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O LUGAR DO PAI NA ATUALIDADE¹

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Academic year: 2021

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O LUGAR DO PAI NA ATUALIDADE¹

ZANINI, Angélica2; Amanda Pereira3

1 Trabalho de pesquisa bibliográfica - Ulbra

2 Psicóloga (UNIFRA), Especializanda em Atendimento Clínico Psicanalítico (ULBRA), Santa Maria, RS, Brasil

3 Psicóloga (UFSM), Professora do curso de psicologia (Ulbra) , Especialista em

Atendimento clínico: Ênfase Psicanálise ( UFRGS). Mestre em Distúrbios da Comunicação Humana (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil

E-mail: gelipsi.sm@hotmail; psico_amanda@hotmail.

RESUMO

Historicamente a família é patriarcal, no entanto, a mesma vem sofrendo alterações e consequentemente os atores que a compõem tambem, afetando assim, a função paterna.

Na sociedade atual, a mulher busca cada vez mais uma simetria de direitos, deveres e logo de poder aos homens, onde o pai é demandado ser uma segunda mãe, sendo assim, deslocado do lugar de possuidor do falo na família. Dessa forma então questiona-se que lugar o pai ocupa na sociedade atual?

Palavras- chave: pai, função paterna, falo, sociedade, família.

1. INTRODUÇÃO

A sociedade moderna vem mudando e consequentemente os atores que a compõem, também fazem parte desta mudança. A mulher vem buscando cada vez mais se igualar ao homem, tanto em relação aos direitos como em relação aos deveres. Desta forma, o homem é solicitado a desempenhar tarefas antes exclusivas da mulher, como por exemplo, tarefas domesticas e no cuidado com os filhos e cada vez mais vem se questionando sobre a contribuição deste no cuidado dos filhos, apesar do cuidado do pai ser diferente do da mãe.

O fato é que vem se demandando que o pai realize o papel quase de uma segunda mãe, como por exemplo, cuidando da higiênie, ajudando nos temas, auxiliando na alimentação, no banho, tirando assim, o pai do lugar, que antes ocupava o lugar de provedor

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da família, de poder e de detentor do falo, no qual este ditava as regras familiares, enquanto a mãe cuidava dos filhos. Pai e mãe entram numa disputa pelo falo, desta maneira, que conseqüências acarretam na função paterna.

O pai da atualidade, muitas vezes ocupa o lugar de pai fracassado, onde a mãe detem o poder, ou ainda, de um pai tomado apenas como genitor que não exerce a função paterna. Isso é visto até mesmo, pelas mudanças sociais, resultantes do divorcio e da separação, por exemplo, onde os filhos normalmente ficam com a mãe. Ou ao contrario, quando alguns pais acabam exercendo uma função materna com os seus filhos. Portanto o presente trabalho visa compreender, que lugar o pai ocupa em nossa sociedade atual?

2. DESENVOLVIMENTO

Estabelecendo a diferença entre ser pai e genitor, Roudinesco (2003) utiliza-se do direito romano, no qual Pater é quem simboliza o pai de uma criança por adoção, que conduz pela mão. Sendo que o genitor é o resultado de uma filiação biológica que pode ser totalmente desconsiderada se não for designada pelos gestos ou pela palavra. A paternidade biológica não tem significado no reino romano, pois se a criança não for reconhecida como filho por um homem, apesar de ter nascido da esposa legítima, não tem pai. No entanto, quando um homem quiser reconhecer como filho, ele pode dar tudo o que desejar para um estranho, reconhecendo-o como filho natural, mas também pode vir a abandoná-lo, pois como não é seu filho, nada lhe deve.

Lebrun (2004) aponta que “Ser pai” dá o ingresso à dimensão simbólica, à linguagem, estando dessa forma relacionado à instauração da realidade psíquica do sujeito.

Enquanto “ser genitor” se limita a copular com uma mulher e isso resultar na procriação. A

“função de ser pai” não é algo pensável na experiência humana sem levar em consideração a categoria do significante, como elucida Lacan. Isso se dá somente a partir de um processo cultural de trocas resultando em um estado de significante primeiro com consistência.

Portanto, para ter o sentido de ser pai, é preciso que um genitor possa tornar-se pai.

O Nome-do-Pai como sendo um significante instituinte do sujeito, faz parte da raiz de toda instituição, do individual ao coletivo, pois ao depararmos com o Nome-do-Pai enquanto significante do Outro, estara o lugar da Lei. Pois os efeitos resultantes do Nome-do-Pai, estão relacionados ao conjunto, onde cada um, depois de ter entrado, terá que encontrar seu lugar, onde a partir do Nome-do-Pai se organiza a instituição família (HOYER 2010).

Historicamente a família é paternalista, respeitando assim a estrutura hierárquica na qual o pai é o maior responsável por passar a base da formação moral e também pela

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introdução na cultura (LACAN1938). Concebida como berço e lugar regulador da vida social, na família havia a preparação para o futuro, para o convívio em sociedade, onde se apresentava e se dava a instauração da lei. Pois a família não era privada, tinha estreitos laços com o social. Nessa família, o pai era comparado ao topo da pirâmide social, uma vez que seu papel era de representar a figura de autoridade. A partir dos séculos XVIII-XIX, essa organização é alterada e a família fecha-se em si, organizando-se em torno dos atores que a compõem. Ela é assim denominada de “família desinstitucionalizada”, ou seja, não mais organizada pelo social, pela instituição, mas pelas normas individuais no pacto privado e nas negociações internas. Torna-se uma família igualitária na qual a hierarquia desaparece, ocorrendo assim o declínio da autoridade e, com este, o declínio da autoridade da imago paterna (LEBRUN 2004).

A família ainda é a base para constituição do sujeito, onde a mãe tem mais fortemente a missão de cuidado, pois sem cuidado a criança não sobrevive, já que a criança é totalmente dependente, no que diz respeito ao afeto. Já o pai, tem principalmente a função de apresentar a sociedade, instaurando dessa forma a lei, onde então na família a criança aprende os costumes, direitos e deveres da sociedade (ARIÉS 2006).

No entanto, a idéia de família nem sempre foi como a que temos nos dias de hoje, ocorreu uma lenta revolução em relação ao sentimento de família, a partir do século XV, pois, até então, este sentimento de família não existia, mudando conseqüentemente o papel da família no decorrer do tempo. As mudanças afetaram a função paterna e materna, onde o pai tinha um papel de provedo, ainda no século XVI, e somente com o passar do tempo se modifica, só no século XVII, o pai passa a se preocupar também com a educação dos filhos, papel este que vem se alterando até os dias de hoje (ARIÉS 2006).

A família é um dado indispensável em nossa civilização, a forma como organizamos a nossa família demonstra na prática a cultura, é na família que cria-se segurança para ser um sujeito livre. Na constituição do indivíduo, é importante ter consciência da indistinção com a mãe, o pai e conjunto família, para ser indivíduo separado, mas que têm no pai e na mãe as suas principais características estruturais, enquanto pessoa; pois os pais seguem na realidade psíquica do sujeito ao longo da vida das pessoas (WINNICOTT 2005). Os pais tem responsabilidade no que diz respeito a função social, em três aspectos, de provedor da família, econômico; educativo para sustentar a passagem da criança da vida familiar ao social e a função “maternalizante”, é a implicação nos cuidados da criança (GIONGO 2005).

O pai é o outro da mãe e dele é a responsabilidade de separar mãe e criança, possibilitando que se torne sujeito. Esse processo foi denominado por Freud de complexo de

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Édipo e tem um papel fundamental na estruturação da personalidade do sujeito, na medida em que permite a instalação das identificações. O papel materno de acordo com a representação simbólica do corpo feminino, se atribuí o que vai além de nutrir, agasalhar, e a proteção mas também supõem-se que a mãe tenha uma atitude continente e de recipiente das angústias existenciais dos filhos. Winnicott (2005), defini como mãe suficientemente boa, a mãe capaz de possuir a função de holding, que é a capacidade de proteger a criança da agressão fisiológica, tendo relação com a capacidade da mãe identificar-se, com seu bebê.

Enquanto que, para o papel paterno, também pela questão simbólica da imagem do masculino, teria como função colocar-se entre mãe e filho para contribuir no processo de dessimbiotização, e constituir sua identidade ao longo do desenvolvimento psicológico da criança. Sendo assim, o papel do pai é a função de interdição, ou seja, de introduzir a lei que regula e coloca em ordem as relações na sociedade, e organiza o prazer e o principio de realidade. O pai é quem faz o filho, renunciar a posse da mãe e a criança seguir seu desenvolvimento no processo de individuação. Pois o filho na relação com a mãe, acredita ser o que falta a ela, o que a mãe deseja, o falo, pois a mãe coloca o filho no lugar de falo imaginário, no entanto, primeiro a criança precisa reconhecer que não é o falo e depois passa questionar sem tem ou não o falo, na medida que a castração acontece (NASIO 1997). A função da Lei de acordo com Hoyer 2010, não é somente de proibir, mas de colocar limites, desempenhando um papel estruturante, que organiza e de fundador do sujeito e da instituição família.

O complexo da castração é inconsciente e tem uma função de nó. A relação existente entre o assassinato do pai, o pacto de uma lei primordial se há portanto correlação implícita que a castração é a punição do incesto. Lacan então discorre destacando quatro elementos em relação a mulher, pela razão que a relação entre sujeito e o falo, desconsiderando a diferença anatômica entre os sexos. Sendo o primeiro, começa questionando qual motivo que a menina, nem que seja por um momento, sente-se castrada, privada do falo, e castrada por responsabilidade de alguém, primeiro pensa ser a mãe e posteriormente o pai. No segundo elemento, questiona porque em ambos os sexos, a mãe é considerada como possuindo o falo, como mãe fálica. O terceiro elemento é o porque correlativamente significação da castração adquire efetivamente o alcance efetivo nos sintomas, posterior a descoberta da castração da mãe LACAN 1966).

O falo não é a mesma coisa que órgão sexual masculino, mas sim o nome de um significante que é diferente de qualquer outro, que tem como objetivo significar que esta

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relacionado diretamente ou indiretamente do sexual, o falo é o pivô da experiência de castração no desenvolvimento da sexualidade humana, representante do poder ( NASIO 1993). O falo simbólico é o equivalente da lei, na medida, que a metáfora paterna age em si e que a primazia do falo se instaura na criança, na cultura. O falo é o significante que tem por objetivo designar os efeitos do significado (NASIO 1997).

A castração que se ocupa a psicanálise diz de um fantasma estrangeiro, importado da cultura, instaurado por uma ordem permanente que diz de um tempo e espaço. A castração portanto, incide sobre o representação psiquica, oferecendo sentido as vissitudes do campo social, pois para castração se constituir é preciso o sacrifício do falo, tarefa árdua, na qual o sujeito tem que se confrontar com o reconhecimento da falta (HAUSEN 2004).

Portanto cada vez que o sujeito é inserido na instituição família, realiza-se a articulação entre ele e o Outro, dando lugar a linguagem, ou seja, solidifa-se um laço. E o laço é a forma de vinciulação e endereçamento ao Outro. Portanto o humano é social, por estar ligado ao simbólico, podendo ser passivo ou ativo, passivo na medida que não é ele quem manipula as cordinhas do simbólico, e passivo pois o Nome-do-Pai intervém no complexo de Édipo, onde o desfecho cabe ao sujeito escolher, pois o sujeito pode se fazer ser ou não o falo (HOYER 2010).

Para função paterna ocorrer é preciso que a mãe autorize o pai exercer sua função, dando voz a função paterna diante da criança, sustentando o lugar do pai no entanto, atualmente os pais são demandados a serem segunda mãe, fazendo assim funções maternantes, não que os pais não possam cuidar de seus filhos, ocasionando uma confusão de papéis, pois a função paterna é de outra ordem, mas de instauração da lei, de castração.

Portanto, se a autoridade paterna é substituída por uma autoridade maternal resultará em um poder materno real e um poder simbólico paterno. Não podemos dizer que vivemos em um mundo sem Pais, mas em uma sociedade na qual os pais são demandados a serem segunda mãe, esquecendo da assimetria parental (LEBRUN 2004).

A função paterna depende do pai deixar vir a atribuição imaginária, que se permita ocupar o lugar de detentor do objeto e ao mesmo tempo ocupar o lugar daquele que denuncia a falta materna, inscrevendo assim a diferença sexual inconsciente com uma significação da diferença anatômica. No entanto é preciso que o pai, assuma-se como doador do falo e não ser o falo, colocando em jogo o significante que simboliza a potência suposta, o falo (RAMOS 2005).

Muitas das dificuldades dos pais segundo Bowlby 2001, se dá, devido suas próprias dificuldades, suas ambivalências. No entanto, muitos dos sentimentos despertados nas

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pessoas, quando tornam-se pais, tem a ver com os sentimentos que foram expressados quando foram bebês, pelos seus pais e até irmãos. Isso se dá não só por uma repetição, mas pode ser uma das hipóteses, que pode ser por estar presente em todos pais uma dose, quem sabe de algum não aceitável socialmente e os pais não conseguirem dar conta destes sentimentos.

Mas não podemos dizer que vivemos em um mundo sem Pais, mas em uma sociedade na qual os pais são demandados a serem segunda mãe, mas estes não são os auxiliares devotos das mães, apesar de muitas vezes educarem, acariciarem, agasalharem, dar banho, cuidarem dos seus filhos, exercerem funções atreladas a maternagem, pois as funções maternantes são as evidentes em nossa cultura. E é disso que os pais são demandados, que mães se queixam a todo momento, querendo que sejam uma repetição da mãe, o que ocasiona uma confusão dos papéis, no entanto, o lugar do pai é de outra ordem, pois o pai não está em contrapeso com a importância da mãe, até mesmo pela assimetria parental. Portanto, se a autoridade paterna é substituída por uma autoridade maternal resultará em um poder materno real e um poder simbólico paterno. (LEBRUN 2004).

3. CONCLUSÃO

Na sociedade atual o pai é demandando a ser deslocado de sua função paterna, exercendo em muitos momentos aquilo que é da função materna, na medida em que o fracasso do pai é compactuado com a mãe e a mãe contribui para este fracasso, pois ela pode ou não dar importância ao genitor, permitindo que ele exerça a função paterna, pois quando ela não permite a entrada do pai na relação mãe X filho, ocorre o fracasso da função paterna, não sendo realizada a interdição porque a mãe interdita o pai de fazer o seu dever.

Com a mãe competindo por direitos igualitários, na busca de uma simetria, o mais importante é não esquecer aquilo que é da função paterna, que o pai tem o dever de realizar a castração, introduzindo a lei e para que isso ocorra, o pai e a mãe precisam estar em uma assimetria, onde o pai detenha o falo. Não que o pai não possa fazer tarefas maternizantes, dividir afazer que é uma demanda da sociedade atual, mas é necessário ter bem delimitado aquilo que é de sua função.

4. REFERÊNCIAS

ÁRIES, Philippe. História da Criança e da Família. 2. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2006.

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BOLWLBY John. Formação e rompimento dos laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

GIONGO Ana Laura. Ex Pai. A masculinidade. APPOA, Porto Alegre, 2005.

HOYER Cristina. A função paterna na instituição: do individual so coletivo. Rio de janeiro: Garamond universitária, 2010.

LACAN Jaques. Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar 1966.

_____. Os complexos familiares. 1938. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, Ed 2002.

LEBRUN, Jean-Pierre. Um Mundo sem Limite. Ensaio para uma clínica psicanalítica do social. TRADUÇÃO Sandra Regina Felgueiras. Editor José Nazar. Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2004.

NASIO J.D. 5 Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993.

NASIO J.D. Lições sobre os 7 conceitos cruciais da Psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1997.

RAMOS, Liz Nunes. Masculinidade em crise: Ode ao Pai. Porto Alegre, Associação Psicanalítica de Porto Alegre, 2005.

HAUSEN Denise. O Trauma da castração: sua origem/ sua sorte. Revista do CEP de PA:

centro de estudos Psicanaliticos de Porto Alegre. V11, 2004

ROUDINESCO, Elisabeth. A família em desordem. Tradução André Telles. Rio de Janeiro:

Zahar, 2003.

WINNICOTT, D.W. A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

WINNICOTT, D.W. Tudo começa em casa. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

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