UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Departamento de Ciências Administrativas, Contábeis, Econômicas e da Comunicação
Departamento de Estudos Agrários Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais
CURSO DE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO
LUIZ GUSTAVO STEINBRENNER
DIREITO AMBIENTAL E ECOCIDADANIA:
ALGUNS ELEMENTOS DA TEORIA DA COMPLEXIDADE
Ijuí (RS) 2011
LUIZ GUSTAVO STEINBRENNER
DIREITO AMBIENTAL E ECOCIDADANIA:
ALGUNS ELEMENTOS DA TEORIA DA COMPLEXIDADE
Dissertação apresentada ao curso de Pós-Graduação Stricto Sensu em Desenvolvimento, na linha de pesquisa Direito, Cidadania e Desenvolvimento da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), como requisito para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento.
Orientador: Prof. Dr. Daniel Rubens Cenci
Ijuí (RS) 2011
S819d Steinbrenner, Luiz Gustavo.
Direito ambiental e ecocidadania : alguns elementos da teoria da complexidade / Luiz Gustavo Steinbrenner. – Ijuí, 2011. –
106 f. ; 30 cm.
Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí). Desenvolvimento.
“Orientador: Daniel Rubens Cenci”.
1. Paradigma. 2. Complexidade. 3. Desenvolvimento sustentável. 4. Direito ambiental brasileiro. 5. Ecocidadania. I. Cenci, Daniel Rubens. II. Título. III. Título: Alguns elementos da teoria da complexidade.
CDU: 349.6(81) 504
Catalogação na Publicação
Aline Morales dos Santos Theobald CRB10/ 1879
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento – Mestrado
A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação
DIREITO AMBIENTAL E ECOCIDADANIA:
ALGUNS ELEMENTOS DA TEORIA DA COMPLEXIDADE
elaborada por
LUIZ GUSTAVO STEINBRENNER
como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento.
Banca Examinadora:
Dr. Daniel Rubens Cenci (UNIJUÍ) ________________________________________
Drª. Raquel Fabiana Lopes Sparemberger (UCPEL)__________________________
Dr. Gilmar Antonio Bedin (UNIJUÍ) ________________________________________
AGRADECIMENTOS
Difícil é a tarefa de expressar o sentimento de gratidão de maneira justa e na mesma intensidade do apoio recebido, seja direta ou indiretamente nesta árdua, mas não menos prazerosa, caminhada do mestrado. Fruto de um processo histórico/construtivo, as ideias aqui reunidas refletem a minha vida e trazem um pouco das pessoas com quem tive o privilégio de compartilhar neste processo. Como num holograma em que a parte está no todo e o todo está na parte considero-me inserido neste trabalho, da considero-mesma forma que este trabalho está enraizado no âmago das minhas inquietações acadêmicas. Com isso, quero demonstrar que este agradecimento, muito mais que um ato de retribuição, é um reconhecimento da participação de cada um daqueles que comigo compartilharam e me constituiram tal como sou hoje, não apenas como matéria, mas principalmente como ideia.
Agradeço aos meus pais, Vili e Idanir, bem como meus irmãos, Virlei e Marlon, pelos exemplos e ternura nos momentos difíceis.
À Flávia, parte indissociável de minha vida, pelo eterno companheirismo e amor dedicado, mesmo nos momentos de ausência.
A Tércio, pelas autênticas “digressões de corredor” nas temáticas filosóficas e ambientais. Sem vocês, nada disso seria possível.
Aos colegas do Curso, especialmente Eduardo, Camila, Darlan, Alexandre e Patrícia, pelo coleguismo.
À professora, Dra. Raquel Fabiana Lopes Sparemberger, primeira incentivadora deste trabalho que, apesar das razões do caminho, não foi possível concluir sob sua orientação, encaminhando-me ao Dr. Daniel Rubens Cenci, que, com sua acolhida, paciência e competência, típicas qualidades da sua pessoa, conduziu-me pelo apaixonante caminho do pensar ecológico.
Aos professores do Curso de Mestrado, que, com a autêntica virtude dos “verdadeiros mestres”, plantaram seus ensinamentos na tentativa de florescer o amanhã.
Por fim, agradeço a todos aqueles que de alguma forma contribuíram para que esta jornada chegasse não ao seu fim, mas em uma etapa vencida, num eterno movimento de recomeço.
Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito. ( Willian Blake)
RESUMO
A teoria da complexidade significa uma nova possibilidade de paradigma estruturante para a ciência e, consequentemente, para o pensamento humano. Ao mesmo tempo em que é um conceito ainda de difícil compreensão, se torna um processo necessário em virtude das novas conformações sociais e do cenário de risco ambiental que se apresenta. Devido a este entrelaçamento, o objetivo central da presente dissertação é apresentar os motivos pelos quais o Direito Ambiental brasileiro tem a necessidade de internalizar os postulados da teoria da complexidade para se tornar um instrumento fomentador de ecocidadania. Para tanto, primeiramente aborda a formação e superação dos paradigmas do conhecimento, e seu estreito vínculo com a formação do paradigma do positivismo jurídico, apresentando a teoria da complexidade de Edgar Morin como alternativa para a atualidade. Em um segundo momento, trata do despertar da consciência ambiental na sociedade ocidental estabelecendo um comparativo com a tutela constitucional brasileira dispensada ao meio ambiente, destacando também a necessidade de conciliação entre o desenvolvimento econômico e sustentabilidade e alguns mecanismos que fomentam o desenvolvimento sustentável. Por fim, aborda os limites e desafios do direito ambiental brasileiro frente as emergências ambientais, bem como o processo de internalização dos postulados da complexidade como meio de torná-lo um horizonte possível para a ecocidadania.
Palavras-chave: Paradigma. Complexidade. Desenvolvimento sustentável. Direito Ambiental Brasileiro. Ecocidadania.
ABSTRACT
Theory of complexity means a new possibility of structural paradigm to science and, therefore, to human thinking. At the same time that it is yet a concept of hard comprehension, it becomes a necessary process due to new social configurations and to the scenario of environmental risk that is found. Thus, because of such overlap, the main objective of this dissertation work is to present the reasons why the Brazilian Environmental Right has the need of internalizing the theory of complexity guidelines to become a supportive tool for ecological citizenship. In this sense, initially an approach of building and overcoming juridical positivism knowledge paradigms is presented offering an overview of Edgar Morin’s theory of complexity as an alternative to the world's current times. In a second moment, the environmental consciousness awareness in the western society is compared with the Brazilian legal and constitutional environmental tutorship, emphasizing also the need of conciliation between economic development and sustainability as well as approaching some mechanisms that support sustainable development. To finalize, the limits and challenges of the Brazilian environmental right facing environmental emergencies are discussed, as well as the process of internalization of the theory of complexity guidelines as a mean of making this a possible horizon towards the ecological citizenship.
Key words: Paradigm. Complexity. Sustainable Development. Brazilian Environmental Right. Ecological Citizenship.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
AIEA - Agência Internacional de Energia Atômica CC – Código Civil
CF – Constituição Federal
CMMAD - Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento CNPE - Conselho Nacional de Política Energética
CNUMAD - Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
CONAMA – Conselho Nacional do Meio Ambiente COP - Conferência das Partes
CTNBio - Comissão Técnica Nacional de Biossegurança DDT - Dicloro-Difenil-Tricloroetano
DNA – Ácido Desoxirribonucléico EA – Educação Ambiental
GEO - Perspectivas Globais para o Meio Ambiente GM – Geneticamente Modificada
IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor
IDH – Índice de Desenvolvimento Humano
ITC - Conferência Técnica Internacional sobre Proteção da Natureza IUPN - União Internacional para a Proteção da Natureza
LI – Licença de Instalação LO – Licença de Operação LP – Licença Prévia
MIT - Massachusetts Institute of Tecnologia MP - Medida Provisória
OGMs – Organismos Geneticamente Modificados OMS - Organização Mundial da Saúde
ONU – Organização das Nações Unidas PNMA - Política Nacional do Meio Ambiente
PNUMA - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PIB – Produto Interno Bruto
PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PNUMA – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente RDH – Relatório de Desenvolvimento Humano
SISNAMA - Sistema Nacional do Meio Ambiente STF – Supremo Tribunal Federal
UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento UNEP – Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNSCCUR - Conferência Científica das Nações Unidas sobre Conservação e Utilização de Recursos
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ...11
1 PARADIGMAS DO CONHECIMENTO: O POSTIVISMO JURÍDICO E A TEORIA DA COMPLEXIDADE...14
1.1 A formação e superação dos paradigmas do conhecimento...14
1.2 A Modernidade e o conhecimento técnico científico: a emergência do positivismo jurídico...26
1.3 Os postulados da teoria da complexidade...32
1.3.1 Os operadores da complexidade...34
1.3.2 O tetragrama organizacional e os sete saberes ...38
2 PERCEPÇÃO DE TUTELA E O DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO ...47
2.1 O despertar de uma consciência ambiental ...48
2.2. Meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental ...59
2.3 Desenvolvimento sustentável e a sustentabilidade do desenvolvimento ...61
3 A TEORIA DA COMPLEXIDADE COMO POSSIBILIDADE PARA O DIREITO AMBIENTAL BRASILEIRO ...69
3.1 Limites e desafios frente às atuais emergências ambientais...70
3.2 Direito ambiental e a internalização das categorias da complexidade ...79
3.4 O direito ambiental complexo como horizonte para a ecocidadania ...84
CONCLUSÃO...97
INTRODUÇÃO
A atual conformação conduz a sociedade a um cenário cada vez mais complexo. O sistema capitalista, num modelo de desenvolvimento baseado em crescimento econômico, desprezou a necessidade de se manter um equilíbrio dos recursos naturais, delineando contornos de um cenário preocupante nas questões ambientais. Com a complexificação cada vez maior do contexto científico e social, os paradigmas que embasaram o pensamento e influenciaram o modo de ser e estar no mundo, demonstram sinais de desgaste e fragilidade, não dando conta das atuais questões que exigem um novo perfil de percepção e ação.
Assim, o atual modelo de (inter)relações passou a se dar em forma de redes sistêmicas, sendo que o atual modelo de desenvolvimento não consegue mais estabelecer um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e a sustentabilidade dos recursos naturais não só para a presente, mas também para as futuras gerações, fazendo emergir a necessidade de se desenvolver centros dinâmicos que operacionalizem e estabeleçam elos de comunicação com os demais pontos da rede.
O atual cenário de risco ambiental, que conduz a humanidade a uma comunidade de destinos, onde se consolidam os prenúncios sobre a inviabilidade de manutenção da vida humana neste Planeta, exige que esta comunicação entre os pontos do sistema se dê pelo discurso do desenvolvimento sustentável, aliada ao comprometimento ético entre os seres humanos e porque não com as demais formas de vida.
Diante de tal contexto, procura-se encontrar possíveis centros com capacidade de estabelecer estes elos de comunicação entre os pontos da rede, bem como uma teoria base que contemple a complexidade do atual cenário e, assim, sirva de paradigma estruturante destes centros, para concretizar a ecocidadania num contexto planetário.
A hipótese principal do presente trabalho é de que o Direito Ambiental, ao utilizar a sua estrutura de forma criativa, se desvinculando das amarras do Dogmatismo e Positivismo Jurídico, consiga internalizar os postulados da teoria da complexidade de Edgar Morin, e se transforme em um centro de comunicação do desenvolvimento sustentável, para o restante da rede e, assim, concretizar uma ecocidadania ou cidadania planetária.
Como o objetivo da presente dissertação é estabelecer novos contornos estruturais para o Direito Ambiental, seria incongruente a utilização de uma metodologia de pesquisa baseada numa estrutura científica moderna, ou seja, para alcançar novos horizontes, o caminho trilhado necessariamente deve ser outro. Neste sentido, o método de pesquisa será o “Método Complexo de Investigação”,1 embasado essencialmente em pesquisa bibliográfica e documental, sem ignorar as possíveis contribuições das constatações empíricas obtidas pelo pesquisador ao longo de sua formação.
Pelo método complexo de investigação, buscou-se fazer um recorte transdiciplinar entre diversas áreas do conhecimento como a filosofia, sociologia, economia, ciência jurídica, e teorias como a sociedade de risco (Ulrich Beck), sociedade de redes (Manuel Castells) e da complexidade (Edgar Morin). O enfoque transdiciplinar buscou a reconciliação e a transversalidade dos saberes, ou seja, uma comunicação interpenetrante, reflexiva, contextualizante e recursiva entre os saberes empregados, se afastando ao máximo de um circulo vicioso, fazendo emergir um circuito virtuoso que abarque toda a complexidade que o tema requer.
1 O método complexo é proposto por Morin para justamente fazer frente à lógica indutiva e dedutiva.
Apesar de considerar o método dedutivo mais confiável que o indutivo, Morin (2003), propõe uma nova lógica, menos classificadora, baseada no E/E e não apenas no OU/OU. Desta forma, nasce o método complexo de investigação que se utiliza basicamente de três operadores: a) operador dialógico; b) operador recursivo; c) operador hologramático.
A presente dissertação está estruturada em três capítulos. O primeiro capítulo procura discutir a questão do paradigma estruturante do Direito. Neste sentido, procura-se abordar o processo de formação e superação dos paradigmas do conhecimento, até se chegar ao modelo dogmático e positivista jurídico, finalizando com a apresentação da teoria da complexidade e de seus principais postulados, como proposta estruturante do pensamento para a atualidade.
Num segundo momento, trata-se do despertar da consciência ambiental na sociedade ocidental, estabelecendo um comparativo com a tutela constitucional brasileira dispensada ao meio ambiente, destacando também a necessidade de conciliação entre o desenvolvimento econômico e sustentabilidade e alguns mecanismos que fomentam o desenvolvimento sustentável.
No terceiro capítulo, aborda os limites e desafios do Direito Ambiental brasileiro frente as emergências ambientais, levantando a discussão sobre a importância da Educação Ambiental e da construção de um senso ético em dimensões planetárias, num comprometimento não só com a atual, mas com as futuras gerações, finalizando com o processo de internalização dos postulados da complexidade como instrumento capaz de torna possível a ecocidadania.
E, por derradeiro, expressam-se as considerações finais, e apresentam-se as referências.
Deve-se ter claro que o saber que ora se produziu é inacabado, pois vários são os aportes teóricos, autores e enfoques que poderiam ter sido trabalhados, permeando o trabalho de incertezas. Não se buscou uma verdade única e última. É justamente a sua indeterminação e a abertura para novas pesquisas e olhares críticos é que lhe emprestarão o aspecto de dinamicidade e evolução científica.
1 PARADIGMAS DO CONHECIMENTO: O POSITIVISMO JURÍDICO E A TEORIA DA COMPLEXIDADE
.
No intuito de estabelecer um referencial, com este primeiro capítulo, busca-se demonstrar o processo histórico de formação e superação dos paradigmas do conhecimento. Para tanto, parte-se de uma abordagem generalista dos efeitos destes modelos de compreensão da realidade para, aos poucos, inserir o leitor nos paradigmas da ciência enfatizando seus constituintes fundamentais.
Em ato contínuo, firma-se o foco na base paradigmática da modernidade e sua influência para além do campo filosófico e científico chegando à formação do paradigma jurídico, embasado no dogmatismo e no positivismo, os quais demonstram sinais de fragilidade frente à nova conformação social do século XXI e aos novos direitos.
Ao final, apresenta-se o pensamento complexo de Edgar Morin2 como proposta paradigmática para o atual cenário, principalmente no que se refere às questões ambientais, antecipando alguns elementos que serão tratados no capítulo seguinte, o qual abordará especificamente a consciência ambiental, a tutela constitucional do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável.
1.1 A formação e superação dos paradigmas do conhecimento
O homem é um ser cultural provido por uma carga de informação que adquire ao longo de sua vida. Essas informações são “apreendidas” através dos sentidos ao serem aplicados direta ou indiretamente sobre o objeto a ser conhecido. Assim, conforme Morin (2002, p. 26), esse conhecimento “constitui ao mesmo tempo, uma tradução e uma reconstrução, a partir de sinais, signos, símbolos, sob a forma de representações, idéias, teorias, discussões.”
2Na intenção de difundir a compreensão do pensamento complexo, alguns livros de Edgar Morin
podem ser baixados eletronicamente e sem custo pelo site oficial do autor em: <http://www.edgarmorin.com>.
Note-se que, para haver uma melhor compreensão do objeto de conhecimento, o ser humano necessita de uma carga de informação e formação pertinente e bem desenvolvida para a realização dessa tarefa ou de uma interposta pessoa que a desempenhe com clareza. Ocorre que, nem sempre, se possui esta (in)formação, e não raras vezes esse conhecimento recebido ou pré-concebido apresenta-se falho, com vícios de aprendizagem e pré-conceitos sobre o objeto a ser desvendado. Não é diferente com o conhecimento adquirido de forma indireta, que já é transferido com os vícios do intermediador.
O conjunto de (in)formações que o ser humano adquire ao longo da vida e que utiliza para compreender o mundo constitui o que usualmente se chama de paradigmas. Conforme observa Vasconcellos (2002, p. 29), “este termo tem sido amplamente usado para se referir à forma como percebemos e atuamos no mundo, ou seja, às nossas regras de ver o mundo” e por mais que o ser humano não tenha ou jamais venha a ter consciência disso, o modo de ele ver, interpretar e atuar no mundo é fruto desse conjunto de informações que lhe são legadas ou adquiridas, influenciando-o desde a percepção até às ações.
Segundo Morin (2008a, p. 14), todo conhecimento é operacionalizado pela seleção e descarte de dados, utilizando, para tanto, uma lógica subjacente que são os “princípios <<supralógicos>> de organização do pensamento ou paradigmas, princípios ocultos que governam a nossa visão das coisas e do mundo sem que disso tenhamos consciência.”
Esta é uma realidade tão presente que vários são os exemplos que podem ser utilizados para demonstrar a influência exercida pelos paradigmas no modo de se compreender a realidade. Desses, destacam-se dois: o primeiro é descrito por Kuhn (1987) no qual o autor deixa clara a interferência no plano da percepção. Para tanto, realiza uma experiência com cartas de baralho: algumas cartas são modificadas na cor dos naipes e misturadas a cartas normais. Nesse procedimento, nota-se que quanto maior a experiência do expectador com baralhos maior é sua dificuldade de perceber as alterações efetuadas, pois já tem um conhecimento pré-concebido de que um “ás” de ouro é vermelho e se lhe apresentarem um “ás” de ouro preto, não vai perceber o erro, pois vai ajustar a modificação para o seu
“paradigma de baralho”. O segundo exemplo, trazido por Vasconcelos (2002), destaca a interferência no plano da ação e utiliza como exemplo uma criança que vai cortar um queijo em fatias e o faz como se corta uma pizza, a avó o repreende e diz que a forma correta de cortar o queijo é em fatias paralelas, resultando no espanto da criança, pois esta não percebe onde errou, uma vez que não sabia que existia uma forma correta de se cortar o queijo ou, em outras palavras, um “paradigma de cortar queijos”.
O paradigma está estreitamente ligado ao fator espaço e tempo, ou seja, é um modelo que se constrói em um dado local e principalmente em dada época. Dessa forma, muitos modelos culturais se diferenciaram e se diferenciam conforme a região ou país, o que fica nítido entre a cultura oriental e a ocidental, ou até mesmo em uma mesma região, porém em épocas diferentes, como é o caso da sociedade europeia feudal e a renascentista.
Assim, pode-se afirmar que a humanidade é privilegiada por viver nesta época, um momento da história em que se está alcançando um profundo (re)conhecimento do mundo, pois um homem nascido há algumas centenas de anos, por maior esforço que fizesse, não entenderia muitas coisas que hoje são consideradas óbvias, seja por que não dispunha de aparatos científicos ou por não possuir um suporte intelectual e paradigmas que possibilitassem a compreensão. Apesar disso, muitos foram os segredos arrancados da natureza nesses milhares de anos de paciente observação e reflexão.
Desde as sociedades primitivas, o homem questiona-se tentando compreender o mundo que o cerca e a si mesmo na busca de contextualizar esta realidade. Questões que perpassam as indagações: De onde viemos? Quem somos? Para onde iremos? Ou, mais recentemente, como estamos nos conduzindo?
Num período mais primitivo, o homem temia as manifestações do mundo natural, cujas interpretações eram impregnadas de simbolismos mágicos e figuras mitológicas (MOTA, 2003). Nesse contexto, o mito pode ser entendido como:
[...] uma narrativa que pretende explicar, por meio de forças ou seres considerados superiores aos humanos, a origem, seja de uma realidade completa como o cosmos, seja de partes dessa realidade; pretende também explicar efeitos provocados pela interferência desses seres ou forças. (ANDERY, 1996, p. 20).
Por meio de um exercício mental, não seria difícil compreender essa realidade, pois ao imaginar uma comunidade sem interferência de explicações cientificas3, um homem sentado à beira do fogo contemplando as estrelas, ao buscar compreender esses pontos de luz no céu, poderia facilmente concluir que as estrelas seriam chamas, tal como o fogo que queima em sua frente. Poderia até se questionar se seriam também fogueiras que outros homens acendem à noite e, em sendo, por que essas fogueiras e os homens que as acendem não caem do céu? Uma conclusão possível era que aqueles seres do céu tivessem grandes poderes (SAGAN, 1989).
Provavelmente este imaginário de “poderosos seres do céu” é que acabou criando os deuses, que ganharam nomes, parentescos e atribuições, passando a reger toda a natureza. Assim, tudo passou a acontecer por intermédio direto dos deuses: se eles estavam felizes, promoviam abundância na terra; se estivessem desgostosos, promoviam dilúvios, tempestades, secas, terremotos. Fica claro que, à época, a natureza era um mistério difícil de ser desvendado.
Cerca de 25 séculos atrás, na Grécia, principalmente na ilha de Samos e em algumas outras colônias gregas do mar de Egeu, inicia-se um movimento de ruptura desse pensamento místico. Floresceram ideias de que tudo na natureza era feito de átomos; de que os homens evoluíram de seres mais simples; de que doenças não eram castigos dados pelos deuses aborrecidos; e de que a terra não estava no centro do universo, sendo apenas mais um planeta ao redor de um Sol (SAGAN, 1989).
Dessa forma, desenvolveu-se o pensamento de que o Universo poderia ser descoberto pela observação pura e de que nele havia regularidades, organizações e
3Apesar deste exercício mental não levar em conta as interferências da ciência, é justamente esta
relação do homem com o mundo natural e da busca em compreendê-lo que vai dar as bases para o nascimento da ciência e do conteúdo das teorias científicas.
leis que regiam e que permitiam o seu descobrimento. Foi justamente devido a este caráter organizado do universo que surgiu o conceito de “cosmos”4 em contrapartida à ideia de “caos”, ou seja, o primeiro registro de oposição entre a ciência5 e o misticismo.
Foi justamente este cenário de florescimento do comércio e da interação com outras culturas que permitiu o questionamento sobre a existência dos Deuses, uma vez que se existisse apenas um deus criador de todas as coisas, os demais seriam falsos deuses, e se um é fruto de imaginação, por que não todos?
Note-se que, nesse período o ser humano já produzia excedente, utilizava mão-de-obra escrava, utensílios e técnicas para potencializar a sua produção, praticando também o mercantilismo. Um cenário bem diferente da sociedade primitiva na qual o ser humano produzia o estritamente necessário para o seu consumo e subsistência. Esses fatores permitiram certa liberação dos trabalhos manuais e o aumento do pensamento abstrato, emergindo as primeiras tentativas de interpretação racional dos fenômenos naturais e a mudança para uma postura muito mais analítica e crítica, figurando uma relevante mudança de paradigma no modo de compreensão do mundo. Porém, este cenário de maior permissibilidade na forma de pensar não durou muito tempo, pessoas começaram a ser perseguidas por suas ideias. Anaxágoras, contemporâneo de Demócrito, acreditava que o Sol não passava de matéria incandescente a uma enorme distância da Terra, e a lua era feita de matéria comum. Devido à suas afirmações foi condenado e preso por blasfêmia (SAGAN, 1989).
Os místicos passam a tomar força, uma vez que as Ilhas Jônicas também abrigavam uma tradição intelectual bem diferente, liderada por Pitágoras, que viveu em Samos no século seis a.C e acreditava haver uma harmonia matemática oculta na natureza. A moderna tradição de suposição matemática, essencial à ciência, deve muito a ele (SAGAN, 1989).
4Foi Pitágoras quem primeiro utilizou o termo “cosmos” para denominar o Universo organizado e
harmonioso, receptivo ao entendimento humano.
5O termo ciência está empregado entre aspas, uma vez que a ciência, tal qual é compreendia
atualmente, como utilizadora de método científico, só pode ser assim considerada a partir do século XVII.
Pitágoras propunha que as leis naturais poderiam ser alcançadas pelo pensamento puro, ao contrário de muitos outros jônicos que achavam a observação e a experimentação caminhos para se alcançar a harmonia e a unidade do Universo. Essa guinada no rumo da ciência ocorreu, em boa parte,porque suas teorias davam fundamento à sociedade escravocrata da época ao pregarem a alienação do corpo pela mente e a separação do pensamento da matéria, ideias que acabariam por dominar o pensamento ocidental por mais de vinte séculos.
Se fosse possível resumir o papel de Pitágoras e de Platão no desenvolvimento da ciência, poderia ser destacado o reconhecimento de que o cosmos pode ser conhecido e que a natureza possui uma base matemática. Mas a contrário senso, ao desprezarem o experimento e aderirem ao misticismo, e ao aceitarem as sociedades escravocratas, a influência que exerceram fez regredir as realizações humanas.
Com a queda do Império Romano no século V, a Igreja de Roma tornou-se o centro de poder existente, tornando-se a referência da sociedade. Assim, a Igreja passa a ser a fonte básica de conhecimento, tendo o monopólio do saber, em geral aplicado para a formação dos seus próprios religiosos.
Durante a Idade Média6, o ambiente do saber era orientado pelas diretrizes eclesiásticas ensinadas nas “universitas”, que eram as instituições de educação oficial. Esse modelo escolar surgiu no século XII, primeiramente em Oxford, Polônia e Paris para depois espalhar-se por toda a Europa, afetando profundamente as formas de compreensão da realidade.
O significado básico de cultura estava intimamente vinculado ao ambiente agrícola e sacerdotal em que a sociedade estava estruturada, e o objetivo principal era a busca de uma relação estável entre a Terra e o Deus que a protegia. Toda
6Apesar de se encontrarem algumas divergências entre autores para delimitar a Idade Média, para os
fins do presente trabalho, considera-se como início da Idade Média a desintegração do Império Romano do Ocidente, no século V, mais precisamente em 476 d.C. e fim em 1453 d.C. no século XV, com a queda do Império Romano do Oriente na tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos.
essa dominação eclesiástica medieval, juntamente com a insígnia “ora et labora” (reze e trabalhe) acabou produzindo uma época de profundas trevas morais, culturais, acadêmicas e tecnológicas para toda a Europa que viveu sob o seu domínio. Tudo parecia ter morrido na derrocada do Império Romano Ocidental, ocorrido em 476 d.C.
Apesar de haver características centrais bem delineadas, a Idade Média não foi homogênea em toda a sua extensão, e é justamente levando este fator em consideração que, na sua obra, Bedin (2008) subdivide este período em: Primeira Idade Média (séc. V a VIII), Alta Idade Média (séc. VII a X), Idade Média Central (séc. X a XIII) e Baixa idade Média (séc. XIII a XIV), definindo contornos bem marcantes para cada momento.
Após a estruturação da sociedade neste modelo medievo, nos três primeiros períodos quase nada ocorreu de significativo na Europa em termos de transformação social, econômica e científica, exceto por alguns centros mais dinâmicos. Já na Baixa Idade Média, o cenário começa a modificar-se, pois se iniciou uma maior interação com os mercadores árabes, os quais trouxeram diversas técnicas que impulsionaram a produção agrícola e artesanal levando a chamada “revolução verde”, desencadeando assim, um aumento na produção que, por sua vez, gerou excedentes que começaram a ser negociados impulsionando o comércio e o acúmulo de riquezas (MOTA, 2003).
Nesse cenário, uma nova classe ganha força, os burgueses, os quais, detendo os recursos econômicos tomam a iniciativa na formação de instituições de ensino. Porém, “não dispondo de mestres de suas próprias regiões e recém- egressos de um período medieval limitador, procuram nos mercadores sábios do oriente os que pudessem constituir-se nos primeiros professores” (MOTA, 2003, p. 31). Assim, o conhecimento da Grécia Antiga é retomado, e os ensinamentos de Aristóteles foram os escolhidos para o estudo, principalmente por ter sido traduzido do grego para o árabe e por ter caráter enciclopédico, ou seja, completo e de fácil ensinamento. Desta forma, “A recuperação, no Renascimento, de textos antigos que estimularam tantas outras áreas da vida intelectual resultou num renovado desabrochar das tradições mágicas.” (HENRY, 1998, p. 53).
No contexto da Baixa Idade Média, em que o sistema feudal entra em colapso, podem-se ressaltar alguns fatos importantes, dentre os quais, a Reforma Protestante; a emergência da burguesia juntamente com o sistema capitalista; conseqüente declínio do feudalismo; o florescimento das artes na Renascença; o surgimento das Instituições de Ensino e a retomada da literatura clássica grega; grandes navegações e a oposição do heliocentrismo ao geocentrismo.
A Reforma Protestante foi um movimento que se refletiu na quebra de muitos paradigmas até então postos como absolutos, porém esta quebra não ficou adstrita apenas ao cunho religioso, tendo importante viés educacional liberal, já que os Luteranos trabalhavam no sentido de alfabetizar as massas para que pudessem ler a bíblia e por eles mesmos interpretá-la. Ao se sentir ameaçada pela doutrina Luterana, a Igreja Católica lança a sua reforma, mais conhecida como a Contra-reforma, que, apesar de abolir práticas corruptas, como a venda de indulgências, e fundar boas escolas na Europa, porém dirigidas aos mais abastados, também lançou mão de medidas mais severas, como a Inquisição e a censura através do Índex de livros proibidos (BEDIN, 2008).
É justamente nesta quebra de paradigmas promovida pela reforma protestante que Weber (2004) vai buscar elementos para sustentar a sua tese de que a então novel “ética protestante” é que vai fornecer a base para que o “espírito do capitalismo” ganhe força frente ao modelo feudal.7
Assim, a Baixa Idade Média fica caracterizada por ser uma fase de transição ao nascituro período chamado de Modernidade.8 Depois de um longo período em que a investigação científica foi deixada de lado, a abordagem jônica foi redescoberta, a experiência e a liberdade de pesquisa lentamente voltaram a ser
7Porém, como o próprio Weber alerta, o capitalismo, tal como entendido atualmente, é fruto de uma
lenta e complexa rede de interações entre diversos acontecimentos, os quais devem ser considerados em conjunto e não atribuído a um fato isolado. Assim, não era intenção direta de Lutero, com a reforma, criar um sistema capitalista, apesar de fornecer a sua base, uma vez que o próprio Lutero condenava a usura e cobrança de juros, mesmo que legais (WEBER, 2004).
8Por Modernidade, levando em conta a história do ocidente, compartilha-se do seu início em 1453,
século XV, quando ocorreu a tomada de Constantinopla pelos Turcos otomanos, e o término com a Revolução Francesa, em 1789, no século XVIII (PEDROSA, 2008).
respeitadas. Assim, os livros e fragmentos jônicos esquecidos voltaram a ser lidos, influenciando, inclusive, Leonardo da Vince, Nicolau Copérnico e Cristovão Colombo.
O método científico,9 como observação e lógica, foi criado pelos gregos. Galileu Galilei (séc. XVI) agregou o fundamento da observação e da experimentação (GIOIA, 1996), e Newton (séc. XVII) agregou a constatação de que o método cientifico é o único caminho para se chegar a um conhecimento válido sobre o mundo (MOTA, 2003). A partir disso, tudo pode ser racionalizado, medido e calculado, chegando-se a leis universais invariáveis no tempo e no espaço. O método passou a ser um “conjunto de concepções sobre a natureza, o homem e sobre o próprio conhecimento que sustentam um conjunto de regras, de ações e de procedimentos prescritos para se constituir conhecimento científico.” (MOTA, 2003, p. 9).
A ciência, como “tentativa do homem de entender e explicar racionalmente a natureza, buscando formular leis que, em última instância, permitam a atuação humana” (ANDERY, 1996, p. 13) ressurge como caminho de se chegar à verdade, exercendo importante papel na organização da sociedade atual. Weber (2004) aponta o racionalismo ocidental como característica marcante da modernidade. Esta racionalidade teria se formado justamente a partir da desintegração daquelas concepções religiosas do mundo que dominaram a Idade Média. E é na/através da racionalidade cientifica que o homem se socorre como meio de embasar suas certezas e demonstrar suas verdades, passando a pensar o mundo de forma quantitativa, acreditando que a concepção do real só pode ser atingida através da razão, da dedução intelectual e da realização de experiências científicas.
Ocorre que essa transposição de um paradigma (medievo) para o novo paradigma (cientifico/moderno) não se deu de forma tranquila como se possa imaginar. Muito pelo contrário, foi fruto de uma série de lutas e demonstrações de
9Enquanto a palavra método origina-se do grego e significa busca ou encaminhamento, opondo-se ao
acaso e aleatório, “O método científico é um conjunto de concepções sobre o homem, a natureza e o próprio conhecimento, que sustentam um conjunto de regras de ação, de procedimentos, prescritos para se construir conhecimento científico.” (ANDERY, 1996, p. 14).
falibilidade do anterior modelo paradigmático, aliado à conscientização sobre o novo modelo proposto.
Na Modernidade, a ciência ressurge com todo fôlego, porém com um forte viés racionalista, e começa a desempenhar importante papel na vida da sociedade, uma vez que fornece os subsídios para a formação dos paradigmas do Homem Moderno, passando a influenciar cada vez mais o modo de estruturação do pensamento da sociedade ocidental moderna, levando Touraine (1994, p. 18) a afirmar que o pensamento ocidental buscou,
[...] passar do papel essencial reconhecido à racionalização para a idéia mais ampla de uma sociedade racional, na qual a razão não comanda apenas a atividade científica e técnica, mas o governo dos homens tanto quanto a administração das coisas.
Essa forma de pensar acabou por encantar a sociedade, devido a sua grande capacidade de realização e das promessas de um desenvolvimento prodigioso da humanidade.
Para Touraine (1994, p. 20), o modernismo, que é a ideologia da modernidade, “[...] substituiu a idéia de Sujeito e a de Deus à qual ela se pretendia, da mesma forma que as meditações sobre a alma foram substituídas pela dissecação dos cadáveres ou o estudo das sinapses do cérebro.”
Assim, a ideia de modernidade retirou a Igreja e o místico do altar e colocou em seu lugar a ciência, passando a venerá-la, “deixando as crenças religiosas para a vida privada.” (TOURAINE, 1994, p. 18).
Constata-se, portanto, que houve uma ruptura enorme na passagem da Idade Média para a Modernidade, e o fator marcante dessa ruptura é justamente essa desvinculação com o transcendental como a forma de explicar e conceber o real, ou seja, a Igreja deixa de ser o único instrumento mediador da verdade, buscando-a através do próprio homem, utilizando a ciência como método.
A ruptura nos modelos de ver e interpretar o mundo é um processo doloroso, de desapego aos modelos que até então geravam estabilidade e segurança, transparecendo o temor gerado pelo novo e desconhecido. Neste sentido, a ciência se embasou nos postulados Cartesianos, que propunham leis universais para se chegar a verdades também universais, para tentar restabelecer a sensação de segurança.
Ocorre que, nos últimos anos, o paradigma científico racionalista, que embasou o pensamento da Modernidade, encontra-se desgastado, não dando conta do complexo mundo contemporâneo, fazendo emergir a necessidade e um novo paradigma científico que venha a dar um novo horizonte para a humanidade. Tal mudança se faz necessária, assim como ocorreu na transição da Idade Média para a Modernidade, embora os motivos sejam outros. Estes serão analisados oportunamente, porém fica o alerta de que se trata de um processo não menos delicado e doloroso, pois “As revoluções do pensamento são sempre fruto de um abalo generalizado, de um turbilhão que vai da experiência fenomenal aos paradigmas que organizam a experiência.” (MORIN, 2008b, p. 34).
Tal tarefa se torna mais árdua, pois, conforme observa Descartes (2008), o bom senso ou a razão, que é a capacidade de bem julgar e distinguir o verdadeiro do falso, é melhor coisa compartilhada entre os homens, uma vez que cada um julga estar provido suficientemente do seu, e raramente se encontra alguém que busca ter mais do que já possui. Assim, cada um acredita ter bom senso suficiente, quando não o melhor, podendo se queixar de que possui menos de outras coisas, mas dificilmente admite que o seu bom senso é insuficiente para avaliar alguma situação. Isso acaba gerando um enclausuramento mental para as novas perspectivas que se apresentam no século XXI.
Esta é a tarefa que deve ser enfrentada neste momento, abrir-se às perspectivas aqui apresentadas para assim ser lapidado o bom senso, construindo uma nova forma de enxergar o real, pois conforme ressalta Martinazzo (2004, p. 33), “um paradigma tanto nos permite acessar e conhecer uma realidade, como nos encarcera. Bitola e normatiza.”
Martinazzo (2004), além de concordar que um paradigma seria um “princípio oculto” que não apenas influencia, mas controla e governa a cosmovisão, acrescenta que muitas vezes, até sem que se perceba, é elevado a uma categoria superior a qual não é questionada, mas idolatrada10, tornando-se autônomo.
Algumas pessoas, consequentemente alguns ramos do conhecimento, parecem ter tomado consciência da importância e da necessidade dessa revolução paradigmática em curso na ciência, e que acaba por culminar em não menos importantes transformações na forma de o homem ser e estar no mundo. Porém, para que se desenvolva uma “consciência universal” dessas mudanças e da sua necessidade, necessário se faz o conhecimento dos modelos formadores do atual paradigma para, então, perceber e poder avaliar essas mudanças. Esta é uma tarefa que exige uma profunda reflexão.
A dificuldade de mudança de paradigmas se reflete nitidamente na esfera jurídica, essencialmente no apego dos operadores do direito às figuras da coisa julgada, direito adquirido e ato jurídico perfeito, ao apego extremo ao texto da lei, à jurisprudência e às sumulas que chegaram ao extremismo da vinculação, transformando o direito em um eterno olhar para trás, não conseguindo acompanhar a evolução e os anseios da sociedade, principalmente no que se refere a responder as necessidades refletidas nos chamados “novos direitos”, pois se já é difícil elaborar novas teorias para velhos direitos, o que se dirá de criar novas teorias para os “novos direitos”.
A mudança de paradigmas não é uma simples permuta, mas sim uma transformação. Note-se que a mudança do sistema geocentrista para heliocentrista, não foi apenas uma mudança da disposição dos planetas, mas sim uma mudança que permitiu a ciência ultrapassar os limites impostos pelo paradigma anterior. O mesmo ocorrerá com o meio ambiente, a partir do momento em que deixar de ser concebido como algo economicamente mensurável, a ser explorado e dominado, buscando o homem reintegrar-se ao meio ambiente, tomando consciência de que
10Uma vez que é alimentado pela ciência, pelo nosso pensamento, espírito ou por uma comunidade
exerce um papel fundamental no universo de suas interações, as quais, atualmente, ocorrem de forma inconsequente e desastrosa.
O ser humano deve buscar a superação como indivíduo e comunidade de uma terra pátria, superando as atuais limitações que são materializadas nas atuais crises ambientais, pelo menos as de caráter antrópico, e “Para isso, é preciso previamente tomar consciência da natureza e das consequências dos paradigmas que mutilam o conhecimento e desfiguram o real.” (MORIN, 2008a, p. 16).
No mesmo sentido, se o Direito Ambiental mudar seu paradigma estruturante, concebendo a complexidade do mundo que o cerca, ele permitirá a superação de suas atuais limitações. Assim, um paradigma realmente válido seria aquele que não se fecha em si mesmo, mas é aberto a outras ideias e razões.
1.2 A Modernidade e o conhecimento técnico científico: a emergência do positivismo jurídico
Ficou evidente que há muito o homem tenta compreender a realidade que o cerca, utilizando para isso diversos paradigmas ou métodos de compreensão, desde o paradigma místico ou mítico, passando pelo paradigma de cunho mais “científico”, retomando uma concepção religiosa, até chegar a uma concepção puramente cientifica de compreender o mundo, que acabou por se tornar a característica marcante da Modernidade.
A ciência clássica11 parte do pressuposto de que existe uma regra, uma ordem ou uma lógica subjacente a todas as coisas, por mais aleatórias que possam se apresentar. Assim, “o princípio da ciência clássica é evidentemente legislar, colocar as leis que regem os elementos fundamentais da matéria da vida; e para legislar ela deve disjuntar, isto é, isolar os objetos sujeitos às leis.” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 45).
11Para o presente trabalho, entende-se por ciência clássica “aquela que fundando seu princípio de
explicação na ordem e na simplificação, reinou até ao início do século XX, e que hoje está em crise.” (MORIN apud FORTIN, 2007, p. 34).
Morin e Moigne (2000) afirmam que é na busca de dissolver a complexidade e encontrar a simplicidade e a certeza por detrás das coisas que a ciência se fundamentou sobre quatro postulados: a) o princípio da ordem, segundo o qual o universo é regido por leis imperativas, como se fosse uma máquina perfeita, numa concepção determinista e mecânica do mundo, onde qualquer acaso aparente é tido como uma falta de conhecimento, ou seja, uma mera ignorância momentânea; b) o princípio de separação, pelo qual, para se resolver uma questão complexa, basta decompô-la em elementos simples, assim, ao se resolverem todas as partes, chegar-se-ia à resposta do problema. Este princípio conduziu a ciência à especialização, hiperespecialização e por fim a perigosa compartimentação disciplinar; c) o princípio de redução, pelo qual o que importa é o conhecimento do mundo físico e biológico, reduzindo o conhecível apenas àquilo que é mensurável e quantificável; d) o caráter absoluto da lógica indutivo-dedutivo-identitária, identificada com a razão. A indução, a dedução e os três axiomas identitários de Aristóteles asseguram a validade formal das teorias e raciocínios.
Nesse cenário, um filósofo que encontrou terreno fértil para suas proposições foi Descartes (2008), que inaugurou a filosofia moderna com o livro “Discurso do Método”, rompendo com a lógica escolástica, característica da Idade Média, fazendo com que o homem, aos poucos, abandonasse a visão teocêntrica para adotar uma postura mais antropocêntrica, buscando através da ciência a compreensão do mundo que o cerca.
É na concepção Cartesiana de que a ciência é o único caminho para se chegar à verdade que, em boa parte, vai estruturar-se o modo de pensar do ser humano, que passa a ser adjetivado como “Homem Moderno”.
O pensamento cartesiano, ao ser internalizado pela cultura ocidental, teve o condão de moldar o pensamento moderno, transcendendo para além do âmbito estritamente filosófico (FORLIN, 2005). Nas palavras de Morin e Moigne (2000, p. 95), a ciência clássica,
expandiu seu império das ciências físicas às ciências humanas, das ciências às técnicas – de agora em diante associadas em tecnociências-, destas às instituições industriais, burocráticas privadas e públicas, e desse modo esse império cresceu nas dimensões do mundo contemporâneo.
Morin (2008a, p. 16) afirma que a humanidade está sob o império do paradigma da simplificação, que é constituído pelos princípios da disjunção, da redução e da simplificação, atribuindo a Descartes a formulação deste paradigma,
[...] ao separar o sujeito pensante (ego cogitans) e a coisa extensa (res
extensa), quer dizer, filosofia e ciência, e ao colocar como princípio de
verdades as idéias <<claras e distintas>>, ou seja, o próprio pensamento disjuntivo.
Os significativos progressos do conhecimento científico e filosófico não são negados por Morin, porém as consequências nocivas só começaram a se revelar no século XX, principalmente no que se refere ao meio ambiente, ou seja, a ciência impulsionou um crescimento vertiginoso na tecnologia e na produção, porém a visão fragmentada não permitiu uma análise mais universalizante, que tentasse aliar o desenvolvimento com sustentabilidade. De certa forma, a ciência, ao se separar da filosofia, despojou-se da capacidade que permitiria a ela se conhecer, refletir e conceber a si mesma cientificamente (MORIN, 2008a).
Assim, Descartes separou o sujeito, e o reservou à filosofia, do domínio da coisa na extensão, esta atribuída ao estudo científico. Desta forma, “vemos que o problema da ciência e da consciência encontra-se hoje colocado como problema ético e como problema de consciência reflexiva, postulando ambos a reintrodução do sujeito.” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 35).
O direito não ficou imune a essas concepções, uma vez “que o princípio da ciência clássica é legislar. Isso corresponde talvez ao princípio do direito. É uma legislação, mas não é anônima, porque se situa no universo, é a lei” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 48). Torna-se nítido o reflexo sobre suas instituições, bem como a influência no ordenamento jurídico com a concepção matemática de regramento, de leis por atrás das coisas, certezas e leis uniformes. São exatamente estes paradigmas que vão moldar o positivismo jurídico na modernidade.
O termo positivismo jurídico nada tem a ver com o positivismo filosófico. Na origem, o termo direito positivo faz contraposição ao direito natural.12 Para Aristóteles, a distinção entre os dois termos reside no fato de que, enquanto para o direito natural a eficácia é a mesma em toda a parte e prescreve ações cuja bondade é objetiva, ou seja, independem de parecerem boas ou más a outros, o direito positivo é algo que é posto, tendo eficácia dentro da comunidade política, visando regular ações que, antes de o serem reguladas, poderiam ser cumpridas de qualquer forma, porém uma vez regulada, só podem ser cumpridas pelo modo prescrito. Assim, se determinada lei ordenar determinada forma para algum ato, não cabe ao agente questionar se é boa ou má ou se é justa ou injusta, apenas se a ação é legal ou ilegal, pois o termo justiça tem íntima ligação com o direito natural, assim sendo, uma lei seria mais justa, na medida da sua capacidade de refletir o direito natural (BOBBIO, 1995). Portanto, não existiria uma relação direta entre direito, moral e justiça, visto que as noções das duas últimas são relativas, mutáveis no tempo e sem força política para se impor contra a vontade de quem cria as normas jurídicas.
O direito natural e o positivo eram tidos como direito na mesma acepção do termo, apesar da qualificação entre o direito natural e o direito positivo, permanecer basicamente a mesma através dos tempos, apenas agregando enfoques específicos desde o pensamento grego e latino,13 passando pelo direito romano,14 pelo pensamento medieval15 e nas concepções dos jusnaturalistas dos séculos XVII e XVII16. Desta forma, até o final do século XVIII o direito era definido nestas duas espécies, o natural e o positivo, sendo que a diferença entre ambos não era no grau de valoração, pois enquanto que no período clássico o direito natural não era considerado superior ao positivo, na idade média o papel se inverte uma vez que o direito natural era fundado na vontade de Deus, que acabou por influenciar o pensamento jusnaturalista que considera o direito natural como superior ao positivo (BOBBIO, 1995).
12No ocidente, a tradição do pensamento jurídico é baseada nesta dicotomia entre direito positivo e
natural.
13Com Platão e Aristóteles.
14Com a distinção entre jus gentium e jus civile. 15Com Santo Tomás e São Paulo.
É justamente quando o direito positivo e o direito natural deixam de ser considerados direito no mesmo sentido é que nasce o positivismo jurídico, a partir daí o direito positivo passa a ter seu sentido próprio. É por obra do positivismo jurídico que ocorre unificação de todo o direito ao direito positivo, no qual o direito positivo é direito, e o direito natural não é considerado direito (BOBBIO, 1995).
Assim, fica claro que a solução somente pode se dar através de uma fórmula de base, ou seja, uma lei que vai regular todos os fatos que se subsumirem a ela, em que todos os fatos similares terão uma lei básica. Isto reflete nitidamente o espírito do pensamento moderno de leis universais e matemáticas. Negando o direito natural, abandona-se a ideia de justo e injusto e começa a se trabalhar apenas com a categoria de legal e ilegal.
Esta passagem de uma concepção jusnaturalista para a positivista está ligada à formação do Estado Moderno, que surge com a dissolução da sociedade medieval. É com o abandono da concepção pluralista de sociedade medieval e encaminhamento para a formação de um Estado Moderno, nitidamente monista que monopoliza a produção jurídica no próprio Estado, que se vai alterar a própria maneira de se ver a ciência do direito, agora nitidamente associado num dever-ser estatizado, pois somente se considera e aplica o direito posto pelo poder soberano do Estado.
Esta mudança de concepção do direito reflete com clareza o pensamento cartesiano da verdade única, da busca da verdade matemática, da dispersão de qualquer dúvida. O pensamento cartesiano de dividir a complexidade em partes simples gera a especialização das disciplinas, a hiperespecialização e compartimentação dos conhecimentos, do direito em ramos, criando uma fossa asséptica entre os ramos do direito, fazendo com que os operadores do direito percam o contato com o todo, pois as disciplinas não se comunicam mais.
Arendt (1972) alerta que uma crise obriga a voltar-se às mesmas questões e exige respostas novas e, de igual sorte, julgamentos diretos. Uma crise só se torna um desastre quando se responde a ela com juízos pré-formados, isto é, com
preconceitos. Uma atitude dessas não apenas aguça a crise como priva o homem da experiência da realidade e da oportunidade por ela proporcionada à reflexão.
Desta forma, poder-se-ia dizer que o princípio básico do direito é regular as relações, para isso legislando e aplicando a lei ao caso concreto, assim como foi com a ciência clássica, cujas leis (tanto do direito como da ciência) estão no universal, em regras gerais aplicadas a todos em todos os casos, eliminando o que é “local” e “singular”. Assim, o direito considera o caso concreto e tenta moldá-lo a alguma hipótese contemplada nas Leis universais, ou, o contrário, pega a Lei e tenta subsumi-la ao caso concreto, e se a hipótese não se confirmar deixa de ser uma questão jurídica, não se preocupando o direito com as consequências. Porém, atualmente, a localidade e a singularidade batem às portas da universalidade. Esta, no entanto, pelas leis gerais, não consegue responder a esta realidade, ou, resumindo: é a singularidade promovendo constrangimentos singulares (MORIN; MOIGNE, 2000).
Assim como Morin (2008a, p. 22-23) afirma que a doença do atual paradigma “está no doutrinarismo e no dogmatismo, que fecham a teoria sobre ela própria e a petrificam”, o Direito Ambiental, através do dogmatismo, também se fecha sobre ele mesmo petrificando-se frente os novos direitos. É latente a necessidade de o Direito Ambiental rever seus paradigmas de base e adotar uma postura critica sobre si, possibilitando abertura a novos contextos, principalmente no que se refere a sua função, que permitam a ele ser um mecanismo de alcance da eco-cidadania, abandonando a ideia que o direito se resume a julgar casos concretos sob o crivo de uma dada lei.
Por óbvio, um ordenamento jurídico pressupõe a existência de mais de uma norma, porém é justamente na interação das normas que surgem os principais problemas, pois, na maioria das vezes, esse ordenamento não se constitui um sistema coeso, que atenda à complexidade da sociedade e dos acontecimentos ambientais atuais.17 É a partir da análise das problemáticas que emergem neste cenário que se pode trilhar um novo caminho.
1.3 Os postulados da teoria da complexidade
É na busca de dissipar as brumas e obscuridades do pensamento, produzidas pela ciência clássica, e colocar ordem e clareza no real, revelando as leis que o governam que Morin (2008a) descerra o livro “Introdução ao pensamento complexo”, apresentando um novo paradigma para o conhecimento, como um novo caminho a ser trilhado no afã de superar os limites que a ciência até então não conseguiu transpor.
No sentido de encontrar um novo caminho é que se busca na teoria da complexidade, com aporte específico em Morin, um novo horizonte de possibilidades para a ciência e, consequentemente, para o Direito Ambiental. Porém, antes de direcionar os postulados para o Direito Ambiental, faz-se necessária uma breve digressão sobre esta teoria.
Primeiramente, é preciso ressaltar que o pensamento complexo, ou paradigma da complexidade, não foi criado único e exclusivamente por Morin. Ele tem, na sua essência, aportes de outros importantes autores e teorias,18 cujos trabalhos vêm dando excelentes resultados na física, biologia, ciência da informação, sociologia, antropologia social e principalmente nas propostas de desenvolvimento sustentado.
Morin publicou mais de 50 livros e trabalhos, dentre eles algumas obras nas quais o pensamento complexo se encontra em estágio embrionário, outras introdutórias ao seu pensamento e que fazem um apanhado geral de sua teoria. Porém, a sua obra de maior notoriedade é “O Método”, composto de seis volumes, nos quais a sua teoria da complexidade toma corpo, forma e volume. Suas obras desvendam pontos em comum e elos, uma espécie de recursividade em torno dos assuntos. As temáticas da antropologia, pedagogia, política e aspectos biográficos19
18Inclusive o próprio Morin (2006, p. 11) ressalta que “Esses instrumentos não foram inventados, mas,
em alguns aspectos, foram desenvolvidos e, sobretudo, reagrupados por mim.”
19Inclui-se aqui a questão biográfica, pois, em suas obras e ideias, Morin articula e traz bem presente
as situações presenciadas e vivenciadas em sua vida, sendo que o próprio autor denomina esse movimento de “reorganizações genéticas”, pois os caminhos tortuosos, e algumas vezes até desencontrados, o conduziram a entrar em contato com alguns estudos e teorias que deram os
são temas recorrentes e disseminados no todo das obras. Note-se que a temática da complexidade foi o “farol de Alexandria” na vida de Morin, tornando-se o denominador comum de suas obras, mesmo antes de a palavra complexidade emergir em seu espírito ao final dos anos 60, inicialmente mais ligada à teoria dos sistemas, teoria da informação e da cibernética, para depois, estabelecer um diálogo entre essas teorias, dando seu contorno pessoal ao termo.
Morin (2008a) concebe o mundo como um todo indissociável e propõe uma abordagem transdisciplinar e multirreferenciada para a construção do conhecimento, fazendo emergir a consciência de que é preciso o questionamento no que se refere ao caminho tomado pela ciência, que culminou por moldar o conhecimento numa forma disjuntiva, fragmentada, linear, mecanicista, causalista, legalista, determinista e racionalista. Afirma, ainda, que complexidade não deve ser entendida como complicação,20 mas no sentido de que “a complexidade é um tecido (complexus: o que é tecido em conjunto) de constituintes heterogêneos inseparavelmente associados: coloca o paradoxo do uno e do múltiplo.” (MORIN, 2008a, p. 20).
Dessa forma, a palavra complexidade não é utilizada por Morin como o contraposto de simplicidade. O autor traz, através da etimologia da palavra, o ponto central de sua teoria, que é o entrelaçamento dos conhecimentos, no qual o conhecimento só se torna pertinente à medida que se abre à possibilidade de se inserir num contexto mais global (MORIN, 2007a).
Apesar de o pensamento complexo criticar o pensamento simplificador, ele não busca a sua eliminação, pelo contrário, ele busca integrar o mais possível os modos simplificadores de pensar, porém recusando as suas consequências mutiladoras, redutoras e unidimensionais.
subsídios à construção dos seis volumes do método e o advento da teoria da complexidade (MORIN, 2008a).
20Segundo Morin (2008a, p. 101), “A complicação que é a confusão extrema das iter-retroacções, é
De outro turno, não se pode confundir complexidade com completude,21 pois, apesar de o pensamento complexo buscar a interligação dos ramos do saber num conhecimento transdisciplinar, que foram separados pelo pensamento disjuntivo, Morin (2008a) tem consciência de que o conhecimento completo é impossível, integrando, assim, o princípio da incerteza e incompletude do conhecimento.
É neste espírito que Morin (2008b) busca a formulação de um novo método que permita o avanço tanto do pensamento quanto da ação. Da mesma forma que no método cartesiano, este novo método se inspirou em um princípio fundamental ou paradigma, o paradigma da complexidade, que permite pensar o que estava oculto, reunir o que estava mutilado e articular o que estava separado.
1.3.1 Os operadores da complexidade
Na teoria da complexidade, Morin parte da crítica ao que ele considera os pilares da ciência moderna: a ordem, a separabilidade e as lógicas indutiva e dedutiva, para então buscar, nas teorias da informação, cibernética e dos sistemas,22 a base para formular os postulados do seu método, apresentando alguns princípios que, interligados, complementares e interdependentes, formam os “operadores da Complexidade”.23 Dentre eles, três são de suma importância.24
21O próprio Morin (2008b, p. 37) refere expressamente que “A ruptura com a simplificação me faz
rejeitar, por seu próprio princípio, toda teoria unitária, toda síntese totalizante, todo sistema racionalizador, ordenador.”
22Ao buscar inspiração nas ideias destas teorias, Morin (2008) trabalhou tanto na suas fecundidades
como nas suas insuficiências, para então elaborar a sua teoria da complexidade, numa espécie de teoria de organização dessas ideias.
23A expressão “operadores da complexidade” é utilizada por Morin (2008a) no sentido de serem
princípios que colocam o pensamento em movimento, como se fossem um operador de cinema. Desta forma, fica clara a reorganização genética referida anteriormente, pois Morin era um amante do cinema, tendo, inclusive, dirigido, juntamente com o cineasta e etnólogo Jean Rouch, o filme “crônicas de um verão”, tornando-se marco histórico ao inaugurar o chamado “cinema verdade”.
24No que se refere ao número exato de princípios que a teoria da complexidade adota, verifica-se que
no transcorrer de sua escrita e na medida em que completa sua teoria, Morin aumenta estes princípios, sendo que na obra “Introdução ao pensamento complexo” (2008a) e “Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios” (2007), Morin menciona 3 princípios; na obra “Reformar o pensamento” (2002) cita sete princípios e na obra “Ciência com consciência” (2000) chega a mencionar treze princípios. Porém, para efeitos deste trabalho, deter-se-á em três princípios básicos, os quais dão uma ideia ampla da teoria, sem desmerecer os demais.
O primeiro deles é o operador dialógico,25 que busca unir “dois princípios ou noções antagônicas que aparentemente deveriam se repelir simultaneamente, mas que são indissociáveis e indispensáveis para a compreensão da mesma realidade” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 204). É através da dialogia que se pode juntar, integrar e entrelaçar coisas e pontos de vista que parecem antagônicos ou que foram separadas pela lógica linear de pensamento, como o conceito de ordem e desordem, a razão da emoção, o sensível e o inteligível (MORIN, 2008a). Porém, “o problema é, pois, unir as noções antagônicas para pensar os processos organizadores, produtivos e criadores no mundo complexo da vida e da história humana” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 204). Esta é justamente a primeira dificuldade que os espíritos moldados no pensamento cartesiano enfrentam ao se depararem com a complexidade - unir aquilo que foi separado e excluído, transformando o que era ruído em produção e organização.
Note-se que mesmo a ordem necessita da desordem, até porque a própria “vida nasceu através da desordem, nasceu na desordem. Foi através dos redemoinhos, agitações, turbulências que se formaram as primeiras moléculas, macromoléculas, células vivas.” (FORTIN, 2007, p. 36). Assim, o que em um primeiro momento parecem antagônicos, revelam-se complementares e interdepen-dentes.
O segundo é o operador recursivo, e recursividade significa dizer que uma causa produz um dado efeito que, por sua vez, produz uma causa, diferente da forma que se aprende com o paradigma anterior, no qual a causa “a” gera o efeito “b”, o operador recursivo busca a,
[...] ruptura com a idéia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, uma vez que tudo que é produzido volta sobre o que produziu num ciclo ele mesmo auto-constitutivo, auto-organizador e autoprodutor. (MORIN, 2008a, p. 108).
Portanto, com o operador recursivo, a causalidade passa a ser representada por uma espiral, numa espécie de looping autoprodutivo, que se transforma em “um
25Deve-se ter o cuidado para não confundir dialógico com o método dialético, que é composto de