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ProPosições vol.19 número1

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Academic year: 2018

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Pro-Posições, v. 19, n. 1 (55) - jan./abr. 2008

Só um pouco de silêncio

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Pro-Posições, v. 19, n. 1 (55) - jan./abr. 2008

Na superfície da foto está o frio das mãos nos bolsos, a luz alongada do nascente. Ambos espalham uma madrugada gelada até o distante horizonte. Os matacões, nome que os geólogos dão aos blocos de granito de origem vulcânica, marcam um tempo de antigas litofanias, reverenciando a imutabilidade da pedra. Depois a cerca, o bezerro que olha a oculta fotógrafa e, talvez, uma provável atmosfera de silêncio onde eu olho outras reses fora de quadro.

Inverno na Serra das Cabras, onde fica meu lugar, minha casa e uma parte das raízes de minha vida.

Num outro plano, além das superfícies fixadas pela câmera, está o que nesta foto me atrai. Seu sentido, meu sentido, certamente emanado de tudo o que constitui esse fotograma que poderia ser resumido nestas palavras: o lugar que escolhi para que eu me aproxime com simplicidade de meu inevitável fim. A vida, minha vida. O lugar, um dos lugares possíveis para tentar compreendê- la, quieto. Acho que também tenho esperanças de escapar da dor e chegar ao fim numa doce passagem, para uma realidade desconhecida de natureza espiritual. Foi a maneira que me coube de vencer esse final inexpugnável. É o espiritual que vem a mim dessa foto, sua possibilidade de tornar-se visível aos sentidos por estar em um lugar onde a vida natural ainda está presente. De dia, os pássaros, o sol em seu vai-e-vem de equinócio a solstício, os animais, seus ciclos de acasalamento, os nascimentos de cavalos, cachorros, bezerros e aves, a alegria de todos os filhotes após as chuvas de verão. Na noite, a lua em suas fases e o rodar lento das constelações. Reuniões de corujas cantando em coral e profusão de sapos e grilos saudando a lua cheia. Imagens cujo lirismo é impositivo a qualquer um que não esteja oculto na vida nas metrópoles. Ah, os sons e os cheiros emanam das fotos pela memória do vivido.

Nesta foto o primeiro elemento é a luz. Lambida, horizontal, que vem de uma fonte baixa colocada na altura dos olhos diante do horizonte. Luz-revelação, indício de um reflexo adquirido há centenas de milhares de anos quando vivíamos o incompreensível de forma natural, projetando nele todos os deuses e demônios que cabiam dentro de nós mesmos. Vivíamos a espontaneidade da ofuscante cegueira diante da luz. A possibilidade da futura consciência, das distâncias implantadas pela análise ainda estava oculta, maturando nas sombras do fisiológico, embriões do eu, repousando nos instintos inconscientes diante do mundo.

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O sol nascendo, o sol se pondo. Na foto nasce porque a luz é branca, como intuitivamente ainda sabemos ser a luz das madrugadas orvalhadas do inverno, sua transparência.

Além, a força do bloco de granito, mais antigo ainda que os primeiros traços de vida sobre nosso planeta. A pedra, um testemunho de nossa fragilidade no tempo e o horizonte, no espaço. O planeta tem sua presença sugerida pela linha do horizonte.

Por fim me comove a simplicidade do bezerro, seu pertencimento ao milagre da vida, com seu lugar assegurado junto ao berço de qualquer criança a quem, não se sabe por que, ele fornecerá o calor de seu alento. Talvez toda criança seja um deus em renascimento.

É o que me vem dessa fotografia.

PS – A fotógrafa, Monique, minha companheira, indignou-se com o que escrevi. Disse-me que esqueço dela, que não a incluo na foto nem na vida e que me volto à morte. Não vou me defender dessas evidências. Saber que já caminho para o fim não me deprime, ao contrário, gosto de viver, de acordar cedo e ver o nascer do dia e também de todas as coisas que dão alegria ao corpo e à alma. O mistério da morte é o mesmo que o do nascimento, nós sempre o soubemos, não adianta disfarçar. Minha fé vem da arte que no campo ou na metrópole é, para mim, nossa redenção.

Foto: Só um pouco de silêncio, de Monique Deheinzelin.

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