MAT - 2002/03
Topologia e elementos de an´ alise funcional
Salvatore Cosentino
Departamento de Matem´atica e Aplica¸c˜oes - Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710 Braga - PORTUGAL
gab B.4023, tel 253 604086 e-mail[email protected] urlhttp://w3.math.uminho.pt/~scosentino
13 de Dezembro de 2002
Resumo
Isto n˜ao ´e um livro! Estas p´aginas contˆem as minhas notas das aulas de topologia lecci- onadas no ano letivo 2012/03, e portanto foram escritas de maneira sint´etica, esquem´atica e por vezes informal.
Conte´ udo
1 Espa¸cos m´etricos 2
2 Espa¸cos topol´ogicos 8
3 No¸c˜oes topol´ogicas 12
4 Aplica¸c˜oes cont´ınuas 16
5 Espa¸cos compactos 21
6 Espa¸cos m´etricos completos 25
7 Conexidade 30
1
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 2
1 Espa¸ cos m´ etricos
Espa¸cos m´etricos. Seja X um conjunto n˜ao vazio. Uma m´etrica em X ´e uma fun¸c˜ao d : XˆXÑRtal que para todosx, x1, x2PX
dpx, x1q ě0, edpx, x1q “0 ssex“x1 dpx, x1q “dpx1, xq
dpx, x1q ďdpx, x2q `dpx2, x1q A ´ultima propriedade ´e dita desigualdade do triˆangulo.
Um espa¸co m´etrico ´e um par pX, dq, um conjunto n˜ao vazio X munido de uma m´etrica d.
Os elementos deX s˜ao ditos pontos do espa¸co m´etrico, e o n´umero n˜ao negativodpx, x1q´e dito distˆancia entre os pontosxex1.
Distˆancias distintas em X definem espa¸cos m´etricos distintos. Por raz˜oes de economia ´e usual escrever “o espa¸co m´etricoX” em vez de “o espa¸co m´etricopX, dq”, quando a m´etrica particular n˜ao ´e importante, ou quando est´a impl´ıcita no contexto.
egM´etrica discreta. SejaX um conjunto n˜ao vazio. Am´etrica discreta,oum´etrica zero-um, em X ´e a m´etrica definida por dpx, x1q “ 1 se x ‰x1. Em particular, todo conjunto n˜ao vazio admite uma m´etrica.
eg Recta real e recta complexa. A fun¸c˜ao px, x1q ÞÑ |x´x1| define uma m´etrica na recta realR. A fun¸c˜aopz, z1q ÞÑ |z´z1|define uma m´etrica emC.
eg Espa¸cos normados. Se V ´e um espa¸co vectorial real ou complexo, e|¨|´e uma norma em V, ent˜aod, definida pordpx, x1q:“ |x´x1|, ´e uma m´etrica emV.
egEspa¸cos euclidianos. SeV ´e um espa¸co vectorial sobre os reais, ex¨,¨y´e um produto interno emV, ent˜ao|¨|, definida por|x| “a
xx, xy, ´e uma norma emV (a desigualdade do triˆangulo sendo uma consequˆencia da desigualdade de Cauchy-Schwarz | xx, x1y | ď |x| |x1|), e portanto d, definida por
dpx, x1q:“a
|x´x1|2
´e uma m´etrica emV. Espa¸cos euclidianos e espa¸cos normados s˜ao exemplos de espa¸cos m´etricos.
egM´etrica euclidana emRn. Um caso particular da constru¸c˜ao acima ´e am´etrica euclidiana emRn, definida por
d2px, x1q:“
g f f e
n
ÿ
i“1
pxi´x1iq2
que ´e a m´etrica induzida pelo produto interno euclidianoxx, x1y “řn
i“1xi¨x1i. A seguir, a menos de indica¸c˜ao contr´aria, o espa¸co vectorialRn ser´a implicitamente considerado munido da m´etrica euclidiana.
eg Espa¸co de Hilbert. Oespa¸co de Hilbertestandard`2pCq, o espa¸co das sucess˜oes (palavras infinitas)x“ px1, x2, x3, . . .q PCNtais que
}x}2:“
8
ÿ
n“1
|xn|2ă 8
munido do produto interno
xx, yy:“
8
ÿ
n“1
xnyn
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 3
egM´etrica do m´aximo e m´etrica da soma. Outras normas emRn s˜ao anorma do m´aximo, definida por
}x}8:“ max
i“1,...,n|xi| e anorma da soma, definida por
}x}1:“
n
ÿ
i“1
|xi|
As m´etricas induzidas,d8 ed1 respectivamente, s˜ao ditasm´etrica do m´aximoem´etrica da soma.
egNorma e m´etrica do sup. SejamX um conjunto n˜ao vazio, eBpX,Rqo espa¸co das fun¸c˜oes limitadas f : X ÑR (uma fun¸c˜ao f ´e limitada se existe M ą0 tal que |fpxq| ď M para todo xPX). BpX,Rq´e um espa¸co linear sobre os reais, sef`g ´e definido por xÞÑfpxq `gpxqeλf, comλPR, ´e definido porxÞÑλ¨fpxq. Anorma do sup, ounorma da convergˆencia uniforme, em BpX,Rq´e definida por
}f}8:“sup
xPX
|fpxq|
A m´etrica induzida, dpf, gq “ }f´g}8, ´e ditam´etrica do sup.
ex Prove qued2,d1ed8 s˜ao m´etricas emRn.
ex Sejamded1 duas m´etricas definidas emX. Mostre que maxtd, d1ued`d1 s˜ao m´etricas, e que mintd, d1upode n˜ao ser uma m´etrica.
ex SejaX “ t0,1uNo espa¸co das fun¸c˜oesx:NÑ t0,1u. Ent˜ao
dpx, x1q “
8
ÿ
i“1
|xi´x1i| 2i
´e uma m´etrica emX.
M´etricas produto. Sejam pX, dXq e pY, dYq dois espa¸cos m´etricos. Ent˜ao maxtdX, dYu e dX`dY, definidas por
maxtdX, dYu ppx, yq,px1, y1qq:“max dXpx, x1q, dYpy, y1q( e
pdX`dYqppx, yq,px1, y1qq:“dXpx, x1q `dYpy, y1q
s˜ao m´etricas no produto XˆY. Enuncie e prove um resultado an´alogo para productos finitos de espa¸cos m´etricos.
Pseudom´etricas. Umapseudom´etricano conjunto X ´e uma fun¸c˜aod:XˆXÑRtal que i)dpx, x1q ě0, e dpx, x1q “0 sex“x1
ii) dpx, x1q “dpx1, xq
iii) dpx, x1q ďdpx, x2q `dpx2, x1q
para todos x, x1, x2 P X. Seja „a rela¸c˜ao de equivalˆencia definida por:x„x1 sse dpx, x1q “ 0.
O espa¸co quociˆenteX{ „´e de forma natural um espa¸co m´etrico, se a distˆancia entre duas classes est´a definida como a distˆancia entre dois representantes emX.
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 4
Subespa¸cos, imers˜oes isom´etricas e isometrias. Sejam pX, dqum espa¸co m´etrico eS um subconjunto n˜ao vazio de X. A restri¸c˜ao da fun¸c˜aoda SˆS define uma m´etricadS emS, dita m´etrica induzida. O conjuntoS, munido da m´etrica induzida, ´e ditosubespa¸co (m´etrico)do espa¸co m´etricoX. Portanto, subconjuntos de espa¸cos m´etricos s˜ao de maneira natural espa¸cos m´etricos.
Sejam pX, dXq e pY, dYq dois espa¸cos m´etricos. Uma aplica¸c˜ao f : X Ñ Y ´e uma imers˜ao isom´etrica se preserva as distˆancias, i.e. se
dYpfpxq, fpx1qq “dXpx, x1q para todosx, x1PX. Toda imers˜ao isom´etrica ´e injetiva.
Uma imers˜ao isom´etrica bijetiva f : X ÑY ´e ditaisometria, e neste caso os espa¸cos X e Y s˜ao ditosisom´etricos. ´E imediato ver que:
a identidade id :XÑX ´e um isometria,
sef :XÑY ´e uma isometria ent˜aof´1:Y ÑX tamb´em ´e uma isometria, sef :XÑY eg:Y ÑZ s˜ao isometrias, ent˜aog˝f :XÑZ´e uma isometria.
Portanto, a existˆencia de uma isometria entre dois espa¸cos m´etricos ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia.
As propriedades comuns `as classes de espa¸cos isom´etricos s˜ao ditaspropriedades m´etricas.
eg M´etrica induzida por uma inje¸c˜ao. SejampY, dYqum espa¸co m´etrico eX um conjunto n˜ao vazio. Uma aplica¸c˜ao injetivaf :X ÑY induz uma m´etricadXemX, definida pordXpx, x1q “ dYpfpxq, fpx1qq, que tornaf uma imers˜ao isom´etrica.
Grupos de isometrias. Seja X um espa¸co m´etrico. O conjunto IsompXq das isometrias g:X ÑX ´e um grupo, dito grupo das isometrias deX, com respeito `a lei de composi¸c˜ao.
eg Isometrias de Rn. As transla¸c˜oes x ÞÑ x`a, com a P Rn, s˜ao isometrias do espa¸co euclidianoRn. Em particular,Rn ´e um espa¸co m´etrico homog´eneo: dados x, x1 PRn existe uma isometriagPIsompRnqtal quegpxq “x1. As isometrias deRn que fixam a origem 0PRn s˜ao as transforma¸c˜oes linearesxÞÑTpxqcomT POpnq. O grupo das isometrias do espa¸co euclidiano Rn
´e, portanto,
IsompRnq “ txÞÑTpxq `acomT POpnqeaPRnu
ex Sejama, bPRncom|b| “1. A aplica¸c˜aof :RÑRn, definida portÞÑa`tb, ´e uma imers˜ao isom´etrica.
Diˆametro e distˆancia entre conjuntos. Um subconjunto n˜ao vazioS do espa¸co m´etricoX
´elimitado se existeM ą0 tal quedpx, x1q ăM para todosx, x1PS. O diˆametro do subconjunto n˜ao vazioS´e
diampSq:“ sup
x,x1PS
dpx, x1q
Ou seja, um subconjunto de um espa¸co m´etrico ´e limitado sse tem diˆametro finito.
A distˆancia entre dois subconjuntos n˜ao vaziosS eT deX ´e definida por dpS, Tq:“ inf
xPS,x1PTdpx, x1q
A distˆancia de um pontoxPX a um subconjunto n˜ao vazioS deX ´e definida por dpx, Sq:“ inf
x1PSdpx, x1q
ex Um subconjuntoS de um espa¸co m´etricoX ´e limitado sse est´a contido numa bola, i.e. se existemxPX eRą0 tais queSĂ tx1PX t.q. dpx, x1q ăRu.
ex A reuni˜ao de uma fam´ılia finita de subconjuntos limitados de um espa¸co m´etrico ´e um conjunto limitado.
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 5
ex Sejam X um espa¸co m´etrico,x, x1 PX eSĂX um subconjunto n˜ao vazio. Ent˜ao ˇˇdpx, Sq ´dpx1, Sqˇ
ˇďdpx, x1q
Bolas e conjuntos abertos. SejapX, dqum espa¸co m´etrico. A bola abertade centro xe raio rą0 ´e o conjunto dos pontos de X a distˆancia menor querdex, i.e.
Brpxq “ x1PX t.q. dpx, x1q ăr(
Um subconjuntoAdo espa¸co m´etricoX ´eabertoemX se para todoxPAexisterą0 tal que Brpxq ĂA, i.e. se (´e vazio ou se) todo ponto deA´e centro de uma bola aberta contida emA.
“Ser aberto” ´e uma propriedade relativa. Pode acontecer que um subconjunto A Ă X n˜ao seja aberto no espa¸co m´etrico pX, dq, mas seja aberto no espa¸co m´etrico pY, dYq, onde Y ´e um subconjunto deX munido da m´etrica induzida dY. Por raz˜oes de economia, ´e costume dizer que um subconjunto A de X “´e aberto” em vez de “´e aberto emX”, desde que seja claro o espa¸co ambientepX, dq.
O conjunto vazioHe o espa¸co todoX s˜ao abertos emX. Uma observa¸c˜ao trivial mas crucial
´e que as bolas abertas de um espa¸co m´etrico s˜ao subconjuntos abertos, pois, se x1 P Brpxq e s“dpx, x1q ăr, ent˜ao a desigualdade do triˆangulo implica que Br´spx1q ĂBrpxq.
Teorema 1.1(um aberto ´e uma reuni˜ao de bolas abertas). Um subconjunto de um espa¸co m´etrico
´e aberto sse ´e uma reuni˜ao de bolas abertas.
Demonstra¸c˜ao. ñSeja A um aberto do espa¸co m´etricoX. Para todoxPA existe εpxq ą0 tal queBεpxqpxq ĂA. PortantoA“Ť
xPABεpxqpxq.
ðSejaA“ YαPABαuma reuni˜ao de bolas abertasBα do espa¸co m´etricoX. Se xPA existe αPAtal que xPBα. SendoBα aberta, existeεą0 tal queBεpxq ĂBαĂA.
Teorema 1.2 (propriedades dos abertos). Toda reuni˜ao de subconjuntos abertos ´e aberta. A interse¸c˜ao de dois (e portanto toda interse¸c˜ao finita de) subconjuntos abertos ´e aberta.
Demonstra¸c˜ao. SejaA“ YαPAAα, onde osAαs˜ao abertos no espa¸co m´etricoXeA´e um conjunto arbitr´ario. Se xP A ent˜ao existe αPA tal que xPAα. Sendo Aα aberto, existe εą0 tal que Bεpxq ĂAαĂA.
SejamAeA1dois abertos no espa¸co m´etricoX, exPAXA1. Ent˜ao existemεą0 eε1 ą0 tais queBεpxq ĂA eBε1pxq ĂA1. Portanto, a bola abertaBmintε,ε1upxqest´a contida emAXA1.
ex Sejam xex1 dois pontos distintos do espa¸co m´etricoX. Ent˜ao existem duas bolas abertas disjuntasB eB1 que contˆem respectivamente xex1.
ex O intervalor0,1r´e aberto emr0,2s, mas n˜ao ´e aberto na rectaR. ex Diga se os seguintes subconjuntos de Rn euclidiano s˜ao abertos emRn.
QemR, ZemR, QˆRemR2
tpx1, x2qt.q. x1“x2u emR2, tpx1, x2qt.q. x1¨x2‰0u emR2, tpx1, x2qt.q. x1ą0u emR2 txPRn t.q. |x| ď1u emRn , txPRn t.q. |x| “1u emRn , txPRn t.q. |x| ‰0uemRn ex Uma interse¸c˜ao de subconjuntos abertos de um espa¸co m´etrico pode n˜ao ser aberta.
egBolas em espa¸cos ultram´etricos. Uma m´etricaddefinida no conjuntoX´e dita ultram´etrica se
dpx, x1q ďmax dpx, x2q, dpx2, x1q(
para todosx, x1, x2PX. Mostre que sex1PBrpxqent˜ao Brpx1q “Brpxq, i.e. todo ponto de uma bola aberta ´e um seu centro.
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 6
Abertos e continuidade. Sejam pX, dXq e pY, dYq dois espa¸cos m´etricos. A aplica¸c˜ao f : X ÑY ´econt´ınua no ponto xP X se para todoε ą0 existe δą 0 tal quedYpfpxq, fpx1qq ă ε sedpx, x1q ăδ. Isto quer dizer que para toda bola abertaBεpfpxqq ĂY centrada em fpxq existe uma bola abertaBδpxq ĂX centrada emxtal que
fpBδpxqq ĂBεpfpxqq
A aplica¸c˜ao f : X Ñ Y ´econt´ınua se ´e cont´ınua em todos os pontos deX. A rela¸c˜ao entre continuidade e abertos ´e contida na seguinte observa¸c˜ao.
Teorema 1.3(f cont´ınuaôf´1(aberto) = aberto). Uma aplica¸c˜aof :XÑY entre os espa¸cos m´etricosX eY ´e cont´ınua sse a imagem inversa f´1pAqde todo abertoA deY ´e aberta emX.
Demonstra¸c˜ao. pñqSejamf cont´ınua,Aum subconjunto aberto e n˜ao vazio de Y, exPf´1pAq.
ComoA ´e aberto e fpxq PA, existe uma bola abertaBεpfpxqqcontida em A. Pela continuidade def emx, existe uma bola abertaBδpxq tal quefpBδpxqq ĂBεpfpxqq. Portanto, a bola aberta Bδpxqest´a contida emf´1pAq. Isto prova quef´1pAq´e aberto emX.
pðqSejaxPX. A bolaBεpfpxqq´e aberta emY, portanto a sua imagem inversaf´1pBεpfpxqqq
´e aberta emX. ComoxPf´1pBεpfpxqqq, existe uma bola abertaBδpxqcontida emf´1pBεpfpxqqq, logofpBδpxqq ĂBεpfpxqq. Isto prova quef ´e cont´ınua emx.
Este teorema mostra que a ´unica estrutura de um espa¸co m´etrico que joga um papel na defini¸c˜ao de continuidade ´e a fam´ılia dos conjuntos abertos, dita topologia. Portanto, espa¸cos m´etricos que tˆem os mesmos abertos s˜ao dom´ınios ou contradom´ınios das mesmas fun¸c˜oes cont´ınuas.
eg Aplica¸c˜oes lipschitzianas. Uma aplica¸c˜aof :X ÑY entre os espa¸cos m´etricospX, dXqe pY, dYq´elipschitzianase existeλą0 (dita constante de Lipschitz def) tal que
dYpfpxq, fpx1qq ďλ¨dXpx, x1q
para todosx, x1 PX. Uma aplica¸c˜ao lipshitziana ´e cont´ınua (basta pˆor δ“ε{λna defini¸c˜ao com εeδ).
eg Imers˜ao de Kuratowski. Sejam pX, dq um espa¸co m´etrico, xP X, e BpX,Rqo espa¸co das fun¸c˜oes limitadas f : X Ñ R munido da m´etrica do sup. A aplica¸c˜ao fx : X ÑR definida por fxpx1q “ dpx, x1q ´e cont´ınua. A aplica¸c˜ao ϕ : X Ñ BpX,Rq definida por x1 ÞÑ fx1 ´fx ´e uma imers˜ao isom´etrica. Portanto, todo espa¸co m´etrico ´e de maneira natural um subespa¸co de um espa¸co normado.
Homeomorfismos. Uma aplica¸c˜ao f : X Ñ Y entre os espa¸cos m´etricos pX, dXq e pY, dYq
´e um homeomorfismose ´e bijectiva, cont´ınua e tem inversa cont´ınua. Dois espa¸cos m´etricos s˜ao homeomorfosse existe um homeomorfismo entre eles.
Toda isometria ´e um homeomorfismo, mas um homeomorfismo pode n˜ao ser uma isometria.
eg Por exemplo, x ÞÑ exppxq ´e un homeomorfismo de R sobre R`, mas n˜ao ´e uma isometria (para as m´etricas euclidianas deReR`).
ex Sejam X um espa¸co m´etrico, x1 P X e S um subconjunto n˜ao vazio de X. A aplica¸c˜ao ϕ:X ÑRdefinida porxÞÑdpx, x1q´e cont´ınua. A aplica¸c˜aoφ:X ÑRdefinida porxÞÑdpx, Sq
´e cont´ınua. A aplica¸c˜ao d : XˆX Ñ Rdefinida por px, x1q ÞÑ dpx, x1q´e cont´ınua, se X ˆX ´e munido da m´etrica produto.
ex Seja X um espa¸co m´etrico discreto e Y ´e um espa¸co m´etrico arbitr´ario. Toda fun¸c˜ao f : XÑY ´e cont´ınua.
1 ESPAC¸ OS M ´ETRICOS 7
ex Uma aplica¸c˜ao linear L:RnÑRn ´e cont´ınua.
ex Uma fun¸c˜ao constantef :X ÑY (i.e. tal quefpxq “ypara todoxPX) entre dois espa¸cos m´etricos ´e cont´ınua.
ex SeY ´e um subconjunto do espa¸co m´etricoX, munido da m´etrica induzida, ent˜ao a inclus˜ao i:Y ÑX, definida poripyq “y, ´e cont´ınua.
ex Imers˜oes isom´etricas e isometrias s˜ao aplica¸c˜oes cont´ınuas.
ex Uma aplica¸c˜aof :X ÑY entre os espa¸cos m´etricospX, dXqepY, dYq´e h¨olderiana se existem αą0 eµą0 tais que
dYpfpxq, fpx1qq ﵨdXpx, x1qα para todosx, x1PX. Uma aplica¸c˜ao h¨olderiana ´e cont´ınua.
ex Existe um homeomorfismo entre QeR?
M´etricas equivalentes. E poss´ıvel que m´´ etricas distintas no espa¸co X definam os mesmos subconjuntos abertos, neste caso as m´etricas s˜ao ditastopologicamente equivalentes. As m´etricasd ed1 emX s˜ao equivalentes sse, para todoxPX, toda bola abertaBεpxqpara a m´etricadcont´em uma bola abertaBε11pxqpara a m´etricad1 e vice-versa.
eg Normas equivalentes num espa¸co vetorial de dimens˜ao finita. No espa¸co vectorial Rn, as m´etricas euclidiana, do m´aximo e da soma s˜ao topologicamente equivalentes. Isto vem das desigualdades
d8px, x1q ďd2px, x1q ďd1px, x1q ďn¨d8px, x1q que implicam
Bε{n8 pxq ĂBε1pxq ĂBε2pxq ĂBε8pxq para todoxPRn e todoεą0.
De facto, todas as normas num espa¸co vetorial de dimens˜ao finita s˜ao equivalentes!
ex A m´etrica discreta e a m´etrica euclidiana emRn˜ao s˜ao equivalentes.
ex Se d ´e uma m´etrica em X e λ ą 0, a m´etrica dλ definida por dλpx, x1q “ λ¨dpx, x1q ´e equivalente ad(observe que as bolas depX, dqs˜ao tamb´em bolas depX, dλqe vice-versa).
ex SejapX, dqum espa¸co m´etrico.Ent˜aod1, definida por d1px, x1q:“ dpx, x1q
1`dpx, x1q
´
e uma m´etrica emX, equivalente ad. Observe que o espa¸co m´etricopX, d1q´e limitado, i.e. tem diˆametro finito, independentemente deX ser limitado ou n˜ao.
ex Sejam de d1 duas m´etricas equivalentes em X. A aplica¸c˜ao identidade id :X Ñ X ´e um homeomorfismo entrepX, dqepX, d1q.
2 ESPAC¸ OS TOPOL ´OGICOS 8
2 Espa¸ cos topol´ ogicos
Espa¸cos topol´ogicos. Seja X um conjunto n˜ao vazio. Umatopologia em X ´e uma fam´ılia n˜ao vaziaτ de subconjuntos deX, ditosabertos(da topologia), tal que
i)H eX s˜ao abertos,
ii) toda reuni˜ao de abertos ´e um aberto, iii) a interse¸c˜ao de dois abertos ´e um aberto.
A ´ultima propriedade ´e equivalente a “toda interse¸c˜ao finita de abertos ´e um aberto”.
Umespa¸co topol´ogico´e um par pX, τq, um conjunto n˜ao vazioX munido de uma topologiaτ.
Os elementos deX s˜ao ditos pontos do espa¸co topol´ogico, os elementos deτ s˜ao ditos abertos do espa¸co topol´ogico.
Topologias distintas em X definem espa¸cos topol´ogicos distintos. Por raz˜oes de economia ´e usual escrever “o espa¸co topol´ogicoX” em vez de “o espa¸co topol´ogicopX, τq”, quando a topologia particular n˜ao ´e importante, ou quando est´a implicita no contexto. ´E tamb´em usual dizer que um subconjunto A deX “´e aberto” em vez de utilizar a express˜ao correcta “´e um aberto do espa¸co topol´ogico pX, τq”, desde que seja claro qual ´e o espa¸co ambienteX e qual ´e a topologiaτ. eg Topologia trivial. A fam´ıliatH, Xu´e uma topologia no conjuntoX, ditatopologia trivial.
Um conjuntoX munido da topologia trivial ´e dito espa¸co (topol´ogico) trivial.
Espa¸cos topol´ogicos metriz´aveis. SejapX, dq um espa¸co m´etrico. A fam´ılia formada pelas reuni˜oes das bolas abertas deX ´e uma topologia, ditatopologia induzidada m´etricad. Portanto, todo espa¸co m´etrico ´e de maneira natural um espa¸co topol´ogico. M´etricas equivalentes induzem a mesma topologia.
Um espa¸co topol´ogicopX, τq´e dito metriz´avel se o conjuntoX admite uma m´etricadque induz a topologiaτ. A seguir, portanto, as express˜oes “sejapX, τqum espa¸co topol´ogico metriz´avel” ou simplesmente “sejaX um espa¸co metriz´avel” ser˜ao sin´onimos de “sejapX, τqum espa¸co topol´ogico tal que a topologiaτ ´e induzida por uma m´etricaddefinida emX”. A raz˜ao desta defini¸c˜ao est´a no facto da m´etrica particular d, que evidentemente n˜ao ´e ´unica, n˜ao jogar nenhum papel nas propriedades deX em quanto espa¸co topol´ogico.
eg Topologia euclidiana. A topologia euclidianaemRn ´e a topologia induzida pela m´etrica euclidianad2, ou pelas m´etricas equivalentesd1 ed8. A seguir, a menos de indica¸c˜ao contr´aria, o espa¸co vectorialRn ser´a implicitamente considerado munido da topologia euclidiana.
egTopologia discreta. A fam´ıliaPpXq, as partes deX, ´e uma topologia emX, ditatopologia discreta. ´E a topolgia induzida pela m´etrica discreta emX. Um conjuntoX munido da topologia discreta ´e dito espa¸co (topol´ogico) discreto.
eg Topologia cofinita. Atopologia cofinita emX ´e a fam´ılia K formada pelo conjunto vazio e pelos conjuntos cujos complementares tˆem cardinalidade finita, i.e.
K“ tHu Y tAĂX t.q. XzA´e finitou
egTopologia de Sierpinsky. SeX´e um conjunto finito, toda m´etrica emXinduz a topologia discreta. Portanto, uma topologia diferente da topologia discreta em um conjunto finito n˜ao ´e metriz´avel. Um exemplo ´e atopologia de SierpinskyemX “ ta, bu, definida porτ “ tH,tau, Xu.
Topologia relativa. SejampX, τqum espa¸co topol´ogico eY um subconjunto n˜ao vazio deX.
A fam´ılia
τY “ tAXY comAPτu
2 ESPAC¸ OS TOPOL ´OGICOS 9
´e uma topolgia emY, dita topologia relativa. O conjuntoY, munido da topologia relativa, ´e dito subespa¸co (topol´ogico) do espa¸co topol´ogico X. Portanto, os aberto de Y s˜ao os subconjuntos BĂY tais que existe um abertoAdeX tal queB “AXY.
Sed´e uma m´etrica emX eY ĂX ´e munido da m´etrica induzida dY, ent˜ao as bolas abertas depY, dYqs˜ao da forma Brpxq XY ondeBrpxq´e uma bola aberta de pX, dqexPY. Portanto, se τ´e a topologia induzida pela m´etricad, a topologia relativaτY coincide com a topologia induzida pela m´etricadY emY.
ex Determine todas as poss´ıveis topologias deX “ ta, b, cu.
ex (metriz´avel e finitoñdiscreto) A topologia de um espa¸co metriz´avel finito ´e a topologia discreta.
ex (metriz´avelñ Hausdorff) Seja X um espa¸co topol´ogico metriz´avel. Prove que, dados dois pontos distintosxex1 deX, existem dois abertos disjuntosAeB deX tais quexPAex1PB.
ex Seja X um conjunto n˜ao vazio, exPX. Prove que τ “ tHu Y tAĂX t.q. xPAu´e uma topologia emX. Prove que, seX ‰ txu, a topologiaτ n˜ao ´e metriz´avel.
Compara¸c˜ao entre topologias. Sejamτeτ1duas topologias no conjuntoX. A topologiaτ1´e mais finado que a topologiaτ (ou, a topologiaτ´e menos fina do que a topologiaτ1) seτ Ăτ1, i.e.
se todo aberto depX, τq´e tamb´em um aberto de pX, τ1q. Observe que esta ´e apenas uma ordem parcial no espa¸co das topologias definidas num conjunto fixadoX, e que duas topologias distintas podem n˜ao ser compar´aveis.
ex A topologia discreta em X ´e mais fina do que toda topologia emX. ex Toda topologia em X ´e mais fina do que a topologia trivial em X.
Bases. Seja pX, τqum espa¸co topol´ogico. Umabaseda topologiaτ ´e uma fam´ıliaBde abertos tal que todo aberto deX ´e uma reuni˜ao de elementos deB. Isto ´e equivalente a dizer que para todoAPτ e todoxPAexisteBPBtal que xPB ĂA.
Evidentemente,τ ´e uma base da topologiaτ. A importˆancia desta defini¸c˜ao consiste na possi- bilidade de definir uma topologia `a custa de uma fam´ılia particular de abertos.
egBase de uma topologia metriz´avel. As bolas abertas de um espa¸co m´etrico s˜ao uma base da topologia induzida pela m´etrica, porque todo aberto ´e uma reuni˜ao de bolas abertas. .
egBase da topologia discreta. A fam´ıliattxu comxPXu´e uma base da topologia discreta emX.
Teorema 2.1 (caracteriza¸c˜ao das bases). Seja Xum conjunto n˜ao vazio, e B uma fam´ılia de subconjuntos deX tal que
i)B´e uma cobertura deX, i.e. Ť
BPBB “X
ii) seB, CPB ent˜ao BXC ´e uma reuni˜ao de elementos deB Ent˜ao existe uma (´unica) topolgiaτB em X tal queB ´e uma sua base.
2 ESPAC¸ OS TOPOL ´OGICOS 10
Demonstra¸c˜ao. A unicidade ´e evidente, uma vez provada a existˆencia. Pois, τB tem que conter todas as reuni˜oes de elementos de B, e, vice-versa, todo elemento deτB tem que ser uma reuni˜ao de elementos deB.
SejaτBa fam´ılia formada pelas reuni˜oes de elementos deB. Os subconjuntosHeX pertencem aτB, o conjunto vazio porque ´e a reuni˜ao da fam´ılia vazia de elementos deB, eX porqueB´e uma cobertura deX, a condi¸c˜ao i).
Sejam Vα“Ť
βPIαBβ, comBβPB eαPJ, uns elementos arbitr´arios deτB. Ent˜ao a reuni˜ao ď
αPJ
Vα“ ď
αPJ
˜ ď
βPIα
Bβ
¸
“ ď
αPJ
ď
βPIα
Bβ
tamb´em pertence a τB, porque ´e reuni˜ao de elementos de B. Por outro lado, uma interse¸c˜ao de dois elementos
Vα
čVα1 “
˜ ď
βPIα
Bβ
¸ č
¨
˝ ď
β1PIα1
Bβ1
˛
‚“ ď
βPIα,βPIα1
´ Bβ
čBβ1
¯
tamb´em pertence aτB pela condi¸c˜ao ii).
eg A fam´ılia tBrpxq “ sx´r, x`rr comxPQerPQ`u das bolas abertas de centro e raio racionais ´e uma base, enumer´avel, da topologia euclidiana deR.
eg tra, bs coma, bPReaăbun˜ao ´e base de nenhuma topologia na recta real.
egBase enumer´avel da topologia euclidiana. A fam´ıliaB“ tBrpxqcomxPQn erPQ`u
´e uma base, enumer´avel, da topologia euclidiana deRn. Portanto, o espa¸co euclidianoRn admite uma base enumer´avel (satisfaz o segundo axioma de enumerabilidade).
ex Um espa¸co topol´ogico discreto n˜ao enumer´avel n˜ao admite uma base enumer´avel.
ex A fam´ılia τe “ ts´8, xr comxPRu Y tH,Ru´e uma topologia em R, menos fina do que a topologia euclidiana. A subfam´ıliaB“ ts´8, rr comrPQu´e uma base desta topologia.
Produtos finitos de espa¸cos topol´ogicos. SejampX, τXqepY, τYqdois espa¸cos topol´ogicos.
A fam´ılia
B“ tAˆB comAPτX eBPτYu
´e uma base de uma topologia no produto cartesianoXˆY (porque ´e uma cobertura, e a interse¸c˜ao de dois elementos deB´e ainda um elemento deB), ditatopologia produto. O espa¸coXˆY, munido desta topologia, ´e dito produto topol´ogicodos espa¸cosX eY.
Se pX, dXq epY, dYq s˜ao espa¸cos m´etricos munidos da topologia induzida, ent˜ao a topologia producto emXˆY ´e a topologia induzida pela m´etrica produto, por exemplo maxtdX, dYu, em XˆY.
De maneira an´aloga ´e possivel definir produtos topol´ogicos de uma fam´ılia finita de espa¸cos topol´ogicos.
Topologia produto. Sejam pXα, ταqespa¸cos topol´ogicos, comαPA(um conjunto n˜ao neces- sariamente finito nem enumer´avel), e
X“ ź
αPA
Xα:“
#
x:AÑ ď
αPA
Xαt.q. xαPXα para todosαPA +
2 ESPAC¸ OS TOPOL ´OGICOS 11
o produto cartesiano dosXα(onde utilizamos a nota¸c˜aoxpαq “xαpara a “coordenada”α-´esima do pontox). Umcilindro abertodeX ´e um conjuntoC formado da seguinte maneira: existem um conjunto finito de ´ındicesα1, α2, ..., αnPAe uns abertosCαi ĂXαi parai“1,2, ..., ntais que
C“ tx“ pxαqαPAPX tais quexαiPCαi para todoi“1,2, ..., nu
A fam´ıliaC formada pelos cilindros abertos deX satisfaz as condi¸c˜oes do teorema2.1, portanto ´e base de uma topologia emX, ditatopologia produto.
ex A topologia produto emRn, onde cada c´opia de R´e munida da topologia euclidiana, ´e a topologia euclidiana (observe que, tratando-se de um produto finito, e sendo os cilindros abertos produtos de abertos dos factores, a fam´ılia dos cilindros abertos cont´em as bolas abertas do espa¸co Rn munido da m´etricad8).
Vizinhan¸cas. Sejam pX, τq um espa¸co topol´ogico e x P X. Uma vizinhan¸ca de x ´e um subconjuntoN ĂX tal que existe um aberto Aque cont´em o pontoxe que est´a contido em N, i.e. xPAĂN.
Evidentemente, todo aberto que cont´emx´e uma vizinhan¸ca dex.
ex Sejaxum ponto de um espa¸co topol´ogicoX. SeAeB s˜ao vizinhan¸cas dex, ent˜aoAXB´e uma vizinhan¸ca dex. SeA´e uma vizinhan¸ca dexeAĂB, ent˜aoB ´e uma vizinhan¸ca dex.
Teorema 2.2 (abertos e vizinhan¸cas). Um subconjuntoA de um espa¸co topol´ogico ´e aberto sse ´e uma vizinhan¸ca de todos os seus pontos.
Demonstra¸c˜ao. ñTrivial.
ðPara todo xPA, sendo A uma vizinhan¸ca de x, existe um abertoAx tal quexPAx ĂA.
Isto implica queA“ YxPAAx, e portanto ´e aberto.
Base local. SejampX, τqum espa¸co topol´ogico exPX. Umabase local, ousistema fundamental de vizinhan¸cas, emx´e uma fam´ılia Bx de vizinhan¸cas de xtal que todo aberto Aque cont´em x tamb´em cont´em um elemento de Bx.
egEspa¸cos metriz´aveis admitem bases locais enumer´aveis. SejamX um espa¸co m´etrico exPX. A fam´ılia tBrpxqcomrą0u´e uma base local emxdo espa¸co m´etricoX. As fam´ılias tBrpxqcomrPQ`ue B1{npxqcomnPN(
s˜ao bases locais, enumer´aveis, emxdo espa¸co m´etrico X. Portanto, todo espa¸co metriz´avel admite uma base local enumer´avel em todos os seus pontos (satisfaz o primeiro axioma de enumerabilidade).
Sucess˜oes. SejapX, τqum espa¸co topol´ogico. Umasucess˜aoemX ´e uma aplica¸c˜aof :NÑX.
E costume designar por´ xn o valor da sucess˜ao no pontonPN, e porpxnqa sucess˜ao. O conjunto txnunPNĂX ´e a imagem da sucess˜ao.
A sucess˜aopxnq´econvergente para o pontoxPX se para toda vizinhan¸ca V dexexiste um natural n tal que xn P V se n ą n. Se isto acontecer, diz-se que x´e um limite da sucess˜ao, e escreve-se
nÑ8lim xn“x ou xn Ñx
Uma subsucess˜ao de f : NÑX ´e uma aplica¸c˜ao da forma f ˝k, onde k : NÑN´e uma fun¸c˜ao estritamente crescente. Sepxnqdenota a sucess˜aof ekn o valor de kemn, ent˜aopxknqdenota a subsucess˜aof˝k. Em particular, a imagemtxknunPNda subsucess˜ao ´e um subconjunto detxnunPN. eg Se X ´e um espa¸co topol´ogico trivial (e portanto a ´unica vizinhan¸ca de um ponto x ´e X) ent˜ao toda sucess˜ao converge para todo ponto xde X. Isto mostra que, num espa¸co topol´ogico arbitr´ario, o limite de uma sucess˜ao pode n˜ao ser ´unico.
3 NOC¸ ˜OES TOPOL ´OGICAS 12
Limites em espa¸cos m´etricos e metriz´aveis. SejampX, dqum espa¸co m´etrico e pxnquma sucess˜ao em X. A sucess˜ao ´e covergente paraxPX sse para todoεą0 existe um naturalntal quedpxn, xq ă ε sen ąn. A sucess˜ao ´e covergente para xPX sse para todo k PN existe um naturalntal quedpxn, xq ă1{k senąn.
Se X ´e um espa¸co topol´ogico metriz´avel e pxnq ´e uma sucess˜ao convergente, ent˜ao o limite ´e
´
unico (porque pontos distintos de um espa¸co m´etrico admitem vizinhan¸cas disjuntas).
3 No¸ c˜ oes topol´ ogicas
Interior, exterior e fronteira. Sejam X um espa¸co topol´ogico eS um subconjunto deX.
Um pontoxPX´einterioraS se existe uma vizinhan¸caN dextal queN ĂS. Ointeriorde S´e o conjunto rmintpSqdos pontos interiores aS.
Um pontoxPX ´eexteriora S se existe uma vizinhan¸caN dextal que NĂXzS, ou seja se
´e interior ao complementar deS. Oexterior deS ´e o conjunto extpSqdos pontos exteriores a S.
A fronteira de S ´e o conjuntos frpSq (ou BS) dos pontos que n˜ao s˜ao nem interiores nem exteriores a S, ou seja o conjunto dos pontos xPX tais que toda vizinhan¸ca N dex intersecta querS querXzS.
Sendo estas trˆes condi¸c˜oes mutuamente exclusivas, temos queX ´e a reuni˜ao disjunta X “intpSq YextpSq YfrpSq
Das defini¸c˜oes segue que
intpSq ĂS extpSq “intpXzSq extpSq XS“ H frpSq “frpXzSq
Teorema 3.1(o interior deS´e o “maior” aberto contido emS). SejaS um subconjunto do espa¸co topol´ogicoX. Ent˜ao intpSq´e a reuni˜ao dos abertos contidos em S.
Demonstra¸c˜ao. Seja A um aberto contido em S. Se x P A ent˜ao x P intpSq, porque A ´e uma vizinhan¸ca dex. Isto prova que todo aberto contido emS est´a contido em intpSq.
Para todo x PintpSq existe uma vizinhan¸ca Nx de x tal que xP Nx Ă S, e portanto existe um aberto Ax tal que x P Ax Ă S. Pela observa¸c˜ao acima Ax Ă intpSq, e portanto intpSq “ Ť
xPintpSqAx´e um aberto, por ser uma reuni˜ao de abertos.
Teorema 3.2(caracteriza¸c˜ao dos abertos). Seja S um subconjunto do espa¸co topol´ogico X. As seguintes propriedades s˜ao equivalentes:
a)S ´e aberto b)S “intpSq c)SXfrpSq “ H
Demonstra¸c˜ao. añb SeA´e aberto, cont´em todos os abertos contidos emA, e portantoA“intpSq.
bñc SeS“intpSqent˜aoSXfrpSq “ H, porque a fronteira deS ´e disjunta do interior de S.
cña Se S XfrpSq “ H ent˜ao todo ponto x P S tem uma vizinhan¸ca N tal que N Ă S, e portantoS ´e aberto.
Subconjuntos fechados. Um subconjunto S do espa¸co topol´ogico X ´e fechado se o seu complementarXzS ´e aberto.
A fam´ılia dos subconjuntos fechados de um espa¸co topol´ogico satisfaz propriedades duais aos axiomas de uma topologia, ou seja
i)HeX s˜ao fechados,
ii) toda interse¸c˜ao de fechados ´e um fechado, iii) a reuni˜ao de dois fechados ´e um fechado.
Definir uma topologia, ou seja a fam´ılia dos subconjuntos abertos, emX ´e equivalente a definir a fam´ılia dos subconjuntos fechados, i.e. uma fam´ılia de subconjuntos deX que satisfaz as trˆes propriedades acima.
3 NOC¸ ˜OES TOPOL ´OGICAS 13
Teorema 3.3(caracteriza¸c˜ao dos fechados). Seja S um subconjunto do espa¸co topol´ogicoX. As seguintes propriedades s˜ao equivalentes:
a) S ´e fechado b)S “intpSq YfrpSq c)frpSq ĂS.
Demonstra¸c˜ao. E a proposi¸´ c˜ao3.2para o conjuntoXzS.
Aderˆencia. SejaS subconjunto do espa¸co topol´ogicoX . O fecho S, ouaderˆencia, deS ´e a interse¸c˜ao dos subconjuntos fechados de X que contˆem S, i.e. o “menor” conjunto fechado que cont´emS. Em particular,SĂS. Sendo extpSqa reuni˜ao dos abertos contidos emXzS, ´e imediato ver que
S“XzextpSq “intpSq YfrpSq e portantoS´e fechado sseS“S.
Os pontos de S s˜ao ditospontos de aderˆencia deS. Do facto de ser S “XzextpSqsegue que xPX ´e um ponto de aderˆencia deS sseNXS ‰ Hpara toda vizinhan¸caN dex.
Teorema 3.4 (pontos de aderˆencia em espa¸cos metriz´aveis). Seja S um subconjunto do espa¸co metriz´avelX. Ent˜aoxPS sse existe uma sucess˜ao pxnq de elementos deS que converge para x.
Demonstra¸c˜ao. ð Seja pxnq uma sucess˜ao de elementos de S que converge para x. Para toda vizinhan¸caN dexexiste um elementoxnda sucess˜ao tal quexn PN, e portantoNXS ‰ H(esta parte da prova n˜ao depende do facto deX ser metriz´avel).
ñSejam duma m´etrica que induz a topologia emX, exPS. As bolas abertas centradas em xs˜ao vizinhan¸cas de x, portanto para todo nPNexiste um ponto xn PS tal quexn PB1{npxq.
Isto implica que a sucess˜aopxnqconverge parax, porque a fam´ılia das bolas abertas de centroxe raios 1{ncomnnatural ´e uma base local da topologia em x.
ex Sejam S eT subconjuntos do espa¸co topol´ogicoX. Ent˜ao
intpSq XintpTq “intpSXTq intpSq YintpTq ĂintpSYTq frpSYTq ĂfrpSq YfrpTq SYT “SYT SXT ĂSXT
Dˆe exemplos tais que as inclus˜oes acima s˜ao estrictas.
ex Sejam S eT subconjuntos do espa¸co topol´ogicoX tais queS ĂT. Ent˜aoS ĂT. Dˆe um exemplo tal que frpSqn˜ao esteja contido em frpTq.
ex A fronteira de um subconjunto arbitr´ario de um espa¸co topol´ogico ´e um conjunto fechado.
ex A fronteira de um subconjunto aberto ou fechado de um espa¸co topol´ogico tem interior vazio.
ex SepX, dq´e um espa¸co m´etrico eS ĂX, ent˜aoS “ txPX t.q. dpx, Sq “0u.
ex SejaX um espa¸co topol´ogico discreto. Todo subconjuntoSĂX tem fronteira vazia.
ex SepX, dq´e um espa¸co m´etrico,xPXerą0, a bola fechadaBrrxs “ tx1PX t.q. dpx, x1q ďru
´e um conjunto fechado.
ex Dˆe um exemplo de um espa¸co m´etricopX, dqtal que o fecho da bola aberta Brpxqn˜ao ´e a bola fechadaBrrxs “ tx1PX t.q. dpx, x1q ďru.
3 NOC¸ ˜OES TOPOL ´OGICAS 14
ex Dˆe um exemplo de uma fam´ılia de subconjuntos fechados de um espa¸co topol´ogico tal que a reuni˜ao deles n˜ao ´e um conjunto fechado.
ex Seja Rmunido da topologia cofinita. Prove que os subconjuntos fechados s˜ao os conjuntos finitos eR. Prove que, se S“ sa, brcoma, bPReaăb, ent˜ao intpSq “ H,S“Re frpSq “R. Pontos limites e pontos isolados. SejaSum subconjunto do espa¸co topol´ogicoX. Um ponto xPX ´eponto de acumula¸c˜ao, ouponto limite, deS se toda vizinhan¸caN dexcont´em pelo menos um ponto deS diferente dex, i.e. se
pNz txuq XS‰ Hpara toda vizinhan¸caN dex
O conjuntoderivadodeS ´e o conjuntoS1 dos pontos de acumula¸c˜ao deS. Um conjuntoS ´e dito perfeitoseS“S1, i.e. se todo seu ponto ´e um ponto de acumula¸c˜ao.
Teorema 3.5. Seja S um subconjunto do espa¸co topol´ogico X. Ent˜ao S“SYS1.
Demonstra¸c˜ao. Da defini¸c˜ao conclui-se queS1XextpSq “ H, logoSYS1ĂS. Por outro lado, se xPS exRS, ent˜ao xPfrpSq, e portanto toda vizinhan¸ca N dextem interse¸c˜ao n˜ao vazia com Sz txu. LogoSĂSYS1.
SejaS um subconjunto do espa¸co topol´ogicoX . Um pontoxPS´e dito ponto isolado deS se xRS1, i.e. se existe uma vizinhan¸caN dextal queNXS “ txu. O conjuntoS´e dito discreto se todo seu ponto ´e um ponto isolado.
Da proposi¸c˜ao3.5segue que o fecho de um subconjuntoS do espa¸co topol´ogicoX ´e a reuni˜ao disjunta do conjunto dos pontos isolados deS e do conjunto dos pontos de acumula¸c˜ao deS.
exDiscreto emRnñenumer´avel. SejaSum subconjuntos discreto do espa¸coRneuclidiano.
Ent˜aoS ´e enumer´avel (lembre-se que a topologia euclidiana de Rn admite uma base enumer´avel).
exFinito em espa¸co metriz´avelñdiscreto. Um subconjunto finito de um espa¸co metriz´avel
´e discreto.
ex DetermineQ1 emR.
Teorema 3.6(pontos limites em espa¸cos metriz´aveis). SejaSum subconjunto do espa¸co metriz´avel X. Ent˜ao xPS1 sse existe uma sucess˜ao pxnq de elementos deSz txu que converge para x. Em particular, sexPS1 ent˜ao toda vizinhan¸ca dexcont´em infinitos pontos de S.
Demonstra¸c˜ao. Seja d uma m´etrica que induz a topologia em X. Sejam x P S1 e B1 “ B1pxq.
SendoB1uma vizinhan¸ca dex, existe um pontox1P pB1z txuqXS. DadosBnexnP pBnz txuqXS, sejamBn`1“Bdpx,xnq{2pxqexn`1um ponto da interse¸c˜aopBn`1z txuq XS. ´E imediato verificar que os pontosxn s˜ao distintos, a sucess˜aopxnq´e convergente e limnÑ8xn“x.
ex Sejapxnquma sucess˜ao de pontos deX, eS“ txnunPN a sua imagem. SexPS1 ent˜aopxnq admite uma subsucess˜ao convergente parax.
3 NOC¸ ˜OES TOPOL ´OGICAS 15
eg Conjunto de Cantor. Sejaϕ:t0,1,2uNÑ r0,1sa aplica¸c˜ao sobrejetiva definida por pxnq ÞÑ
8
ÿ
n“1
xn
3n
(a representa¸c˜ao em base 3 dos reais entre 0 e 1). Oconjunto de Cantorstandard (o “middle-third Cantor set”) ´e
K:“ϕ´
t0,2uN¯
“
#8 ÿ
n“1
xn
3n comxnP t0,2u +
i.e. o conjuntos dos reais entre 0 e 1 cujas representa¸c˜oes em base 3 n˜ao contˆem a letra “1”. ´E imediato verificar queϕ
ˇ ˇ
ˇt0,2uN ´e uma bijec¸c˜ao det0,2uNsobreK.
Outra defini¸c˜ao ´eK“ r0,1s zY8k“1Ik, onde os intervalos abertosIks˜ao definidos iterativamente da seguinte maneira: I1 ´e o ter¸co central s1{3,2{3r de r0,1s, I2 e I3 s˜ao os ter¸cos centrais dos intervalos der0,1s zI1, a sabers1{9,2{9res7{9,8{9r, . . . etc.
Mais uma defini¸c˜ao do conjunto de Cantor ´e K “ Ş8
n“1Kn, onde a fam´ılia decrescente dos fechados¨ ¨ ¨ ĂKn`1ĂKnĂ. . . ´e definida por
Kn “ r0,1s z
1`2`22`...`2n´1
ď
k“1
Ik.
Os fechados Kn s˜ao formados por 2n intervalos fechados e disjuntos, cada um de diˆametro 3´n. Em particular, o comprimento de Kn ´e |Kn| “ p2{3qn, e converge para zero no limite quando nÑ 8. Ou seja,K ´e um conjunto de medida (de Lebesgue) nula! .
O conjunto de Cantor ´e fechado emr0,1s, sendo uma interse¸c˜ao de conjuntos fechados.
O conjunto de Cantor tem interior vazio, porque nenhum intervalo aberto de diˆametroεą0 est´a contido emKn se 3´n ăε.
O conjunto de Cantor ´e perfeito. De facto, sex“ř8 n“1
xn
3n P K, ent˜ao a sucess˜ao ` xpkq˘
de pontos deK definida por
xpkq“
k´1
ÿ
n“1
xn
3n `xk`2pmod 4q
3k `
8
ÿ
n“k`1
xn
3n converge parax, sendoˇ
ˇx´xpkqˇ
ˇ“2{3k. A aplica¸c˜aoψ:t0,1uNÑ r0,1s, definida por
pynq ÞÑ
8
ÿ
n“1
yn
2n
´e sobrejetiva (´e a representa¸c˜ao bin´aria dos n´umeros reais entre 0 e 1). Por outro lado, a aplica¸c˜ao φ:t0,2uNÑ t0,1uN, definida porpxnq ÞÑ pxn{2q, ´e bijetiva, e portantoψ˝φ˝ϕ´1:KÑ r0,1s´e sobrejetiva. Isto mostra que o conjunto de Cantor tem a cardinalidade da recta real, em particular n˜ao ´e enumer´avel.
Subconjuntos densos. SejaS um subconjunto do espa¸co topol´ogicoX . O conjuntoS´edenso emX seS“X.
Teorema 3.7 (caracteriza¸c˜ao dos subconjuntos densos). Seja S um subconjunto do espa¸co to- pol´ogicoX. As seguintes propriedades s˜ao equivalentes:
a)S ´e denso emX b)intpXzSq “ H
c) todo aberto n˜ao vazio de X tem interse¸c˜ao n˜ao vazia comS
d) existe uma base B da topologia de X tal que todo elemento n˜ao vazio de B tem interse¸c˜ao n˜ao vazia comS.
4 APLICAC¸ ˜OES CONT´INUAS 16
Demonstra¸c˜ao. añb SeX “S“intpSqY frpSqent˜ao intpXzSq “extpSq “ H.
bñc Seja A um aberto n˜ao vazio de X tal que AXS ‰ H. Ent˜ao A Ă XzS, e portanto intpXzSqn˜ao ´e vazio, porque cont´emA.
cñd A topologiaτ ´e uma base da topologiaτ.
dña Seja xP XzS. Para toda vizinhan¸ca N de x existe um elemento B da base B tal que xPB ĂN. A condi¸c˜aoBXS‰ He o facto de serxPXzS implicam quepNz txuq XS ‰ H, ou seja quexPS1. Isto mostra queX “SYS1“S.
eg O conjuntoQ´e denso emR. O conjuntoQn´e denso emRn. Portanto, os espa¸cos euclidianos Rn admitem subconjuntos densos enumer´aveis (s˜ao ditosespa¸cos separ´aveis).
ex SejaS um subconjunto denso no espa¸co topol´ogicoX, eAum aberto deX. Ent˜ao AĂSXA
ex Caracteriza¸c˜ao dos abertos da recta real. Todo aberto da recta real ´e uma reuni˜ao enumer´avel de intervalos abertos.
(SejaA um aberto de R. Para xPA, seja Ax a reuni˜ao de todos os intervalos abertosB tais quexPBĂA. Prove queAx´e um intervalo aberto. Prove que sex, x1PAent˜ao ouAx“Ax1 ou AxXAx1 “ H. Prove que a fun¸c˜aof :QÑ tAx comxPAu, definida porfprq “AxserPAx, ´e sobrejectiva, e deduza queA´e uma reuni˜ao enumer´avel de intervalos abertos).
ex Determine interior, exterior, aderˆencia, fronteira e derivado dos seguintes subconjuntos da recta real:
r´1,0r Y s0,1r r0,1r Q Z RzQ
"
n
n`1 comnPN
*
ex Dˆe exemplos, se existirem, de subconjuntosSĂRtais que
frpSq “ H intpSq “ H RzS“R S1“ H S1 ´e aberto
S“frpSq S“S1 S1XS“ H S“intpSq frpSq ‰frpfrpSqq
4 Aplica¸ c˜ oes cont´ınuas
Aplica¸c˜oes cont´ınuas. Sejam X e Y dois espa¸cos topol´ogicos. A aplica¸c˜ao f : X Ñ Y ´e cont´ınua em xPX se para toda vizinhan¸ca N de fpxq PY existe uma vizinhan¸caM dexPX tal quefpMq ĂN.
A aplica¸c˜aof :X ÑY ´econt´ınuase ´e cont´ınua em todos os pontos deX.
ex SejaS um subconjunto do espa¸co topol´ogico X, e1S :X ÑRa fun¸c˜ao caracter´ıstica deS, definida por 1Spxq “ 1 sex PS e 1Spxq “ 0 se xR S. Prove que1S ´e cont´ınua em xP X sse xRfrpSq.
ex Seja f : X ÑY uma aplica¸c˜ao cont´ınua entre os espa¸cos m´etricos X eY. Se pxnq ´e uma sucess˜ao convergente emX, ent˜aopfpxnqq´e uma sucess˜ao convergente em Y e
lim
nÑ8fpxnq “f´ lim
nÑ8xn¯
Teorema 4.1 (f cont´ınuaô f´1(aberto) = aberto). Sejam X e Y dois espa¸cos topol´ogicos, e f :X ÑY uma aplica¸c˜ao. As propriedades seguintes s˜ao equivalentes:
a)f ´e cont´ınua,
b)f´1pAq´e aberto em X para todoA aberto emY, c)f´1pFq´e fechado emX para todoF fechado emY.
4 APLICAC¸ ˜OES CONT´INUAS 17
Demonstra¸c˜ao. añb Sejam A um subconjunto aberto e n˜ao vazio de Y, e x P f´1pAq. Sendo aberto,A´e uma vizinhan¸ca defpxq. Pela continuidade def emx, existe uma vizinhan¸caM dex tal quefpMq ĂA. Portanto, M est´a contido emf´1pAq. Isto prova quef´1pAq´e aberto emX. bña Sejam x P X eN uma vizinhan¸ca de fpxq. N cont´em um aberto A tal que xP A Ă N. Se a imagem inversa f´1pAq ´e aberta em X, ent˜ao f´1pAq´e uma vizinhan¸ca de xtal que f`
f´1pAq˘
ĂAĂN. Isto prova quef ´e cont´ınua em x.
A equivalˆencia entre b) e c) ´e evidente.
ex Sejam τ eτ1 topologias emX, com τ Ăτ1. Ent˜ao a fun¸c˜ao identidade id :X ÑX ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua depX, τ1qsobrepX, τq, mas a inversa pode n˜ao ser cont´ınua.
Teorema 4.2(cont´ınua˝cont´ınua = cont´ınua). SejamX,Y eZ espa¸cos topol´ogicos,f :XÑY eg:Y ÑZ duas aplica¸c˜oes. Sef ´e cont´ınua emxPX e g´e cont´ınua emfpxq PY, ent˜ao g˝f
´e cont´ınua em xPX. Sef eg s˜ao cont´ınuas, ent˜ao g˝f ´e cont´ınua.
Demonstra¸c˜ao. Exerc´ıcio.
Topologia induzida por uma aplica¸c˜ao. SejampX, τqum espa¸co topol´ogico,Y um conjunto n˜ao vazio ef :Y ÑX uma aplica¸c˜ao. A fam´ılia
f´1pτq “ f´1pAqcomAPτ(
´e uma topologia emY, dita topologia induzida pela aplica¸c˜ao f. ´E a menos fina das topologias emX tais quef :Y ÑX ´e cont´ınua.
Topologia quociente. Sejam pX, τq um espa¸co topol´ogico e „ uma rela¸c˜ao de equivalˆencia definida em X. Existe uma proje¸c˜ao natural π : X Ñ Xr do conjunto X sobre o conjunto das classes de equivalˆenciaXr “X{ „, definida porxÞÑ rxs ““a classe dex”. A fam´ılia
πpτq “
!
AĂXr tais queπ´1pAq Pτ )
´e uma topologia em Xr , dita topologia quociente. ´E a mais fina das topologias em Xr tais que a proje¸c˜aoπ:X ÑXr ´e cont´ınua.
eg Espa¸cos projetivos reais. O espa¸co projetivo real RPn “P` Rn`1˘
´e o espa¸co dos su- bespa¸cos vectoriais de dimens˜ao um (as rectas que passam pela origem) de Rn`1. Toda recta deRn`1que passa pela origem intersecta a esfera unit´aria Sn “ xPRn`1t.q. |x| “1(
em dois pontos antipodais. Portanto,RPn ´e o quociente da esferaSn pela rela¸c˜ao de equivalˆenciax„ ´x.
A topologia natural no espa¸co projetivo RPn ´e a topologia quociente, induzida pela proje¸c˜ao π:Sn ÑRPn, definida porxÞÑ“a recta deRn`1passante por xe 0”.
Topologia relativa e continuidade. SejamX eY dois espa¸cos topol´ogicos ef :X ÑY uma aplica¸c˜ao cont´ınua. SeZ ĂX´e munido da topologia relativa, ent˜ao a aplica¸c˜aof|Z :Z ÑY ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua. SefpXq ĂY ´e munido da topologia relativa, ent˜ao a aplica¸c˜aofr:X ÑfpXq, definida porfrpxq “fpxq, ´e tamb´em uma aplica¸c˜ao cont´ınua.
eg Proje¸c˜oes em Rn. As proje¸c˜oes πi : RnÑR, definidas por πippx1, x2, ..., xnqq “ xi, s˜ao aplica¸c˜oes cont´ınuas, pois s˜ao lineares.
Uma aplica¸c˜aof :RnÑRm´e cont´ınua sse as “componentes” πi˝f s˜ao cont´ınuas para todos i“1,2, ..., m.
ex Prove que a aplica¸c˜ao ϕ:RÑR2, definida portÞÑ pt2, t3q, ´e cont´ınua e que a sua imagem ϕpRq´e fechada emR2.
4 APLICAC¸ ˜OES CONT´INUAS 18
ex Sejam f, g : X Ñ R fun¸c˜oes cont´ınuas definidas no espa¸co topol´ogico X. Prove que s˜ao cont´ınuas as seguintes fun¸c˜oes
|f|:X ÑR, definida porxÞÑ |fpxq|
λf :X ÑR, definida porxÞÑλ¨fpxqcomλPR f`g:X ÑR, definida porxÞÑfpxq `gpxq f g:X ÑR, definida porxÞÑfpxq ¨gpxq 1{f :Xzf´1t0u ÑR, definida porxÞÑ1{fpxq
ex Sejam f, g : X Ñ Rn fun¸c˜oes cont´ınuas definidas no espa¸co topol´ogico X. Prove que s˜ao cont´ınuas as seguintes fun¸c˜oes
|f|:X ÑR, definida porxÞÑ |fpxq|
λf :X ÑRn, definida porxÞÑλ¨fpxqcomλPR f`g:X ÑRn, definida porxÞÑfpxq `gpxq
ex SejaMnpRqo conjunto das matrizesnˆncom entradas reais, identificado ao espa¸co euclidiano Rn
2 por meio da bije¸c˜ao
MnpRq QA“ paijq ÞÑ pa11, a12, ..., a1n, a21, ..., a2n, ..., annq PRn
2
Prove que a aplica¸c˜ao det : MnpRq Ñ R, definida por A ÞÑ detpAq, ´e cont´ınua. Deduza que o conjuntoGLnpRqdas matrizesnˆninvert´ıveis ´e um aberto em MnpRq.
eg Conjuntos de n´ıvel. Sejam f : X Ñ R uma aplica¸c˜ao cont´ınua e a P R. Ent˜ao txPX t.q. fpxq ăau ´e aberto em X, pois ´e a imagem inversa do aberto sa,8r da recta real, etxPX t.q. fpxq ďau´e fechado emX, pois ´e a imagem inversa do fechadora,8rda recta real.
O conjunto de n´ıvelf´1tau “ txPX t.q. fpxq “au´e fechado emX, pois ´e a imagem inversa do fechadotauda recta real.
Em geral, se f :X ÑY ´e cont´ınua, e se os pontos de Y s˜ao fechados emY, os conjuntos de n´ıvelf´1tyus˜ao fechados emX para todoyPY.
eg Subespa¸cos afins. SejaL :RnÑRuma aplica¸c˜ao linear diferente da aplica¸c˜ao nula. Os conjuntos de n´ıvel L´1tau, comaPR, s˜ao hiperplanos afins de Rn. Dois hiperplanosL´1taue L´1tbudefinidos pela mesma aplica¸c˜ao linear s˜ao paralelos.
Em geral, se L : Rn Ñ Rm ´e uma aplica¸c˜ao linear e aP Rm, o conjunto de n´ıvel L´1tau´e um subespa¸co afim se Rn, o conjunto das solu¸c˜oes da equa¸c˜ao linear Lpxq “ a. O conjunto de n´ıvelL´1t0u “kerpLq´e um subespa¸co vectorial deRn, o conjunto das solu¸c˜oes da equa¸c˜ao linear homog´eneaLpxq “0. Portanto,
L´1tau “L´1t0u `a“ x`acomxPL´1t0u( Os subespa¸cos afins deRn s˜ao subconjuntos fechados deRn.
eg Gr´aficos. Sejaf : X ÑY uma aplica¸c˜ao cont´ınua entre os espa¸cos m´etricos X eY, e seja XˆY munido da m´etrica produto maxtdX, dYu. O gr´afico def, definido por
graphpfq “ tpx, fpxqq PXˆY comxPXu
´e fechado emX ˆY, pois ´e igual ao conjuntoϕ´1t0u, onde ϕ:XˆY ÑR´e a fun¸c˜ao cont´ınua definida porpx, yq ÞÑdYpfpxq, yq.
Aplica¸c˜oes abertas. SejamX eY dois espa¸cos topol´ogicos. Uma aplica¸c˜aof :X ÑY ´e dita abertasefpAq´e aberto emY para todoAaberto emX.
As proje¸c˜oesπi:RnÑRs˜ao abertas.
A fun¸c˜aoxÞÑx2definida na recta real n˜ao ´e aberta, mesmo sendo cont´ınua, poisfpRq “ r0,8r.
4 APLICAC¸ ˜OES CONT´INUAS 19
Aplica¸c˜oes fechadas. Sejam X eY dois espa¸cos topol´ogicos. Uma aplica¸c˜ao f :X ÑY ´e ditafechada sefpFq´e fechado emY para todoF fechado emX.
As inclus˜oes i : Rn Ñ Rm, definidas por ippx1, x2, ..., xnqq “ px1, x2, ..., xn,0,0, ...,0q para nďm, s˜ao aplica¸c˜oes fechadas.
As proje¸c˜oes πi :RnÑRn˜ao s˜ao fechadas, desde que ną 1. Por exemplo, o conjuntoG “ graphparctanxq, onde arctan :RÑR, ´e fechado em R2, masπ2pGq “ s´π{2, π{2r n˜ao ´e fechado na recta real.
ex A composi¸c˜ao de duas fun¸c˜oes abertas ´e aberta. A composi¸c˜ao de duas fun¸c˜oes fechadas ´e fechada.
Continuidade uniforme. Sejam pX, dXq e pY, dYq dois espa¸cos m´etricos. A aplica¸c˜ao f : X ÑY ´euniformemente cont´ınuase para todoεą0 existeδą0 tal quedYpfpxq, fpx1qq ăεse dXpx, x1q ăδ.
Uma aplica¸c˜ao uniformemente cont´ınua ´e cont´ınua.
ex Lipschitz ñ uniformemente cont´ınua. Uma aplica¸c˜ao lipschitziana ´e uniformemente cont´ınua.
ex A fun¸c˜aoxÞÑ?
x, definida emR`, ´e uniformemente cont´ınua mas n˜ao ´e lipschitziana.
ex A fun¸c˜aoxÞÑx2´e uniformemente cont´ınua em todos os intervalos limitadosra, bsda recta real, mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua na rectaR.
ex A fun¸c˜aoxÞÑ1{x, definida emRzt0u, ´e cont´ınua mas n˜ao ´e uniformemente cont´ınua.
Homeomorfismos. Sejam X e Y dois espa¸cos topol´ogicos. A aplica¸c˜ao f : X Ñ Y ´e um homeomorfismo, ou umaequivalˆencia topol´ogica, se ´e cont´ınua, bijetiva, e se a inversaf´1:Y ÑX
´e cont´ınua.
Os espa¸cos topol´ogicosXeY s˜ao ditos homeomorfos, outopologicamente equivalentes, se existe um homeomorfismof :X ÑY. ´E imediato ver que:
a identidade id :X ÑX ´e um homeomorfismo,
sef :X ÑY ´e um homeomorfismo ent˜aof´1:Y ÑX tamb´em ´e um homeomorfismo, sef :X ÑY eg:Y ÑZ s˜ao homeomorfismos, ent˜aog˝f :X ÑZ ´e um homeomorfismo.
Portanto, a equivalˆencia topol´ogica ´e uma rela¸c˜ao de equivalˆencia entre espa¸cos topol´ogicos. Uma nota¸c˜ao para indicar que os espa¸cosX eY s˜ao homeomorfos ´eX «Y. As propriedades comuns
`
as classes de espa¸cos homeomorfos s˜ao ditas propriedades topol´ogicas.
Por exemplo, ser um espa¸co discreto, ser um espa¸co trivial, ter um subconjunto denso enu- mer´avel, admitir uma base enumer´avel, s˜ao propriedades topol´ogicas.
eg Proje¸c˜oes. SejaXˆY o produto topol´ogico dos espa¸cos topol´ogicosX eY. A proje¸c˜ao πX:XˆY ÑX
definida porpx, yq ÞÑx, ´e uma aplica¸c˜ao cont´ınua, aberta e sobrejetiva. Em particular, sey PY, a aplica¸c˜ao
πXˇ
ˇXˆtyu :Xˆ tyu ÑX
´e um homeomorfismo.
eg Gr´aficos. Seja f : X Ñ Y uma aplica¸c˜ao cont´ınua entre os espa¸cos topol´ogicos X eY. A aplica¸c˜ao xÞÑ px, fpxqq´e um homeomorfismo deX sobre graphpfq, cuja inversa ´e a restri¸c˜ao πX
ˇ
ˇgraphpfq da proje¸c˜ao πX : X ˆY Ñ X. Portanto, o gr´afico de uma aplica¸c˜ao cont´ınua ´e homeomorfo ao dom´ınio.
4 APLICAC¸ ˜OES CONT´INUAS 20
eg Grupos de homeomorfismos. Seja X um espa¸co topol´ogico. O conjunto HompXq dos homeomorfismos g :X ÑX ´e um grupo, dito grupo dos homeomorfismos de X, com respeito `a lei de composi¸c˜ao.
egHomeomorfismos de Rn. Os grupos AffpRnqe IsompRnqs˜ao subgrupos de HompRnq. Em particular, o espa¸co euclidianoRn´e um espa¸co topol´ogicohomog´eneo: dados dois pontos arbitr´arios xex1 existe um homeomorf´ısmo gPHompRnqtal que gpxq “x1.
eg Proje¸c˜ao estereogr´afica. SejamSn“ xPRn`1 t.q. |x| “1(
a esfera unit´aria deRn`1e p“ p0, ..,0,1q PSn o seu “p´olo norte”. Dado xPSnz tpu, a recta que passa porxepintersecta o hiperplanotxn`1“0u «Rn num ´unico ponto
πppxq:“ px`Rpp´xqq X txn`1“0u.
A proje¸c˜ao estereogr´aficaπp:Snz tpu ÑRn, definida por xÞÑπppxq, ´e um homeomorfismo. Em geral, sexPSn, o espa¸coSnz txu´e homeomorfo aRn.
ex Uma aplica¸c˜aof :X ÑY cont´ınua e bijetiva ´e um homeomorfismo sse ´e aberta ou fechada.
ex Determine um homeomorfismo entre as bolasBrpxqeBr1px1qdo espa¸co euclidiano Rn (por exemplo uma transforma¸c˜ao afim).
ex Determine um homeomorfismo entre a recta real e o intervalo s0,1r.
ex Prove que a aplica¸c˜aoxÞÑx{ |x|2´e um homeomorfismo deRnz t0u.
ex Prove que a aplica¸c˜ao
xÞÑ x b
1` |x|2
define um homeomorfismo deRn sobreDn“ txPRn t.q. |x| ă1u.
ex Determine uns homeomorfismos entre as “esferas”
Sn´12 :“ txPRn t.q. |x|2“1u, Sn´11 :“ txPRn t.q. |x|1“1u e Sn´18 :“ txPRn t.q. |x|8 “1u
ex Determine um homeomorfismo entre R2z t0u e o cilindro C “ xPR3 t.q. x21`x22“1( . Deduza que, sex ex1 s˜ao dois pontos distintos da esfera S2, ent˜ao S2z tx, x1u´e homeomorfo ao cilindroC.
ex Diga se os seguintes subconjuntos deRns˜ao fechados, abertos, e determine as suas fronteiras:
Sn´1“ txPRn t.q. |x|2“1u Dn“ txPRn t.q. |x|2ă1u
Hn“ tx“ px1, x2, ..., xnq PRn t.q. xną0u px, yq PR2 t.q. x´y2ą0(
px, yq PR2 t.q. x2´y2“1( px, yq PR2 t.q. xyă0(
px, y, zq PR3t.q. z´x2´y2“0(