN, Exército do Chile
Rio de Janeiro
2019
TC Eng HELMUT AUGUSTO RAMÍREZ BRAUN, Exército do Chile
A influência e o uso da mídia na guerra híbrida, o caso da Síria
Trabalho de Dissertação apresentado à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército – Instituto Meira Mattos, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Ciências Militares com ênfase em Defesa Nacional.
Orientador: Prof. Dr. Francisco Carlos Teixeira da Silva
Rio de Janeiro
2019
B825i Braun, Helmut Augusto Ramírez
A influência e uso da mídia na guerra híbrida, o caso da Síria / Helmut Augusto Ramírez Braun. 一 2019.
178 f. : il. ; 30 cm.
Orientação: Prof. Dr. Francisco Carlos Teixeira da Silva.
Dissertação (Mestrado em Ciências Militares)
一Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Rio de Janeiro, 2019.
Bibliografia: f. 131- 143.
1. MÍDIA. 2. GUERRA HÍBRIDA. 3. SÍRIA 4. NARRATIVA. I.
TÍTULO.
CDD 363.3498095691
“[...] Nós não falamos para dizer alguma coisa, mas para obter certo efeito. A essência da propaganda é ganhar as pessoas para uma ideia de forma tão sincera, com tal vitalidade, que, no final, elas sucumbam a essa ideia completamente, de modo a nunca mais escaparem dela [...]”
(Joseph Goebbels)
AGRADECIMENTOS
A Deus por me acompanhar e me guiar durante toda a minha vida em cada um dos meus atos.
A minha esposa Carolina e aos meus filhos Camilo e Agustín pelo apoio incondicional dado, pela paciência e compreensão em todos os momentos, aspectos fundamentais para o sucesso deste trabalho.
Ao Exército do Chile por me dar a possibilidade de aumentar meu patrimônio cultural e profissional durante minha permanência no Brasil por dois anos.
Ao Exército Brasileiro, e especificamente à ECEME e ao Instituto Meira Mattos pela possibilidade de poder participar do processo de mestrado e contribuir com a elaboração de um trabalho de dissertação, ampliando assim meu conhecimento profissional.
Ao meu orientador, Prof. Dr. Francisco Carlos Teixeira da Silva, os meus
agradecimentos pela sábia, permanente e oportuna orientação, representando
um facilitador de muita importância na preparação e conclusão do trabalho.
RESUMO
A tecnologia atualmente em uso permite a disseminação muito rápida de informações, em alguns casos até se tornando instantânea, seja pela ação da mídia tradicional ou pelo uso de redes sociais, que muitas vezes têm uma fonte de origem desconhecida.
Isto representa para os atores envolvidos uma dificuldade em termos de profundidade, exatidão e veracidade das informações prestadas, facilitando da mesma forma, a construção e difusão de narrativas que são de conveniência para qualquer das partes, livrando uma luta paralela para conquistar os corações e mentes da população incluída dentro de seu público-alvo, a fim de obter o seu apoio e simpatia.
O indicado é ainda mais relevante quando essa situação ocorre em um contexto como o apresentado no conflito na Síria, com características híbridas e onde a instalação de um estado de caos político e militar é procurado pelas diferentes partes envolvidas, a fim de - como já foi indicado – instalar como verdade a narrativa de sua conveniência, incorporando neste processo uma gama completa de diferentes modos de guerra que incluem capacidades convencionais, táticas e formações irregulares, além de atos terroristas que incluem violência, coerção indiscriminada e desordem criminal.
Nesse sentido, e utilizando a técnica de análise de conteúdo, aprofundou-se nas narrativas levantadas pelos principais atores presentes através do uso das mídias sociais envolvidas, procurando identificar o grau de influência exercido por cada uma delas no desenvolvimento deste conflito.
Palavras-chave: Mídia, Guerra Híbrida, Síria, Narrativa.
ABSTRACT
The technology currently in use allows very rapid dissemination of information, in some cases even instantaneous, either through the action of traditional media or the use of social networks, which often have a source of unknown origin.
This represents for the actors involved a difficulty in terms of depth, accuracy and veracity of the information provided, facilitating in the same way, the construction and diffusion of narratives that are of convenience to either party, sparing a parallel struggle to win hearts and minds of the population included within their target audience in order to gain their support and sympathy.
What is indicated is even more relevant when this situation occurs in a context as presented in the conflict in Syria with hybrid characteristics and where the installation of a state of political and military chaos is sought by the different parties involved in order to - as already indicated - install the full range of different modes of warfare that include conventional capabilities, tactics and irregular formations, as well as terrorist acts that include violence, indiscriminate coercion, and criminal disorder.
In this sense, and using the technique of content analysis, it was deepened in the narratives raised by the main actors present through the use of social media involved, seeking to identify the degree of influence exerted by each of them in the development of this conflict.
Keywords: Media. Hybrid Warfare. Syria. Narrative.
LISTA DE FIGURAS, QUADROS E GRÁFICOS FIGURAS:
- FIGURA 1 – Soldados brincando com crianças em Jerusalém em 2014.
- FIGURA 2 – Conceptualização e componentes do ambiente operacional na atualidade.
- FIGURA 3 – Perspectivas da Dimensão Informacional.
- FIGURA 4 – Ascenção da mídia.
- FIGURA 5 – Características e classificação da Mídia.
- FIGURA 6 – Representação gráfica do Continuum do conflito.
- FIGURA 7 – Mudança no carácter da guerra.
- FIGURA 8 – Alcançar a sinergia entre domínios.
- FIGURA 9 – Estrutura do MDO.
- FIGURA 10 – Taxonomia das gerações.
- FIGURA 11 – A perspectiva da batalha em múltiplos domínios.
- FIGURA 12 – Diagrama de relações.
- FIGURA 13 – Os sete tipos de desinformação.
QUADROS:
- QUADRO 1 – História e classificação das tecnologias midiáticas.
- QUADRO 2 – Principais atores do conflito na Síria e mídias relacionadas.
- QUADRO 3 – Eventos mais relevantes do conflito.
- QUADRO 4 – Taxonomia da geração das guerras.
- QUADRO 5 – Fase 1, o Pré-análise.
- QUADRO 6 – Fase 2, o Aproveitamento do material.
- QUADRO 7 – Fase 3, Tratamento, Inferência e Interpretação dos resultados GRÁFICOS:
- GRÁFICO 1 – Tendência de apoio à Guerra do Vietnã.
- GRÁFICO 2 – Tendência de apoio à Guerra do Golfo.
- GRÁFICO 3 – Tendência de apoio à Guerra no Afeganistão.
- GRÁFICO 4 – Tendência de apoio à Guerra no Iraque.
- GRÁFICO 5 – Redes do Twitter cobrindo o Egito em comparação com outros
tópicos.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
- BBC: British Broadcasting Corporation.
- DW: Deutsche Welle.
- EB: Exército Brasileiro.
- EI: Estado Islâmico.
- ELS: Exército Livre da Síria.
- EUA: Estados Unidos de América.
- GPS: Global Positioning System.
- MC: Manual de Campanha.
- MDB: Multi Domain Battle.
- MDO: Multi Domain Operations.
- NYT: New York Times.
- ONU: Organização Nações Unidas.
- PYD: Partido da União Democrática.
- PKK: Partido dos Trabalhadores do Curdistão Turco.
- RAE: Real Academia de la Lengua.
- RT: Russia Today.
- TRADOC: Training and Doctrine Command.
- TV: Televisão.
- UE: União Europeia.
- URSS: União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
- WTC: World Trade Center.
- WWW: World Wide Web.
SUMÁRIO
ASSUNTO PÁGINA
INTRODUÇÃO 13
1 REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO 1.1 REFERENCIAL TEÓRICO
1.2 METODOLOGIA
1.2.1 TIPO DE PESQUISA
1.2.2 COLETA E ANÁLISE DE DADOS
31 31 46 47 53 2 A MÍDIA NA ATUALIDADE
2.1 CLASSIFICAÇÃO GERAL DA MÍDIA 2.2 A MÍDIA NA DIMENSÃO HUMANA 2.3 A MÍDIA NA DIMENSÃO FÍSICA
2.4 A MÍDIA NA DIMENSÃO INFORMACIONAL 2.5 TENDÊNCIAS ATUAIS DA MÍDIA
55 56 57 59 60 62 3 ATORES E MEIOS DA MÍDIA PRESENTES NA GUERRA DA
SÍRIA
3.1 OS CONFLITOS ATUAIS
3.2 ATORES ENVOLVIDOS NA SÍRIA E OBJETIVOS PERSEGUIDOS POR ELES
3.3 MEIOS DA MÍDIA COM MAIOR IMPACTO NO DESENVOLVIMENTO DO CONFLITO
3.4 O PÚBLICO ALVO EM TORNO DO CONFLITO NA SÍRIA, CARACTERÍSITICAS E PECULIARIDADES
3.5 DIAGRAMA DE RELAÇÕES (ATORES, MEIOS DA MÍDIA E PÚBLICO ALVO)
66 67
70 77 87
93 4 A CONSTRUÇÃO DE NARRATIVAS E SEU USO NA GUERRA
DA SÍRIA
4.1 ELEMENTOS E CARACTERÍSTICAS DA NARRATIVA
94
94
ASSUNTO PÁGINA 4.2 IDENTIFICAÇÃO DAS PRINCIPAIS NARRATIVAS
CONSTRUÍDAS PELOS MEIOS DA MÍDIA DEFINIDOS ANTERIORMENTE
4.3 ANÁLISE DAS NARRATIVAS IDENTIFICADAS ATRAVÉS DA TÉCNICA DE “ANÁLISE DE CONTEÚDO”
97
98
CONSIDERAÇÕES FINAIS 129
REFERÊNCIAS 131
APÊNDICE A – Esquema Gráfico de Pesquisa APÊNDICE B – Principais narrativas construídas
143
145
13 INTRODUÇÃO
Desde o início das primeiras civilizações, a necessidade de comunicação tornou-se presente e necessária. O homem encontrou em sua própria natureza possibilidades de fazer seus registros, usando seus próprios meios disponíveis, como pedra, barro, areia, árvores. Esses registros foram motivados pela necessidade de sobrevivência e transmissão de um patrimônio cultural, que serviu para testemunhar a existência do ser humano e transmitir conhecimento no curso da evolução. Dessa forma, a mídia exerceu sua influência durante períodos de conflito, sendo fatores relevantes, por exemplo, nas decisões de líderes políticos e de comandantes militares, bem como na percepção da opinião pública.
Teixeira (2015) deixa em evidência que a grande variedade de tipos de conflitos atuais, somada à nova maneira de fazer a guerra, tem uma relação direta tanto com os novos meios tecnológicos à disposição, como com as novas estratégias e ações militares desenvolvidas no contexto das chamadas
“Revoluções em Assuntos Militares” (TEIXEIRA, 2015, p. 39)
Com a evolução da guerra, em geral as pessoas esperavam que o avanço e o desenvolvimento tecnológico aplicados a fins militares, com a concepção de armas não letais, entre outros aspectos, reduzissem o número de baixas, tanto militares como civis, diminuindo assim também os aspectos mais brutais de um conflito armado. No entanto, pelo contrário, esta revolução nos assuntos militares alterou significativamente o ciclo de violência da última década do século XX (LIANG; XIANGSUI, 1999).
Paralelamente, em nível mundial, houve também uma revolução da informação, que superou completamente o paradigma e a compreensão da guerra no contexto das sociedades industriais, gerando segundo Visacro (2018):
O fortalecimento da opinião pública, a onipresença dos órgãos de imprensa, a redução do controle estatal sobre as agências de notícias, o acesso irrestrito aos meios de comunicação de massa, a disseminação da informação digital em escala planetária, a globalização da informação e o alcance ilimitado das mídias sociais levaram a um achatamento dos níveis decisórios (p. 74)
.
14 Isso gerou uma ampla incorporação da opinião pública, nas democracias de massa do Ocidente principalmente, no debate central sobre a legitimidade ou ilegitimidade das guerras (TEIXEIRA, 2015).
Exemplo do anterior, foi a situação apresentada na Guerra do Vietnã (1965- 1975) onde a opinião pública desempenhou o papel mais marcante, deslegitimando as razões de sucessivos governos norte-americanos. Mais tarde, a mesma situação foi apresentada sobre a URSS na Guerra do Afeganistão (1979-1989), embora com menos cobertura da mídia, estando também presente na cobertura entregue à Guerra do Iraque, já viva e com transmissões ao vivo via satélite, trazendo a guerra à cotidianidade do lar (TEIXEIRA, 2015).
No entanto, essa revolução da informação também fez com que muitas mídias importantes ou grandes consórcios corporativos no campo das comunicações tentassem aproveitar essas situações, buscando obter benefícios políticos e econômicos. Assim sendo, podemos contar com um conjunto de
“verdades” e ideias pré-estabelecidas, que se inter-relacionam de forma lógica, para determinar com precisão o contexto e o sentido das circunstâncias que nos envolvem (VISACRO, 2018), emergindo desta forma diferentes “narrativas”, com um foco e interesse particular a serem entregues à opinião pública.
Nesse contexto, o que Liang e Xiangsui (1999) indicaram tem muita transcendência:
Quando percebemos de repente que todas essas ações de não-guerra podem ser os novos fatores que constituem a guerra futura, temos que criar um novo nome para essa nova forma de guerra: guerra que transcende todas as fronteiras e limites, enfim: guerra irrestrita (p. 12, tradução nossa).
E é essa guerra onde as considerações políticas, estratégicas e táticas permeiam toda a cadeia de comando até os menores escalões, tornando-se componentes intrínsecos e indissociáveis no campo de batalha do século XXI (VISACRO, 2018).
O mesmo Visacro diz, em outras palavras, o que caracterizará a guerra do
futuro: "não serão grandes mudanças em como o inimigo combate, mas quem
estará lutando e para quê" (p. 40). Assim, estas guerras serão decididas nos
níveis operacional, estratégico, mental e moral, ao invés dos níveis tático e físico.
15 Desta forma, como indicado anteriormente e no mesmo contexto, de tempo em tempo o homem desenvolve tecnologias que, mais tarde, passam a serem utilizadas como meios de comunicação. Os meios de comunicação ou mídias são, portanto, em certo ponto de vista, consequências de determinadas tecnologias.
É interessante notar que há sempre um intervalo entre a criação da tecnologia e o seu uso como meio de comunicação. Neste sentido, Santaella (2014) deixa em evidência o fato de que, cada novo meio de comunicação baseado em uma nova tecnologia, acaba por criar novos hábitos e um novo comportamento em seus usuários, chegando a moldar desta forma os seus modos de vida e de pensamento.
Um dos aspectos mais salientes da comunicação no mundo moderno é que ela acontece numa escala cada vez mais global. Mensagens são transmitidos através de grandes distâncias com relativa facilidade, de tal maneira que indivíduos têm acesso à informação e comunicação provenientes de fontes distantes (THOMPSON, 2002). Além disso, com a separação entre o espaço e o tempo trazida pelos meios eletrônicos, o acesso às mensagens das mais remotas fontes no espaço pode ser instantâneo ou virtualmente instantâneo.
De acordo com Thompson (2002), a comunicação é um tipo distintivo de atividade social que “envolve a produção, a transmissão e a recepção de formas simbólicas e implica a utilização de recursos de vários tipos” (p. 25, tradução e grifo nosso).
Usando esses parâmetros e conceitos como referência, é possível estabelecer uma separação dos diferentes meios no campo da comunicação.
Essa classificação das mídias costuma levar em conta tanto sua plataforma tecnológica quanto os hábitos, comportamentos e transformações sociais que elas vieram a gerar (SANTAELLA, 2004).
O indicado, permite que elas sejam divididas em quatro grandes grupos, o
que facilita seu estudo e compreensão: a mídia impressa, a mídia eletrônica, a
mídia digital e as mídias sociais. Nesta última categoria, as redes sociais são
enquadradas (LEITE; ARAÚJO, 2012).
16 Em relação à mídia impressa, o ano de 1456 é a data aproximada para a invenção, na Europa, de uma prensa gráfica por Johann Gutenberg, talvez inspirado pelas prensas de vinhos de sua região natal, que já naquela data usavam peças de metal móveis (BRIGGS; BURKE, 2004).
Foi com esta invenção que se tornou possível a disseminação de conhecimentos a grandes velocidades junto a amplos grupos de indivíduos. É por isso que a mídia escrita foi a primeira a provocar transformações sociais.
No caso da mídia eletrônica, os primeiros avanços podem ser identificados com o início do uso do telégrafo e do rádio. A maioria dos autores assegura que o italiano Guglielmo Marconi foi o inventor do primeiro sistema para telégrafos sem fios. A transmissão teria sido realizada no Canal da Mancha em 1899. No caso do rádio, é considerado como seu primeiro inventor, o austríaco, naturalizado norte-americano Nikola Telsa (PAIXÃO, 2003).
Desta forma, a narrativa sonora proporcionada por esta nascente mídia rompia uma barreira importante enfrentada pela mídia impressa: o analfabetismo. O rádio democratizou definitivamente a cultura midiática e socializou ainda mais o acesso à informação.
A partir da segunda metade do século XX outro dispositivo eletrônico baseado na mesma tecnologia, a televisão, se somou ao rádio nesta tarefa de socializar o acesso à informação e promover o entretenimento. Assim, rádio e televisão, juntamente com o telefone (as chamadas mídias eletrônicas), também passaram a representar uma cultura midiática própria, com características e comportamentos de consumo bastante peculiares e distintos em relação à mídia impressa (RODRIGUES, [S.d.]). É possível então, e com base na definição de Thompson (2002) falar assim sobre os primórdios do conceito de comunicação de massa, entendida como: “a produção institucionalizada e difusão generalizada de bens simbólicos através da fixação e transmissão de informação ou conteúdo simbólico” (p. 32, tradução nossa).
Os avanços tecnológicos durante a Guerra Fria permitiram o surgimento do
computador. Este dispositivo eletrônico marcou o início do desenvolvimento de
outras três tecnologias, que juntas deram lugar, finalmente, à irrupção da mídia
digital.
17 A primeira destas é computador, criado entre os anos 1940 e 1960 para o contexto das guerras, definitivamente não nasceu para ser um meio de comunicação. A segunda é a internet, surgida ainda nos anos 1960, também nasceu para fins bélicos e não para ser um novo meio de comunicação de massa. Finalmente, é possível mencionar a World Wide Web, ou “WEB”, criada em 1990, essa sim para facilitar algum processo de comunicação, mas não em massa, uma vez que seu foco no momento de sua criação era a divulgação de produções científicas (MIRANDA, 2007).
Facilitado pelo avanço da internet o desenvolvimento do quarto grupo, as mídias sociais, ocorreu desde o no início dos anos noventa, modificaram até os padrões de interação da sociedade humana.
Segundo Torres (2009), “as mídias sociais são sites na internet que permitem a criação e o compartilhamento de informações e conteúdos pelas pessoas e para as pessoas” (p. 113), ou seja, os usuários dessas mídias são, ao mesmo tempo produtores e consumidores da informação, ao contrário do que acontece nas mídias tradicionais, como a imprensa, o rádio ou a TV, onde o conteúdo é gerado por especialistas e controlado por alguns poucos proprietários desses meios.
As mídias sociais são assim denominadas por serem sociais, livres e abertas à informação, e por serem mídias, meios de transmissão de informações e conteúdo. Assim, Leite e Araújo (2012) deixam em evidência que “por apresentarem caráter colaborativo e social, permitem que as pessoas se conheçam, troquem mensagens e criem grupos e comunidades virtuais” (p. 24).
O acima pode ser através do uso de diferentes ferramentas ou plataformas de relacionamento, ajudando na criação de grupos humanos com interesses comuns. Uma das características básicas da mídia social é identificada pelo compartilhamento de conteúdo coletivamente (LEITE; ARAÚJO, 2012).
Uma definição das mídias sociais e sua relação com a natureza humana, é entregue por Torres (2009):
Se observarmos atentamente, as mídias sociais resgatam, por meio da Internet, o modelo de comportamento mais básico do ser humano: um animal social, que sempre viveu em grupo, se comunicou, se alimentou e criou de forma coletiva. Isso explica o grande sucesso das mídias sociais. Elas simplesmente atendem ao desejo mais básico das pessoas
18
e, ao mesmo tempo, as colocam no centro dos acontecimentos de sua tribo ou comunidade (p.113).
Dentro das mídias sociais, estão as redes sociais, que, como Leite e Araújo (2012) apontam “são sites ou recursos de relacionamento que permitem a interação e troca de informações de redes de pessoas” (p. 5).
Deste forma temos que as redes sociais, tanto quanto mundos virtuais e inclusive os jogos on-line, são formadas exclusivamente por membros, onde cada indivíduo influencia não só um grupo de amigos, mas para vários grupos de comunidades às quais pertence, em uma progressão geométrica que multiplicando qualquer mensagem de interesse coletivo (LEITE; ARAÚJO, 2012).
A tabela abaixo apresenta um resumo da história das tecnologias midiáticas que posteriormente passaram a ser utilizadas como meio de comunicação:
Quadro 1 – História e classificação das tecnologias midiáticas
Fonte: Santaella (2004) adaptado pelo autor
19 As ações da mídia podem se tornar uma ferramenta efetiva para contribuir para a disseminação de campanhas de informação ou mesmo para sensibilizar a população em certos assuntos, o que pode minimizar o risco de gerar situações de instabilidade que afeta a ordem interna em território próprio ou ocupado, situação que mais tarde poderia derivar no descrédito das próprias forças ou mesmo em interferências no desenvolvimento das operações. No caso oposto, isto é, em relação à sua influência negativa, uma má gestão dos meios de comunicação social pode gerar problemas relacionados fundamentalmente com o apoio da opinião pública ou com sua atitude em relação às forças, que em certas circunstâncias podem afetar o desenvolvimento normal das operações.
Nesse sentido, a construção de narrativas e suas características adquire uma importância transcendental. Motta (2011) deixa em evidência que a narrativa traduz o conhecimento objetivo e subjetivo do mundo (o conhecimento sobre a natureza física, as relações humanas, as identidades, as crenças, valores e mitos ou outros elementos) em relatos.
Desta forma, a partir desses relatos (ou enunciados narrativos), as pessoas são capazes de colocar as coisas em relação e perspectiva, numa ordem lógica e cronológica. Lógico, pelo menos, para aqueles que querem estabelecer suas declarações e relatos como verdades no coletivo da opinião pública (MOTTA, 2011).
Figura 1 – Soldados brincando com crianças em Jerusalém 2014
Fonte: https://www.noticiasvip.com.br/entretenimento/11-imagens-que-
mostram-como-a-midia-pode-mudar-a-verdade/11257/
20 Quanto à situação específica da guerra na Síria, os principais atores envolvidos nesse conflito e sua relação com as diferentes mídias podem ser observados na tabela a seguir, sendo a base de análise dentro do desenvolvimento deste trabalho.
Quadro 2 – Principais atores do conflito na Síria e mídias relacionadas
Fonte: Elaborado pelo autor
21 As mídias mostradas no Quadro Nº2, em relação a cada um dos atores individualizados, são os que foram analisadas para determinar as influências geradas por suas narrativas levantadas.
Desta forma, as narrativas de cada uma dessas mídias sobre o conflito na Síria identificadas no segmento de tempo entre 2011 e 2018, foram analisadas utilizando a ferramenta de análise de conteúdo, obtendo assim indicadores do conteúdo das mensagens que permitiram inferir como eles influenciaram o contexto social.
Segundo Abela (2017):
A análise de conteúdo é baseada na leitura (textual ou visual) como instrumento de coleta de informação, leitura que, ao contrário da leitura comum, deve ser feita seguindo o método científico, ou seja, deve ser sistemática, objetiva, replicável e validada (p. 2, tradução nossa).
Devemos abandonar a ideia de que os destinatários dos produtos da mídia são espectadores passivos cujos sentidos foram permanentemente bloqueados pela contínua recepção de mensagens similares. Devemos também descartar a suposição de que a recepção em si mesma seja um processo sem problemas, acrítico, e que os produtos são absorvidos pelos indivíduos como uma esponja absorve água. Suposições deste tipo têm muito pouco a ver com o verdadeiro caráter das atividades de recepção e com as maneiras complexas pelas quais os produtos da mídia são recebidos pelos indivíduos, interpretados por eles e incorporados em suas vidas (THOMPSON, 2002).
QUESTÃO DE ESTUDO
A formulação de uma teoria deve ocorrer por meio da concreção de um problema, redigido de maneira precisa, com o intuito de ser submetido ao teste científico (CHALMERS, 1999). Para tanto, a problematização se caracteriza pelo enunciado, claro e explícito, acerca da dificuldade que o pesquisador pretende solucionar (RUDIO, 1978). Sob este prisma, no âmbito desta pesquisa, a problematização foi apresentada da seguinte maneira:
O levantamento de narrativas, desde a perspectiva de cada ator e
através do uso da mídia, influenciou o desenvolvimento do conflito na
Síria?
22 OBJETIVOS
Com o propósito de colimar os esforços da pesquisa, em prol de uma resposta à questão de estudo, foi delineado um objetivo geral para nortear o processo de investigação, conforme enunciado abaixo:
Objetivo Principal: Identificar como os atores envolvidos na guerra na Síria usaram a mídia para construir narrativas em favor de suas causas.
No intuito de auxiliar na consecução do objetivo geral ou principal, foram delineados objetivos específicos, à luz de um encadeamento lógico, para nortear as ações que serão realizadas na dimensão estrutural da pesquisa, conforme a sequência abaixo.
- Objetivo Específico 1: Classificar as características atuais da mídia nas dimensiones humana, física e informacional (ambiente operacional).
- Objetivo Específico 2: Identificar o contexto geral e as características dos principais atores presentes no conflito, juntamente com os principais meios da mídia, na perspectiva de cada um deles.
- Objetivo Específico 3: Analisar as principais narrativas que cada uma das mídias construiu em favor de suas respectivas causas, explicando seu grau de influência durante o desenvolvimento do conflito.
DELIMITAÇÃO DO ESTUDO
A presente investigação abrangeu os aspectos relacionados ao uso da
mídia no contexto específico do conflito sírio e em um contexto temporal que
considera o período entre março de 2011 (início dos protestos na cidade de
Daraa na Síria) e até o mesmo mês do ano de 2018 (ataque conjunto com
mísseis pelos Estados Unidos, França e Reino Unido às cidades de Damasco e
Homs na Síria), focado apenas nos eventos mais importantes que
ocorreram em cada um desses anos. Da mesma forma, foi considerada a
descrição conceitual dos termos relacionados ao tema e necessária à concepção
do objeto do estudo, dentro dos quais estão os aspectos relacionados ao
ambiente operacional, bem como a conceituação e classificação da mídia, a
narrativa e o conflito atual focando nos conceitos da guerra híbrida, MDB (Multi
Domain Battle) e MDO (Multi Domain Operations).
23 Por outro lado, e em termos de sujeitos o meios participantes, a pesquisa concentrou-se nos atores participantes, identificando seis grupos principais, a saber: A República Árabe Síria com o governo de Bashar al-Assad, o Exército Livre da Síria (ELS), o Partido da União Democrática (PYD), o Estado Islâmico (EI), o Governo Russo e as principais Potências Ocidentais envolvidas, Estados Unidos (EUA) e a União Europeia (UE), que, por sua vez, tem um relacionamento com os seguintes meios que serão analisados: Agência de Notícias Árabe Síria, Hispan TV, Al-Jazira, Al-Arabiya, Ministério da Informação do Estado Islâmico, Russia Today (RT), Sputnik, New York Times (NYT), El País, BBC e Deutsche Welle (DW).
Finalmente, foram analisadas as ações de comunicação que cada uma das mídias anteriores suscitou em apoio aos atores de seu setor, pela estruturação de relatos ou narrativas profundas e com permanência ao longo do tempo, utilizando para este processo a técnica de análise de conteúdo, seja na mídia impressa, eletrônica, digital ou mídias sociais, disponíveis para consulta pela Internet e / ou pelas páginas da Web dessas diferentes organizações.
RELEVÂNCIA DO ESTUDO
Considerando a importância da relação entre a opinião pública e a política externa, não é de surpreender que o estudo da guerra e da opinião pública seja um aspecto de muito desenvolvimento no campo acadêmico na atualidade.
Tanto que, segundo Berinsky (2009) alguns estudiosos de relações internacionais estudaram os ‘‘potencial do público para punir os políticos que não seguem as ameaças militares - explorando a forma como esses custos permitem que os líderes sinalizem sua decisão em crises internacionais’’ (p. 3, tradução nossa).
Na mesma ordem de ideias, é importante destacar que na maioria dos
trabalhos existentes sobre a opinião pública e a guerra, os estudiosos se
concentraram principalmente nos acontecimentos da Guerra Fria e pós-Guerra
Fria, esquecendo completamente, por exemplo a Segunda Guerra Mundial, uma
guerra que foi, em muitos aspectos, um evento único na história norte-
americana, considerando que foi a única guerra nos últimos dois séculos em que
24 os americanos foram corretamente atacados por outra nação antes de se envolver em combate ativo, o que implica ou deveria supor em si, um apoio maioritário da opinião pública (BERINSKY, 2009).
Segundo Berinsky (2009):
O que sabemos sobre a reação massiva à guerra foi aprendido de intervenções internacionais fracassadas - como as da Coréia e do Vietnã - e de excursões militares relativamente de curto prazo - como a Guerra do Golfo de 1991, Kosovo e Afeganistão (p. 3, tradução nossa).
Como forma de demonstrar a relevância do tema em estudo, serão apresentados diferentes casos em que a narrativa transmitida pela mídia de massa à opinião pública, influenciou significativamente o curso dos conflitos tomados como exemplo condicionando - na maioria dos casos - as ações das partes envolvidas.
A tendência de apoio à Guerra do Vietnã -no gráfico Nº1-, apresenta importantes diferenças em relação à Guerra da Coréia quanto ao apoio da opinião pública. Em vez da rápida queda no apoio encontrada no início da Guerra da Coréia, o apoio ao Vietnã parece ter seguido um caminho de declínio lento e constante, interrompido por vários pontos de virada em 1968 e1969. Mais o declínio no apoio à guerra continuou de 1969 em diante (BERINSKY, 2009).
Gráfico 1 – Tendência de apoio à Guerra do Vietnã
Fonte: BERINSKI (2009) adaptado pelo autor
25 No caso da Guerra do Golfo -como mostra o gráfico Nº2-, no início do outono de 1990, mesmo com a dissipação da recuperação inicial, a grande maioria do público aprovou a decisão de enviar tropas americanas para o Golfo.
Em outubro e novembro, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) aprovou uma série de resoluções, com destaque para a Resolução 678, que estabelecia o prazo de 15 de janeiro de 1991 para a retirada do Iraque. Pela primeira vez desde a Guerra da Coréia, a ONU autorizou o uso da força contra um Estado-nação. Isso causou que, com o início das operações em janeiro de 1991, a aprovação da opinião pública aumentará consideravelmente e permanecerá estável ao longo desse ano (BERINSKY, 2009).
Gráfico 2 – Tendência de apoio à Guerra do Golfo
Fonte: BERINSKI (2009) adaptado pelo autor
O apoio inicial da opinião pública ao conflito no Afeganistão foi
extraordinariamente alto. Como mostra o gráfico Nº3, de setembro de 2001 a
abril de 2002, entre 80% e 90% do público aprovaram a ação militar. O acima,
indubitavelmente causado pela grande comoção e difusão da mídia gerada no
mundo todo, depois do ataque ao World Trade Center em 11 de setembro de
2001 (BERINSKY, 2009).
26 Gráfico 3 – Tendência de apoio à Guerra no Afeganistão
Fonte: BERINSKI (2009) adaptado pelo autor
No rastro da invasão do Afeganistão, o governo Bush rapidamente voltou sua atenção para o Iraque devido ao alegado incumprimento por parte do Iraque, das disposições da ONU relativas à posse e destruição de armas químicas, biológicas e nucleares. De muitas maneiras, o padrão da opinião pública no Iraque se assemelha ao padrão de opinião sobre a Guerra do Vietnã. Altos níveis iniciais de apoio dão lugar a uma oposição crescente. Em meados de 2004, os níveis de apoio à guerra haviam diminuído, com um contínuo declínio lento, espelhando a opinião sobre o Vietnã após 1969 (BERINSKY, 2009).
Gráfico 4 – Tendência de apoio à Guerra no Iraque
Fonte: BERINSKI (2009) adaptado pelo autor
27 A revolução egípcia de 2011 foi um evento muito significativo para o mundo árabe e, portanto, conotou uma grande atenção da mídia internacional.
Enquanto alguns analistas dizem que as mídias sociais como Twitter e Facebook não eram críticas para a revolução, outros, incluindo vários ativistas em cena, acreditam que as mídias sociais ajudaram de maneira importante a alcançar os objetivos da revolução (CHOUDHARY e colab., 2012).
Assim, Choudhary (2012) deixa em evidência que seja qual for o papel do Twitter e outras mídias sociais empregadas, não há dúvida de que os manifestantes, bem como os meios de comunicação e jornalistas presentes, fizeram uso extensivo de sites de redes sociais, twitter e mensagens de texto sobre os protestos, com mensagens lidas e comentadas por pessoas de todo o mundo.
O mesmo autor diz que ‘‘o fluxo de tweets representa uma enorme e não filtrada história de eventos a partir de uma multiplicidade de perspectivas, bem como uma oportunidade para caracterizar os eventos e emoções da revolução’’
(p. 74, tradução nossa).
O gráfico abaixo mostra as medidas do fluxo de tweets registrados entre janeiro e fevereiro de 2011, fazendo uma comparação entre os relacionados à revolta no Egito e os de outros temas gerais.
Gráfico 5 –
Redes do Twitter cobrindo o Egito em comparação com outros tópicos.Fonte: CHOUDHARY (2012) adaptado pelo autor
28 Uma parte significativa da discussão refletiu a transmissão de notícias de eventos em andamento, com os usuários mais influentes entregando notícias e uma grande proporção de mensagens como forma de repassar essas notícias para outros dentro e fora do Egito.
Na mesma ordem de ideias, e de acordo com o que aponta Klausen (2015), as mídias sociais têm desempenhado um papel essencial na estratégia operacional dos jihadistas na Síria e no Iraque, e além o Twitter, em particular, têm sido usados para impulsionar as comunicações em outras plataformas de mídia social.
Dessa forma, e levando em consideração os dados e exemplos de conflitos anteriores em que a influência da mídia sobre a opinião pública foi monitorada, é possível ratificar a importância e influência que a partir de meados do século XX e até hoje, a mídia -em todas as suas modalidades- tem exercido sobre a percepção da população diante de um evento. O acima, torna-se ainda mais importante com a incorporação massiva das diferentes plataformas que compõem as mídias sociais.
ESTRUTURA DA PESQUISA
Esta dissertação foi estruturada no formato monográfico, no âmbito de uma introdução e quatro capítulos, elaborados progressivamente e de forma encadeada, com o intuito de prover sinergia à investigação e, assim, alcançar os objetivos propostos. Neste sentido, a introdução e os capítulos foram estruturados à pesquisa conforme o descrito abaixo.
Introdução: Nesta seção foram abordados os temas referidos à introdução à pesquisa, a questão de estudo, o objetivo principal e os objetivos específicos (secundários) identificados para serem atingidos, a delimitação do estudo, a relevância e estrutura de pesquisa.
Capítulo 1: Referencial Teórico e Metodologia. Neste capítulo procurou- se abordar todo o referencial teórico como fundamento acadêmico à pesquisa.
Assim, foram analisados inicialmente os conceitos e definições referentes ao
ambiente operacional em suas dimensões humana, física e informacional; a
mídia; o conflito atual aprofundando nos conceitos de guerra hibrida, MDB (Multi
29 Domain Battle) e MDO (Multi Domain Operations) e a narrativa. Permitindo assim que os leitores se posicionem no ambiente aonde a pesquisa foi desenvolvida.
Referido à metodologia, além de desenvolver o tipo de pesquisa, a análise de dados e o esquema de pesquisa, foi realizado um detalhamento da metodologia de pesquisa com que cada capítulo foi abordado.
Capítulo 2: A mídia na atualidade. O objetivo desse capítulo foi classificar as caraterísticas atuais da mídia nas dimensões humana, física e informacional (ambiente operacional).
Os conteúdos tratados foram: classificação geral da mídia e sua separação em mídia impressa, mídia eletrônica, mídia digital e mídias sociais, incluindo neste último grupo às redes sociais; a mídia na dimensão humana e suas implicações nos campos militar, político, econômico e social; a mídia na dimensão física e suas implicações no tempo, infraestrutura e ambiente físico;
na mídia na dimensão informacional e suas implicações no campo da informação; tendências atuais da mídia para competir e ser reconhecida no ambiente do mercado da comunicação social.
Capítulo 3: Atores e meios da mídia presentes na guerra da Síria. O objetivo desse capítulo foi identificar o contexto geral e as características dos principais atores presentes no conflito, juntamente com os principais meios da mídia, na perspectiva de cada um deles.
O procurado neste capítulo foi a identificação e análise dos principais participantes neste conflito, considerando seis grandes grupos: a República Árabe Síria, o Exército Livre da Síria, o Partido da União Democrática, o Estado Islâmico, o Governo Russo e as potências ocidentais (EUA e a UE); identificando a partir da perspectiva de cada ator, os meios de comunicação utilizados, destacando os mais representativos ou com maior impacto no desenvolvimento do conflito, sendo estes: a Agência de Notícias Árabe Síria, Hispan TV, Al-Jazira, Al-Arabiya, Ministério da Informação do EI, Russia Today, Sputnik, New York Times, El País, BBC e Deutsche Welle.
Os conteúdos tratados foram: os conflitos atuais (guerra híbrida, evolução
MDB/MDO); atores envolvidos na Síria e objetivos perseguidos por cada um
deles; meios da mídia com maior impacto; o público-alvo em torno do conflito,
suas características e peculiaridades; diagrama de relações (atores, meios da
mídia e público-alvo).
30 Capítulo 4: A construção de narrativas e seu uso na guerra da Síria. O objetivo foi analisar as principais narrativas que cada uma das mídias construiu em favor de suas respectivas causas, explicando seu grau de influência durante o desenvolvimento do conflito.
Como etapa final da pesquisa, foram analisadas as ações de comunicação que cada mídia suscitou em apoio aos atores de seu setor, pela estruturação de narrativas profundas e com permanência ao longo do tempo, utilizando para este processo a técnica de análise de conteúdo, seja na mídia impressa, mídia eletrônica, mídia digital ou mídias sociais.
Os conteúdos tratados foram: elementos e características da narrativa, a criação e disseminação de Fake News, a Pós-Verdade ou mentira emocional;
identificação das principais narrativas construídas pelos meios da mídia previamente identificados; análise das narrativas identificadas através da técnica de Análise de Conteúdo.
Conclusões: Neste apartado final da pesquisa, foram abordados os seguintes pilares necessários para atingir no padrão desejado: (1) relevância de como as narrativas construídas são identificadas e se relacionam com as Operações de Informação no campo do planejamento militar (níveis tático e operacional). Efeitos gerados a este respeito; (2) uso e aproveitamento das narrativas construídas nos níveis estratégico e político (uso pelos líderes envolvidos no conflito). Efeitos gerados a este respeito; (3) implicações e efeitos que essas narrativas têm representado no nível local e no contexto internacional;
(4) influência dos grupos de poder através do uso da mídia e da construção de narrativas na busca de seus objetivos particulares (nos âmbitos econômico, político ou religioso); (5) perspectiva futura: ‘’a narrativa, novos modos de emprego como arma não letal’’.
ESQUEMA GRÁFICO DE PESQUISA
Aos efeitos de arrumar as ideias, acompanhar o raciocínio e tentar não
perder a orientação da pesquisa foi desenhado e aplicado um esquema gráfico
que norteou todo o processo de investigação (APÊNDICE A – Esquema Gráfico
de Pesquisa).
31 1. REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO
1.1 REFERENCIAL TEÓRICO
Para dar um marco geral teórico, foram abordados nesta seção os conceitos considerados como indispensáveis para entender o ambiente dos conflitos atuais e sua relação com a mídia, contexto onde o presente trabalho acadêmico terá lugar. Foram abordados então os seguintes conceitos:
- O Ambiente Operacional.
- A mídia.
- O conflito atual.
- A narrativa.
Como ponto de início, e antes de abordar cada um dos conceitos acima mencionados, foi pertinente acudir à base de dados que na língua do autor (espanhol) orienta de maior maneira o que é aprovado como definição dos distintos conceitos. Assim, cada item começou com a definição fornecida pelo Dicionário da Real Academia Espanhola.
O AMBIENTE OPERACIONAL
O Dicionário da Real Academia Espanhola, estabelece que a palavra
`ambiente´ indica “o que envolve algo ou alguém como um elemento do seu ambiente’’. Também fornece a definição de ‘‘conjunto de condições ou circunstâncias físicas, sociais, econômicas ou outras de um lugar, comunidade ou tempo”.
Quanto à palavra `operacional´, também entrega duas definições sendo elas: ‘‘o que pertence ou é relativo a operações militares ou comerciais” e ‘“dito de uma unidade militar, no sentido que é capaz de operar’’.
Sem fugir dessa definição, e para gerar visões complementares a este
respeito, foram citadas duas referências de diferentes instituições (o Exército
Brasileiro e o Army War College) com ideias diferenciadas quanto à aplicação do
termo ambiente operacional.
32 O Exército Brasileiro (2017) em seu Manual de Campanha EB70-MC- 10.223 “Operações”, ao referir-se à definição do conceito ambiente operacional, diz que:
[...] O ambiente operacional é o conjunto de condições e circunstâncias que afetam o espaço onde atuam as forças militares e que interferem na forma como são empregadas, sendo caracterizado pelas dimensões física, humana e informacional. Tradicionalmente, o foco da análise do ambiente operacional esteve centrado na dimensão física, considerando a preponderância dos fatores terreno e condições meteorológicas sobre as operações. Atualmente, na análise do ambiente operacional, as três dimensões devem ser igualmente consideradas (p. 2.2).
Por sua parte, Visacro (2018) cita a conceptualização feita pelo Army War College do Exército dos EUA, com base em suas recentes experiências de combate:
O ambiente operacional na atualidade é volátil, incerto, complexo e ambíguo. De fato, os cenários que dão forma às áreas conflagradas ao redor do mundo têm se destacado por sua complexidade, não linearidade, instabilidade, imprevisibilidade, heterogeneidade, mutabilidade e dinamismo (p. 157).
Figura 2 – Conceptualização e componentes do ambiente operacional na atualidade
Fonte: EXÉRCITO BRASILEIRO (2017), EB70-MC-10.223 “Operações”
33 A dimensão humana
A Real Academia Espanhola define o termo ´dimensão` como ‘‘o aspecto ou faceta de algo’’ ou também como ‘‘cada uma das magnitudes que fixam a posição de um ponto em um espaço’’. No entanto, sendo estas definições muito gerais e abrangentes, e considerando que o termo ´humana` deve ser integrado nelas, foram apresentadas outras definições válidas, com interpretações diferentes do conceito.
O Exército Brasileiro (2017) em seu Manual de Campanha EB70-MC- 10.223 “Operações”, diz:
A dimensão humana abrange os fatores psicossociais, políticos e econômicos da população local, assim como suas estruturas, seus comportamentos e interesses. Nessa dimensão, o foco é o indivíduo e a sociedade, crescendo de importância a preocupação com a perda de vidas humanas e danos colaterais (p. 2.3)
Com foco de outra perspectiva, o Exército dos EUA (2015) em sua Estratégia da dimensão humana, aponta à importância do desenvolvimento e preparação do seu pessoal para fazer face às complexidades do atual e futuro ambiente operacional:
Neste mundo em mudança, o Exército deve buscar ativamente abordagens inovadoras para alavancar sua força única - seu povo.
Através do investimento em seu capital humano, o Exército pode manter a vantagem decisiva na dimensão humana - os componentes cognitivos, físicos e sociais dos profissionais e equipes de confiança do Exército. Com este investimento, o Exército é capaz de desenvolver equipes coesas de profissionais confiáveis que melhoram e prosperam. Investir na dimensão humana atua como uma proteção contra a incerteza e garante que o Exército mantenha a superação e possa explorar uma vantagem decisiva. A vantagem cognitiva requer ênfase na Profissão do Exército e na Ética do Exército. Investimentos renovados no desenvolvimento de líderes, especialmente educação e treinamento, também são essenciais. A vantagem física exige investimento em saúde holística, prevenção de lesões e condicionamento físico total (p. 1, tradução nossa)
.
Continuando na orientação dada até agora nas definições, só que já numa visão mais direcionada à visão nas organizações, Costa (2016) define assim:
[...] A dimensão humana na gestão contemporânea é um tema fundamental para uma compreensão das inquietudes que ocorrem no ambiente organizacional [...] Quando falamos na dimensão humana, lembramos que a grande busca do ser humano pode ser a do significado. Muitas vezes ouvimos depoimentos de funcionários que dizem não ver a hora para as férias, para a aposentadoria, para ganhar
34
na loteria e ir embora. Essa insatisfação nos remete aos aspectos negativos da relação do indivíduo com o trabalho (p. 3).
Alvarenga (2016), a partir de um aprofundamento do termo, faz uma separação dele em três conjuntos de elementos, com uma visão sociológica:
As dimensões humanas (física, afetiva, social, intelectual e espiritual) tendem a ser o conjunto de elementos que possibilitam as pessoas se sentir felizes, tornando necessário buscar garantir o desenvolvimento integral do ser humano. As diferentes tradições religiosas procuram orientar as pessoas para que observem todas as dimensões, a fim de cuidarem e preservarem a vida na sua totalidade (p. 4).
A dimensão física
A definição do conceito ´dimensão` já foi apresentada na seção anterior, focalizando agora a definição dada ao termo ´física`. Deste modo, a Real Academia Espanhola define este termo como ‘‘algo pertencente ou relacionado à constituição e natureza corpórea, em oposição à moral’’ ou também como ‘‘o relacionado ao exterior de uma pessoa; o que forma sua constituição e natureza’’.
Outras definições a este respeito que permitem ter uma visão mais ampla a esse respeito, podem ser as seguintes.
O Exército Brasileiro (2017) de uma visão puramente militar, em seu Manual de Campanha EB70-MC-10.223 “Operações”, diz:
No que se refere à dimensão física, os elementos da FTer (Força Terrestre) devem ser aptos para operar em áreas estratégicas previamente definidas como prioritárias, dentro ou fora do território nacional. O desenvolvimento das capacidades, de acordo com essas áreas, torna os elementos da FTer mais aptos ao emprego. Os ambientes com características especiais exigem tropas com capacidades peculiares (p. 2.3).
Por sua parte, o Exército dos Estados Unidos (2017), em seu manual de campanha FM 3-0 ‘‘Operações’’, ao se referir à dimensão física, ele aponta:
[...] Considerações físicas incluem geografia, terreno, infraestrutura, populações, distância, faixas de armas e efeitos, e locais inimigos conhecidos. Eles também incluem outros fatores relacionados que influenciam o uso de recursos amigáveis ou inimigos, como clima e clima. Ao considerar aspectos físicos, comandantes e equipes olham além do domínio da terra. Eles examinam cada domínio quanto a aspectos físicos relevantes e prestam atenção especial à dimensão física do ambiente de operações (p. 1-26, tradução nossa).
35 A dimensão informacional
No que diz respeito ao conceito de ´informacional`, a Real Academia Espanhola relaciona este termo ‘‘à ação e efeito de informar’’, ‘‘à comunicação ou aquisição de conhecimento que permite expandir ou especificar aqueles que são possuídos em um assunto específico’’ e também com ‘‘o conhecimento comunicado ou adquirido por meio de informações’’.
Outras definições a este respeito que permitem ter uma visão mais ampla a esse respeito, podem ser as seguintes.
O Exército Brasileiro (2017) de uma visão focada nas ameaças à segurança, em seu Manual de Campanha EB70-MC-10.223 “Operações”, diz:
A dimensão informacional abrange os sistemas utilizados para obter, produzir, difundir e atuar sobre a informação. Reveste-se de destacada importância, uma vez que as mudanças sociais estão alicerçadas na elevada capacidade de transmissão, acesso e compartilhamento da informação. [...] O ambiente global tem demonstrado que a maioria das ameaças têm suas origens em uma união de fatores políticos, históricos, conjunturais locais, nacionais e/ou internacionais. Tais fatores estão relacionados, com frequência, ao crescimento populacional, ao controle de recursos naturais e ao controle do domínio informacional (p. 2.2).
Da mesma forma, o mesmo texto, fazendo uma relação mais ampla entre os diferentes componentes do ambiente operacional moderno, também acrescenta:
[...] Os conflitos têm demonstrado a predominância de combates em terrenos humanizados (urbanos ou rurais). Deve-se considerar, também, que haverá atores agindo em espaços que vão além do campo de batalha. [...] Em uma perspectiva mais ampla, as ameaças concretas deverão vir associadas à proliferação de tecnologias (incluindo as relacionadas a armas e agentes de destruição em massa), ao terrorismo internacional, ao narcotráfico e à migração massiva (p. 2.3)
O Exército Brasileiro (2014), em outra de suas publicações doutrinárias, o manual de campanha EB20-MC-10.213 ‘‘Operações de Informação’’, ao referir- se ao conceito de “dimensão informacional”, faz menção às perspectivas que o compõem:
A dimensão informacional é o conjunto de indivíduos, organizações e sistemas no qual tomadores de decisão são utilizados para obter, produzir, difundir e atuar sobre a informação. Essa dimensão é composta de três perspectivas inter-relacionadas que interagem
36
continuamente entre si e com indivíduos, organizações e sistemas.
Essas perspectivas são: a física, a lógica e a cognitiva (p. 2-3).
Figura 3 – Perspectivas da Dimensão Informacional
Fonte: EXÉRCITO BRASILEIRO (2014), EB20-MC-10.213 “Operações de Informação”
O Exército dos Estados Unidos (2017), em seu manual de campanha FM 3-0 ‘‘Operações’’, fornece, a esse respeito, uma visão mais relacionada às atividades cibernéticas, do ciberespaço, virtuais e suas ameaças relacionadas:
As considerações virtuais do contexto informacional são aqueles referentes às atividades, capacidades e efeitos relevantes para as categorias do ciberespaço. [...] Exemplos de ameaças incluem a identificação de sistemas virtuais, entidades, formações e pessoas para direcionar ou contrariar, a fim de possibilitar a geração de efeitos no mundo físico (p. 1-26, tradução nossa).
Outros autores, como Cardoso (2006), fornecem uma visão da dimensão informacional mais associada e incluída ao conceito de “sociedade da informação”, identificando mesmo separações dentro do mesmo conceito:
Quando se fala da Sociedade da Informação, mesmo quando se reconhece a existência de um discurso oficial padronizado, nem sempre se fala da mesma realidade. Há aqueles que valorizam mais a dimensão econômica da informação, outros que valorizam a dimensão política da informação e outros ainda que valorizam o aprimoramento pessoal, cultural e educacional como os elementos de caracterização mais fortes de nossa sociedade no contexto das informações (p. 43, tradução e grifo nosso).
37 A MÍDIA
Nesta seção foram abordados conceitos referidos à mídia e sua importância no contexto mundial atual, para assim padronizar conceitos sobre isso.
Iniciando com a definição dada pelo dicionário da Real Academia Espanhola, a ´mídia` (meios de comunicação social) pode ser definido como
‘‘instrumentos para transmissão pública de informações, como estações de rádio ou televisão, jornais, internet ou outras plataformas’’.
Em relação ao início da mídia, Parry (2011) destaca a importância da transformação desse fenômeno ao longo do tempo, destacando suas características e capacidades:
[...] As capacidades de comunicação do originador foram ampliadas e os públicos-alvo remotos puderam ser alcançados. A impressão, a transmissão e a internet expandiram o público e, assim, o tamanho da sociedade humana gerenciável em grande escala. [...] A ascensão da mídia não foi limpa e arrumada. As eras sucessivas não têm datas de início e de término definidas. [...] Quando um novo meio surge, ele não simplesmente substitui os anteriores, ele absorve aspectos de seus predecessores e faz com que eles sejam modificados. Formas antigas de mídia não desaparecem, elas evoluem. Novos formulários adotam e adaptam as convenções do passado. Cada época proporciona comunicações mais ricas e extensas do que as anteriores (p. 13, tradução e grifo nosso).
Figura 4 – Ascenção da mídia
Fonte: PARRY (2011)
38 No mesmo sentido, Burke e Briggs (2002), deixam em evidência a importância histórica da mídia, por exemplo, já no começo da conformação dos Estados Unidos:
[...] No caso dos Estados Unidos, a Primeira Emenda, que foi incorporada na Declaração de Direitos que o Congresso aprovou em 1791, estabeleceu que ‘‘o Congresso não deve legislar com respeito ao estabelecimento de uma religião, nem proibirá o livre exercício de qualquer religião; nem limitará a liberdade de expressão e de imprensa’’ [...] (p. 219, tradução nossa).
Uma definição da mídia desde uma perspectiva social é apresentada por Thompson (2002), que aponta:
Em todas as sociedades os seres humanos se ocupam da produção e do intercâmbio de informações e de conteúdo simbólico. Desde as mais antigas formas de comunicação gestual e de uso da linguagem até os mais recentes desenvolvimentos na tecnologia computacional, a produção, o armazenamento e a circulação de informação e conteúdo simbólico têm sido aspectos centrais da vida social (p.19).
Analisando a mídia em termos de suas características de uso pela sociedade, Mcluhan (2003), faz uma abordagem ao tema desenvolvendo os conceitos de mídia quente e mídia fria:
[...] Um meio quente é aquele que estende um único sentido em "alta definição". Alta definição é o estado de estar bem preenchido com dados. Uma fotografia é, visualmente, "alta definição". Um desenho animado é "baixa definição", simplesmente porque poucas informações visuais são fornecidas. O telefone (tradicional) é um meio legal ou um de baixa definição, porque o ouvido recebe uma quantidade insuficiente de informações. [...] E a fala é um meio legal de baixa definição, porque tem pouco dados e muitos têm que ser preenchidos pelo ouvinte (p. 31, tradução nossa).
Figura 5 – Características e classificação da Mídia
Fonte: McLUHAN (2003)
Abrangendo os aspectos relacionados à evolução das redes, as novas
tecnologias da informação estão integrando o mundo em redes globais de
39 instrumentalidade. Assim, a comunicação mediada por computadores gera uma gama enorme de comunidades virtuais (CASTELLS; CARDOSO, 2005).
Relacionado ao mesmo tema, Cardoso (2006), deixa em evidência que:
Na sociedade em rede, a organização e o desenvolvimento do sistema de mídia dependem em grande parte de como nos apropriamos socialmente da mídia. É através do modo como atribuímos papéis sociais - de informação, entretenimento, ação e organização - a cada uma das mídias, a maneira como projetamos as redes de interdependência entre elas (p. 24, tradução nossa).
Como é indicado pela Organização Digital MOT (2018), nesse ambiente de rede é onde as mídias sociais são desenvolvidas, como mais um componente do grande conjunto das mídias:
Desde que a humanidade reconheceu a importância da comunicação entre diferentes pontos do mapa para os mais diversos propósitos, as redes sociais estavam estabelecidas. Provavelmente, tudo começou com um mensageiro de sandálias e túnica de linho, lendo em praça pública recadinhos da realeza escritos em pergaminhos e esperando a notícia correr solta. Até que a internet permitiu a evolução do formato para os sites que conhecemos hoje, como Facebook e Twitter (p. 2).
Desta forma, o desenvolvimento das mídias sociais tem sido tão rápido que quase sem percebê-lo, elas produziram mudanças importantes no modo de vida de muitas das sociedades ocidentais.
Como exemplo, nos últimos dez anos o Spotify faliu as gravadoras; o
Netflix faliu as locadoras; o Booking complicou as agências de turismo; o Google
faliu a Listel, Páginas Amarelas e as enciclopédias; a Trivago está complicando
os hotéis; o Whatsapp está complicando as operadoras de telefonia; as redes
sociais estão complicando os veículos de comunicação; o Uber está competindo
com os taxistas; a OLX acabou com os classificados de jornal; o Smartphone
acabou com as revelações fotográficas e com as câmeras amadoras; o Zip Car
está complicando às locadoras de carros; o E-mail já complicou a vida dos
Correios; o Waze acabou com o GPS; os bancos Original e Nubank estão
ameaçando o sistema bancário tradicional; a Nuvem complicou a vida dos Pen
Drive; o Youtube complica a vida das TVs porque os adolescentes não assistem
mais canais abertos; o Facebook complicou a vida dos portales de conteúdo e
com os Banco online a gente nem precisa mais ir nas agências (MAIA, 2018).
40 O CONFLITO ATUAL
Nesta seção, a abordagem foi concentrada principalmente nos conceitos guerra híbrida, MDB (Multi Domain Battle) e MDO (Multi Domain Operations).
Estes últimos desenvolvidos pelo Exércitos dos Estados Unidos em consideração à sua experiência nos últimos conflitos internacionais e como uma maneira de responder às ameaças atuais que surgem nos diferentes cenários.
Este modo de apresentação foi escolhido, considerando que os conceitos tradicionais de ‘‘conflito’’ e ‘‘guerra’’, junto com suas derivações, como guerra regular, guerra irregular, guerra simétrica e guerras de diferentes gerações, têm sido amplamente estudados e desenvolvidos nos últimos dez anos por diferentes autores, sob diferentes olhares e prismas.
Guerra híbrida
A Real Academia Espanhola define o termo ´guerra` como ‘‘luta armada entre duas ou mais nações ou entre lados da mesma nação’’, ‘‘oposição de uma coisa com outra’’ ou ‘‘luta ou combate, mesmo em um sentido moral’’. Quanto ao termo ´híbrida`, é definido como ‘‘algo que é o produto de elementos de natureza diferente’’.
Uma primeira abordagem sobre a definição do conceito de guerra híbrida, pode ser entregue por Standish (2018), que a esse respeito indica:
Guerra Híbrida é uma estratégia milita que mescla táticas de guerra política, guerra convencional, guerra irregular, e ciberguerra com outro métodos de influência, tais como fake news, diplomacia, leis e intervenção eleitoral externa (p. 1, tradução nossa).
Uma aproximação mais completa do conceito, é a que Otaiku (2018) oferece, citando o general russo Valeriy Gerasimov como fonte de referência, que em fevereiro de 2013 escreveu um artigo sobre o assunto chamado “O valor da ciência está na previsão”:
A guerra híbrida é uma estratégia militar que mistura guerra convencional, guerra irregular e guerra cibernética. [...] A guerra híbrida pode ser usada para descrever a dinâmica flexível e complexa do espaço de batalha, exigindo uma resposta altamente adaptável e resiliente. [...] Há uma variedade de termos usados para se referir ao conceito de guerra híbrida: guerra híbrida, ameaça híbrida ou adversário híbrido, assim como guerra não-linear, guerra não- tradicional ou guerra especial. Os corpos militares dos EUA tendem a
41
falar em termos de uma ameaça híbrida, enquanto a literatura acadêmica fala de guerra híbrida (p. 3, tradução nossa).
Complementando o acima exposto, a figura apresentada por Leal (2016) ajuda a esclarecer as definições anteriores.
Figura 6 –
Representação gráfica do Continuum do conflito
Fonte: LEAL (2016)
Otaiku (2018) também deixa em evidência e levanta outros conceitos relacionados à guerra híbrida, que são de grande importância na hora de se fazer um estudo completo das características desse tipo de guerra, bem como das maneiras pelas quais ela pode ser enfrentada. Nesse sentido, ele menciona:
[...] A importância das “operações de influência” da guerra híbrida, onde é difícil discernir um começo ou mesmo um fim às hostilidades ou uma forma de guerra permanente na qual é cada vez mais difícil distinguir entre atividades jurídicas normais, diplomacia coercitiva e guerra. [...] A teoria da estratégia ‘‘antecipatória’’ de guerra híbrida;
onde, guerra híbrida não estatal (lugares como Chechênia e Líbano, e mais tarde aplicada ao Afeganistão e Iraque) e guerra híbrida estadual (ações russas na Ucrânia) se torna um modelo unificador conceitual para facilitar o entendimento militar pós-operações (p. 1, tradução e grifo nosso).