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A CONSTRUÇÃO DAS FONTES HISTÓRICAS 1

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Academic year: 2021

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A CONSTRUÇÃO DAS FONTES HISTÓRICAS1

Lucicleide Gomes dos Santos Mestranda em História/UFGD

Introdução

O documento oficial sempre foi considerado como verdade absoluta e era à base de trabalho do historiador. Quanto mais se detinha só no que dizia o documento, mais veracidade tinha o texto produzido pelo historiador, e maior seria o seu prestígio.

Com o tempo percebe-se que os documentos oficiais e as narrativas estão carregados de subjetividade, mas isso não anula a validade da escrita histórica.

Ganha se então outra maneira de ler fonte histórica, de conversar com ela e produzir a narrativa histórica. A narrativa histórica agora é constituída de maneira mais flexível e com trocas de outras ciências.

Este texto tem por objetivo compreender com são construídas as fontes históricas, tomando como fonte não só os documentos, mais também as narrativas produzidas que hoje são utilizadas como fontes.

Deve-se ter em mente sempre quem produziu o documento ou a narrativa, como também o momento em que o texto foi produzido e para que? Assim, entendemos e dialogamos melhor com o texto, sabendo o que perguntar, para que ele nos responda o que queremos.

Compreende-se que há muitas maneiras de escrever um mesmo fato, e que essas técnicas e formas não invalidam o conteúdo.

A construção

Quando a história recebeu o estatuto de ciência - o que se deu com a escola positivista no século XIX - o registro privilegiado pelo historiador era o documento escrito, sobretudo o

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Não havendo mais possibilidade de mudança no titulo, gostaria de salientar que este artigo abrange a construção das fontes e narrativas histórica.

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oficial. Esse documento assumia o peso e a prova histórica; e a objetividade era garantida pela fidelidade do mesmo.

A habilidade do historiador até então era de retirar do documento tudo que ele continha sem acrescentar ao menos uma vírgula. O melhor historiador era aquele que se mantinha o mais próximo possível do texto documental, sem imprimir em seu texto suas idéias e convicções, levando assim os historiadores a se preocupar em verificar a autenticidade dos documentos.

“Os positivistas ao se apropriarem da palavra, conservavam-lhe o sentido de prova, não mais jurídica, mais cientifica” (VIEIRA, PEIXOTO e KHOURY, 1991, p.13).

A valorização do documento como garantia de verdade era tão presente entre os positivistas, que eles excluíam a noção de intencionalidade contida na ação estudada e na ação do historiador, e isso foi sendo construído historicamente.

As fontes históricas sempre foram construídas da mesma forma que hoje entendemos a construção da narrativa, em determinado momento e atendendo a intenção da pessoa que a redigiu, através da forma de sua construção, ou seja, dos dados nela contido.

Os historiadores estruturais mostram que a narrativa tradicional passa por cima de aspectos importantes do passado, que ela simplesmente é incapaz de conciliar, desde a estrutura econômica e social até a experiência e os modos de pensar das pessoas comuns.

Esse modelo se modifica com a escola dos Annales, onde se amplia noção de documento.

A escola dos Annales, comandada por Febvre e Bloch combatiam uma história somente preocupada com os fatos singulares, sobretudo com os de natureza política, diplomática e militar. Combatiam uma história que pretendendo-se científica, tomava como critério de cientificidade a verdade dos fatos, à qual se poderia chegar mediante a análise de documentos verdadeiros e autênticos (ficando os “mentirosos” e falsos à margem da pesquisa histórica). Combatiam, enfim, uma história que se furtava ao diálogo com as demais ciências humanas, a antropologia, a psicologia, a lingüística, a geografia, a economia e, sobretudo, a sociologia (VAINFAS, 1997, p.130).

Grande parte da renovação intelectual entre os historiadores modernos resultou de sua disposição a recorrer a outras disciplinas acadêmicas em busca de insights teóricos e metodológicos, o que levou a uma expansão e redefinição da orientação política da história tradicional.

Segundo CHARTIER (2002), a narrativa histórica foi dividida em a objetividade estrutural (território da história mais segura, aquela que manipulando documentos maciços,

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seriais, quantificáveis, reconstrói as sociedades tal como eram verdadeiramente) e a subjetividade das representações (à qual ligaria uma outra história destinada aos discursos e situada a distancia do real).

O historiador costuma explicar em seus textos o que aconteceu no passado através pesquisa e reconstrução dos registros e documentos existentes deste período pesquisado. Mas mesmo que não apareça no texto escrito, e o historiador tente se manter o mais imparcial possível, porém seu trabalho vai ser resultado da sua interpretação das fontes.

Incorporam-se ao documento escrito outros elementos de natureza diversa, tais como objetos, signos, paisagens etc. A relação do historiador com o documento também se modifica. O documento já não fala por si mesmo, mas necessita de perguntas adequadas. A intencionalidade já passa a ser alvo de preocupação por parte historiador, num duplo sentido: a intenção do agente histórico presente no documento e a intenção do pesquisador ao se acercar desse documento (VIEIRA, PEIXOTO e KHOURY, 1991, p.15).

Neste momento o documento passa a ser visto como uma fonte de diálogo, e não mais simplesmente algo sem vida e sem intenção, onde precisa-se dialogar com ele escolher métodos de trabalhos que auxilie a retirar destas fontes o se quer, através de perguntas e questionamentos, e com as interpretações de sua subjetividade. É o “ler nas entrelinhas” destes documentos.

Levi-Strauss firma que os relatos históricos são inevitavelmente interpretativos, pois são constituídos, e não dados, da mesma forma são escolhidos e não fornecidos como elementos de uma narrativa, o historiador deve “escolhê-los, destaca-los e recortá-los” para fins narrativos (WHITE, 1994).

Em suma, os fatos históricos, originalmente constituídos pelo historiador como dados, devem ser constituídos uma segunda vez como elementos de uma estrutura verbal que sempre é escrita como um propósito específico (manifesto latente). Isto quer dizer que, segundo ele, a “história” nunca é apenas a história, mas sempre a “história - para”, a história escrita no interesse de algum objetivo ou visão infracientificos (Levi-Strauss, 1966, p. 257 apud WHITE, 1994, p. 71).

A construção da narrativa deve considerar a intencionalidade do autor ao escrevê-la, assim como deve ser estudada, considerando sua subjetividade, quem escreveu, e em que período.

Segundo HECKENBERGER e FRANCHETTO (2001, p. 08), “todo conhecimento é construído (ou desconstruído e reconstruído) no presente: não existe um passado ‘real’ que

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possa simplesmente ser desenterrado ou desvelado pela aplicação de uma metodologia apropriada”.

Os historiadores utilizam à imaginação histórica para dar vida aos fatos do passado, através das interpretações de documentos e dados históricos. Esta nova abordagem encontra resistência por parte dos historiadores mais conservadores.

Segundo DUBY, 1977 apud VAINFAS (1997, p.147) “a maneira como ele organiza os seus textos testemunha em primeiro lugar uma certa humildade para com a informação, “a consciência que tem o historiador de só poder atingir uma parte da realidade e, por conseqüência, de preencher forcosamente os vazios com o que imagina.”.

No caso da “imaginação histórica”, esse efeito disciplinador estabelece limites acerca do que constitui um acontecimento especificamente histórico. No entanto apesar desses limites explícitos, todas as tentativas de descrever os acontecimentos históricos baseiam-se, necessariamente, em narrativas que revelam a coerência, a integridade, a plenitude e a inteireza de uma imagem de vida que é, e só pode ser, imaginária (KRAMER, 1995, p.137).

O historiador pode recorrer à imaginação que consiste em animar o que está morto nos documentos e faz parte do trabalho do historiador, pois que este mostra e explica as ações dos homens. É necessário que o historiador esta forma de imaginação, assim como os outros cientistas, como o matemático em sua formulas e calculo, o químico ns suas experiências. É uma questão de estado de espírito. “Huizinga declara a história como não apenas como um ramo do saber, mas também uma forma intelectual pra compreender o mundo” (LE GOFF, 1992, p.40).

Quando se fala em imaginação e ficção na construção das narrativas históricas atenho-me que as narrativas representam o real, mas parte do real e não o real total. E para a busca do real vale tanto a reflexão do pesquisador quanto o próprio documento.

KRAMER (1995), fala que a dimensão fictícia e imaginária de todos os relatos de acontecimentos pelos historiadores não significa que eles não tenham realmente acontecido, mas, sim, que qualquer tentativa de descrever os acontecimentos (mesmo enquanto estão ocorrendo) deve levar em conta diferentes formas de imaginação.

Muitos autores há várias décadas já se deram conta deste processo de “invenção”, ou construção da história. Peter Burke (2000) lembra que vários livros recentes já trazem a palavra invenção no título, seja a invenção da Argentina, da Escócia, dos povos, ou – como vimos – da tradição.

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No final do século XIX, os historiadores adotaram um modo de representação que se assemelhava aos desdobramentos contemporâneos no romance e na ciência, mas preferiram não alterar esse modelo quando os escritores criativos deram início a seus experimentos com as narrativas de múltiplas perspectivas.

Tendência que privilegia a relação do historiador com um vivido, quer dizer, a possibilidade de fazer reviver ou de "ressuscitar" um passado. Para CERTEAU (1982), a narrativa quer restaurar um esquecimento e encontrar os homens através dos traços que eles deixaram. Implica, também, um gênero literário próprio: o relato, enquanto a primeira, muito menos descritiva, confronta mais as séries que resultam de diferentes tipos de métodos.

Lynn Hunt em seu livro A Nova História Cultural (1995), tem por objetivo mostrar de que modo à nova geração de historiadores da cultura usa técnicas e abordagens literárias para desenvolver novos materiais e métodos de análise.

Segundo White, ao restringir seus modelos de representação ao romance realista e a ciência positivista, a história perdeu de vista suas origens de imaginação histórica, permitindo que desenfatizassem as semelhanças entre a historiografia e a atividade imaginativa dos romancistas ou poetas.

Sartre (1964 apud WHITE, 1994, p. 51) acreditava que a “única história importante é aquilo que o indivíduo se lembra, e este só se lembra o que desejo lembrar”. Para o autor, escolhemos nosso passado da mesma forma que escolhemos nosso futuro. Portanto o nosso passado histórico também seria uma espesse de mito, de uma estória onde comporíamos o nosso enredo de acordo com as lembranças que queremos ter, assim como a composição da personalidade e feitos de cada personagem que faz parte desta estória.

O “fardo do historiador” em nossa época é restabelecer dignidade dos estudos históricos numa base que os coloque em harmonia com os objetivos e propósitos da comunidade intelectual como um todo, ou seja, transforme os estudos históricos de modo a permitir que o historiador participe positivamente da tarefa de libertar o presente do “fardo da história” (WHITE, 1994, p. 53).

A tarefa do historiador consiste em desenvolver um diálogo no qual se permita que o passado autônomo questione nossas tentativas recorrentes reduzi-lo a ordem. Deve-se reconhecer e respeitar que o passado tem suas “próprias vozes”.

A obra do historiador é uma forma de atividade simultaneamente poética, científica e filosófica (LE GOFF, 1992, p. 37).

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Os historiadores poderiam recorrer a essas alternativas para reconhecer e descrever o mundo e usa a linguagem imaginativamente para representar as categorias de vida, do pensamento, das palavras e da experiência.

Considerações Finais

Percebendo as subjetividades e os diferentes modos de interpretação de uma fonte histórica, a escrita da narrativa também vem mudando ao longo do tempo. Esse processo é fundamental para trazer novos fatos e dar novas compreensões a fotos já estudados. Entender a construção da narrativa é essencial para podermos estudá-la.

O mesmo fato pode ser narrado de várias maneiras dependendo dos métodos utilizados, assim como a compreensão do autor ao escrevê-lo depende da bagagem cultural e intelectual. Essa bagagem faz com que ele defina quais são os detalhes e os dados serem considerados em sua interpretação, resultando em diferentes escritas sobre um mesmo fato para cada autor.

Uma narrativa é sempre construída de recorte, como este artigo aqui apresentado, onde se recorta citações e idéias de autores para que estas, dêem veracidade àquilo que a autora quer dizer.

Referencias

BURKE, Peter. Variedades de História Cultural. Tradução: Alda Porto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

CARDOSO, Ciro Flamarion; e VAINFAS, Ronaldo (Orgs). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

CERTEAU, Michel de. A Escrita da História. Rio de Janeiro: Forense, 1982.

CHARTIER, Roger. A Beira da Falésia: a história entre certezas e inquietude. Tradução: Patrícia Chitoni Ramos. Porto Alegre: Eufrgs, 2002.

HECKENBERGER, Michel; e FRANCHETTO, Bruna. Os Povos do Alto Xingu: história e cultura. Rio de Janeiro: Edufrj, 2001.

HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. Tradução. Jefferson Luís Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

KRAMER, Lloyd S. Literatura, Crítica e Imaginação Histórica: o desafio literário de Hayden White e Dominick LaCapra. In: HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. Tradução. Jefferson Luís Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

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LE GOFF, Jaques. História e Memória. 2ª edição. Campinas: Edunicamp, 1992.

VIEIRA, Maria o Pilar de Araújo; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha; e KHOURY, Yara Maria Aun. A Pesquisa em História. 2ª Edição. Série Princípios. São paulo: Editora Ática, 1991.

WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso: ensaios sobre a crítica da cultura. Tradução: Alípio Correia de Franca Neto. São Paulo: Edusp, 1994.

Referências

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