Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva
Resenha
Discente: Rita de Cássia Passos Guimarães
Disciplina: Práticas Interdisciplinares de Educação em Saúde Integral Docentes: Ana Valéria Mendonça e Maria Fátima de Sousa
Data: 07 de dezembro de 2015
I- Artigo
FREITAS, F.V.; REZENDE FILHO, L.A. Modelos de comunicação e uso de impressos na educação em saúde: uma pesquisa bibliográfica. Interface - Comunic., Saúde, Educ., v.15, n.36, p.243-55, jan./mar. 2011.
II- Credenciais das Autorias
Fernanda Valéria de Freitas - Mestra em Educação em Ciências e Saúde, NUTES/UFRJ. Pós-graduada em nível de Especialização para enfermeiros nos moldes de Residência, EEAP/UNIRIO. Especialista em Enfermagem em Cardiologia, EEAN/UFRJ. Graduada em Enfermagem e Licenciatura pela EEAAC/UFF. Atua como enfermeira Educadora em Diabetes na Roche Diagnóstica; e como supervisora no Hospital Federal do Andaraí. Luiz Augusto Rezende Filho - Professor Adjunto IV e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Saúde do NUTES-UFRJ. É bolsista do programa Jovem Cientista do Nosso Estado (JCNE) da FAPERJ. Possui graduação em Cinema pela Universidade Federal Fluminense (1995), mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2000) e doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005). Foi professor auxiliar do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Tem experiência nas áreas de Educação e Comunicação, com ênfase em Cinema, atuando principalmente nos seguintes temas: documentário, cinema e vídeo educativos, recepção audiovisual, arquivos audiovisuais, educação em ciências e saúde.
III- Conclusões da Autoria e Ideias Centrais
Sobre a temática educação em saúde, os autores analisaram artigos criteriosamente selecionados, cujo foco da análise direcionou para os seguintes itens: modelos de comunicação, as representações dos usuários e as dinâmicas da seleção de conteúdos para os impressos utilizados para promoção e educação em saúde.
Os modelos de comunicação que serviram como bases das análises foram o unilinear e o dialógico, entendendo-se como unilinear aquele caracterizado pela unilinearidade, onde a comunicação só se estabelece em uma direção, ou seja, do emissor para o receptor. Neste modelo as reações do receptor são supostamente “previsíveis”, pressupondo uma resposta generalizada para determinada informação do receptor.
Os autores recorrem a Teixeira para citar que as práticas tradicionais de comunicação/educação estão pautadas no modelo unilinear, marcado por uma visão hegemônica onde a informação do emissor (profissionais de saúde) causaria mudança de comportamento no receptor (população) em prol de uma saúde de qualidade. Pressupõe a valorização do saber médico como construtor de um comportamento pré-definido de práticas adequadas para promoção à saúde e a aceitação da população de condutas médico-sanitárias. Esta visão reduz a população a “usuários consumidores” na qual a perspectiva controladora do saber médico hegemônico e medidas coercitivas que definem a atuação destas práticas sanitárias, estabelecem regras de conduta moral, social e higiênica.
Quanto este modelo é aplicado nos materiais educativos impressos surgem aspectos importantes baseado no “núcleo técnico fundamental” que o caracteriza: pressupõe falta ou atraso a ser superado pela população; superação do atraso através de conhecimento técnico-científico e mensagens que se oferecem como “poder organizador do conhecimento do outro”. Neste contexto a disseminação da informação é o eixo fundamental das práticas educativas em saúde, independente do contexto sociocultural da população.
O modelo dialógico diverge integralmente do unilinear, pois consiste não apenas em disseminar informação, mas também em capacitar a população para seu uso, através do diálogo e da participação democrática. O material educativo é construído com objetivo
de sensibilizar a população para transformação da realidade em conformidade com seu contexto. O modelo dialógico critica a comunicação unilinear como “invasão cultural” praticada pelo educador ou pelo profissional, onde a imposição da cultura/saber do educador desconsidera a cultura e o contexto do outro, e propõe que a realidade dos educandos seja “problematizada” para que estes atuem de forma autônoma e crítica sobre ela e em direção à sua transformação.
A partir destas premissas de análise os autores concluíram através da discussão apontada pelos produtores dos artigos selecionados, que o modelo unilinear predomina nos materiais impressos de educação em saúde, e que consequentemente, quando avaliados criticamente, apresentam-se ineficazes e de pouco alcance para promover a saúde. Neste sentido a representação do sujeito receptor é revelada como “consumidores de informação”, passivos, ignorantes e com capacidade cognitiva diminuída, reverberando numa “infantilização” da clientela. Revela também a análise homogênea e estável desta recepção, como se todos os indivíduos assimilassem o conteúdo de uma só maneira, não considerando a diversidade sócio-econômico-cultural na qual os mesmos estão inseridos, percebendo aqui uma clara desvalorização do saber popular. O sujeito é impotente na relação estabelecida com o profissional, naturalizando assim, a hegemonia do saber biomédico em detrimento do conhecimento popular e alargando a distância entre o saber cientifico e o popular.
Quanto à linguagem dos impressos e seu conteúdo os autores demonstraram que são raras as pesquisas onde os usuários participam da seleção do conteúdo, sendo este elaborado principalmente por profissionais de saúde e com a preocupação apenas de “traduzir” termos científicos para o popular, salientando a impessoalidade dos termos utilizados.
Conforme análise dos autores os impressos educativos funcionam como “próteses” ou extensões do discurso médico hegemônico reforçando assim a “invasão cultural” presente, de forma predominante, nas ações de saúde e a separação entre profissional de saúde e usuário. Também a avaliação dos impressos é considerada inconsistente, assistemática e com pequena participação dos receptores.
Por fim os autores recomendam o processo de educar/cuidar em saúde através de uma perspectiva teórico prática deve ocorrer numa relação dialógica, humana e recíproca, baseado nos modelos dialógicos da comunicação e na concepção freiriana de educação. IV- Metodologia da Autoria
A pesquisa foi realizada pelo método da revisão bibliográfica e utilizou como base de dados a Scielo. Foi pesquisado inicialmente o descritor “educação em saúde”, combinado com entretermos, e posteriormente utilizado o descritor “impressos”, para uma busca mais precisa. Assim através do trabalho criterioso de análise, inclusão e exclusão, os autores selecionaram 11 artigos para o presente estudo.
IV- Crítica da Resenhista
O artigo apresenta rigor no uso e descrição da metodologia, assim como na análise dos artigos selecionados. Descreve também o referencial teórico crítico que balizaram a análise baseado no texto de Teixeira, sobre “Modelos comunicacionais e ações em saúde”, de forma simples e consistente.
As conclusões das análises foram pertinentes e revelam a compreensão critica dos impressos para educação em saúde baseado no modelo médico-hegemônico e verticalizado ainda vigente em nosso sistema de saúde, mesmo após a reforma sanitária e a conquista da participação social, os quais não consideram o saber popular e o contexto sociocultural da população.
VI- Indicação da Resenhista
A leitura crítica deste artigo é recomendada para todos os profissionais que trabalham com educação em saúde e, sobretudo, para os profissionais de saúde que trabalham diretamente na confecção de impressos educativos e promoção a saúde.
VI- Leitura Recomendada
Teixeira, RR. Modelos comunicacionais e práticas de saúde. Interface – Comunic., Saude, Educ., v.1, n.1, p.7-40, 1997.
Vasconcellos-Silva, PR; Riviera, FJU; Rozemberg, B. Próteses de comunicação e alinhamento comportamental sobre impressos hospitalares. Rev. Saude Publica, v.37, n.4, p.531-42, 2003. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v37n4/ 16791.pdf. Oliveira, VLB. et al. Modelo explicativo popular e profissional das mensagens de cartazes utilizados nas campanhas de saúde. Texto Contexto Enferm., v.16, n.2, p.287-93, 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rsp/v14n3/10.pdf
Freitas, FV. Leitura de materiais educativos usados na educação em diabetes: uma análise por meio da semiótica social. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências e Saúde) - Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2009.
Diógenes, KCBM; Nations, M. “Prismas de percepção”: múltiplas leituras das campanhas em saúde no Nordeste brasileiro Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 27(12):2469-2473, dez, 2011.
Kelly-Santos, AA, palavra & as coisas: produção e recepção de materiais educativos sobre hanseníase. 2009. Tese (Doutorado) - Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro. 2009.