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1.3 Os postulados da teoria da complexidade

1.3.1 Os operadores da complexidade

Na teoria da complexidade, Morin parte da crítica ao que ele considera os pilares da ciência moderna: a ordem, a separabilidade e as lógicas indutiva e dedutiva, para então buscar, nas teorias da informação, cibernética e dos sistemas,22 a base para formular os postulados do seu método, apresentando alguns princípios que, interligados, complementares e interdependentes, formam os “operadores da Complexidade”.23 Dentre eles, três são de suma importância.24

21O próprio Morin (2008b, p. 37) refere expressamente que “A ruptura com a simplificação me faz

rejeitar, por seu próprio princípio, toda teoria unitária, toda síntese totalizante, todo sistema racionalizador, ordenador.”

22Ao buscar inspiração nas ideias destas teorias, Morin (2008) trabalhou tanto na suas fecundidades

como nas suas insuficiências, para então elaborar a sua teoria da complexidade, numa espécie de teoria de organização dessas ideias.

23A expressão “operadores da complexidade” é utilizada por Morin (2008a) no sentido de serem

princípios que colocam o pensamento em movimento, como se fossem um operador de cinema. Desta forma, fica clara a reorganização genética referida anteriormente, pois Morin era um amante do cinema, tendo, inclusive, dirigido, juntamente com o cineasta e etnólogo Jean Rouch, o filme “crônicas de um verão”, tornando-se marco histórico ao inaugurar o chamado “cinema verdade”.

24No que se refere ao número exato de princípios que a teoria da complexidade adota, verifica-se que

no transcorrer de sua escrita e na medida em que completa sua teoria, Morin aumenta estes princípios, sendo que na obra “Introdução ao pensamento complexo” (2008a) e “Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios” (2007), Morin menciona 3 princípios; na obra “Reformar o pensamento” (2002) cita sete princípios e na obra “Ciência com consciência” (2000) chega a mencionar treze princípios. Porém, para efeitos deste trabalho, deter-se-á em três princípios básicos, os quais dão uma ideia ampla da teoria, sem desmerecer os demais.

O primeiro deles é o operador dialógico,25 que busca unir “dois princípios ou noções antagônicas que aparentemente deveriam se repelir simultaneamente, mas que são indissociáveis e indispensáveis para a compreensão da mesma realidade” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 204). É através da dialogia que se pode juntar, integrar e entrelaçar coisas e pontos de vista que parecem antagônicos ou que foram separadas pela lógica linear de pensamento, como o conceito de ordem e desordem, a razão da emoção, o sensível e o inteligível (MORIN, 2008a). Porém, “o problema é, pois, unir as noções antagônicas para pensar os processos organizadores, produtivos e criadores no mundo complexo da vida e da história humana” (MORIN; MOIGNE, 2000, p. 204). Esta é justamente a primeira dificuldade que os espíritos moldados no pensamento cartesiano enfrentam ao se depararem com a complexidade - unir aquilo que foi separado e excluído, transformando o que era ruído em produção e organização.

Note-se que mesmo a ordem necessita da desordem, até porque a própria “vida nasceu através da desordem, nasceu na desordem. Foi através dos redemoinhos, agitações, turbulências que se formaram as primeiras moléculas, macromoléculas, células vivas.” (FORTIN, 2007, p. 36). Assim, o que em um primeiro momento parecem antagônicos, revelam-se complementares e interdepen- dentes.

O segundo é o operador recursivo, e recursividade significa dizer que uma causa produz um dado efeito que, por sua vez, produz uma causa, diferente da forma que se aprende com o paradigma anterior, no qual a causa “a” gera o efeito “b”, o operador recursivo busca a,

[...] ruptura com a idéia linear de causa/efeito, de produto/produtor, de estrutura/superestrutura, uma vez que tudo que é produzido volta sobre o que produziu num ciclo ele mesmo auto-constitutivo, auto-organizador e autoprodutor. (MORIN, 2008a, p. 108).

Portanto, com o operador recursivo, a causalidade passa a ser representada por uma espiral, numa espécie de looping autoprodutivo, que se transforma em “um

25Deve-se ter o cuidado para não confundir dialógico com o método dialético, que é composto de

processo em que os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores daquilo que os produziu” (MORIN, 2008a, p. 108). Assim, é considerado “como recursivo todo processo pelo qual uma organização ativa produz os elementos e efeitos que são necessários à sua própria geração ou existência” (MORIN, 2008b, p. 231). Este princípio se aplica perfeitamente à sociedade, pois ela é produzida pelas interações entre indivíduos e também influencia com suas interações produzindo os indivíduos, pois os homens só são humanos a partir do momento em que vivem em sociedade e assim dotados de cultura, linguagem e saber (MORIN, 2002). Do contrário, seriam apenas sapiens, em pouco diferenciados de seus parentes primatas.

Da mesma forma, é a sociedade que cria a ciência, que, por sua vez, influencia a sociedade. Alguns paradigmas científicos acabaram por influenciar tão intensamente o comportamento da sociedade, e consequentemente os indivíduos no seu modo de ver, interpretar, ser e estar no mundo que acabaram por se tornar modelos não questionados, autônomos em relação à sociedade.

Por sua vez, o operador hologramático26 postula a não dissociação da relação parte/todo, ou, em outras palavras, quando se vê e não se consegue dissociar a parte do todo, sendo que a parte está no todo, da mesma forma que o todo está na parte,

[...] a idéia do holograma ultrapassa, quer o reducionismo só vê as partes quer o holismo só vê o todo. É um pouco a idéia formulada por Pascal: <<Não posso conceber o todo sem conceber as partes e não posso conceber as partes sem conceber o todo.>> (MORIN, 2008a, p. 109).

Interessante salientar que a parte pode regenerar o todo, assim o holograma pode ser expresso com a seguinte sentença: “o todo está na parte que está no todo, e a parte poderia estar mais ou menos apta a regenerar o todo” (MORIN, 2008c, p. 113, grifo do autor). Este processo de relação de parte e todo se mostra mais claro quando se observa uma célula, que, por possuir a informação genética do todo,

26Morin (2008c) busca no holograma físico a inspiração para o seu terceiro princípio, uma vez que o

menor ponto do holograma contém quase a totalidade da informação do objeto representado. Dessa forma, o todo está na parte, assim como a parte está no todo.

permite a sua clonagem; ou na semente que contém a árvore, que, por sua vez, contém a semente.

O próprio princípio jurídico de que a ninguém é possível alegar desconhecimento da Lei reflete a presença do todo social em cada indivíduo, mesmo consciente de que ninguém possua a totalidade deste saber (MORIN, 2008a). Dessa forma, a “idéia hologramática está ligada à idéia recursiva, que por sua vez está em parte ligada à idéia dialógica” (MORIN, 2008a, p. 109), e é na conjunção desses três operados que vai emergir a noção de totalidade.

Deve-se ter cautela quando se trata da totalidade advinda da conjunção dos operadores, pois, ao contrário da lógica do paradigma anterior, a totalidade dificilmente será igual à simples soma das partes.27 No pensamento da complexidade, a totalidade é sempre mais ou menos que a soma,28 e eventualmente igual à soma.

O todo se torna mais que a soma das partes quando as partes, ao se unirem, produzem emergências. Essas emergências podem ser consideradas “como qualidades ou propriedades de um sistema que apresentam um caráter de novidade com relação às qualidades ou propriedades de componentes considerados isolados ou dispostos diferentemente em um outro tipo de sistema” (MORIN, 2008b, p. 137). Um exemplo é a soma dos indivíduos que faz emergir a sociedade que “comporta igualmente propriedades emergentes: nas sociedades humanas, são os mitos, a moral, as instituições, a cultura.” (FORTIN, 2007, p. 47).

O todo se torna menos que a soma das partes quando as partes, ao serem consideradas no todo, perdem ou tem inibidas algumas de suas qualidades ou propriedades, e “há sempre, e em todo o sistema, e mesmo nos que suscitam emergência, coerções sobre as partes, que impõe restrições e servidões” (MORIN, 2008b, p. 144). Isso se reflete nitidamente nos indivíduos em sociedade, onde “Tabus, interditos, censura são constrangimentos que a sociedade exerce sobre os

27Que remete à noção de totalidade fechada. 28Que remete à noção de totalidade aberta.

indivíduos. Estes constrangimentos podem mesmo a ir ao ponto de anularem toda a liberdade, como acontece nas ditaduras e nos sistemas totalitários.” (FORTIN, 2007, p. 47).

Outro aspecto importante abordado por Morin (2000) diz respeito à razão, e, partindo do pressuposto de que a razão é um conjunto de regras lógicas que se utilizam para conhecer determinada coisa ou “um método de conhecimento baseado no cálculo e na lógica” (2000, p. 157), o ser humano, ao se considerar 100% racional, acabou por ingressar num racionalismo, ou seja, na ilusão de que tudo na vida é guiado pela razão, excluindo do real o irracional e o arracional (MORIN, 2000).

Junto à noção de racionalismo está a de racionalidade, que “é o estabelecimento de adequação entre uma coerência lógica (descritiva, explicativa) e uma realidade empírica” (MORIN, 2000, p. 157). Ou seja, é quando se busca adequar meios a fins, pouco se importando com eles.

Por fim, para Morin (2007a, p. 58), a racionalização seria o pior efeito da razão, pois passa-se a acreditar “que o real pode esgotar-se num sistema coerente de idéias”, ou, em outras palavras, quando a razão se fecha nela mesma a partir de uma visão parcial e não quer saber de mais nada que não seja racionalizável.

No mesmo sentido, Touraine (1994) também critica a racionalização a partir do momento em que se tornou um instrumento de violação da autonomia, porém lembra um viés positivo, pois foi o instrumento que se contrapôs ao espírito da Idade Média introduzindo a crítica e o científico.

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