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Larissa Emi Funakura MULTIPARENTALIDADE NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO

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Larissa Emi Funakura

MULTIPARENTALIDADE NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO

CENTRO UNIVERSITÁRIO TOLEDO ARAÇATUBA

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Larissa Emi Funakura

MULTIPARENTALIDADE NO DIREITO PREVIDENCIÁRIO

Trabalho de conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito à Banca Examinadora do Centro Universitário Toledo, sob orientação do Profª Me. Leiliane Rodrigues da Silva Emoto.

CENTRO UNIVERSITÁRIO TOLEDO ARAÇATUBA

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Larissa Emi Funakura

Multiparentalidade no Direito Previdenciário

Trabalho de conclusão de Curso apresentado como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Direito à Banca Examinadora do Centro Universitário Toledo, sob orientação do Profª Me. Leiliane Rodrigues da Silva Emoto.

Aprovado em ____de ______________de ______

BANCA EXAMINADORA

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Primeiramente agradeço aos meus familiares que despenderam de grande esforço para que eu pudesse alcançar meus objetivos. À minha avó que sempre me apoiou de todas as maneiras possíveis.

Agradeço aos meus amigos Ikaro, Mariana, Nathália e Stefani que acreditaram em mim quando mais precisei. Ao meu supervisor de estágio Ralpho Rolim pela indicação do tema e incentivo de todas as manhãs.

Por fim, meus mais sinceros sentimentos de gratidão a minha Professora Orientadora Leiliane Rodrigues da Silva Emoto que foi compreensível, dividiu comigo todos os seus conhecimentos e ajudou-me na elaboração deste trabalho. Exemplo para mim e para todos os seus alunos.

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“Tudo evolui; não há realidades eternas como não há verdades absolutas” Nietzsche

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RESUMO

O presente trabalho tem como objetivo a análise do instituto da multiparentalidade e seus efeitos jurídicos no Direito Previdenciário Brasileiro. Para tanto, utiliza-se a doutrina e a jurisprudência brasileira. O conceito de família sofreu diversas modificações ao longo do tempo, há a análise da evolução histórica e posteriormente os conceitos de filiação que passaram a ser admitidos com o advento da Constituição Federal de 1988. Observa-se que a família passou a ter um significado plural, com enfoque na socioafetividade entre os membros. Surgindo a possibilidade de parentalidade socioafetiva, pensou-se na coexistência com a parentalidade biológica já existente, criando assim o instituto da multiparentalidade.

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ABSTRACT

This study aims to analyze the institution of multi-parenthood and the effects in the Brazilian Social Security Law. For this, it uses Brazilian‟s doctrine and case law. That concept of family has undergone several modifications over time, there is the analysis of the historical evolution and later the concepts of affiliation admitted with the advent of the Federal Constitution of 1988. It is observed that the family have a plural meaning, whit a focus on socioaffective between members, it was thought to coexist whit existing biological parenting, thus creating the multi-parenthood institute.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 10

I FAMÍLIAS ... 12

1.1 Evolução histórica das famílias ... 12

1.1.1 A família na Roma Antiga ... 12

1.1.2 A família no Direito Canônico ... 13

1.1.3 A família na Revolução Industrial ... 14

1.2 A família no Brasil ... 15

1.2.1 O Código Civil de 1916 ... 16

1.2.2 A Constituição Federal de 1998 ... 18

1.2.3 As novas concepções de família no atual entendimento brasileiro ... 19

1.3 Princípios do Direito de Família ... 21

1.3.1 Princípio da dignidade humana ... 22

1.3.2 Princípio da solidariedade familiar ... 23

1.3.3 Princípio do pluralismo das entidades familiares ... 23

1.3.4 Princípio da afetividade ... 24

II FILIAÇÃO ... 26

2.1 Filiação Biológica ... 26

2.2 Filiação Socioafetiva ... 27

2.2.1 A posse de estado de filho ... 29

2.2.2 Famílias eudemonistas ... 31

2.3 Efeitos Jurídicos Do Parentesco Socioafetivo ... 31

III MULTIPARENTALIDADE ... 34

3.1 Conceito ... 34

3.1.1 Da não interferência do novo cônjuge ... 36

3.2 Dos efeitos jurídicos da multiparentalidade ... 37

3.3 Dos julgados ... 38

3.3.1 Do reconhecimento do Supremo Tribunal Federal... 39

3.3.2 Do reconhecimento do Tribunal de Justiça de São Paulo ... 40

3.3.3 Do reconhecimento do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul ... 41

3.3.4 Do não reconhecimento da multiparentalidade ... 42

3.3.4.1 Do recurso especial 1.167.993/RS ... 42

3.3.4.2 Do recurso especial 1.674.849/RS ... 45

3.4 Dos Efeitos no Direito Previdenciário ... 47

3.5 Do abuso de direito ... 49

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 51

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INTRODUÇÃO

Os arranjos familiares estão presentes desde os primórdios da sociedade. Utilizando-se de pesquisa histórica, doutrinária e jurisprudencial percebe-se que o conceito de família no âmbito jurídico brasileiro foi se moldando.

Na Roma antiga o pater exercia influencia sobre todos os membros da família, devido ao forte poder patriarcal, estrutura familiar esta de grande relevância na constituição do Código Civil Brasileiro do ano de 1916.

Em consequência do crescimento do catolicismo no âmbito social, houve a concepção de um novo molde familiar baseado no Direito Canônico, este deu prioridade ao casamento, de modo que família se constituía a partir dele, valendo salientar que esta concepção ainda possui grande influência.

Assim, podemos observar que do mesmo modo em que a sociedade se modifica, a família tende a acompanhar essas evoluções. Se antes era decorrente de uma união civil, hoje este conceito foi ultrapassado.

A problemática desta pesquisa se pauta no avanço conceitual da estrutura familiar, como seus indivíduos se portam dentro deste núcleo, e a forma como a sociedade reage às mudanças, visto que o reconhecimento dessa evolução leva a consequências patrimoniais e extrapatrimoniais, acarretando efeitos em vários ramos do Direito, inclusive no Direito Previdenciário, este último sendo o enfoque da pesquisa.

Devido a estas modificações, o Poder Judiciário teve que modular seu entendimento quanto ao tema, com o findo de amparar todos aqueles que se encontravam em situação de invisibilidade perante o Estado.

Assim, podemos afirmar que é dever do Poder Judiciário atualizar o seu entendimento quanto às estruturas familiares, acompanhando assim, a evolução da sociedade. Conforme expresso no artigo 226 da Constituição Federal de 1988, a família é base da sociedade, devendo possuir proteção especial por parte do Estado.

Vale salientar que uma vez que o Estado tem o dever de amparar todos que estão sob o seu manto, se faz necessária a criação e a ampliação de normas para tutelar os direitos inerentes ao ser humano, porém atualmente não há respaldo legal quanto ao instituto da multiparentalidade.

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A multiparentalidade pode ser conceituada como o englobamento da parentalidade biológica e a socioafetiva concomitantemente. Ademais, este instituto não está enquadrado pela legislação brasileira, já supracitada, porém o entendimento atual do Supremo Tribunal Federal reconhece por meio da Repercussão Geral nº622 no julgamento do Recurso Extraordinário 898.060, enfatizando os princípios da dignidade humana, afetividade, da busca à felicidade e do pluralismo das entidades familiares.

O reconhecimento da multiparentalidade pelo Supremo Tribunal Federal atingiu diretamente a família, assim, dando respaldo aos que antes eram invisíveis, resguardando os seus direitos, como o direito ao nome, parentesco, alimentos, guardas e visitas e direitos previdenciários como pensão por morte e auxílio-reclusão.

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I FAMÍLIA

Não se pode dizer que há um conceito exato para a família, pois com o passar dos anos houve inúmeras modificações nas definições. Ao aprofundar o estudo, observa-se que o Código Civil de 2002 e a Constituição Federal de 1988, vigentes nos dias de hoje, ao abordar sobre o Direito de Família também não a define.

1.1 Evolução Histórica das Famílias

A seguir será feito a evolução histórica da família a partir da Roma Antiga, e posteriormente, conceitos adotados atualmente.

1.1.1 A família na Roma Antiga

Tendo em vista que o Código Civil de 1916 sofreu influência do Direito Romano, a análise da evolução histórica da família se iniciará a partir da Roma Antiga.

Em Roma, o poder do pater exercido sobre a mulher, os filhos e os escravos é quase absoluto. A família como grupo é essencial para a perpetuação do culto familiar. No Direito Romano, assim como no grego, o afeto natural, embora pudesse existir, não era o elo de ligação entre os membros da família. [...]

Os membros da família antiga eram unidos por vínculo mais poderoso que o nascimento: a religião doméstica e o culto dos antepassados. Esse culto era dirigido pelo pater. (VENOSA, 2018, p. 04).

O pater exercia total poder na família, poderia impor nos filhos penas corporais, vender-lhes e tirar-lhes a vida (PEREIRA, 1997).

Já a mulher era subordinada ao pai e após o casamento passava a se subordinar ao marido, nunca adquiria autonomia e não possuía qualquer direito próprio perpetuamente.

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O casamento era, antes de mais nada, solenidade religiosa mediante a ual a ulher era afastada definitiva ente da sua inicial religi d stica – re resentada el ai – ara ingressar e utra a d arid ssi dei ava de cultuar seus antecedentes ara faz -lo pelos do seu esposo. Isso porque não se permitia a concorrência de religiões domésticas. Apenas se podia pertencer a uma delas. Em virtude disso, a mulher perdia o vínculo familiar antes estabelecido por seu pai. O casamento representava para ela uma espécie de novo nascimento. Concedia-lhe uma segunda fa lia ual se ligava a artir de ent at a sua rte O casa ento tinha caráter indissolúvel.

Neste casamento religioso, a mulher deveria procriar, e os filhos, fruto do casamento, deveriam seguir a adoração aos antepassados. Os filhos bastardos não poderiam continuar com a religião doméstica. (VENOSA, 2018)

Quando as mulheres não procriavam, eram consideradas inúteis, pois possuíam a função reprodutiva primordial. O marido da mulher estéril poderia anular o casamento por falta de prestabilidade. Porém, caso ocorresse o contrário, o marido estéril, a mulher teria que reproduzir com um parente do marido (ALMEIDA; RODRIGUES, 2012).

O celibato era totalmente condenado, pois era considerado uma afronta a religião doméstica e interrompia a sequência familiar.

1.1.2 A família no Direito Canônico

Com a queda do Império Romano no século V, e o crescimento do Cristianismo, ocorreram gradativas mudanças no conceito de família.

No começo do Cristianismo, pregava-se o celibato para todos, ou seja, a Igreja Católica n tinha c ri ridade casa ent e fa lia T d s deveria “viver l nge das tentações da carne ad tand u a vida casta” (ALVES, 2014, p.17)

Ainda de acordo com o autor (ALVES, 2014, p.17)

A Igreja Católica, em priscas eras, considerava a virgindade como sagrada, mas seus fi is recisava gerar r le Desse dile a surgiu u a s luç ual seja “cada u tenha sua ulher e cada ulher tenha seu arid ”e “b se er anecere assi como Eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se”

Desta forma, a Igreja Católica que antes defendia celibato para todos, passou a defender o casamento para a formação da família.

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N dec rrer d s s cul s h e e a ulher só “selaria a uni s b as b nç s d s c us” (BARRETO, 2013, p. 207). Este casamento seria vitalício e indissolúvel, apenas a morte poderia encerrar a união sagrada.

Se a família pagã romana era uma unidade com multiplicidade funcional, a família cristã se consolidou na herança de um modelo patriarcal, concebida como célula básica da Igreja (que se confundia com o Estado) e, por consequência, da sociedade. Fundada essencialmente no casamento, que, de situação de fato, foi ele, tal modelo se tornou hegemônico na sociedade ocidental, passando da Antiguidade para a Idade Média, até chegar à Idade Moderna, marginalizando potencialmente outras modalidades de composição familiar (GAGLIANO; PAMPLINA FILHO, 2017, p. 55).

Ainda para Gonçalves (2018, p. 33)

Durante a Idade Média as relações de família regiam-se exclusivamente pelo direito canônico, sendo o casamento religioso o único conhecido. Embora as normas romanas continuassem a exercer bastante influência no tocante ao pátrio poder e às relações patrimoniais entre os cônjuges, observava-se também a crescente importância de diversas regras de origem germânica.

Podemos dizer que a família brasileira, como hoje é conceituada, sofreu influência da família romana, da família canônica e da família germânica.

Deste modo, mister salientar que é perceptível que algumas questões defendidas pelo Cristianismo permanecem até os dias de hoje, como exemplo, a família fundada na união de pessoas de sexos opostos e o combate ao aborto.

1.1.3 A Família na Revolução Industrial

Com o advento da Revolução Industrial, em meados do século XVIII, houve alterações nas necessidades da coletividade e consequentemente modificações na estrutura familiar.

Neste cenário aumentou-se a pobreza e os homens, que eram considerados chefes de família, não garantiam mais a subsistência familiar. Portanto, a mulher foi obrigada a trabalhar nas fábricas, e no âmbito doméstico continuaram a cumprir suas funções de reprodução.

Depauperou-se a prevalência do caráter produtivo e reprodutivo, migrando o núcleo familiar para as cidades, em busca de novas oportunidades. Com a redução do

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espaço das áreas de convivência e com o alto custo de vida, passou-se a repensar o tamanho da prole e a valorizar a aproximação dos seus membros e seu vínculo afetivo.

[...]

Talvez, sim, fosse o início do fim, não da família, em si, mas da concepção uniforme e conservadora de um único formato de família (GAGLIANO; PAMPLINA FILHO, 2017, p. 56).

De ac rd c Madalen (2018 42) a Rev luç Industrial tr u e u “câ bi de conceitos, dando lugar a uma família que prioriza a pessoa humana, seu bem-estar e o pleno desenv lvi ent das ca acidades e virtudes de cada u de seus c nentes[ ]”.

Portanto, observa-se que os casais passaram a ter menos filhos e os valores familiares mudaram. Se anteriormente buscava-se a valorização aos antepassados, neste momento buscou-se a valorização individual de cada membro da família. Por fim, constata-se o maior vínculo afetivo entre eles.

1.2 A Família no Brasil

Neste cenário de grandes evoluções na estrutura familiar, o Brasil passou a permitir uma forma de casamento mais compatível com a realidade. Em 11 de setembro de 1861, por meio da Lei 1.144, houve o surgimento do casamento civil:

Art. 1º Os effeitos civis dos casamentos celebrados na fórma das Leis do Imperio serão extensivos:

1º Aos casamentos de pessoas que professarem Religião differente da do Estado celebrados fóra do Imperio segundo os ritos ou as Leis a que os contrahentes estejão sujeitos.

2º Aos casamentos de pessoas que professarem Religião differente da do Estado celebrados no Imperio, antes da publicação da presente Lei segundo o costume ou as prescripções das Religiões respectivas, provadas por certidões nas quaes verifique-se a celebração do acto religioso.

3º Aos casamentos de pessoas que professarem Religião differente da do Estado, que da data da presente Lei em diante forem celebrados no Imperio, segundo o costume ou as prescripções das Religiões respectivas, com tanto que a celebração do ato religioso seja provado pelo competente registro, e na fórma que determinado fôr em Regulamento.

Art. 2º O Governo regulará o registro e provas destes casamentos, e bem assim o registro dos nascimentos e obitos das pessoas que não professarem a Religião Catholica, e as condições necessarias para que os Pastores de Religiões toleradas possão praticar actos que produzão effeitos civis.

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Portanto, passou-se a registrar os casamentos dos não católicos e isto simbolizou um grande avanço na família brasileira, e posteriormente o Código Civil de 1916 definiria a formação de uma família legítima.

1.2.1 O Código Civil de 1916

Não obstante a grande evolução da Lei 1.144 de 1861, o Código Civil de 1916 trouxe consigo a forte presença do Direito Canônico e influência do Direito Romano. Isto é, os dogmas religiosos interferiam vigorosamente nas famílias, porém foi extinta a ideia do culto aos antepassados. Ademais, permaneceram-se os traços do patriarcalismo.

O Código Civil de 1916, Lei 3.071 de 1º de janeiro de 1916, em seu artigo 229, dispõe que a premissa do casamento era a criação da família legítima. As famílias estabelecidas fora do casamento, chamadas de ilegítimas, não possuíam direitos, tais quais exemplos de G nçalves (2018 28) “d ações u benefícios testamentários do homem casado à c ncubina ”

De mesmo modo os filhos eram classificados, em legítimos ou ilegítimos. Estes, os filhos de relações extramatrimoniais, não eram protegidos pela legislação vigente. Aqueles eram os gerados dentro do casamento.

Os ilegítimos eram classificados em naturais ou espúrios. Os naturais eram nascidos de pais que não se casaram, mas poderiam. Já os espúrios eram os filhos de pais impedidos para o matrimônio, ainda classificados em adulterinos e incestuosos.

Os filhos espúrios se subdividiam em incestuosos (fruto do relacionamento entre duas pessoas para as quais há impedimento legal para o casamento, decorrente de vínculo de parentesco) e, os adulterinos (resultantes da união entre duas pessoas, sendo uma ou ambas legalmente casadas com terceira pessoa). Estes filhos incestuosos ou adulterinos não poderiam ser reconhecidos. (LUCCHESE, 2013, p. 233).

Note-se ue referid artig 352 d Códig Civil de 1916 estabelece ue “os filhos legitimados são, em tudo, e ui arad s a s leg ti s” No entender de Gonçalves (2018, p. 30) “Somente os filhos naturais podiam ser reconhecidos, embora apenas os legitimados pelo casamento dos pais, após sua concepção ou nascimento, fossem em tudo equiparados aos leg ti s”

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Os espúrios, sejam eles incestuosos ou adulterinos, não poderiam ser reconhecidos como filhos de acordo com o próprio Código Civil de 1916 em seu artigo 358. Em outras palavras, os filhos espúrios não possuíam direitos, não poderiam propor investigação de paternidade, e eram totalmente discriminados pela sociedade.

Conforme Lucchese (2013, p. 233)

Tal proibição beneficiava os genitores e prejudicava o filho. Era como se o fruto da relação proibida por lei não existisse, era ignorado, e o pai beneficiado não tinha o ônus do poder familiar. Os direitos daquele que não tinha qualquer culpa por nascer de tais relações vedadas por lei eram excluídos, violando os hoje consagrados princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da plena igualdade entre os filhos.

Em que pese o patriarcalismo herdado da Roma Antiga, o marido era o chefe da sociedade conjugal. Competia-lhe a representação legal da família, a administração de bens comuns e dos particulares da mulher, direito de fixar e mudar o domicílio da família, autorizar a profissão da mulher e sua residência, além de ser o responsável por manter a manutenção da família (BRASIL, 1916).

Ao passar das décadas, em 1962, o Estatuto da Mulher Casada, Lei 4.121, conforme Dias (2018 29) “desenv lveu plena capacidade à mulher casada e deferiu-lhe bens reservados a assegurar-lhe a propriedade exclusiva dos bens adquiridos com o fruto de sue trabalh ”

Posteriormente, a Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1977, acrescentou a Lei 883 o parágrafo 1º:

§ 1º - Ainda na vigência do casamento qualquer dos cônjuges poderá reconhecer o filho havido fora do matrimônio, em testamento cerrado, aprovado antes ou depois do nascimento do filho, e, nessa parte, irrevogável. (Incluído pela Lei nº 6.515, de 1977). (Renumerado pela Lei nº 7.250, de 1984).

E seu artigo 2º passou a reconhecer o direito à herança, em igualdade de condições, qualquer que fosse a natureza da filiação:

Nesta lei, o casamento deixou de ter o caráter indissolúvel herdado da Igreja Católica com a instituição do divórcio por meio da Emenda Constitucional 9/77.

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1.2.2 Constituição Federal de 1988

Com o advento da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, houve um alargamento no conceito de família, e seu artigo 227, parágrafo 6º consagrou o princípio da is n ia entre s filh s: “§ 6º Os filhos, havidos ou não da relação do casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas filiaç ”.

Atualmente, independentemente da origem da filiação, seja ela havida do casamento ou não, vigora o princípio constitucional da igualdade absoluta de direitos entre os filhos havidos ou não do casamento, pouco importando a sua origem, regra esta que abrange os adotados.(LISBOA, 2013, p. 278)

Para Madaleno (2018, p. 502) ainda há preconceito social, “classificaç de ac rd com o caráter matrimonial ou extramatrimonial da filiação, ou se a perfilhação advém dos v ncul s de ad ç ”

Mediante o artigo 226, parágrafos 3º e §4º da mesma Constituição, passou-se a reconhecer a união estável e a existência de famílias monoparentais. O parágrafo 5º do mesmo artigo estabeleceu que os direitos e deveres da sociedade conjugal serão exercidos igualmente pelo homem e pela mulher, ou seja, houve a desconstrução da noção de homem como chefe da sociedade conjugal do Código Civil de 1916.

Apesar de instituído o divórcio com a Emenda Constitucional 9 de 1977 e a Lei 6.515 do mesmo ano, constitucionalizou-se a possibilidade do divórcio no parágrafo 6º a seguir exposto.

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado. § 1º O casamento é civil e gratuita a celebração.

§ 2º O casamento religioso tem efeito civil, nos termos da lei.

§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.

§ 4º Entende-se, também, como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes.

§ 5º Os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente pelo homem e pela mulher.

§ 6º O casamento civil pode ser dissolvido pelo divórcio. (Redação dada Pela Emenda Constitucional nº 66, de 2010)

§ 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.

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§ 8º O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.

No parágrafo 7º do artigo citado acima, nota-se disposto o princípio da dignidade da pessoa humana que foi preceito fundamental para o Direito de Família e também um dos princípios norteadores da Constituição Federal de 1988.

Verifica-se que com a vigência da Constituição Federal de 1988, o Código Civil de 1916 tornou-se obsoleto. Portanto, em 2002, foi instituída a Lei 10.406 que criou o novo Código Civil.

Conforme Nobre (2014, S/N)

O Código Civil de 2002 veio para trazer a assunção de uma realidade familiar concreta, onde os vínculos de afetivos devem ser sobrepostos aos vínculos sanguíneos, biológicos, sendo priorizada a afetividade, a não discriminação de filhos, e a corresponsabilidade de ambos os pais em relação ao poder familiar. O direito a igualdade entre cônjuges é, desde logo, enfatizando que o poder familiar é exercido em comum sociedade do homem e da mulher, sendo proibida a interferência das pessoas jurídicas.

Ainda, de acordo com Dias (2010, p.33) “h uve a re ers nalizaç das relações familiares na busca do atendimento aos interesses mais valiosos das pessoas humanas: afeto, s lidariedade lealdade c nfiança res eit e a r”

Neste cenário, é possível observar que as famílias mudaram, e nos dias de hoje o conceito é mais abrangente. A família não se define somente com base nos laços biológicos, também se devem levar em conta os laços socioafetivos dos envolvidos.

1.2.3 As novas concepções de família no atual entendimento brasileiro

No decurso do tempo a sociedade transformou-se, e da mesma forma as famílias sofreram inúmeras modificações. Como dito anteriormente, não há um conceito certo e específico para as famílias, até mesmo o Código Civil e a Constituição Federal vigentes nos dias de hoje não a definem.

Entretanto, a Lei Maria da Penha (Lei 11.340) do ano de 2006, define família em seu artig 5º incis II c “a c unidade f r ada r indiv du s ue s u se c nsidera aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou r v ntade e ressa” de ais n

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es artig incis III define fa lia c “ ual uer relaç nti a de afet ” Este c nceit n abrange s ente a vi l ncia d stica estabelece s “c nt rn s de seu â bit de abrang ncia” (DI S 2017 132)

Ademais, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro de 1948, é direito dos homens e mulheres fundarem uma família. A saber

Artigo 16

1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.

2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

3. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

A doutrina define das mais diversas formas o conceito de família

O conceito de família mudou significativamente até que, nos dias de hoje, assume uma concepção múltipla, plural, podendo dizer respeito a um ou mais indivíduos, ligados por traços biológicos ou sociopsicoafetivos, com a intenção de estabelecer, eticamente, o desenvolvimento da personalidade de cada um. (FARIAS; ROSENVALD, 2017, p. 39)

Rizzardo (2019, p.10) divide o conceito em amplo ou estrito

No sentido atual, a família tem um significado estrito, constituindo-se pelos pais e filhos, apresentando certa unidade de relações jurídicas, com idêntico nome e o mesmo domicílio e residência, preponderando identidade de interesses materiais e morais, sem expressar, evidentemente, uma pessoa jurídica. No sentido amplo, amiúde empregado, diz respeito aos membros unidos pelo laço sanguíneo, constituída pelos pais e filhos, nestes incluídos os ilegítimos ou naturais e os adotados.

Em um segundo significado amplo, engloba, além dos cônjuges e da prole, os parentes colaterais até determinado grau, como tios, sobrinhos, primos; e os parentes por afinidade – sogros, genro, nora e cunhados.

De acordo com Paulo Lôbo (2014, p.17) a fa lia atual “está atrizada e aradig a ue e lica sua funç atual: a afetividade” de ais aut r cita ue “en uant h uver affectio haverá fa lia”

Para Paulo Nader (2016, p.3)

Família é uma instituição social, composta por mais de uma pessoa física, que se irmanam no propósito de desenvolver, entre si, a solidariedade nos planos

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assistencial e da convivência ou simplesmente descendem uma da outra ou de um tronco comum. Ao lado da grande-família, formada pelo conjunto de relações

Para Maria Berenice Dias (2015, p. 133)

É necessário ter uma visão pluralista da família, que abrigue os mais diversos arranjos familiares, devendo-se buscar o elemento que permite enlaçar no conceito de entidade familiar todos os relacionamentos que têm origem em um elo de afetividade, independentemente de sua conformação. [...] A família é um grupo social fundado essencialmente nos laços de afetividade após o desaparecimento da família patriarcal, que desempenhava funções procriativas, econômicas, religiosas e políticas.

O novo modelo da família funda-se sobre os pilares da repersonalização, da afetividade, da pluralidade e do eudemonismo [...].

Flávio Tartuce (2017, p.39) conclui que

Justamente diante desses novos modelos de família é que se tem entendido que a família não pode se enquadrar numa moldura rígida, em um suposto rol taxativo (numerus clausus), como aquele constante do Texto Maior. Em outras palavras, o rol constante do art. 226 da CF/1988 é meramente exemplificativo (numerus apertus).

É possível visualizar várias concepções de família, o que consequentemente possibilitou-se o reconhecimento da multiparentalidade.

1.3 Princípios Do Direito De Família

Com o advento da Constituição Federal de 1988 foram consagrados vários princípios no ordenamento jurídico brasileiro. Dentre todos os ramos, o Direito de Família também foi beneficiado com os princípios constitucionais.

Paul L b (2017 52) diz ue “ s rinc i s jur dic s inclusive s c nstituci nais são expressos ou implícitos. Estes últimos podem derivar da interpretação do sistema constitucional adotado ou podem brotar da interpretação harmonizadora de normas constitucionais especificas” Observa-se que não há hierarquia entre eles.

Segundo Maria Berenice Dias (2015, p.40) os princípios podem ser gerais ou es eciais “Os gerais s a licáveis a t d s s ra s d direit [ ] seja em que situações se apresentem, sempre sã revalentes” res eit d s rinc i s es eciais a aut ra estabelece

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ue “há rinc i s ró ri s das relações fa iliares” c e e l s rinc i s da solidariedade e afetividade.

Por se tratar de muitos princípios norteadores do Direito de Família, o presente trabalho abordará somente os pertinentes ao tema.

1.3.1 Princípio da Dignidade Humana

O princípio da dignidade humana é princípio fundamental da Constituição Federal de 1988 e encontra-se no artigo 1º, inciso III. Nas famílias este princípio também está previsto na CF/88 no artigo 226, §7º e artigo 227.

Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

[...]

§ 7º Fundado nos princípios da dignidade da pessoa humana e da paternidade responsável, o planejamento familiar é livre decisão do casal, competindo ao Estado propiciar recursos educacionais e científicos para o exercício desse direito, vedada qualquer forma coercitiva por parte de instituições oficiais ou privadas.

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

No entender Rolf Madaleno (2018) a estrutura de base do Direito de Família é o princípio da dignidade da pessoa humana.

Maria Berenice Dias (2015, p. 45) define este rinc i c “val r nuclear da rde c nstituci nal” send ue atrav s da dignidade hu ana ue surge vári s utr s princípios. Em última análise, esclarece:

O princípio da dignidade humana significa, em última análise, igual dignidade para todas as entidades familiares. Assim, é indigno dar tratamento diferenciado às várias formas de filiação ou aos vários tipos de constituição de família, com o que se consegue visualizar a dimensão do espectro desse princípio, que tem contornos cada vez mais amplos. (DIAS, 2015, p.45).

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Portanto, entende-se como efetivação do princípio da dignidade da pessoa humana o tratamento adequado as mais diversas formas de arranjos familiares, entre eles, as famílias multiparentais.

1.3.2 Princípio da Solidariedade Familiar

O princípio da solidariedade familiar é um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, e está disposto no art. 3º, inciso I da Constituição Federal de 1988.

Para Paulo Lobo (2017, p.56):

A solidariedade do núcleo familiar deve entender-se como solidariedade recíproca dos cônjuges e c anheir s rinci al ente uant assistência moral e material. A solidariedade em relação a s filh s res nde exigência da ess a de ser cuidada at atingir a idade adulta ist de ser antida instruída e educada para sua plena formação social (Bianca, 1989, v. 2, p. 15).

No entender de Elda Maria Gonçalves Menezes (2010, S/N) a solidariedade implica em respeito, consideração e assistência mútua entre os membros da família.

De forma simplificada, solidariedade é o que cada um deve ao outro (DIAS, 2015, p.48).

É possível visualizar a concretização do princípio da solidariedade nas obrigações alimentares, pois conforme o artigo 1.694 do Código Civil de 2002 podem os parentes, cônjuges ou companheiros pedirem alimentos uns aos outros se necessitarem.

Portanto, o princípio da solidariedade contempla a assistência moral, afetiva, psicológica e também a assistência material, como exemplo o pagamento de alimentos aos familiares que necessitarem.

1.3.3 Princípio do Pluralismo das Entidades Familiares

Como já demonstrado neste trabalho, a família sofreu profundas modificações ao longo dos anos. Antes a família era constituída somente através do casamento, e

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posteriormente com o advento da Constituição Federal de 1988 passou-se a admitir as mais diversas formas de estrutura familiar com base no afeto.

Deste modo, DIAS (2015, p. 49) conclui que o princípio do pluralismo das entidades fa iliares f i encarad c “ rec nheci ent el Estad da e ist ncia de várias ssibilidades de arranj s fa iliares”

Portanto, através deste princípio, as famílias multiparentais devem ser inseridas como uma estrutura familiar e o Estado deve protegê-las.

1.3.4 Princípio da Afetividade

O princípio da afetividade está implícito na Constituição Federal de 1988, porém é o princípio norteador das relações socioafetivas.

Segundo Paulo Lobo (2017, p.68):

O principio da afetividade entrelaça-se com os princípios da convivência familiar e da igualdade entre cônjuges, companheiros e filhos, que ressaltam a natureza cultural e não exclusivamente biológica da família. [...]

O principio da afetividade está i l cit na Constituição. Encontram-se na Constituição fundamentos essenciais do principio da afetividade, constitutivos dessa aguda evolução social da família brasileira, al d s já referid s: a) t d s s filh s são iguais, independentemente de sua origem (art. 227, § 6o); b) a adoção, como escolha afetiva, alçou-se integralmente ao plano da igualdade de direitos (art. 227, §§ 5o e 6o); c) a comunidade formada por qualquer d s ais e seus descendentes incluind -se s ad tiv s te a es a dignidade de fa lia c nstituci nal ente r tegida (art 226 4 ); d) a c nviv ncia fa iliar (e n a rige bi lógica) ri ridade abs luta assegurada criança e a ad lescente (art. 227).

Para Madaleno (2018, p.98)

Maior prova da importância do afeto nas relações humanas está na igualdade da filiação (CC, art. 1.596), na maternidade e paternidade socioafetivas e nos vínculos de adoção, como consagra esse valor supremo ao admitir outra origem de filiação distinta da consanguínea (CC, art. 1.593), ou ainda através da inseminação artificial hieróloga (CC, art. 1.597, inc. V); na comunhão plena de vida, só viável enquanto presente o afeto, ao lado da solidariedade, valores fundantes cuja soma consolida a unidade familiar, base da sociedade a merecer prioritária proteção constitucional.

Assim podemos concluir que o princípio da afetividade apesar de implícito na Constituição Federal de 1988, é demonstrado com base na igualdade entre os filhos, na

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parentalidade socioafetiva e demais institutos. Isto resulta na possibilidade de reconhecimento de vários arranjos familiares baseados no afeto.

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II FILIAÇÃO

A filiação também passou por diversas mudanças. Antes havia diferenciação de filhos legítimos e ilegítimos, posteriormente foi adotado o princípio da isonomia entre os filhos que se conserva até os dias de hoje.

N entender de Carl s Maluf e driana Maluf (2016 465) „a filiação é relação existente entre os genitores e sua prole, independente de haver vínculo biológico‟

Para Scal uette (2014 86) a filiaç se baseia na “relaç de arentesc e linha reta de ri eir grau ue se estabelece entre ais e filh s” Essa relaç de ser dec rrente de vínculo sanguíneo ou de outra origem legal.

Assim sendo, será caracterizado neste capítulo a filiação biológica, socioafetiva e demais institutos.

2.1 Filiação Biológica

A filiação biológica assim como o instituto familiar foi se moldando com a evolução da sociedade, em síntese, é possível conceituá-la como o vínculo de consanguinidade existente entre pais e filhos.

Antigamente, a origem biológica era indispensável para as funções tradicionais e para a separação dos filhos em legítimos e ilegítimos. Porém, a família atual envolve maior complexidade. (LÔBO, 2011, p.30)

A identificação da filiação biológica por meio do exame de DNA foi um avanço cientifico que possibilitou a busca à “verdade real” ue sucessiva ente ass u a ter uc valor perto da filiação socioafetiva. Afinal, como destaca Maria Berenice Dias (2017, p.398), “Pai é diferente de genitor. Pai é o que cria, o que dá amor, e genit r s ente ue gera”

Conforme Luiz Edson Fachin (2012, p. 10)

O biologismo não assume o papel exclusivo de base apta a determinar paternidade. Se assim fosse, inviável seria, por exemplo, a doação de material genético, com a inseminação artificial heteróloga: os pais seriam sempre os doadores dos gametas. Não é, entretanto, como se sabe, o que ocorre. A paternidade é mais do que uma determinação simplesmente biológica.

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O vínculo sanguíneo não é suficiente para estabelecer um relacionamento profundo entre pai e filho, prova disso é que na reprodução assistida, o sujeito que doa os gametas não será responsável para criação do bebê, ou seja, não há filiação pela ausência total de vontade. (VIEIRA, 2015, p. 87)

Diante do exposto, percebe-se que com o passar dos anos, a filiação biológica foi perdendo valor perto da filiação socioafetiva. Ser pai é muito mais complexo do que ter vínculo genético com o filho.

2.2 Filiação Socioafetiva

Com base na evolução histórica e nas modulações no conceito de família, a Declaração Universal dos Direitos Humanos concretizou a formação da família baseada em laços afetivos sem qualquer distinção.

Artigo 16

I) Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, tem o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.

II) O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.

III) A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

Artigo 25 I) [...]

II) A maternidade e a infância tem direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimônio, gozarão da mesma proteção social.

Seguindo a declaração, a Constituição Federal de 1988 deu prioridade ao princípio da afetividade, da dignidade da pessoa humana, e proibiu as designações discriminatórias quanto à filiação.

Inegável h je rec nheci ent de ue afet al de ser u senti ent inerente vida s uica e ral do ser humano, apresenta também um valor ético e jurídico, ligado intrinsecamente aos princípios constitucionais, notadamente o princípio da dignidade da pessoa humana, presente no art. 1o, III, da CF.

ssi a filiaç ve na ós-modernidade, fundada no afeto e na vontade, acima dos vínculos biológicos, ou legais. (MALUF; MALUF, 2016, p. 521)

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De forma sucinta, a filiação socioafetiva independe da origem biológica. Dessa afirmativa, discorre a desconstrução do paradigma da precedência histórica da natureza sobre a cultura.

O real valor jurídico está na verdade afetiva e jamais sustentada na ascendência genética, porque essa, quando desligada do afeto e da convivência, apenas representa um efeito da natureza, quase sempre fruto de um indesejado acaso, obra de um indesejado descuido e da pronta rejeição. Não podem ser considerados genitores pessoas que nunca quiseram exercer as funções de pai ou de mãe, e sob todos os modos e ações se desvinculam dos efeitos sociais, morais, pessoais e materiais da relação natural de filiação. (MADALENO, 2018, p. 504)

Para Brasileir ; Ribeir (2016 9) “Não é exclusivamente o vínculo sanguíneo que indica quem são os pais da criança, mas sim o amor e o cuidado daquele que se dispõe a exercer a paternidade”

Segundo Luciano Silva Barreto (2013, p. 208):

A família contemporânea caracteriza-se pela diversidade, justificada pela incessante busca pelo afeto e felicidade. Dessa forma, a filiação também tem suas bases no afeto e na convivência, abrindo-se espaço para a possibilidade da filiação não ser somente aquela que deriva dos laços consanguíneos, mas também do amor e da convivência, como é o caso da filiação socioafetiva.

Neste entendimento, conclui:

A tutela do Estado voltou-se, então, para as pessoas que integram a família construída sobre os laços do afeto e direcionada para a realização espiritual e ao desenvolvimento da personalidade de seus membros. Tem-se a chamada repersonalização ou despatrimonialização das relações familiares, entendida como a realização pessoal da afetividade e da dignidade humana, no ambiente de convivência e solidariedade como função básica da família da época presente (SALOMÃO; MARTINS, S/N)

Assim pode-se afirmar que o legislador constitucional direcionou a família por meio da socioafetividade mediante interpretação dos princípios da igualdade e da afetividade, estes inerentes à dignidade da pessoa humana.

José Bernardo Ramos Boeira (1999, p.60) menciona que:

A própria modificação na concepção jurídica de família conduz, necessariamente, a uma alteração na ordem jurídica da filiação, em que a paternidade socioafetiva deverá ocupar posição de destaque, sobretudo para solução de conflitos de paternidade.

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Diante o exposto, fica claro que o entendimento atual do conceito familiar está ligado nas relações interpessoais conforme os laços comportamentais e afetivos existente entre os membros da família. Ademais, a filiação socioafetiva caracteriza-se pela existência da posse de estado de filho que será conceituada no próximo tópico.

2.2.1 A posse de estado de filho

A filiação socioafetiva é resultado da posse de estado de filho. A doutrina entende que fica caracterizada a posse de estado de filho perante a presença de três elementos: nome (“n e ”), trat (“tractatus”) e fama (“fa a”). Apesar de não serem essenciais para a caracterização da filiação socioafetiva, as circunstâncias geralmente sugerem a posse de estado de filho.

O nome diz respeito ao fato do filho usar o nome do suposto pai. Porém, a falta deste não descaracteriza a posse de estado de filho, sendo necessários o trato e a fama.

O trato significa o tratamento conferido ao filho, como a assistência financeira, atos de proteção, e a afetividade. Para Vanessa Ribeiro Corrêa (2001, p. 556):

No que concerne ao trato, pode-se considerá-lo como o principal requisito para a configuração do estado de filho, vez que se encontra consubstanciado na própria relação vivenciada com o pai, na medida em que este revela os sentimentos que nutre pelo filho através da preocupação com o seu bem-estar, cuidando de sua saúde, promovendo a sua educação, e também zelando a todo instante pela boa formação do filho.

Diante desta perspectiva José Bernardo Ramos Boeira (1999, p.60) afirma que o estado de posse de filho é uma relação afetiva, íntima e duradoura caracterizada perante terceiros.

Para Jacqueline Filgueras Nogueira (2001, p. 113-114)

“ sse de estad de filh ” c nstitui a base s ci lógica da filiaç esta n ç fundada nos laços de afeto, o sentido verdadeiro de paternidade. Portanto é essa noção que deve prevalecer em casos de conflitos de paternidade, quando as presunções jurídicas já não bastam e não convencem, ou quando os simples laços biológicos não são suficientes para demonstrar a verdadeira relação entre pais e filhos. Não são os laços de sangue nem as presunções jurídicas que estabelecem um vínculo entre uma criança e seus pais, mas o tratamento diário de cuidados, alimentação, educação, proteção e amor, que cresce e se fortifica com o passar dos dias.

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Apesar de próximo da filiação socioafetiva, Andrelina Olimpia de Carvalho (2017) distingue que na posse de estado de filho independe de vontade das partes, ou seja, existindo os elementos de trato e fama e, se possível nome, já está caracterizado o instituto. Já a filiação socioafetiva a aut ra c reende c “ ais c le a” há inclusive desej das artes e ser pai e filho.

Neste contexto, é perceptível que a posse de estado de filho geralmente resulta na filiação socioafetiva.

Pode-se concluir que a posse de estado de filho na realidade é uma condição para a configuração da perfilhação socioafetiva, mas não é o único, sendo necessário ainda, como já dito, a presença da vontade de ambos os envolvidos de serem reconhecidos como pai e filho. Assim, poderá um homem criar uma criança, tendo de fato a posse de estado de filho sem ser pai socioafetivo desta criança. (CARVALHO, 2017, S/N)

Para se comprovar a filiação, o Código Civil de 2002 deixa expresso no artigo 1.605, inciso II:

Art. 1.605. Na falta, ou defeito, do termo de nascimento, poderá provar-se a filiação por qualquer modo admissível em direito:

[...]

II - quando existirem veementes presunções resultantes de fatos já certos.

O entendimento deste artigo consagra o Princípio da Aparência e a Posse de Estado de Filho.

Para DI S (2015 380) “também a referência a veementes presunções resultantes de fatos já certos (CC 1 .605 II) diz com o conceito de posse de estado de filho, nada mais do que a filiação socioafetiva”

Ainda, o Conselho de Justiça Federal elaborou o enunciado 519 que dispõe

O reconhecimento judicial do vínculo de parentesco em virtude de socioafetividade deve ocorrer a partir da relação entre pai(s) e filho(s), com base na posse do estado de filho, para que produza efeitos pessoais e patrimoniais.

Mister salientar que o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM) em seu enunciad 7 dis õe ue “ sse de estad de filh de c nstituir aternidade e aternidade ”

Ou seja, o conceito atual quanto à posse de estado de filho pode caracterizar a filiação socioafetiva se presente a vontade das partes em serem reconhecidas como pai e filho.

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2.2.2 Família Eudemonista

Neste diapasão, surge a denominada família eudemonista. Esta é reconhecida pelo envolvimento afetivo de seus integrantes.

A express “eude nista” r v d greg e te ligaç c adjetiv “feliz” Sua utilização remete à doutrina que admite ser a felicidade individual ou coletiva o supedâneo da conduta humana moral, o que quer dizer que entendem como moralmente boas todas as condutas que deságuam na felicidade plena (FERREIRA, p. 592 apud DIAS, 2010, p. 55).

Ainda, para Andrade (2008)

Para essa nova tendência de identificar a família pelo seu envolvimento afetivo se deu a nomenclatura de família eudemonista, que busca a felicidade individual, vivendo um processo de emancipação de seus membros. A possibilidade de buscar formas de realização pessoal e gratificação profissional é a maneira que as pessoas encontram de viver, convertendo-se em seres socialmente úteis, pois ninguém mais deseja e ninguém mais pode ficar confinado à mesa familiar.

Conforme observa o Minisro Luiz Edson Fachin

Sob as relações de afeto, de solidariedade e de cooperação, proclama-se, com mais assento, a concepção eudemonista da família: não é mais o indivíduo que existe para a família e para o casamento, mas a família e o casamento existem para o seu desenvolvimento pessoal, em busca de sua aspiração à felicidade. (STF, Recurso Extraordinário 898.060, j. 21/09/2016).

Portanto, a família socioafetiva faz parte de uma família eudemonista que busca a felicidade de seus membros como ponto principal.

2.3 Efeitos Jurídicos do Parentesco Socioafetivo

Antes de declinar quanto aos efeitos jurídicos do parentesco socioafetivo, se faz necessário discriminar a conceituação de parentesco. Este se entende no ordenamento jurídico

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como resultado da consanguinidade, da afinidade que liga o cônjuge ou companheiro aos parentes do outro, e da adoção.

Conforme Paulo Lôbo (2017, p. 201)

Parentesc a relação jurídica estabelecida pela lei ou por decisão judicial entre uma pessoa e as demais que integram o grupo familiar. A relação de parentesco identifica as pessoas como pertencentes a um grupo social que as enlaça nu c njunt de direit s e deveres e su a ualidade u característica de parente.

Diante do discriminado, os artigos 1.593 e 1.595 do Código Civil de 2002 dispõem:

Art. 1.593. O parentesco é natural ou civil, conforme resulte de consanguinidade ou outra origem.

Art. 1.595. Cada cônjuge ou companheiro é aliado aos parentes do outro pelo vínculo da afinidade.

§ 1o O parentesco por afinidade limita-se aos ascendentes, aos descendentes e aos irmãos do cônjuge ou companheiro.

§ 2o Na linha reta, a afinidade não se extingue com a dissolução do casamento ou da união estável.

“Desse modo, o que se permite concluir é que o parentesco natural equivale ao genético ou biológico; e parentesco civil é o que resulta de outra origem, ou seja, de adoção, afinidade e arentesc s ci afetiv ” (LUZ 2009, p. 156).

Ao admitir o parentesco de outra origem, o Código Civil incorporou a socioafetividade nas relações familiares.

Uma vez que a socioafetividade é uma questão fato e de direito, para a produção de efeitos deve ser comprovada a afetividade e afinidade entre membros da entidade familiar por meio de sentença.

Para que produza efeitos jurídicos, a socioafetividade deve ser reconhecida por sentença, uma vez feita a prova do afeto, sem dúvida de natureza subjetiva, e, necessariamente, dos efeitos sociais daí decorrentes, passíveis de aferição objetiva. (BARBOZA, 2007, p.10)

Para Christiano Cassettari (2015, p. 115-116)

Assim, temos que, quando um pai ou mãe reconhece uma paternidade ou maternidade socioafetiva, esse filho passará a ter vínculo de parentesco com seus outros parentes. Com isso surgirão os conceitos: avós, bisavós, triavós, tataravós, irmãos, tios, primos, tios-avós socioafetivos, que irão acarretar todos os direitos decorrentes dessa parentalidade. Por exemplo, se o pai ou mãe socioafetivos não tiver condição de pagar pensão alimentícia ao filho, poderão ser chamados os avós.

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Se a pessoa morre e só deixa um tio socioafetivo vivo, terá esse tio o direito sucessório; e se deixar apenas um irmão socioafetivo vivo, e esse for menor, ele terá direito previdenciário. (CASSETTARI, 2015, p. 115-116)

Portanto, o parentesco socioafetivo, reconhecido a sentença, possui os mesmos efeitos jurídicos que o parentesco natural.

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III MULTIPARENTALIDADE

A família e a filiação sofreram profundas mudanças com o tempo. Mediante as modificações conceituais que passaram a ser admitidas, possibilitou-se a coexistência da filiação biológica e socioafetiva, conhecida como multiparentalidade ou pluriparentalidade.

Por conseguinte, serão expostas mais definições deste instituto para melhor entendimento, conforme a doutrina brasileira.

3.1 Conceito

Diante dos conceitos de filiação biológica e socioafetiva, há que se admitir a coexistência das duas filiações. Deste modo, serão expostos conceitos acerca da multiparentalidade.

Segundo SCHWERZ (2015, p.7):

Por algum tempo se entendia, de forma praticamente unânime, que não havia a possibilidade de coexistência entre dois critérios de reconhecimento de filiação, ou seja, diante da existência de uma parentalidade biológica e outra afetiva, o julgador deveria optar pelo reconhecimento de apenas uma delas para fins de registro civil e geração de efeitos familiares (registrais, pessoais e patrimoniais) e sucessórios.

GHILARDI (2013, p.63) “ uest da ulti arentalidade u fenô en t ic da contemporaneidade, construída com base em valores plurais, que exigem o reconhecimento de todas as formas de afeto possíveis e não mais aquelas emolduradas no passado”.

Conforme Maria Berenice Dias e Marta Cauduro Oppermannm (S/N)

Para o reconhecimento da filiação pluriparental, basta flagrar o estabelecimento do vínculo de filiação com mais de um pai ou mais de uma mãe.

Reconhecida a presença da posse de estado de filho com mais de duas pessoas, todos devem assumir os encargos decorrentes do poder familiar. Não há outra forma de resguardar o seu melhor interesse e assegurar proteção integral.

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As autoras Aline Kirch e Lívia Copatti (S/N) conceituam a multiparentalidade:

A multiparentalidade significa a legitimação da paternidade/maternidade do padrasto ou madrasta que ama, cria e cuida de seu enteado(a) como se seu filho fosse, enquanto que ao mesmo tempo o enteado(a) o ama e o(a) tem como pai/mãe, sem que para isso, se desconsidere o pai ou mãe biológicos. A proposta é a inclusão no registro de nascimento do pai ou mãe socioafetivo permanecendo o nome de ambos os pais biológicos.

de ais “entende-se por multiparentalidade a possibilidade de o filho possuir dois pais ou duas mães reconhecidos pelo direito, o biológico e o socioafetivo, tendo em vista a valorização da filiação socioafetiva” (M LUF M LUF 2016 532)

Abreu, 2015, p.28 dispõe:

A doutrina brasileira vem aos poucos admitindo a possibilidade do instituto da multiparentalidade, aceitando a coexistência da filiação socioafetiva com a biológica com a produção de todos os efeitos jurídicos, incumbindo direitos e obrigações a todas as partes. Desse modo, a multiparentalidade visa garantir o direito da criança e do adolescente de terem e manterem todos os vínculos socioafetivos e biológicos reconhecidos e de usufruírem de todos os efeitos jurídicos deles decorrentes.

O Ministro Luiz Fux (STF, Recurso Extraordinário 898.060) no julgado acerca da multiparentalidade afirma:

Da mesma forma, nos tempos atuais, descabe pretender decidir entre a filiação afetiva e a biológica quando o melhor interesse do descendente é o reconhecimento jurídico de ambos os vínculos. Do contrário, estar-se-ia transformando o ser humano em mero instrumento de aplicação dos esquadros determinados pelos legisladores. É o direito que deve servir à pessoa, não o contrário.

Ana Carolina Brochado Teixeira e Renata de Lima Rodrigues (2010, p. 97-98) dispõe:

A multiparentalidade é um fato jurídico contemporâneo, facilmente perceptível no âmbito de muitas famílias reconstituídas, nas quais tanto o pai/mãe biológico quanto o padrasto/madrasta – que acabam por funcionar como pais socioafetivos na vida dos enteados – exercem a autoridade parental, gerando a cumulação de papéis de pai/mãe, não de modo excludente, mas inclusivo e até mesmo complementar.

Outrossim, o artigo de Maria Berenice Dias e Marta Caduro Oppermann há a decisão da Juíza Ana Maria Gonçalves Louzada que destacou não caber ao Direito ou ao Judiciário impor limites aos arranjos familiares:

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O direito deve espelhar e proteger a vida da pessoa na sua inteireza. Se no caso concreto ela possuir duas mães, dois pais, ou seja lá a composição que sua família tenha, não cabe ao Direito e tampouco ao Judiciário impor limites a esta entidade familiar. Hannah Arendt já dizia que a pluralidade é a condição da ação humana porque somos todos iguais, isto é humanos, de um modo tal que ninguém jamais é igual a qualquer outro que viveu, vive ou viverá. Ou seja, somos únicos! Engessar arranjos familiares tendo como fundamento o dogma da unicidade de paternidade e maternidade, é apenas fazer uma leitura linear da vida. É preciso que nossos horizontes sejam alargados, que nossa visão seja aprofundada, e que nossos braços sejam fontes de acolhimento. (TJDF, Comarca de Sobradinho. Proc. 2013.06.1.001874-5, Juíza Ana Maria Gonçalves Louzada, j. 06/06/2014).

Em vista disso, conclui-se que o direito não deve limitar o que é a família, mas deve ser modificado para atender as necessidades dos arranjos familiares. Nesse sentido Maurício Cavallazzi Póvoas (2012) entende que a multiparentalidade é um direito e uma obrigação constitucional já que envolve a dignidade e afetividade da pessoa humana.

3.1.1 Da não interferência do novo cônjuge

Por outro lado, a legislação brasileira não dispõe sobre a multiparentalidade, mas no artigo 1.636 do Código Civil de 2002 discorre sobre a possibilidade de novas núpcias do pai ou da mãe.

Art 1.636. O pai ou a mãe que contrai novas núpcias, ou estabelece união estável, não perde, quanto aos filhos do relacionamento anterior, os direitos ao poder familiar, exercendo-os sem qualquer interferência do novo cônjuge ou companheiro. Parágrafo único. Igual preceito ao estabelecido neste artigo aplica-se ao pai ou à mãe solteiros que casarem ou estabelecerem união estável.

Deste artigo, interpreta-se que o padrasto ou madrasta (novo cônjuge ou companheiro) não poderão interferir no exercício da autoridade parental em relação aos enteados. Porém, o que se percebe na realidade é totalmente diferente. Muitas vezes há a figura parental em terceiros que se tornam responsáveis em criar e educar filhos não biológicos, mas sim, socioafetivos.

[...] é perfeitamente possível que se crie um vínculo afetivo entre estes parentes afins e os filhos de seus consortes, uma vez que padrasto e madrasta exercem, com frequência, uma série de atos tipicamente inseridos no conteúdo da autoridade parental, mesmo que não haja uma real desvinculação afetiva ou material desses filhos com seus genitores biológicos, que, a despeito da dissolução da família

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anteriormente constituída, não deixaram de se desincumbir de seus papéis na formação da personalidade de seus filhos (TEIXEIRA; RODRIGUES, 2015, p.17).

Não há que se falar na não interferência do novo cônjuge no poder do exercício familiar. É possível que a madrasta ou o padrasto vejam seus enteados como filhos e assim os criem, do mesmo modo há a possibilidade do enteado vê-los como pai ou mãe mesmo que já tenha os genitores biológicos. Portanto, o referido artigo é mera ficção jurídica.

3.2 Dos Efeitos Jurídicos

Mediante a necessidade de amparar o instituto da multiparentalidade, em 2013, o IBDFAM – Institut Brasileir de Direit de Fa lia cri u Enunciad nº9 dis nd ue “ ulti arentalidade gera efeit s jur dic s”

Deste enunciado interpreta-se ue “ s pais devem assumir os encargos decorrentes do der fa iliar send ue filh desfruta direit e relaç a t d s” (DI S 2015 409)

Conforme Façanha (2017, p.66)

Por se tratar de uma face da parentalidade socioafetiva, o reconhecimento da multiparentalidade está igualmente calcado na qualificação da posse do estado de filho, jamais na identificação da própria origem genética. A imputação da multiparentalidade busca, tanto no vínculo biológico quanto no civil, o ingrediente afetivo, revelando que existe o interesse das partes no exercício da parentalidade e da filiação, desejando serem tratados e reputados como pais e filhos, atraindo para si os encargos dessa relação de parentesco.

Assim, os efeitos da multiparentalidade são amplos. Não há efeitos só no âmbito do Direito das Famílias, mas em todos os outros ramos do Direito, incumbindo direitos e obrigações para as partes.

Exemplo de Maria Berenice Dias e Marta Cauduro Oppermann, é o registro de nascimento correspondente à realidade da criança. No registro devem constar os nomes dos pais biológicos e socioafetivos desde que reconhecido judicialmente a família multiparental.

Para as aut ras “A ausência de lei prevendo a possibilidade do registro de uma pessoa em nome de mais de dois genitores não constitui um impeditivo, até porque não existe expressa proibição”

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de ais segund J nes Figueir d lves (2014 97) “ direit a n e reflete e erc ci regular de direit de ers nalidade”

Desta forma, a criança tem resguardado os direitos à identidade, personalidade, igualdade, e do melhor interesse da criança conforme o princípio da dignidade da pessoa humana e o direito à busca da felicidade.

Para Belmiro Pedro Welter (2012, p.144) a respeito da paternidade genética e socioafetiva:

Assim, não reconhecer essas duas paternidades, ao mesmo tempo, com a concessão de „t d s‟ s efeit s jur dic s negar a e ist ncia tridi ensional do ser humano, que é reflexo da condição e da dignidade humana, na medida em que a tridimensionalidade humana, genética, afetiva e ontológica, é tão irrevogável quanto a vida, pois faz parte da trajetória da vida humana.

Ademais, no que tange ao direito dos alimentos, o menor poderá requerer alimento a qualquer um dos pais:

Na tripla filiação o menor poderá requerer alimentos de qualquer um dos pais, atendendo o princípio do melhor interesse do menor, presente no Estatuto da Criança e do Adolescente, restando claro que a possibilidade de uma tripla filiação tem muito mais o liame de contribuir para o desenvolvimento do menor do que prejudicá-lo, até mesmo pelo fato de nos casos onde os magistrados decidiram por conceder a tripla filiação, sempre havia a relação familiar de fato restando-se apenas a regulamentação do direito. (MENDES; QUEIROZ, 2014, p. 481)

Portanto, o reconhecimento da paternidade biológica e socioafetiva, concomitantemente, há a concessão de todos os efeitos jurídicos existentes, sejam eles no nome, no parentesco, na sucessão, nos alimentos, nos direitos de visitas e guarda, previdenciários, etc...

3.3 Dos Julgados

Visto que a multiparentalidade carece de legislação específica, alguns julgados acerca do tema serão expostos para maior embasamento quanto ao entendimento atual da jurisprudência.

(39)

3.3.1 Do Reconhecimento do Supremo Tribunal Federal

No dia 21 de setembro de 2016, o Supremo Tribunal Federal julgou o Recurso Extraordinário 898.060, Repercussão Geral nº622 e reconheceu a multiparentalidade.

RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. DIREITO CIVIL E CONSTITUCIONAL. CONFLITO ENTRE PATERNIDADES SOCIOAFETIVA E BIOLÓGICA. PARADIGMA DO CASAMENTO. SUPERAÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO DE 1988. EIXO CENTRAL DO DIREITO DE FAMÍLIA: DESLOCAMENTO PARA O PLANO CONSTITUCIONAL. SOBREPRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA (ART.1º, III, DA CRFB). SUPERAÇÃO DE ÓBICES LEGAIS AO PLENO DESENVOLVIMENTO DAS FAMÍLIAS. DIREITO À BUSCA DA FELICIDADE. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL IMPLÍCITO. INDIVÍDUO COMO CENTRO DO ORDENAMENTO JURÍDICO-POLÍTICO. IMPOSSIBILIDADE DE REDUÇÃO DAS REALIDADES FAMILIARES A MODELOS PRÉ-CONCEBIDOS. ATIPICIDADE CONSTITUCIONAL DO CONCEITO DE ENTIDADES FAMILIARES. UNIÃO ESTÁVEL (ART.226, §3º, CRFB) E FAMÍLIA MONOPARENTAL (ART.226,§4º, CRFB). VEDAÇÃO À DISCRIMINAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO ENTRE ESPÉCIES DE FILIAÇÃO (ART.227,§6º,CRFB).

PARENTALIDADE PRESUNTIVA, BIOLÓGICA OU AFETIVA.

NECESSIDADE DE TUTELA JURÍDICA AMPLA. MULTIPLICIDADE DE

VÍNCULOS PARENTAIS. RECONHECIMENTO CONCOMITANTE.

POSSIBILIDADE. PLURIPARENTALIDADE. PRINCÍPIO DA PATERNIDADE RESPONSÁVEL (ART.226, §7º, CRFB). RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. FIXAÇÃO DE TESE PARA APLICAÇÃO A CASOS SEMELHANTES.

A recorrente fora registrada como filha de um indivíduo que a cuidou por mais de vinte anos, porém era filha biológica de outro. Assim, a mesma sustentava na necessidade da preponderância da paternidade socioafetiva em detrimento da biológica. Entretanto, ter que escolher entre um e outro não era a melhor opção, já que considerava os dois como pai.

Diante disso, foi negado o provimento ao Recurso Extraordinário e o ínclito Relator Ministro Luiz Fux dispôs que "descabe pretender decidir entre a filiação afetiva e a biológica quando o melhor interesse do descendente é o reconhecimento jurídico de ambos os vínculos".

Na ementa, deu-se ênfase ao princípio da dignidade humana e da busca da felicidade. Posteriormente, o Ministro afirma que:

Odireito à busca da felicidade funciona como um escudo do ser humano em face de tentativas do Estado de enquadrar a sua realidade familiar em modelos pré-concebidos pela lei. É o direito que deve se curvar às vontades e necessidades das pessoas, não o contrário, assim como um alfaiate, ao deparar-se com uma vestimenta em tamanho inadequado, faz ajustes na roupa, e não no cliente. (STF, Recurso Extraordinário 898.060, Rel. Min. Luiz Fux j. 21/09/2016).

Referências

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