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Ética profissional da/o assistente social e a luta pela igualdade nas relações de gênero

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Academic year: 2021

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CAROLINE LUIZE RIBEIRO DA COSTA OLIVEIRA

ÉTICA PROFISSIONAL DA/O ASSISTENTE SOCIAL E A LUTA PELA IGUALDADE NAS RELAÇÕES DE GÊNERO

Rio das Ostras 2017

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ÉTICA PROFISSIONAL DA/O ASSISTENTE SOCIAL E A LUTA PELA IGUALDADE NAS RELAÇÕES DE GÊNERO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social, como requisito parcial para conclusão do Curso.

Orientadora:

Prof. Dr. Cristina Maria Brites

Rio das Ostras 2017

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IGUALDADE NAS RELAÇÕES DE GÊNERO

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Serviço Social, como requisito parcial para conclusão do Curso.

Aprovada em ________________________

BANCA EXAMINADORA

_____________________________________________ Prof. Cristina Maria Brites (Orientadora) - UFF

_____________________________________________ Prof. Paula Martins Sirelli - UFF

_____________________________________________ A.S. Gabrielle Gomes Ferreira – Centro de Cidadania LGBT – Niterói

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Chegou o momento fofurinha da gratidão. Eu não poderia deixar de agradecer à pessoas tão importantes que me ajudaram muito durante toda essa caminhada universitária até aqui.

Quero agradecer à todo corpo docente do Curso de Serviço Social da UFF de Rio das Ostras, por todas as experiências proporcionadas dentro e fora dos muros da universidade. Agradeço especialmente à minha orientadora Cristina Brites, por toda paciência e dedicação nesses meses de construção. Foram meses difíceis e corridos, mas que proporcionaram um crescimento pessoal que eu jamais tive. Obrigada por se comprometer com esse desafio.

Agradeço a Gabrielle Ferreira por todo apoio no pontapé inicial como minha primeira orientadora. Por ofertar uma disciplina optativa que foi decisiva na escolha do tema, por ajudar essa libriana indecisa aqui a fazer os recortes necessários e por aceitar fazer parte da banca examinadora.

Agradeço a professora Paula Sirelli por todo apoio que vem dando durante a pesquisa e por fazer parte importante no meu processo de formação desde os primeiros períodos. Suas palavras nas aulas de Pensamento Social I me ajudaram a desconstruir padrões que se colocavam pra mim como barreiras.

À toda equipe de Serviços Gerais que cumpre funções importantíssimas dentro do campus, mas são completamente invisibilizadas/os e ainda passam por toda precariedade devido a terceirização do trabalho. Vocês também fazem parte da minha formação! Obrigada !

À minha mamuínha, também conhecida como minha mãe, por ser a pessoa mais forte que eu conheço e me ensinar a ressignificar a palavra “família”. A caminhada que chamamos de vida nunca foi fácil para você, mas você fez dela um jardim de vitórias e me ensinou a valorizar cada planta que cresceu ali. Obrigada por nunca abrir mão de mim. Se hoje eu consegui chegar até aqui, eu devo isso a você. Eu te amo e me desculpa por todos os panos de prato que eu deixei pegar fogo sem querer no fogão.

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morde, ou se as visitas tem medo de você, e nem se você come documentos importantes. Eu sempre vou te proteger e te amar mesmo depois de te dar banho e sair toda machucada.

À minha tia Frida por me apoiar e investir no meu crescimento e na minha formação e por todos os brinquedos que eu ganhava por negociar o primeiro pedaço de bolo nos meus aniversários. Eu te amo.

Ao tio Hugo por não me deixar voltar da Faculdade a pé sozinha para casa porque a Van do bairro parava de rodar cedo. Obrigada por se preocupar e garantir minha segurança.

À minha tia Dada e ao meu tio Gim por pagar a taxa de inscrição da UFF e acreditar na minha capacidade. Vocês jamais poderiam ficar de fora.

À professora Natália Coelho por toda ajuda na divulgação da pesquisa inicial e por ser a canceriana que eu mais respeito nesse mundo do zodíaco.

Às minhas amigas universitárias maravilhosas Layla, Jaqueline, Lívia, Jéssica e Nathalia por aguentarem minha ansiedade de final de curso. Vocês também contribuíram nesses passos.

Ao meu amigo Jonathan, a minha amiga Adelya e meu afilhado felino Frajola Tcc. Por deixarem algumas tardes de produção de trabalho mais leves. Vocês são demais!

À minha amiga Tamires por me aguentar desde o ensino médio e por me ajudar com o abstract. Eu te amo, mesmo você sendo virginiana e brigando comigo por eu deixar tudo pra última hora. Você merece mil cervejas amiga.

Ao Spotify por me ajudar com o meu déficit de atenção e concentração. Vocês tem um acervo de músicas clássicas e instrumentais maravilhosas. Consegue acalmar até minha gata estressada e mal humorada.

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À Assistente Social e amiga Isabela por me ajudar durante o processo de estágio mesmo quando não era mais minha supervisora de campo.

Ao meu falecido avô Walfrides que em meu nascimento me presenteou com duas calcinhas vermelhas justificando que: “filha de comunista, comunistinha vai ser”. Ainda que essa frase soasse como brincadeira, vejo hoje o quão verdadeiras eram suas palavras.

A Zambi e toda a espiritualidade. À minha mãe Iemanjá e a meu pai Oxalufã, a Xangô, a Nego Joaquim, Tiriri, Bainha de Aço, vó Margarida e Ogum Xeroquê, por sempre iluminar meus caminhos e por toda proteção.

E por último, mas não menos importante, à todas/os Assistentes Sociais que lutaram e ainda lutam contra todas as formas de preconceito e pela construção de uma ordem societária que nos liberte de todas as mazelas resultantes do atual sistema.

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Um dia, um homem me disse que eu não era uma mulher pra casar.

Pensei, pensei, pensei e concordei, realmente, eu não sirvo pra isso ou pra aquilo, afinal eu não tô aqui pra servir!

Casamento pra você é serviço, contrato firmado? Depois de contratada, a mulher tem que ficar calada; o trabalho é todo dia, horário do almoço é à beira da pia.

Lavar, passar, cozinhar, limpar e a noite, reprodução. Saber chupar, transar, fazer gozar, engravidar e, logo, ter filhos para cuidar.

É em tempo integral, sem benefícios, sem direito a vale emoção ou vale sorte e as exigências não param por aí.

É preciso trabalhar perfumada, bem arrumada e estar sempre bem humorada, a imagem da empresa não pode ser manchada.

Sendo assim, prefiro ser minha, ter a carteira do cartório vazia, levar o sobrenome de vadia a me casar como alguém como você; sexista, machista, conservador.

Conserva a dor. Absorve minha vida, observa a ferida, me quer serva e de quebra bem servida.

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O presente trabalho objetiva trazer elementos sobre o papel das/os Assistentes Sociais no que se refere às relações de gênero instituídas socialmente, refletindo sobre os aspectos que circundam padrões heteronormativos em meio às relações sociais, levando em conta sua funcionalidade para a manutenção do sistema capitalista. Estamos inseridos em uma sociabilidade mercantil, neoliberal e neoconservadora, que não vê interesse no desenvolvimento das potencialidades humanas se não voltadas para a produção de valor de troca. A diversidade e a emancipação humana não interessam para a ordem do capital. Em tempos sombrios de ofensivas conservadoras, buscamos aqui analisar como o Serviço Social, que defende o processo de construção de uma nova ordem societária, é desafiado cotidianamente pelo avanço da barbárie, do conservadorismo e da alienação moral. Procuramos analisar os limites e desafios postos ao trabalho profissional em defesa da igualdade entre os gêneros e do direito à livre manifestação da sexualidade. Esta pesquisa visa chamar atenção para as expressões do conservadorismo que existem no interior da categoria profissional e que coloca desafios teóricos, éticos e políticos em defesa do projeto hegemônico do Serviço Social brasileiro.

Palavras-Chave: Conservadorismo - Heteronormatividade – Relações de Gênero – Serviço Social.

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The present work objective to bring elements about the function of the caseworkers refering to the gender relationships instituted socially, reflecting about the aspects that circle the patterns of heteronormative between the social relationships, considering its funcionality for the maintenance of the capitalism system.We are insert in a mercantile sociability neoliberal and neoconservative that can't see interests in developing the human potentiality If they are not turned to the production of values and exchange. The diversity and the human emancipation don't bring interests to the capital order. In times of shaded conserver offenses, in this work, we look for analyse how the social service, that defends the construction process of a new corporate order that have been challenged everyday by the barbarism advance, the conservatism and the moral alienation. We look for analyse the limits and challenges imposed to the professional work in defense of the equality between genders and the rights to the free manifestation of sexuality. This academic research aim to bring attention to the conserver expressions existing inside the professional category and that include: Ethical, theoretical and political challenges in defense of the hegemonic project of the brazilian social service.

Key words: Conservatism, Heteronormative, Gender relationships, Social service.

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Apresentação...11 Introdução...13 Capítulo I - Conservadorismo e Serviço Social

1. Origens do Pensamento Conservador...17 1.1 Conservadorismo, Serviço Social e projetos profissionais...20 1.2 Neoconservadorismo e Serviço Social...38 Capítulo II - Serviço Social, conservadorismo moral e heteronormatividade 2. Propriedade privada, monogamia e patriarcado...49 2.1 Conservadorismo moral e relações de gênero...59 2.2 Ruptura com o conservadorismo moral, relações de gênero e heteronormatividade...66 Capítulo III - Ética profissional da/o Assistente Social e a luta pela igualdade de gênero

3. Compromissos éticos da/o Assistente Social...80 3.1 Manifestações do neoconservadorismo, moralismo e intolerância no âmbito da categoria profissional...88 Considerações Finais...124 Bibliografia...130

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APRESENTAÇÃO

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é (Dom de iludir, Caetano Veloso)

Neste Trabalho de Conclusão de Curso, Carol (Caroline) nos faz um convite à reflexão ética. Por ser um convite interessado e comprometido, procura nos levar por suas mãos pelo caminho da reflexão que ela própria pavimentou com muita ansiedade, incertezas e resistência em colocar um ponto final. Acabou, nos dizíamos dias atrás, sabendo, nós duas, que na verdade só estávamos iniciando nossa incursão num debate que era uma novidade para nós, e que exigia mais do que poderíamos oferecer nos limites deste trabalho. De minha parte, encerro este processo agradecida pelo aprendizado e pela convivência delicada e impertinente da Carol.

Impertinência que só agora soube, pelos agradecimentos, que se revela desde criança. Não imaginava que tínhamos, além do cabelo azul (e colorido), algo mais em comum: fomos meninas de rua, meninas-moleque, daquele modo livre que toda infância e toda vida adulta na verdade deveria ser. Lembrei-me muito de uma antiga canção, Teco Teco, de Yolanda Marques e Milton Luiz Mascarenhas, cantada por Gal e também Nara, que dizia algo assim “Teco, teco, teco, teco na bola de gude era o meu viver, quando criança

no meio da garotada, com a sacola de lado, só jogava pra valer, não fazia roupa de boneca nem tão pouco convivia com as garotas do meu bairro que era natural, subia em poste, soltava papagaio até meus quatorze anos era esse meu mal”.

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Carol nos convida à refletir que este comportamento não era nem mal e nem inatural, mas um modo de se expressar que nem sempre atende aos padrões dominantes da sociedade machista, patriarcal e sexista, e exatamente por isso exige de nós reflexão e posicionamento ético e político.

Às/aos leitoras/es deste TCC cabe a avaliação sobre a qualidade do debate teórico e das análises realizadas por Carol; a mim, como orientadora, cabe registrar que este resultado revela a dedicação e o compromisso de Carol com sua formação; às/aos profissionais e às/aos estudantes de Serviço Social cabe aceitar ou recusar o convite à reflexão ética sobre os mecanismos de opressão e dominação da sociabilidade burguesa, que impedem a igualdade nas relações de gênero e violam direitos pela imposição da heteronormatividade. Recusar ou aceitar ao convite é uma escolha, mas o resultado desta escolha pode legitimar ou se contrapor a estes mecanismos de opressão, esta é a grande lição que Carol nos deixa neste trabalho.

Cristina Brites Professora Orientadora Inverno de 2017

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INTRODUÇÃO

O presente Trabalho de Conclusão de Curso – TCC, é uma exigência do curso de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense para obtenção do título de bacharel em Serviço Social, e discute a vinculação da profissão com a luta pelo fim das desigualdades entre os gêneros, entendendo que tal possibilidade está diretamente ligada à superação da atual hegemonia do capital e a construção de uma nova ordem societária, capaz de afirmar a liberdade como valor central, respeitando a diversidade humana sem divisão por classes, etnias e gêneros e, portanto, livre da opressão e da exploração.

A escolha da temática envolvendo as relações de gênero justifica-se pela constante inquietação que, desde criança, me fazia questionar os motivos pelos quais eu tinha que brincar com bonecas em casa enquanto queria jogar futebol com meu primo na rua. Eu queria praticar luta, mas o que cabia a uma menina eram escolhas entre ballet ou cantar no coral da escola. Durante toda a minha vida, me deparei com padrões sociais que ditavam como eu deveria andar, falar, me vestir, com quem eu deveria me relacionar e justificativas do porquê eu precisava me preservar. Nada do que era colocado me fazia sentido, ainda que o tempo todo eu fosse induzida a acreditar que tudo estava nos conformes. Me questionava o quão injusto era a divisão de tarefas e atividades destinadas aos meninos e às meninas. Eu não queria ser um menino. Não era uma questão de conflitos com o meu corpo. O conflito estava no comportamento da sociedade. Eu queria poder fazer escolhas sem ter que me limitar ao que era de menino ou de menina. Queria os privilégios que os meninos tinham, mesmo sem saber o que significava. Esses incômodos me acompanham até hoje. Mas antes eu só sentia sem entender.

A inserção no curso de Serviço Social pode me proporcionar respostas e novas inquietações. Eu finalmente descobri os motivos que limitavam minhas

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escolhas tendo a convicção de que o problema não estava nas minhas projeções, mas sim na forma como essa sociedade se estrutura.

Essas descobertas se tornaram possível, pois:

O Serviço Social brasileiro, nos últimos 30 anos, conjunto das ciências humanas e sociais, reconhecendo sua natureza interventiva no âmbito das relações sociais, passou por um processo de renovação crítica, posicionando-se, entre seus princípios fundamentais, pelo “reconhecimento da liberdade como valor ético central e das demandas políticas a ela inerentes – autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos sociais” (MERISSE; LEMOS, 2011).

Quanto mais conhecimento eu adquiria, mais certeza eu tinha que queria me engajar na luta contra as desigualdades de gênero. Do mesmo modo, eu compreendia as expressões da barbárie e a função da disseminação de valores conservadores que há tempos vem confinando as potencialidades humanas.

A ordem societária na qual vivemos, constrói determinados padrões sociais a fim de legitimar a dominação burguesa. São comportamentos naturalizados culturalmente, que visam proteger as bases da dominação e da exploração do capital – a propriedade privada –. Ao naturalizar tais padrões, o capital garante sua manutenção e controle sobre a classe explorada, combatendo de forma ideológica qualquer ameaça que se coloque à propriedade privada.

As classes dominantes contam com a ideologia conservadora e suas múltiplas faces na realização dessa manutenção, por meio de várias instituições, valores e moralidades que propiciam a normatização de comportamentos, escolhas e práticas que asseguram a legitimidade da sociabilidade do capital. Somos estimulados/as a assumir papeis sociais que tendem a ocultar nossas singularidades. Contudo, nem o Estado, nem a Igreja, nem a escola ou a família nuclear são capazes de extinguir as nuances que escorrem de nossas personalidades e gritam por resistência, por liberdade. Nós não cabemos nesses padrões.

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Já nascemos envoltos a normativas sobre o que é família, como é a mulher e como é o homem, com quem os gêneros devem se casar de acordo com o fator biológico e a quem devem obedecer.

Muitos consideram que a sexualidade é algo que todos nós, mulheres e homens, possuímos “naturalmente”. Aceitando essa ideia, fica sem sentido argumentara respeito de sua dimensão social e política ou a respeito de seu caráter construído. A sexualidade seria algo “dado” pela natureza, inerente ao ser humano. Tal concepção usualmente se ancora no corpo e na suposição de que todos vivemos nossos corpos, universalmente, da mesma forma (LOURO,2016, p.11).

Essa naturalização também está presente na relação cotidiana entre os sujeitos e na divisão sexual do trabalho. Vivemos em uma sociedade patriarcal, machista, racista, homofóbica, lesbofóbica, transfóbica que trata com violência todos/as aqueles/as que não se adéquam aos padrões socialmente impostos.

Os crimes de ódio praticados contra a população LGBT representam a face mais perversa e desumana da heterossexualidade compulsória como sistema ideológico de dominação patriarcal, instituído, social e historicamente, como dogma e prática natural, logo, como “verdade” inquestionável e que se reproduz (sutil ou explicitamente) em todas as dimensões da vida social, afirmando-se como inata (MESQUITA, 2011).

A dominação masculina inerente ao patriarcado desenvolve várias desigualdades, o que inclui a imposição da heterossexualidade, bem como a submissão da mulher, que historicamente se põe como uma das primeiras formas de escravidão.

As crianças desde cedo são levadas a incorporar os símbolos de gênero, vinculadas a compreensão de família, casamento e destino das mulheres. A violência revela e reproduz os padrões de dominação masculina. É uma forma de compreender quem manda e quem deve se submeter e, desta forma, demonstrar o tempo todo a pretensa inferioridade da mulher (BRAGA, 2013).

A luta dos movimentos feministas e dos movimentos LGBT’s vem há décadas travando difíceis lutas contra essa dominação. Muito se conquistou, mas ainda há muito que se conquistar. Estamos longe de uma sociedade ideal

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que possa extinguir de uma vez por todas esses padrões heteronormativos e as desigualdades de gênero. Cabe aqui ressaltar que a análise dessas lutas não pode ser feita desarticulada da luta de classes. Somente com o fim da sociedade capitalista estruturalmente patriarcal e violenta é que poderemos então conquistar a igualdade em todas as dimensões do gênero humano.

Com o intuito de contribuir com este debate, apresentamos no primeiro capítulo algumas análises sobre as origens do pensamento conservador e sua influência sobre o Serviço Social.

No segundo capítulo, discutimos as relações entre propriedade privada, monogamia e patriarcado, problematizando o conservadorismo moral e as relações de gênero.

Em nosso terceiro e último capítulo discutimos os compromissos éticos da/o Assistente Social e apresentamos os resultados de nossa pesquisa qualitativa sobre manifestações do conservadorismo no âmbito da categoria profissional.

Por fim, elaboramos algumas indicações finais com base em nossa pesquisa teórica e nos resultados da pesquisa qualitativa, visando o fortalecimento das lutas pela igualdade de gênero e do direito à livre manifestação da sexualidade.

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Capítulo I

Conservadorismo e Serviço Social

1. Origens do pensamento conservador

Neste capítulo apresentamos alguns elementos de análise acerca da influência do pensamento conservador sobre o Serviço Social brasileiro ao longo de sua processualidade histórica. Influência que se configura como a mais significativa entre aquelas que estão nas origens da profissão, cuja presença pode ser observada em toda a trajetória profissional até a contemporaneidade, desafiando, assim, o pensamento crítico que conforma o novo perfil profissional que emerge do movimento de renovação do Serviço Social brasileiro a partir dos anos de 1960. Para compreender esse processo, nos deteremos na emergência histórica do pensamento conservador. Movimento ideológico que como veremos, propõe uma visão de homem e de sociedade alternativa às formulações liberais e comunistas em face da consolidação da sociabilidade burguesa.

A influência do conservadorismo sobre o Serviço Social brasileiro será considerada em nossos estudos como um dos limites para a adoção de perspectivas mais democráticas e progressistas nas abordagens das relações de gênero e da sexualidade. Influência que, a nosso ver, continua fornecendo na atualidade as bases de um conservadorismo moral que se expressa nas respostas profissionais que envolvem o debate de gênero e da sexualidade. Assim, trataremos das bases históricas do pensamento conservador, que é anterior ao Serviço Social, e posteriormente das origens conservadoras da profissão até o contexto do movimento de ruptura com o conservadorismo.

Segundo Iamamoto, (1992, p.22), “a fonte de inspiração do

pensamento conservador vem de um modo de vida do passado, que é resgatado e proposto como uma maneira de interpretar o presente e como conteúdo de um programa viável para a sociedade capitalista”.

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A partir das chamadas Revoluções Burguesas ocorridas na Europa durante os séculos XVII e XVIII, houve a substituição do poder do sistema monárquico/absolutista para uma nova classe que se formava e posteriormente se tornaria dominante, a burguesia. Surge uma nova estrutura baseada na propriedade privada e no livre comércio. Em decorrência dessa mudança estrutural era preciso um aparato ideológico que legitimasse os interesses da nova classe dominante junto aos indivíduos sociais. O liberalismo assume a defesa da liberdade civil e econômica e do pregresso a partir da livre concorrência, estimulando o individualismo e se afastando definitivamente do absolutismo, considerado como limitado e controlador. Ou seja, o pensamento liberal, no contexto de sua emergência, defendia uma intervenção mínima do Estado sobre a economia e a política em prol do crescimento dos lucros. Estimula o individualismo – mascarado de liberdade – e, por sua vez, a concorrência no mundo do trabalho, tomando-os como referência para compreensão das relações sociais.

Ao Estado cabia proteger o direito à vida, à liberdade individual e os direitos de segurança e propriedade. Esse Estado liberal tinha características de Estado policial e repressor e sua função primordial era não intervir na liberdade individual, de modo a assegurar que os indivíduos usufruíssem livremente seu direito à propriedade e à liberdade. (PEREIRA, 2000 apud BEHRING; BOSCHETTI, 2009, p. 63)

Podemos afirmar então, que tratava-se da defesa da liberdade burguesa, formal e limitada, cuja contradição só se explicita para a classe trabalhadora – que também atuou nas revoluções burguesas –, quando o peso da exploração leva a que muitos cheguem até a morrer de fome.

Em resposta ao processo de ascensão da burguesia, e consequentemente à queda do regime monárquico, se consolida o pensamento conservador contrapondo-se tanto ao liberalismo quanto ao comunismo, mas não se contrapondo ao capitalismo. Como o nome já sugere, o conservadorismo tende a manter o que já está consolidado. Como ideologia, o pensamento conservador, ou o conservadorismo, defende uma mudança “natural” e gradual – que não poderia partir da intervenção do homem –

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justificando uma visão de que a natureza humana seria imutável e por isso a liberdade e individualidade pregada pelo liberalismo não teriam legitimidade. O pensamento conservador aglutina bases morais cristãs, – herança do domínio exercido pela Igreja Católica durante o período monárquico – dando relevância a uma vontade divina que rege a vida humana e por conseguinte a sociedade, na medida em que o liberalismo rompia, em alguma medida, com a interferência da religião dentro da vida política. “Esta doutrina expressa o

pensamento e os interesses da aristocracia agrária, semifeudal, diante dos desafios da Revolução Francesa” (Silva, 2010, p.54). Em outras palavras, o

conservadorismo da época se opunha às frenéticas mudanças provocadas pelos considerados revolucionários burgueses que naquele momento estavam colocados na situação de oprimidos e não de opressores, condição que será transformada com a ascensão burguesa ao poder.

Na medida em que a sociabilidade burguesa se consolida como relação social hegemônica, o liberalismo aprovava medidas que reorganizavam a sociedade, mantendo os interesses econômicos que beneficiam a burguesia. Numa direção contrária, mas não antagônica, uma vez que não comportava uma crítica à base desigual da sociabilidade burguesa, o pensamento conservador defendia a manutenção de valores e tradições medievais para assegurar mecanismos de controle e de poder. Questionava a mudança da natureza pelas mãos do homem, negando qualquer tipo de ação revolucionária, sem, no entanto, oferecer oposição ao capitalismo. Tratava-se, portanto, de um movimento ideológico antiliberal e anticomunista, mas não anticapitalista.

As revoluções burguesas criaram as condições para o desenvolvimento das forças produtivas e para o avanço das ciências e, consequentemente, para a ampliação dos domínios humanos sobre a natureza. Tais transformações, articuladas com a Reforma Protestante, reduziram significativamente a influência moral e política da Igreja Católica nas decisões da vida social. Em oposição aos domínios humanos sobre a natureza e a vida social, a perspectiva conservadora afirmava que “o ser mais profundo do homem é a sua individualidade e sua essência moral” (Iamamoto, 1992, p.24). Para o

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conservadorismo nascente a liberdade deveria ser restrita ao mundo privado, e as relações sociais precisavam seguir uma hierarquia regida pela ordem e pela disciplina, inspiradas nos valores, tradições e instituições medievais. Desse modo, a reação conservadora tem na Igreja Católica e nos grupos de poder a ela vinculados, seus principais representantes1.

1.1 Conservadorismo, Serviço Social e projetos profissionais

A literatura profissional atesta que as bases históricas de emergência do Serviço Social, na Europa e no Brasil, vinculam-se às estratégias de restauração de poder da Igreja Católica. A Ação Social Católica visava recuperar a influência política da Igreja Católica sobre a realidade social, tendo em vista a retração de seu espaço de dominação ideológica desde o final do século XVIII. A proposta era qualificar determinados grupos que compunham a base social da Igreja Católica – inicialmente mulheres da classe burguesa também conhecidas como damas de caridade –, para uma “ação missionária e evangelizadora” 2

.

Como profissão inscrita na divisão do trabalho, o Serviço Social surge como parte de um movimento social mais amplo, de bases confessionais, articulado à necessidade de formação doutrinária e social do laicato, para uma presença mais ativa da Igreja Católica no “mundo temporal”, [...] Na tentativa de recuperar áreas de influência e privilégios perdidos, em face da crescente secularização da sociedade e das tensões presentes nas relações entre Igreja e Estado [...] (IAMAMOTO, 1992, p. 18).

Isso significa reconhecer que a profissão em seus primórdios, assume um papel de fortalecimento doutrinário e ideológico através de segmentos vinculado à Igreja Católica. É interessante ressaltar que tais segmentos eram

1 Podemos usar como exemplo deste controle, os tribunais de inquisição, criados nos séculos anteriores às Revoluções burguesas. Qualquer ação, comportamento ou conhecimento que confrontasse os dogmas da Igreja Católica – seja cientificamente ou ideologicamente –, eram julgados em tribunais comandados pelo Clero. Os/as contestadores/as eram consideradas/os hereges, sendo em sua maioria condenado/as à tortura e à morte como traidores/as da Igreja e portanto, traidores/as do Rei, dada a vinculação entre poder teológico e poder político. Com a emergência do Estado Moderno, e posterior hegemonia do Estado Burguês, o conservadorismo moral, ou moralismo, torna-se central para a recuperação e manutenção de valores e tradições vinculados à Igreja Católica.

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parte da burguesia. Esse reconhecimento de classe e de vinculação ideológica nos permite refletir sobre os reais interesses afirmados e difundidos pela Ação Social Católica.

A ação profissional tem por objetivo eliminar os “desajustes sociais” através de uma intervenção moralizadora de caráter individualizado e psicologizante; os “problemas sociais” são concebidos como um conjunto de “disfunções sociais”, julgadas moralmente segundo uma concepção de “normalidade” dada pelos valores cristãos (BARROCO, 2010, p.94).

Em um cenário de grandes mudanças econômicas e sociais, há o crescimento da classe trabalhadora assim como sua organização política, reconhecendo-se – como denomina Marx –, como “classe para si”3. Sua consciência de classe e sua organização na luta para o atendimento de suas necessidades, favorecem determinada visibilidade política à classe trabalhadora. Neste contexto, a Igreja Católica que, como vimos, implementava estratégias de recuperação de seu poder e influência, investe na interpretação e na intervenção sobre a questão social. Interpretando as expressões da questão social como um problema moral, a Igreja Católica afirma que somente em uma sociedade com princípios morais cristãos pode-se instaurar a justiça social. Seguindo essa lógica, a Igreja promove a chamada Ação Social Católica, tornando-a funcional às necessidades do Estado, como parte de um plano para a retomada de sua influência nas bases da sociedade.

Ainda que a intervenção do Estado na luta de classes fosse de cunho liberal, o mesmo não podia ignorar a visibilidade política das várias desigualdades sofridas pela classe trabalhadora. Dessa forma, no contexto de emergência da questão social, o Estado burguês se beneficia das propostas da Ação Social da Igreja Católica, conferindo a esta Instituição o poder para o trabalho de intervenção na questão social e domesticação do proletariado.

3 Marx explica que “as condições econômicas, inicialmente transformaram a massa do país em trabalhadores. A dominação do capital criou para esta massa uma situação comum, interesses comuns. Esta massa, pois, é já, face ao capital, uma classe, mas ainda não é para si mesma. Na luta, [...] esta massa se reúne, se constitui em classe para si mesma. Os interesses que defende se tornam interesses de classe. Mas a luta entre classes é uma luta política.” (MARX, 1982a, p.159)

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Na forma prática, para o Estado, tal ação foi uma saída estratégica a fim de conservar sua estrutura liberal, já que a Igreja se propunha a intervir numa direção que era funcional aos interesses de dominação. Já para a Igreja Católica, tal intervenção configurava-se como uma oportunidade de resgatar o poder perdido, a partir de respostas orientadas não apenas pela caridade cristã, mas também pela perspectiva ideológica de moralização da questão social. Foi uma ação de resgate dos valores conservadores, num contexto onde as relações sociais haviam sido modificadas pela ordem do capital. Tratar a questão social como um problema moral favorecia a recuperação de áreas de poder e de influência da Igreja Católica, interpretando as causas da questão social como expressão da ausência da moral cristã e da falta de fé numa divindade capaz de beneficiar aqueles que reconhecessem e aceitassem suas verdades, valores e normas. Evidentemente, tais verdades, valores e normas, contribuem para a manutenção do poder hegemônico do capital, mantendo uma ideologia de domesticação e controle da classe dominada, na medida em que naturalizam as desigualdades produzidas por esta forma histórica de relação entre os homens.

Desta forma, o Serviço Social em sua gênese, se caracteriza não só pela ideia de caridade, mas também como uma estrutura que promove intervenções ideológicas em determinada classe social, como afirma (Iamamoto, 1992, p.20) “seus efeitos são essencialmente políticos: o

enquadramento dos trabalhadores nas relações sociais vigentes, reforçando a mútua colaboração entre capital e trabalho”. Nesse enquadramento, também

está incluída a tentativa de converter a militância trabalhadora em uma militância católica, a fim de combater qualquer influência socialista, vista como ameaça tanto pelo conservadorismo quanto pela corrente liberal.

A corrente liberal, dominante até o início do século XX, tem seu poder de influência drasticamente reduzido por motivos político-econômicos, entre os quais, a partir de Behring (2009), destaca-se o crescimento do movimento operário, que se organiza criando sindicatos e partidos, passando a ocupar espaços importantes e ganhando força para pressionar a burguesia. A

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formação de grandes monopólios do capital também contribui para desbancar a ideia de indivíduo empreendedor sustentada pelo liberalismo. Nas palavras de Behring:

Cada vez mais o mercado vai ser liderado por grandes monopólios, e vai depender de um grande volume de investimento, dinheiro emprestado pelos bancos, numa verdadeira fusão entre o capital financeiro e o industrial [...] (BEHRING, 2009, p.7)

Surge uma competição de grandes empresas. Muitas se unem para derrubar empresas concorrentes. A barbárie do confronto mercantil de cariz imperialista torna-se cada vez mais aguda, tendo como seus principais marcos na primeira metade do século XX, a crise de 1929 e as duas grandes guerras mundiais. A relação antagônica entre capital e trabalho torna-se cada vez mais aguda, se expressando diretamente no aprofundamento da questão social.

Por seu turno, o conservadorismo moral que está na base da Ação Social Católica nas primeiras décadas do século XX no Brasil, amplia sua influência também a partir das iniciativas do Estado de intervenção sobre os antagonismos de classe, dada a redução da influência do liberalismo, a agudização da questão social e o aumento dos movimentos reivindicatórios da classe trabalhadora.

No contexto de emergência do Serviço Social no Brasil, na década de 1930, não se pensava em cidadania com as mesmas proporções que temos hoje. O que significa dizer que a cidadania era exclusividade da classe dominante. Com isso, o modo como os “problemas sociais” eram enfrentados, se dava através da filantropia, forjando relações tuteladas. Como indicado anteriormente, a atuação da Igreja Católica imprimia à sua perspectiva de caridade um duplo objetivo: moldar as/os trabalhadoras/es às novas demandas de produção do capital e recrutá-las/os para a militância católica, incutindo-lhes os valores cristãos. Com esta perspectiva de intervenção sobre as expressões da questão social, esperava-se que a classe trabalhadora se comportasse de forma conformada e domesticada, a fim de combater as revoltas populares e o comunismo, que representava uma grande ameaça ao projeto de dominação

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burguesa. O Serviço Social surge como um dos componentes desta estratégia. Um tipo de assistencialismo pautado nos ideais de “bom comportamento”, de “harmonia social”, visando o reforço ideológico entre as/os trabalhadores/as de que “sem greves, teriam mais benefícios”. O que, evidentemente, se configurava como uma estratégia que contribuía para silenciar alguns segmentos da classe trabalhadora e assegurar uma base de legitimidade para o aumento da taxa de exploração. Num período no qual o Estado assume uma estrutura corporativista, tem-se o desmonte da organização política e sindical da classe trabalhadora de forma repressiva, com a finalidade de submetê-la ao novo sistema de dominação.

A ofensiva ideológica contra a organização autônoma do proletariado será uma constante durante todo o período. Buscará isolar a classe de sua vanguarda organizada e afirmar o mito do Estado benetactor, da outorga da legislação protetora do trabalho, o mito do Estado acima das classes e representativo dos interesses gerais da sociedade e da harmonia social. (IAMAMOTO; CARVALHO, 1982, p. 163).

O chamado “Estado acima das classes”, defendido por autores vinculados à tradição liberal e conservadora, vem carregado de um discurso ideológico de uma falsa neutralidade, que irá influenciar no modo como parcela da classe dominada vê o Estado, e por conseguinte, seus aparelhos de repressão.

Como parte da estratégia de dominação burguesa, há uma acentuada exploração de uma dada imagem feminina – ou marca feminina4 – socialmente

construída, considerada portadora de “características e dons naturais”, associando a imagem de assistentes sociais às mães, que cuidam e disciplinam as/os desajustadas/os como um/a filho/a, que mostra-lhes os caminhos “corretos”. É evidente que esse caminho assegura a ordem e a

4 “Essa marca feminina é aqui compreendida como um processo histórico-cultural de construção de práticas, saberes e valores em relação ao feminino, por meio de uma concepção diferenciada sobre os sexos, a qual dita, modela e institui o que é feminino. Torna-se, cria-se o feminino, de acordo com a conveniência e os interesses da classe dominante, resultando na produção de desigualdades entre homens e mulheres, reveladas, por exemplo, na sua forma de inserção no mercado de trabalho.” (CISNE, 2012, p. 44)

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manutenção da hegemonia dominante do capital, assim como a moral conservadora.

No Brasil, foi por intermédio da Liga das Senhoras Católicas e da Associação das Senhoras Brasileiras que teve início a preparação de pessoas para trabalharem na assistência preventiva e no apostolado social, o que permitiu o surgimento das primeiras escolas de Serviço Social, na década de 1930. [...] Neste contexto, a criação de instituições públicas que assumiram a assistência social marca, indubitavelmente, o início da legalização da profissão de Serviço Social. (CISNE, 2012, 36 apud TORRES, 2002, p.28).

O desenvolvimento da profissão, processualmente vai se mesclando entre as influências conservadoras franco-belga, e as ideias conservadoras norte-americanas a partir da década de 1940 (Iamamoto, 1992, p.26). Quanto mais se expandia as instituições assistenciais – por fortes pressões de movimentos sociais e sindicatos num contexto de industrialização –, mais se legitimava o Serviço Social. Nesse processo, a profissão vai perdendo seu sentido de caridade burguesa e acoplando-se ao papel de executor de políticas sociais do Estado, sem no entanto, romper com suas bases conservadoras.

A relação entre serviço social e a assistência social pode ser considerada orgânica à medida que o processo de institucionalização da profissão se dá enraizado com a história da assistência social. No momento em que ela passa a ser de responsabilidade do Estado, este demanda a necessidade de profissionais capacitados tecnicamente para execução dessa política via procedimentos racionais e científicos. Dentro dessas novas configurações expressas na “questão social”, a assistência social irá moldar e caracterizar a profissão [...]. (CISNE, 2012, p.34)

A primeira instituição de Assistência Social criada no Brasil, foi a chamada Legião Brasileira da Assistência – LBA, no ano de 1942. Foi de grande importância para a institucionalização do Serviço Social, tal como para o desenvolvimento da profissão. Tradicionalmente, desde sua criação, a LBA era presidida por primeiras-damas, influenciando a cultura do primeiro damismo na Assistência Social até os dias de hoje. Observa-se uma constante vinculação da questão de gênero na formação da profissão e no tratamento da questão social, a partir dos papeis sociais reafirmados pela Igreja Católica, há muito enraizado no processo histórico de formação da sociedade. Esses

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elementos serão aprofundados posteriormente, aqui queremos chamar atenção para o fato de que os papeis de gênero estão na base de configuração e desenvolvimento da profissão, além de fazer parte de um conjunto de profissões que marcou a inserção das mulheres no mercado de trabalho.

A atuação das/dos Assistentes Sociais, é incorporada nas engrenagens do Estado, se distanciando paulatinamente da caridade privada da burguesia, controlada pela Igreja Católica, “com o objetivo de solidificar sua penetração

entre os setores operários, dentro do projeto de recristianização da sociedade”

(Iamamoto, 1992, p.93).

O Serviço Social já legitimado, conta com aparatos jurídicos e institucionais para executar sua ação, lidando diretamente com a classe trabalhadora. Contudo, é válido ressaltar que a demanda institucional é estabelecida pelo conjunto dominante por intermédio do Estado5, e não pela classe a quem o serviço é destinado. Tal movimento vem acompanhado de um discurso de cooperação entre classes e ajustamento psicossocial do/a trabalhador/a, sendo elementos básicos à adesão subjetiva das relações vigentes sob a hegemonia do capital (Iamamoto, 1992, p.97). Logo, por esta lógica, as instituições precisam se apropriar das pautas de luta da classe dominada, a fim de revertê-las a seu favor. Como explicita Iamamoto:

O que é um direito metamorfoseia-se em “benefício”. Ao fazerem isso, recuperam e falsificam o conteúdo de classe dessas lutas. Trata-se de buscar deslocar as contradições do campo explícito das relações de produção para absorvê-las e controlá-las nos canais abertos no nível do aparelho do Estado (IAMAMOTO, 1992, p.97).

Este processo que transforma os direitos em benefícios gera uma série de novas contradições, além daquelas que estão na base da divisão entre classes. O Serviço Social, como especialização do trabalho coletivo e por sua inserção na divisão social e técnica do trabalho, participa diretamente da

5 “O Estado passa a intervir nas relações entre o empresariado e a classe operária através de legislação social e trabalhista, da prestação de serviços sociais previstos nas políticas sociais. Estes tornam-se meios de enfrentamento do processo de pauperização das classes trabalhadoras e do processo de organização e luta na defesa de seus interesses classistas e de suas necessidades imediatas de sobrevivência.” (IAMAMOTO, 1992, 95)

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reprodução das relações sociais e, consequentemente, do modo de vida dos indivíduos sociais atendidos. Na medida em que se desenvolve o exercício profissional, a falsa perspectiva de neutralidade torna-se evidente. A igualdade social afirmada juridicamente entra em constante contradição com a desigualdade resultante da apropriação privada da riqueza socialmente produzida, também estabelecida como lei. Sendo assim, a profissão,

responde tanto a demanda do capital como do trabalho, e só pode fortalecer um ou outro polo pela mediação de seu oposto. Participa dos mecanismos de dominação e exploração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, da resposta às necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e da reprodução dos antagonismos desses interesses sociais, reforçando as contradições que constituem o motor básico da história (IAMAMOTO, 1992, p.99). Somente entendendo essa contradição, inerente ao modo de produção capitalista, é que se torna possível superar a ideia de neutralidade e construir estratégias que possam fortalecer um dos polos desta relação antagônica.

A processualidade histórica do Serviço Social brasileiro se confronta, em finais da década dos anos de 1950 e inícios dos anos de 1960, com um contexto de mudanças políticas e econômicas, conduzidas pela autocracia burguesa que se instala no poder após o golpe empresarial-militar de 1964. A autocracia burguesa (Netto, 1992) impulsiona um projeto de modernização conservadora que articula assistência e repressão, amplia os processos de exploração da força-de-trabalho, reprime e coloca na clandestinidade Partidos e Sindicatos.

Estas medidas tornam possível um aumento da taxa de exploração do trabalho, através da ampliação da jornada de trabalho, da institucionalização das horas extras, do reforço da disciplina industrial, da intensificação do ritmo de trabalho etc., tendo como contrapartida uma elevação da produtividade dentro de um clima de aparente ordem e “paz social” (IAMAMOTO, 1992, p.82).

O resultado dessas medidas, totalmente voltadas para a acumulação capitalista, foi uma grande diminuição dos padrões de vida do proletariado e o crescimento da pobreza, sendo que “a questão social passa a ser tratada

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1992, p.82-83). Neste contexto, a Assistência Social, assume um papel regulador dos “conflitos sociais” em nome da “ordem e da paz”. Conflitos estes gerados pela exploração de uma classe sobre a outra, sendo que a classe dominante precisa de uma ideologia que afirme de forma abstrata a ordem e a paz, naturalizando as desigualdades sociais. Neste contexto, há um aumento das demandas postas às/aos Assistentes Sociais e, consequentemente, um crescimento do mercado de trabalho profissional. Contudo, as demandas e o mercado profissional são redimensionados pela lógica do projeto político dominante. A isso se acresceram os efeitos da burocratização crescente produzidos pela modernização conservadora do aparelho de Estado. (Iamamoto, 1992, p.86).

No contexto de implantação e esgotamento do projeto autocrático burguês dos governos militares, ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, encontramos as determinações históricas e ideopolíticas do processo de renovação do Serviço Social brasileiro.

As condições para a emergência da renovação brasileira, surgem “no

interior de uma crise do próprio padrão de desenvolvimento capitalista e de um processo de erosão das bases de legitimação do tradicionalismo profissional”

(Netto, 1991, p. 142 apud Barroco; Terra, 2012, p.38). É um movimento amplo e heterogêneo que, entre outros aspectos, questiona o chamado Serviço Social tradicional, especialmente em face das novas exigências postas ao trabalho profissional pelo mercado dinamizado pela autocracia burguesa e pelas forças sociais e políticas de resistência à ditadura empresarial-militar.

Nas palavras de Netto,

Entendemos por renovação o conjunto de características novas que, no marco das constrições da autocracia burguesa, o Serviço Social articulou, à base do rearranjo de duas tradições e da assunção do contributo de tendências do pensamento social contemporâneo, procurando investir-se como instituição de natureza profissional dotada de legitimação prática, através de respostas a demandas sociais e da sua sistematização, e de validação teórica, mediante a remissão às teorias e disciplinas sociais. (1990, p. 131).

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Um repensar a profissão, tendo como um de seus vetores o processo de laicização, que instituiu de forma inédita a construção de um pluralismo profissional, ou seja, a disputa entre projetos de profissão.

A década de 1960 é marcada por uma efervescência política e cultural que se expressa de forma particular em países europeus, nos EUA, no Brasil e em outros países latinoamericanos. Tal processo impacta de forma diferenciada o serviço social brasileiro, tanto que Netto se refere ao processo latinoamericano mais amplo como movimento de Reconceituação e ao processo brasileiro como Renovação.

Nos deteremos aos elementos mais característicos do movimento de renovação brasileiro, sem deixar de ressaltar a importância desse processo no contexto da América Latina, onde a crítica ao conservadorismo dá seus primeiros passos.

A década de 1960 se configura como um contexto mundial marcado por intensas manifestações, “protestos direcionados a diferentes níveis de

reivindicação político-econômica e ideocultural, instituindo um clima cultural favorável ao questionamento de valores tradicionais” (Barroco;Terra, 2012,

p.39,). Se tratando de contexto brasileiro, é interessante observar que:

A transformação capitalista teve lugar graças a acordos entre as frações de classe economicamente dominantes, à exclusão forçada das forças populares e à utilização permanente dos aparelhos repressivos e de intervenção econômica do Estado. (IAMAMOTO, 2007, p. 133).

O que significa dizer que dentre as formas de governo vivenciadas ao longo das décadas, todas se configuram de forma “elitista e antipopular” (Iamamoto, 2007, p. 133), o que mudam são as estratégias adotadas a fim de desenvolver o capitalismo no Brasil, “por formas políticas de apropriação da

esfera pública em função de interesses particularistas dos grupos no poder.”

(Iamamoto, 2007, p.141). Na realidade brasileira vivenciamos momentos de tensão, entre o populismo – que tinha o papel de manipular o proletariado com concessões mínimas, permitindo maior concentração de riquezas para a

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burguesia –, tentativas de reformas de base vistas pelas correntes conservadoras como uma grande ameaça comunista, ainda que a iniciativa não tenha partido da esquerda brasileira da época, e uma ofensiva militar e conservadora responsável pelo golpe que impôs a ditadura. A disputa política permeava entre as classes e dentro das classes, o que gerava diferentes e diversas manifestações que reivindicavam ideários distintos. A insatisfação popular se fez cada vez maior durante o período da ditadura. A dura e criminosa repressão militar não calou a militância e a construção da resistência, que para além das intensas manifestações, construíam táticas de guerrilha, dentre outras forma de se organizar e resistir. É relevante destacar que essa conjunção, conta com o protagonismo das mulheres, que além de serem consideradas infratoras rebeldes por lutar contra a ditadura, a elas também era atribuído o papel de violadoras da moral e dos padrões tradicionais de gênero, já que se apropriavam da luta e dos espaços públicos “destinados” aos homens, buscando assim sua emancipação. O acesso a novos espaços inclui um acesso mais amplo também à educação e ao mercado de trabalho.

O crescimento das ocupações que exigiam grau universitário permitiu a expansão do acesso à universidade propiciando a politização das mulheres e dos jovens, sua mobilização coletiva e principalmente o seu questionamento em relação a valores familiares e sociais. [...] a inserção das mulheres na educação superior e das mulheres casadas no mercado de trabalho, articulada ao reflorescimento dos movimentos feministas dos anos 1960, significou um fenômeno revolucionário com inúmeros desdobramentos éticos políticos e culturais: [...] O que mudou na revolução social não foi apenas a natureza das atividades da mulher na sociedade, mas também os papéis desempenhados por elas ou a expectativas convencionais do que devem ser esses papéis [...]. (BARROCO;TERRA, 2012, p. 39-40 apud HOBSBAWM, 1995).

A relevância deste processo pode ser constatada quando analisamos as mudanças nos papeis socialmente construídos, que afetam os indivíduos tanto na “vida privada” quanto na “vida pública”, ditando padrões de comportamento que servem para garantir a manutenção da ordem societária vigente. Tal discussão não tem espaço neste capítulo, mas será resgatada em nossa abordagem sobre a noção de heteronormatividade.

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É importante evidenciar, para além da inserção das mulheres nos campos de formação, que tal período de expansão das Universidades, significou uma mudança no perfil das/os estudantes/profissionais do Serviço Social, assim como de outras profissionais femininas. Os cargos que antes eram ocupados por mulheres burguesas seguidoras da moral católica, passam a incorporar extratos da classe trabalhadora. A constituição de um novo perfil profissional pode ser considerado um dos determinantes para o processo de ruptura com o conservadorismo profissional, já que a participação da classe trabalhadora nos quadros profissionais, contribuiu também para o questionamento da direção social do trabalho das/os Assistentes Sociais.

O movimento de renovação do Serviço Social brasileiro, iniciado em finais da década de 1950, introduz novas referências para a compreensão do significado da profissão, tensionado suas bases tradicionais. Contudo, o desenvolvimento de uma perspectiva mais crítica no interior deste processo é constrangido pelo Golpe empresarial-militar de abril de 1964. Trata-se de um processo que envolve as determinações históricas que incidem sobre a profissão em sua totalidade, que envolve forças políticas e sociais que resistem ou reforçam a dominação burguesa. É um processo marcado pela construção de um pluralismo no campo teórico, ideológico e político segundo Netto (1990, p. 135), contendo diferentes concepções profissionais, desde sua natureza e objetivos, até suas ações práticas. Tem-se um amadurecimento da categoria profissional a partir da vivência em equipes multiprofissionais, do contato mais direto com segmentos da classe trabalhadora mais organizada, com parcelas da militância católica de esquerda, com o movimento da juventude e estudantil. (Netto, 1990, p.139-140).

Ao analisar o movimento de renovação do Serviço Social brasileiro, Netto identifica três momentos distintos, que irão culminar com a formulação de três projetos profissionais,

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No primeiro momento, o impulso organizador é praticamente monopolizado pelas iniciativas do CBCISS6, que então abre a série dos seus importantes “seminários de teorização”. No segundo, além da presença dessa entidade, verifica-se especialmente a objetivação das inquietudes sistematizadas no âmbito dos cursos de pós-graduação, inaugurados pouco antes. No terceiro, acresce-se a estas duas fontes alimentadoras a intervenção de organismos ligados às agências de formação (ABESS)7 ou diretamente à categoria profissional (como as associações profissionais, posteriormente sindicatos, CENEAS8 etc. (NETTO, 1990, p.152-153)

Estes três momentos marcam as principais características do processo de renovação do Serviço Social brasileiro. Assim, o esgotamento do Serviço Social tradicional resulta de um processo heterogêneo e complexo que assume três direções distintas, ou seja, três projetos profissionais distintos.

A primeira direção, Netto denominou de Perspectiva Modernizadora, sendo,

um esforço no sentido de adequar o Serviço Social, enquanto instrumento de intervenção inserido no arsenal de técnicas sociais a ser operacionalizado no marco de estratégias de desenvolvimento capitalista, às exigências postas pelos processos sociopolíticos emergentes no pós- 64.(NETTO, 1990, p.154).

Tal perspectiva, expressa nos documentos de Araxá (1967) e Teresópolis (1970), elaborados nos Seminários de Teorização do Serviço Social promovidos pelo CBCISS, representam a sistematização da vertente de modernização conservadora. Ambos os documentos mantiveram suas particularidades, “mas podem perfeitamente ser tomados como a consolidação

modelar da tentativa de adequar as (auto)representações profissionais do Serviço Social às tendências sociopolíticas que a ditadura tornou dominantes”.

(NETTO, 1990, p.164-165). Essa perspectiva é colocada em xeque em meados da década de 1970.

O segundo momento, ou projeto, Netto denomina como de Reatualização do conservadorismo,

6 Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais.

7 Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social, criada em 1946 e modificada em 1998 em Assembleia Geral Extraordinária, passando a ser chamada de Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa de Serviço Social – ABEPSS.

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Trata-se de como uma vertente que recupera os componentes mais estratificados da herança histórica conservadora da profissão, nos domínios da (auto)representação e da prática, e os repõe sobre uma base teórico-metodológica que se reclama nova, repudiando, simultaneamente, os padrões mais nitidamente vinculados à tradição positivista e às referências conectadas ao pensamento crítico-dialético, de raiz marxiana. (NETTO, 1990, p.157).

Dos três projetos profissionais que emergem do movimento de renovação do Serviço Social brasileiro, dois são essencialmente conservadores, o que significa dizer que não determinaram mudanças expressivas na atuação das/os Assistentes Sociais. Ambos mantiveram um viés de culpabilização do usuário por sua condição de pobreza, seja pela responsabilidade para acompanhar as exigências do desenvolvimento, na perspectiva modernizadora, seja pelo trato psicologizante da perspectiva de reatualização do conservadorismo, reforçando, assim, os interesses dominantes. Contudo, como parte de um movimento de renovação, suas influências não podem ser ignoradas no desenvolvimento da profissão que

“demandou a laicização da profissão; instaurou um pluralismo teórico, político e ideológico, rompendo com a visão monolítica vigente até os anos 1960”

(Barroco;Terra, 2012, p.40).

A terceira vertente, ou projeto, denominada por Netto como intenção de ruptura, se diferencia das demais vertentes pela incorporação de um pensamento crítico que questiona o Serviço Social tradicional e seu elo com o conservadorismo, configurando-se como “um produto histórico de uma prática

social coletiva construída historicamente a partir de inúmeras determinações”

(Barroco;Terra, 2012, p. 41)

A ruptura com a herança conservadora expressa-se como uma procura, uma luta por alcançar novas bases de legitimidade da ação profissional do Assistente Social, que, reconhecendo as contradições sociais presentes nas condições do exercício profissional, busca colocar-se, objetivamente, a serviço dos interesses do usuários, isto é, dos setores dominados da sociedade. (IAMAMOTO, 1992, p.37) Inspirado na tradição marxista passa por um processo de amadurecimento que, num primeiro momento, mantinha uma apropriação superficial e engessada do marxismo, deixando a margem as determinações

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sócio históricas da profissão. Nas suas primeiras formulações, a perspectiva de intenção de ruptura foi influenciada por manuais de formação político-partidária e fontes não originais da tradição marxista, resultando em uma compreensão reduzida e muitas vezes equivocada das formulações de Marx.

A processualidade histórica do Serviço Social brasileiro é marcada, portanto, de forma heterogênea, “e, portanto, configura um espaço plural do

qual podem surgir projetos profissionais diferentes” (Netto, 1999, p.5). Embora

as vertentes do movimento de renovação assumam hegemonia em momentos distintos, é importante lembrar que sua continuidade marca uma constante disputa pela direção social estratégica do projeto profissional. No caso da perspectiva de intenção de ruptura, suas bases podem ser encontradas antes do golpe empresarial-militar, porém, seu adensamento e conquista de hegemonia só ocorre ao longo da década de 1980, a partir de mudanças desencadeadas com o processo de redemocratização no país. Cisne afirma:

O movimento político, que teve como foco as lutas pela redemocratização da sociedade, assume destaque na categoria das(os) assistentes sociais, fornecendo condições políticas favoráveis para a construção de um novo projeto profissional, apontando para uma real ruptura com o conservadorismo.

É somente a partir das décadas de 1970 e 1980, com uma acumulação teórica e pela produção crítica de conhecimentos do Serviço Social no Brasil, que se aponta para um redirecionamento ideopolítico da profissão, mediante a incorporação de matrizes teóricas e metodológicas inspiradas no marxismo, o que, ao mesmo tempo, sinaliza a ruptura com o conservadorismo. (CISNE, 2012, p. 58).

Neste processo, a vertente crítica ultrapassa os limites do âmbito acadêmico e se estende ao campo de atuação das/dos Assistentes Sociais, atraindo um número cada vez maior de profissionais. A possibilidade de aprofundar a apreensão teórica do trabalho profissional foi fundamental para a superação de uma atuação burocratizada, tecnicista e profundamente enraizada no conservadorismo e imprimir uma nova direção para o Serviço Social Brasileiro. Na década de 1990, tal projeto adensa seu amadurecimento teórico e político, consolidando sua hegemonia. “Projeto esse pautado no

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compromisso com as classes subalternas, tendo como valor central a liberdade” (Cisne, 2012, p.60).

Assim, a construção de uma nova ética profissional foi gerada no interior da vertente que surgiu e amadureceu a partir de condições históricas que permitiram a negação e a busca de ruptura com o conservadorismo profissional: a vertente que deu origem ao projeto de ruptura que hoje denominamos projeto ético político (BARROCO; TERRA, 2012, p. 41 apud NETTO, 1999; BRAZ, 2005).

O atual Projeto ético-político do Serviço Social brasileiro encontra no processo de redemocratização da sociedade brasileira suas bases de legitimidade social. Incorpora em seu desenvolvimento e adensamento teórico e ideopolítico, demandas democráticas pela ampliação dos direitos de forma articulada com os movimentos sociais e a luta mais geral das/os trabalhadoras/es. Segundo Netto,

[...] o projeto ético-político tem em seu núcleo o reconhecimento da liberdade como valor central, a liberdade concebida historicamente, como possibilidade de escolher entre alternativas concretas; daí um compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais. Consequentemente, o projeto profissional vincula-se a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem dominação e /ou exploração de classe, etnia e gênero. A partir destas escolhas que o fundam, tal projeto afirma a defesa intransigente dos direitos humanos e a recusa do arbítrio e dos preconceitos, contemplando positivamente o pluralismo – tanto na sociedade como no exercício profissional (CISNE, 2012, 60-61 apud NETTO, 1999, p.104-105).

Desta forma, o projeto hegemônico do Serviço Social brasileiro se constitui no enfrentamento do conservadorismo e, consequentemente, demanda uma nova postura ética, superando as referências tradicionais que estavam na base dos demais projetos que emergiram no movimento de renovação brasileira. Contudo, sua posição hegemônica não significa a eliminação da influência do conservadorismo, que permanece orientando as escolhas teóricas e ideopolíticas de parcelas significadas da categoria profissional na contemporaneidade. Tampouco significa que rompemos com todos os aspectos do conservadorismo presentes no cotidiano profissional e social.

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Ao apresentar alguns elementos de suas origens históricas, vimos que o pensamento conservador tem uma base social funcional à ordem burguesa, portanto, suas referências são ainda totalmente funcionais às necessidades de dominação do capitalismo contemporâneo. “O acúmulo teórico-prático e

ético-político conquistado nos últimos 30 anos pelo Serviço Social brasileiro permite esse enfrentamento, embora as estratégias devam ser recriadas em cada conjuntura” (Barroco;Terra, 2012, p. 108).

O projeto hegemônico do Serviço Social brasileiro representa um patrimônio profissional que tem como um de seus significados a ruptura com o conservadorismo. Esse patrimônio tem sido desafiado pelo atual estágio do capitalismo que, de maneiras diversas, tem contribuído para a ascensão de novas ondas conservadoras e reacionárias na sociedade e na profissão. O atual projeto hegemônico do Serviço Social brasileiro oferece os fundamentos para uma apreensão crítica da ordem burguesa e da questão social como base de legitimidade social da profissão como especialização do trabalho coletivo. A perspectiva teórico-crítica deste projeto contribuiu para uma tomada de posição em defesa da classe trabalhadora e de questionamento do conservadorismo, assim como para a defesa e fortalecimento das lutas pela superação da ordem societária vigente. Trata-se da afirmação teórica, ética e política de uma direção social estratégica, cujos desafios são encontrados na totalidade social e na luta geral das/os trabalhadoras/es.

O amadurecimento profissional também resulta do desenvolvimento de forças políticas e sociais no campo democrático na sociedade brasileira. O cenário político de luta pela democracia contribuiu para o amadurecimento e intensificação de um corpo de militância que vinha sendo construído na profissão.

Desse modo, determinações históricas, teóricas e políticas, favoreceram o aprofundamento do amadurecimento intelectual, ético e político da categoria profissional e fortalecimento de suas Entidades, promovendo

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