UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA EVANDRO MARCIO SCHUTZ
TETO COMO PRÁTICA DE INOVAÇÃO SOCIAL
Florianópolis 2016
EVANDRO MARCIO SCHUTZ
TETO COMO PRÁTICA DE INOVAÇÃO SOCIAL
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Administração da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL – como requisito parcial à obtenção do grau de Mestre em Administração.
Orientadora: Prof. Dra. Simone Sehnem
Florianópolis 2016
EVANDRO MARCIO SCHUTZ
TETO COMO PRÁTICA DE INOVAÇÃO SOCIAL
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Administração da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL – como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Administração.
AGRADECIMENTOS
Aos meus familiares pelo apoio incondicional na concretização de mais esta etapa na minha vida. Aos amigos que se mantiveram firmes e compreenderam o motivo da minha ausência durante este período.
Aos diretores do TETO e aos demais colaboradores e voluntários que contribuíram para a realização deste projeto.
Aos professores, colaboradores e colegas de curso da universidade pela paciência, compreensão e colaboração.
Gostaria também de mencionar o meu eterno agradecimento a minha orientadora Simone Sehnem, Dra. pela paciência, dedicação e persistência.
RESUMO
A Sociedade Civil vêm protagonizando um movimento significativo no desenvolvimento da autonomia e emancipação da sociedade. Diante desse cenário, surge a necessidade das inovações aplicadas ao setor social denominado de inovações sociais na qual os cidadãos passaram de uma postura passiva a protagonistas sociais. O objetivo deste estudo foi o de analisar se a implementação de um modelo de intervenção focado no desenvolvimento comunitário, via construção de moradias de emergência, programas de habilitação social e trabalho em rede é uma prática de inovação social. Os procedimentos metodológicos foram definidos a partir do objetivo geral e específicos, o paradigma de pesquisa é interpretativista, a abordagem definida para este estudo é a qualitativa, quanto ao enfoque é descritivo e no que diz respeito aos procedimentos foi efetuado um estudo de caso. A coleta de dados aconteceu a partir de entrevistas com roteiro semiestruturado, observação participante e análise documental. O principal modelo de referência adotado para análise das categorias foi Tardif e Harrisson (2005), que já é um modelo reconhecido na área científica e que foi construído a partir de estudo de casos pela CRISES. Os principais resultados foram: o projeto analisado (TETO) atende aos preceitos teórico e prático da inovação social, pois os resultados evidenciam uma grande parte dos elementos das dimensões de inovação social descritas no modelo de Tardif e Harrisson (2005) que orientou este estudo. A dimensão de transformação, dimensão de caráter inovador, dimensão de inovação, dimensão de processos atende aos requisitos necessários das inovações sociais. A pesquisa identificou nos projetos do TETO resultados na habitação social e comunitária; auxílio a domicílios e serviços para moradores; inserção social; luta contra a pobreza; inovações da rede institucional - serviços de saúde e bem estar, cooperativas de solidariedade; ambientes inovadores como redes locais de cooperação e de troca; revitalização rural e urbana; mobilizações locais; empoderamento, dos atores sociais locais; formação de lideranças locais com a participação da sociedade civil. A dimensão de atores atende parcialmente já que não se identificou parcerias com atores institucionais (Estado). Atendeu também as características e conceitos de modelos de inovação social de diferentes autores da literatura que também foram elencados no projeto como no caso de autonomia, emancipação social e transformação social. As pesquisas que envolvem as inovações sociais vêm conquistando cada vez mais espaço nas academias fortalecendo assim o interesse científico em construir teorias que venham de encontro com as necessidades essenciais dos seres humanos para viver em coletividade.
ABSTRACT
The Civil Society come starring a significant move in the construction of autonomy and emancipation of society. Given this scenario, there is a need of innovation applied to social sector called social innovation where citizens went from a passive approach to social actors. The aim of this study was to examine whether the implementation of an intervention model focused on community development, through the construction of emergency housing, social empowerment programs and networking is a practice of social innovation. The methodological procedures were defined from the general and specific objective, the research paradigm is interpretive, the approach set out for this study is qualitative, as the approach is descriptive in relation to the procedures a case study was performed. Data collection took place from interviews with semi-structured, participant observation and document analysis. The main reference model used to analyze the categories was Tardif and Harrison (2005), which is already a recognized model in the scientific area and it was built from case studies by CRISES. The main results were: the analysis project TETO meets the theoretical and practical principles of social innovation, as the results show a large part of the elements of social innovation dimensions described in the Tardif and Harrisson model (2005) that guided this study. The scale of transformation, dimension of innovativeness dimension of innovation, scale processes meets the necessary requirements of social innovations. The research identified the TETO projects results in social and community housing; aid to households and services to residents; social inclusion; fight against poverty; innovations institutional network - health care and welfare, solidarity cooperatives; innovative environments as local networks of cooperation and exchange; rural and urban revitalization; local mobilizations; empowerment of local stakeholders; training of local leaders with the participation of civil society. The size of actors serves partially as not logged in partnership with institutional actors (State). also attended the features and concepts of social innovation models of different authors in the literature that were also listed in the project as in the case of autonomy, social emancipation and social transformation. Research involving social innovations are gaining more and more space in the academies thus strengthening the scientific interest in building theories that come from meeting the essential needs of human beings to live in community.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Quadro 1 Conceitos de inovação social... 20
Quadro 2 As dimensões de análise de uma inovação social de acordo com o CRISES... 21
Quadro 3 Características das inovações sociais na visão de Neumeier (2012)... 22
Quadro 4 Níveis de análise da inovação social segundo Levésque (2002)... 25
Quadro 5 Divisão da Sociedade Civil segundo Young (2000)... 39
Quadro 6 Os três eixos de orientação para as inovações sociais segundo CRISES... 50
Quadro 7 Síntese dos conceitos basilares da pesquisa... 53
Quadro 8 Cronograma de atividades da observação participante e entrevistas…... 62
Quadro 9 Síntese das técnicas de coleta, tabulação e análise dos dados... 67
Quadro 10 Três objetivos estratégicos do TETO... 72
Quadro 11 Especificidades do Projeto Comunitário TETO...………... 73
Quadro 12 Aspectos alusivos a dimensão transformação………... 75
Quadro 13 Aspectos alusivos a dimensão caráter inovador……… 76
Quadro 14 Aspectos alusivos a dimensão inovação………... 77
Quadro 15 Aspectos alusivos a dimensão atores……… 78
Quadro 16 Aspectos alusivos a dimensão processos……….. 78
Quadro 17 Elementos relevantes do Projeto Comunitário TETO...………... 79
Quadro 18 Práticas de inovações sociais encontrados no TETO………... 112
Quadro 19 Elementos característicos do Projeto Comunitário TETO……… 115
Quadro 20 Ações recomendadas para o TETO………... 116
Tabela 1 Perfil dos beneficiários pesquisados…………..………... 81
Tabela 2 Perfil dos voluntários pesquisados………... 88
Tabela 3 Perfil dos diretores e/ou coordenadores pesquisados ………..…. 101
Figura 1 Modelo de geração de valor social por meio de inovação social... 24
Figura 2 Ilustra as relações que se estabelecem entre os conceitos-chave deste projeto de dissertação... 53
Figura 3 Convergência de várias formas de evidência - estudo de caso único... 66
Figura 4 Mapa do Brasil com a localização do TETO no país e no Estado que será pesquisado... 70
Figura 5 Lócus de análise de pesquisa a partir do modelo de trabalho do TETO... 70 Figura 6 Modelo de intervenção comunitária... 72 Figura 7 Projeto TETO a luz das teorias de inovações sociais……… 128
GRÁFICOS
Gráfico 1 Maneira como os beneficiários conheceram o TETO………... 82
Gráfico 2 A proposta do TETO na comunidade na visão dos beneficiários... 83
Gráfico 3 Mudanças percebidas no dia-a-dia após receber a casa de emergência.... 84
Gráfico 4 Reflexo na vida da comunidade após a implementação dos projetos do TETO………... 85
Gráfico 5 Percepção dos beneficiários sobre se os projetos realizados pelo TETO na comunidade em relação uma inovação na comunidade…... 87
Gráfico 6 Como conheceu o TETO……….. 89
Gráfico 7 Motivos que levaram os voluntários a participar da ação social do TETO……….... 90
Gráfico 8 Projetos em que o voluntário se envolveu……….... 92
Gráfico 9 Mudanças percebidas pelo voluntário a partir da inserção no projeto social………... 93
Gráfico 10 Importância do papel do voluntário na promoção de consciência social na comunidade………... 94
Gráfico 11 Mudança percebida na vida das famílias que fazem parte dos projetos da TETO………... 96
Gráfico 12 Ações sociais na visão dos entrevistados………..., 97
Gráfico 13 Ações sociais gerando inovações na comunidade…………....……….... 98
Gráfico 14 O impacto social que o projeto proporciona na comunidade…………..., 99
Gráfico 15 Projetos que o TETO viabiliza para as comunidades………... 102
Gráfico 16 Captação de recursos para a sustentação dos projetos……….. 103
Gráfico 17 Processo de recrutamento de voluntários…………...………... 105
Gráfico 18 Mapeamento e implementação das ações sociais………... 106
Gráfico 19 Mudança percebida na vida das pessoas/comunidades que fazem parte dos projetos………... 107
Gráfico 20 Ações sociais na percepção dos entrevistados……….. 108
Gráfico 21 Papel do gestor na promoção de consciência social na comunidade….... 109
Gráfico 22 Ganhos que os voluntários têm em desenvolver o projeto social……... 110
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 12
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA... 12
1.2 OBJETIVOS... 14 1.2.1 Objetivo Geral... 14 1.2.2 Objetivos Específicos... 14 1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO... 15 2 REFERENCIAL TEÓRICO... 17 2.1 INOVAÇÃO SOCIAL... 17
2.1.1 Conceitos de Inovação Social... 20
2.1.2 Características e Dimensões da Inovação Social... 21
2.2 EMANCIPAÇÃO SOCIAL E AUTONOMIA... 25
2.2.1 Empoderamento ... 30
2.3 SOCIEDADE CIVIL ORGANIZADA ... 33
2.3.1 ONGs ... 41
2.3.2 Gestão social ... 43
2.4 POLÍTICA DE HABITAÇÃO SOCIAL E O DIREITO A MORADIA NO BRASIL... 46
2.5 MARCO TEÓRICO... 49
3 METODOLOGIA... 56
3.1 PARADIGMA DE PESQUISA... 56
3.2 ESTRATÉGIA DE PESQUISA... 57
3.3 TÉCNICA DE COLETA DE DADOS... 59
3.4 TÉCNICA DE ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS... 64
3.5 CATEGORIAS DE ANÁLISE... 67
4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ... 69
4.1 CARACTERIZAÇÃO DA ORGANIZAÇÃO PESQUISADA ... 69
4.2 ESPECIFICIDADES DO PROJETO COMUNITÁRIO TETO ... 73
4.2.1 Construção de moradia de emergência... 74
4.3 ELEMENTOS RELEVANTES PARA QUE UM PROJETO SEJA CONSIDERADO UMA INOVAÇÃO SOCIAL ... 75
4.3.1 Dimensão transformação... 75
4.3.2 Dimensão caráter inovador... 76
4.3.3 Dimensão de inovação... 77
4.3.4 Dimensão dos atores... 77
4.3.5 Dimensão de processos... 78
4.4 ANÁLISE DO PROJETO COMUNITÁRIO TETO A LUZ DAS DIMENSÕES DE INOVAÇÕES SOCIAIS ... 80
4.4.1 Perfil e análise de dados na visão dos beneficiários... 80
4.4.1.1 Perfil dos beneficiários dos projetos do TETO... 80
4.4.1.2 Maneira como os beneficiários conheceram o TETO ... 82
4.4.1.3 A proposta do TETO na comunidade na visão dos beneficiários... 83
4.4.1.4 Mudanças percebidas no dia-a-dia após receber a casa de emergência... 84
4.4.1.5 Reflexo na vida da comunidade após a implementação dos projetos do TETO na visão dos beneficiários... 85
4.4.1.6 Projetos realizados pelo TETO: possibilidades de inovação na comunidade... 86
4.4.2 Perfil e análise de dados na visão dos voluntários... 88
4.4.2.1 Como conheceu o TETO... 89
4.4.2.2 Motivos que levaram os voluntários a participar da ação social do TETO.. 90
4.4.2.3 Projetos em que o voluntário se envolveu... 91
4.4.2.4 Mudanças percebidas pelo voluntário a partir da inserção no projeto social... 93
4.4.2.5 Importância do papel do voluntário na promoção de consciência social na comunidade... 94
4.4.2.6 Mudança percebida na vida das famílias que fazem parte dos projetos do TETO... 95
4.4.2.7 Ações sociais na visão dos entrevistados... 96
4.4.2.8 Ações sociais gerando inovações na comunidade... 98
4.4.2.9 O impacto social que o projeto proporciona na comunidade... 99
4.4.3 Perfil e análise de dados na visão dos diretores e/ou coordenadores dos projetos do teto... 100
4.4.3.1 Projetos que o TETO viabiliza para as comunidades... 101
4.4.3.3 Processo de recrutamento de voluntários... 104
4.4.3.4 Mapeamento e implementação das ações sociais... 105
4.4.3.5 Mudança percebida na vida das pessoas/comunidades que fazem parte dos projetos... 107
4.4.3.6 Ações sociais na percepção dos entrevistados... 108
4.4.3.7 Papel do gestor na promoção de consciência social na comunidade... 109
4.4.3.8 Ganhos que os voluntários têm em desenvolver o projeto social... 110
4.4.3.9 Ações sociais originando inovações na comunidade... 111
4.5 SIMILARIDADES E DISCREPÂNCIAS ENTRE O PROJETO COMUNITÁRIO TETO E AS INOVAÇÕES SOCIAIS... 112
4.6 AGENDA DE AÇÕES A LUZ DA TEORIA DE INOVAÇÃO SOCIAL.. 116
4.7 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS... 118
4.8 O PROJETO ANALISADO É UMA PRÁTICA DE INOVAÇÃO SOCIAL?... 127
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 132
REFERÊNCIAS ... 137
1 INTRODUÇÃO
Nesta seção inicialmente se descreve a contextualização do tema de pesquisa, o objetivo geral e os objetivos específicos, a justificativa para realização deste estudo e o problema de pesquisa, referentes ao caso do TETO, enquanto prática de inovação social.
1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO DO TEMA E PROBLEMA DE PESQUISA
As mudanças globais no ambiente econômico, tecnológico, político e social tem influenciado de forma significativa as organizações. A revolução tecnológica e a velocidade das informações influenciam na forma de viver, de trabalhar, descansar e desencadearam diversos modelos organizacionais totalmente novos. Dentre estes, estão as organizações da Sociedade Civil, entidades sem fins lucrativos que prestam algum serviço de natureza pública, entregando valor para a sociedade através da formação de laços entre atores da sociedade.
Segundo Young (2000) a Sociedade Civil é usualmente definida como um campo em que os indivíduos se organizam de forma voluntária e consequentemente formando redes de atores constituídas a partir de objetivos em comum, entre eles, de natureza ideológica, política ou religiosa. Ainda segundo Young (2000) o conceito de Sociedade Civil é associado ao espaço existente entre o mercado e o Estado, e que é permeado de formas associativas que obedecem a lógicas próprias conectando os atores da sociedade.
De acordo com Dagnino (2002) a partir dos anos noventa, a Sociedade Civil no Brasil começou a se preocupar com iniciativas voltadas para uma forma mais ampla de participação principalmente nas áreas de políticas públicas. Com o aprimoramento da participação de organizações da sociedade civil através de um conjunto de atores envolvidos na execução dessas políticas e a sua autonomia em relação ao Estado. As iniciativas da Sociedade Civil podem vir a provocar mudanças significativas na realidade local, partindo do princípio de que as pessoas se aproximam e se envolvem em ações coletivas, no esforço de enfrentamento e superação dos problemas vivenciados assim fortalecendo os vínculos solidários entre os atores na base social, transformando assim, um novo sujeito social e político resultando deste processo de inovação desencadeado pela ação conjunta da sociedade (BRITO, 2015 p.17).
Esta ação conjunta da sociedade através de seu processo de constituição e consoli-dação, poderá desencadear o desenvolvimento da emancipação social e autonomia dos sujeitos e consequentemente a transformação social SILVA (2013, p.3) Ainda de acordo com Silva (2013) a emancipação humana, pode ser entendida como a capacidade do homem em
desvelar e exercer a expressividade, perceber as contradições dialéticas do contexto social em que está inserido, interagindo criativamente nas contingências e se restituindo como indivíduo a todo o momento, mediante o exercício de pensar sua condição humana. Destacando ainda que a aproximação e o envolvimento em ações coletivas e lutas sociais, podem contribuir efetivamente para o esforço do enfrentamento e superação dos problemas vivenciados e promover de certa forma um novo processo denominado de inovações sociais.
Na visão de Bignetti (2011) entende-se por inovações sociais “uma incursão por ideias, tendências e focos de pesquisa. É o resultado do conhecimento aplicado a necessidades sociais por meio da participação individual e coletiva, havendo interação e cooperação de todos os atores envolvidos, com o objetivo de gerar soluções novas e duradouras para a sociedade em geral”. Segundo o autor, a inovação social é desenvolvida por atores da sociedade civil. Pode ocorrer de forma autônoma ou em parceria com o setor público. Estes atores podem estar unidos através de grupos comunitários, movimentos ou empreendedores sociais que, conseguem superar barreiras, pelo alinhamento e integração das ações desenvolvidas em busca do bem comum de forma organizada, criativa e empreendedora. Quando pessoas se unem com o objetivo de transformar a realidade, grandes mudanças podem ser alavancadas em um processo revolucionário denominado de inovações sociais por meio de estratégias de desenvolvimento de projetos sem fins lucrativos que envolvem corações e mentes para gerar inclusão, qualidade de vida e acesso a uma sociedade mais igualitária (BESSANT; TIDD, 2009). Através das mãos que se congregam de forma voluntária, buscando propostas de ações que, geram grande impacto na vida dos cidadãos agregando valor para a sociedade (BESSANT; TIDD, 2009).
Partindo do princípio de que na sociedade em que estamos inseridos, todas as pessoas podem agir como inovadores sociais, ou seja, na qual os indivíduos podem projetar suas próprias vidas, com o foco num sistema maior que envolve a coletividade (CAPRA, 2006), contribuindo de forma efetiva para o desenvolvimento de novas ideias, iniciativas, soluções, que se configurem como inovações sociais. Dentro deste cenário, na busca de identificar projetos voltados à esfera social aparece o TETO - Organização não governamental que tem a missão de “trabalhar sem descanso nas comunidades precárias para superar a extrema pobreza, através da formação e da ação conjunta de seus moradores e jovens voluntários, promovendo o desenvolvimento comunitário, denunciando a situação na qual vivem as comunidades mais excluídas e incidindo, junto a outros, em política” (TECHO, 2016).
Através deste estudo o pesquisador identificou na área da Habitação Social uma lacuna no que se refere a superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas em
assentamentos precários, desencadeando alto grau de vulnerabilidade social. As políticas habitacionais propostas nas últimas décadas foram, em sua maioria, ineficazes devido a diversos fatores como políticos, sociais, econômicos e culturais. O surgimento de políticas habitacionais realmente preocupadas em solucionar o alarmante problema é recente, tendo sido implementado na Constituição Federal de 1988, e regulamentado pelo Estatuto da Cidade (2004), que regula o uso da propriedade urbana e o direito a moradia em prol do interesse coletivo e do equilíbrio ambiental.
Com base neste cenário surgiu o seguinte problema de pesquisa: A implementação do modelo de intervenção focado no desenvolvimento comunitário do TETO via construção de moradias de emergência, programas de Habilitação Social e trabalho em rede pode ser considerada uma Inovação Social?
Para responder a esta pergunta deve-se fazer uma imersão no campo da ação social, com o intuito de compreender o significado da ação conjunta de moradores e jovens voluntários na promoção de consciência e a ação social conjunta e as interfaces existentes entre estas, e as inovações sociais.
1.2 OBJETIVOS
Nesta seção são descritos o objetivo geral e os específicos da referida pesquisa.
1.2.1 Objetivo Geral
Analisar se a implementação de um modelo de intervenção focado no desenvolvimento comunitário, via construção de moradias de emergência, programas de habilitação social e trabalho em rede é uma prática de inovação social.
1.2.2 Objetivos Específicos
a) Descrever as especificidades do projeto comunitário TETO;
b) Identificar quais são os elementos relevantes para que um projeto seja considerado uma inovação social;
c) Analisar o projeto comunitário TETO orientado a luz das dimensões das inovações sociais;
d) Identificar similaridades e discrepâncias entre o projeto comunitário TETO e as inovações sociais;
e) Propor uma agenda de ações a luz da teoria de inovação social e que contribuam para que o Projeto Comunitário TETO se consolide como uma prática social efetiva.
1.3 JUSTIFICATIVA DO ESTUDO
Existem muitas lacunas em relação ao tema inovações sociais, inclusive em relação ao significado e conceito já que se trata de um tema novo na área da administração, e através dos objetivos geral e específicos, este estudo tem a intenção de compreender a problemática em questão no intuito de promover a discussão do tema na esfera social.
De acordo com Funes (2005) quando se evidencia à esfera social, uma das áreas que tem enfrentado déficit na qualidade dos serviços prestados a população é o campo da habitação social e moradia. O sistema precário em que se encontra a habitação no Brasil carece de mudanças significativas na estruturação de um modelo de gestão mais eficaz para sustentar uma sociedade mais justa e sem pobreza, onde todas as pessoas tenham a oportunidade de desenvolver suas capacidades e exercer plenamente seus direitos com o foco na equidade social (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2004). É importante perceber como os atuais problemas urbanos, em especial aqueles relacionados à habitação, refletem um século de políticas que não consideraram a população mais pobre ou, em alguns períodos, nem existiram.
Segundo a Política de Habitação Social e o Direito a Moradia no Brasil (Ministério das Cidades, 2004) a partir do art. 6º da Constituição Federal de 1988, o direito à moradia foi inserido no texto constitucional, sendo atribuido a ele status de direito social, compromisso este assumido pelo governo do Brasil por ser signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948. O falta de acesso à moradia é um dos maiores problemas das últimas décadas, fortemente agravado pela falta de políticas habitacionais em conformidade a atender a população mais carente que está exposta à vulnerabilidade social. Conforme Funes (2005) o principal agente da exclusão territorial e da degradação ambiental é a segregação espacial, que traz consigo uma lista interminável de problemas de ordem social e econômica, tendo como principal sequela a exclusão e a desigualdade social que propicia a discriminação, o que
diminui as oportunidades de emprego, dentre outros problemas, ocasionando assim a multiplicação da pobreza e a ausência do exercício da cidadania e equidade social.
A partir dos resultados ineficientes da política habitacional, entendida como ação pública que busca efetivar o direito à moradia, a Sociedade Civil começou a se mobilizar através de organizações sociais (sem fins lucrativos), para atender esta demanda que até então não foi suprida pelo papel do Estado, assim ocorrendo a transferência da execução das políticas sociais do Estado para a Sociedade Civil (GOHN, 2004).
É dentro deste contexto que está inserida a ONG (Organização Não Governamental) TETO. Com a proposta de melhorar a qualidade de vida de comunidades em situação de vulnerabilidade social, o TETO em 10 anos de trabalho no Brasil, mobilizou 25 mil voluntários, e foram construídas moradias emergenciais junto a mais de 1900 famílias. “A proposta do trabalho comunitário do TETO é focada nos assentamentos precários mais excluídos, sendo seu principal motor a ação conjunta de seus moradores e jovens voluntários, os quais trabalham para gerar soluções concretas para uma problemática social que julgamos prioritária: a pobreza” (TECHO, 2016). As ações sociais desenvolvidas pela ONG procuram investir esforços na combinação destas estratégias de intervenção social focados no desenvolvimento comunitário e chamam a atenção para o fato de que arranjos que envolvem a coletividade podem ampliar seu potencial transformador agregando valor social.
A opção pelo tema de pesquisa justifica-se pelo interesse científico e social do pesquisador em compreender a relação que se estabelece entre a implementação do modelo de intervenção focado no desenvolvimento comunitário e as práticas de inovações sociais. A intenção de desenvolver este estudo na área de inovações sociais tem como finalidade fazer uma reflexão crítica sobre questões do campo da gestão e empreendedorismo social e, assim, contribuir com um debate ainda novo na comunidade acadêmica. Este estudo também objetiva apresentar contribuições teóricas relevantes, uma vez que evidencia o campo das inovações sociais, através de estratégias de gestão de organizações da sociedade civil, e que ainda é um campo pouco explorado na literatura.
O presente estudo segue dividido nas seguintes sessões: Referencial teórico, que possibilita dar base e consistência a todo o estudo. Metodologia, que inclui o desenvolvimento de todos os procedimentos que são necessários para a aplicação da pesquisa. Análise e discussão dos dados, que consiste em explicitá-los e analisá-los de forma clara e objetiva. Ao final, uma conclusão com o intuito de responder a pergunta de pesquisa.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Nesta seção são apresentados os estudos relacionados à abordagem da inovação social. A revisão da literatura aborda: inovação social; emancipação social e autonomia; empoderamento; Sociedade Civil; Política de Habitação Social e o Direito a Moradia no Brasil e finalizando com o marco teórico.
2.1 INOVAÇÃO SOCIAL
O uso da palavra inovação é bastante amplo, dependendo, efetivamente da sua aplicabilidade. No seu sentido mais genérico considera-se que a inovação tecnológica é a exploração bem sucedida de novas ideias. De acordo com Drucker (1987) a inovação pode ser vista como um instrumento no qual os empreendedores exploram através das mudanças novas oportunidades para gerir formas diferenciadas de negócios.
A origem da palavra inovar vêm do latim “innovatio” refere-se a uma ideia, método ou objeto que é criado e que pouco se parece com padrões anteriores, significa tornar novo, renovar, enquanto inovação traduz-se pelo ato de inovar.
As teorias da inovação tiveram grande influência a partir do trabalho de Joseph Schumpeter (1934) nos estudos sobre Desenvolvimento Econômico. Na visão do autor, o desenvolvimento econômico é conduzido pela inovação por meio de um processo dinâmico denominado “destruição criadora” em que as novas tecnologias substituem as antigas. Ainda segundo Schumpeter (1934), inovações “radicais” concebem rupturas mais intensas, enquanto inovações “incrementais” dão continuidade ao processo de mudança.
Schumpeter (1934) classificou as inovações em cinco classes: introdução de novos produtos; introdução de novos métodos de produção; abertura de novos mercados; desenvolvimento de novas fontes provedoras de matérias-primas e outros insumos; criação de novas estruturas de mercado em uma indústria. Como se pode observar o termo inovação estava ligado à competitividade econômica.
Segundo o manual de Oslo, elaborado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD, 1997, p. 57), que é uma das principais fontes de coleta e uso de dados sobre atividades inovadoras, e que aborda a inovação como “toda a novidade implantada pelo setor produtivo, por meio de pesquisas ou investimentos, que aumenta a eficiência do processo produtivo ou que implica em um novo ou aprimorado produto”. A OECD é um fórum no qual os governos de mais de 30 democracias trabalham juntos para
compreender os desafios econômicos, sociais e ambientais da globalização. A Organização propicia um ambiente no qual os governos podem comparar experiências de políticas, buscar respostas para problemas comuns, identificar boas práticas e trabalhar para coordenar políticas domésticas e internacionais o que faz com que a organização seja uma referência em inovação.
Ainda relacionada ao desenvolvimento econômico (inovação tecnológica), surgem diversas formas de inovar, dentre elas, as que se referem a inovações de produto ou de processo conhecidas como inovações tecnológicas. Lembrando que a inovação tecnológica não será o objeto de estudo abordado nesta pesquisa, mas é de suma importância citar a inovação tecnológica para o entendimento de como surgiu a inovação social. Outros tipos de inovações podem se relacionar a novos mercados, novos processos e métodos organizacionais ou novos modelos de negócio como o negócio social, que é o objeto de estudo deste trabalho aonde empregasse a inovação na perspectiva social.
Dentro da perspectiva social, o termo inovação carrega o gene do desenvolvimento coletivo, mais recentemente, da correlação entre complexidade da ação pública e complexidade das estruturas sociais. Neste cenário, aparecem as inovações aplicadas pela Sociedade Civil organizada que são constituídas por entidades sem fins lucrativos e não governamentais, que tem como objetivo gerar serviços de caráter público visando a melhoria da qualidade de vida e equidade social (ALMEIDA, 2011).
Considerando que o contexto econômico/social está enredado em desigualdades sociais latentes e crescentes, observa-se que o Estado, não consegue suprir as necessidades de equidade social e que reconhecidamente é incapaz de satisfazer as necessidades humanas face às demandas sociais. Este fato fez com que o próprio Estado iniciasse uma tendência de parceria junto às organizações do terceiro setor, repassando-lhes os recursos necessários para o provimento efetivo das necessidades das comunidades mais empobrecidas.
Desde 1999 através da Lei 9.790 conhecida como Lei das OSCIP - Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, o governo tem ampliado a sua capacidade de “estimular o crescimento deste setor” conhecido por fazer uma “ponte” entre as esferas públicas e privadas. Entre os objetivos da Lei está o interesse de buscar maior participação e incrementar o poder civil das associações sem fins lucrativos na prestação de serviços à sociedade, melhorando o atendimento da população a partir de parcerias com o setor público, o governo federal deu o primeiro passo na “direção da reforma do marco legal que regula as relações entre Estado e Sociedade Civil no Brasil.” (FERRAREZI, 2001, p.06).
Diante desse cenário, surge a necessidade das inovações aplicadas ao setor social denominado de inovações sociais na qual os cidadãos passaram de uma postura passiva a protagonistas sociais. As pesquisas que envolvem as inovações sociais vêm conquistando cada vez mais espaço nas academias fortalecendo assim o interesse científico em construir teorias que venham de encontro com as necessidades essenciais dos seres humanos para viver em coletividade. O termo inovação social vem sendo utilizado por diversas abordagens das áreas de Ciências Sociais e Ciências Sociais Aplicadas, fazendo referência às mudanças sociais que visem à satisfação das necessidades humanas, buscando contemplar necessidades até então não supridas pelos atuais sistemas públicos ou organizacionais privados segundo Moulaert (2005).
De acordo com Bignetti (2011) é possível observar que não há um consenso sobre a definição de inovação social. Observa-se na literatura que o tema inovação social é menos utilizado se comparado com o termo inovação no sentido tradicional ou no seu sentido mais amplo. Porém, as pesquisas sobre essa forma de inovação tem se multiplicado, especialmente nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa, como também no Brasil. Nos Estados Unidos, através das Universidades de Stanford e Harvard, têm surgido programas de pesquisa e cursos específicos sobre o tema.
No Canadá, o exemplo do CRISES, Centre de Recherche Sur Les Innovations Sociales, se apresenta como resultado de uma rede formada por universidades do Québec que se vinculam através de projetos comuns. Na Europa, o INSEAD, a Universidade de Cambridge e iniciativas como o projeto EMUDE (Emerging User Demands for Sustainable Solutions), o Consumer Citzenship Network, o Creative Communities for Sustainable Life styles e o ISESS, Inovation and Social Entrepreneurship In Social Services realizam estudos e pesquisas e ações de caráter social. No Brasil, destaca-se o trabalho realizado pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS), que forma uma rede de estudos e de ações apoiada pela Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e pela Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social do Ministério da Ciência e Tecnologia. Para Cloutier (2003), pesquisadora do CRISES, os primeiros autores a usarem o termo “inovação social” foram Taylor (1970) e Gabor (1970).
Os estudos inerentes às inovações sociais discutem alternativas de crescimento e desenvolvimento das comunidades e dos indivíduos de forma global. A questão primordial refere-se à busca da realização e do desenvolvimento das potencialidades dos indivíduos, na busca incessante da melhoria da qualidade de vida, bem estar, felicidade e autorrealização desses indivíduos enquanto seres humanos que vivem de forma coletiva (CARON, 2007).
No entanto, fazem-se necessárias novas estratégias que contemplem diferentes formas de concepção das estruturas da sociedade e que possam contribuir cientificamente com o processo de desenvolvimento, estruturação e intervenção da realidade. A inovação social surge, nesse contexto, como uma possibilidade para auxiliar as comunidades a propagarem projetos de melhorias contínuas no seu habitat, a desenvolverem produtos com forte impacto social, como também, criar e difundir novas tecnologias sociais adaptadas às especificidades e realidade de cada comunidade.
Na próxima seção são apresentados alguns conceitos de inovação social, suas características e categorias.
2.1.1 Conceitos da Inovação Social
Os conceitos de inovação social estão diretamente relacionados com mudanças e impacto social, principalmente para as problemáticas que visam a satisfação das necessidades humanas e atingem as comunidades de forma global.
De acordo com o quadro 1 podem-se observar diversos conceitos abordados por diferentes autores.
Quadro 1: Conceitos de inovação social
Autor Conceitos de inovação social Ênfase do conceito
Taylor (1970)
Inovação social como sendo a busca de repostas às necessidades sociais por meio da introdução de uma invenção social, ou seja, uma “nova forma de fazer as coisas”, uma nova organização social
Conceito seminal abordando uma nova forma de organização social.
Cloutier
(2003) Inovação social como uma nova resposta a uma situação social desfavorável, que busca o bem-estar de indivíduos e/ou comunidades, por meio de uma ação e uma mudança sustentável.
Respostas inovadoras que provoquem mudanças sustentáveis. Rodrigues
(2006) Inovações sociais podem ocorrer intencionalmente ou emergir de um processo de mudança social sem planejamento prévio; e podem ocorrem em três níveis: atores sociais; organizações e instituições.
Processo de mudança social com diferentes atores envolvidos. Mulgan et
Al. (2007) Atividades e serviços inovadores que são motivados pelo objetivo de atender uma necessidade social e que são predominantemente desenvolvidas e difundidas por meio de organizações cujos objetivos principais são sociais.
Renova a afirmação de ações por parte de organizações sociais. Bignetti
(2011) Inovação social é o resultado do conhecimento aplicado a necessidades sociais através da participação e da cooperação de todos os atores envolvidos, gerando soluções novas e duradouras para grupos sociais, comunidades ou para a sociedade em geral.
Soluções novas e duradouras por uma gama de atores envolvidos. Centre for Social Innovation (2014)
Inovação social refere-se à criação, desenvolvimento, adoção e integração de novos conceitos e práticas que colocam as pessoas e o planeta em primeiro lugar. [...] resolvem desafios sociais, culturais, econômicos e ambientais existentes. [...] são sistemas de mudança - elas alteraram permanentemente as percepções, comportamentos e estruturas que anteriormente deram origem a estes desafios. [...] as inovações sociais vêm de indivíduos, grupos ou organizações, e
Conceito que destaca não somente o termo “social”, mas aborda também desafios culturais, econômicos e ambientais.
pode ter lugar nos setores com fins lucrativos, sem fins lucrativos e setor público.
Crises
(2014) A inovação social é um processo iniciado pelos atores sociais para responder a uma aspiração, atender a uma necessidade, uma solução ou aproveitar uma oportunidade de ação para mudar as relações sociais, para transformar um quadro ou propor novas orientações culturais para melhorar a qualidade e as condições de vida da comunidade.
Conceito mais
abrangente que destaca a inovação como um processo de mudança das relações sociais. Fonte: Adaptado de Agostini e Vieira (2015, p11).
No quadro 1, em ordem cronológica, buscou-se apresentar alguns conceitos de autores e organizações que tem desenvolvido pesquisas dando sustentação ao tema abordado.
A seguir apresentam-se as principais características, dimensões e/ou categorias de análise das inovações sociais nas perspectivas de diferentes autores.
2.1.2 Características e Dimensões (categorias) da Inovação Social segundo CRISES
Segundo o enfoque do CRISES através das dimensões analíticas desenvolvidas pelos pesquisadores são identificadas as principais características das inovações sociais. Estes pesquisadores analisaram 49 estudos realizados por membros do CRISES (Centre de Recherche sur les Innovations Sociales) localizado em Quebéc no Canadá considerado um dos maiores centros mundiais de pesquisa em inovação social, e criaram alguns conceitos que caracterizam uma inovação social destinada a garantir a transformação social: a) Transformações; b) Caráter inovador; c) Características da Inovação; d) Atores envolvidos; e) Processo de desenvolvimento da inovação.
Quadro2: As dimensões de análise de uma inovação social de acordo com o CRISES
Dimensões Aspectos TRANSFORMAÇÃO Micro-contexto Crise Ruptura Descontinuidade Modificações estruturais Econômica Emergência Adaptação Relações de trabalho/relações de produção e consumo Social Recomposição Reconstrução /exclusão/marginalização Prática Mudança Relações sociais CARÁTER
INOVADOR Modelo De trabalho
De desenvolvimento De Governança – modelo aplicado em Quebéc Economia Do saber / conhecimento Misto Social Ação Social Testes Experimentos Políticas Programas Arranjos institucionais Regulação social INOVAÇÃO Escala
Local Tipos Técnico
Socio-técnico Social Propósito Bem comum Interesse geral Interesse coletivo
Organizacional Institucional Cooperação ATORES Social Movimentos cooperativos/comunidades/ associativos Sociedade civil Sindicatos Organizações Empresas Organizações de economia social Organizações coletivas Destinatários Instituições Estado Identidade Valores/normas Intermediários Comitês
Redes sociais/de aliança/ de inovação
PROCESSOS Modo de Coordenação
Avaliação Participação Mobilização Aprendizagem Meios Parcerias Integração Negociação Empoderamento Difusão Restrições Complexidade Incerteza Resistência Tensão Compromisso Inflexibilidade institucional Fonte: Adaptado de Tardif e Harrison (2005, p23).
No quadro apresentado pode-se observar que para os autores, a inovação social é um processo que perpassa por diferentes atores que procuram mudar as interações, entre si e com o seu meio de organização, como também promover diferentes interações, com diferentes níveis de interesse, como: interesse particular, interesse coletivo e o interesse geral ou bem comum.
Ainda em referência as características das inovações sociais o autor Neumeier (2012), ressalta as possíveis mudanças que resultariam de uma inovação social, definindo-as como mudança de atitudes, comportamentos ou percepções de um determinado grupo de pessoas que permanecem unidas através de uma rede de interesses em comum, onde prevalece o horizonte da experiência do grupo e se traduz em novas e melhores formas de ação coletiva dentro e fora do grupo.
A seguir apresentam-se as definições e conceitos de inovação social mencionados pelo autor Neumeier (2012). O quadro 3 apresenta-se as características das inovações sociais, quem os executa, os resultados, e os seus autores/referências.
Quadro 3 - Características das inovações sociais na visão de Neumeier (2012)
Características Quem executa Resultados Referências
Mudanças sociais dentro das
organizações Organizações Melhora do bem estar, maior produtividade e rentabilidade
Dadoy (1998)
Novas ideias para atividades
interpessoais Indivíduos Alcançar objetivos comuns Mumford (2002); Marcy e Mumford (2007)
Empresas promovem soluções sociais Empresas Qualidade de vida
Serviços e atividades para as
necessidades sociais Organizações sociais Melhoria da qualidade de vida Mulgan et al. (2008), Mulgan, (2006) Desenvolvimento de inovações para a
satisfação humana Governos e outros atores Desenvolvimento territorial Moulaert et al. (2005) Novas ideias para a criação de
oportunidades Empresas, organizações e comunidades
Bem estar social e econômico das pessoas marginalizadas
George, Mcgaham e Prabhu (2012)
Processo iniciado por atores em resposta a uma aspiração humana e necessidades sociais Atores ou organizações (públicas, privadas e sociais) Mudanças nas relações sociais, para uma estrutura ou propor novas orientações culturais
CRISES (2012)
Processo de ação colaborativa entre os
indivíduos Coletividade (grupos ou redes) Mudanças de atitudes, comportamentos ou percepções de um grupo de pessoas
Neumeier (2012)
Fonte: Adaptado de Neumeier (2012, p.55)
Os conceitos apresentados no quadro 3 demonstram aspectos importantes envolvidos no processo de desenvolvimento das inovações sociais. Neumeier (2012) enfatiza a importância das redes de interesse que congregam as pessoas e suas experiências e que se traduzem em mudanças comportamentais de atitude e percepção da realidade otimizando novas ações colaborativas, denominadas de inovação social. Através desta “lente”, a inovação social acontece a partir da implementação de novas atitudes (ações individuais ou coletivas) construídas a partir de pessoas e organizações criando uma rede de interesse com objetivos em comum.
Para que exista uma gestão eficaz do processo de inovação social é necessário um conjunto de procedimentos na visão de Tidd, Bessant e Pavitt (2005) baseados em uma estrutura de modelo de geração de valor social por meio da inovação social. Esta estrutura é composta de sete passos que concretizam um processo de inovação social com o foco na criação de valor social (união de pessoas criando resultados coletivos). Estas etapas podem ser desenvolvidas em sequência ou de forma simultânea, a fim de facilitar a implantação do processo de inovação social e potencializar a capacidade da organização em inovar.
Na figura 1 é apresentado o modelo de geração de valor (resultado obtido a partir da união de sujeitos em projetos de cunho social) em por meio de inovação social que serve como parâmetro para avaliação de diferentes projetos sociais que tenham em comum o mesmo fim que é a co-criação de valor social.
Figura 1: Modelo de geração de valor social por meio de inovação social.
Fonte: João (2014, p119)
A elaboração desta estrutura levou em consideração sete passos que são de fundamental importância no processo de criação de valor desencadeado pelas inovações sociais. São estes: a) mapeamento; b) seleção; c) mobilização do conhecimento; d) implementação; e) avaliação; f) difusão; g) mudança sistêmica. A partir do momento em que o problema social é diagnosticado os sete passos devem ser implementados para buscar o desenvolvimento social e mudanças sistêmicas efetivas resultando na co-criação de valor para a sociedade.
Já na visão de Lévesque (2002) as inovações sociais apresentam-se como uma nova configuração no enfrentamento ao fracasso do sistema capitalista (no sentido de equidade social) de acordo com três níveis de análise: a) as inovações sociais centradas nos atores; b) as inovações sociais em nível organizacional; c) as inovações sociais em nível institucional. Estes três níveis são considerados interdependentes pelo grau de relação que possuem entre si e que não podem ser entendidas como um fator limitador, mas como uma orientação primeira do impacto da inovação social (RODRIGUES, 2012).
No quadro 4 apresentam-se os três níveis das inovações sociais segundo Lévesque e suas características correspondentes.
Quadro 4: Níveis de análise da inovação social segundo Levésque (2002)
Atores Organizacional Institucional
- Formas de cooperação e geração de aprendizado;
- Novos atores sociais; - Novos papéis sociais; - Grau de inclusão de usuários beneficiados
- Novas formas de divisão de coordenação do trabalho; - Novas configurações organizacionais
- Formas de utilização de recursos; - grau de participação dos atores
- Relação intersetorial - Geração de valor social; - Universalização dos direitos
Fonte: Adaptado de Levésque (2002) e Rodrigues (2004)
De acordo com o quadro 4 é possível deduzir que os níveis de análise da inovação social segundo Levésque (2002) não devem ser entendidos apenas como mecanismos isolados de entendimento da satisfação das necessidades sociais, mas também como um mecanismo que gera a transformação social (a transformação individual gera a transformação social) buscando mudanças na configuração da sociedade como meio de promover a sustentabilidade e a qualidade de vida.
Após a apresentação das características, dimensões analíticas e categorias da inovação social, o tópico a seguir abordará a emancipação social e autonomia.
2.2 EMANCIPAÇÃO SOCIAL E AUTONOMIA
A busca do ser humano pela emancipação social e autonomia está presente nas sociedades ao longo da história sob diferentes formas e ações e o seu estudo assume centralidade nos campos da Filosofia e Sociologia em áreas como Educação e Política, ao se questionar a possibilidade de emancipação do ser humano (BAQUERO,2012 p1).
Para Zitkoski (2008, p. 215), “somos seres do inédito viável, pois ainda não somos totalmente prontos, viemos nos fazendo na história e podemos sempre nos reinventar seguindo a busca por mais humanidade”. Os seres humanos estão em frequente processo de reconstrução da história, inseridos no tempo e no espaço, potencialmente em situação de humanização ou de desumanização (ZITKOSKI 2008, p. 215). Nada nesse mundo é permanente, a história é um devir, que depende de ações humanas para se consolidar, e ganhar sentido e significado. Para uma melhor compreensão do tema requer-se uma reflexão sobre o processo de emancipação humana percorrendo desde o conceito de autonomia de Kant até a globalização contra-hegemônica de Boaventura dos Santos na contemporaneidade ou pós-modernidade (NUNES; FEITOSA, 2008 p.5).
O termo tem origem derivado do latim emancipare, relacionando-se ao processo, individual e/ou coletivo, que considera a independência de pessoas ou grupos e representa o
processo histórico, educativo e formativo e ideológico de emancipar indivíduos, grupos sociais e países da tutela política, econômica, cultural ou ideológica (PIZZI, 2005 apud NUNES; FEITOSA, 2008, p.5).
De acordo com Silva (2013 p2) através da lente da sociologia a emancipação humana é vista como a “capacidade do homem em desvelar e exercer a expressividade, perceber as contradições dialéticas do contexto social, interagir criativamente nas contingências e se restituir como sujeito a todo o momento, mediante o exercício de pensar sua condição humana”. Através desta visão do olhar emancipado, pode-se construir novos caminhos, novas possibilidades e acesso a novas experiências, ampliando, desta forma, o repertório sociológico e filosófico para questionar as evidências do nosso convívio em sociedade (SILVA,2013 p.2). Mas não podemos esquecer que nessa acepção, emancipar-se só é possível, no contexto de sociedades democráticas, congregando a vida em sociedade, usufruindo de todos os direitos civis, políticos e sociais, de forma individual e/ou coletiva, e que alavanca questões de ordem moral e ética, mais ligadas aos eixos da cidadania formal (NUNES; FEITOSA, 2008, p.5).
Para Kant (apud Rodhen, 2004), o ser humano pode chegar à emancipação através da atitude crítica, eixo primordial para uma pessoa ser definitivamente livre e autônoma, com posições independentes e exame crítico apurado. O autor traz os conceitos de maioridade e autonomia, na forma do esclarecimento, definindo critérios emancipatórios, o que só poderia ocorrer em situação de liberdade, propiciada pela utilização da razão e da linguagem, conceitos estruturais herdados do contexto iluminista. Neste caso, a liberdade seria adquirida, à medida que fossem respeitadas as leis estabelecidas pela razão, através do livre arbítrio humano, onde liberdade e emancipação significariam agir em conformidade com a lei moral que outorgamos a nós mesmos (KANT apud RODHEN, 2004, p.5).
De acordo com Rodhen (2004) o princípio da autonomia visto na filosofia de Kant (1783) aparece no texto Resposta à pergunta: O que é o Esclarecimento? Texto elaborado em 5 de dezembro de 1783, quanto Kant foi perguntado: “Vivemos num período esclarecido? E a resposta de Kant foi: Não. Vivemos num período de esclarecimento. O referido texto foi escrito no período que intermediou duas de suas grandes obras “Crítica da Razão Pura” (1781) e “Crítica da Razão Prática” (1788) De acordo com a tradução o texto de Kant o esclarecimento, termo este que em alemão foi conhecido como “Aufklärung” significa “a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela de um outro” segundo
Kant (1783). E esta minoridade deve ser atribuída a si próprio, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento e compreensão, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de servir-se de teu próprio entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.
O Estado de minoridade é um estado inferior aonde o próprio homem vive sobre a tutela (proteção, ordem) de outras pessoas ou entidades, ou moral. Tutelado ou protegido por um conjunto de regras que obriga ele a criar uma ação sobre o seu próprio comportamento sem ter uma clareza sobre este comportamento. Fazer algo sem discernimento racional sobre o porquê da ação. Para Kant (1783) o estado de tutela deve ser superado pela autonomia, refere-se ao pensar por si mesmo e ter a capacidade intelectual para decidir sobre algo. (HORN, 2008, p. 21).
Ainda sobre o termo “Aufklãrung” Horn (2008) sustenta que esta palavra é de difícil tradução, podendo ter várias interpretações. Neste estudo, será tomado, dentre as várias traduções, o sentido de esclarecimento. Para Adorno e Horkheimer (2002), o termo vai muito além de designar um sentido histórico-filosófico do período conhecido como o Iluminismo, tem um significado ainda mais amplo, como aponta o tradutor do livro “Dialética do Esclarecimento” Adorno e Horkheimer (2002). Os tradutores definem que “Aufklãrung” encontra na língua portuguesa uma similaridade com a palavra “esclarecimento”, podendo este ser definido como o “processo pelo qual uma pessoa vence as trevas da ignorância e do preconceito em questões de ordem prática (religiosas, políticas, sexuais etc.)”. (ADORNO; HORKHEIMER, 2002, p7).
Kant (1738) dá inicio ao seu texto O que é o Esclarecimento? tratando do conceito de Aufklärung:
O esclarecimento é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é o culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Tal é o lema do esclarecimento. (KANT, Trad. Raimundo Vier, 1974, p. 100)
Segundo Kant (apud HORN, 2008) defende o uso da razão para o alcance da autonomia humana a fim de que o indivíduo alcance a sua emancipação ou maioridade. Para o Kant (1783) o conceito que existe em contraponto ao conceito de emancipação é o de minoridade, que é a incapacidade do indivíduo de se servir ao seu próprio entendimento de forma autônoma e independente. Segundo Kant (178) a minoridade se tornou quase que como
uma natureza, sendo muito mais conveniente ser menor, já que exige menor esforço. Desta forma, para que o indivíduo alcance a sua emancipação, além de superar a ignorância, deverá também superar a preguiça, sendo que esta é um dos maiores empecilhos para a conquista da autonomia. De acordo com o pensamento de Kant (1783), para que o indivíduo conquiste a autonomia, faz-se necessário um exercício de esforço contínuo, lutando contra a própria natureza humana e neste sentido o esclarecimento não é um processo estanque que o indivíduo atinge, mas sim um processo pelo qual deve estar em constante aprimoramento (ADORNO; HORKHEIMER, 2002, p.7). Sempre se encontrará homens que pensam por si mesmos, e isto inclui os tutores oficiais da grande maioria, que, após terem eles mesmos rejeitado o jogo da minoridade, difundirão o espírito de uma apreciação razoável de seu próprio valor e a vocação de cada homem de pensar por si mesmo (KANT, Trad. Raimundo Vier, 1974, p. 100).
Logo quando Kant (1783) se pergunta: vivemos atualmente numa época esclarecida? A resposta é: não, mas numa época de esclarecimento. Muito falta ainda para que os indivíduos, estejam já num ponto em que consigam estar em condições de se servir a si próprios, em matéria de religião, com confiança e êxito, autores de seu próprio entendimento sem a tutela de outras pessoas ou entidades. Mas o importante é que o campo lhes esteja aberto para mover-se livremente, e que os obstáculos à generalização do Esclarecimento e à saída da própria minoridade que lhes é autoimputável sejam cada vez menos numerosos (HORN, 2008).
Segue uma reflexão, onde um governante que considere como um dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, por exemplo, deixando ao critério do livre arbítrio, lhes dando uma liberdade total de escolha. Seria este governante um ser humano esclarecido ou seria ele o primeiro a libertar o gênero humano de sua minoridade, pelo menos no que concernia ao governo, e por ter deixado a cada um a liberdade de escolha e a capacidade de se servir de sua própria razão em todas as questões de consciência, mereceria ser louvado e agradecido pelo mundo e pelo futuro que lhe é contemporâneo. (KANT, Trad. Raimundo Vier, 1974, p. 102).Segundo Kant (1783) em relação a este espírito de liberdade entende-se que o povo deve lutar contra os obstáculos externos de um governo que ignora sua verdadeira missão, pois deixa claro através seu exemplo, que ali onde reina a liberdade nada há a temer para a tranquilidade pública e unidade do Estado. Mas a reflexão de um governante que advoga a favor do Esclarecimento vai muito mais longe e considera, mesmo que a respeito da legislação, que não há perigo em autorizar seus súditos a fazer o uso público de sua própria razão, e em expor ao mundo as ideias sobre uma melhor configuração das leis,
mesmo que seja para a melhoria das já existentes, é disso que temos um exemplo brilhante, que nenhum outro monarca a não ser aquele que veneramos forneceu ainda. Ao passo que a natureza se libertou de seu duro envoltório através da inclinação e a vocação do pensar livremente, então essa inclinação age por sua vez sobre a sensibilidade da sociedade e sobre os princípios do governo, que encontra o seu próprio interesse em contemplar o indivíduo, que doravante é muito mais do que uma máquina, na medida em que adquire a sua liberdade.* Königsberg Königsberg, Prússia, 30 de setembro de 1784 (KANT, Trad. Raimundo Vier, 1974, p. 102).
Acredita-se que a liberdade humana deve estar diretamente conectada a conquista da emancipação social e autonomia. Dentro deste contexto, emancipação relaciona-se mais diretamente ao conceito de valor do que se define por liberdade, palavra derivada do latim libertas e que consigna correlações políticas, éticas e filosóficas, aproximando-se da expressão que designa a tomada de consciência ou o pleno exercício da cidadania, sendo que sua configuração relacionasse ao Estado de Direito e aos fundamentos jurídicos, ainda tomados na esfera da institucionalização derivada da sociedade e concepção burguesa de mundo e sociedade (NUNES; FEITOSA, 2008 p.6). Faz-se importante também analisar a origem do conceito de autonomia, relacionando o termo às transformações ocorridas em nossa sociedade, a partir do Iluminismo (COSTA, 2010, p10).
A partir do iluminismo no século XVIII os ideais de igualdade e liberdade foram incorporados na classe burguesa:
[...] No plano político, o Iluminismo defendia as liberdades individuais e os direitos do cidadão contra o autoritarismo e o abuso do poder. Os iluministas consideravam que o homem poderia se emancipar através da razão e do saber, ao qual todos deveriam ter livre acesso. (JAPIASSÚ; MARCONDES apud HORN. 2008. p. 76). Dentre os objetivos do Iluminismo o uso da razão libertaria o homem da autoridade da Igreja, do peso encontrado no Absolutismo como também de outras formas de autoridades ditadas pelos mandatários. No entanto, a partir do capitalismo e a da sua razão instrumental, o ideal de liberdade e autonomia humana fracassa, pois passa a ser um sistema onde os indivíduos são privados das condições de vida necessários para a conquista da autonomia pessoal (COSTA, 2010, p.12). Na própria sociedade se encontra a contradição para que a promessa liberal se efetivo, pois para que este sonho de emancipação se concretize, se faz necessário uma sociedade autônoma, sem a divisão de classes e sem exploração, no entanto, nas sociedades capitalistas as relações sociais que se estabelecem e principalmente as relações
econômicas, caminham para uma “liberdade administrada” para a produção de mercadorias (COSTA, 2010, p12).
As mudanças que configuraram a base da economia duraram vários séculos e destituíram o sistema feudal e fomentaram condições para o surgimento do capitalismo. “Somente se emprega o termo capitalismo quando se trata de uma sociedade moderna, onde a produção maciça de mercadorias repousa sobre a exploração do trabalho assalariado, daquele que nada possui, realizada pelos possuidores dos meios de produção” (ANDERY. 1999. p.165). O desenvolvimento e a consolidação do modelo de produção capitalista de produção se efetivou ao longo do século XIX e isto ocorreu num contexto de profundas mudanças filosóficas, políticas e sociais marcadas pelas teorias liberais do pensamento iluminista (COSTA, 2010, p13).
Para a autora Hanna Arendt (2005) uma ação pode ser considerada de cunho social quando promove a emancipação dos indivíduos ou dos grupos aos quais estes pertencem. Isso acontece na medida em que os interesses privados ou individuais não são trazidos ao espaço público, que deve atender aos interesses da maioria. A importância e característica do espaço público estão no fato de este ser comum a todos que têm status de cidadania (ARENDT, 2005, p53). As necessidades e interesses privados devem ser difundidos, na família ou na individualidade dos indivíduos, ou seja, em um espaço mais restrito. Desta forma, a ação social acontece sem perder a sua característica de buscar os interesses da coletividade e dando possibilidade de igualdade e liberdade para todos, desenvolvendo um processo de crescimento e amadurecimento da equidade social. (MAGALHÃES, 2011, p.67)
2.2.1 Empoderamento
Outro tema central na discussão sobre emancipação social é aquele que diz respeito ao “empoderamento” dos seres humano de forma, individual e/ou coletiva e que é encontrado na literatura com uma diversidade de interpretações (BAQUERO, 2012 p.1). O termo tem sido utilizado em diferentes áreas de conhecimento como na educação, sociologia, ciência política, saúde pública, psicologia,, serviço social, administração entre outros, O empoderamento passa a estar presente nos discursos de governos e organizações da sociedade civil relacionados à melhoria da qualidade de vida, dignidade humana e equidade social (NARAYAN, 2002, p. 54).
A crescente utilização do termo empoderamento se dá a partir dos movimentos emancipatórios relacionados à promoção de cidadania a partir de movimento dos negros, das
mulheres, dos homossexuais, movimentos pelos direitos da pessoa deficiente nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX, mas segundo a literatura o empoderamento (Empowerment) tem suas raízes na Reforma Protestante, iniciada por Lutero no séc. XVI, fato que ocorreu na Europa, num movimento de protagonismo na luta por justiça social (HERRIGER, 1997). Segundo Hermany e Costa (2009), o tema do empoderamento passa a ser utilizado como sinônimo de emancipação social. Na atualidade, o termo está relacionado as lutas pelos direitos civis, no movimento feminista e representado na ideologia da ação social, que se faz presente nas sociedades dos países ditos desenvolvidos, na segunda metade do século XX. A partir da década de 70, esse conceito é influenciado pelos movimentos de autoajuda, e consequentemente nos 80, pela psicologia comunitária. Em meados da década de 90, recebe o impulso de movimentos ligados ao direito da cidadania sobre diferentes esferas da vida social como na área da saúde, educação, a política, a justiça e a ação comunitária (BAQUERO, 2012 p.3).
Segundo Gohn (2004) no Brasil o significado da categoria empoderamento traduzido do britânico empowerment, não tem um caráter universal. No entanto, os autores concordam que o empoderamento pode ocorrer em diferentes níveis: o empoderamento individual, o empoderamento organizacional e o empoderamento comunitário. De acordo com Wallerstein e Bernstein (apud BAQUERO, 2006), o empoderamento ocorre como um processo de “construção em nível individual, quando se refere às variáveis intrafísicas e comportamentais; em nível organizacional, quando se refere à mobilização participativa de recursos e oportunidades em determinada organização; e em nível comunitário, quando a estrutura das mudanças sociais e a estrutura sociopolítica estão em foco”. O empoderamento individual se refere a aquisição de habilidades por parte dos sujeitos que adquirem conhecimentos e controle sobre as próprias forças, para agir na melhoria da qualidade de vida e consequentemente o aumento da capacidade se sentirem influentes nos processos que determinam suas vidas (WALLERSTEIN; BERNSTEIN apud BAQUERO, 2006). O empoderamento individual segundo Zitkoski, (2008) é fortemente influenciado por fatores psicológicos como a autoestima, é relacional, resultando da percepção que os indivíduos têm de suas experiências através de interações com ambientes e pessoas.
Gohn (2002) sugere que o significado e o resultado da dimensão do empoderamento não têm um caráter universal, mas tem a finalidade de promover e impulsionar grupos e comunidades através do crescimento, inclusão, autonomia, emancipação, melhora gradual, progressiva ou contínua de suas vidas, em contraponto a programas de natureza individual e assistencialista que são perpetuados pelos governos sem efeito emancipatório.
De acordo com Barquero (2012) o empoderamento é muito mais do que uma ação individual, configurando-se como um processo de ação coletiva que se dá na interação entre sujeitos, e que envolve, necessariamente, um desequilíbrio nas relações de poder na sociedade. O empoderamento pressupõe a vivencia de um processo que integra o desenvolvimento de uma consciência crítica juntamente com a ação, ou o desenvolvimento da capacidade real de intervenção e transformação da realidade. O empoderamento não se reduz a um processo de emancipação individual, ma sim ao desenvolvimento de uma consciência social (BAQUERO, 2012 p.9).
Segundo o autor Boaventura dos Santos (2007) a sociedade civil vem protagonizando processos de transformações sociais através da implementação e desenvolvimento da autonomia dos sujeitos. O desdobramento destes processos tem ocorrido através da busca pela conquista da emancipação, autonomia e empoderamento dos indivíduos e consequentemente em nível de transformação social. Segundo o autor, para fazer uma explanação sobre emancipação no contexto atual é preciso compreender em que aspectos sociais, políticos e econômicos este processo se iniciou. Ainda segundo Santos (2002), o autor apresenta críticas ao projeto da globalização, no que tange a políticas neoliberais excludentes, defende ainda uma globalização contra-hegemônica ou seja, uma globalização pautada no respeito às culturas locais, que contemplam as novas configurações societárias instituídas.
A emancipação enquanto fenômeno histórico teve sua ascensão conforme interpreta Santos (2007) durante a passagem da modernidade para a pós-modernidade. A passagem deste período é caracterizada pela emergência do capitalismo enquanto modo de produção dominante das sociedades modernas. No pensamento de Boaventura dos Santos (2002) a globalização hegemônica, e as formas de resistência a esses processos de dominação, estão emergindo no mundo, notadamente em áreas pós-coloniais. De acordo com o autor a globalização hegemônica é entendida como o “conjunto de relações desiguais”, já na contramão deste modelo existe o processo de globalização contra-hegemônica - globalização de baixo-para-cima (GERMANO, 2007, p5). Nessa perspectiva, o marco referencial básico, mas não exclusivo, sobretudo, as suas reflexões sobre a globalização contra-hegemônica, advêm da solidariedade com as lutas sociais dos oprimidos e a reivindicação da emancipação social. Se por um lado, há o predomínio de uma globalização hegemônica, que estabelece uma relação do topo para a base (top-down) e regressiva do ponto de vista dos direitos sociais, por outro lado, aparece a necessidade de um processo de outra forma de globalização, denominada de contra-hegemônica, alternativa, organizada inversamente da base para o topo (down-top). Tal globalização é constituída por redes e alianças de movimentos sociais que