A L E I T U R A C O M O R E S I S T Ê N C I A
Odette Faustino da SILVA*
A palavra é inerente e essencial a todo ser humano. A linguagem é, por e x c e l ê n c i a , uma atividade imitativa que nasce da necessidade que todo homem tem de comunicar-se, expressar-se. Comunica-se porque vive em comunidade. Comunicando-se, aprende.
Entretanto, o conhecimento científico, e s t é t i c o e filosófico n ã o pode ser encontrado se n ã o em pequena parcela na c o m u n i c a ç ã o do dia-a-dia, mesmo nos meios mais privilegiados culturalmente falando. É conquistado, normalmente, a t r a v é s de leituras, do livro, ainda que em nossos dias se façam sérias i n t e r r o g a ç õ e s a respeito do futuro desse meio de c o m u n i c a ç ã o . Ler, portanto, é uma necessidade para todo i n d i v í d u o que pretende viver em sociedade, como explica Marisa Lajolo, em seu livro Do mundo da leitura para
a leitura do mundo:
E não apenas para aqueles que almejam participar da produção cultural mais sofisticada, dos requintes da ciência e da técnica, da filosofia e da arte literária. A própria sociedade de consumo faz muitos de seus apelos através da linguagem escrita e chega por vezes a transformar em consumo o ato de ler, os rituais da leitura e o acesso a ela. Assim, no contexto de um projeto de educação democrática vem à frente a habilidade de leitura, essencial para quem quer ou precisa ler jornais, assinar contratos de trabalho, procurar emprego através de anúncios, solicitar documentos na polícia, enfim, para todos aqueles que participam, mesmo que à revelia, dos circuitos da sociedade
Aluna do Programa de Pós-Graduação. Itinerários, Araraquara, n° 10,1996.
moderna, que fez da escrita seu código oficial (Lajolo, 1994, p. 106).
E para Z i r a l d o , " L e r é mais importante que estudar".
A verdadeira c o m p r e e n s ã o daquilo em que se constitui, na realidade, o ato de leitura, o empenho para se formar o leitor, deveria, portanto, ser a p r e o c u p a ç ã o p r i o r i t á r i a da escola de p r i m e i r o grau, segundo Maria da G l ó r i a Bordin i .
Na realidade, o que se verifica? Uma forte r e s i s t ê n c i a à leitura por parte dos alunos, que, em alguns casos, talvez seja compartilhada por seus p r ó p r i o s mestres. Para Richard Bamberger a r e s i s t ê n c i a à leitura a d v é m do fato de que muitas vezes n ã o se sabe ler. Para ele, n i n g u é m pode adquirir um h á b i t o cujo e x e r c í c i o constitua-se em atividade penosa, porque todo h á b i t o entra na vida como j o g o que, por mobilizar e m o ç õ e s e inspirar prazer, exige r e p e t i ç ã o c o n t í n u a e renovada. O e x e r c í c i o de habilidades adquiridas confere prazer: d i r i g i r um carro, operar o computador, tocar um instrumento, ler.
A c r i a n ç a adequadamente alfabetizada e x p e r i m e n t a r á prazer em exercitar sua habilidade de ler. Estará pronta a ser motivada, sobretudo para a leitura da literatura infantil. T a l e x e r c í c i o de leitura caracteriza-se pelo prazer, em função do qual será renovado a cada dia, e p o d e r á formar na c r i a n ç a o h á b i t o de leitura.
Tal h á b i t o n ã o se pode formar, no entanto, como num passe de m á g i c a . Faz-se n e c e s s á r i o que o educador tenha bem presente qual é a verdadeira natureza da leitura e, c o n s e q ü e n t e m e n t e , quais os passos a serem desenvolvidos nessa d i r e ç ã o .
Para Paulo Freire, o aprendizado da leitura das palavras deve ser precedido da leitura do mundo, a partir de uma atividade perceptiva, que fará emergir a leitura crítica.
Os filósofos da chamada E s t é t i c a da R e c e p ç ã o que divergem entre si em pontos acidentais da teoria, concordam, entretanto, no r e p ú d i o a uma c o n c e p ç ã o de leitura simplesmente mecanicista. O processo é, para eles, sempre d i n â m i c o . O ato de leitura compreenderia, pois, todo um processo: um ato de refletir e de transformar. U m desses filósofos, Wolfgang Iser, preconiza para o
receptor uma atitude de flexibilidade, de mente aberta, o que pode propiciar-lhe crescimento, t r a n s f o r m a ç ã o . T a l atitude evidenciaria o leitor maduro.
Para Bamberger a leitura n ã o pode ser considerada como um meio de apenas receber mensagens importantes, como outrora f o i entendida. Essa c a r a c t e r í s t i c a d i a l ó g i c a constitui-se, talvez, numa das mais e s p e c í f i c a s de sua natureza. Para Proust, ler é estabelecer uma c o n v e r s a ç ã o com os autores dos livros, " c o m homens muito mais s á b i o s e mais interessantes, que aqueles que podemos ter a chance de conhecer a nossa v o l t a " (1991, p. 26).
Em seu l i v r o Como incentivar o hábito de leitura, Bamberger coloca em v á r i o s momentos o fato de se ler muito pouco, mesmo em p a í s e s do primeiro mundo e afirma que tal s i t u a ç ã o pode ser gerada em função de n ã o serem respeitadas as fases de desenvolvimento intelectual da c r i a n ç a na escolha de suas leituras. Esclarece que a cada fase da leitura, como para cada tipo de leitor, corresponde uma modalidade de interesse. Em outro ponto, cita uma frase de N i l a Banton Smith: " O interesse é a pedra de toque do progresso, do prazer e da utilidade da leitura. E o gerador de toda a atividade v o l u n t á r i a da leitura" (1987, p.31).
O interesse, por vezes, determina atitudes difíceis de serem explicadas apenas pela lógica humana. A psicologia pode ajudar quando classifica os diversos tipos de temperamento, em função dos quais esses mesmos interesses se manifestam. O homem p r á t i c o e objetivo, o realista terá, provavelmente, interesses diversos dos peculiares ao tipo r o m â n t i c o , preocupado sobretudo com q u e s t õ e s de ordem estético/afetiva.
Entre os fatores determinantes dos interesses da c r i a n ç a parecem estar a faixa etária, nas diversas fases do seu desenvolvimento intelectual, o sexo, o nível s ó c i o - e c o n ô m i c o , entre outros. N o ato de leitura, o interesse vai determinar o gosto, a escolha do tipo de l i v r o , a t e n d ê n c i a a determinada corrente estética, a p r e f e r ê n c i a por certos temas, etc.
Talvez caiba à escola e, mais especificamente, ao professor, a escolha da leitura a ser propiciada, sugerida, tornada possível a seus alunos, pois o interesse pode a t é recuperar o tido como i r r e c u p e r á v e l no educando, ou seja, o gosto pela leitura que pode ter perdido nos bancos escolares, como pode-se ler num texto lobatiano, provavelmente da d é c a d a de vinte, onde o escritor analisa,
com i r r e v e r ê n c i a , a s i t u a ç ã o da literatura infantil na escola daquele p e r í o d o e o " m i l a g r e " operado pelo interesse:
Um belo dia lhe cai nas mãos um livro proibido, Tereza, a filósofa, por exemplo. O menino abre-o, por acaso, já enfastiado de antemão.
- Já sei. É aquela seringação do Tiradentes...
E lê displicente uma linha. Lê mais interessado a segunda. Lê uma outra com o sangue já a alvoroçar-lhe nas veias - e corre a esconder-se para que ninguém lhe perturbe a leitura do livro inteiro.
Está salvo! Aquele providencial livrinho matou-lhe o engulho da leitura inoculado na escola pela pedagogia soma. O menino aprendeu no livro de Tereza o valor da leitura; viu que a letra de forma não se limita a veicular as estopadas bocejantes do desagradável tempo de prisão escolar, viu que a leitura é suscetível de interessar profundamente à imaginação (1969, p. 85).
Lobato n ã o perdoa a escola que, segundo ele, é a grande culpada pela r e s i s t ê n c i a que o educando faz. à leitura, por sua rejeição pelo l i v r o , conforme escreve no mesmo texto:
O menino aprende a ler na escola e lê em aula, à força os horrorosos livros de leituras didáticas que as indústrias do gênero impingem nos governos. (...) Aprende assim a detestar a pátria, sinônimo de seca, e a considerar a leitura como um instrumento de suplício. A pátria pedagógica, as coisas da pátria pedagogicada... (...) e embutida a martelo num cérebro pueril que sonha acordado e, fundamente imaginativo, só pede ficção, contos de fada, história de anõezinhos maravilhosos, 'mil e uma noites'... (...) sai o menino da escola com esta noção curiosíssima, embora lógica: a leitura é um mal, o livro, um inimigo; não ler coisa alguma é o maior encanto da existência (1969, p.85).
P r o p õ e - s e , portanto, um cuidado redobrado com a a l f a b e t i z a ç ã o ; u m maior respeito à s fases de desenvolvimento intelectual da c r i a n ç a ; um grande
empenho por parte do professor no sentido de, na tarefa de incentivar a leitura, ser a um tempo sujeito e objeto, ator e espectador nesse processo.
R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S
BAMBERGER, R. Como incentivar o hábito da leitura. Trad. O. M . Cajado. São Paulo: Ática, 1987.
LAJOLO, M . Do mundo da leitura para a leitura do mundo. Sâo Paulo: Ática, 1994. LOBATO, M . Os livros fundamentais. In: A onda verde. São Paulo: Brasiliense,
1969.