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AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 1.450.022-0, DA COMARCA DE PONTA GROSSA – 3ª VARA CÍVEL
AUTOS ORIG.: NPU 0006622-95.2015.8.16.0019
AGRAVANTES: LUIZ FERNANDO CORTES CAVAZOTTI E OUTRO
AGRAVADO: JOÃO CHRUSCIAK FILHO
RELATOR: Des. ESPEDITO REIS DO AMARAL
PROCESSO CIVIL. AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE NEGÓCIO JURÍDICO CUMULADA COM INDENIZAÇAÕ POR DANOS MORAIS. VENDA DE IMÓVEL MEDIANTE PROCURAÇÃO FALSA. DENUNCIAÇÃO DA LIDE AO TABELIÃO QUE LAVROU A PROCURAÇÃO POR INSTRUMENTO PÚBLICO E DO TABELIÃO QUE RECONHECEU A
FIRMA DO SUPOSTO FALSÁRIO. DESCABIMENTO.
INTRODUÇÃO DE FUNDAMENTO NOVO NA LIDE PRINCIPAL. IMPOSSIBILIDADE. PRECEDENTES DO STJ E DESTE TRIBUNAL. ART. 70, INCISO III, DO CPC. INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA. ADMISSIBILIDADE TÃO SOMENTE NOS CASOS DE AÇÃO DE GARANTIA. OFENSA AOS PRINCÍPIOS DA CELERIDADE E DA ECONOMIA PROCESSUAIS. RECURSO NÃO PROVIDO.
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento nº 1.450.022-0, da Comarca de Ponta Grossa – 3ª Vara Cível, em que são agravantes LUIZ FERNANDO CORTES CAVAZOTTI E OUTRO e agravado JOÃO CHRUSCIAK FILHO..
1 – EXPOSIÇÃO FÁTICA
procurador do requerente VALDOMIRO JOSÉ DOS SANTOS PEREIRA, por ausência de previsão legal; quanto a este último, incluiu-o no polo passivo da lide, uma vez que seus atos têm relação direta com os alegados danos sofridos.
Os agravantes LUIZ FERNANDO CORTES CAVAZOTTI e FRANCISCO ITALO SALGADINHO JUNIOR sustentaram, em síntese, que:
I. De acordo com o artigo 70, inciso III, do CPC, é cabível a denunciação da lide sempre alguém for legal ou contratualmente responsável em indenizar regressivamente o réu de uma demanda, se acolhido o pedido de indenização formulado pela parte autora. O caso concreto enquadra-se perfeitamente nessa hipótese normativa;
II. O agravado embasa sua pretensão em supostas fraudes praticadas em instrumento público de procuração, lavrado pelo Tabelião responsável pelo Serviço Distrital do Santa Quitéria (Curitiba), e de um reconhecimento equivocado da firma do suposto falsário pelo Tabelião de Carambeí;
III. Os hipotéticos danos que o agravado busca ver indenizados pelos agravantes tiveram como origem duas falsidades supostamente praticados em atos lavrados por Tabeliães e, portanto, são civilmente responsáveis por indenizar os danos deles eventualmente emergentes;
IV. Se os agravantes vierem a ser condados a indenizar o agravado pela negociação supostamente fraudulenta do imóvel, os Tabeliães serão regressivamente acionados a suportar os danos;
V. Existem várias decisões dos tribunais brasileiros reconhecendo o cabimento da denunciação da lide aos notários em ações indenizatórias fundadas em supostas fraudes praticadas em atos por eles lavrados;
VI. Haverá prejuízo ao direito de defesa dos próprios Tabeliães, caso se forme coisa julgada sobre a falsidade dos atos por eles praticados;
VII. O agravado não se opôs à denunciação da lide, diante da ausência de prejuízo ao processamento da demanda principal;
VIII. Pugnaram pelo provimento do recurso, para o fim de ser deferida a denunciação da lide aos tabeliães ELZA LOS DIAS e CID ROCHA JUNIOR.
Em despacho inicial (fls. 376/377), foi deferido o processamento do recurso.
O autor/agravado JOÃO CHRUSCIAK FILHO apresentou resposta (fls. 333/338), sustentando, em síntese, que:
I. A demanda busca a nulidade do negócio jurídico, não se enquadrando na hipótese prevista no art. 70 do CPC/1973;
produção de provas diversas da lide principal, demandando mais atividade jurisdicional e maior tempo de tramitação processual;
III. Eventual responsabilidade do Tabelião deverá ser averiguada em ação própria, sendo que o indeferimento da denunciação da lide não retira dos agravantes o direito de eventual ação de regresso;
IV. A decisão agravada está em conformidade com o entendimento dominante da jurisprudência;
V. Pugnou pelo não provimento do recurso. É
É o relatório.
2 – FUNDAMENTAÇÃO E VOTO:
Presentes os pressupostos de admissibilidade, o recurso deve ser conhecido.
A decisão recorrida não comporta reparos quanto ao indeferimento da denunciação da lide aos notários ELZA LOS DIAS (titular do Tabelionato e Registro Civil de Carambeí) e CID ROCHA JUNIOR (titular do Tabelionato e Registro Civil de Santa Quitéria – Comarca de Curitiba).
A denunciação da lide tem caráter restritivo, cujas hipóteses
de cabimento estão elencadas no artigo 125 do Novo Código de Processo Civil, in verbis:
“Art. 125. É admissível a denunciação da lide, promovida por qualquer das partes:
I - ao alienante imediato, no processo relativo à coisa cujo domínio foi transferido ao denunciante, a fim de que possa exercer os direitos que da evicção lhe resultam;
II - àquele que estiver obrigado, por lei ou pelo contrato, a indenizar, em ação regressiva, o prejuízo de quem for vencido no processo.
§ 1º O direito regressivo será exercido por ação autônoma quando a denunciação da lide for indeferida, deixar de ser promovida ou não for permitida.
§ 2º Admite-se uma única denunciação sucessiva, promovida pelo denunciado, contra seu antecessor imediato na cadeia dominial ou quem seja responsável por indenizá-lo, não podendo o denunciado sucessivo promover nova denunciação, hipótese em que eventual direito de regresso será exercido por ação autônoma.”
regressiva, o prejuízo que tiver nesta demanda (inciso II).
Todavia, ao contrário do que pretende fazer o agravante, ocaso concreto não se amolda, em absoluto, na hipótese do inciso II – eis que os denunciados não têm nenhuma obrigação por lei ou contrato de indenizar regressivamente.
Com efeito, a hipótese prevista no inciso II será admissível somente nos casos de garantia própria, ou seja, naqueles casos em que a lei ou o contrato asseguram previamente à parte o direito regressivo.
Sobre o tema, os ensinamentos de Sydney Sanches:
"A exegese que se nos afigura correta é a restritiva, no sentido de só se admitir denunciação da lide, com base nesse inciso, quando o denunciante tiver perante o denunciado uma pretensão de garantia e de garantia propriamente dita, não da chamada garantia imprópria". (Denunciação da lide no direito processual civil brasileiro, RT, 1984, n. 7.7, p. 125.)
Por sua vez, Vicente Greco Filho esclarece que “a figura só
será admissível quando, por força da lei ou do contrato, o denunciado for obrigado a garantir o resultado da demanda, ou seja, a perda da primeira ação, automaticamente, gera a responsabilidade do garante” (Direito Processual Civil Brasileiro, Saraiva, 12ª edição, 1996, vol. 1, n. 22.5, p. 144).
Assim, se a suposta obrigação do denunciado em ressarcir o denunciante comportar dilação probatória própria, baseada em fatos e fundamentos
novos, a denunciação não será possível, porque "a denunciação da lide só deve ser
admitida quando o denunciado esteja obrigado por força de lei ou do contrato, a garantir o resultado da demanda, caso o denunciante resulte vencido, vedada a intromissão de fundamento novo não constante na ação originária - (RSTJ 142/346)" (Código de Processo Civil, Theotônio Negrão, Ed. Saraiva, 45ª Edição, p.200).
Na espécie, a apuração da responsabilidade dos tabeliães, na forma como alegada pelos agravantes, decorre da ausência de diligência necessária na conferência dos documentos que lhe foram apresentados, o que importa na introdução de fundamento estranho à lide principal.
Não se desconhece a regra do art. 22 da Lei 8.935/94 que
estabelece a responsabilidade dos Notários e Oficiais de Registro "pelos danos que eles
Todavia, esta previsão não possibilita a instauração de nova demanda, com base em fundamentos novos, dentro daquela já em andamento, entre autor e réus.
Nesse sentido, os precedentes do Colendo Superior Tribunal de Justiça:
“PROCESSUAL CIVIL. DENUNCIAÇÃO DA LIDE. ART. 70, III, DO CPC. FUNDAMENTO NOVO. INADMISSÍVEL. PRECEDENTES DO STJ Nos termos dos precedentes desta Corte, é inadmissível a denunciação da lide, amparada no art. 70, inciso III, do CPC, quando introduz fundamento novo, estranho à lide principal. Recursos especiais conhecidos e providos para indeferir a denunciação da lide.” (STJ, 4ªT, REsp 666.667/RS, Min. Ministro Cesar Asfor Rocha, 15.05.2006).
"AGRAVO REGIMENTAL. RECURSO ESPECIAL. VIOLAÇÃO AOS ARTS. 131, 458, II, E 535, II, DO CPC. OMISSÃO NO JULGADO ATACADO. INOCORRÊNCIA. DENUNCIAÇÃO DA LIDE. INTRODUÇÃO DE FUNDAMENTO NOVO. INADMISSIBILIDADE. (...) 2. A denunciação da lide, requerida com base no art. 70, III, do CPC, restringe- se às ações de garantia, isto é, àquelas em que se discute a obrigação legal ou contratual do denunciado em garantir o resultado da demanda, indenizando o garantido em hipótese de derrota. Daí inamissível nela introduzir-se fundamento novo, estranho à lide principal. Precedentes do STJ. 3. Agravo regimental desprovido." (STJ, 4ªT, AgRg no REsp 727.276/RJ, Min. Fernando Gonçalves, 02.05.2005).
Este também é o entendimento majoritário deste Tribunal:
“AGRAVO DE INSTRUMENTO. "AÇÃO DECLARATÓRIA DE NULIDADE DE ATO JURÍDICO C/C REIVINDICATÓRIA". DENUNCIAÇÃO À LIDE DE TABELIÃO. NÃO CABIMENTO. ROL TAXATIVO DO ARTIGO 70, III, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL. INTRODUÇÃO DE FUNDAMENTO NOVO, ALHEIO AO OBJETO DA DEMANDA.-RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.” (TJPR, 11ªCCv, AI 1152222-2, Des. Renato Lopes de Paiva, 13.08.2014).
"APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE NULIDADE DE ATO JURÍDICO - COMPRA E VENDA DE IMÓVEL REALIZADO COM PROCURAÇÃO FALSA - RESPONSABILIZAÇÃO DO TABELIONATO ONDE FOI LAVRADA A ESCRITURA - NECESSIDADE DE PROPOSITURA DE AÇÃO PRÓPRIA. 1. "...a arguição de existência de boa-fé por parte do adquirente não prevalece em detrimento de negócio nulo, podendo o `adquirente do imóvel' intentar ação própria para buscar o ressarcimento pelos prejuízos sofridos." (do MM. Juiz sentenciante, Doutor Anderson Ricardo Fogaça, fl. 471).2. Apelação desprovida." (TJPR, AC 925247-7, Des. Guilherme Luiz Gomes, 14.03.2013).
1030388-9, Des. Ruy Muggiati, 26.06.2013).
“AGRAVO DE INSTRUMENTO. INDENIZATÓRIA. RESSARCIMENTO A DANOS MATERIAIS DECORRENTES DE AVENTADA FALTA DE CUIDADO NA INSPEÇÃO DA QUALIDADE DOS PAINÉIS DE PINHO EXPORTADOS PARA A ALEMANHA, RESULTANDO ELEVADOS PREJUÍZOS A AGRAVADA. HIPÓTESE FACULTATIVA DE DENUNCIAÇÃO DA LIDE, DIANTE DA NÃO INCLUSÃO DA FABRICANTE DOS MATERIAIS NO PÓLO PASSIVO DA DEMANDA - AUSÊNCIA DE PREJUÍZO À AGRAVANTE, JÁ QUE NÂO OBSTADA A POSSIBILIDADE DE AÇÃO REGRESSIVA AUTÔNOMA. DENUNCIAÇÃO À LIDE - ART.70, III, CPC - AFASTADA - AUSÊNCIA DE PREVISÃO CONTRATUAL DE OBRIGATORIEDADE DE INDENIZAÇÃO EM AÇÃO REGRESSIVA - INTRODUÇÃO DE FUNDAMENTO NOVO - IMPOSSIBILIDADE - PRECEDENTES DO STJ E DESTA CÂMARA - DESPROVIMENTO” (TJPR, 12ªCCv, AI 821182-3, Juíza Conv. Sandra Bauermann, 20.02.2013).
Em síntese, havendo necessidade de comprovação da culpa ou dolo do Tabelião, como na hipótese dos autos, descabida a denunciação da lide pretendida.
De resto, a parte agravante pretende, em verdade, eximir-se da responsabilidade pelo evento danoso, atribuindo-a, com exclusividade, aos denunciados. E, nessas hipóteses, a jurisprudência é uníssona no sentido de que a denunciação da lide não é instituto para a correção do polo passivo. Confira-se:
“Fixa-se o entendimento pretoriano não comportar denunciação da lide nos casos em que o denunciante intenta eximir-se da responsabilidade pelo evento danoso, atribuindo a, com exclusividade, a terceiro. Neste caso não há direito de regresso” (STJ, 4ªT, REsp 630.919, Min. Fernando Gonçalves, 14.03.2005).
“AGRAVO DE INSTRUMENTO - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR ATO ILÍCITO - ESCRITURAS DE COMPRA E VENDA - FALSIDADE - ANULAÇÃO -LEGITIMIDADE PASSIVA DO TABELIONATO - DENUNCIAÇÃO DA LIDE - INDEFERIMENTO - NÃO CONFIGURAÇÃO DAS HIPÓTESES DO ARTIGO 70 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL - EVICÇÃO - INEXISTÊNCIA - AÇÃO PROPOSTA EM RELAÇÃO AO RESPONSÁVEIS ORIGINÁRIOS. 1. A legitimidade passiva de Tabelionato se apresenta quando há indícios de que a contrafação das escrituras públicas de compra e venda ocorre nas suas dependências, por ato de seu preposto e, devido a tal fato, responde por indenização por dano material. 2. A pretensão não pode se escorar no inciso III, do artigo 70 do Código de Processo Civil quando o denunciado não tem nenhuma obrigação por lei ou contrato de indenizar regressivamente. 3. Não se aplica, na hipótese, o instituto da evicção, em razão da ação ter sido proposta em relação ao início da cadeia, uma vez que se os Requeridos forem responsabilizados, estes não têm direito de regresso em relação ao excluído do polo passivo. RECURSO CONHECIDO E NÃO PROVIDO.”
(TJPR, 9ªCCv, Desª. Rosana Amara Girardi Fachin, 08.07.2010).
Ante o exposto, o voto é no sentido de negar provimento ao recurso, mantendo-se a decisão que indeferiu a denunciação da lide pretendida pelos réus.
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3 – DECISÃO:
ACORDAM os integrantes da Décima Oitava Câmara Cível do
Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, por uunanimidade de votos, em NNEGAR
PROVIMENTO AO RECURSO, nos termos da fundamentação.
Participaram do julgamento os Desembargadores MARCELO GOBBO DALLA DÉA (Presidente, sem voto), e DENISE KRÜGER PEREIRA e VITOR ROBERTO SILVA.
Curitiba, 8 de março de 2017.