UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO
PRISCILLA RAPHAELLA OLIVEIRA LOPES DE ARAÚJO
O PROGRAMA MAIS MÉDICOS E O DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA: O CASO DOS MÉDICOS CUBANOS
FORTALEZA 2015
PRISCILLA RAPHAELLA OLIVEIRA LOPES DE ARAÚJO
O PROGRAMA MAIS MÉDICOS E O DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA: O CASO DOS MÉDICOS CUBANOS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à disciplina Monografia Jurídica do Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do Título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne
FORTALEZA 2015
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação Universidade Federal do Ceará
Biblioteca da Faculdade de Direito
A663p Araújo, Priscilla Raphaella Oliveira Lopes de.
O Programa Mais Médicos e o descumprimento da legislação trabalhista: o caso dos médicos cubanos / Priscilla Raphaella Oliveira Lopes de Araújo. – 2015.
54 f. : 30 cm.
Monografia (graduação) – Universidade Federal do Ceará, Faculdade de Direito, Curso de Direito, Fortaleza, 2015.
Orientação: Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne.
1. Saúde Pública – Brasil. 2. Igualdade perante a lei – Brasil. I. Título.
CDD 344
PRISCILLA RAPHAELLA OLIVEIRA LOPES DE ARAÚJO
O PROGRAMA MAIS MÉDICOS E O DESCUMPRIMENTO DA LEGISLAÇÃO TRABALHISTA: O CASO DOS MÉDICOS CUBANOS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à disciplina Monografia Jurídica do Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para a obtenção do Título de Bacharel em Direito.
Aprovada em ___/___/_____
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________________
Profa. Dra. Tarin Cristino Frota Mont’Alverne (Orientadora) Universidade Federal do Ceará (UFC)
___________________________________________________
Prof. Me. William Paiva Marques Júnior Universidade Federal do Ceará (UFC)
___________________________________________________
Mestrando Francisco Tarcísio Rocha Gomes Júnior Universidade Federal do Ceará (UFC)
A Deus.
À minha mãe, Cláudia
Aos meus irmãos, Raphael e Carol.
Ao meu marido João Henrique.
À Júlia.
AGRADECIMENTOS
A Deus por sua presença constante em minha vida.
À Professora Tarin Cristino Frota Mont'Alverne por ter aceitado, gentilmente, ser minha orientadora neste estudo. Obrigada pela dedicação, competência e solicitude com a qual desempenha suas atividades em nossa Faculdade e pelos ensinamentos (e paciência!) na magnífica orientação que me prestou.
Aos demais membros da banca avaliadora, Professor William Paiva Marques Júnior e Mestrando Francisco Tarcísio Rocha Gomes Júnior, pela gentileza da aceitação em contribuir com o aprimoramento deste estudo. Meus agradecimentos pelas lições aprendidas!
À minha mãe, Claudia Aracoeli Oliveira Lopes, pelo exemplo de honestidade e força diante das dificuldades que já passamos, pelo incentivo e ensinamento da importância da educação em minha vida e, principalmente, pelo exemplo profissional de dedicação, responsabilidade e cuidado com o próximo.
Aos meus irmãos, Raphael e Ana Carolina, pela parceria de toda vida e pelo apoio que sempre deram aos meus estudos.
Ao meu marido, João Henrique, que acompanha minha caminhada em busca de minha formação em Direito desde a fase do curso pré-vestibular. Agradeço pelo apoio incondicional que sempre me deu e pelo grande exemplo de dedicação e vitória que representa para mim.
Ao Banco do Brasil, empresa da qual faço parte a mais de quatros anos, que tanto incentiva a qualificação profissional de seus funcionários. Em especial a todos os gerentes que tive, desde que lá entrei, quando ainda cursava o segundo semestre da faculdade, que durante toda essa caminhada foram flexíveis e compreensíveis quando da necessidade de ajustes nos horários de trabalho para evitar qualquer prejuízo na realização de estágios e atividades complementares necessárias para minha graduação.
Aos meus colegas de trabalho, e amigos para vida, Graça Barreto, Denise Sucupira e Paulo Mesquita, pelo apoio e incentivo, em diferentes aspectos, à conciliação do meu trabalho e das minhas atividades na faculdade.
Ao amigo-irmão, Saullo Oliveira, por todos os momentos que compartilhamos nestes últimos cinco anos, por todas as vezes que me ajudou em
questões que envolviam atividades acadêmicas, pelas orações direcionadas a mim e a minha família quando tanto precisamos e pela alegria que sempre me trouxe no nosso convívio. Obrigada por tudo! Desejo que seja apenas o início de uma história de amizade para a vida toda.
Aos colegas das turmas Direito 2015.1, em especial a Bruna, Lidiane e Leandro.
Enfim, a todos aqueles que contribuíram com a conclusão deste trabalho e com minha trajetória na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará.
RESUMO
Apontam-se as irregularidades do Programa Mais Médicos no âmbito dos direitos trabalhistas. Este programa não reconhece as garantias trabalhistas expressas no ordenamento jurídico brasileiro. Mesmo sendo evidente a vinda de médicos estrangeiros para suprir a carência destes profissionais em muitas comunidades, os médicos participantes não possuem seus vínculos empregatícios reconhecidos, recebendo tratamento como participantes de um curso de especialização. Além do não reconhecimento dessas relações trabalhistas, o programa apresenta uma afronta ao princípio da isonomia ao não pagar o valor da bolsa-formação, como estipula a Lei nº 12.871/2013, aos médicos cubanos. A bolsa é paga a todos os médicos participantes do programa diretamente pelo Governo Federal, com exceção dos médicos cubanos. Estes recebem apenas parte do valor da bolsa repassado pelo Brasil para o governo de Cuba, por intermédio da OPAS. O não reconhecimento dos direitos trabalhistas e o desrespeito ao princípio da isonomia são ofensas tanto às leis brasileiras quanto às convenções internacionais ratificadas pelo Brasil.
Destaca-se a importância de uma intervenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) na tentativa de reverter esse quadro de retrocesso das conquistas na esfera trabalhista.
Palavras-chave: Programa Mais Médicos; OIT; princípio da isonomia
ABSTRACT
It points out the irregularities in the Mais Médicos Program under the labour law. This program does not recognize the labor rights expressed in the Brazilian legal system.
Even being evident the coming of foreign doctors to meet the shortage of these professionals in many communities, the participating physicians do not have their recognized employment relationships, getting treatment as participants in a specialization course. In addition to the non-recognition of these labor relations, the program presents an affront to the principle of equality by not paying the scholarship value to the Cuban doctors, as required by the Law no. 12,871/2013. The scholarship is paid to all physicians participating in the program directly by the Federal Government, with the exception of Cuban doctors. They receive only part of the scholarship amount transferred by Brazil to the Cuban government, through PAHO.
The non-recognition of labor rights and disrespect the principle of equality are both offenses to Brazilian laws regarding the international conventions ratified by Brazil. It highlights the importance of action by the International Labour Organization (ILO) in an attempt to reverse this setback framework for achievements in labor.
Keywords: Mais Médicos Program; ILO; principle of equality
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 9
2 DIREITO INTERNACIONAL E A GLOBALIZAÇÃO... 12
2.1 A Globalização e as consequentes transformações ocorridas na sociedade... 12
2.2 A interferência da Globalização no conceito clássico de soberania... 15
2.3 Organizações Internacionais e sua importância no contexto da Globalização... 17
3 DIREITO INTERNACIONAL DO TRABALHO... 20
3.1 Breve histórico do Direito Internacional do Trabalho... 20
3.2 Organização Internacional do Trabalho... 24
3.3 Princípios do Direito Internacional do Trabalho... 26
3.4 O princípio da isonomia no Direito Internacional do Trabalho e no ordenamento jurídico brasileiro... 30
4 O DESRESPEITO AOS DIREITOS TRABALHISTAS NO PROGRAMA MAIS MÉDICOS... 33
4.1 Programa mais médicos... 33
4.2 A tentativa de desvirtuar o caráter empregatício do Programa Mais Médicos... 36
4.3 Tratamento diferenciado dispensado aos médicos cubanos... 40
4.4 A relativização dos direitos trabalhistas... 43
4.5 Condições de trabalho no Programa Mais Médicos: o caso dos cubanos... 45
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 48
REFERÊNCIAS... 50
9 1 INTRODUÇÃO
Faz parte da história e evolução da humanidade a progressiva interdependência entre os povos. Desde tempos remotos há indícios de relações entre povos distintos. Entretanto é no contexto recente e atual que se destaca o encurtamento de distâncias chamado de globalização. O surgimento deste fenômeno, diretamente relacionado com o surgimento do capitalismo e a expansão do comércio, é potencializado nos dias atuais devido à dominação de meios de comunicação instantâneos.
Devido a esse estreitamento de relações e a cada vez maior interação entre países, surgiu a necessidade de um ordenamento no âmbito internacional para regular tal proximidade.
Tratar de regulação internacional remete diretamente à questão da soberania de cada nação em contraponto ao controle internacional. No momento pós Primeira Guerra Mundial aumentou o interesse em criar organismos internacionais que pudessem intermediar conflitos que envolvessem diferentes nações, no intuito de minimizar as chances de conflitos armados e, consequentemente, de perdas relacionadas às guerras, assim como a busca pela justiça social no mundo.
Essa busca de justiça social no mundo faz uma ligação direta com o desenvolvimento do Direito Internacional do Trabalho e a criação da Organização Internacional do Trabalho. Com o avanço do liberalismo e da exploração laboral, fez- se necessária essa internacionalização da proteção da classe trabalhadora. A OIT é símbolo da luta por respeito ao trabalho e dignidade do trabalhador. Por meio de suas convenções traz garantias que podem aliar o desenvolvimento econômico das nações à justiça social do povo.
Lado a lado com os avanços do direito internacional do Trabalho, o Brasil é uma nação que, além de ser signatário de muitos tratados internacionais, traz em seu ordenamento interno muitas regras de proteção ao trabalhador, com destaque para o artigo 7º da Constituição Federal e a Consolidação das Leis do Trabalho.
O interesse por esse estudo surgiu com a criação do Programa Mais Médicos do Governo Federal em 2013. Uma das finalidades do programa foi trazer médicos do exterior para trabalhar no atendimento primário do Sistema Único de Saúde, principalmente em regiões periféricas que possuem ausência ou deficiência de
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médicos para atendimento. A lei que regulamenta este programa deixa claro não existir qualquer vínculo trabalhista e que a atividade desempenhada pelos médicos participantes não representa prestação de serviço; deixa claro ser um curso de especialização.
Assim, os médicos do programa não possuem direitos básicos de nossa legislação trabalhista, tais como o décimo terceiro salário e as férias remuneradas, bem como não recebem salário; o valor que recebem é classificado como uma bolsa. Além disso, tal programa é uma afronta a convenções internacionais ratificadas pelo Brasil que tratam da isonomia no trabalho. Isto se configura quando o governo brasileiro não paga, diretamente aos médicos cubanos, a Bolsa devida segundo a lei do programa, como faz com médicos das outras nacionalidades, mas a repassa para o Governo de Cuba por intermédio da Organização Pan-americana de Saúde. O não reconhecimento dos direitos trabalhistas dos participantes deste programa é uma grande afronta aos direitos até aqui conquistados.
Este trabalho está dividido em três partes. A primeira parte apresenta a questão da globalização e sua relação com o conceito de soberania e o histórico do Direito Internacional. Trata da importância das Organizações Internacionais e das transformações ocorridas com a globalização na sociedade e seus reflexos na questão de conflitos de direitos.
A segunda parte busca mostrar a evolução do Direito Internacional do Trabalho e a criação da Organização Internacional do Trabalho, destacando sua importância na tentativa de buscar melhores garantias aos trabalhadores por meio de convenções. Trata dos princípios internacionais do trabalho com ênfase no princípio da Isonomia. Estuda-se este princípio, tanto no que diz respeito às convenções da OIT como também no ordenamento jurídico brasileiro.
A terceira parte busca expor as contradições existentes no Programa Mais Médicos. Nela é evidenciada a tentativa de mascarar o caráter empregatício do programa quando este é tratado na lei como curso de especialização, a privação de direitos trabalhistas garantidos por convenções internacionais e pelas normas trabalhistas brasileiras, além do tratamento não isonômico dispensado a médicos cubanos. Essas questões são trazidas sem deixar de reconhecer a importância desse programa para as comunidades que, até então, sofriam sem com a falta de médicos.
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Dessa forma, o trabalho tem como objetivo analisar o Programa Mais Médicos do Governo Federal com ênfase no desrespeito ao princípio da isonomia e da legislação trabalhista brasileira e internacional, com uma breve análise do desenvolvimento do direito internacional do trabalho.
A metodologia utilizada na monografia baseou-se em um estudo descritivo analítico, desenvolvido através de pesquisa bibliográfica, mediante explicações embasadas em trabalhos publicados em forma de livros, de revistas, de artigos e de dados oficiais publicados na internet, assim como reportagens veiculadas em diversos meios de comunicação.
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2 DIREITO INTERNACIONAL E A GLOBALIZAÇÃO
As mudanças ocorridas em consequência da globalização, como a maior interação entre as Nações, o desenvolvimento do capitalismo e a crescente crise social e desvalorização do trabalhador no mundo, acabou por fortalecer a necessidade de um Direito Internacional atuante na solução de conflitos e problemas que envolvem mais de um Estado.
As organizações internacionais são símbolos da busca de cooperação entre as nações, objetivando minimizar conflitos e, normatizando e fiscalizando a atuação de países membros. Isso se dá em virtude da dificuldade de regulamentar determinadas matérias apenas com base em normas internas.
Atualmente, as organizações internacionais possuem um papel de importância inquestionável, para além da solução de conflitos, na promoção de justiça social, na busca por maneiras de, em diversos setores, tais como educação, saúde e trabalho, por exemplo, garantir uma vida digna a todos.
2.1 A Globalização e as consequentes transformações ocorridas na sociedade
Para o estudo das relações de trabalho internacionais, é necessário entender como se dá a interação entre os países no que se trata do Direito. No atual contexto socioeconômico e cultural internacional, os países estão cada vez mais interligados e dependentes entre si, o que é uma importante característica deste século. Entretanto, essas relações vêm se solidificando durante a história das sociedades. É uma realidade atual, reflexo de séculos de desenvolvimento e interação entre as nações que ocasionaram uma interdependência entre elas.
Esse processo que interliga países, encurta distâncias e diminui as diferenças é chamado de globalização. Ela é um fenômeno cultural, econômico e político que unifica as relações do planeta como um todo.
A compreensão deste fenômeno, globalização, remete, em especial, à formação do estado moderno que está diretamente ligado ao surgimento do capitalismo. Entretanto é possível encontrar resquícios mais antigos.
Como trata Sousa (2011, p.1):
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A globalização remonta a origem do homem na terra, claro que com outras características e com outros delineamentos. O certo é que, este sistema vem evoluindo de acordo com as necessidades humanas e com as exigências mundiais. O grande avanço deve-se a queda do muro de Berlim, ao fim do socialismo, a expansão do capitalismo e do neoliberalismo, após a Segunda Grande Guerra Mundial e com o avanço da Comunidade Comum Européia.
Ou seja, a globalização é consequência da necessidade que a civilização tem demandado nos últimos tempos. A expansão do comércio, com as grandes navegações, foi um marco para a maior integração do planeta. Consequentemente, o crescimento do capitalismo e a ambição por novos mercados desencadeou guerras. O pós-Segunda Guerra Mundial trouxe à tona a importância de algumas garantias nas relações internacionais e alertas para as relações dessa “aldeia global”
que cada vez mais estreita suas relações.
Esse desenvolvimento histórico da globalização, tratado no estudo de Castanho (2003), é dividido em etapas às quais denomina de marés: antifeudal, mercantil, industrial, imperialismo, capitalismo monopolista e globalização contemporânea. Essas etapas estão relacionadas diretamente ao desenvolvimento econômico das sociedades e às mudanças históricas que foram sendo conduzidas pelo avanço das relações entre as nações. Tais etapas propostas confundem-se com o desenvolvimento do capitalismo.
As necessidades humanas, como cita Sousa (2011), e essas fases históricas apresentadas por Sérgio Castanho direcionaram e impulsionaram a globalização.
Segundo Bauman (1999, p.67),
O significado mais profundo transmitido pela idéia da globalização é o do caráter indeterminado, indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; a ausência de um centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete administrativo.
Bauman traz este conceito esclarecedor a respeito da globalização ao tratar da ausência de centro. Hoje em dia, as relações internacionais promovem uma interdependência global. Não obstante haver países mais ricos e que possuem grandes vantagens econômicas em detrimento de outros, não há um núcleo diretivo da globalização. Ela é um fenômeno compartilhado e relacionado com toda comunidade internacional.
Segundo Held e Mcgrew (2001), a globalização refere-se a padrões arraigados e duradouros de interligação mundial. Ela denota a escala crescente, a
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magnitude progressiva, a aceleração e o aprofundamento do impacto dos fluxos e padrões inter-regionais de interação social.
É notória a intensificação da globalização nos dias atuais. A principal responsável por vivenciarmos esse fenômeno intensamente é a massificação dos meios de comunicação. Hoje, a informação se propaga por todo o planeta de maneira instantânea.
Os aspectos determinantes da globalização são o econômico, o financeiro e o tecnológico. Entretanto ocorrem consequências consideráveis nos campos político-estadual, social e cultural. (KLAES, 2006)
No aspecto político-estadual, ocorre uma mudança de postura do Estado em relação aos seus compromissos com seus cidadãos, como explica Klaes (2006, p.8):
O Estado passou de simples provedor de serviços básicos no século XIX, a atuar como produtor direto de bens e serviços, transformando-se no que ficou conhecido como Estado Providência ou "Welfare State", cuja função básica era promover o crescimento econômico e político, ao mesmo tempo em que assegurava a proteção dos cidadãos e dos direitos sociais, tendo seu apogeu entre 1950 e 1960.
Providência foi o adjetivo atribuído ao Estado de Bem-Estar Social por inspiração keynesiana. Este é um modelo de organização política e econômica, adotado na segunda metade do século XX em uma grande parte dos países europeus. Neste o modelo o Estado assume a função de agente protetor, defensor e organizador social. O Estado passa a ser o regulador de toda a vida e saúde social, política e econômica do país (CREMONESE, 2008). Assim, o Estado passa a ser responsável direto pelas condições básicas de vida de seus cidadãos: saúde, educação, segurança, condições de trabalho e tudo mais que garanta uma vida digna.
No aspecto social, há um destaque para o aumento da exclusão e da desvalorização do trabalhador em consequência da busca desenfreada por acúmulo de riquezas. Como bem trata Klaes (2006, p. 8):
O atual padrão mundial de acumulação do capital e desenvolvimento social, com base nas novas tecnologias, no domínio das informações e no saber, reforça a exclusão social e reduz a oferta de empregos produtivos, desvalorizando o trabalhado e o trabalhador, embora aumente a oferta de serviços, que supervaloriza a competitividade em prejuízo da solidariedade, da justiça e da equidade, estimulando os conflitos sociais, étnicos, nacionais e religiosos.
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O incentivo à competição com outros mercados e o consequente investimento em altas tecnologias acaba gerando um impulso na crise social, marginalizando pessoas e contribuindo para o crescimento de uma classe de miseráveis (KLAES, 2006). Esta é uma das piores consequências da globalização.
Está cada vez mais difícil conciliar o aumento da competitividade e o desenvolvimento da economia com a prosperidade das condições e oportunidades de trabalho no mundo.
Do ponto de vista cultural são várias as consequências. A tendência de uniformização do consumo, com o auxílio da mídia, o que faz com que, por exemplo, cada vez mais as pessoas de diferentes países usem as mesmas roupas, utilizem os mesmos produtos e gostem dos mesmos estilos musicais. Além disso, em decorrência das facilidades de comunicação, é cada vez mais comum o surgimento, aos olhos de todos, de costumes e características culturais que até então eram restritas a um pequeno espaço, despertando o interesse no multiculturalismo mundial. Sobre a cultura globalizada Klaes (2006, p. 9) explica:
A globalização desenraíza as pessoas, as idéias e as coisas. Ao mesmo tempo são nacionais e são também globais. Nesse sentido, se desenvolve a desterritorialização, que se refere à descentralização das estruturas de poder político, econômico, social, cultural, étnico e ideológico, sem qualquer localização em uma região específica, a um modo de ser isento de tempo e espaço, favorecendo a universalização de valores e a mudança de tudo o que permanece territorializado.
2.2 A interferência da Globalização no conceito clássico de soberania
O fenômeno chamado de globalização reflete em todos os aspectos. Um deles é a relação cada vez mais estreita entre as nações, gerando assim a necessidade de regras internacionais a serem seguidas para que seja garantida a integridade nas relações internacionais.
Ao cogitar regras para o controle internacional, é inevitável pensar na questão da soberania de cada Estado e na aparente contrariedade existente no fato de uma nação ter o dever de seguir determinada orientação internacional, sem ofender sua própria soberania.
Segundo Varella (2012, p. 260), sobre a clássica denominação de soberania:
Bodin divide a soberania em duas fases: uma interna, outra externa.
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Internamente, a soberania legitima a unificação nacional, o fortalecimento do poder estatal centralizado nas mãos do rei. Externamente, garante o respeito da comunidade internacional à exclusividade do domínio do rei sobre seu território. Logicamente, o rei era o único que poderia determinar quais os interesses do Estado, tanto internos quanto externos. Tal poder soberano era absoluto, ilimitado, irrevogável.
(...) A soberania em Hobbes não pode ser anulada nem questionada. O soberano não pode ser punido. Esse é o único juiz da legitimidade das opiniões e da confiança de que se dispõe. Ele tem o direito de legislar as regras para seu governo, de resolver as controvérsias, de fazer a guerra e celebrar a paz, de escolher seus conselheiros, magistrados e oficiais e de impor obrigação a seu povo. Esses direitos são absolutos, indivisíveis, ilimitados; eles são considerados por Hobbes como condição sine qua non da existência da própria soberania.
Essa tradicional ideia de soberania como sendo um poder absoluto não pode ser mantida diante do atual cenário das relações internacionais. A necessidade de interação das nações não permite mais esse conceito.
Para Varella (2012), a soberania se consolida por meio de capacidades e competências. As capacidades estão relacionadas à vida internacional. As competências estão relacionadas à vida interna.
A soberania no âmbito interno traz a ideia de supremacia. É o poder maior dentro de uma nação. O poder de exercer o domínio sobre seu território. Já a soberania no âmbito externo, traz a ideia de autonomia. Nas relações entre estados, por exemplo, é opção de um estabelecer relações diplomáticas com outro, ou ainda, optar por participar ou não de um determinado acordo internacional.
Segundo Matos e Siqueira (2010, p. 4):
...o princípio da soberania é fortemente corroído pelo avanço da ordem jurídica internacional. A todo instante reproduzem-se tratados, conferências, convenções, que procuram traçar as diretrizes para uma convivência pacífica e para uma colaboração permanente entre os Estados. Os múltiplos problemas do mundo moderno, alimentação, energia, poluição, guerra nuclear, repressão ao crime organizado, ultrapassam as barreiras do Estado, impondo-lhe, desde logo, uma interdependência de fato. À pergunta de que se o termo soberania ainda é útil para qualificar o poder ilimitado do Estado, deve ser dada uma resposta condicionada. Estará caduco o conceito se por ele entendermos uma quantidade certa de poder que não possa sofrer contraste ou restrição. Será termo atual se com ele estivermos significando uma qualidade ou atributo da ordem jurídica estatal. Neste sentido, ela – a ordem interna – ainda é soberana, porque, embora exercida com limitações, não foi igualdade por nenhuma ordem de direito interna, nem superada por nenhuma outra externa.
Dallari (1988) comenta que, para Duguit, a soberania, sendo concebida como um direito subjetivo, é um poder de vontade. A vontade soberana é, em essência, superior a todas as demais vontades que se encontrem no território submetido a ela. As relações entre a vontade soberana e as demais, não-soberanas,
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são relações entre vontades desiguais, entre superior e subordinadas; é também um poder de vontade independente. Sua preocupação ao mencionar o poder de vontade independente, dirige-se mais ao âmbito externo do Estado, pois, segundo ele, o poder soberano não admite que qualquer convenção internacional seja obrigatória para o Estado, o que torna inviável a existência de um direito internacional.
Segundo Dallari (1998, p. 35),
A resposta a essa crítica de DUGUIT é dada pelo que se convencionou chamar de teoria a autolimitação do Estado, pela qual este, desde que o entenda conveniente, pode assumir obrigações externas, como pode fixar regras jurídicas para aplicação interna, sujeitando-se voluntariamente às limitações impostas por essas normas. O primeiro grande defensor dessa teoria foi IHERING, que a justificava argumentando que, na verdade, essas limitações não implicam diminuição, uma vez que o Estado se sujeita a elas no seu próprio interesse.
Quando uma Nação se associa a outra para determinado interesse internacional, isso acontece por livre decisão da nação. Assim não podemos falar que ela teve sua soberania violada. Pelo contrário, está exercendo sua soberania ao fazer qualquer associação com outros países. Além disso, uma nação pode, por um interesse maior, abrir mão de decidir sobre determinado assunto e dar poder a uma Organização Internacional para agir em seu nome. Dessa forma, o estado tem autonomia para firmar compromissos e obrigações com a comunidade internacional.
Assim, no atual contexto, há a necessidade da flexibilização do conceito clássico de soberania ao aceitar a necessidade de um controle internacional no que se refere a determinados quesitos, como a questão ambiental e os direitos humanos.
Essas questões devem estar além dos interesses de cada nação.
2.3 Organizações Internacionais e sua importância no contexto da Globalização
O Século XX apresentou um grande crescimento do Direito Internacional.
Foi durante este século que surgiram os primeiros organismos internacionais que visavam a solução de questões de interesse comum.
O crescimento das cidades, a maior interação comercial, o desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte, bem como a circulação de trabalhadores de diferentes estados, entre outros fatores, passaram a dificultar a resolução de algumas questões apenas no âmbito nacional.
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Os organismos internacionais surgem como uma alternativa necessária para a solução de importantes questões de interesse de diferentes estados.
Assim, surgiram as primeiras conferências internacionais e acordos multilaterais de questões do interesse das nações.
As raízes das organizações internacionais se encontram no Congresso de Viena, devido à iniciativa e desenvolvimento da diplomacia multilateral. Em seguida veio a Liga das Nações como fortalecedora dessa interação.
Para Guerra (2014, p. 232),
A Liga das Nações tratava-se de uma organização intergovernamental de natureza permanente, baseada nos princípios da segurança coletiva e da igualdade entre os Estados e suas atribuições essenciais estavam assentadas em três grandes pilares: segurança internacional; a cooperação econômica e humanitária; e a execução do Tratado de Versalhes que pôs termo à Primeira Guerra Mundial.
Entretanto, o avanço do crescimento econômico e comercial exigiu uma criação de organismos institucionalizados voltados a questões que exigiam maior atenção para estas nações. Não apenas para solucionar questões pontuais entre determinados países, mas para garantir algumas questões de interesse de todos e planejamento de ações que venham a beneficiar as nações sobre determinados assuntos em comum.
Assim surgem as diversas Organizações Internacionais. As Nações Unidas (depois ONU) foram seguidas pela criação de inúmeras Organizações Internacionais que buscam a atuação em algum setor de interesse comum, devido à cada vez maior necessidade de acompanhar o intenso intercâmbio internacional do mundo contemporâneo. (OLIVEIRA, V., 2010)
No contexto da globalização, a criação de organizações internacionais é de grande importância. Os relacionamentos entre nações estão cada vez mais estreitos e, em muitas situações, há a necessidade de negociações internacionais, como explica Creuz (2009, p. 214):
Nos relacionamentos externos, os Estados são obrigados, direta ou indiretamente, a tratar, na esfera política, de questões econômicas e jurídicas, que sempre terão reflexos sociais. Nessas negociações internacionais, os interesses diretos muitas vezes não são revelados, ou por motivos diversos, as questões são tratadas de forma que acabam por desviar o norte das tratativas. Assim, surgem as organizações internacionais como elementos centralizadores de debates ou instituidores e reguladores de soluções de controvérsias ou até mesmo fontes normativas e de direito, dada a possibilidade regulatória e coercitiva de uma organização internacional dotada de personalidade jurídica.
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Durante séculos, por rivalidades e conflitos associados à demarcação de fronteiras, as relações entre os Estados foram caracterizadas pela disputa por recursos naturais e por ameaças à soberania. Mas com o avanço da globalização, o progresso técnico, o desenvolvimento das atividades econômicas e, consequentemente, as trocas comerciais entre os países, levaram a uma crescente interdependência entre as economias, gerando assim um outro tipo de relacionamento. A rivalidade considerada até então, abre espaço para a cooperação, que se traduz em celebração de acordos entre Estados, com a busca de realização de objetivos comuns. (DIAS, 2013).
Sobre o surgimento das organizações internacionais para alcançar a paz mundial, Lima (2012) também explica que “o motivo principal do surgimento das organizações internacionais foi a necessidade da manutenção da paz na comunidade internacional, evitando-se que os possíveis litígios entre dois ou mais Estados fossem solucionados por meio da força. ”
A cooperação é a palavra chave que justifica a finalidade de uma Organização Internacional. É essa cooperação a base de todas as organizações que possuem como objetivo atingir um bem comum entre seus países integrantes.
O organismo internacional de grande relevância para este estudo é a Organização Internacional do Trabalho. Com o avanço da globalização e do capitalismo e, consequente, a maior exploração do trabalhador, a OIT surge com seu importante papel de normatização e fiscalização na busca de maiores garantias e condições dignas de trabalho para todos os cidadãos.
20 3 DIREITO INTERNACIONAL DO TRABALHO
Com o avanço da globalização e a maior inter-relação entre os países, as Organizações Internacionais assumem um importante papel na tentativa de equilibrar tal aproximação, solucionar conflitos e contribuir com a busca da justiça social. Nas questões trabalhistas é a Organização Internacional do Trabalho que assume esse papel. Com o desenvolvimento das relações trabalhistas, inclusive no âmbito internacional, a OIT através de suas convenções e recomendações busca um maior comprometimento das nações membros na garantia de condições dignas de trabalho. Em situações de desrespeito às convenções que tenham sido ratificadas por um país, a OIT deve assumir sua função de fiscalizar e garantir que estas sejam respeitadas.
3.1 Breve histórico do Direito Internacional do Trabalho
Após um estudo sobre o Direito Internacional será feita uma análise das relações internacionais diretamente associadas às questões trabalhistas. O início será com o histórico do Direito Internacional do Trabalho.
O trabalho sempre teve grande importância para uma sociedade, independente de época e cultura. Historicamente, o homem tem na consequência do seu trabalho o atendimento às suas necessidades, desde o homem primitivo, quando sua necessidade era ir à caça para garantir o alimento daquele dia, até hoje com o avanço da sociedade e o desenvolvimento das relações sociais que foram tornando as relações trabalhistas mais complexas.
Segundo Meireles (2014, p. 28):
O trabalho faz parte das nossas vidas. Manifestando-se quer como forma peculiar de transformar a natureza, quer como execução de atividade rotinizada, ou ainda mais modernamente como forma de obter meios tangíveis de garantir o próprio sustento, o trabalho é um desses conceitos fundantes – quase imponderáveis – da humanidade que são representados em diversas culturas e momentos históricos de forma variada, mas que estão sempre presentes. Como o trabalho, poderíamos citar outros conceitos de grande densidade tais como justiça, equidade, sociedade, humanidade, amor, liberdade e inúmeros outros que, por estarem tão intrinsecamente ligados à experiência humana, são tão difíceis de definir.
Assim, é de extrema importância a questão social do trabalho como parte da vida de um indivíduo, seja qual for o momento histórico ou lugar que se faça
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referência. Parte, essa, indispensável para a plenitude de uma vida digna.
No mundo atual o trabalho está em posição de destaque na vida social. A ocupação de uma pessoa representa sua identidade no meio dos demais. É o trabalho exercido por um indivíduo que traça suas prováveis atribuições individuais para a execução de uma determinada tarefa. O trabalho dá ao indivíduo um lugar na sociedade. (MEIRELES, 2014)
Com o avanço e complexidade das relações trabalhistas, a necessidade por regulamentações que garantissem que esse trabalho fosse realizado de forma digna surgiu naturalmente e tem se desenvolvido a cada geração, de modo obviamente paralelo ao avanço das relações socioeconômicas.
Sobre esse processo de mudanças nos últimos séculos, Crivelli (2010, p.
31) relata:
O cenário que permitiu a criação do processo internacional do trabalho formou-se através de um prévio e lento processo histórico que atravessou praticamente todo o século XIX. Este processo articulou, de um lado, lutas sociais, políticas e, de outro, o avanço do Estado Moderno. Este processo, contemporâneo à Revolução Industrial, foi precedido de grandes mudanças, nos séculos que o antecederam, na formação dos Estados e, finalmente, no direito, para que viesse a se tornar um processo exitoso no primeiro quartel do século XX.
Ou seja, a formação do Direito Internacional do Trabalho é fruto do desenrolar de acontecimentos históricos que levaram à necessidade e exigência de maior reconhecimento e garantias para a classe trabalhadora.
Na primeira metade do século XIX, Robert Owen, que publicou na Inglaterra as obras “New View of Society” (1812) e “The book ok New Moral World”
(1820), promoveu reformas sociais em sua própria fábrica, chamando atenção para a necessidade de implementação de medidas de proteção para os trabalhadores.
(BARROS, 2008)
Dentre outras manifestações que tiveram o poder de contribuir para o avanço na legislação trabalhista em âmbito global estão: a) A “Primeira Internacional Socialista”, em 1864, na qual Engels e Marx defendiam a necessidade de um movimento de internacionalização das medidas de proteção ao trabalho; b) O surgimento do movimento sindical na Inglaterra, no início do século XIX, que se difundiu por toda Europa e Estados Unidos na segundo metade desse mesmo século; c) A realização, em Bruxelas, do Primeiro Congresso Internacional de Legislação do Trabalho, bem como do Segundo Congresso, em Paris (1900), no
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qual foram aprovados os Estatutos da Associação Internacional da Proteção do Trabalhador, inspirando as duas primeiras convenções internacionais do trabalho.
(BARROS, 2008)
Segundo Soares Filho (2009, p. 3), sobre a relação do Direito Internacional do Trabalho e a busca do equilíbrio entre capital e trabalho:
O Direito Internacional do Trabalho, como fenômeno social e, especificamente, ligado à ciência jurídica, tem raiz histórica, representando um marco recente da evolução do Direito Internacional e do Direito do Trabalho. Surgiu já no início do século XX, por força da necessidade de estender a proteção ao trabalhador, do plano individual e do coletivo, no interior das nações, ao internacional, a fim de se estabelecer um desejável equilíbrio nas relações entre o capital e o trabalho na esfera mundial, indispensável para uma paz duradoura e o verdadeiro progresso humano.
Dentre os motivos que justificaram a criação do Direito Internacional do Trabalho (tanto históricos, quanto econômicos e sociais), destacam-se os econômicos, ressaltando a necessidade de equiparar os custos relativos aos encargos sociais. A intenção era que internacionalizar tais direitos permitiria que as nações que adotassem regras de proteção ao trabalho não fossem prejudicadas no comercio internacional pelas que não as adotassem. Fica claro que a não adoção de regras de proteção ao trabalho teria como consequência uma produção com custos mais baixos. (BARROS, 2008).
Crivelli (2010, p. 40) corrobora esta ideia do destaque aos motivos econômicos como justificativa para a criação do Direito Internacional do Trabalho ao afirmar que a celebração de tratados internacionais para definir uma legislação internacional do trabalho é atribuída ao político inglês Charles Hindley:
Em meio aos debates travados no Parlamento inglês, em resposta à alegada perda da competitividade como uma das consequências deste aumento do custo laboral, Hindley teria argumentado – ao ser ouvido no mencionado inquérito -, primeiro, com a compensação que seria possível com um avanço tecnológico da indústria local e, segundo, propôs como medida definitiva de combate a uma competição desigual baseada na aquisição de vantagens relativas – pelos países que não adotaram normas de proteção laboral ao trabalho infantil -, a adoção de tratados internacionais que regulassem a matéria como forma de extensão da proteção aos demais países europeus industrializados.
Apesar da grande relevância da questão econômica na busca da internacionalização das normas trabalhistas, a essência do Direito Internacional do Trabalho é de cunho social, questão impulsionada pelos ideais de difusão da justiça social no mundo.
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Soares Filho (2009, p. 2) relata a influência do liberalismo para a tomada de posição estatal na defesa de garantias mínimas dos trabalhadores:
A liberdade de contratar, instituída pelo liberalismo no surto inicial do desenvolvimento do capitalismo, com a abstenção do Estado, fundava-se no princípio da igualdade jurídica Ante a real desigualdade entre as partes, tanto do ponto vista econômico, quanto do jurídico, resultou em profundo desequilíbrio nas relações entre o capital e o trabalho, gerando grave problema de ordem pública denominado “questão social”, o que provocou a intervenção estatal nesse negócio jurídico, como meio indispensável para criar as condições mínimas de proteção e bem-estar para o trabalhador e sua família e, dessa maneira, restabelecer a paz social.
Ainda segundo Soares Filho (2009), foi diante dessas desvantagens que os trabalhadores resolveram se unir na busca de melhores condições de trabalho.
Foi neste contexto que eles se organizam em sindicatos para dirigir negociações diretamente com os empregadores, no sentido de orientar uma luta em busca de melhores condições de vida. O resultado direto desta ação foi a ideia de direito coletivo do trabalho, com o intuito de suplementar a legislação estatal e complementar os direitos dos trabalhadores.
A organização de sindicatos foi de grande importância na contribuição para melhoria das condições dos trabalhadores, e assim é até hoje, uma vez que tais entidades colaboram com a defesa dos direitos trabalhistas de forma organizada e direcionada.
Essa busca por melhorias trabalhistas, potencializada pelas consequências do liberalismo na exploração laboral e, concomitantemente, pelas consequências da 1ª Guerra Mundial fez surgir a Organização Internacional do Trabalho, símbolo da internacionalização da proteção da classe trabalhadora. Sobre essas relações, Soares Filho (2009, p. 2) explica:
À época, os empregadores estavam organizados em nível internacional, constituindo empresas transnacionais, regidas por normas de comércio aplicáveis além dos limites geográficos dos países e operando num sistema de economia globalizada. Por conseguinte, os trabalhadores se vêem ainda em situação de desvantagem e inferioridade perante os detentores do capital, apesar da proteção que lhes é dispensada, tanto pelo direito individual, quanto pelo direito coletivo do trabalho. Imperioso se torna, pois, que se estabeleçam normas protetoras do trabalho com essa mesma amplitude, isto é, de âmbito supraestatal. Advém, destarte, a internacionalização do Direito do Trabalho, que tem como marcos importantes, em 1919, o Tratado de Versalhes e a criação da OIT, a qual tem como objetivos a criação e aplicação dessas normas.
E Barros (2008, p. 4) complementa:
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Além disso, a destruição provocada pela 1ª Guerra Mundial tornou mais evidentes as falhas do liberalismo econômico e a necessidade de profundas transformações políticas e econômicas.(...). Começa-se a reconhecer a importância do respeito ao trabalho e à dignidade do trabalhador e a vincular o progresso econômico à justiça social. No plano interno, a Constituição mexicana, de 1917, e a Constituição de Weimar, de 1919, são excelentes exemplos dessa mudança no trato da questão social. As associações profissionais se fortalecem e o direito coletivo do trabalho ganha uma magnitude até então desconhecida. No plano internacional, para coroar todas essas transformações, um tratado de paz, o Tratado de Versalhes, de 1919, cria, de uma só vez, duas organizações internacionais de capital importância: a Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho.
Assim, surge a Organização Internacional do Trabalho, promovendo a Internacionalização do Direito do Trabalho e implementando maior proteção e progresso na defesa da classe trabalhadora.
Todo esse progresso nas questões do direito internacional apresenta reflexo na proteção das garantias trabalhistas em âmbito nacional. É esperado que com o passar do tempo os processos de produção normativa e de aplicação do direito interno sejam cada vez mais influenciados e buscados pela crescente internacionalização das relações entre Estados e indivíduos e a necessária harmonização entre os diversos ordenamentos. (MEIRELES, 2014)
3.2 Organização Internacional do Trabalho
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) foi criada em 1919 para normatizar de maneira universal as relações trabalhistas, refletindo os ideais de justiça e humanidade. Ela surgiu de uma demanda da classe trabalhadora por condições de vida mais dignas e está relacionada diretamente ao fim da Primeira Guerra Mundial.
Barros (2008, p. 6) trata em seu estudo dessa necessidade do trabalhador por melhoria em suas relações de trabalho e por uma vida mais digna:
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) foi concebida, num mundo que saía de uma guerra, assolado pela pobreza e pela miséria dos trabalhadores, com a finalidade de criar estrutura social que favorecesse a paz e a estabilidade. Desde sua criação, a Organização Internacional do Trabalho tem por finalidade promover o bem-estar material e a melhoria do ser humano, através da dignificação do trabalho e do trabalhador. Essa meta somente será atingida por meio da justiça social, da similaridade das condições de trabalho na ordem internacional e da segurança socioeconômica do homem, que vive do seu trabalho.
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O surgimento da OIT tem relação direta com as guerras que ocorreram na Europa no século XX. Foi criada em 1919 na Conferência da Paz (a mesma que aprovou o Tratado de Versailles). Portanto, é bem anterior à Organização das Nações Unidas (ONU) e estava ligada à criação da Liga das Nações.
A OIT simboliza um processo longo de evolução e acontecimentos históricos concomitante a luta da classe de trabalhadores por maior reconhecimento e respeito no exercício de suas atividades, como bem explica Meireles (2014, p.
135):
...a OIT é de fato a culminação dos movimentos pela defesa de melhores condições de trabalho que travaram muitas lutas no curso desse “longo século XIX”, tendo sido a Primeira Guerra Mundial um agente catalisador de forças em prol de uma legislação juslaboral de cunho internacional. A OIT é, portanto, fruto de uma ampla construção social e histórica que contou com a contribuição dos mais variados atores sociais: políticos, intelectuais, industriais, juristas, sociólogos, economistas e por óbvio, trabalhadores.
Em 1945, com o fim da 2ª Guerra Mundial, a ONU foi criada com o intuito de proporcionar um maior diálogo entre as nações na tentativa de evitar outros conflitos bélicos. A OIT passou a ser vinculada à ONU em 1946.
No contexto em que a OIT foi gerada, fica evidente que, pela primeira vez, se buscou a paz por meio do combate às causas que levaram historicamente a humanidade à guerra, como a pobreza, a fome e ao desemprego. A criação deste órgão teve como meta evitar a ocorrência de outro conflito semelhante à Primeira Guerra Mundial, como pode ser concluído de acordo com interpretação do preâmbulo da Constituição da OIT (PAMPLONA FILHO; BRANCO, 2014)
A OIT destaca-se em relação a outras organizações internacionais pela sua formação tripartite e por sua grande produção normativa. Ela é formada por representantes dos Governos, da classe trabalhadora e dos empregadores e age fiscalizando as ações de seus estados membros de acordo com suas convenções e recomendações.
A convenção da OIT traz em seu preâmbulo:
Considerando que existem condições de trabalho que implicam, para grande número de indivíduos, miséria e privações, e que o descontentamento que daí decorre põe em perigo a paz e a harmonia universais, e considerando que é urgente melhorar essas condições no que se refere, por exemplo, à regulamentação das horas de trabalho, à fixação de uma duração máxima do dia e da semana de trabalho, ao recrutamento da mão-de-obra, à luta contra o desemprego, à garantia de um salário que assegure condições de existência convenientes, à proteção dos trabalhadores contra as moléstias graves ou profissionais e os acidentes do
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trabalho, à proteção das crianças, dos adolescentes e das mulheres, às pensões de velhice e de invalidez, à defesa dos interesses dos trabalhadores empregados no estrangeiro, à afirmação do princípio "para igual trabalho, mesmo salário", à afirmação do princípio de liberdade sindical, à organização do ensino profissional e técnico, e outras medidas análogas(...)
Nenhum país possui condições de garantir proteção aos seus trabalhadores de maneira isolada. É necessária a parceria e contribuição de toda comunidade internacional para que seja evitada uma concorrência desleal entre as nações, sob o aspecto da precarização das relações de trabalho, o que prejudicaria qualquer tentativa de avanços na legislação de proteção trabalhista.
Para Filho e Branco (2014) a principal meta da OIT é a implementação do trabalho decente, o que demanda a adoção de políticas públicas com as seguintes orientações:
1. Gerar crescimento econômico que promova desenvolvimento;
2. Garantir a aplicação dos direitos do trabalho;
3. Fortalecimento da democracia;
4. Adoção de mecanismos de proteção adequados a realidade atual;
5. Combate à exclusão social.
A OIT possui uma amplitude que engloba tanto questões sociais quanto econômicas. Ela apresenta atividade normativa, possuindo várias convenções e recomendações. Uma das grandes inovações do Direito Internacional é o sistema de supervisão e controle de aplicação das normas da OIT. Quando um Estado signatário ratifica uma convenção ou tratado gera uma obrigação de aceitar os procedimentos que tem como fim controlar sua aplicação. (BARROS, 2008).
3.3 Princípios do Direito Internacional do Trabalho
O Direito Internacional do Trabalho é um ramo do Direito Internacional Público. Assim os princípios que regem o Direito Internacional do Trabalho estão contidos na Carta das Nações Unidas (a qual possui aqueles que embasam todas as relações internacionais) e na Constituição da OIT (os específicos: relacionados às questões trabalhistas).
Artigo 2. A Organização e seus Membros, para a realização dos propósitos mencionados no Artigo 1, agirão de acordo com os seguintes Princípios:
1. A Organização é baseada no princípio da igualdade de todos os seus Membros.
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2. Todos os Membros, a fim de assegurarem para todos em geral os direitos e vantagens resultantes de sua qualidade de Membros, deverão cumprir de boa fé as obrigações por eles assumidas de acordo com a presente Carta.
3. Todos os Membros deverão resolver suas controvérsias internacionais por meios pacíficos, de modo que não sejam ameaçadas a paz, a segurança e a justiça internacionais.
4. Todos os Membros deverão evitar em suas relações internacionais a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a dependência política de qualquer Estado, ou qualquer outra ação incompatível com os Propósitos das Nações Unidas.
5. Todos os Membros darão às Nações toda assistência em qualquer ação a que elas recorrerem de acordo com a presente Carta e se absterão de dar auxílio a qualquer Estado contra o qual as Nações Unidas agirem de modo preventivo ou coercitivo.
6. A Organização fará com que os Estados que não são Membros das Nações Unidas ajam de acordo com esses Princípios em tudo quanto for necessário à manutenção da paz e da segurança internacionais.
7. Nenhum dispositivo da presente Carta autorizará as Nações Unidas a intervirem em assuntos que dependam essencialmente da jurisdição de qualquer Estado ou obrigará os Membros a submeterem tais assuntos a uma solução, nos termos da presente Carta; este princípio, porém, não prejudicará a aplicação das medidas coercitivas constantes do Capitulo VII.”
(Carta das Nações Unidas)
Já os princípios fundamentais da OIT, como constam em sua constituição, são:
a) o trabalho não é uma mercadoria;
b) a liberdade de expressão e de associação é uma condição indispensável a um progresso ininterrupto;
c) a penúria, seja onde for, constitui um perigo para a prosperidade geral;
d) a luta contra a carência, em qualquer nação, deve ser conduzida com infatigável energia e por um esforço internacional contínuo e conjugado, no qual os representantes dos empregadores e dos empregados discutam, em igualdade, com os dos Governos, e tomem com eles decisões de caráter democrático, visando o bem comum.
Norteada por esses princípios, a OIT se compromete a auxiliar as nações a desenvolverem programas que visem à melhoria das condições de vida dos trabalhadores e ratifica seu compromisso em promover a paz assentada na justiça social.
Em 1998, durante a 86ª Conferência Internacional do Trabalho, foi aprovada a Declaração da OIT sobre os Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho e seu segmento, corroborando os princípios básicos da OIT. Essa declaração possui os seguintes princípios:
(a) a liberdade sindical e o reconhecimento efetivo do direito de
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negociação coletiva;
(b) a eliminação de todas as formas de trabalho forçado ou obrigatório;
(c) a efetiva abolição do trabalho infantil; e
(d) a eliminação da discriminação em matéria de emprego e ocupação.
Assim, ao assumirem compromisso com a OIT, as Nações Membros passam a ter o dever de agir em conformidade com os princípios do Direito Internacional e, em específico, com os do Direito Internacional do Trabalho.
Assumem compromissos na busca de avanços e melhorias nas relações trabalhistas, garantindo esforço, principalmente, no reconhecimento do direito de negociação, eliminação do trabalho forçado e infantil e no fim da discriminação de qualquer trabalhador por motivo de raça, credo, sexo, gênero ou de qualquer outra natureza, resguardando igual remuneração para igual trabalho.
É através de condições dignas de trabalho proporcionadas a todos, como garantias de preservação física e moral do trabalhador, bem como com a retribuição equivalente ao trabalho prestado, em qualquer lugar do mundo, que se alimenta uma sociedade mais justa e se contribui para a tão desejada justiça social mundial. Assim cada indivíduo, com o fruto de seu trabalho, poderá buscar seu desenvolvimento pessoal. É com a garantia de um trabalho digno a todos que se conseguirá pôr fim à miséria que assola tantas pessoas ao redor do mundo. Esta miséria é o retrato da não dignidade. A valorização do trabalho é um importante instrumento na luta contra esse mal. A OIT e todos os seus membros reconhecem a necessidade da união de todas as Nações na luta pela proteção dos trabalhadores.
Diante de todas essas propostas de garantias dada pela OIT, enxerga-se nesta organização uma importante aliada para combater abusos trabalhistas que ocorrem no Brasil, dentre eles o problema principal deste trabalho: o desrespeito às garantias trabalhistas dos médicos participantes do Programa Mais Médicos, desde o reconhecimento do seu vínculo trabalhista ao tratamento isonômico dispensado a todos eles. O Brasil é signatário da OIT, afirmando assim seu compromisso com seus princípios, e ratificou inúmeras convenções, dentre elas a Convenção 111 que tem como objetivo o combate à Discriminação em Matéria de Emprego e Ocupação.
Espera-se que haja a intervenção da OIT nesta problemática.
A OIT é dotada de um sistema de controle de normas que constituem o aparelho decisional, com funcionamento regular por meio da análise de relatórios, podendo também ser acionado por parte dos Estados-membros e inclusive de
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representantes de trabalhadores e de empregadores. Este sistema de controle é composto pelos seguintes órgãos: a) Comissão de Peritos para a Aplicação de Convenções e Recomendações, (comumente referida simplesmente por Comissão de Peritos); b) Comissão de Aplicação de Normas da Conferência; c) Comitê de Liberdade Sindical; d) Comissão de Inquérito. (MEIRELES, 2014)
Ainda sobre tal sistema de controle, Meireles (2014, p. 149) cita que:
Além desses órgãos regularmente previstos, a Constituição da OIT prevê a designação de comissão tripartite especificamente formada para análise de reclamação e queixa no âmbito do controle provocado. Esses órgãos atuam de forma integrada, a partir de atribuições e composição próprias.
O Sindicato dos Médicos de Pernambuco (Simepe) e o Conselho Federal de Medicina fizeram uma denúncia, em 06 de novembro de 2013, a respeito das irregularidades do Programa Mais Médicos e obtiveram, em maio de 2015, através de oficio, resposta da Organização Internacional do Trabalho (OIT). No documento, assinado pela diretora do Departamento de Normas do Trabalho Internacional, Cleopatra Doumbia-Henry, a Organização comunica que os alertas serão levados ao conhecimento da Comissão de Peritos em Aplicação de Convenções e Recomendações em reunião a ser realizada nos meses de novembro ou dezembro de 2015 e que na ocasião também serão analisadas as informações transmitidas pelo Governo Federal. (GADELHA, 2015)
Relacionando-se à Comissão de Peritos, Meireles (2014, p. 152) enfatiza:
O exame da Comissão de Peritos, exposto em relatório, compreende observações sobre como as convenções ratificadas vêm sendo cumprida pelos respectivos Estados-membros, tanto do ponto de vista da adoção dos instrumentos nos ordenamentos internos, como da efetiva utilização das normas e alcance de suas finalidades. Nesse sentido, o relatório também contém relevantes estudos de direito comparado, realizado a partir da análise de instrumentos normativos de diferentes origens.
E ainda com relação à atuação desta comissão, Meireles (2014, p.153) relata que:
A comissão encarrega-se, portanto, de avaliar a conformidade das legislações trabalhistas nacionais, exercendo um amplo poder de apreciação das normas internacionais do trabalho e, inclusive, de como os países estão conferindo-lhes eficácia. No exercício de sua função, a Comissão desempenha inevitavelmente um papel interpretativo que tem ganhado reconhecimento internacional ao longo dos anos. (...) Além da análise de relatórios de aplicação de normas internacionais no âmbito da OIT, a Comissão de Peritos também tem sido convocada a lançar seus comentários sobre instrumentos adotados por outras organizações internacionais. Assim também, a Comissão envia relatórios periódicos a
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diferentes órgãos responsáveis pela aplicação de tratados de direitos humanos no sistema ONU.
Assim, com base nas observações de MEIRELES (2014) em relação ao posicionamento da OIT frente a casos de afronta aos direitos trabalhistas, como o apresentado neste trabalho, pode-se perceber que o controle regular da organização é calcado sob o modelo de apresentação e análise de relatórios, com possibilidade de exposição do caso para a comunidade internacional com vistas a pressionar o Estado que descumpre as normas do sistema a dar-lhes efetividade.
3.4 O princípio da isonomia no Direito Internacional do Trabalho e no ordenamento jurídico brasileiro
O Princípio da Isonomia ou Igualdade remonta à antiguidade e está presente em nosso atual contexto legal. Ele está diretamente relacionado à ideia de Estado Democrático de Direito.
Oliveira, M. (2010, p. 1) em seu estudo sobre a história do princípio da isonomia traz:
O sentimento de igualdade na sociedade moderna pugna pelo tratamento justo aos que ainda não conseguiram a viabilização e a implementação de seus direitos mais básicos e fundamentais para que tenham não somente o direito a viver, mas para que também possam tem uma vida digna. Este princípio remonta as mais antigas civilizações e esteve sempre embutido, dentro das mais diversas acepções de justiça mesmo que com interpretações diferentes, umas mais abrangentes outras nem tanto, ao longo da história.
A proibição aos privilégios e distinções proporcionais é a base do princípio da isonomia. A interpretação de tal princípio orienta a aplicação do mesmo. Em diversos momentos históricos este se chocou com os interesses das classes de maior poder, o que acabou por ser desprezado muitas vezes, não existindo coerência na prática. Infelizmente, apesar de estar presente no texto de muitas constituições, o princípio da isonomia não passa de um reconhecimento em seu aspecto formal. O que lhe daria a real garantia seria a igualdade material propiciada a todos de maneira prática com políticas de igualdade reais. (OLIVEIRA, M., 2010)
A Constituição Federal Brasileira de 1988 traz em seu texto, expressamente, o princípio da isonomia:
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do