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Artigo apresentado como trabalho de conclusão de curso de graduação da Universidade do Sul de Santa Catarina,
como requisito parcial para obtenção do título de Psicologa. Orientador: Prof. Ana Maria Pereira Lopes, Dr. Palhoça, 2015.
Acadêmica do curso Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina. [email protected]. Raquel Wzorek
Resumo: as relações amorosas heterossexuais vêm sendo discutidas sob diversas perspectivas, e é um fenômeno, que na contemporaneidade vem se modificando com a mudança de posicionamento da mulher na sociedade. Em consequência desse processo há certo apagamento do idealismo do amor romântico, que dá lugar a novas formas de se vivenciar o amor. Na perspectiva fenomenológica existencialista sartreana, um relacionamento amoroso é construído por projetos-de-ser inacabados, sempre em construção/desconstrução, que são mediados mediadores um do outro. Nesta pesquisa objetivou-se investigar como os relacionamentos amorosos são mediações nos projetos-de-ser na perspectiva dos sujeitos da pesquisa. De modo especifico, buscou-se identificar as concepções de amor dos sujeitos; caracterizar a percepção dos sujeitos acerca do seu relacionamento amoroso; identificar como o sujeito percebe sua relação no cotidiano; identificar a mudança ocorrida nos participantes após início e desenvolvimento do relacionamento amoroso; caracterizar seus desejos de futuro e identificar como o relacionamento amoroso contribui para o futuro desejado. A pesquisa se caracterizou como qualitativa, exploratória e estudo de caso. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com três homens e três mulheres entre 30 e 50 anos, que estavam em um relacionamento estável entre seis e doze anos, moradores da Região da Grande Florianópolis. Foi possível constatar concepções de amor que se diferem das tradicionais, dimensionando-o enquanto uma construção que se faz no tempo. A percepção do relacionamento amoroso ficou destacada pela idiossincrasia de cada participante, entretanto foi ao encontro da noção de amor destes; demarcado por emoções, ações e atitude de companheirismo, de comprometimento com a relação, satisfação sexual, mas também, por tensionamentos. A percepção acerca do relacionamento no cotidiano é caracterizada por impasses relacionados à construção social de gênero, entretanto este é concebido como indiferenciado socialmente. Ficam evidenciados projetos comuns no que diz respeito aos filhos e relações de reciprocidade no dia a dia, porém conflitos e divergências de pontos de vista e modos de saída destes. As mudanças percebidas em si mediadas pela relação denotam mediações psicológicas e críticas para seu desenvolvimento pessoal e profissional. O desejo de futuro está relacionado aos projetos individuais, e também comuns aos parceiros, que consideram a parceria como mediação crítica e psicológica para viabilização do futuro desejado. Conclui-se que os seus relacionamentos são mediações positivas para seus projetos-de-ser, na medida que viabilizam a construção de um sentimento que se fez e se faz no tempo, rumo a um futuro indeterminado, mas desejado pelos participantes.
Palavras-chave: Relacionamentos amorosos. Projeto de Ser. Mediações.
1 INTRODUÇÃO
A palavra projeto é associada ao planejamento e, consequentemente, execução de uma tarefa a ser cumprida; logo, a completude de algo. Nessa pesquisa, o conceito de projeto, elucidado pelo escritor e filósofo Jean-Paul Sartre (1905/1980) é associado a sujeitos e relacionamentos amorosos. Nesse sentido, aliar a palavra projeto a relacionamentos amorosos a princípio pode causar estranheza, já que, comumente tem-se a noção de que a vida sentimental nada tem a ver com algo bem elaborado e executável, mas tal noção refere-se mais a paixão e as emoções historicamente explicadas como descoladas da razão. Entretanto o projeto que se refere não é algo estanque nem totalmente racionalizado, compreende-se, portanto, projeto de ser e sentimentos como inerentes, que se dão como se verá, na espontaneidade das emoções e também por reflexões críticas.
Para Sartre (2009), o ser humano se constitui a partir das relações que estabelece com os outros humanos e com a materialidade, ou seja, será sempre uma relação dialética entre objetividade e subjetividade. Diante disso, o conceito de projeto em Sartre, mesmo que não se descole dos fazeres das pessoas no mundo, difere-se, contudo das noções citadas, por ser ontológico, ou seja, postula que a subjetividade, que distingue a humanidade das coisas e dos animais, é o projeto-de-ser, portanto, é um projeto que se realiza no tempo. O conceito/fenômeno, remete-se ao movimento da existência singular de cada homem, ou seja, continuamente inacabado, só se finda com a morte. A partir de estudos dos escritos de Sartre, Perdigão (1995) afirma que o homem não só está no tempo, o tempo também está no homem. Logo, é passado, presente e futuro.
Nesse sentido, homem é seu passado na medida em que suas vivências lhe conferem significados. Entretanto, uma das condições da subjetividade na perspectiva existencialista é lançar-se para o futuro. O homem é seu futuro mesmo que não tenha clareza disso, lida com o seu passado, - que é constitutivo de seu ser - com a materialidade e com os outros homens. E por meio dos seus atos no presente, vivencia nas situações cotidianas - mesmo que não apareçam de maneira clara para os sujeitos, são sentidas por meio das emoções - a viabilização ou inviabilização do futuro desejado (desejo-de-ser). O projeto vivido pode estar ou não em consonância com seu desejo de ser esse projeto. Tais atos, entretanto, são atos concretos, em
uma realidade concreta, num contexto sociológico, que está envolvido por um contexto antropológico em que é produto e produtor de tal contexto (SCHNEIDER, 2011).
O projeto singular é sinônimo de construção, a realidade em curso, do mesmo modo, já que é a própria humanidade que a constrói. O que o homem faz e como se afeta com o mundo relaciona-se intimamente ao seu projeto de ser. “O homem nada mais é do que o seu projeto: só existe na medida em que se realiza; não é nada além do que o conjunto de seus atos, nada mais que a sua vida” (SARTRE, 1970, p.13).
A liberdade enquanto condição humana, argumentada por Sartre, é uma liberdade de escolha situada, circunstanciada pela realidade (SARTRE, 1970). O homem é obrigado a escolher, porque é obrigado a se fazer. Não escolher, é também uma escolha, que engendra o sujeito dentro do seu campo de possibilidades. Pode se dizer que projeto de ser e liberdade são sinônimos, são condições humanas.
A afetividade é intrínseca ao projeto. Nesse sentido, é construída via vinculação ao outro. Nessa perspectiva, a constituição de sujeito, é mediada pelas coisas e pelos outros, que se configuram como limites de seus desejos, e podem vir a lhe conferir legitimidade ou lhe impor barreiras, a ultrapassar, a se adaptar, etc. “O outro é indispensável à minha existência tanto quanto, aliás, o conhecimento que tenho de mim mesmo” (SARTRE, 1970, p. 16). Ou seja, é projeto-de-ser entre outros projetos-de-ser, é tecido constantemente, é mediado e também mediador.
De início, é-se corpo e consciência. “O corpo é a perpétua condição de possibilidades da psique” (SCHNEIDER, 2011, p. 120). O que fundamenta cada criança é, a princípio, a humanidade de sua família. A partir do processo de desenvolvimento, e a partir da relação que se constrói, a criança vai nesse início percebendo o mundo (consciência perceptiva), e vai escolhendo de forma espontânea (consciência irrefletida) a maneira que essas relações com os outros e condições possibilitam.
É o processo de sociologização, ou seja, o tecimento afetivo, existencial com os outros que me são significativos e que por isso mesmo, ajudam a definir o contorno do meu ser (valores, crenças, concepções de vida e de mundo, enfim, racionalidades)[...] é importante distinguir relações sociais (participar de certos grupos, relacionar-me com as mais diversas pessoas ) de relações sociológicas, relações de mediação, que comprometem meu ser num projeto de ser, definem meu espaço muito além do social, numa dimensão de mútuas implicações de ser (SCHNEIDER, 2011, p. 153 e 154).
Nessa direção, pode-se elucidar a noção existencialista de perfis, em que “as coisas se dão por perfis (ou aparições), sendo que cada um deles remete aos demais [...] A partir do perfil remete-se ao ser [...] O ser não se oculta por detrás do fenômeno; na verdade, nele se
revela, porém não se resume a ele” (SCHNEIDER, 2011, p. 83). Nesse sentido os perfis dos sujeitos se dão por meio das suas relações, ou seja, o perfil amoroso é um entre outros, como por exemplo o de filha, de profissional, de amiga, de mãe, etc.
É nas relações humanas que o homem se constrói em seus diversos perfis, e nos relacionamentos amorosos, há a possibilidade de escolha diferente das outras relações de socialização que são dadas no nascimento. O desejo de uma companhia no mundo ou o medo da solidão, muitas vezes confunde-se com a expectativa de encontrar a justificação da sua própria vida tal como no amor romântico, em que se deseja a unicidade de dois “eus” (COSTA, 1988).
E nesse sentido, o amor pode ser conflito e angústia, pois não há como escapar da sua própria liberdade, bem como negar a liberdade do outro, a não ser tomando-se como objeto ou tomando o outro como objeto, atitudes comuns na dinâmica das relações que se levadas aos extremos, conduzem ao masoquismo e ao sadismo (SARTRE, 2009). Portanto, ver o outro como “outro”, mas um outro sujeito, que tem sua história, seus desejos e que é essencialmente transcendência, é importante para que haja reciprocidade na vivência amorosa.
A constituição do sujeito, segundo a teoria sartreana, é sempre movimento, o que é, em dialética com o que ainda não é. A consciência assim também é qualificada, como movimento, sempre em direção a algo, em relação a algo, em relação ao mundo. Não é também sinônimo de eu, nem de conhecimento, porém é constitutiva do eu; apresenta-se num fluxo que varia em consciências reflexivas, quando o objeto de reflexão pode ser o eu, e irrefletidas ou espontâneas onde a consciência está completamente absorvida no mundo (SCHNEIDER, 2011).
A consciência reflexiva surge durante o processo de constituição dos sujeitos. Mas não significa consciência reflexiva crítica, que é consciência posicional do eu, “eu fiz, eu senti”. E a partir disso pode se dar conta de que se é um ser autônomo, e também da condição de liberdade ontológica. Mesmo que isso não seja claro para o sujeito, é fato inelutável, que irá se deparar na construção da sua personalidade.
O “eu” é resultado aberto, sempre em curso, da confluência de três dimensões: ontológica, antropológica, e psicológica, sendo que a abstração pode ser necessária em ciência, contudo, sabe-se que essas três dimensões são realidades produzidas simultaneamente e dialeticamente:
Por Psique entendemos o Ego, seus estados, qualidades e atos. O ego, sob a dupla forma gramatical do Eu e do Mim, representa nossa pessoa, enquanto unidade psíquica transcendente [...]. É enquanto ego que somos sujeitos de fato e de direito, ativos e
passivos, agentes voluntários, possíveis objetos de um juízo de valor e responsabilidade. (SARTRE, 2009, p 221).
Entende-se por atos, enquanto constituintes do ego, ou personalidade ou “eu”, desde os fenômenos psicológicos até o fazer concreto do homem no mundo; as emoções, são alterações psicofísicas e fenômenos de consciência (SCHNEIDER 2011). Entretanto, estão relacionadas ao mundo, e a história do sujeito no mundo. Acontecem como se o sujeito não soubesse como, e a princípio não há mesmo inteligibilidade, pois é vivenciada por meio da consciência espontânea. Contudo, as emoções possuem o caráter de intencionalidade, que só podem ser explicadas singularmente à luz dos projetos individuais. Assim, “a emoção é uma certa maneira de apreender o mundo” (SARTRE,2013, p. 56).
Os estados, dizem respeito às emoções, mas não são momentâneas como estas. As emoções em situações significativas para o homem, transcendem o momento, são vividas irrefletidamente, e como experimentação de ser, logo, pode ocorrer uma apropriação dessas emoções transcendentes, que compromissam o futuro, reconhece-se então em si, um modo de lidar com certas situações, constituindo-se os estados, que são características de determinados perfis.
Os estados vão compondo a personalidade do sujeito e quando os estados se repetem várias vezes em vários perfis, têm-se aí qualidades. As qualidades são características do sujeito, que comprometem todo seu Ser, por exemplo, racionalidade, perfeccionismo, agressividade, afetividade, etc. (SCHNEIDER, 2011). “Em contraste com as qualidades, que existem "em potência", os estados se revelam existindo em ato. O ódio, o amor, o ciúme são estados” (SARTRE, 2009, p.221).
O amor enquanto um estado, é fruto de emoções prazerosas, e estados agradáveis, vai se constituindo em um sentimento, que se atualiza a partir de cada experiência. O que pode interferir também nos outros perfis, a depender de como se dá essa relação. A formação do amor não se dá em uma ou poucas experiências junto ao outro e sim, por várias ao longo do tempo; por cada movimento vivenciado a dois, de diálogos aconchegantes, críticos, de carinho, seja por meio de atitudes ou no corpo, de relações carnais, de cuidado, de companheirismo, etc. (PRETTO, 2009).
Nesse sentido, as relações amorosas muitas vezes se apresentam com a expectativa de união, para constituir um “projeto em comum”, sem levar em consideração se o que vivenciam como sendo amor potencializa a “realização” - sempre em curso, pois é temporal -
de seus projetos individuais. As ações concretas de dois sujeitos que se apaixonam e decidem viver uma vida com mais proximidade, configuram-se como mediações um para o outro, na realização ou não de seus desejos (PRETTO, 2009). Deste modo, as compreensões que um sujeito faz ao longo de sua história singular sobre o que é o amor, provavelmente interferem no modo de vivenciar suas relações amorosas, e consequentemente no seu modo de ser.
Serão discutidos nessa pesquisa, os relacionamentos amorosos entre homens e mulheres heterossexuais. É impossível negar a historicização da desigualdade dos gêneros. Desse modo, Simone de Beauvoir (1980), destaca que a diferença biológica dos seres humanos forjou uma diferença hierárquica social. Afirma, que “além dos poderes concretos que [os homens] possuem, revestem-se de um prestígio cuja tradição a educação da criança mantém: o presente envolve o passado e no passado toda a história foi feita pelos homens” (BEAUVOIR, 1980, p. 15). E, segundo Scott (1995), os estudos de gênero, buscam lançar luz à visão distorcida de produzir significados ao longo da história e, consequentemente sentidos.
Quase cinquenta anos após as constatações de Simone de Beauvoir (1967) em seu livro “O segundo sexo”, e de outras afirmações, de outras mulheres estudando e elucidando a posição da mulher na sociedade, há reproduções do que foi instituído ao longo do tempo, por parte de homens e mulheres e, ao mesmo tempo, muitas resistências e avanços no campo dos direitos das mulheres. Um tempo relativamente curto no curso da história, e que reverbera nas mulheres da atualidade. Assim, a vivência do que se concebe como amor, pode se diferenciar de acordo com o modo que os sujeitos se experenciam sendo homem e sendo mulher num dado período histórico.
Pretto, Maheire e Tonelli (2009), atentam que o idealismo filosófico dos clássicos, no qual o amor tinha caráter sagrado e inato, serve de base para desenvolvimento do cristianismo que incorporou o amor como alicerce moral, considerado e pregado como incondicionado; peça chave para a construção da família, onde o essencial era a propagação dos filhos de Deus. O amor tornou-se assim, um valor humano.
Entretanto, a partir das vivências desse último século, mais especificadamente das últimas décadas, os casais na contemporaneidade, começam a ver o amor como algo a ser construído a partir da relação. E na busca por relações que se diferenciem das relações tradicionais, nas quais os relacionamentos podem ser vistos como uma prisão ou uma conveniência tradicional, homens e mulheres se angustiam e sentem-se inseguros frente a seus relacionamentos (BAUMAN, 2004). De modo semelhante, Giddens (1993), afirma que a partir de mudanças na postura, política, social e sexual das mulheres, “a vida pessoal tornou-se um
projeto aberto, criando novas demandas e novas ansiedades” (GIDDENS, 1993, p.18). Muito provavelmente, para os dois gêneros, já que a mudança de um implica a de outro.
Em consequência disso, Bauman (2004) sinaliza que na contemporaneidade, na exposição ao tema relacionamentos amorosos, a mídia em geral trata-o como um investimento na lógica do capitalismo, o que resulta em ansiedade nas relações. Nesse sentido, Pretto et al (2003) afirmam, que no amor individualista, é comum o casal restringir a relação ao plano informativo, instituindo um cotidiano caracterizado mais pela divisão de tarefas que pela reciprocidade e comprometimento existencial” (p.400).
Embora Bozon (2001) afirme que “a importância da subjetividade na construção do casal contemporâneo seja frequentemente enfatizada na literatura”, ressalta que a teorização acerca do tema descuida do fato de que as pessoas podem conviver por muito tempo, mantendo sentimentos bem diferenciados da paixão inicial, e que, de fato a construção do casal ocorre na duração. O autor constatou em sua pesquisa - acerca da conjugalidade e sexualidade (na França) - que por um lado, os relacionamentos conjugais na contemporaneidade estão baseados no amor, ocorrendo assim a destitucionalização do casamento, mas por outro, a instabilidade crescente das relações é atribuída a esse fundamento tão incerto, que cria expectativas exageradas e fortes desilusões.
Tendo em vista a vasta quantidade de produções literárias sobre o tema, pode-se dizer que o amor, é um elemento importante na cultura. Nesse sentido, reconhece-se o perfil amoroso como importante na vida dos sujeitos, na medida em que pode passar a ser uma relação sociológica, portanto, contribuinte na construção da personalidade (SARTRE, 2009). Contudo, na contemporaneidade, as pessoas desejam “desesperadamente” se relacionar ao mesmo tempo em que temem que um relacionamento implique a perda da liberdade - justamente - para se relacionar (BAUMAN, 2004).
Com o objetivo de situar a relevância científica do presente estudo, foram examinados artigos indexados nas bases de dados pelo portal BVS (Portal de Pesquisa da Biblioteca Virtual em Saúde) a partir dos descritores “relacionamentos amorosos”, conjugalidade, casamento e amor, totalizando em 540 artigos , dos quais, foram excluídos os artigos que não tratavam especificadamente do aspecto relacional/sentimental entre homem e mulher, totalizando em dois estudos teóricos e sete estudos empíricos (sete artigos e uma tese). Um dos critérios utilizados para a escolha dos estudos foi a problematização das diferenças históricas e sociais de gênero, presente em todos os artigos escolhidos, uns com mais enfoque, outros com menos (PRETTO, MAHEIRIE, TONELI, 2009; SMEHA, OLIVEIRA, 2013;
BOZON, 2003). Outro critério de seleção para os estudos empíricos foi a compreensão do amor como uma construção social/relacional (ROLIM, WENDLING, 2013; BOZON, 2003; VIEIRA, STENGEL, 2010; PRETTO 2003; MOSMANN, FALCKE,2011;). Nesse sentido, foram escolhidos estudos teóricos que abarcassem a constituição histórica do fenômeno, bem como a contextualização dos modos de existência e de relações afetivas heterossexuais na contemporaneidade (PRETTO, MAHEIRIE, TONELI, 2009; BABO, JABLONSKI, 2002; SCHOSSERL, CAMARGO, 2014; VIEIRA, STENGEL, 2010; SMEHA, OLIVEIRA,2013; ROLIM, WENDLING,2013).
O interesse pelo presente estudo se deu pela realização do Estágio Obrigatório do curso de Psicologia em Mediação Familiar, onde os casos de dissolução conjugal ou divórcio das pessoas atendidas, traziam consigo, a tristeza, a revolta, a raiva, a culpa, o não entendimento de como seus projetos vieram a mudar de rumo. E para outros, o alívio, e/ou a expectativa de um futuro diferente daquele proporcionado pela relação que findava. São emoções vividas nesse processo, nesse perfil, que podem comprometer a vida dos sujeitos e o modo de vivenciar novas relações. Assim, reconhece-se a importância social de estudar sobre as condições de possibilidades de relacionamento amoroso enquanto características de uma relação em curso.
Entender as especificidades atreladas à construção e dissolução dos vínculos é importante na compreensão de diversos fenômenos psicossociais (ROLIM, WEMDLING, 2013). O intuito é verificar como, na perspectiva dos sujeitos da pesquisa, um medeia o outro a realizar seu projeto-de-ser e seus desejos em comum. Assim, a pergunta que se faz é como os relacionamentos amorosos se constituem em mediações para os projetos-de-ser dos sujeitos?
1.1 OBJETIVOS
1.1.1 Objetivo Geral
Investigar como os relacionamentos amorosos são mediações nos projetos-de-ser na perspectiva dos sujeitos da pesquisa.
1.1.2 Objetivos Específicos
a) Identificar as concepções de amor dos sujeitos;
c) Identificar como o sujeito percebe sua relação no cotidiano;
d) Identificar as mudanças ocorridas após início e desenvolvimento do relacionamento amoroso, na perspectiva dos participantes da pesquisa;
e) Identificar os objetivos pessoais de futuro dos participantes, no contexto da parceria; f) Identificar como a relação amorosa contribui para o futuro desejado pelos sujeitos;
2 MÉTODO
O problema de pesquisa foi abordado de maneira qualitativa, que de acordo com Minayo (2001), responde a questionamentos muito particulares. A pesquisa qualitativa nas Ciências Sociais atenta para o nível de realidade no qual não há possibilidade de quantificar, já que trabalha com significados “motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis” (p. 21, 22). Nesse sentido, esta pesquisa envolveu a obtenção dos dados por meio de entrevista semiestruturada, tendo ido a campo.
Conforme seus objetivos, a pesquisa é do tipo exploratória. Os procedimentos técnicos utilizados referem-se ao estudo de caso. Quanto ao corte, a pesquisa se caracteriza como transversal, por conta de que o estudo se dará em um único espaço de tempo.
Participaram da pesquisa seis pessoas, três homens e três mulheres, sem serem cônjuges um do outro, ou seja, apenas um sujeito do relacionamento amoroso foi entrevistado. Todos moradores da região da Grande Florianópolis. Os critérios para a seleção dos participantes foi estarem em um relacionamento amoroso/conjugal entre cinco e dez anos, e ter entre 30 e 50 anos, pois o tema se refere a um tipo de sentimento que se faz ao longo de um determinado tempo e, portanto, tempo e idade correspondente para que os participantes e seus parceiros tenham se tecido de alguma maneira nesse relacionamento. Vale lembrar, que os nomes utilizados para identificação são fictícios:
ANA LINDA MANUELA JORGE ADRIANO LUIZ SUJEITO IDADE 37 ANOS 47 ANOS 31 ANOS 32 ANOS 43 ANOS 31 ANOS PROFISSÃ O
CABEL. PROFᵃ MECAN. CORRET. VEND.
ESCOLARI DADE
SUP. INCOMP.
SUP. MÉDIO MÉDIO MEDIO MÉDIO
RENDA R$ 2500,00 R$ 2000,00 R$ 2500,00 R$ 6000,00 R$ 1500,00 PARCEIRO IDADE 40 ANOS 49 ANOS 30 ANOS 28 ANOS 33 ANOS 35 ANOS PROFISSÃ O REP. COMERC . PROGR. T.I. GER. VENDAS ADM. VEND. ESCOLARI DADE SUP. INCOMP. SUP. INCOMP. SUP. INCOMP.
SUP. SUP. MÉDIO
RENDA R$ 3000,00 R$ 4000,00 R$ 2000,00 R$ 2500,00 R$ 1000,00 TEMPO RELACIONAMENTO 12 ANOS 5 ANOS 11 ANOS 12 ANOS 5 ANOS 10 ANOS FILHOS/IDADE 2 5/9ANOS 1 9 ANOS 1 19 ANOS 1 11 ANOS
ESTADO CIVIL UNIÃO
ESTÁVE L
CASADO CASADO CASADO UNIÃO
ESTÁVEL
UNIÃO ESTÁVE
L Fonte: Elaboração da autora, 2015.
Foi utilizado como instrumento de pesquisa um roteiro de entrevista, construído a partir da análise das variáveis envolvidas, de acordo com os objetivos da pesquisa e também da perspectiva organizada sobre a temática. O instrumento focalizou aspectos da história de vida dos sujeitos, bem como da atualidade; sua percepção acerca do tema em questão e a relação dele com suas vivências, caracterizando-se como entrevista semiestruturada.
As entrevistas foram realizadas de acordo com as possibilidades de horários e locais para os participantes. Em todas as entrevistas o ambiente estava tranquilo e livre de interrupções, e somente a entrevistadora e a/o entrevistada/o estavam presentes no local da entrevista. As entrevistas duraram em média 35 minutos. Todos os participantes demonstraram-se disposto nas entrevistas, com algum receio inicial, o que demonstraram-se dissipou no dedemonstraram-senvolver do diálogo. Muitas vezes, houve pausas para reflexão. Percebendo-se então, que algumas questões levantadas, precisavam ser elaboradas por eles antes e durante as falas, pois o tema, mesmo que seja presente no cotidiano, muitas vezes não é refletido, ou pensado e caracteriza-se como do âmbito privado.
Os participantes foram levantados na rede social da pesquisadora, os quais foram informados acerca das características da pesquisa e do perfil necessário à participação. O
contato inicial se deu via telefone, exceto um que se deu via mídia social. Nesse primeiro contato, a pesquisadora explicitou as características do estudo e as condições para a realização das entrevistas. Foram explicados também os procedimentos éticos necessários para a realização de pesquisas com seres humanos, tais como a aprovação pelo CEP (Comitê de Ética em Pesquisa) da Universidade, sigilo, voluntariedade e a não identificação dos participantes. O que foi referido novamente no dia da entrevista, e também acordado por escrito no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
O material coletado via gravação de voz foi transcrito na íntegra. Foi organizado mediante a construção de categorias, visando a utilização da técnica de análise de conteúdo, que tem como função verificar hipóteses e questões levantadas antes do trabalho de investigação, bem como de descobrir significados além do discurso (GOMES, 2001). De acordo com Gomes (2001), a categorização é um dos métodos mais comuns para se trabalhar os conteúdos dos discursos, pois aglomera informações com propriedades em comuns ou que se relacionam entre si, que são posteriormente compreendidas a luz do referencial teórico que orienta a pesquisa.
3 ANÁLISE DOS DADOS
3.1 CONCEPÇÕES DE AMOR
Referente à investigação acerca das concepções de amor, os participantes relacionaram prontamente o amor aos seus relacionamentos amorosos. Entretanto, não diferenciam em seus discursos as emoções das atitudes que o envolvem. Sendo que em alguns casos a pesquisadora teve que explicar o que estava querendo dizer com emoção. Foram estabelecidas seguintes categorias: construção no tempo, completude, dedicação, companheirismo, algo que suporta tudo, experiência difícil e cumplicidade.
As definições dos homens e das mulheres acerca do amor trazem a ideia de temporalidade e processo, de construção no tempo. Retomam o início do relacionamento, em que acontece atração e afinidades: “Eu acho que assim, no começo, as pessoas se apaixonam,
acho que é uma coisa mais química né? Afinidades e coisas... e com o tempo...eu acho que o amor ele vem depois até [...] o relacionamento é sempre uma construção [sic]” (Linda). “Nosso amor foi se construindo [...] Eu mudei muito! E mudar e manter a mesma essência pro
amor continuar... então eu acho que o amor é renovação! A gente renova o amor um pelo outro [sic]” (Luiz).
Sartre (1994) discorre em sua obra A transcendência do ego, como se constitui o psíquico. Por meio dos vários tipos de consciência (perceptiva, imaginante, reflexiva espontânea ou crítica), sempre em relação com o mundo, o ego em suspenso ou aparecendo à consciência é produto, por que é objeto de reflexão, e produtor, por que é transcendente, se expressa nas ações, nos estados e qualidades. Assim, por meio das experimentações das emoções é que se dá a formação dos estados; se experimenta em situações com o outro e o significa como prazeroso, pode significar o outro também como possibilidade atraente para o seu projeto-de-ser. A emoção é instantaneidade, é a química, Linda faz referência na frase citada, o amor que é um estado/sentimento vem depois das experiências vividas. Todos os entrevistados, exceto Manuela, se referem-se à paixão/atração inicial.
O amor como completude foi citado apenas por um participante, o qual remete às concepções tradicionais e históricas do amor, entretanto foi indicado apenas por um participante:
É um pouquinho...eu acho que assim ó, a questão de amor, eles têm que se completá! [...]Como eu te falei, não é tão fácil pra achar pessoas que realmente encaixe, um gosta, outro não gosta, então, eu acho que amor um pouco é isso também, tu de repente se privar de algumas coisas pra completar a outra pessoa... e a outra pessoa vice-versa, seria um bom começo, sabe... (Adriano).
A ideia de completude traz também à tona a incompletude, como se o sujeito fosse incompleto, e de fato é, mas é, em função do projeto-de-ser ser um constante vir-a-ser. Na reflexão do participante, outro poderia completar ou “encaixar”, e na impossibilidade de tal “encaixe” haveria uma privação (de-ser). É um modo de ver a relação de maneira romântica em que amor é sinônimo de sacrifício que vale a pena ser vivido (COSTA, 1988). Apesar da falta, que é o desejo-de-ser, outro deve ser meio para minhas realizações e não fim para que se construa relações de reciprocidade. A completude nesse sentido não existe, mas por outro lado pode se dizer que de alguma forma, pode haver uma confirmação de satisfação, que estaria nas sínteses feitas a partir das experiências com o outro.
A compreensão do amor a partir do termo dedicação aparece apenas na fala de Jorge: “E a dedicação né, se dedicar né, tem que se dedicar senão não adianta [sic]”. A origem da palavra vem do Latim, e significa “consagrar dizendo o nome” (CUNHA, 2007). Há uma conotação mística e religiosa na etimologia da palavra, entretanto Beauvoir (2005), discorre que só se dedica com tranquilidade se desejar a existência do outro de maneira incondicionada,
ou seja, desejar o outro como outro e não uma fusão de projetos tal como no amor romântico. A autora afirma ainda, que tal empreitada não é fácil, pois todo projeto se dá no tempo e abarca múltiplos desejos elementares, e “é preciso saber distinguir aqueles que estão de acordo com o projeto essencial, aqueles que o contradizem, aqueles que só se relacionam com ele de maneira contingente; é preciso aqui distinguir a vontade de outrem de seus caprichos” (p. 176). Ou seja, é preciso conhecer, compreender o projeto do outro, o que depende também do tempo de relacionamento amoroso. Entretanto o mesmo sujeito se refere a uma não compreensão aos projetos vinculados quando fala sobre as diferenças entre si e a companheira: “não sei como tamo tanto tempo juntos [sic]”.
Na concepção de amor de todos os entrevistados aparece a noção de companheirismo. Jorge, apenas cita a palavra, enquanto todos os demais a mencionam e utilizam de termos para demonstrá-lo, como apoio, respeito, carinho, cumplicidade e o prazer da companhia do outro, a ajuda mútua, cuidado mútuo e carinho. Nesse sentido houve menções das atitudes e mesmo breves descrições: “O cuidado que um tem com o outro, a gente se
preocupa se almoçou, se comeu, se passou o dia bem, sabe? tá agasalhado. A gente pensa muito um no outro, como ser humano” (Luiz). O cuidado foi referenciado pelo mesmo sujeito
como um valor apreendido por mediação de seu avô:
O meu avô, que é uma imagem prá mim, ele realmente me passou esse senso de que a gente cuida de quem ama, isso veio muito dele pra mim, principal gesto de amor que um homem pode ter é cuidar daqueles que ele ama, então, veio muito dele na minha filosofia de vida, demonstre amor cuidando dos seus, ele sempre passou isso pra gente
Pode se pensar o cuidado mútuo como parte do companheirismo, entretanto não se resume a ele. Muitas vezes cuidar do outro pode ser, transformá-lo em objeto, em que o outro é visto como transcendência transcendida, aquele que precisa de cuidado; “ o outro surge diante de mim com suas significações particulares: ele é tímido, sedutor, simpático, triste, etc. [..] reconheço sua transcendência, porém, não a reconheço como transcendência transcendente, e sim como transcendência transcendida. (SCHNEIDER, 2011, p. 150). Ou seja, pode estar em pauta para o sujeito o construto social da fragilidade feminina, e/ ou ainda, o sentimento de posse, característico do amor romântico.
Nesse sentido uma compreensão fenomenológica de como tal cuidado é vivenciado pelos sujeitos da relação fica impossibilitado aqui nessa pesquisa. Para Ana, que nos últimos meses vive seu relacionamento a distância, por causa do trabalho do seu companheiro relata que a distância, contribuiu para uma melhora da relação, a partir dessa nova condição: “ A gente
conversa todo dia, fica aquela ansiedade pro final de semana, pra se encontrar, pra conversar, contar como foi a semana, resolver os problemas que aconteceram durante a semana, então melhorou [sic]” (Ana). Denotando então o companheirismo. Nesse sentido, Pretto (2009)
afirma que:
É possível o amor (um sentimento) sem que a paixão e a atração (emoções), estejam presentes o tempo todo entre os parceiros, porque o amor não está alicerçado em prazeres imediatos, mas sim numa temporalidade histórica sintetizada por um eu, que envolve, portanto, toda a constituição do sujeito. É também assim que se faz possível aos parceiros, sentirem atração ou paixão por um terceiro personagem, sem que isso abale o amor ou o destrua.
O carinho, ligado ao companheirismo, e citado por todos os participantes, enquanto uma manifestação do amor, implica nas ações. Convém lembrar, que Sartre (2006) não diferencia as emoções das ações devido ao caráter intencional da consciência, em que o sujeito emocionado atribui características “mágicas” às suas situações, e vivencia-as com o duplo caráter do corpo: psicofísico, o corpo que é, que se altera, e como objeto, o corpo que tem. Entretanto, “a consciência não se limita a projetar significações afetivas no mundo que a cerca: ela vive o mundo novo que acaba de constituir. Vive-o diretamente, interessa-se por ele, admite as qualidades que as condutas esboçaram” (p. 76). Ou seja, o carinho sentido no corpo, pode ser uma emoção, e é uma ação que contribui na construção do amor, e consequentemente expressa o amor.
O entendimento do amor como algo que suporta tudo aparece nas respostas de dois homens. Denotam que apesar das dificuldades na relação, que serão discutidas no próximo capitulo, há nesse entendimento certo idealismo em que se considera o amor como suporte da relação: “as brigas, a rotina da vida, conforme vai passando o tempo né, é muito tempo de
convivência, aí se não for amor realmente acaba rapidinho [sic]” (Jorge). De modo
semelhante, Adriano afirma: “Com o tempo, se você realmente ama, se você gosta realmente,
você passa por cima de tudo, briga... que é comum, por cima da rotina, você vê que realmente, não importa! Né? Que realmente não importa...[sic]”
O amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (BÍBLIA SAGRADA,1999, p.143). Na racionalidade cristã, é considerado como um valor incondicional, que tem de existir numa relação, enquanto para Sartre (1970), os sentimentos são frutos de construções, e não são incondicionais, ou seja é a relação que o produz. “O sentimento constrói-se através dos atos praticados; não posso, portanto, pedir-lhe que me guie” (SARTRE, 1970, p. 09). Ou no caso, que sustente a relação.
O amor é concebido também como uma experiência difícil, pelo fato de ter que dividir o espaço em comum:
O espaço, que eu acho que é umas das coisas difíceis, né, dividir o espaço, e como que se vai organizar esse espaço da casa, tando bom para os dois, do que que um precisa e do que que o outro precisa né, então acho que isso as vezes é uma coisa difícil né, tem que ter muito assim, conversa, muito dialogo, né pra ceder né (Linda).
Dividir o espaço, de alguma forma significa respeitar a alteridade, entretanto o exercício do diálogo é citado como saída para que haja consenso, ou melhor, para que fique “bom para os dois”. Ana, a princípio, se refere de modo mais amplo às dificuldades do seu relacionamento: “Bom, depois dos altos e baixos[...] melhorou [sic]” Assim, Bauman (2003), discorre sobre o quanto é “trabalhoso” manter um relacionamento amoroso, discorre que a afinidade surge da escolha, pode-se se afirmar por outro lado, que as escolhas também se fazem a partir das afinidades. O autor expõe que caso não seja reafirmada no cotidiano com novas ações para confirmar a afinidade entre o casal, a relação definha-se; até desintegrar. Tais atitudes, segundo o autor, são consideradas complicadas já que elas demandam esforço; o sociólogo pondera que em uma sociedade líquida que “detesta tudo que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao mundo instantâneo nem permita que se ponha fim ao esforço, tal perspectiva pode ser mais do que aquilo que estamos dispostos a exigir numa barganha” (BAUMAN, 2003, p.46).
A cumplicidade também foi referenciada por cinco dos entrevistados, como atitude presente no amor; comumente esta remete-se ao amor e/ou a amizade, assim o entrevistado se refere ao amor: “Dizem que o amor ele é... Né ... que é uma frase que eu ouvi: se a pessoa
conhece seu lado ruim, e mesmo assim fica com você, já é um grande sinal de amor, por que ela viu que você fez coisas ruins, que você faz, não só o teu lado bom, né? [sic]” (Adriano). Acho que a cumplicidade, por que, um é cumplice do outro, né? [sic]” (Manuela).
Na cumplicidade, pode haver acolhimento e aceitação. Entretanto, vale ressaltar que a cumplicidade, sem reflexão crítica, pode inviabilizar relacionamentos, se na perspectiva de que o amor é incondicional, muitas vezes, ser cúmplice pode inviabilizar a criticidade e dificultar a reciprocidade, caracterizada como troca. Individualmente uma reflexão pode muitas vezes decorrer de consciências irrefletidas, em que na instantaneidade das emoções se toma como verdades, o que Sartre (1994) define como reflexões impuras, sem descrições dos acontecimentos e, portanto, sem criticidade. A reflexão caracterizada pelo autor como “pura, ou simplesmente descritiva [...] desarma a consciência irrefletida lhe devolvendo a instantaneidade” (p. 203), de que era uma emoção, em uma situação, etc.
O fato de que os homens e mulheres que participaram da pesquisa não distinguirem as emoções das atitudes em suas respostas era esperado, pois a princípio, parece mesmo não haver inteligibilidade, já que a consciência é fluxo e na maior parte do tempo nos relacionamos com o mundo a partir da consciência espontânea:
Toda consciência é um acontecimento pleno e concreto no mundo. O prazer, exemplo utilizado por Sartre não pode se dissolver por detrás da consciência que se tem dele; não há primeiro uma consciência que receberia depois a afecção (prazer), como também não há antes um prazer que receberia depois a qualidade de consciente. Dessa forma, o prazer não é uma representação, nem o conteúdo de uma consciência; o prazer é ato, indivisível com a consciência que dele se tem (SCHNEIDER, 2011, p.86 e 87).
A apropriação, enquanto o sentido que se atribui às experiências, se dá a partir da consciência reflexiva, que pode ser crítica ou espontânea. Ou seja, vão se construindo, nas experiências vividas e depois qualificadas, os estados e as qualidades, que em um processo temporal e aberto constituem a personalidade. Mas para ocorrer a formação dos estados a temporalidade é fundamental no sentido cronológico, pois é preciso um tempo necessário para que ocorra os eventos e as significações deles para os sujeitos, como é o caso dos sujeitos da pesquisa.
A partir das respostas dos participantes, foi possível conferir concepções de amor que se diferem das tradicionais, embora Jorge e Adriano se remetam ao amor com algumas reflexões que culminam no amor romântico, e Luiz não diretamente, mas implicitamente (acerca do cuidado com os seus), ao mesmo tempo, este último, e as mulheres concebem o amor como um sentimento que se constrói ao longo do tempo. Ademais, o amor é baseado nas relações concretas dos sujeitos, pois se voltam aos seus relacionamentos amorosos para explicar suas concepções de amor, alguns descrevendo vários gestos e condutas que constroem o amor.
3.2 PERCEPÇÃO DO RELACIONAMENTO
Para entender como os participantes vêem seus relacionamentos amorosos, foi feito uma “retrospectiva”, ou seja, foi solicitado nas entrevistas que lançassem um olhar para o início das relações e também para o desenvolvimento delas, considerando os aspectos que a envolve, tais como: a sexualidade, o lazer (que retrata momentos juntos, diferentes daqueles do dia a dia) e o significado desse perfil em suas vidas. Foram criadas as seguintes categorias: receio inicial de comprometimento, tensionamentos, afinidades, lazer restrito, satisfação sexual,
comprometimento formal, comprometimento existencial, responsabilidade e imanência do amor.
Na categoria receio inicial de comprometimento, aparece a noção de seriedade, ou seja, de comprometimento, e ao mesmo tempo em que o receio é afirmado, é simultâneo à atração pela/o futura/o companheira/o.
Quando no meio do nosso relacionamento, antes de casar, eu falei prá um amigo que eu não queria mais vê-la, por que tava virando uma constante, eu queria ficar perto dela o tempo todo, que eu tinha que me afastar dela, por que o compromisso que a gente tinha assumido no começo, era não ter compromisso! A gente fazia bem um pro outro, mas, pra... pra não...como a gente tinha assumido esse compromisso (Luiz).
Bauman (2003) discorre sobre o medo do compromisso, em que se envolver afetivamente significa “compartilhar e fundir biografias”, cada um com sua história e com um norte próprio e apesar do futuro, apresentar-se com sua condição própria de indeterminado, um futuro precisa ser acordado. Acrescenta ainda, que “também significa fazer-se dependente de outra pessoa dotada de igual liberdade de escolha e da vontade de seguir essa escolha- e, portanto, cheia de surpresas, imprevisível” (BAUMAN, 2003, p.69).
Percebe-se, entretanto que os participantes que engendraram essa categoria, eram jovens quando iniciaram seus relacionamentos, e uma entrevistada explica seu receio: “eu tinha
terminado um relacionamento há pouco tempo, que tinha sido bem conturbado, que era uma pessoa bem desiquilibrada emocionalmente [...]ele tinha terminado um casamento a poucos meses[...] os dois não queriam nada sério [sic]” (Ana).Entretanto, o que fizeram em suas
relações foi justamente se comprometer- comprometendo o futuro em suas relações. Já os participantes que entraram com mais idade em seus relacionamentos amorosos evidenciaram o desejo de relacionar, e mencionaram a maturidade como contribuinte para o desenvolvimento da relação.
O relacionamento como tensionamento, denota características de uma relação com a proximidade existente de um relacionamento amoroso. O relacionamento é olhado em retrospectiva, como movimento: “no começo foi bem difícil assim, a gente teve separações, aí
depois a coisa engrenou (risos) [sic]” (Linda). Nesse sentido Bauman (2004), reflete que:
Para sustentar o ânimo, para continuar a buscar a autêntica reciprocidade, é preciso coragem para enfrentar a possibilidade de recuos e reviravoltas. Deve-se também aprender a viver com os defeitos do parceiro. Uma vez almejada em ambas as direções, a intimidade torna necessários a negociação e o compromisso. E, no entanto, são precisamente a negociação e o compromisso que um ou ambos os parceiros podem estar impacientes ou preocupados demais para suportar alegremente (BAUMAN,2004, grifos da autora, p. 215).
Vale ressaltar que os defeitos grifados na exposição do autor citado, remete a pensar em projetos que não sejam antagônicos para que possam caminhar nessa proximidade proporcionada por um relacionamento amoroso. Desse modo, foi criada a categoria afinidades, representada na seguinte fala: “a gente tem um limiar muito próximo do que nos traz felicidade,
o que traz felicidade prá ela, é muito próximo do que traz felicidade pra mim, então as nossas emoções, normalmente elas caminham juntas, então...[sic]” (Luiz).
Pretto et al (2003) afirmam a importância de expectativas e desejos afins quando se referem, que “a direção para qual caminham, os princípios e desejos que estabelecem para si e para o mundo, não podem ser antagônicos e incompatíveis” (p, 400). Assim, se as diferenças comprometem a reciprocidade, compreendida como troca de sujeitos na mesma posição, nem acima nem abaixo, mas de igual para igual, serão experimentados na frustração ou na tristeza como inviabilizadores do projeto.
O lazer do casal é percebido pelos participantes como lazer restrito: “Olha, a gente
quase nem sai, bem difícil assim [sic]” (Manuela); “Olha, lazer até a gente tem feito pouco ultimamente [sic]” (Ana). Pode-se pensar na classe social como contribuinte para essa restrição,
na medida que o lazer, enquanto um “estilo de vida” está atrelado ao consumo na contemporaneidade (BAUMAN, 2007). O que corrobora a pesquisa feita por Mattoso et al (2011), que indica que as classes mais baixas ficam de fora de muitas atividades de lazer que envolvem o aspecto financeiro. O autor atribui também, não só ao fator financeiro, mas também ao “capital cultural”, que segundo Bourdieu (1979, apud Mattoso et al, 2011), se viabiliza por meio da origem social e da educação formal. Apesar de não haver situado a classe social como método, os participantes eram trabalhadores assalariados, exceto dois que eram autônomos. Nesse sentido, o lazer também foi citado como descanso do trabalho, em que foi mencionado o cansaço ao trabalho, representado na fala de Linda: “ mas assim, como ele trabalha a semana
inteira, oito horas por dia, chega no final de semana ele tá muito cansado né” [sic] Entretanto,
em contraposição, Luiz, relativiza que:
Não temos tanto acesso como queríamos, na realidade não vejo buscar tanto, falamos muito de assistir uma peça, mas não vejo o estado, a cidade oferendo muita possibilidade a isso né? Às vezes a informação não chega, a gente também não procura, falta de divulgação com falta de interesse (risos) (Luiz).
Pode-se relacionar isso ás escolhas, que são sempre em condições de possibilidades. Ou seja, há o caráter da materialidade, que impõe seus limites, mas na dialética com a subjetividade, tal movimento pode mudar o campo de possibilidades. Ademais, as atividades
de lazer, enquanto eventuais, aparecem correlações de interesses (exceto para Adriano e sua companheira) como a praia, o campo, e para os casais com filhos o lazer está relacionado aos momentos com o grupo familiar, aparece o shopping, cinema e parques. Ou seja, quando a casal se estabelece como grupo, o bem-estar desse está implicado nas suas iniciativas (SCHNEIDER, 2011).
A categoria satisfação sexual foi caracterizada por todas as mulheres por meio de palavras bom, “bem bom” e tranquila, evidenciando satisfação com esse aspecto da relação. Para Ana em particular, afirma que seu relacionamento que antes estava “morno” em geral, por conta da sua rotina de trabalho afirma que os momentos de sexo tinham sido deixados um pouco de lado “[...] aquela rotina a gente acaba levando...levando a gente a esquecer um pouquinho
né, deixar um pouco de lado, mas depois que ele foi embora melhorou bastante. Ele passa a semana inteira longe, né, fica com mais saudades, mas é bem tranquilo... é um relacionamento bem bom [sic]” (Ana).
Para Bozon (2003), a mulher pode expor a falta de desejo no sexo, e sua identidade social não sofre com isso, principalmente depois que é mãe. No homem ao contrário, sua identidade é “potencialmente ameaçada em caso de ausência do desejo. Existe uma espécie de consenso em considerar que o desejo masculino tem mais direito a se expressar, ou mais legitimidade, do que o desejo feminino” (p.146). Luiz e Jorge expressam satisfação na vivência sexual e também importância ao desejo feminino ao referirem-se a ela como ponte de via dupla na relação: eu acho que é uma parte que nos ligou muito, eu e a minha companheira, a gente
sempre foi muito aberto com as vontades, com o que trazia prazer um ao outro e fomos adaptando [sic]” Luiz. Para Jorge: “se não[fosse satisfatória] ela não me aturava até hoje (risos) [sic]. Enquanto que Adriano refere-se como não tão intenso quanto suas outras
experiências anteriormente, mas avalia que é uma vivência tranquila
Foi criada a categoria comprometimento formal. Estar em uma relação amorosa, solicita aos parceiros a declarar o compromisso mediante o mundo. Seja a partir do ato de começar a morar juntos ou o casamento enquanto um evento social, religioso, festivo da “união”. É um evento considerado marco, e início de aprofundamento da relação. Esta categoria foi engendrada a partir das respostas dos homens, as mulheres não pontuam esse marco do relacionamento amoroso, exceto Ana, que remonta ao discurso religioso do casamento ao afirmar: “ eu fui criada assim ó, sabendo que o casamento é aquela coisa, na alegria, na
tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza, né? [...] a importância que eu vejo e que ele vê também isso, é assim, tu se manter do lado da pessoa mesmo com dificuldades”[sic].
Nota-se que mesmo com afirmações tão tradicionais, denota também um comprometimento existencial. Ana em outros momentos evidencia em seu discurso uma forma de relação bem diferente da tradicional como se verá adiante. Entretanto a fala dos entrevistados demarca a tradição da monogamia como um modelo social a ser reproduzido, mesmos que o rito tradicional, igreja ou contrato civil, só aparece em metade dos participantes.
Eu acho que, analisando hoje em dia, o primeiro relacionamento, eu fiquei muito tempo namorando, se eu tivesse assumido, a gente tivesse de repente, ah dois anos de relacionamento! E já tivéssemos casado, teria uma grande chance de repente da gente tá junto até hoje. Mas eu hoje em dia eu atribuo assim ó, no caso dessa atual, né? A gente ficou namorando um ano, e já resolvemos morar juntos, né? A gente não é casado na igreja, mas...né? (Adriano).
Schneider (2011) afirma que “duas pessoas, mesmo quando sozinhas, precisam ser reconhecidas por uma “terceira”, diante da qual elas tecem a identidade de suas ações, de seus projetos, para que se reconheçam como um nós” (p.151). Entretanto, aparece particularmente na fala citada para representar a categoria, uma racionalidade de que o casamento/morar junto significa também certa garantia de solidez da relação, o que pode ser ilusório ou ingênuo, pois um ato simbólico, mesmo que significativo socialmente e para os sujeitos que o fazem, o futuro está a ser construído por meio de muitos outros atos.
O relacionamento como comprometimento existencial, assim como a insegurança em se comprometer, é vivido, sentido via espontaneidade. Ou seja, a partir das escolhas cotidianas os sujeitos se comprometem com o outro, o que implica um comprometimento em
seu Ser o que remete a um futuro desejado representado na fala da Manuela: “achava que não iria durar, no entanto, a gente tá até hoje juntos, e não pensa em um ficar sem o outro [sic]”
(Manuela).
Para Sartre (1970, p.4), as escolhas feitas a partir das vontades são manifestações do projeto original, nesse sentido afirma que o homem não é aquilo que ele quis ser e sim aquilo que ele projetou ser, rememorando que o projeto é projeto vivido, e constituído no tempo. E, Beauvoir (2005) remetendo-se à espontaneidade afirma que “meu projeto jamais é fundado, ele se funda” (p.27). Entretanto, vale ressaltar que alguns projetos-de-ser podem ser vividos com mais criticidade ou menos.
Destaca-se como categoria para caracterizar o sentido desse perfil em suas vidas, responsabilidade na seguinte fala: “Daí a partir do momento que tu se casa e tal, tu assume
uma responsabilidade, se tu queres, tipo bancar o marido, né, aquele orgulho, aquela honra de ser chamado de marido e tal acho que a responsabilidade é principal né? [sic]” (Jorge).
A responsabilidade, em uma pesquisa feita com universitários acerca da percepção da masculinidade, é um atributo fortemente associada ao masculino (GOMES DA COSTA, 2012). Entretanto, esse atributo foi mencionado na presente pesquisa por homens e mulheres.
“[...]primeiro assumir uma responsabilidade, que é assumir que você está com a pessoa, acho que hoje em dia muita gente não quer, tem medo de assumir, tem gente que tá optando ficar sozinho mais tempo por que tem medo de assumir uma relação [sic]” (Linda). A
responsabilidade enquanto significado desse perfil em suas vidas é colocada pelas mulheres que têm filhos, na perspectiva de que seus atos implicam no bem-estar do grupo familiar, referindo-se principalmente à vida financeira do casal.
Sabe-se que no senso comum a responsabilidade é tida muitas vezes como obrigação. Diferentemente, a responsabilidade no sentido sartreano está atrelada a autonomia de escolha e suas implicações, aliás, para Sartre a liberdade é inerente a responsabilidade, enquanto que a obrigação é dada de fora com um dever-ser-para-o-outro ou para-o-mundo, como um papel a ser desempenhado. O que é diferente de vivenciar em atos emoções e sentimentos a responsabilidade enquanto inerente ao seu projeto. Quando tomado como obrigação tal como dever-ser, pode inviabilizar o projeto-de-ser em consonância com o desejo-de-ser, e consequentemente a vivência da relação com relativa tranquilidade.
Foi criada a categoria imanência do amor na relação, pois chamou a atenção que dois participantes, um homem e uma mulher, enquanto caracterizavam aspectos das suas relações apresentam uma contradição, ao discorrer sobre o início e a atualidade da sua relação amorosa. Na fala de Jorge: “O início foi bem bom, a gente trabalhava junto, a gente se conheceu
no ambiente de trabalho né? [...] e na verdade a gente se dava bem, só que como hoje tem as brigas e tudo, mas até hoje prá nós, é a mesma coisa na verdade [sic]”. (Jorge). Um discurso
parecido aparece na fala de Manuela ao se referir à sexualidade: “É tranquilo não tenho o que
reclamar, nem ele eu acho, né? É cansativo, por que ele cansa né (risos) ele se cansa por que ele tá sempre trabalhando, mas é normal, não mudou muita coisa não[sic]”.
Pode-se compreender essa afirmação pelo fenômeno exposto por Sartre (2009), em que o amor romântico é um “absoluto perpetuamente feito relativo pelos outros” (p.470). Ou seja, depende também do significado que os outros dão ao amor. O amor enquanto essencializado na cultura, pode significar um bem que precisa ser alcançado de “fora para dentro”. Nesse sentido, a negação do caráter transcendente tanto do amor como do Homem, ao afirmar que “é a mesma coisa”, ou que “não mudou muita coisa ” do início até agora, entretanto
essa contradição é compreensível quando se associa à paixão sentida no início da relação, com o desejo de que esteja presente na atualidade.
E, diferentemente do amor confluente ou “puro” de Giddens (2003), em que na modernidade os laços se dão de acordo com o compromisso de que a relação se sustente até quando houver investimento e satisfação. Desse modo, fica como premissa uma saída fácil do relacionamento. Ou seja, essa premissa/possibilidade de término não foi pensada nem exposta em nos discursos dos participantes desta pesquisa.
Bauman (2007) replica que Giddens, ao considerar o referido modo de relacionamento como libertador, descuida do fato de que cogitar a abertura para uma saída fácil “é em si um terrível obstáculo para a satisfação no amor. Torna o tipo de esforço a longo prazo que essa satisfação exigiria muito menos provável, tendente a ser abandonado, bem antes que uma conclusão gratificante possa ser alcançada” (p. 72). Entende-se que os participantes podem sentir, em alguma medida, segurança em relação aos seus relacionamentos, ao não mencionarem a possibilidade de uma ruptura fácil, o que pode contribuir na viabilização dos seus projetos-de-ser.
A partir dos discursos dos entrevistados, evidencia-se o desejo de cada um ser mediação positiva para o outro e de ser mediado pelo outro. Denotando então, intenções de reciprocidade, e reciprocidade propriamente dita. O significado de ser companheiro/a é tido como um perfil importante na vida dos sujeitos. Fica evidente, com todos os entrevistados, que o relacionamento amoroso é significativo em suas vidas. A percepção do relacionamento ficou destacada pela idiossincrasia de cada participante, sendo que suas compreensões de amor, já discutidas, reverberam nos seus relacionamentos, tanto a partir de uma perspectiva mais idealista, que pode culminar em alguns desencontros, tanto em uma perspectiva de construção, que favorece a reciprocidade. Luiz, Ana, Linda e Adriano e Manuela, remetem-se ao conforto de ter um/a companheiro/a na vida, descrevendo atitudes de companheirismo, para caracterizar a relação. Ser esposo/a com essas características singulares de cada relação, foi significado também como suporte mútuo para crescimento pessoal e profissional por estes entrevistados. Ou seja, é um perfil que se comunica com outros do seu projeto-de-ser.
No cotidiano, as pessoas se relacionam em seus vários perfis, lidam com várias demandas no âmbito profissional, social o que incide em relações com outras particularidades. O cotidiano com o companheiro pode vir a ser um espaço do compartilhar emoções, tarefas e mesmo de conflitos. Para caracterizar o relacionamento amoroso no cotidiano, na perspectiva dos entrevistados, foram criadas as seguintes categorias: presença de diálogo, interferência do trabalho na relação, visão de gêneros como indiferenciados, tarefas domésticas no modo tradicional e tarefas domésticas compartilhadas, concordância de pontos de vista e discordância de pontos de vista, filhos como elo na relação.
Na categoria presença de diálogo no cotidiano, todos os participantes relatam que há um momento do dia em que conversam sobre o que aconteceu no dia no trabalho, em casa ou em outros ambientes. “ Todo dia de noite ele pergunta né, como que foi o dia, e eu pergunto
o que que teve de diferente, [...] então daí a gente tá sempre, ali no horário do meio dia, pergunta, tais bem, tem algum problema, alguma coisa que quer me contar já agora? [sic]”
(Manuela).
Pretto (et al, 2009), ao distinguirem o amor individualista e o amor baseado na reciprocidade, afirma que no primeiro “é comum o casal restringir a relação ao plano informativo, instituindo um cotidiano caracterizado mais pela divisão de tarefas que pela reciprocidade e comprometimento existencial”. O segundo, envolve o a comunicação entre os companheiros, o compartilhar; afirma ainda que há um reconhecimento de que são mediações um para o outro, e também o reconhecimento de estão inseridos na mesma coletividade, “dirigindo-se para um futuro não determinado” (p. 401).
A categoria concordância de pontos de vista favorece o diálogo entre o casal, para duas das mulheres entrevistadas: “na maioria das vezes a gente concorda, por exemplo, na
visão política, na visão social, psicológica, geralmente a gente concorda sim [sic]” (Linda);
“Temos opiniões muito parecidas [sic]” (Ana). Assim, percebe-se que esse é um aspecto importante que parece dar certa tranquilidade para a relação.
Nas respostas dos homens, aparecem divergências de pontos de vista e também modos de saídas, ou superações, dos impasses de maneiras diferentes, aparece, a reciprocidade na fala de Luiz : “as nossas divergências elas não causam transtornos, o que ela pensa sobre
alguma coisa, o que eu penso sobre alguma coisa nunca interferiu muito no relacionamento, muitas vezes até ponto de apoio por que a gente conversa, diverge, nos mantem unidos[sic]”
Adriano, num primeiro momento indica reciprocidade, para então indicar alteridade:
num consenso[...] normalmente não é a mesma opinião, ela tem uma opinião, geralmente eu tenho outra opinião (risos) cada um na sua razão né?”[sic] (Adriano); o conflito propriamente
dito, que foi indicado na fala de Jorge: “Bem diferente, água e vinho (risos) não sei como é que
nós tamo tanto tempo junto, isso aí, é um dos dois motivos, que a gente para, e pergunta...é água e vinho, totalmente diferente [sic]” (Jorge). Ao mesmo tempo que diz tentarem um acordo
como saída, evidencia o conflito por meio da fala: “Mas a gente tem que lidar com isso né?
Tem que... um puxa de um lado, outro puxa do outro e vice-versa [sic]” (Jorge).Manuela também fala acerca das divergências de opiniões
Ele é teimoso, quando ele acha que é aquilo, é aquilo e pronto, mas aí eu tento mostrar que não é! Só que é bem difícil sabe? [...] quando ele bate o pé e diz que não é isso, é bem complicadinho de ele voltar atrás as vezes até eu calo prá não me estressar (risos) por que é complicadinho...
Mesmo que a entrevistada fale sobre o assunto descontraidamente, a saída para o impasse é se calar diante do outro, ou seja sem reciprocidade, sem o reconhecimento da sua liberdade tanto por ela mesma, quanto pelo outro. Sartre (2002), discorre que o conflito se dá a partir de uma reciprocidade negativa, em que os dois podem se reconhecer como duas liberdades, mas um recusa-se a servir o fim do Outro. No caso aqui poder-se-ia chamar tal fim das pequenas vontades que envolvem o projeto original de cada um. De forma semelhante, Beauvoir (2005) afirma que “desejo que outrem reconheça meus atos como válidos, que faça deles seu bem tomando-os a si rumo ao futuro, mas não posso contar com tal reconhecimento, se primeiro contradigo o projeto de outrem: ele verá em mim apenas um obstáculo” (BEAUVOIR,2005, p. 199).
Na categoria interferência do trabalho no relacionamento; aparece o trabalho enquanto aspecto mediador para as realizações dos sujeitos, quanto condições que contribuem para certo desgaste na relação, representada a seguir pela entrevistada:
A gente tava numa crise, assim, em função do meu trabalho ser muito cansativo, acabava ficando tudo com ele, o cuidado com as filhas, o cuidado com a casa, [...] eu ficava só em função do meu trabalho, a rotina é muito cansativa, nós não temos muitos parentes aqui, então, não tem com quem deixar as filhas pra gente fazer alguma coisa pra nós, então tava bem estressante, bem cansativo, e o relacionamento tava bem morno assim (Ana).
Vale ressaltar, que o trecho acima se refere às particularidades do momento profissional da entrevistada naquele período, mas que reflete certa condição da modernidade, em que muitas vezes o trabalho se impõe como aspecto central na vida dos sujeitos. Mas
também em seu sentido transcendente de realização em curso, afinal, “foi pelo trabalho que a mulher cobriu em grande parte a distância que a separava do homem; só o trabalho pode assegurar-lhe uma liberdade concreta” (BEAUVOIR, 1967, p. 449).
A única participante mulher que não trabalha formalmente, mas que corroborou na construção da categoria interferência do trabalho no relacionamento, primeiro minimiza seu trabalho: “Claro que eles trabalham mais do que a gente né? Às vezes a gente não trabalha
tanto, agora fico em casa [sic]” (Manuela), mas, a seguir expõe o seu cotidiano vivenciado
com estresse, pelas atividades que exerce enquanto mãe, filha, - pois mora junto com os pais - e se encarrega das tarefas da casa: É tudo eu que tenho que fazer, minha mãe não é dona de
casa, sou eu! [...]. Tudo, tudo mesmo! [...] as vezes sou muito ruim com ele [companheiro], é por que é muita coisa prá mim, na minha cabeça sabe, é muita preocupação, sempre tem uma coisa aqui, uma coisa ali. (Manuela).
No primeiro momento, há um discurso que desqualifica suas atividades, com um valor construído socialmente, em que as tarefas que envolvem o cotidiano de uma casa não são tão importantes quanto aquelas desenvolvidas no mercado de trabalho. Mesmo que a entrevistada tenha evidenciado seu companheiro como mediação positiva, vale destacar o que Beauvoir (1967) ilustra sobre essa condição feminina:
O fervor místico, como o amor e o próprio narcisismo, podem integrar-se em vidas ativas e independentes. Mas, em si, esses esforços de salvação individual só podem redundar em malogros; ou a mulher põe-se em relação com um irreal: seu duplo ou Deus; ou cria uma relação irreal com um ser real. Não tem, em todo caso, domínio sobre o mundo, não se evade de sua subjetividade; sua liberdade permanece mistificada; só há uma maneira de realizá-la autenticamente: projetá-la mediante uma ação positiva na sociedade humana (p.447).
Pode-se dizer que não é impossível que, quando, a partir de uma “livre” escolha, no sentido crítico, em que a mulher se sabe escolhendo a maternidade e ao cuidado com a casa, tais atividades sejam realizadoras do seu projeto-de-ser. Entretanto, cabe destacar a singularidade da situação descrita pela entrevistada, mas também seu desejo de outras situações/realizações: “eu quero fazer a minha enfermagem que eu preciso, que eu quero!
[sic]” (Manuela).
No discurso dos participantes acerca de seus entendimentos sobre ser homem e ser mulher, todos os participantes expuseram sua visão de gêneros como indiferenciados, exceto Ana, que articula acerca disso: “Na sociedade mulher tem que dar conta de tudo né? O homem
é pouca coisa né? Mas no meio dia a dia é bem ao contrário [sic]”. Os restantes dos
participantes afirmam que homens e mulheres podem desempenhar as mesmas atividades: “na
minha opinião que não tem que ter diferença nenhuma, tanto responsabilidade, quanto, deveres né? No caso eu acho que o homem ele pode fazer as mesmas coisas que a mulher pode fazer, como cuidar de filho, limpar uma casa [sic] (Manuela); “não vejo diferença no cotidiano, mesma capacidade né, mesma força de, de vontade né” (Adriano).
Nesse sentido Welzer-Lang (2001), afirma que não é utópico imaginar que se criem apoios aos homens que, “confrontados com a inadequação entre construção social do masculino e (novas) exigências das mulheres, necessitem de apoio” (470). Ou seja, a atmosfera antropológica anuncia uma nova mulher, entretanto, não fica evidenciado no discurso dos homens desta pesquisa um confronto marcante com a inadequação dos construtos sociais de gênero, e, como se verá adiante alguns aspectos se reproduzem, ou seja, a visão igualitária não se torna práxis, deixando essa não diferenciação, apenas no discurso.
No que diz respeitos às tarefas relativas à casa, essas são relatadas como tarefas domésticas no modo tradicional: “tá mais por conta dela, tarefas domésticas essas coisas.
Geralmente...ela agora tá mais ocupada por que tá estudando...a gente procura dividir, procurar ver o que que... é mais por conta dela! Ela que toma as iniciativas... né? Eu procuro ajudar no que eu posso[sic]” (Adriano).
Ao mesmo tempo que afirma-se que o homem pode fazer as mesmas coisas que a mulher faz e vice-versa, na categoria anterior, aparece na fala da entrevistada em particular, também a naturalização acerca dos gêneros, juntamente com as tarefas domésticas no modo tradicional [...] “a mulher assim, não consegue ver uma coisa bagunçada, já tem que arrumar,
as vezes então tá, vou deixar pra ver o que ele vai fazer né, e as vezes ele não faz, e aí mulher vai lá e faz. Acontece que a mulher naturalmente ela vai assumindo o trabalho doméstico [sic]”
(Linda). A organização da casa no cotidiano dos entrevistados também aparece a casa como âmbito de responsabilidade do feminino e na fala destacada o carro (simbolizando a rua, o espaço público) do masculino:
Tipo pra mim se tiver uma zona, não tem problema (risos), pra ela já é uma briga se tiver um copo fora do lugar, ou uma toalha que eu jogo em cima do sofá, já é uma briga, pra mim não tem problema entende, só que daí pra ela é o contrário, tipo no carro, ela anda, anda, suja, suja, quando vai ver tá cheio de sujeira, pra ela não tá nem aí, mas pra mim, uma sujeirinha já é uma briga, então... (risos) entendeu? (Jorge).
Nesse sentido, Welzer-Lang (2001) afirma que a assimetria em relação ao domínio masculino não é percebida da mesma forma por homens e mulheres, mas principalmente, que