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Cad. CRH vol.26 número68

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Academic year: 2018

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Sílvia de Oliveira

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MARQUES, Rafael. Diamantes de sangue: corrupção e tortura em Angola. Lisboa: Tinta-da-China, 2011, 230p.

Sílvia de Oliveira

RESENHA

As investigações em torno do garimpo e do tráfico de diamantes permitem sustentar a ideia de que estas pedras valiosas não só alimentam as guer-ras com que se debatem a maioria dos países que dispõem dessa riqueza no seu território, como, num período pós-conflito, continuam a estar “debaixo de olho” dos principais interesses econômicos. Dificilmente alguém poderá concluir a leitura de Diamantes de Sangue sem pôr em causa tudo o que tem ouvido e aprendido sobre Angola, nome-adamente no que toca ao recente crescimento eco-nômico e ao cumprimento dos Objetivos de De-senvolvimento do Milênio (ODM). A obra, publicada pelo angolano Rafael Marques, jornalis-ta e ativisjornalis-ta de direitos humanos, centra-se na aná-lise da violação dos direitos humanos, na corrupção e na pobreza a que estão sujeitas as populações mais carenciadas que habitam nas duas zonas diamantíferas onde o autor realizou a sua investi-gação, nomeadamente, Xá Muteba e Cuango. O tema, já de si sensível, corresponde a uma conti-nuidade das investigações anteriores realizadas pelo autor, nomeadamente “Lundas: As Pedras da Morte” e “Operação Kissonde: os Diamantes da Humilhação e da Miséria”.

Rafael Marques parte do fato de que “a his-tória da exploração de diamantes em Angola, des-de 1912 até ao presente, tem sido marcada por atos de contínua violência variando apenas as motiva-ções ideológicas que os justificam” (p. 25) e direciona a sua investigação em torno da explora-ção de diamantes e seus “malefícios” nesta fase de reconstrução pós-guerra. Essa viagem pelo mun-do mun-do garimpo é feita através mun-dos discursos, narra-dos na primeira pessoa, de vítimas associadas à

exploração de diamantes e, nos casos fatais, de testemunhas oculares e familiares.

Rafael Marques tenta, assim, não só chamar a atenção da comunidade internacional para essa realidade, mas, igualmente, “acordar” os angolanos da dormência em que foram colocados depois da independência, primeiro com a promessa de uma Angola mais justa e igualitária [construção do esta-do socialista (1975-1991)] e, posteriormente, com a promessa do desenvolvimento (1991- atualidade). Pois, se, ao longo dos anos, essas pedras constituí-ram um dos pilares econômicos da guerra civil, atu-almente continuam a dizimar centenas de angola-nos que, sem escolarização, formação ou emprego, veem no garimpo a única forma de sobrevivência.

A escrita acessível e direta convida todos à leitura e não deixa espaço para interpretações am-bíguas, estando a obra longe de ser sensacionalis-ta. Prova disso é o fato de o autor ter transcrito, na segunda parte do livro, os 109 casos de vítimas de tortura que comprovam a veracidade dos aconteci-mentos narrados. O livro assenta numa interpre-tação bastante crítica e negativa da realidade ango-lana, acabando por evidenciar uma série de estere-ótipos em relação à cumplicidade do Estado no que toca à violação dos direitos humanos.

Realçamos, na obra, a análise que o autor faz em torno da cumplicidade entre os efetivos das FAA (Forças Armadas Angolanas) e as empresas privadas de segurança: “no Cuango, ambas as or-ganizações se confundem como uma só força de repressão e comando unificado” (p. 90), indo ao encontro de um conceito que Boaventura de Sousa Santos denominou de Estado Paralelo, isto é, o Estado que se compromete com a legalidade é o mesmo que aceita ou até incentiva a sua violação (Cf. Boaventura de Sousa Santos, O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988), 1992).

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do livro, mais da metade foram ocupadas com a transcrição das entrevistas realizadas pelo autor, bem como anexos que dão suporte às informações apresentadas pelo autor.

Por outro lado, denota-se uma certa agressividade por parte de Rafael Marques em re-lação às elites políticas e econômicas daquele país, condicionando, assim, o seu afastamento em rela-ção ao objeto de estudo, o que levou a uma arela-ção judicial por parte desses mesmos elementos, não só contra o autor, como, também, em relação à pró-pria editora.

Para o autor, trata-se de diamantes de san-gue, sangue do povo angolano, que continua a ser derramado, sangue de um povo que ainda não encontrou a paz social, que continua a viver em condições de pobreza extrema, sem perspectivas de um futuro melhor, sangue de inocentes que apenas almejam a mera sobrevivência, sangue de filhos que deixam as mães inconsoláveis, de mari-dos que deixam viúvas desamparadas. Diamantes que trazem mais infortúnios do que fortuna, dor em vez de alegria, escuridão em vez de luz. Dia-mantes da morte.

Recebido para publicação em 30 de setembro de 2012 Aceito em 24 de fevereiro de 2013

Sílvia de Oliveira - Mestre em Estudos Africanos, especialização em Desenvolvimento Social e Econômico

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