31º Encontro Anual da ANPOCS, de 22 a 26 de outubro de 2007, Caxambu, MG.
Seminário Temático: Sociedade e Esporte, número 30. Profª Msda. Tatiana Sviesk Moreira
Profª Msda. Ana Letícia Padeski Ferreira Profº Dr. Wanderley Marchi Júnior Universidade Federal do Paraná
Título: Pensando as estruturas de profissionalização do voleibol feminino no Brasil – 1970 a 1990.
PENSANDO AS ESTRUTURAS DE PROFISSIONALIZAÇÃO DO VOLEBOL FEMININO NO BRASIL – 1970 a 1990.
DEFINIÇÃO DO TEMA E DELIMITAÇÃO DO OBJETO DE ESTUDO
O voleibol é hoje uma das modalidades esportivas consideradas detentoras da preferência nacional brasileira1. Sua distinção no cenário esportivo nacional se mostra evidente e parece ser reforçada pelo favoritismo das equipes brasileiras em competições de renome internacional, e na sua relação com o público, em grande parte favorecida pela mídia. Esta relação pode ser enfatizada tanto por meio das transmissões televisivas de alguns jogos em rede aberta e horário nobre, quanto na apropriação, quando não incorporação, por parte do público, de signos pertencentes à esta modalidade que são traduzidos nas práticas esportivas, nos modos de se vestir e de se portar e na aquisição de produtos que, através de publicidade, são vinculados ao voleibol.
Mapeando as ações e disposições sociais dos agentes diretamente inseridos no voleibol2, temos que a relação recíproca de interesses estabelecida entre tais faz com que ambos se beneficiem, criando e sustentando um ciclo necessário para a ascensão desta modalidade esportiva no Brasil, ciclo este que garante o interesse das empresas e dos meios de transmissão televisiva no voleibol. Corroborando com o fato de que as transformações na sociedade não acontecem de imediato numa relação de causa e efeito, esta relação entre os agentes que na atualidade delimitam e
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Bojikian (1999, p.) afirma que “... as recentes conquistas das seleções brasileiras e o patrocínio de grandes empresas financiadoras fizeram com que sua popularidade crescesse de maneira considerável na última década”. Considerando o contexto de seu estudo, o autor se refere obviamente ao desenvolvimento do voleibol na década de 1990, mas determinadas características por ele mencionadas ainda se mostram presentes na atualidade. Cabe ressaltar que nesta pesquisa se pretende dar o devido tratamento analítico aos fatos que são usualmente identificados e apontados em uma relação direta de causa e efeito, buscando compreender a sua subjetividade norteadora dentro da dinâmica social correspondente. Neste caso, clarear as relações sociais e suas peculiaridades que revestiram, em um determinado momento, as conquistas, patrocínios e esta popularidade tão facilmente observável.
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compõem o campo do Voleibol no Brasil foi construída ao longo da sua trajetória neste país3.
O ciclo de que o voleibol necessita para se manter em evidência e garantir sua aceitabilidade pelo público brasileiro e, desta forma, pela mídia e empresas patrocinadoras, partiu da revelação de ídolos esportivos em meados dos anos 70 e início da década de 80, desencadeando no interesse inicial das empresas em fazer parte desta modalidade e, sucessivamente, da mídia televisiva em abordá-la em sua programação4. “O Marketing esportivo encontra seu auge 1970 por meio das transmissões esportivas televisivas. De um instrumento de comunicação pouco expressivo, o Marketing Esportivo explodiu e passou a oferecer um retorno incalculável, fantástico, excepcional.” (ROCHA, 2004, p. 27)
A partir da segunda metade dos anos setenta, inicia-se a grande escalada do nosso voleibol. A CBV em colaboração com algumas federações estaduais, passa a investir mais na formação de técnicos e atletas brasileiros, organizando muitos cursos, ministrados por técnicos estrangeiros de renome. Clubes e seleções de outros países, constantemente passaram a competir no Brasil. Vários campeonatos internacionais foram aqui sediados. (BOJIKIAN, 1999 p. 40)
Em suma, os ídolos esportivos desencadeiam o interesse das empresas em fazer parte do voleibol patrocinando equipes e atletas, a mídia televisiva fundamentada pelos altos índices de audiência nas transmissões de jogos e produtos vinculados ao voleibol acredita na proposta e, alicerçado por esta relação de dependência mútua, o voleibol passa a apresentar um nível técnico ascendente e maiores chances de se manter em evidência.5
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Marchi Jr (2004) discorre com propriedade e profundidade sobre as relações sociais estabelecidas entre os agentes, considerando seu posicionamento e disposições, que influenciaram nas transformações apresentadas no voleibol nas três fases que o voleibol perpassou no país, por ele denominadas: amadorismo, profissionalização e espetacularização, Bourdieu citado por Loyola (2002, p. 65) apresenta que as relações sociais “formam um sistema de estratégias de reprodução, ou seqüências objetivamente ordenadas e orientadas de práticas que todo o grupo deve produzir para se reproduzir enquanto grupo”.
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A chamada geração de prata – denominação dada à seleção masculina quando conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1984 – abriu portas para que as empresas começassem a investir no vôlei. “Ídolos levam novas gerações a se interessar pela prática de esportes, gerando novos resultados positivos, sociais e esportivos”. (Disponível em http://www.volei.org.com.br/cbv/batebola/index.asp?m=ent_rui-campos.htm Acesso em 14 Jul 2005.)
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Aqui nos referimos ao “voleibol” como sendo os agentes diretamente inseridos neste campo, pois as medidas ali tomadas são dadas por ações destes indivíduos dentro deste espaço.
Em meados dos anos 1970, a entrada de Carlos Arthur Nuzman na presidência da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), favoreceu os primeiros passos para a profissionalização do voleibol6. Até então, o voleibol assumia no Brasil características de esporte amador, isto é, os atletas não recebiam retorno financeiro para jogarem. Para o próprio Nuzman, o fato que marcou o início desta transição foi o jogo ocorrido entre as equipes masculinas de Brasil e Polônia (campeã olímpica em Montreal) nas Olimpíadas de Moscou em 1980 onde, perdendo de 2 sets a zero, o Brasil conseguiu virar o jogo e vencer por 3 sets a 27.
Marchi Jr (2001, p. 119) coloca que o então executivo da companhia de seguros Atlântica/Boa Vista, Antônio Carlos de Almeida Braga, assistindo ao referido jogo perguntou a Nuzman o motivo de aqueles atletas estarem jogando no exterior e o que faltava para o Brasil possuir equipes capazes de desempenhar performances como a ali apresentada. Nuzman então respondeu que necessitava profissionalizar o esporte e propôs ao empresário que, caso ele apoiasse, o dirigente iria propor ao Conselho Nacional de Desportos (CND) que as empresas pudessem entrar no voleibol como já acontecia no exterior.
Amparado por Antônio Carlos de Almeida Braga, Nuzman travou uma luta com o CND que durou aproximadamente um ano, mas conseguiu fazer com que seu pedido fosse aprovado sendo deliberado, a partir de 1981, o fim da proibição das empresas de patrocinarem o esporte, podendo assim, os atletas, mostrarem em suas camisetas nomes destes patrocinadores. Além disto, foi dificultada a saída de atletas brasileiros para jogarem em outro país. (Marchi Jr, 2004, p. 121)
Outro fato considerado nos avanços que a modalidade apresentou a partir da presidência de Nuzman na CBV, foi a importação de modelos estrangeiros de administração, principalmente asiáticos e norte-americanos. O dirigente enviou um superintendente para estudar o modelo japonês e superestimou as condições norte-americanas de desenvolvimento da indústria
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Segundo Marchi Jr (2004, p. 91) “Carlos Arthur Nuzman teve seus méritos, mas não foi o único responsável”. Este processo aconteceria independentemente da sua participação efetiva, pois os outros países já estavam com uma estrutura de profissionalização mais apurada. Porém, dada sua “base de apoio no meio político-conservador e empresarial” (MARCHI JR, 2004, p.123), Nuzman obteve êxito em sua empreitada em ascender o voleibol nacionalmente. 7
Marchi Jr (2001, p. 119) aponta que o ex-presidente da CBV se referiu a essa partida como “um dos jogos mais importantes para a história do voleibol”. Em entrevista publicada na revista
de entretenimento. Além da questão administrativa, Nuzman também importou os métodos orientais de treinamento8, os adaptando às características dos atletas brasileiros.
Dentre as estratégias acatadas por Nuzman para promover o voleibol no país, Rocha (2004, p. 9) aponta seu esforço para que em 1977 o Brasil pudesse sediar os Mundiais masculino e feminino na categoria juvenil. Silva (2004, p. 69) corrobora neste sentido afirmando que trazer este campeonato para o Brasil e transmitir os jogos pela Rede Bandeirantes fez parte deste trabalho de colocar o Voleibol em evidência no país.
Marchi Jr (2004, p. 121) aponta que Nuzman defendia que se atletas brasileiros representassem times estrangeiros, eles estariam comprometendo o retorno de investidores no esporte nacional, além da aceitação popular deste. Ademais, o dirigente associou a má condição física apresentada nas Olimpíadas de Moscou à temporada de treinamentos e jogos da Liga Italiana. (MARCHI JR, 2004, p. 121)
No contexto destas jogadas estratégicas, ocorreram algumas divergências entre a opinião de Nuzman e de alguns atletas. Os conflitos certamente iriam ocorrer, pois uma nova forma de administração estava sendo colocada em prática, onde algumas normas, não somente os novos regimentos instituídos, mas também concernente à maneira de se portar, necessitavam ser estabelecidas para que se desse a profissionalização. Tratava-se de uma nova lógica social onde os atletas tinham, mais do que nunca, que prezar pela sua imagem. As relações se tornavam cada vez mais complexas, entre cada vez mais pessoas. Ora, quando o voleibol possuía, em maior parte, características amadoras, poucas pessoas tinham acesso aos jogos, somente as que iam aos ginásios, com as transmissões televisivas, o quadro havia mudado.
Um dos casos de confronto entre Nuzman e atletas aconteceu com a levantadora Jacqueline Silva, suas atitudes eram tidas como indisciplinadas pelo diretor da CBV, técnicos e até mesmo, a maior parte das colegas de equipe. Comparava o voleibol feminino ao masculino buscando igualdade, principalmente no que se concerne ao retorno financeiro pela divulgação de marcas e por representar as equipes profissionalmente. Assim, as diferenças
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entre o voleibol masculino e feminino fizeram com que a atleta se referisse a este período pelo qual o voleibol brasileiro estava passando como uma promoção do tipo: “leve o masculino e ganhe o feminino”. (SILVA, 2004, p. 69)9 As declarações polêmicas da jogadora, o novo plano de Nuzman que colocava em vigor a necessidade de disciplina dos atletas e o potencial de poder conferido a ele dentro do campo do voleibol naquele momento, fizeram com que a atleta fosse expulsa da seleção brasileira após vários cortes sucessivos. (MOREIRA, 2005)10
Nuzman denominou uma vitória da disciplina sobre a indisciplina a conquista do Sul-Americano em Santo André, no ano de 1981, jogo do qual Jacqueline e Isabel não participaram por terem sido cortadas três dias antes da final contra o Peru (campeão hegemônico até então). Não deixando de considerar que as jogadoras tinham importância fundamental nos planos que ele tinha com a seleção feminina, Nuzman declarou que o Brasil “[...] mostrou equilíbrio psicológico, utilizou de seu potencial tático, técnico e físico e chegou à vitória”. (CUNHA, 1981, p. 25)11
Em termos gerais, a profissionalização da modalidade proporcionou à alguns atletas que, durante algum tempo, necessitavam conciliar as sessões de treinamento com a sua rotina de afazeres diários como estudo, trabalho e família, tempo e disponibilidade para se dedicar ao voleibol. As empresas patrocinadoras lucraram com este incentivo, pois a possibilidade de maior dedicação trouxe um nível de performance desencadeador da constante formação de novos ídolos, o que assegurou a visibilidade de seus produtos. A televisão, por sua vez, notou que os jogos de voleibol passaram a ter cada vez
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Citada por Moreira (2005). Artigo em CD-ROM. 10
Na sessão destinada às cartas do leitor da revista Placar de Nº832, 5 de maio de 1986, foi publicada uma declaração, se referindo à um dos cortes de Jacqueline, que se intitulou “Visão curta”. “Mais uma vez, a maravilhosa jogadora Jacqueline ficou de fora da Seleção Brasileira de vôlei. Estou profundamente desapontado. Trata-se de uma atleta imprescindível, punida apenas pela teimosia e visão curta dos dirigentes.” Considerando o contexto desta nota, é possível imaginar que a expulsão da atleta pode não ter ocorrido pelo fato de ela se posicionar abaixo de Nuzman na escala de poder dentro do campo esportivo (como conclui MOREIRA, 2005), mas também como uma estratégia tomada por ele no sentido de permanecer no poder, evitar um possível desvio em seus planos causados pelo prestígio da atleta ou a antipatia dos fãs de Jacqueline pelos cortes sucessivos. Atualmente, com a espetacularização do voleibol, alguns casos de condutas ditas não aceitáveis socialmente parecem ser ocultados, como é o caso do jogador Giba e o seu provável envolvimento com entorpecentes.
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mais expectadores12 e investiu para que a modalidade pudesse ser assistida, então, por um público significativo de brasileiros, recebendo sua parcela de lucro com este investimento.
O início da empreitada de patrocínios foi marcado pelo apoio do amigo pessoal de Nuzman, Braguinha (como era chamado o executivo da Atlântica/Boavista de Seguros do Rio de Janeiro, Antônio Carlos de Almeida Braga). O empresário estreou a operacionalização do plano de desenvolvimento do Voleibol no Brasil patrocinando a equipe Atlântica-Boavista. As empresas que apostavam no voleibol tinham, de início, times formados por funcionários13 e, com a aceitação da proposta de Nuzman pelo CND, resolveram contratar atletas (ROCHA 2004, p. 31). Esta iniciativa atraiu a atenção de empresários, e, isto possibilitou a profissionalização das seleções. (MARCHI JR, 2001, p. 124)
Redimensionando o foco de análise da trajetória perpassada pelo voleibol no Brasil até então, como podemos observar na descrição sumária apresentada acima, realizado pelas equipes vencedoras e seus ídolos esportivos, e voltando a atenção, já que este é o interesse, aos aspectos que envolvem o voleibol feminino como prática ou objeto de consumo14, algumas situações problematizadoras, no contexto da profissionalização da modalidade no Brasil, merecem ser apresentadas. Nos primeiros passos da profissionalização, em detrimento aos jogadores da seleção masculina de
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A atleta Jacqueline Silva aponta uma passagem, que considera marcante em sua carreira e para toda a seleção, onde as atletas entraram no ginásio do Ibirapuera para participar do Mundialito e achavam que só teriam uns “gatos pingados” e o pai da Vera Mossa para assistir a partida, mas o ginásio lotou, as atletas ganharam o Mundialito e ficaram “famosas da noite para o dia”. (SILVA, 2004, p. 69)
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A questão da profissionalização dos esportes, ainda hoje, não é efetiva em algumas modalidades, clubes ou mesmo empresas. A própria estrutura de profissionais que trabalham com o esporte nos dias atuais, que se constitui basicamente de técnicos desportivos, auxiliares e arbitragem dificilmente tiram desta atividade o seu sustento financeiro. Marchi Jr (2004, p. 122) afirma que a profissão atleta não é regulamentada por lei e que, na maior parte dos casos, não possuem direito de seguro desemprego, décimo terceiro salário. Desta forma, ao denominar a fase perpassada pelo voleibol no Brasil que teve seus primeiros indícios em meados dos anos 80 e se instaurou gradativamente ao longo da década de 80, deve-se tomar os devidos cuidados, pois isto somente foi aplicado em algumas equipes.
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Esta terminologia se refere à apropriação dos signos sociais dado o estágio de desenvolvimento apresentado pelo voleibol no país. A identificação com a modalidade pode até mesmo se encontrar presente nos estilos de vida dos consumidores segundo a lógica oferecida por Ortiz (1994, p. 82) “As diferentes posições no espaço social correspondem estilos de vida, sistemas de desvios diferenciais que são a retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas nas condições de existência.”
voleibol, as atletas não recebiam apoio financeiro, mesmo utilizando sua imagem para a venda de determinados produtos.15
Na atualidade, parece certo atribuirmos o juízo de valor de que isto não deveria ter sido permitido, ou, podemos sugerir grosseiramente e desconsiderando os fatos na sua totalidade, que o voleibol feminino simplesmente evoluiu às sombras do masculino16. Porém, vender a marca de uma empresa naquele contexto não tinha o mesmo significado que nos dias de hoje, porque a ordem a que se estava habituado e, que era perpetuada era a do voleibol amador, onde se praticava apenas por afinidade, paixão pelo esporte. Desta forma, não era tão evidente como parece ser hoje em dia que se tratava uma relação de mão única, onde somente um lado estava sendo favorecido ou um dos lados não estava se favorecendo tanto quanto poderia.
Outra questão que consideramos na elaboração do problema, diz respeito às adaptações sofridas pela modalidade em decorrência dos novos contornos assumidos por ela, para a aceitação do público brasileiro. Estas alterações não apareceram repentinamente, mas foram necessárias, tendo em vista que para Bourdieu (1990, p. 210) o espaço dos esportes está inserido num espaço de práticas e consumos, isto é:
As práticas esportivas passíveis de serem registradas pela pesquisa estatística podem ser descritas como a resultante da relação entre uma oferta e uma procura, ou, mais precisamente, entre o espaço dos produtos oferecidos num dado momento e o espaço das disposições (associadas à posição ocupada no espaço social e passíveis de se exprimirem em outros tipos de consumo em relação com o outro espaço de oferta).
A alteração no tempo total do jogo, advinda do aumento da quantidade de pontos por set e da abolição da vantagem, a utilização tempo técnico, assim
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A atleta Isabel, em entrevista à revista Placar, critica o preço alto cobrado nos ingressos, dizendo que “...o pessoal nem sabe que não ganhamos nada para jogar na seleção e até pagamos os refrigerantes que tomamos no hotel”. (MARANHÃO, 1984)
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Bourdieu (1990, p. 210) ressalta que “...a prioridade das prioridades é a construção da estrutura do espaço das práticas esportivas do qual as monografias consagradas a esportes particulares vão registrar os efeitos. Se não sei que as perturbações de Urano são causadas por Netuno, acreditarei que compreendo o que se passa em Urano, quando, na realidade compreenderei os efeitos de Netuno.” Desta forma, mesmo tendo como fonte algumas bibliografias que tomaram o Voleibol masculino como o “óculos” para enxergar o desenvolvimento desta modalidade na fase pretendida, considera-se válido entender os efeitos da profissionalização do Voleibol masculino sobre o feminino, até porque, inegavelmente existem os efeitos de um no outro e do outro no um, mas também, a partir da observação de dados peculiares, pretende-se entender em que medida o Voleibol feminino conquistou certa autonomia.
como as mudanças no uniforme das seleções, podem servir de exemplos mais recentes desta adequação. Em outro contexto, a lei que dificultou a saída de jogadores para atuarem no exterior, que buscava formar um vínculo entre torcedores e ídolos esportivo, serviu de impulso inicial para favorecer a aderência do público à modalidade.
Desta forma, dentro de sua trajetória no Brasil, o voleibol se inseriu em diferentes contextos que caracterizaram suas fases e mediaram suas evoluções considerando, e aí não concluímos, mas sim hipotetizamos, a relação entre procura e oferta. Entendendo que a história dos esportes se mostra relativamente autônoma, isto é, possui leis específicas de funcionamento regentes da sua estruturação perante o campo esportivo e os espaços sociais (BOURDIEU, 1983, p. 137), o voleibol feminino durante sua história e especificamente dentro deste recorte (a profissionalização da modalidade no Brasil) incorporou também características próprias, mesmo participando da lógica determinante das relações objetivas.
Bourdieu (1983, p. 137), atentando para a existência de diferentes campos sociais defende que:
(...) não se pode compreender diretamente os fenômenos esportivos num dado ambiente social, colocando-os em relação direta com as condições econômicas e sociais das sociedades correspondentes: a história do esporte é uma história relativamente autônoma que, mesmo estando articulada com os grandes acontecimentos da história econômica e política, tem seu próprio tempo, suas próprias leis de evolução, suas próprias crises, em suma, sua cronologia específica.
Abstraindo desta questão a particularidade das leis de evolução da história dos esportes, não caberia propormos a presente investigação sociológica da profissionalização do Voleibol feminino no país, utilizando bibliografias sobre a história do gênero feminino na sociedade brasileira, até porque, a sociedade não deve ser entendida como algo homogêneo, não o é, pois mesmo no campo esportivo o Voleibol tem suas particularidades.
Nesta pesquisa, apontamos para outra vertente: A partir da compreensão que o esporte se trata de “...uma manifestação social que reflete, na análise dos contextos históricos, continuidades e rupturas que caracterizam a expansão de suas fronteiras e o afirmam como objeto de estudo passível de interpretações à luz de diferentes teorias e propostas metodológicas.”
(MARCHI JR In: PRONI e LUCENA, 2002, p. 76) é que pretendemos responder: Como se estruturou a profissionalização do Voleibol feminino no Brasil?
JUSTIFICATIVA
Um dos fatores de maior motivação para a escolha desta temática de pesquisa se trata da minha proximidade pessoal com o objeto de estudo aqui proposto. Inseri-me no voleibol a partir do incentivo da minha mãe, que foi atleta de seleção paranaense desta modalidade, e arrisco dizer que no meu processo de educação, muitos dos valores e significados aprendidos foram repassados da prática do voleibol da minha mãe para mim. Assim, desde meus 12 anos de idade, quando iniciei o aprendizado do voleibol em uma equipe escolar do interior do Paraná, tenho contato com esta modalidade.
Minha incursão foi além das quadras, vivenciando não somente os jogos de voleibol em sua forma técnica e tática, mas também os treinamentos ora extenuantes, ora repetitivos ou descontraídos, as viagens, os “pagodes de fundo de ônibus”, os alojamentos em ginásios e colégios, as torcidas, as disputas pelo primeiro lugar na competição, por vezes esta ocorreu por um lugar em quadra, as contusões, as amizades, as trapaças, as frustrações, as alegrias, as despedidas, enfim, o conjunto de práticas esportivas e sociais que definiram o voleibol neste meu percurso. Assumo, com minhas referências atuais sobre a sociologia do esporte e a partir de meus referenciais teóricos, o risco de afirmar que tenho em mim incorporado uma série de signos advindos da minha vivência no voleibol.
No decurso da minha graduação em Educação Física17, deparei-me com a possibilidade de, logo no primeiro ano, ensinar o voleibol para crianças de 7 a 12 anos de uma situação econômica pouco favorável através de um projeto de extensão intitulado: Centro de Iniciação e Aperfeiçoamento em Esportes Coletivos de Quadra. Esta experiência, academicamente falando, foi muito produtiva no sentido de possibilitar a minha iniciação científica a partir das dificuldades apresentadas na prática como professora de voleibol neste projeto.
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Minhas primeiras publicações analisavam as metodologias de ensino de voleibol para crianças desta faixa etária, faziam menção a aspectos técnicos nas formas de os trabalhar com estas crianças.
Ocorreu-me uma maneira distinta de interpretação do voleibol quando entrei em contato com a tese de doutorado do professor Wanderley Marchi Júnior, “Sacando” o Voleibol: do amadorismo à espetacularização da modalidade no Brasil (1970 – 2000). Ali naquele contexto, me senti confrontada a entender o Voleibol além do que era possível de se enxergar, através da análise sociológica de sua trajetória em quatro décadas sucessivas18, o que não foi uma tarefa fácil, e o mais desafiante das missões: entender um pouco sobre a Teoria dos Campos de Pierre Bourdieu já que era a referência central de análise desta tese.
Como era aluna da graduação e teria que desenvolver a minha monografia de conclusão de curso, abordei um aspecto do voleibol nesta perspectiva social que considerei instigante. Fiz uma pesquisa que se deteve na fase de profissionalização do voleibol no Brasil, mas com um estudo de caso da atleta Jacqueline Silva, pois gostaria de entender como uma atleta de elevado nível técnico poderia ter sido expulsa da seleção brasileira. Aquilo, para mim, se constituía em um verdadeiro problema.19
Num esforço de afastamento da minha própria história de vida, justifico, agora como pesquisadora, nestes três momentos de envolvimento – como praticante, professora e pesquisadora – a minha opção por estudar o Voleibol, e mais do que isto, meu foco de pesquisa na Sociologia do Esporte dada a sua originalidade e contribuição como pesquisa. Segundo HELAL (1990 p. 14) “Muito pouco se tem escrito sobre o papel e o significado do esporte nas sociedades modernas e contemporâneas”. Este autor critica o descaso das Ciências Sociais em relação ao estudo do fenômeno esporte, este que, para ele, é considerado um “fato social tão visível na nossa civilização” (HELAL, 1990 p. 11)
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Partindo deste referencial, faço o recorte temporal desta dissertação considerando a possibilidade de muda-lo caso encontre fontes que comprovem outra abordagem cronológica para a profissionalização do voleibol feminino no Brasil.
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Expressão que o professor não cansava de repetir nas aulas da disciplina de Metodologia de Pesquisa.
O princípio das dificuldades da sociologia do esporte se encontra, segundo Bourdieu (1990, p. 207), no fato de que os sociólogos a desdenham e os esportistas a desprezam. Desta forma, aponta o autor que:
de um lado existem pessoas que conhecem muito bem do esporte na forma prática, mas que não sabem falar dele, e, de outro, pessoas que conhecem muito mal o esporte na prática e que poderiam falar dele, mas não se dignam a faze-lo ou o fazem a torto e direito. [...]
Esta questão que se refere à sociologia do esporte como um objeto que, nem sociólogos nem pessoas que conhecem o esporte na sua forma prática consideram digno de pesquisa, traz uma preocupação à tona: Quem conseguirá perceber a magnitude dos esportes na sociedade, ou ainda, quem conseguirá perceber a manifestação da sociedade nos fenômenos esportivos? Deixaríamos esta tarefa aos jornalistas?20
Não pretendo com o meu trabalho resolver o problema da sociologia do esporte, mas sim, estudando um objeto específico em um contexto também específico e delimitado, analisa-los a fundo, contribuir para que futuras análises sociológicas do esporte possam surgir. Um exemplo prático desta contribuição poderia ser, a partir da análise dos fatores que levaram uma modalidade a se encontrar em uma posição de prestígio no cenário esportivo nacional, como é o caso do voleibol, identificar os motivos pelos quais outras modalidades se encontram em decadência no que se refere à sua popularidade no Brasil, mesmo tendo um percentual de praticantes considerável, como é o caso do basquetebol.
O voleibol feminino adquire, neste sentido, uma peculiaridade interessante, possui prestígio e um público consumidor de seus produtos no Brasil, porém não conquistou, durante sua história, supremacia em títulos internacionais renomados.21 Esclarecer os motivos, ou produzir reflexões que
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“Os jornalistas têm ”óculos” especiais a partir dos quais vêem certas coisas e não outras; e vêem de certa maneira as coisas que vêem. Eles operam uma seleção e uma construção do que é selecionado.” (BOURDIEU, 1997, p. 25) O que os jornalistas abstraem da realidade, segundo Bourdieu, (1997, p. 26) é o extraordinário, mas o que, para eles é extraordinário, isto é, pelo critério da sua formação e da sua realidade social, pode não ser para as outras pessoas. Além disto, decorre a crítica do sociólogo francês no sentido de que, se a função da televisão é informar, a busca pelo extraordinário, pela própria etimologia da palavra – o que não é ordinário – acabaria deformando esta realidade, trazendo à ela um exagero de importância, uma dramatização.
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apontem para uma hipótese cuja resposta ainda se encontra oculta é, sem dúvidas, um aspecto que pode ser considerado original desta dissertação.
Voltando à minha questão norteadora, ao identificar e compreender os mecanismos presentes no processo de transformação do voleibol feminino amador em profissional através da utilização de um instrumental teórico de análise, procuro dar o devido tratamento à história das modalidades esportivas no Brasil. Considerando a crítica estabelecida por Pilatti (1996, p. 83), onde é detectada uma visão positivista na história dos esportes que resulta em uma tendência de se reconstruir o acontecido através de levantamentos de fontes e documentos, é que a presente análise sociológica poderá contribuir.
Cabe uma ressalva: estarei analisando as estruturas da profissionalização do Voleibol feminino no Brasil a partir de um referencial de análise, as noções centrais da Teoria dos Campos Pierre Bourdieu. Acredito que, me aprofundando nas noções centrais desta teoria, estarei me atendo às minúcias que, caso eu utilizasse uma revisão bibliográfica, pela densidade e quantidade dos autores da sociologia que me possibilitariam uma análise, não teria fôlego para responder a minha pergunta problema.
Justificando a opção teórico-metodológica desta pesquisa, temos que a forma de Pierre Bourdieu pensar os acontecimentos sociais foi, certa vez, por ele mesmo caracterizada, como um “construtivismo estruturalista”22. Construtivista, pois o autor destaca a operância de uma gênese social dos esquemas de percepção, pensamento e ação, que são constitutivos do conceito de habitus23. E a caracterização de estruturalista se dá, pois o autor considera a existência de estruturas objetivas autônomas que orientam as representações práticas dos agentes sociais, sendo estas autônomas das vontades e da consciência dos agentes sociais.
Constatamos a coerência necessária para o entendimento das relações sociais estabelecidas pelos sujeitos, instituições e estruturas inseridas no processo de profissionalização do Voleibol feminino no país, levando em conta
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Comentário, de certa forma irônico de Bourdieu sobre a aplicação de rótulos, realizado em Conferência realizada na Universidade de San Diego, no ano de 1986. (MARCHI JR, 2004, p. 46)
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De forma sumária, poderíamos entender o habitus como: “A exposição repetida às condições sociais definidas imprime nos indivíduos um conjunto de disposições duráveis e transferíveis, que são a interiorização da realidade externa, das pressões de seu meio social inscritas no organismo”. (LOYOLA, 2002, p. 68)
esta lógica, por Bourdieu apontada, que movimenta as formas de percepção, pensamento a ação destes atores sociais, isto é, a lógica de suas atuações nas relações estabelecidas no contexto da profissionalização, que possuem em comum a finalidade de alcançar o objeto de disputa do campo onde estão inseridos. O campo, para Bourdieu, é caracterizado como um universo formado pela disposição de seus agentes, onde estes vivem em confronto pelo acúmulo de capitais específicos a este universo (não se trata necessariamente de capital econômico, mas também existem os capitais sociais e culturais, que, são maneiras de se obter prestígio e se legitimar em determinado campo conferindo ao portador notoriedade e apreciação), porém, possuem aspirações em comum, e isto traz certa cumplicidade entre estes e os caracterizam como agentes atuantes em determinado campo (LOYOLA, 2002 p. 67).
O Voleibol é, tradicionalmente estudado, na área da Educação Física, assim como os outros esportes, apenas na sua forma prática, com estudos sobre táticas, técnicas e aprendizado motor. (MARCHI JR In: PRONI, 2002, p. 77) As recentes pesquisas que trazem o Voleibol numa perspectiva de componente integrante da sociedade, não têm uma preocupação efetiva com as equipes que não trouxeram ao país títulos de grande importância como se estas não fizessem parte, ou até fizessem, porém, desconsiderando a sua parte.
De certa forma, a lacuna na abordagem da trajetória do Voleibol no Brasil, concernente à participação efetiva ou não dos times femininos, torna mais interessante a proposta aqui feita, que seria, através da percepção do posicionamento de determinados agentes sociais e da análise das suas relações objetivas, trazer à tona mecanismos da estruturação do Voleibol como um todo no Brasil.
OBJETIVOS
O objetivo central desta pesquisa é analisar como se estruturou a profissionalização do Voleibol feminino no Brasil. Para que esta meta seja alcançada, seguem abaixo os objetivos específicos que permearão a organização metodológica do trabalho:
Descrever o instrumental teórico que irá ser utilizado nas análises sociológicas: as noções de campo, habitus e capital para Bourdieu, na Teoria dos Campos;
Mapear o espaço do Voleibol feminino, seus agentes, posições e disposições ocupadas no contexto da profissionalização através de um minucioso resgate histórico;
Identificar as principais características e desenvolvimento do processo de profissionalização considerando o papel da mídia e a percepção da profissionalização por agentes que participaram desta fase.
Entender o processo de profissionalização do voleibol feminino aplicando o referencial teórico-metodológico nas constatações empíricas levantadas.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa qualitativa de cunho social e caráter histórico-descritivo na qual faremos uso de entrevistas com agentes diretamente inseridos no contexto abordado. Todos os dados coletados servirão como instrumento para compreender perspectivas sobre o fenômeno a ser analisado.
A pesquisa de cunho social é caracterizada por Rummel24 pela busca por melhorar a compreensão de um grupo social - no caso específico, agentes pertencentes ao espaço do Voleibol - tendo o fenômeno esporte como objeto para as interpretações.
Temos em Marconi e Lakatos (1991, p. 107) que o método histórico tem por objetivo “investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma atual através das alterações de suas partes componentes, ao longo do tempo, influenciadas pelo contexto cultural particular de cada época. Seu estudo, para uma melhor compreensão do papel que atualmente desempenham na sociedade, deve remontar aos períodos de sua formação e de suas modificações.”
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Concordamos com a perspectiva de que os fenômenos sociais alcançaram suas características atuais através de um processo lento e gradativo e de transições parciais em sua forma de desenvolvimento, também que estas sofreram influências dos contextos que as balizaram, mas vemos além da importância de apontar para uma vertente histórica para dizer como essas transições influenciaram na sociedade atual, quando vislumbramos a possibilidade de, em um recorte temporal distante de nossas convicções primárias essencialmente pelo tempo, enxergarmos certas regularidades que o torna, por si só, um objeto de estudo pertinente e, em certa medida, auto-suficiente.
Neste sentido, concordamos mais com Marconi e Lakatos (1991, p. 107) quando apontam que “o método histórico preenche os vazios dos fatos e acontecimentos, apoiando-se em um tempo, mesmo que artificialmente reconstruído, que assegura a percepção da continuidade e do entrelaçamento de fenômenos.”
Reconhecendo que nossa pesquisa não se atém somente à esfera histórica da profissionalização do voleibol feminino no Brasil, mas dentro dela, busca “observar, registrar, analisar, descrever e correlacionar fatos ou fenômenos sem manipula-los, procurando descobrir com precisão a freqüência em que [...] ocorre e sua relação com outros fatores” (MATTOS, ROSSETO JR E BLENCHER, 2004, p. 15), é que a denominamos também de descritiva.
Assim, faremos um resgate histórico da fase de profissionalização do voleibol feminino no Brasil, oferecendo uma descrição densa durante este processo utilizando materiais empíricos de três naturezas distintas: 1) fontes históricas: jornais, revistas, legislações; 2) Bibliografia e publicações já existentes sobre o percurso do Voleibol no Brasil, autobiografias; 3) Entrevistas com agentes que vivenciaram esta fase. Coletados estes dados, iniciaremos as interpretações à luz do referencial teórico escolhido – noções centrais da Teoria dos Campos de Pierre Bourdieu.
A coleta de dados será realizada através de revisão de literatura, material jornalístico e entrevistas para poder entender diferentes perspectivas
para o mesmo processo. Para isto, utilizaremos a técnica da triangulação entre estas fontes.25
As entrevistas (que serão gravadas e transcritas na íntegra verbatim) serão realizadas com sujeitos que constituíram o cenário do voleibol feminino no recorte temporal pretendido – 1970 a 1990 – vivenciando ativamente esta fase na condição de atleta, dirigente, agentes midiáticos ou mesmo empresário investidor. O objetivo deste instrumento de pesquisa é de captar a perspectiva destas pessoas a fim de fornecer novas formas de pensar o contexto de profissionalização, e, relevantes, na medida em que são trazidas por agentes que sofreram os efeitos das transições e, desta forma, podem apresentar até mesmo novos ângulos de análise que não são possibilitados na abordagem dos materiais bibliográficos e jornalísticos.
Pretendemos realizar as entrevistas de forma que os agentes possam conduzir suas respostas evidenciando os pontos considerados por ele relevantes a respeito da temática. Assim, a entrevista será guiada por uma questão aberta e orientada pelos pontos levantados pelos entrevistados. A pretensão é de trazer a perspectiva das pessoas que participaram da profissionalização do voleibol feminino e, assim sendo, caso estipulássemos perguntas chaves e padronizadas para os sujeitos, correríamos o risco de estarmos impondo pontos para serem pensados que nem o seriam caso não fizéssemos.
Richardson (1999, p. 208) considera que para pesquisadores que não pretendem impor sua visão de realidade precisam de uma estratégia diferente, mais flexível do que a formulação da entrevista estruturada ou do questionário. Este tipo de pesquisa na qual os participantes têm a chance de direcionar suas respostas para fatos que considera determinantes é caracterizado pelo mesmo autor como entrevista não estruturada. O autor acredita que esta,
em vez de responder à pergunta por meio de diversas alternativas pré-formuladas, visa obter do entrevistado o que ele considera os aspectos mais relevantes de determinado problema: as suas descrições de uma
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Para Triviños (1987, p. 138), a técnica da triangulação “tem por objetivo básico abranger a máxima amplitude na descrição, explicação e compreensão do foco em estudo. Parte de princípios que sustentam que é impossível conceber a existência isolada de um fenômeno social, sem raízes históricas, sem significados culturais e sem vinculações estreitas e essenciais com uma macrorealidade social. Tais suportes teóricos, complexos e amplos, não tornam fáceis os estudos qualitativos.”
situação de estudo. Por meio de uma conversação guiada, pretende-se obter informações detalhadas que possam ser utilizadas em uma análise qualitativa. A entrevista não estruturada procura saber que, como e por que algo ocorre, em lugar de determinar a freqüência de certas ocorrências, nas quais o pesquisador acredita. (RICHARDSON, 1999, p. 208)
Marconi e Lakatos (1991, p. 197) sugerem que a entrevista não-estruturada, como chamam as que “o entrevistador tem liberdade para desenvolver cada situação em qualquer direção que considere adequada. [...] uma forma de poder explorar mais amplamente a questão”, possuem três tipos de modalidade26: focalizada, clínica e dirigida. No nosso caso, interessa a última, pois, segundo as autoras, nesta, “a função do entrevistador é de incentivo, levando o informante a falar sobre determinado assunto, sem, entretanto, força-lo a responder.”
Desta forma, observamos na entrevista não-estruturada a possibilidade de explorarmos a forma de pensar dos entrevistados, abrindo frente para novos olhares sobre o objeto de estudo e evitando assim impor assuntos ou tópicos que consideramos relevantes partindo de nossas referências.
Entendemos que os sujeitos participantes da pesquisa podem apresentar certa reatividade pela situação a qual serão expostos, desta forma, deixaremos claro desde o primeiro contato que a intenção é aprendermos com a experiência deles e não avaliarmos ou julgarmos os seus conhecimentos.
Para minimizar a reatividade causada pela situação de se expor à entrevistas, tentarei estabelecer uma relação profissional com os entrevistados oferecendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido onde informarei os objetivos principais da pesquisa, assim como a importância de obter as perspectivas dessas pessoas. A atenção que darei para os sujeitos da profissionalização do Voleibol feminino que, estiveram em um segundo plano, tanto no próprio processo de profissionalização quanto nos méritos de tal poderá servir como incentivo para que estes agentes participem da pesquisa. Acredito que estas pessoas teriam interesse em trazer a tona a sua história no voleibol.
Também visando evitar que informações sejam distorcidas ou mesmo ignoradas pela reatividade dos entrevistados, terei, logo de início que estabelecer uma relação profissional, isto garantirá uma preservação para
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ambos os lados. Os participantes estarão cientes de que as fitas das gravações serão destruídas após o desfecho da pesquisa, também que serão livres para se retirarem da pesquisa caso julguem necessário, e que os resultados serão a eles mostrados assim que encontrados.
Tenho consciência de que pela minha proximidade com a temática, se não me atentar a isto, poderei me envolver e desenvolver uma visão tendenciosa por demais apaixonada, mas procurarei a todo tempo me afastar das minhas concepções pré-formadas, pois é uma dificuldade que qualquer pesquisador é passível de apresentar e eu não posso a desmerecer. Terei o máximo cuidado no tratamento com as respostas para não atribuir juízo de valor. Meu objetivo como pesquisadora ali é mostrar como aconteceu e não idealizar como deveria ter acontecido e nem mesmo falar como deve ocorrer daqui por diante, isto deve ficar bem claro para os participantes.
Oferecidas as informações sobre a pretensão do meu estudo ao entrevistado, demonstrado o meu interesse, enquanto pesquisadora, em faze-lo dele, participante da minha pesquisa, explicitada a relação que teremos que estabelecer para o andamento que pretendo dar ao estudo e negociada a participação os agentes, acredito que terei um material válido eticamente para a pesquisa e enriquecedor como fonte.
REFERÊNCIAS
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