CAMPUS UNIVERSITÁRIO DA REGIÃO DOS VINHEDOS ÁREA DO CONHECIMENTO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS
DAIANE GAVA
A (IN)VIABILIDADE JURÍDICA DA PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO
BENTO GONÇALVES 2019
DAIANE GAVA
A (IN)VIABILIDADE JURÍDICA DA PRIVATIZAÇÃO DO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à banca examinadora no Curso de Direito, no Campus Universitário da Região dos Vinhedos, da Universidade de Caxias do Sul, como requisito paracial à obtenção do título de Bacharel em Direito, nas áreas de Direito Penal e Direito Administrativo.
Orientadora: Prof.ª Ms. Jussara de Oliveira
Machado Polesel
BENTO GONÇALVES 2019
Dedico esse trabalho à minha família, e, em especial aos meus pais, Nair e Gilmar, que sempre demonstraram apoio e compreensão nas horas difíceis, contribuições que possibilitaram essa conquista.
AGRADECIMENTOS
Durante a longa caminhada que percorri do primeiro dia de aula até a conclusão do curso muitas pessoas cruzam meu caminho, tanto no ambiente acadêmico, como no profissional e pessoal, e a cada uma delas teria algo para agradecer.
No entanto, nesse momento de suma importância opto por expressar meus sinceros agradecimentos as pessoas que estiveram sempre presentes e que me auxiliaram a atingir esse objetivo.
Agradeço aos meus pais Gilmar e Nair, pelo apoio e incentivo que serviram de base para a realização do meu sonho. Agradeço também, pela paciência e compreensão nos momentos difíceis, que foram alguns, e por nunca me deixarem desistir.
Agradeço a minha irmã Luane, que apesar da distância sempre demonstrou sua atenção pela minha caminhada, assim como pelos conselhos nas horas necessárias.
Por fim, agradeço a minha orientadora Jussara pela sua admirável dedicação e comprometimento com a elaboração do presente trabalho. Seus conhecimentos foram essenciais para o resultado final desse trabalho. E agradeço, é claro, pela paciência e inúmeras horas dispensadas para sanar minhas dúvidas.
“Não existe nada e nem ninguém que poderá devolver ao preso a dignidade de ser humano que lhe foi aniquilada” (D‟urso, 1999).
RESUMO
O presente estudo tem por objetivo a análise da (in)viabilidade jurídica da privatização do sistema prisional brasileiro, fenômeno que vem sendo implementado por diversos Estados brasileiros. A falência do sistema prisional brasileiro, diante da superlotação e total ineficiência do Poder Público em recuperar a pessoa do preso para o retorno ao convívio social são alguns dos problemas que fundamentam o crescente interesse pela adoção do modelo de gestão privada dos presídios. Sendo a privatização do sistema prisional um assunto atual e em gradativa expansão, realizou-se um estudo acerca do tema, a fim de compreender como a execução da pena evoluiu até a criação dos estabelecimentos carcerários, tal como hoje concebemos. Além disso, foram analisados os modelos de privatização existentes, sendo eles o modelo norte-americano, no qual o Estado transfere toda a responsabilidade pela execução da pena ao particular, e o modelo francês, através do qual Estado e particular gerenciam o estabelecimento prisional em conjunto. Para que fosse possível verificar a (in)viabilidade jurídica da privatização dos presídios frente ao ordenamento jurídico vigente no Brasil, foram estudadas as experiências privatizadoras já implementadas no Brasil e a sua compatibilidade com o ordenamento vigente, momento em que se verificou que dos oito Estados que adotaram a ideia da privatização, somente o Estado de Minas Gerais implementou um presídio pelo modelo norte-americano, enquanto os demais Estados sempre mantiveram a administração conjunta com o particular, ou seja, a privatização ocorreu por meio do modelo francês. Diante do estudo realizado foi possível compreender que, sendo o Estado o único e legítimo detentor do direito de punir, a privatização do sistema prisional brasileiro é inviável, diante da previsão no ordenamento jurídico da indelegabilidade da responsabilidade pela execução da pena privativa de liberdade ao ente privado. No entanto, o que pode ocorrer no sistema penitenciário brasileiro é a terceirização dos serviços chamados de hotelaria, ou seja, o Estado poderia, por meio de parceria público-privada, na modalidade de contrato admnistrativo, delegar ao particular a resposabilidade pela execução de serviços de alimentação, vestuário, limpeza, higiene, atendimentos médicos e odontológicos, entre outros. Nesses moldes, a responsabilidade pela execução da pena de prisão permanece sob a égide do Estado.
Palavras-chaves: Sistema peniténciário. Privatização dos Presídios. Execução da
ABSTRACT
The present study has the objective of analyzing the (in) legal feasibility of the privatization of the Brazilian prison system, a phenomenon that has been implemented by several Brazilian states. The bankruptcy of the Brazilian prison system, due to the overcrowding and total inefficiency of the Public Authorities in recovering the prisoner's person to return to social life are some of the problems that underlie the growing interest in adopting the model of private management of prisons. Since the privatization of the prison system is a current and gradually expanding subject, a study of the subject was carried out in order to understand how the execution of the sentence has evolved until the establishment of prison establishments, as we conceive it today. In addition, the existing models of privatization have been analyzed, such as the US model, in which the State transfers all responsibility for the execution of the sentence to the individual, and the French model, through which the State and private manages the prison establishment in set. In order to verify the legal feasibility of the privatization of the prisons in relation to the legal system in force in Brazil, the privatization experiences already implemented in Brazil and their compatibility with the current legislation were studied, when it was verified that of the eight States which adopted the idea of privatization, only the state of Minas Gerais implemented a prison by the North American model, while the other states always maintained joint administration with the private, that is, privatization occurred through the French model. In view of the study carried out, it was possible to understand that, since the State is the sole and legitimate holder of the right to punish, the privatization of the Brazilian prison system is impracticable, due to the prediction in the legal system of the illegibility of the responsibility for the execution of the custodial sentence by the private. However, what may occur in the Brazilian penitentiary system is the outsourcing of services called hospitality, that is, the State could, through a public-private partnership, in the form of an administrative contract, delegate to the private the responsibility for the execution of services of food, clothing, cleaning, hygiene, medical and dental care, among others. In such a way, the responsibility for the execution of the prison sentence remains under the aegis of the State.
Keywords: Penitentiary system. Privatization of prisons. Execution of the Private
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 9
2 PENA DE PRISÃO, SISTEMAS PRISIONAIS E SERVIÇO PÚBLICO DE SEGURANÇA ... 12
2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PENA E SISTEMAS PRISIONAIS ... 12
2.2 HUMANIZAÇÃO DO CÁRCERE E FINALIDADES DA PENA DE PRISÃO ... 22
2.3 SERVIÇO PÚBLICO DE SEGURANÇA: GERENCIAMENTO PRISIONAL ... 32
3 A PRIVATIZAÇÃO DOS PRESÍDIOS E A SUA (IN)VIABILIDADE JURÍDICA NO SISTEMA PRISIONAL BRASILEIRO ... 46
3.1 O SURGIMENTO DA IDEIA PRIVATIZADORA DO SISTEMA PRISIONAL NO CONTEXTO MUNDIAL E A SUA IMPLEMENTAÇÃO NO BRASIL ... 46
3.2 ANÁLISE DOS MODELOS DE PRESÍDIOS ADMINISTRADOS EM CONJUNTO COM A INICIATIVA PRIVADA NO BRASIL ... 57
3.3 A (IN)VIABILIDADE DE PRIVATIZAÇÃO DOS ESTABELECIMENTOS PRISIONAIS BRASILEIROS À LUZ DO ORDENAMENTO JURÍDICO VIGENTE .... 69
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 87
1 INTRODUÇÃO
Durante o século XVIII as penas deixaram de ser corporais e, de forma gradual, ocorreu a inserção da pena privativa de liberdade. Até então, a restrição da liberdade possuía somente natureza cautelar, ou seja, era utilizada como meio de custódia, com a finalidade de impedir a fuga do acusado enquanto a sua condenação não era proferida. No entanto, a partir do referido século, a pena privativa de liberdade passou a exercer, por meio do recolhimento do autor do delito à prisão, o papel de punição pela prática da infração delituosa.
Cabe ressaltar que, paralelamente à evolução dos objetivos da aplicação da pena privativa de liberdade, ocorreu o deslocamento do poder punitivo: antes pertencia ao particular, agora passa a ser do Estado, exclusivamente. Assim, as prisões passam a demonstrar, de forma real, o poder punitivo estatal. Em decorrência disso, essa nova forma de pena passou a integrar o rol de punições do Direito Penal, sendo aplicada de maneira preponderante em quase todos os delitos.
Ocorre que, devido ao fato de a pena restritiva de liberdade ter sido empregada, por muito tempo, com objetivo processual e não punitivo, não existia a preocupação de como a custódia cautelar deveria ser aplicada, razão pela qual os acusados permaneciam em locais com condições precárias de higiene e alimentação escassa, sendo por muitas vezes privados da luz do sol e submetidos a castigos corporais.
Diante desta realidade, surgiu a necessidade de o Estado, como detentor do
ius puniendi, desenvolver sistemas penitenciários que assegurassem o respeito à
dignidade da pessoa humana, e não submeter os apenados a tratamentos degradantes. Ainda, e não menos importante, os novos sistemas prisionais deveriam viabilizar que a pena alcançasse seus novos objetivos, que passaram a ser a ressocialização, a reeducação e a prevenção.
No Brasil, a pena restritiva de liberdade foi introduzida após a publicação do Código Criminal Imperial, em 1830, porém, a nova legislação não determinou o modelo de sistema penitenciário a ser adotado. Observa-se que ao tempo da edição da referida norma as penitenciárias existentes eram precárias, e refletiam problemas como a falta de espaço para acomodação dos presos e a deterioração das instalações.
Ocorre que, mesmo após transcorridas muitas décadas, é possível constatar que o sistema prisional brasileiro na atualidade não reflete características muito distintas daquelas presentes nos primeiros modelos carcerários. O Estado falha ao exercer seu poder-dever na aplicação das penas privativas de liberdade. Problemas como a superlotação das casas prisionais, os gastos elevados desprendidos no gerenciamento, as condições precárias das instalações e facções criminosas atuantes no interior dos presídios reduziram significativamente a possibilidade de o preso retornar ao convívio social readaptado.
Diante deste contexto, na tentativa de sanar, ou ao menos minimizar os efeitos degradantes do cárcere, e de reorganizar os estabelecimentos prisionais em funcionamento no Brasil, a privatização do sistema prisional brasileiro surge como uma possibilidade de melhoria nas condições estruturais, financeiras e, especialmente, objetiva garantir a finalidade social da pena.
No entanto, é necessário considerar que o Estado ainda é o único detentor do ius puniendi, podendo, por este motivo, utilizar a força como medida para retirar o criminoso da sociedade e puni-lo pelo delito praticado, todavia, esse novo modelo de sistema prisional, tem como ideia principal que o ente particular seja o responsável pelo gerenciamento do estabelecimento prisional. Diante do exposto, surge o problema de pesquisa: Qual é a viabilidade jurídica da implementação de presídios privatizados no ordenamento jurídico brasileiro?
A problemática é de interesse público e social, pois é incontestável a ineficiência do sistema prisional existente atualmente no Brasil, razão pela qual a intervenção da iniciativa privada no gerenciamento das casas prisionais surge como uma alternativa na busca pelos objetivos ressocializadores do cárcere.
Neste ínterim, o presente trabalho tem por objetivo geral analisar se a privatização do sistema prisional possui amparo legal frente ao ordenamento jurídico brasileiro para ser implementada, e tem por objetivos específicos: conhecer a evolução histórica da pena de prisão e sistemas prisionais; entender quando ocorreu a humanização da pena e quais as finalidades do cárcere; conceituar serviço público de segurança; analisar o contexto em que surge a ideia de privatização do sistema prisional a nível mundial; realizar um estudo das experiência privatizadas já implementadas no Brasil; e por fim compreender se no ordenamento jurídico existe previsão legal que viabilize a implementação da privatização do sistema carcerário brasileiro pelos estados.
O presente trabalho de conclusão foi elaborado através de pesquisa bibliográfica, envolvendo literatura clássica e atual, doutrina, artigos científicos, teses, legislação, e casos concretos. Esse método de pesquisa permitiu entender como surgiu a pena e os modelos prisionais utilizados na atualidade, bem como aprofundar o questionamento sobre a possibilidade da prestação do serviço de segurança pública, em especial o gerenciamento dos estabelecimentos prisionais, de forma privatizada, segundo a legislação brasileira.
Para alcançar os objetivos aqui expostos, o presente estudo está dividido em em dois capítulos centrais. No primeiro capítulo faz-se uma análise histórica da pena e do sistema prisional, de forma a elucidar as razões pelas quais a pena privativa de liberdade é a aplicada na maioria dos delitos, visando também esclarecer em que momento a pena torna-se mais humana e quais são os objetivos desejados com o encarceramento. Ainda, neste capítulo, também se faz uma abordagem acerca do serviço de segurança pública que a aplicação dessa medida de restrição de liberdade demanda e, por consequência, a quem incumbe o dever de prestar, legislar, custear etc.
O segundo capítulo visa contextualizar, primeiramente, o surgimento da ideia privatizadora do sistema prisional em um contexto mundial. Posteriormente, será analisado como surgiu a proposta da privatização do sistema prisional brasileiro, bem como será realizado um estudo das experiências privatizadas já implementadas pelos Estados brasileiros. Por fim, serão examinadas as formas de privatização existentes no ordenamento jurídico brasileiro, para então poder determinar a (in) viabilidade da privatização do sistema prisional brasileiro à luz do ordenamento jurídico em vigor, visando compreender, também, se essa proposta pode vir a ser uma possível solução para os problemas enfrentados pelo Estado brasileiro quando da execução da pena privativa de liberdade.
2 PENA DE PRISÃO, SISTEMAS PRISIONAIS E SERVIÇO PÚBLICO DE SEGURANÇA
A decadência do sistema prisional é notória e as razões para tanto são de conhecimento público. Estabelecimentos carcerários cada vez mais lotados, injustiças, violência e a ociosidade são apenas alguns dos motivos que contribuem para a formação do quadro caótico dos presídios na atualidade. A sociedade anseia por uma mudança que resulte em uma aplicação de pena privativa de liberdade capaz de alcançar suas finalidades, quais sejam, a reeducação, a ressocialização e a prevenção.
Destarte, para instrumentalizar a presente discussão sobre o tema e problema propostos no presente estudo, o capítulo que segue aborda uma evolução histórica da pena e sistemas prisionais, visando compreender de que forma a pena privativa de liberdade passou a ser aplicada por excelência no Brasil. Também, analisa a prestação do serviço público de segurança, com ênfase no gerenciamento prisional, a fim de identificar quem possui a competência pela sua prestação.
2.1 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PENA E SISTEMAS PRISIONAIS
Não se pode desenvolver qualquer estudo aprofundado sobre a situação carcerária vivenciada na atualidade sem antes compreender a origem da pena, bem como as razões pelas quais a pena restritiva de liberdade passou a ser aplicada como principal forma de sanção pelo delito praticado, posto que tais fatores estão intimamente ligados à existência do sistema prisional.
É possível afirmar com toda a convicção que o homem nasceu para ser livre e, portanto, a restrição de sua liberdade torna-se seu próprio inferno. Para melhor entender de que forma a restrição da liberdade passou a fazer parte da gama de punições adotadas atualmente, deve-se considerar que com o surgimento das civilizações, período em que as sociedades ainda não eram devidamente organizadas e a figura do Estado era inexistente, os povos primitivos utilizavam de meios para reprimir a agressão injusta sofrida, a fim de manter a ordem social (CORDEIRO, 2014, p. 10).
Segundo Greco (2015, p. 15), “Era uma questão de sobrevivência do próprio grupo ter algum tipo de punição que tivesse o condão de impedir comportamentos que colocavam em risco a sua existência”.
Sendo assim, nessa forma primária de sociedade a punição pelo mal causado era entendida como um dever sagrado em que o integrante de determinada família teria de matar o membro de outra família, caso um de seus companheiros tivesse sido vítima de homicídio (MARQUES, 2016, p. 13).
Muitos autores, tais como Marques (2016) e Greco (2017), consideram que foi nesse período, conhecido como vingança privada, no qual o particular exercia o poder punitivo, que se deu o surgimento da pena. No entanto, considerar os atos praticados pelos homens daquela época como pena é inaceitável, uma vez que, ao exercerem essa maneira primitiva do direito de punir, os castigos aplicados por diversas vezes eram desproporcionais entre a ofensa e a agressão, resultando, dessa forma, em uma vingança.
Como ensinam Shecaria e Corrêa (2002, p. 27), na antiguidade, a execução do condenado se dava na forca, cruz, serra, fogo, apedrejamento, espada, afogamento, roda, esquartejamento, animais ferozes, flecha, martírio com espinhos, quedas em precipícios etc.
Noronha (1998, p. 20) ensina que “a pena, em sua origem, nada mais foi que a vindita, pois é mais que compreensível que naquela criatura, dominada pelos instintos, o revide à agressão sofrida devia ser fatal, não havendo preocupação com a proporção, nem mesmo com a justiça”.
A fase da vingança privada era desvinculada de qualquer poder central para delimitar as punições e até mesmo racionalizar acerca da proporção da sanção, e como consequência, a vingança “tornava-se interminável e gerava guerras infindáveis entre as famílias, em prejuízo da própria comunidade, que restava enfraquecida” (MARQUES, 2016, p. 15).
Destaca-se que nesse momento as penas “não somente atingiam o autor da infração penal, como também a sua família, o seu clã, o grupo social em que estava inserido; enfim, todos eram responsabilizados pelo comportamento daquele que a havia efetivamente praticado” (GRECO, 2017, p. 81).
Em face da necessidade de preservação do grupo social e a fim de garantir a sobrevivência da espécie, tornou-se necessário que um ente central detivesse o poder punitivo, buscando-se, assim, evitar a desproporcionalidade na aplicação da pena.
Diante disto, segundo Marques (2016, p. 15), “o particular foi impedido de exercer a vingança e passou a constituir crime o fazer justiça por mãos próprias”.
Essa transferência do poder punitivo do particular para um poder central buscaria minimizar os atos praticados em nome da vingança, com a finalidade assegurar a ordem social, garantindo, assim, a sobrevivência e a preservação da comunidade.
Com isso, pode-se afirmar que o direito de punir exercido pelo Estado, em molde semelhante ao que hoje conhecemos, começa a ganhar contorno, mesmo que de maneira tímida e, em decorrência, inicia-se o desenvolvimento de normas e sanções apropriadas para a época, que posteriormente foram fundamentais para o progresso do Direito Penal.
Souza e Japiassú (2018, não paginado) ensinam que:
Talvez a primeira grande inovação em matéria penal surgida na Antiguidade tenha sido a lei do talião, encontrada no Código de Hammurabi, na Babilônia, no Código de Manu indiano, na Lei das XII Tábuas romana, na legislação mosaica, entre outros. A lei do talião, que previa o famoso “olho por olho, dente por dente”, estabeleceu, pela primeira vez, a ideia de proporcionalidade entre crime e pena, limitando, desta maneira, a vingança privada.
A Lei do Talião surge com o objetivo de evitar a dizimação da civilização, impondo proporcionalidade entre a ofensa e a reação – “sangue por sangue, olho por olho, dente por dente” – muito embora o direito de punir ainda pertencesse ao particular (MIRABETE, 2002, p. 36).
Necessário compreender que a adoção dessa nova forma de punição buscava proteger a civilização de sua própria dizimação, uma vez que a busca pela vingança, por vezes, acabava em guerras prolongadas que fugiam completamente do controle da sociedade.
Ademais, após a implementação da Lei do Talião como uma forma de melhorar a aplicação de sanções pelos delitos praticados, surge na sociedade o instituto da composição, o qual, de acordo com Mirabete (2002, p. 36), consistia em um “sistema pelo qual o ofensor se livrava do castigo com a compra de sua liberdade (pagamento em moeda, gado, armas etc.)”. Observa-se, portanto, que os castigos deixam de ser corporais e fundamentados no sofrimento pessoal do ofensor e a punição pelo delito praticado passa a ter também um cunho pecuniário, ou seja, o ofensor deveria pagar pela sua liberdade, seja com valores em espécie ou dando bens de sua propriedade.
Posteriormente, com o advento da Idade Média, as penas deixaram de possuir a finalidade de vingança pessoal e passou a perpetuar o “caráter sacro da
punição, que continuava severa, mas havia, ao menos, o intuito corretivo, visando a regeneração do criminoso” (NUCCI, 2019, p. 43).
Mister mencionar que, nessa fase, denominada de vingança divina, “o cometimento de um crime, apesar de atingir a determinado indivíduo, antes de tudo, importava numa ofensa aos deuses” (CORDEIRO, 2014, p. 11). Dessa forma, a punição pelo delito passou a ser exercida pelos sacerdotes, pois acreditava-se que eles pudessem redimir a alma do criminoso.
Foi durante esse período histórico que surgiram os árbitros, os quais possuíam como função resolver o conflito entre as partes, por serem terceiros alheios aos fatos. Segundo ensina Greco (2017, p. 85), “essa atribuição era confiada aos sacerdotes, em virtude de sua ligação direta com Deus [...]”.
Conclui-se que durante a fase da vingança divina “o jus puniendi possuía um cunho religioso e tinha seu fundamento na justiça divina. A punição representava a própria vontade dos deuses” (CORDEIRO, 2014, p. 11).
As penas aplicadas durante esse período em que prevalecia o direito penal religioso, teocrático e sacerdotal eram de caráter corporal, severas e cruéis (BITENCOURT, 2018, p. 112). O fundamento utilizado para justificar tamanhas atrocidades praticadas em desfavor daqueles que praticavam delitos era aplacar a ira dos deuses.
Em uma última evolução da pena para o modelo mais próximo daquela que conhecemos e utilizamos na atualidade, o Estado, atraiu para si a responsabilidade para a resolução de conflitos, assim como assumiu a competência pela execução das penas (GRECO, 2017, p. 85).
Sendo assim, conclui-se que nessa última fase, denominada vingança pública, o direito de punir o criminoso pelo delito praticado, que antes pertencia ao ente particular, agora é transferido ao Estado, que se encarrega de analisar o direito aplicável ao caso, bem como de executar a pena imposta ao delito.
Beccaria (1764/2016, p. 23) acreditava que o direito de punir consistia no conjunto de porções de liberdade que os integrantes de uma sociedade cediam para que o bem geral fosse garantido e, diante da necessidade de proteção desse conjunto de porções de liberdade, nasceram as penas, ou seja, o Estado criou mecanismos de proteger a confiança depositada pelos cidadãos.
Portanto, nesse momento histórico em que as civilizações já tinham uma melhor estrutura e organização social, e o Estado assumiu o poder-dever de aplicar a punição aos criminosos. A repressão criminal, portanto:
[...] destina-se a proteger determinados bens e interesses, considerados de grande valor para a vida social. Pretende-se, por meio da incriminação, da imposição da sanção e de sua efetiva execução, evitar que esses comportamentos se realizem (SOUZA; JAPIASSÚ, 2018, não paginado).
Muito embora a pena tenha sofrido alterações durante a evolução das sociedades, deve-se considerar que essas mudanças não ocorreram de forma repentina, sendo assim, as fases, em dados momentos da evolução, confundiam-se. Torna-se necessário enfatizar tal situação uma vez que o Estado, após atrair para si o ius puniendi, continuou a aplicar penas degradantes, cruéis e desumanas, ou seja, “o mal da infração penal era pago com o sofrimento físico e mental do criminoso” (GRECO, 2017, p. 86).
Durante esse período, a pena privativa de liberdade não possuía características de sanção pelo delito praticado, e sim, era utilizada como meio de custódia do infrator até que seu julgamento ocorresse, ou seja, a finalidade de restringir a liberdade do infrator era garantir a aplicação da sentença (CORDEIRO, 2014, p. 12).
Somente com a virada do século XVIII (GRECO, 2017, p. 87), a pena privativa de liberdade deixa de possuir a finalidade custodial, ou seja, deixou de ser uma necessidade meramente processual com o objetivo de garantir a aplicação da pena, sendo que as “mais utilizadas eram as corporais, a pena de morte, além das chamadas penas infamantes” (GRECO, 2015, p. 24), e passa a ser aplicada como pena principal ao delito praticado.
Diante dessa nova realidade, é essencial ter em mente que as casas prisionais existentes durante esse período eram utilizadas meramente para impedir a fuga dos criminosos antes de a sentença ser aplicada, por essa razão, não havia preocupação alguma por parte do Estado em relação a situação carcerária.
Sendo assim, para uma melhor compreensão da realidade vivenciada nos presídios nos tempos modernos, mister analisar o contexto histórico em que surgiram os primeiros estabelecimentos prisionais sob essa nova perspectiva, bem como suas mudanças ao longo dos tempos.
Cordeiro (2014, p. 18) afirma que “a prisão passou a ser a própria representação do direito de punir e a pena prisional passou a ser aplicada por excelência a quase, todos os tipos de crime, a partir do fim do século XVIII e início do século XIX”.
Foucault (1975/2014, p. 249) descreve a pena de prisão da seguinte forma:
A prisão, essa região mais sombia do aparelho de justiça, é o local onde o poder de punir, que não ousa mais se excercer com o rosto descoberto, organiza silenciosamente um campo de objetividade em que o castigo poderá funcionar em plena luz como terapêutica e a sentença se inscrever entre os discursos do saber.
Portanto, o Estado, figura dotada de poder soberano e responsável pela proteção das liberdades individuais, assume a competência pelo exercício do direito de punir, dessa forma, o apenado saberia exatamente quem o estava punido. Além disso, por meio do desenvolvimento de legislações que previam os delitos e suas respectivas sanções, passou-se a entender que a aplicação da pena de prisão adquire um caráter de legalidade.
Sendo assim, em razão do encarceramento não ser mais utilizado como um meio para a punição e sim como objetivo final, essa alteração ensejou a criação, idealização e desenvolvimento de diversos sistemas prisionais ao redor do mundo.
Segundo Carvalho Filho (2002, p. 22), “o objeto da punição não é mais o corpo do condenado, é sua alma. O tempo perdido, moeda de valor, passa a ser a base da resposta do Estado à criminalidade”.
Observa-se que essa transformação da função da pena privativa de liberdade ocorreu em conjunto com a Revolução Industrial, momento em que a população começou a se deslocar em massa do campo para as cidades. Todavia, apesar do constante crescimento, a indústria não foi capaz de absorver toda a mão de obra disponível (CORDEIRO, 2014, p. 26).
Por consequência, o número de desempregados toma proporções alarmantes, o que desencadeia a “marginalização, a miséria, a fome, o desemprego, o crime, a prisão” (CORDEIRO, 2014, p.26). Ou seja, nessa fase da evolução a massa carcerária deixa de ser composta somente por criminosos e inclui-se os desempregados, mendigos.
É possível concluir que o “surgimento da prisão acontece não por um propósito humanitário, mas pela necessidade de “domesticar” setores
marginalizados pela nascente economia capitalista” (CARVALHO FILHO, 2002, p. 22). Sendo assim, com o objetivo de aplacar o cometimento de delitos, e diante da necessidade do Estado em manter a ordem social e reafirmar seu poder, surgem, na Inglaterra, as Houses of Correction, as quais possuíam como “objetivo corrigir o infrator através do trabalho e do ensino religioso” (CORDEIRO, 2014, p. 27).
Posteriormente, na Holanda, surgiram casas de correção conhecidas como
Rasp-huis, para os homens, e Spinhis, para as mulheres (GRECO, 2017, p. 103),
nas quais o trabalho era obrigatório, “sob o argumento de que com o trabalho duro, penoso, aquele sujeito considerado delinquente poderia ser reformado” (GRECO, 2017, p. 103):
No Rasphius de Amsterdã, a pena aplicada poderia ser reduzida conforme o comportamento do detento. O trabalho era obrigatório, comum e remunerado. As celas eram ocupadas por vários detentos, os quais deveriam obedecer a horários rigorosos; as normas de disciplina eram severas, prevendo deveres e vedações, tudo com o objetivo de “desviar o prisioneiro do caminho do mal” (CORDEIRO, 2014, p. 27).
Nos primeiros modelos prisionais o trabalho a ser desenvolvido pelos presos era o ponto central e, portanto, obrigatório, uma vez que acreditava-se que os criminosos somente seriam recuperados por meio do labor.
Ademais, compreende-se que nos primeiros modelos de sistemas prisionais a finalidade almejada com a privação da liberdade do delinquente era evitar a prática de novos delitos, não existindo preocupação alguma com as possíveis mudanças que a pena poderia ocasionar no delinquente, ou seja, o Estado buscava meramente diminuir a criminalidade sem utilizar a pena como meio de reeducação e ressocialização do criminoso.
Diante da necessidade de utilizar a pena como meio para recuperar o delinquente, surgem, portanto, “os sistemas penitenciários pensilvânico, auburniano e progressivo” (CORDEIRO, 2014, p. 27). Necessário esclarecer que os pensadores desse período repudiavam as penas corporais e aflitivas, bem como criticavam de forma enfática a pena de prisão aplicada à época, uma vez que essa não detinha a característica de ressocializar o criminoso e nem preservavam a dignidade da pessoa humana (GRECO, 2017, p. 104).
Os criadores do sistema pensilvânico propuseram que os presos deveriam ser recolhidos às suas celas, onde deveriam permanecer em silêncio absoluto,
sendo o contato com o mundo exterior vedado. Acreditava-se que “o isolamento seria capaz de propiciar ao preso o repensar de sua conduta” (CORDEIRO, 2014, p. 28).
O sistema pensilvânico sofreu grande influência religiosa, inclusive a única leitura permitida aos detentos era da Bíblia, pois acreditava-se que dessa forma os presos poderiam redimir-se dos males causados (CORDEIRO, 2014, p. 28).
A primeira penitenciária a adotar o modelo pensilvânico foi Walnut Street, na Filadélfia, em 1790 (CARVALHO FILHO, 2002, p. 25), todavia, o modelo pensilvânico não foi acolhido em sua plenitude, posto que o isolamento somente era aplicado aos criminosos mais perigosos, enquanto que os que ofereciam menor potencial ofensivo ficavam em celas comuns, em conjunto, mas em obrigatório e total silêncio.
Além disso, existia na Filadélfia uma organização de sociedades comunitárias denominada Philadelphia Society for Alleviating the Miseries of Public
Prisons, que lutava pela modificação das leis que estabeleciam penas degradantes
aos presos, tendo obtido êxito em alguns casos (GRECO, 2017, p. 121).
Ocorre que, devido à imposição do silêncio absoluto e isolamento a que os presos eram submetidos, desenvolveu-se dentro dos estabelecimentos penitenciários uma loucura, uma vez que esse modelo prisional, “além de extremamente severo, impossibilitava a readaptação social do condenado, em face do seu isolamento” (GRECO, 2017, p. 122).
Conforme leciona Cordeiro (2014, p. 29):
Em verdade, esse silêncio absoluto a que eram submetidos os presos não possuía nenhum propósito reabilitador, servindo apenas para retirá-los completamente do meio social em que dantes viviam. Esse sistema, pelo isolamento total que impunha, veio a provocar nos presos uma doença denominada de “loucura penitenciária”.
Levando em conta o enlouquecimento da massa carcerária, bem como o valor necessário para manter cada preso isolado em uma cela, esse modelo de prisão tornou-se inviável, principalmente ao considerar o aumento da criminalidade na época.
Posteriormente, com o objetivo de superar as críticas impostas ao Sistema Pensilvânico, surge o sistema auburniano, que ficou conhecido por esse nome em virtude de ter sido a penitenciária construída na cidade de Auburn, em Nova Iorque,
em 1818 (GRECO, 2017, p. 122). Nessa nova forma de penitenciária a regra do silêncio absoluto foi mantida, no entanto, o isolamento passa a ocorrer somente no período da noite, podendo os presos trabalharem em conjunto durante o dia, repisa-se em total silêncio.
No sistema auburniano o trabalho era obrigatório e os prisioneiros recebiam uma pecúnia para custear as despesas da prisão, bem como para servir de reserva para quando dela saíssem. Vale ressaltar que essa valorização de uma atividade laboral não se revestia de fins humanitários nem se acreditava no poder de reforma do trabalho prisional, era apenas uma questão de mera conveniência, pois, nos Estados Unidos, a emergente e crescente industrialização necessitava de mão de obra. Nem mesmo a força de trabalho do preso poderia ser dispensada (CORDEIRO, 2014, p. 29-30).
Ou seja, o trabalho ganhou tamanha importância nesse sistema, pois, no momento em que surgiu, os Estados Unidos encontravam-se em plena expansão industrial e a oferta de mão de obra era escassa, razão pela qual o trabalho foi imposto de maneira obrigatória aos detentos.
No entanto, obsta esclarecer que, com a utilização de mão de obra dos presos, “os custos de produção se tornavam bem menores, beneficiando algumas empresas e produtos em detrimento de outros” (CORDEIRO, 2014, p. 30) e, por essa razão, os sindicatos não concordavam com a utilização da mão de obra do preso.
Observa-se que o sistema auburniano, assim como o sistema pensilvânico, não possuía qualquer preocupação com a finalidade ressocializadora da pena, na verdade, o principal objetivo a ser alcançado por intermédio do cárcere era a “finalidade utilitária consistente na exploração da mão de obra carcerária” (BITENCOURT, 2004, p. 71).
Além do mais, “os castigos corporais não foram abolidos na prisão de Arburn, sendo aplicados, muitas vezes, coletivamente, quando não se conseguia descobrir qual dos detentos havia infringido as normas carcerárias” (GRECO, 2017, p. 123).
Por fim, surge o sistema progressivo, no qual levava-se em consideração o trabalho e o comportamento do preso para analisar a viabilidade de progressão no cumprimento da pena (CORDEIRO, 2014, p. 31), ou seja, o tempo de punição a ser cumprido pelo detento era distribuído em períodos, sendo que a cada nova etapa os privilégios concedidos ao preso eram ampliados.
Segundo Oliveira (2002, p. 52), a criação desse sistema é atribuída ao Capitão da Marinha Real Inglesa Alexandre Maconochie, em 1840, na Ilha de Norfolk, Austrália, pois criou tal sistema para aplicar no presídio em que era diretor.
Menciona Greco (2017, p. 123) que o capitão da marinha “impressionado com o tratamento desumano que era destinado aos presos degregados para a Austrália, resolveu modificar o sistema penal”.
Sendo assim, o sistema progressivo, que também ficou conhecido como
mark system, “consistia em medir a duração da pena por soma de trabalho e de boa
conduta imposta ao condenado. Referida soma era representada por certo número de marcas ou vales [...]” (BITENCOURT, 2004, p. 84).
O preso, para alcançar a sua libertação, necessitava atingir certo número de vales, os quais correspondiam à gravidade do delito por ele praticado, por essa razão, afirma-se que nesse sistema o cumprimento da pena passou a ser por prazo indeterminado.
Ao idealizar o sistema progressivo, Alexandre Maconochie subdividiu a execução da pena em três estágios. No primeiro período, o qual era chamado de prova, ao preso era imposto o isolamento total, além do trabalho durante o período diurno que era obrigatório (OLIVEIRA, 2002, p. 53). Essa fase possui semelhança com o sistema pensilvânico.
Na segunda fase, o preso ainda era submetido ao isolamento noturno, no entanto, no período diurno o detento era transferido para as Public Work-Houses (OLIVEIRA, 2002, p. 53), local onde trabalharia em conjunto como os demais presos, sob a regra do silêncio absoluto, de forma parecida com a prevista no sistema auburniano.
Já no terceiro período, o condenado recebia a liberdade condicional, ou seja, obtia o ticket of leave (CORDEIRO, 2014, p. 32), sendo que algumas regras lhe eram impostas e, se não ocorresse nenhum motivo que ensejasse a revogação, o preso recebia a liberdade definitiva.
O sistema progressivo executado por Maconochie possuía dupla finalidade, desta forma, ao mesmo tempo em que buscava incentivar o preso a praticar uma boa conduta e que este demonstrasse adesão ao sistema punitivo que lhe era imposto, também, por meio deste sistema, desejava-se paulatinamente reformar moralmente o preso e prepará-lo para a vida em sociedade (BITENCOURT, 2004, p. 83).
Cordeiro (2014, p. 33) nos ensina que “o sistema progressivo não é mais adotado tal como fora inicialmente idealizado, mas hoje diversas legislações do mundo preveem a execução da pena mediante etapas até o atingir da liberdade, numa espécie de progressividade”.
O Brasil, ao executar a pena privativa de liberdade, adotou um sistema progressivo, que consiste em três regimes: fechado, semiaberto e aberto. A progressão de regime está condicionada ao cumprimento de parte da pena e ao comportamento do detento.
O regime fechado se destina a condenados com pena superior a 08 anos, o regime semiaberto àqueles cuja pena imposta seja inforior a 08 anos e superior a 04 anos e o regime aberto é aplicado ao condenado com pena igual ou inferior a 04 anos, conforme dispõe o artigo 33 do Código Penal.
Por fim, torna-se imprescindível, visando uma compreensão da razão pela qual o cárcere é adotado como principal forma de punição, entender qual é a finalidade desejada pelo Estado com a aplicação dessa forma de sanção nos tempos modernos.
Assim, feita a análise evolucional da pena, bem como dos principais sistemas penitenciários desenvolvidos com a finalidade de aplicar a pena privativa de liberdade como condenação principal, percebeu-se que ocorreu uma mudança na finalidade da aplicação da pena de privação de liberdade, como será demonstrado a seguir.
2.2 HUMANIZAÇÃO DO CÁRCERE E FINALIDADES DA PENA DE PRISÃO
Como consequência do movimento iluminista, o qual tomou forma no final do século XVIII, as penas passaram a adotar um caráter mais humanitário (CORDEIRO, 2014, p. 18). Ganha espaço a busca pela aplicação de penas mais brandas, que não castiguem de forma grave o corpo do delinquente, bem como que possam erradicar a tortura, e consequentemente, extinguir a pena de morte, o que corresponde ao desejo de que o Estado exerça o direito de punir de maneira transparente, sem excessos e arbitrariedades.
O período iluminista teve importância fundamental no pensamento punitivo, uma vez que, com o apoio na “razão”, o que outrora era praticado despoticamente, agora necessitava de provas para ser realizado. Não
somente o processo penal foi modificado, como as exigências de provas que pudessem conduzir a condenação do acusado, mas, e sobretudo, as penas que poderiam ser impostas (GRECO, 2015, p. 24).
É durante esse movimento que alguns dos principais princípos norteadores do direito penal e processual penal começam a se desenvolver, tais como, o princípio da proprocionalidade, o da anterioridade da lei punitiva, bem como o do devido processo legal.
Beccaria (1764/2016), um dos principais pensadores desse período, com a publicação de sua obra, “Dos delitos e das penas”, no ano de 1764, revolucionou a visão da sociedade acerca da pena e do direito de punir. O autor, diante dos acontecimentos que presenciava àquela época, já defendia a ideia de que “as penas que ultrapassam a necessidade de conservar o depósito da salvação pública são injustas por sua natureza” (BECCARIA, 1764/2016, p. 23).
Almejava-se deixar no passado a pena que possuía o viés de vingança, a qual era aplicada por meio de tortura, de forma hostil, cruel e que, por vezes, se tornavam suplícios públicos, ou seja, desejava-se que o Estado deixasse de aplicar a pena com finalidade de punir o mal com o mal.
Buscava-se uma pena de prisão justa desde a sentença proferida pelo magistrado, o qual deveria observar as punições impostas em lei, pois a liberdade de julgamento poderia acarretar em desigualdades e injustiças, até mesmo se o encarceramento tivesse por finalidade reeducar e ressocializar o criminoso.
Foucault (1975/2014), outro pensador desse movimento, contribuiu de forma direta com suas ideias para a mudança na forma de aplicação da pena aos delitos praticados. Salienta-se que o filósofo possuía a seguinte visão acerca das prisões existentes naquela época:
Porque é desprovida de efeito sobre o público. Porque é inútil à sociedade, até nociva: é cara, mantém os condenados na ociosidade, multiplica-lhes os vícios. Porque é difícil controlar o cumprimento de uma pena dessas e corre-se o risco de expor os detentos à arbitrariedade de seus guardiães. Porque o trabalho de privar um homem de sua liberdade e vigiá-lo na prisão é um exercício de tirania. (FOUCAULT, 1975/2014, p. 112).
É de suma importância enfatizar que, muito embora os fatores aqui elencados acerca do cárcere se refiram às prisões existentes no final do século XVIII, os motivos que ensejaram a mudança na forma de pensar o instituto da prisão
naquela época não estão muito distantes daqueles que podemos verificar cotidianamente na atualidade.
Segundo Cordeiro (2014, p. 18):
O movimento reformista exercia várias críticas à pena de prisão por inúmeras razões que, a despeito do tempo, continuam inteiramente atualizadas, pois a pena prisional ainda é considerada inútil e nociva, incapaz de atingir as finalidades retributiva, preventiva e ressocializadora a que se propõe (CORDEIRO, 2014, p.18).
É plenamente possível reconhecer a semelhança entre as prisões daquela época e as existentes na atualidade, uma vez que os estabelecimentos prisionais continuam sendo instituições caras de serem mantidas, devido a todo aparato que demandam, contudo, esse não seria um grande problema, caso a pena fosse capaz de atingir as finalidades a que se propõe, no entanto, isso não ocorre. Além disso, como argumentou Foucault (1975/2014), a pena de prisão aumenta os vícios do apenado, usando como analogia, no contexto atual, a pena de prisão, pode, por vezes se tornar uma escola para o crime, uma vez que, diante da ociosidade a que são submetidos os presos não é difícil imaginar que interações nesse sentido possam acontecer dentro dos estabelecimentos prisionais.
Feito um breve comparativo entre a história e a atualidade, retoma-se o estudo da evolução do caráter humanitário da pena. As mudanças na visão de como deveria ser aplicada a pena de prisão podem ser consideradas como ponto de partida rumo à humanização da pena. Observa-se que, a partir do momento em que o Estado deixa de utilizar os estabelecimentos prisionais como meio para manter o criminoso sob custódia e passa a usar as casas prisionais como forma principal de punição, as bases para a prestação do serviço mudam, assim como as finalidades.
Segundo Greco (2015, p. 24), foi nesse momento que “o ser humano passou a ser encarado como tal, e não mais como mero objeto, sobre o qual recaía a fúria do Estado, muitas vezes sem razão ou fundamento suficiente para a punição”.
Nasce, portanto, uma ideia primária do que hoje intitulamos como princípio da dignidade da pessoa humana. As penas adquirem características de proporcionalidades entre a infração cometida e a penalidade imposta ao delinquente, institui-se a obrigatoriedade de a conduta reprovável estar prevista em lei antes da prática do ato criminoso para que pudesse o delinquente ser condenado pelo ato,
bem como os parâmetros de clareza e precisão nos quais a lei deveria estar investida.
Conforme salienta Greco (2017, p. 63), ao discorrer acerca do princípio da dignidade da pessoa humana:
Embora suas origens remontem à Antiguidade, o princípio da dignidade da pessoa humana é, basicamente, fruto da evolução filosófica ocidental, fundamntada na individualidade, na singularidade existendial, na liberdade e no respeito à vida, tendo como função precípua, portanto, a valorização do homem em si mesmo considerado (GRECO, 2017, p.63).
Os pensadores do período iluminista buscavam, essencialemente, mudanças no sistema de punição, a fim de que o Estado deixasse de aplicar sanções brutais, que desrespeitavam totalmente o corpo e mente dos apenados, e passasse a executar penas com a finalidade de punir o dequintente pelo crime cometido, mas que durante a execução da pena também fosse possível recuperar a pessoa que estava encarcerada.
É durante esse período de humanização da pena que surgem e se desenvolvem as Escolas Penais, as quais buscavam, de forma determinada, encontrar a verdadeira base do direito de punir pertencente ao Estado (CORDEIRO, 2014, p. 19). Denota-se que o jus puniendi, durante o movimento iluminista, já pertencia ao Estado e não mais ao particular, e portanto, somente ao ente estatal cabia o poder-dever de punir o infrator.
A primeira Escola Penal que ganhou contornos foi a Clássica e, conforme ensina Greco (2015, p. 49), foi nesse contexto que diversos princípios começaram a ser delineados, tais como: princípio da proporcionalidade; da presunção de inocência; e, principalmente, o da dignidade da pessoa humana. Ressalta-se que os princípios foram delineados na concepção atualmente adotada, posto que em momento anterior, pensadores como Foucault (1975/2014) e Beccaria (1764/2016) já haviam mencionado tais princípios em um conceito mais amplo do que o atual.
Os juristas e escritores da Escola Clássica acreditavam que a pena possuía uma finalidade retributiva, e defendiam que o direito de punir estava fundamentado no fato de o Estado precisar manter a ordem pública e proteger os cidadãos (CORDEIRO, 2014, p. 190).
A pena, portanto, era vista como uma forma de desestimular a criminalidade, uma vez que a sanção deveria desmotivar o delinquente a praticar o delito, quando
considerasse as consequências que sua escolha poderia lhe acarretar. Ou seja, a pena tinha um duplo efeito, o primeiro de coibir o ato criminoso e o segundo de evitar o cometimento de novo delito por aquele que já estivesse encarcerado.
Cordeiro (2014, p. 20) ensina:
E o direito de punição, decorrente da renúncia de parte da liberdade individual de cada homem, a ser exercido pelo soberano, fundava-se justamente na imperiosa necessidade de defender o bem comum diante dos interesses particulares. Era preciso manter a ordem e assegurar a paz social. Enfim, a pena não deveria ser vista como mera vingança pelo crime cometido, mas como um exemplo para o futuro, reservado àqueles que enveredassem pelo caminho tortuoso da criminalidade (CORDEIRO, 2014, p.20).
Sucessivamente, a Escola Positiva ganha forma e a “aplicação da pena passou a ser concebida como uma reação natural do organismo social contra a atividade anormal dos seus componentes” (BITENCOURT, 2018, p. 156). A pena perde seu caráter retributivo e assume a finalidade repressiva.
Beccaria (1764/2016, p. 55), ao buscar uma forma de fundamentar o direito de punir, afirmou que “os castigos têm por fim único impedir o culpado de ser nocivo futuramente à sociedade e desviar seus concidadãos da senda do crime”, ou seja, a pena adquire uma concepção utilitarista. Ademais, no que tange ao direito de punir, ocorre uma mudança em seu fundamento, que passa a ter por fim a defesa social através do caráter repressivo da punição.
Menciona Cordeiro (2014, p. 20), ao dicorrer sobre a obra “Dos delitos e das penas” que:
Em Beccaria encontramos a concepção utilitarista da pena, isto é, deveria ela produzir um benefício. A pena deveria ter um objetivo de caráter preventivo geral, qual seja, deveria servir para previnr o delito em relação à sociedade, e não ser um mero castigo para o infrator.
As punições adquirem caráter mais severo com o escopo de fazer o criminoso repensar o seu livre-arbítrio quando da ponderação dos prós e contras do cometimento do delito, sendo assim, o infrator deverá fazer a si mesmo o seguinte questionamento: A pena que poderei cumprir compensará o ganho que o ato criminoso me tratá?
Ressalta-se que aqui a busca é por penas mais rígidas que garantissem a proteção da sociedade, todavia, defendia-se a impossibilidade de as penas
adquirirem característica de tortura, desproporcionalidade, e principalmente, além do mais, buscava-se um fim ressocializor para pena de prisão.
Os pensadores que tanto contribuíram para as mudanças na aplicação da pena, bem como no que tange ao encarceramento, tinham concepções que mesmo passados mais de dois séculos continuam em voga. Beccaria (1764/2016, p. 31), em sua obra, declarou que “a prisão, entre nós, é antes um suplício que um meio de deter um acusado”.
Ora, tal realidade para o doutrinador não é diversa da que convivemos na atualidade, a única diferença que se deve destacar é que as penas aplicadas na modernidade não castigam mais o corpo do apenado, mas não deixam de ser um suplício para a alma e a dignidade humana (CORDEIRO, 2014, p. 20).
Nessa senda, as ideias de John Howard, nomeado xerife de Bedford, na Inglaterra, ganharam destaque e, a partir da sua visão, o sistema penitenciário começou a sofre grandes reformas. Contudo, antes de ser nomeado xerife, John Howard experimentou, em primeira pessoa, os efeitos e as circunstâncias em que a privação de liberdade eram aplicadas ao ser humano. Foi após ser detido por um corsário francês, que o reteve preso por vários meses (GRECO, 2015, p. 33 apud JIMÉNEZ DE ASÚA), e ter conhecido as condições precárias dos estabelecimentos prisionais e sentir os malefícios da privação de liberdade que a sua missão pela busca de prisões capazes de reabilitar os presos se iniciou (CORDEIRO, 2014, p. 20).
Ademais, informa Greco (2017, p. 115) que:
[...] Howard foi nomeado sheriff do condado de Bedbord, fazendo, assim, com que, agora, viesse a se familiarizar com as misérias das prisões de sua época, os lugares fétidos onde seres humanos eram jogados como se fossem animais, pois uma das suas principais funções era visitar os estabelecimentos carcerários. Essas visitas períodocas permitiram-lhe um contato direto e intenso com os presos, e fizeram com que o humanista inglês ficasse ainda mais sensibilizado com os problemas que presenciava diariamente, tornando-se, assim, um incansável crítico e defensor da melhoria do sistema (GRECO, 2017, p. 115).
“Para ele, a prisão deveria ter uma função reabilitadora e, para tanto, deveria oferecer condições dignas ao preso, de higiene, alimentação, assistência médica e religiosa, está última considerada importante para „instruir e moralizar‟” (CORDEIRO, 2014, p. 21).
Bitencourt (2004, p. 44) defende que “com Howard nasce o penitenciarismo. Sua obra marca o início da luta interminável para alcançar a humanização das prisões e a reforma do delinquente”.
Em sua obra, segundo Greco (2015), Howard pontuou diversas orientações que o Estado poderia seguir para melhorar o sistema prisional e, de forma sintetizada, Greco (2015, p. 35) pontua as seguintes:
[...] o fornecimento de água constante; a necessidade de ventilação das celas, a fim de permitir a passagem de um ar limpo e respirável; o fornecimento de alimentação adequada; a utilização de uniformes que possibilitasse a identificação e a melhor apresentação dos detentos; o oferecimento de trabalho para que as mentes permanecessem ocupadas com algo útil, diminuindo, dessa forma, não somente a depressão e o desejo de fugir, mas o de eliminar a própria vida com a prática de suicídios; a permanente visita de magistrados e de funcionários do governo que inspecionassem as prisões, ouvindo e solucionando os problemas relativos aos presos (GRECO, 2015, p. 35).
Parece bastante correto dizer que os conselhos escritos por um diretor de presídios, no final do século XVIII e início do século XIX, deveriam ser observados pelos atuais representantes do Estado, o qual detém exclusivamente o direito de punir, pois mesmo depois de ter transcorridos tantos anos, percebe-se que os problemas continuam os mesmos. Sendo assim, surge a indagação do porquê tem sido tão difícil instituir sistemas prisionais capazes de acolher e reabilitar o preso.
Como Foucault (1975/2014, p. 223) já tentava ensinar, “a prisão, peça essencial no conjunto das punições, marca certamente um momento importante na história da justiça penal: seu acesso à humanidade”. Porém, parece que o ensinamento do filosófo está um tanto quanto longe de ser alcançado pelos Estados na atualidade.
E é nesse viés que se adentra em talvez um dos pontos mais importantes a respeito da privação de liberdade, a saber, as finalidades da pena. Cordeiro (2014, p. 21) salienta que “a pena de prisão continua sendo um castigo que viola a alma, os desejos e a mente do condenado, [...]”.
Há muito tempo a humanização da pena privativa de liberdade e do cárcere vem sendo cobrada do Estado, por essa razão, após verificar a evolução do pensamento acerca da pena e de sua humanização, cumpre pormenorizar o que se acredita ser, exatamente, a função da pena, na atualidade, e o que o Estado e a sociedade desejam com a sua aplicação.
Com esse intuito, verifica-se, que quando do seu nascimento, a pena possuía apenas a função retributiva, ou seja, nos primeiros modelos de aprisionamento, almejava-se alcançar com a aplicação da pena um castigo ao criminoso pelo mal cometido por ele em desfavor de toda a sociedade, finalidade essa que, pela doutrina é intitulada como função retributiva, a qual, nas palavras de Paschoal (2015, p. 89), é “a teoria que vislumbra na pena função retributiva parte do pressuposto de que o crime é um mal, devendo ser retribuído (pago) com outro mal, que é a pena”.
Ainda, Paschoal (2015, p. 89) ensina que um “grande benefício inerente à teoria da retribuição diz respeito à consagração da proporcionalidade entre o mal praticado (o crime e a consequente lesão a um bem jurídico protegido) e o mal impingido ao agente (a pena)”.
Posteriormente, surge um movimento pela busca da função preventiva da pena, pois somente punir não era suficiente, era necessário pensar no futuro e desenvolver formas melhores de diminuir a criminalidade.
Nas palavras de Beccaria (1764/2016), quando o autor escreve sobre o direito de punir, o conceitua como sendo porções de liberdade que os integrantes da sociedade abrem mão e colocam sob a guarida do Estado, e diante disso afirmava que:
Não bastava, porém, ter formado esse depósito; era preciso protegê-lo contra as usurpações de cada particular, pois tal é a tendência do homem para o despotismo, que ele procura, sem cessar, não só retirar da massa comum sua porção de liberdade, mas ainda usurpa a dos outros. (BECCARIA, 1764/2016, p. 23).
Como bem observou Beccaria (1764/2016), a pena não deveria ter somente a finalidade retributiva, mas deveria também proteger a sociedade da reincidência do infrator na prática delituosa e, assim, surge a finalidade preventiva da pena, ou seja, a finalidade preventiva adquire caráter geral que se preocupa em intimidar a coletividade para que não ocorra a prática de crimes.
Como bem explica Olivé (2017, p. 197), “Nenhuma pessoa racional aplica uma pena pelos pecados do passado senão para que não se volte a cometê-los no futuro - Nemo prudens punit quia peccatum est sed de peccetur”.
Todavia, na opinião de Paschoal (2015, p. 90), a teoria preventiva possui também o caráter especial, que foca na pessoa do criminoso e não na sociedade
como um todo, ou seja, o objetivo é evitar que o delinquente volte a cometer novos delitos, nesse sentido, Paschoal (2015, p. 90) preceitua que:
[...] parte do princípio de que o agente, antes de praticar um delito, pare e avalie a pena à qual está sujeito e também as probabilidades de ser pego e punido, desistindo da prática delituosa quando, pela punição de outros indivíduos, tiver maior certeza de punição.
Ora, ambos os posicionamentos encontram guarida do Estado, o qual, investido no seu poder-dever de proteção da sociedade, utiliza-se da pena como uma maneira coercitiva de evitar a prática reiterada de delitos.
Já o criminoso vê essa finalidade por outro aspecto, tal como afirma Paschoal (2015), como meio de avaliar se a conduta criminosa que irá praticar será válida diante da pena imposta, muito embora deve-se considerar a efetividade de tal finalidade, posto que o criminoso sempre acredita que não será pego.
Mas Paschoal (2015, p. 90) também reconhece que, dentro da finalidade preventiva da pena, existem aqueles que acreditam que “[...] a pena seria aplicada para demonstrar aos cidadãos em geral que compensa cumprir as normas e respeitar os valores eleitos como caros por uma sociedade”.
Portanto, essa finalidade da pena, a prevenção, possui claramente dois objetivos: a prevenção geral busca desmotivar com a pena o cometimento de crimes pelos cidadãos de maneira geral, por sua vez, a prevenção específica tem por finalidade evitar que aquele que já cometeu um ato ilícito retorne à prática criminosa. Por fim, e como última finalidade, a pena adquire um fim ressocializador. Com esse último objetivo deseja-se que a pena possua a finalidade de corrigir o criminoso para que ele possa retornar ao convívio em sociedade com novos valores, ou seja, compreendendo a reprovabilidade da conduta por ele praticada.
E é com essa perspectiva de caráter mais humanitário e na tentativa de uma maior observância do princípio da dignidade da pessoa humana que a pena passa a ser pensada em prol do indivíduo criminoso, dessa forma “[...] a pena tem a função de RESSOCIALIZAR, REEDUCAR, RECUPERARA, REINSERIR, etc o indivíduo” (PASCHOAL, 2015, p. 92, grifo do autor).
Talvez essa seja a finalidade mais perigosa atribuída à pena no decorrer da história, pois é apresentada à sociedade como um bem ao apenado (PASCHOAL, 2015, p. 92). No entanto, é impossível aceitar essa presunção de que a pena seria
benéfica ao prisioneiro, ainda mais diante da realidade vivenciada pela massa carcerária, a qual sofre com a superlotação, condições precárias dos estabelecimentos prisionais, criminalidade, entre outros.
Na visão de Cordeiro (2014, p. 23), “os fins da pena de prisão têm se mostrado contestáveis do ponto de vista da eficácia, com exceção do fim retributivo, tendo em vista que a prisão continua representando um verdadeiro castigo [...]”.
É o Estado capaz de reeducar e recuperar o preso, ou esses são meros ideais nos quais a população prefere acreditar, por serem mais aceitáveis do que a realidade observada nos presídios? Denota-se que na maioria dos encarceramentos talvez a única finalidade alcançada seja a retributiva.
No que tange à finalidade ressocializadora, “[...] se constitui uma utopia, uma letra morta da lei, compreensível em razão dos efeitos decorrentes da prisionização, com todas suas mazelas, tornando inviável o retorno do preso à vida social [...]” (CORDEIRO, 2014, p. 23).
Possivelmente, uma das maiores falhas do sistema prisional adotado na atualidade é que, ao mesmo tempo que se deseja retribuir ao infrator o mal que ele provoca a toda sociedade ao descumprir o regramento jurídico, se busca reeducar e ressocializar, ou seja, busca-se aplicar dois elementos incompatíveis entre si. Em outras palavras, não se pode educar (ou, no caso, reeducar) por meio da utilização de métodos repressivos e intimidatórios, o que seria antipedagógico (CORDEIRO, 2014, p. 23).
Nos ensinamentos de Cordeiro (2014, p. 23):
Portanto, os fins retribuitivo, intimidativo e ressocializador da pena prisional são incompatíves entre si. E aqui reside o grande contrassenso da prisão, pois situações ocorrerão em que o Estado, através da administração prisional ou mesmo policiamento militar, deverá fazer uso de métodos repressivos para manter a ordem e disciplina do estabelecimento penitenciário.
Além desses fatores, menciona-se que as prisões parecem que mais aproximam os indivíduos do crime do que os afastam. Se uma das intenções objetivadas com o cárcere é retirar o criminoso do convívio social, a fim de vedar a esse a prática de novos delitos, o Estado vem falhando miseravelmente.
Não é preciso nem um estudo aprofundado para constatar essa realidade já que, diariamente, a mídia veicula matérias que informam a população da prática de
crimes perpetrados a mando de presidiários. Ainda, pior é para o Estado encarar que frequentemente, são dispensados esforços na busca por prender aquele responsável pelo comando do crime, todavia, mesmo preso, esse criminoso continua “chefiando” seus “negócios”.
E é perante esse contexto que o Estado, aspirando solucionar e até mesmo erradicar essas mazelas presentes nos estabelecimentos prisionais, aumenta o uso da força, da repressão e da intimidação perante a massa carcerária.
“Acontece que, nessa preocupação de manter a comunidade carcerária „em estado de paz‟, o fim ressocializador é preterido em função da disciplina e segurança [...]” (CORDEIRO, 2014, p. 24).
E é diante dessa realidade que Cordeiro (2014) assevera:
A constatação que facilmente se chega em relação à pena prisional é que ela vem falhando nos propósitos de repressão ao aumento da criminalidade, na promoção da ressocialização do preso e na redução dos índices de reincidência, daí porque vários autores decretam a falência da pena de prisão. (CORDEIRO, 2014, p. 24).
E é diante dessa afirmação que se faz necessário um estudo mais detalhado do serviço de segurança pública prestado pelo Estado, principalmente no que tange à administração dos presídios, objeto do presente estudo.
2.3 SERVIÇO PÚBLICO DE SEGURANÇA: GERENCIAMENTO PRISIONAL
O ser humano necessita, biologicamente, conviver com outros da mesma espécie, e foi assim que surgiram os primeiros clãs que evoluíram até tornarem-se as sociedades organizadas em que hoje convivemos.
Porém, devemos sempre lembrar que, sendo o ser humano um indivíduo dotado de livre arbítrio, o qual em conjunto com a liberdade talvez sejam os bens mais preciosos que detemos, por vezes o egoísmo e a maldade são sentimentos que tomam conta de alguns integrantes da sociedade, e esses, utilizando-se desses “bens”, trilham seu caminho por uma via perigosa e cada vez mais presente em nosso cotidiano, o caminho do crime.
O filósofo Aristóteles (2000), em sua obra “A Política”, defende a ideia de formação da sociedade entre os seres humanos, bem como que quanto mais os homens convivem mais humanos se tornam. Para ele, viver isoladamente poderia
ocasionar a destruição da humanidade. Ademais, segundo o pensador, o que torna o homem o melhor “animal” é sua capacidade de fazer justiça.
O mesmo ocorre com os membros da Cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto. Assim, a inclinação natural leva os homens a este gênero de sociedade.
O primeiro que a instituiu trouxe-lhe o maior dos bens. Mas, assim como o homem civilizado é o melhor de todos os animais, aquele que não conhece nem justiça nem leis é o pior de todos. (ARISTÓTELES, 2000. p. 6).
Como é sabido, tudo tem seu preço, até mesmo reunir os homens em sociedade, tendo em vista que, da convivência, nascem os conflitos. E é diante dessa realidade que o Estado, dotado de soberania, como responsável pela proteção da liberdade de todos os indivíduos, passa a adotar formas de defesa contra aqueles que prejudicam o bem comum, nascendo, assim, a necessidade da segurança pública.
Inicialmente, insta mencionar que a segurança pública é “[...] um conjunto de processos jurídicos e sociais para a manutenção da ordem pública, a garantia prática dos direitos individuais e coletivos assegurados na Constituição [...]” (SALINEIRO, 2016, p. 27).
Para o presente trabalho, há uma maior necessidade de aprofundar o conhecimento acerca do serviço público de segurança voltado para a finalidade judicial, ou seja, no que se refere à aplicação da pena privativa de liberdade.
Conjuntamente com a evolução da pena e sua humanização, como já mencionado anteriormente, o direito de punir foi transferido do ente particular para o Estado, surgindo, dessa maneira, a necessidade de o ente estatal compreender melhor as necessidades da sociedade e executar de maneira mais eficiente a proteção dos cidadãos que dela integram.
E assim, visando alcançar essa finalidade, tornou-se necessário desenvolver regras básicas de comportamento a fim de garantir a convivência harmoniosa dos integrantes da sociedade, devendo tais regras serem legisladas por um poder legitimamente constituído (GRECO, 2017, p. 01).
E é diante do surgimento do Estado de Direito, no qual as “leis são criadas e cumpridas pelo próprio Estado” (LEITE, 2018, não paginado), que a segurança pública ganha destaque para, somente após, nos Estados Democráticos de Direito, ganhar uma conceituação mais precisa.