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Research
Institute1873-18*6
o
a-A
O
TubiiçadoporSILVA
PINTO
Tiragem
de 200 exemplaresDE
CESARIO
VERDE
Sê6
ILISBOA
TTPOGRAFH
,AELZEVIRIASA
BuadoInstitui industrial
,23 a
DE
CESARIO
VERDE
1873-1886
LISBOA
TYPOGRAPHIA
ELZEYIRIANA
Rua doInstitutoIndustrial,23 a 31C4
JORGE VERDE
Aqui deponho
em
suas mãosedebaixo dos seuslá-bios o livrodeseu irmão.
A
minha «obra» terminouno dia
em
que ellesaiu da nossadoceamiqade paraa7iossaterrívelamargura:morri,
meu
queridoJorge—
deixe-me chamar assim ao irmãodomeu
queridoCesario;
—
morriparaas alegriasdotrabalho,paraas esperanças dos enganosdoces!
O
desmoronamentoAã
-se, aum
tempo, no espirito e no coração!Dos
restos do passado deixe-meofferecer-lhea dedicação
extremada:peça-me o sacrificio;e, quando no
decor-rerda vida, se lembrar denós,tenhaestepensamento
consolador
—
A
grande alma demeu
irmão soubeimpor-sea
um
coração endurecido;etenhaesteoutropensamento
—
Mas
não estava de todo endurecidoocoração que soubeamai-a.
Adeus,
meu
queridoJorge20 dejulhode 1886.
Encontrámo-nospela primeira veznoCurso
Supe-rior de Lettras. Foi
em
i8y3. Cesario Verdematri-culara-se no Curso
em
homenagem
ás Lettras,como
se as Lettrasláestivessem
—
noCurso.Eu
matricula-ra-me,
com
a esperança de habilitar-meum
dia áconquista de
uma
cadeira disponível.Encontrámo-nos e ficámos amigos—
paraa vida e paraa morte.Paraa vidae para amorte.
Tenho
de fallar de mim, se eu pretendo fallar de CesarioVerde.Elle náo teve, desde aquelledia—
hatreze annos
—
maior amigo do que eu fui; e sobreesta mesa onde eu estou escrevendo,ás 10 horas da
noite d’este formidável dia glacial
—
20 dejulho de1886, diadoseu enterro,
—
sobre esta mesa ondeeuestou escrevendo tenho estas palavras suas de ha
poucos dias:
—
«Ecomo
sedê o caso de tuseres o mais dedicado dosmeus
amigos...»Tenho
aquiessas palavras: ellas constituem a justificação dos
meus
soluços de ha poucas horas,alli, nocemiteriovisinho onde elle dorme
—
o Cesario!—
a suaXII
Eu
fui, pois,a luctarnas grandesbatalhas daDes-graça, naquelle anno para
mim
terrivel de 1874.Fui-me, a dezenas de léguas de Lisboa. Elle ficou.
E
no diaem
que eu medi forçascom
asavançadas domeu
destino,a inquietação invadiu o espirito eoco-ração de Cesario Verde, por
modo
que já euasso-berbara
com
omeu
desprezo adesventurapertinaze ainda elle não vingára libertar-se do peso de seuscuidadoseafflições. Durante annos escreveu-me
cen-tenares de paginas
—
commentarios sobre osmeus
infortúnios, conselhos do seu espirito lucidíssimo,
sobresaltos do seu coração fraternal.
Um
dia,trocá-mos
estas palavras:—
«Como
tu tens tempo,meu
amigo, para soffrer tanto!»
—
«Como
tu tens tempo,meu
amigo, parame
acompanhar no soffrimento!ȃ
indispensávelter conhecido intimamente CesarioVerdepara conhecel-o
um
pouco.Os
que apenaslheouviram a phrase rapida, imperiosa,dogmatica, mal
podem
imaginar o fundo de tolerância espectanted'aquelle bello e poderoso espirito. Elletinhaofuror
dadiscussão
—
atodaahora.Eu
careçodepreparar-me
durante horas para a simplescomprehensãoAs
exigências do
meu
caro polemista irritavam-me.Eu
respondia ao acaso;
mas
acontecia por vezesque osorriso ligeiramente ironicodoperseguidor
expandia-se n’um
bom
e largo sorriso de convencido; e então—
meu
querido amigo!meu
santo poeta!—
ellesaudava
com
um
enthusiasmo de creança amoravelo que elle chamava o
meu
triumpho!Não
hesitavaem
confessar-sevencido; econgratulava-secommigo
—
porque eu o vencera inconscientemente.A
XIII
Os
campos, a verdurados prados edos montes, aliberdade do
homem em
meio da natureza livre: osseus sonhos amados, as suas realidades amadas!
Quando
aquelleartistadelicado,quandoaquellepoeta de primeira grandeza julgavaem
rarosmomentos
sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de
homem
pratico, succedia que ascousasdo campo,davida pratica assimilavam afecundanteseiva artística
dopoeta:e entáodosfructosalevantavam-searomas
quedisputavamfórosde poesia aosaromas dasfiôres.
O
mesmo
sopro bondoso e potente agitava efecun-dava os milharaes e as violetas eos trigaes e as
ro-sas!
A
bondadesumma
estánopoeta,—
maisvisivel,pelo menos, do que
em
Deus.Artista
—
e de alta plana!Eu
pude vêl-o ciosodeseus direitos e reivindicando-os
com
tanto deinge-nuidadequanto devigor.
E
poisqueum
ligeiroesboço,precedendo mais detido trabalho, estou elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella
individuali-dade, não
me
dispensarei d’estaindiscripçãoHa
doismezesescrevia-me CesarioVerde:«O
dou-tor SousaMartins perguntou-me qual era a minha occupaçáo habitual.
Eu
respondi-lhe naturalmente:Empregado
no commercio. Depois, elle referiu-se á minha vida trabalhosa queme
distrahia,etc. Ora,meu
querido amigo, o que eute peço é que, conver-sandocom
o dr. Sousa Martins, lhe dês aperceberqueeunãosou osr. Verde,empregadonocommercio.
Eu
nãopossobem
explicar-te; masa tuamuita ami-zade comprehende os meus escrúpulos: sim?...»E
eu fui á beira de Sousa Martinse perguntei-lhese o poeta Cesario Verde podiaser salvo.
O
grandeXIV
em
pleno peito:—
Que
o poeta Cesario Verdees-tava irremediavelmente perdido!
Meu
poeta!Meu
amigo!Tu
estavascondemnado
no tribunal superior, quando eu te mentia e ao
pu-blico e a
mim
proprio: estavas condemnado,meu
santo!
Mas
podia viver tranquillo o teu orgulho deartista: oteu medicosabiaqueoposla Cesario Verde
erastu proprio,
meu
pallido agonisante illudido!A
esthesia, o processoartistico e a individualidaded’este admiravel e originalíssimo poeta
merecem
áCritica independente
uma
attençáodesvelada.Eu
nãohesito
em
vincular omeu nome
á promessa deum
tributoqueaobra de CesarioVerdeestá reclamando.
E
todavia,não pódeomeu
espirito evadir-seáidéaconsoladora de que é
um
sonho isto que oentene-brece!
Não
pódes evadir-te, ómeu
espiritoamargu-rado!
mas
eu voulibertar-te para adôr!Foi ás cinco horas da tarde
—
ainda agora. Caíao sol a
prumo
sobre a estrada do Lumiare nósví-nhamos
arrastando a nossamiséria,—
nós os vivos;o morto arrastavaasuaindifferença.Chegámos,
com
duas horas de amargura,alli ao porto deabrigo ede descanço. Veio o ceremonial trágico, o latim,o
en-cerramento. Caso de
uma
eloquênciaterrivel: Entrealgumas dezenas de
homens
nãohouveuma
phrase indifferente—
eem
dadomomento
explosiramsolu-ços
num
enternecimento que ageitava a loira cabeçado cadaver lá adentrodo caixão
—
como
asmãos
damãe
lh’a ageitaram infantil, no travesseiro, havinteequatro annos,e moribundahavinteequatrohoras!
XV
fui-meachorarvelhaslagrimasdegelo,avocadas por
lagrimas de fogo recemnascidas.Fui-me por entreos
tumulos,a pedirao
meu
Deusdehatrintaannosqueque
me
désseforça,queme
desse força nova,—
poisque se prolonga o captiveiro!
E
asós,caminhandopor entre os tumulos, ao cair da noite,pareceu-me
comprehender que nós recebemosforçanova
em
cadanovadôr,para soffrermos denovo
—
domesmo modo
que o alcatruz de
uma
nóra se despejaparaencher-se, paradespejar-se
—
sem saber porque..20 deagosto.
A
morada nova do Cesario é de pedrae temuma
porta de ferro,
com
um
respiradouroem
cruz;—
rua n.°6 do cemiterio dosPrazeres.
A
porta estáum
arbustodafamiliadoscyprestes
—
um
brinde aomeu
querido morto.
Eu
offerecerauma
palmeira que o vento esgarçou ao terceiro dia, e tive de escolheruma
especie resistente, cá da minharaça—
fúnebree resistente. Está verdejante e vigorosa apequenina
arvore,e de longe é
uma
sentinellaperdidadaminhadoce amizadereligiosa.
De
longevoujá perguntando á nossa arvore:—
Estábom
o nosso amigo?...E
ella inclina os pequeninos troncos,com
agravi-dade do cypreste:
—
Bem;
não houvenovidadeem
toda anoite..
E
que eu vou pelastardes visital-o; e sabercomo
ellepassouétodo
um
meu
cuidado,como
étodaami-nha alegria o bem-estar d’aquella hora
em
quenãoha risos.
Não
fomos risonhos—
o Cesario e eu.As
XVI
Depois da morte do Cesario eu deixei de vivernos domínios onde elle sentira consolações, alentos,
es-peranças, onde elle imaginára renascimentos,
hori-sontes, claridades novas.
Nunca
mais publiqueiuma
palavra que se lhe não consagrasse
—
aomeu
que-rido morto.
Em
face d’aquelle cadaver eusenti alas-trar-senomeu
pobreser fatigado obem-amado
des-prezo da vida.
O
meu
santo está alli,—
está resi-gnado: é tudo. Vós todos, que o amastes, sabei queelle está resignado
—
o nosso queridomortoimpas-sível! >
E
n’uma d'essas tardes, alguns diasdepois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha po-bre cabeça esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e então,como
querque euvisseláadentrodojazigoalguns caixõesarrumados,e
como
eu acertasse
em
descobrir o caixão do Cesario, ossoluços despedaçaram-se contra a minha garganta,
n’uma afflicção
immensa
e cruel.E
foi entãoque avoz rouca e enfraquecida do Cesario
—
lembram-seda vozd’elle?
—
pronuncioudistinctamenteláadentrodo caixão:
—
«Sê natural,meu
amigo; sênatural!»Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e
doce, ó
meu
sagrado horror inconsciente!Debrucei-me
contra a porta do jazigo e suppliquein’umaan-gustia:
—
«Falia!Dize!Falia,outravez,meu
amigo!»Não
se reproduziu o doloroso encanto.Apenasuma
especie demarulho brando,
um
arrastar defolhagemresequida
—
e o morto napaz da Morte!Vão
já decorridos dezannos sobreum
periodo de alguns mezesserenos daminhaviadolorosa.Eu
vieraa conquistar a certeza de que não havia luz
miseri-cordiosa para a noite que
me
vem
acompanhando eXVII
torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepul-tura redemptora. Cheguei aqui, á cidade maldita da
minha primeira hora e trazia o sonho de
uma
aurora pacifica de vidanova nomeu
pobre espirito illudido.A
aurora fez-secom
um
desabamentodeesperanças:a crueldade bestial que se debruçára sobre o
meu
primeiro dia não estava arrependida,nem
fatigada: a perseguição renasceu.E
quando eu,nosingulardes-espero dos esmagados
em
sua crença, pensei naMorte
como
no abrigo antecipado—
querido abrigoinevitável!
—
a voz do Cesario foi a voz evocadorapara a continuação do soffrimento
—
do soffrimentoamparado e protegido..
Protegido!
A
protecçãofoiamaior da grande almaserena para a pobre alma abatida: foi de lagrimas
que se confundiram
com
as minhas lagrimas; foiaquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
minhas amarguras,
—
que para o Cesario não forammysteriosas; foi o aperto de
mão
robusto, naverti-gem
do combate; foi a voz firme e severa na horadosdesfallecimentos; foi oreflexo permanentequea
minha angustiaencontrou na sua.
Ah, santo! Ah,
meu
santo! Ah,meu
puro emeu
grande! Ah,
meu
forte! Vae-se nacorrente, desfalle-cido, se nos nãotroveja nos ouvidosa voz reanima-dora! Vae-se na corrente,—
que o sei eu!Mas
tu,depois do gritosalvador, tinhas
um
applauso vibrantelá do fundo da tua grandeza e datua generosidade.
E
tu sabiasqueme
salvara a tuamão,a tua palavra,a tua alma de justo, a tua face que eu não quizera
vêr, contrahida e severa, retraindo-seperante o qua-dro da minha fraqueza!
Tu
bem
o sabias,—
forte,XVIII
bom,generoso, nobre,sempre
bom
—
etodaviasemprejusto
!
A
crise mais feroz atravessei-a, pois,abrigado,—
abrigado pela sua voz amiga.
Eu
tive de luctarcom
alenda de rebellião,
com
adesconfiança doshomens
práticos,
com
o odio dos pequeninosmalvadosoffen-didos
em
seus orgulhos e desmascaradosem
suashypocrisias: conseguintemente,
com
a suppressão dotrabalho,
—
do pão,—
com
a calumnia,com
a intriga,com
todas as armadilhas á minha cólera,com
todasas ciladas á minha fé... Ah, perdidos
em
paiz deCafres! Mal conceberieis o horror de
uma
luctacomo
aquella, de todos os dias de dez annos,
em
paiz deconta abertano bazar daCivilisação!
Hoje, o
meu
santoamigoestáalliem
baixo,na suamorada nova, esperando... Espera que eu vá
dizer-lhe dos horisontes novos abertos á consciência dos
justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
Justiça absoluta
—
da Justiça illuminada e serena;—
espera que eu vá dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, daSciencia, da Sinceridade, do
Amor:
oshomens
reconciliados, esclarecidos, aNaturezacon-vertida
em
Progresso,Deus explicado, o Futuroillu-minado, a Vida possível, aMulher fortalecida, o
Ho-mem
abrandado, as luctas supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-seem
harmonias reconhe-cidas, a Bondade convertidaem
nórma,os Direitos eos Deveres supprimidos pela Igualdade: os seus
so-nhos, a suafé, o seu horisonte, o seu amor!
Está alli
em
baixo, esperando... Eu, mensageirotriste,nãosaberei dizer-lhe o ascendêr dosespíritos,
demons-amargura d’estes últimosdias,
—
d’estas ultimasho-ras. As visõesdopoetahãode emmurchecer
confun-didas
com
as ultimas rozas que a minha pobremão
tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
restos da minha féhão-de misturar-se
com
o póac-cumulado á entradado seutumulopelo Nordéste
—
menos
frio do queaminha alma succumbida!/
/ .
DESLUMBRAMENTOS
Milady,é perigoso contemplal-a,
Quando
passa aromatica e normal,Com
seu typo tãonobre e tão de sala,Com
seus gestos de neve e de metal.Sem
quen’isso adesgoste oudesenfade,Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu
vejo-a,com
realsolemnidade,Irimpondotoilettes complicadas!..
Em
situdome
attraecomo
um
thesoiroO
seu ar pensativo esenhoril,A
sua vozquetemum
timbrede oiroE
o seunevado e lúcido perfil!Ah!
Como
m’estontêa eme
fascina..E
é,na graçadistinctado seu porte,Como
aModa
supérfluae feminina,4
Eu
hontem encontrei-a, quandovinha,Britannica, efazendo-me assombrar;
Grande
dama
fatal,sempre sósinha,E
com
firmeza e musicano andar!O
seu olharpossue, n’um jogoardente,Um
archanjo eum
demonio a illuminal-o;Como
um
florete,fere agudamente,E
afagacomo
o pellodum
regalo!Pois bem. Conserve o gelo poresposo,
E
mostre, se eu beijar-lhe asbrancas mãos,O
modo
diplomático eorgulhosoQue
Anna
d'Austria mostrava aos cortezãos.E
emfim prosigaaltivacomo
aFama,Sem
sorrisos,dramatica, cortante;Que
eu procuro fundir naminhachamma
Seuermo
coração,como
um
brilhante.Mas
cuidado, milady,não se afoite,Que
hão-de acabar os barbarosreaes;E
ospovos humilhados, pelanoite, Para a vingançaaguçamospunhaes.E
um
dia,ó flor do Luxo, nas estradas,Sobo setim do Azul e asandorinhas,
Eu
hei-de ver errar, allucinadas,E
arrastando farrapos—
asrainhas !SEPTENTRIONAL
Talvez já te esquecesses, ó bonina,
Que
viveste nocampo
sócommigo,Que
teosculei a bocca purpurina,E
que fuio teusol e o teu abrigo.Que
fugistecommigo
da Babel,Mulher
como
não hanem
na Circassia,Que
bebemos, nós dois,domesmo
fel,E
regámoscom
prantosuma
acacia.Talvez já te nãolembres
com
desgosto'
D’aquellasbrancasnoitesde mysterio,
Em
que a lua sorria no teurostoE
nas lagesque estão no cemiterio.Quando, á brisa outoniça,
como
um
manto,Os
teus cabellos d’ambardesmanchados,Se prendiam nas folhasd’um acantho,
Ou
nos bicos agrestes dossilvados,E
eu ia desprendel-os,como
um
pagem
Que
a cauda solevasse aos teus vestidos;E
ouviamurmurar
á doce aragem Uns delíriosd’amor, entristecidos;6
Quando
eu via,invejoso,mas
sem queixas,Pousaremborboletas doudejantes
Nastuas formosíssimas madeixas,
D’aquella côrdas messes lourejantes,
E
no pomar,nós dois,hombro
com
hombro,Caminhavamos
sós e demãos
dadas,Beijando os nossosrostos
sem
assombro,E
colorindo as faces desbotadas;Quando
ao nascer d'aurora,unidosambos
Num
amor
grandecomo
um
mar sem
praias,Ouvíamos os meigos dithyrambos,
Que
osrouxinoes teciam nas olaias,E,afastados da aldeia e doscasaes,
Eu
comtigo, abraçadocomo
as heras,Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-teos beijos que
me
déras;Quando,se havia lama no caminho,
Eu
te levava aocollo sobrea greda,E
o teucorpo nevadocomo
arminho Pesavamenos
queum
papel de seda...
E
foste sepultar-te,ó seraphim,No
claustro dasFieis emparedadas,Escondeste oteu rosto de marfim
No
véu negro das freirasresignadas.N’estavelha cidadetáo sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E
prelibando o calix daagonia.E,tristíssimaHelena,
com
verdade,Se podéra naterraachar supplicios,
Eu também
me
faria gordo frade8
MERIDIONAL
CABELLOSO
vagas de cabello esparsas longamente,Que
sois o vasto espelho onde eume
vou mirar,E
tendes o crystald’um lago refulgenteE
a rude escuridão d’um largo enegro mar;Cabellos torrenciaes d’aquella quem’enleva,
Deixae-me mergulhar as
mãos
e os braços núsNo
barathro febril da vossa grande treva,Que
tem scintillações emeigos ceos deluz.Deixae-menavegar,morosamente, a remos,
Quando
elle estiverbrandoe livre de tufões,E, aoplácido luar, ó vagas,marulhemos
E
enchamos de harmoniaas amplas solidões.Daixae-me naufragarnocimo dos cachopos
Occultos n'esse
abysmo
ebanico etãobom
Como
um
licorrhenano afermentar nos copos,Abysmo
que s’espraiaem
rendas de Alençon!E
6 magicamulher, ó minhaInegualavel,Que
tens oimmenso
bem
deter cabellos taes,E
os pisas desdenhosa,altiva,imperturbável,Que
exhalasda cabeça erguidacom
fulgor, Perfume queestontêaum
millionario avaroE
faz morrerde febreum
louco sonhador.Eu
seique tu possues balsâmicos desejos,E
vaes nadirecção constante do querer,Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
Que
fazem mansamente amar e elanguescer.E
atua cabelleira, errante pelascostas,Supponho
queteserve,em
noitesdeverão,De
flaccido espaldar aonde te recostasSesentes o abandono e a
morna
prostração.E
ella hade,ella hade,um
dia,em
turbilhõesinsanosNos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que
antigamentedeu, nos circosdos romanos,Um
oleo paraungir o corpo aogladiador.Ó
mantosde veludo esplendido e sombrio,Na
vossa vastidão posso talvez morrer!Masvinde-me aquecer,que eu tenho muitofrio
E
quero asphyxiar-meem
ondas de prazer.10
IRONIAS
DO DESGOSTO
«Onde é que tenasceu»
—
dizia-meella ásvezes—
«O
horror caladoe tristeás cousas sepulcraes?«Porque é quenáo possues a verve dosFrancezes
«E aspiras,
em
silencio, os frascosdosmeus
saes?«Porque é que tensno olhar, moroso epersistente,
«As sombrasd’umjazigo e as fundas abstracções,
«E abrigas tanto fel nopeito, que não sente
«O
abalo feminildasminhas expansões?«Ha
quem
tejulgueum
velho.O
teu sorriso é falso;«Mas quandotentasrirparece então,
meu
bem,«Que estão edificando
um
negrocadafalso«E ou vae alguém morrer ouvão matar alguém
!
«Eu vim
—
nfio sabes tu?—
para gosarem
maio,«No campo,a quietaçãobanhada deprazer!
«Náo vês,ó descorado, as vestes
com
quesaio, «E osjúbilos, que abril acaba de trazer?«Náo vês
como
a campina étoda embalsamada«E
como
nos alegraem
cada nova flor?«E entãoporque é que tensnafronte consternada
E
eu só lherespondia:—
«Escuta-me. Conforme«Tu vibras os crystaes da boccamusical,
«Vae-nos minando o tempo, o tempo
—
o cancroenorme«Que
teha de corromper o corpode vestal.«E eu calmamente sei,na dôrque
me
amortalha,«Quea tua cabecinha ornada á Rabagas,
«A
pouco e pouco ha de irtornando-se grisalha«E
em
breve ao quente sol e ao gaz alvejará«E euque daria
um
rei por cadateu suspiro,«Eu que
amo
a mocidade e asmodasfúteis, vans.«Eumorro depezar, talvez,porque prefiro
12
HUMILHAÇÕES
('Delodo o coracão
—
aSilvaPintoJ
Esta aborrece
quem
é pobre. Eu, quasi Job, Acceitoos seus desdens, seus odios idolatro-os;E
espero-a nos salõesdos principaes theatros,Todas as noites, ignoradoe só.
Lá
cança-me o rangerda seda, aorchestra, o gaz;As damas, aochegar,
gemem
nos espartilhos,E
emquanto vão passandoas cortejanse os brilhos,Eu
analyso as peças no cartaz.Na
representação d’umdrama
deFeuillet,Eu
aguardava, junto á porta, na penumbra,Quando
amulher nervosa e van queme
deslumbraSaltousoberba o estribo do coupé.
Como
ellamarcha!Lembra
um
magnetisador.Roçavam
noveludoas guarniçõesdasrendas;
E, muito emboratu, burguez,
me
não entendas,Fiqueibatendo os dentes deterror.
Sim! Porque não podia abandonal-a
em
paz!O
minha pobre bolsa,amortalhou-se a idéaDe
vel-a aproximar, sentado naplatéa,Cada contratadordizia
em
vozrouquenha:—
Quem
compra algum bilhete ou vende algumasenha?E
ouviam-se cá fóra as ovações.Que
desvanecimento!A
péroladoTom
!As
outras ao pé d’ellaimitam de bonecas;Tem
menos
melodia as harpas e asrabecas,Nos grandes espectáculos do Som.
Ao mesmo
tempo, eu não deixavadea abranger; Vi-asubir, direita, a larga escadariaE
entrar no camarote. AntesestimariaQue
o chão seabrisse parame
abater.Saí; mas aosairsenti-me atropellar.
Era
um
municipal sobreum
cavallo.A
guarda Espanca o povo.Irei-me; e eu, que detesto a farda,Cresci
com
raiva contra omilitar.De
súbito, fanhosa, infecta, rota, ma', Pôz-se na minha frenteuma
velhinha suja,E
disse-me,piscandoos olhosde coruja:—
Meu
bom
senhor!Dá-me
um
cigarro? Dá?...14
/
RESPONSO
I
N’um
castello desertoe solitário,Toda
depreto, ás horassilenciosas,Envolve-se nas pregasd'um sudário
E
choracomo
as grandes criminosas.Podesse euser o lenço de Bruxellas
Em
que ella escondeas lagrimassingellas,II
E
louracomo
as docesescocezas,Duma
belleza ideal,quasi indecisa;Circumda-se de luto e detristezas
E
excedeamelancólica Artemisa.Fosse euos seus vestidos afogados
1
III
Altanoite,os planetas argentados
Deslisam
um
olharmacio e vagoNosseus olhosde pranto marejados
E
nas aguas mansíssimasdo lagoPodesse euser a lua,a lua terna,
E
faria quea noite fosse eterna.IV
E
os abutrese os corvos fazem girosDe
roda dasameias e dos pegos,E
nas salas resoamuns suspirosDolentes
como
as supplicas doscegos.Fosse eu aquellas aves de pilhagem
E
cercara-lhe a fronte,em
homenagem.V
E
ella vaga naspraias rumorosas,Triste
como
as rainhas desthronadas,A
contemplaras gondolas airosas,Que
passam, a gionioilluminadas.Podesse eu sero rude gondoleiro
i6
VI
De
dia, entre osveludos e entre assedas,Murmurando
palavras afflictivas,Vagueia nasumbrosasalamedas
E
acarinha,de leve,as sensitivas.Fosse euaquellas arvores frondosas
E
prendera-lhe as roupas vaporosas.VII
Ou
domina,a rezar, no pavimentoDa
capellaonde outhorase ouviumissa,A
musica dulcíssimado ventoE
o susurro do mar,que s’espreguiça.Podesse eu sero mar e os meus desejos
Eram
irborrifar-lhe os pés,com
beijos.VIII
E
ás horas do crepúsculo saudosas,Nos parques
com
tapetes cultivados,Quando
ellapassa curvam-seamorosasAs
estatuas dos seus antepassados.Fosse eu
também
granito e aminha vidaNo
palacio isoladocomo
um
monge,Erram
asvelhas almas dosprecitos,E
nas noitesde invernoouvem-seao longeOs
lamentos dos naufragos afflictos.Podesse eu ter
também
uma
procellaE
as lentasagonias ao pé d’ella!X
E
ás lages,nosilencio dosmosteiros,Ella conta o seu drama negregado,
E
o vasto carmesim dos resposteirosOndula
como
um
mar
ensanguentado.Fossem aquellas mil tapeçarias
Nossas mortalhas quentese sombrias.
XI
E
assim passa, chorando,as noitesbellas, Sonhandounstristes sonhosdoloridos,E
a reflectirnas gothicas janellasAs
estrellasdos ceus desconhecidos.Podesse eu irsonhar
também
comtigoE
ter asmesmas
pedrasno jazigo!Mergulha-se
em
angustias lacrimosasNos ermos d’um castello abandonado,
E
as próximasflorestastenebrosasRepercutem
um
choro amargurado.Uníssemos, nós dois,as nossas covas,
Ó
doce castellã dasminhastrovas !CONTRARIEDADES
Eu
hoje estou cruel, frenetico, exigente;Nem
posso toleraros livrosmais bizarros.Incrível! Já fumei tres massos decigarros
Consecutivamente.
Doe-me
a cabeça.Abafo uns desesperos mudos: Tantadepravação nos usos,nos costumes!Amo,
insensatamente, os ácidos, osgumes
E
osângulos agudos.Sentei-me á secretaria. Alli defrontemóra
Uma
infeliz, sem peito,os dois pulmõesdoentesSoffre de faltas d’ar,morreram-lhe osparentes
E engomma
parafóra.Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas
Táo
livida!O
doutordeixou-a. Mortifica.Lidando sempre!
E
deve a conta á botica22
O
obstáculo estimula,torna-nos perversos;Agora sinto-me eu cheio de raivasfrias,
Por causa d’umjornal
me
regeitar,ha dias,Um
folhetim de versos.Que
mau
humor! Rasgueiuma
epopeiamortaNo
fundo da gaveta.O
queproduz o estudo?Mais
duma
redacção,das que elogiamtudo,Me
tem fechado a porta.A
critica segundo o methodo deTaineIgnoram-n'a.Juntei n’umafogueira immensa
Muitíssimos papeis inéditos.
A
imprensa Valeum
desdem solemne.Com
raras excepçõesmerece-me oepigramma.Deu
meia-noite; eem
pazpela calçada abaixo,Um
sol-e-dó. Chovisca.O
populachoDiverte-se nalama.
Eu
nunca dediqueipoemas ásfortunas,Mas
sim, pordeferencia a amigos oua artistas.Independente! Só porisso osjornalistas
Me
negam
as columnas.Receiam que o assignante ingênuo osabandone, Se forem publicartaes cousas,taes auctores.
Arteí
Não
lhes convem,visto que os seusleitores Deliram por Zaccone.Um
prosador qualquerdesfructa famahonrosa,Obtem
dinheiro, arranja asua «coterie»;E
amim, náo ha questãoquemaisme
contrarieDo
que escreverem
prosa.A
adulação repugna aossentimentosfinos;Eu
raramente faloaos nossoslitteratos,E
apuro-meem
lançar originaese exactos,Os
meus
alexandrinos..E
a tisica?Fechada, ecom
o ferro acceso Ignora que aasphyxíaa combustão das brazas,Não
fogedo estendalque lhehumedece as casas,E
fina-se ao desprezo!Mantem-se a chá e pão! Antes entrarnacova.
Esvae-se; e todavia, átarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar
uma
canção plangenteD’uma
operetanova!Perfeitamente.
Vou
findarsem
azedume.Quem
sabe se depois,eu rico en'outros climas,Conseguirei releressas antigas rimas,
Impressas
em
volume?Nas lettraseu conheço
um
campo
de manobras; Emprega-se a réclame,a intriga,oannuncio,ablague,E
estapoesia pedeum
editorque pague24
E
estoumelhor; passou-mea cólera.E
a visinhaA
pobre engommadeirair-se-hadeitarsem
ceia?Vejo-lheluzno quarto.Indatrabalha.
E
feia.. .A
DEBIL
Eu, que soufeio, solido,leal,
A
ti, que és bella,frágil,assustada,Quero
estimar-te,sempre, recatadaN’uma
existência honesta,de crystal.Sentadoámesa d’um café devasso,
Ao
avistar-te,ha pouco, fraca eloura,N’esta Babel tãovelha e corruptora,
Tive tenções de offerecer-teo braço.
E, quandosoccorreste
um
miserável,Eu,quebebiacálices d’absintho,
Mandeiira garrafa,porquesinto
Que
me
tornas prestante,bom,saudavel.«Ella ahi
vem
!» disse eu para osdemais;E
puz-me a olhar, véxado esuspirando,O
teu corpo que pulsa,alegre e brando,Na
frescura doslinhosmatinaes.Via-te pelaporta envidraçada;
E
invejava,—
talvez queo não suspeitesEssevestido simples,sem enfeites,
26
Ia passando, a quatro, o patriarcha.
Triste eusahi. Doía-me a cabeça;
Uma
turba ruidosa, negra, espessa,Voltava das exequias
dum
monarcha.Adorável!
Tu
muitonaturalSeguias a pensarno teu bordado; Avultava, ííumlargo arborisado,
Uma
estatua de rei n’um pedestal.Sorriam nos seus trens ostitulares;
E
ao claro sol,guardava-te, noemtanto,A
tua boamãe, que teama
tanto,Que
não te morrerásem te casares!Soberbo dia!
Impunha-me
respeitoA
limpidez doteusemblante grego;E
uma
familia,um
ninho de socego, Desejava beijarsobre o teupeito.Com
elegancia esem
ostentação,Atravessavas branca,esvelta e fina,
Uma
chusma de padres debatina,E
d’altos funccionariosda nação.«Mas se a atropellao povo turbulento!
Se fosse, poracaso, alli pisada!»
De
repente,paraste embaraçadaAo
pé d’um numeroso ajuntamento.Julgueivêr,
com
a vistade poeta,Uma
pombinha timida e quietaN’um
bandoameaçadorde corvos pretos.E
foi,então, que euhomem
varonil,Quizdedicar-teaminha pobrevida,
A
ti, que éstenue,docil, recolhida,28
N’UM
BAIRRO
MODERNO
oAManuelRibeiro
Dezhoras da
manha;
ostransparentesMatizam
uma
casa apalaçada;Pelosjardins estancam-se os nascentes,
E
fere a vista,com
brancuras quentes,A
larga rua macadamisada.Rej-de-chaussée repousam socegados, Abriram-se, iValguns, aspersianas,
E
d’um ou d’outro,em
quartos estucados,Ou
entre arama
dospapeis pintados,Reluzem,n’um almoço,as porcelanas.
Como
é saudavel ter o seuconchego,E
a sua vida facil!Eu
descia,Sem
muitapressa, para omeu
emprego,Aonde
agora quasisempre chegoCom
as tonturasduma
apoplexia.E
rota,pequenina, azafamada, Notei decostasuma
rapariga,Que
noxadrezmarmoreo
duma
escada,Como
um
retalho de horta agglomerada,29
E
eu,apezar do sol,examinei-a: Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;E
abre-se-lhe o algodão azulda meia,Seella se curva, esguedelhada,feia,
E
pendurandoos seus bracinhos brancos.Do
patamar responde-lheum
criado«Se teconvém, despacha;não converses.
Eu
não doumais.»E
muito descançado,Atira
um
cobrelivido, oxidado,Que
vem
baternasfaces d’uns alperces.Subitamente,
—
que visão de artista!—
Se eu transformasse os simples vegetaes,A
luz do sol,o intenso colorista,Num
serhumano
que semova
e existaCheio debellasproporções carnaes?!
Boiam
aromas,fumos de cozinha;Com
o cabaz ás costas, e vergando,Sobem
padeiros, claros defarinha;E
ás portas,uma
ou outracampainhaToca, frenetica,de vez
em
quando.E
eu recompunha, por anatomia,Um
novo corpo orgânico, aosbocados.Achavaos tons e asfôrmas. Descobria
Uma
cabeçanuma
melancia,E
n’unsrepolhos seiosinjectados.3o
As azeitonas, quenos dáo o azeite,
Negras e unidas, entreverdes folhos,
São trançasd’um cabello que se ageite;
E
osnabos—
ossos nus, da côrdoleite,E
oscachos d’uvas—
os rosários d’olhos.Ha
collos,hombros,boccas,um
semblanteNas posiçõesde certos fructos.
E
entreAs
hortaliças,túmido, fragrante,Como
d’alguem que tudo aquillo jante, Surgeum
melão,queme
lembrouum
ventre.E,
como
um
feto, emfim, que se dilate, Vi nos legumes carnes tentadoras,Sangue na ginja vivida, escarlate, Bons corações pulsandono tomate
E
dedos hirtos,rubros, nas cenouras.O
sol dourava o céo.E
a regateira,Como
vendera a sua fresca alfaceE
déra oramo
dehortelã quecheira,Voltando-se,gritou-me prazenteira:
«Nãopassa mais ninguém!..
.
Se
me
ajudasseEu
acerquei-me d’ella,semdesprezo;E, pelas duas azas a quebrar,
Nós levantámos todo aquelle peso
Que
aochão de pedra resistiapreso,Que
brotam d'um excesso de virtudeOu
d’umadigestão desconhecida.E em
quanto sigo parao lado opposto,E
ao longerodam
umas
carruagens,A
pobreafasta-se, ao calorde agosto,Descolorida nas maçãs do rosto,
E
sem quadrisna saia de ramagens.Um
pequerrucho rega a trepadeiraDuma
janella azul; e,com
o raloDo
regador,parece quejoeiraOu
queborrifaestrellas; e a poeiraQue
eleva nuvens alvas aincensal-o.Chegam
do gigo emanaçõessadias,Oiço
um
canario—
que infantilchilradaLidam
ménagesentre as gelosias,E
o solestende, pelasfrontarias,Seusraios de laranjadistillada.
E
pittoresca e audaz, na sua chita,O
peito erguido, os pulsos nasilhargas,D’uma
desgraça alegre queme
incita,Ella apregoa, magra, enfezadita,
32
E
como
as grossas pernasdum
gigante,Sem
tronco,mas athleticas, inteiras,Carregam sobrea pobre caminhante, Sobreaverdura rústica,abundante,
33
CRYSTALISAÇÕES
a4BittencourtRodrigues
Faz frio. Mas, depoisd’uns diasde aguaceiros.
Vibra
uma
immensa
claridade crua.De
cocaras,em
linha os calceteiros,Com
lentidão,terrosos e grosseiros,Calcam de ladoa lado a longa rua.
Como
as elevações seccaram do relento,E
odescoberto sol abafa e criaA
frialdade exige o movimento;E
aspoças d’agua,como
em
chão vidrento,Reflectem a molhada casaria.
Em
pé e perna, dando aos rins que a marchaagita, Disseminadas, gritam aspeixeiras;Luzem,
aquecem
namanhã
bonita,Uns barracões de gente pobresita.
E
uns quintalorios velhoscom
parreiras.Não
seouvem
aves;nem
o choro d’umanora!Tomam
por outra parte os viandantes;E
oferro e a pedra—
que união sonora!—
Retinem altopelo espaço fóra,
34
Bom
tempo.E
os rapagões, morosos, duros, baços,Cuja columna nunca se endireita, Partempenedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam
enormemente osgrossos maços,Com
queoutrosbatem a calçada feita.A
sua barba agreste!A
lã dos seus barretes!Que
espessos forros!Numa
das regueirasAcamam-se
asjaponas, os colletes:E
elles descalçamcom
os picaretes,Que
ferem lume sobre pederneiras.E
n'esse rude mez,que não consenteas flores,Fundeam,
como
a esquadraem
fria paz,As
arvoresdespidas. Sóbrias côres!Mastros,enxarcias,vergas! Valladores
Atiram terra
com
as largaspás.Eu
julgo-me noNorte, aofrio—
o grande agente!—
Carros de mão, que chiam carregados,
Conduzem
saibro, vagarosamente; Vê-se a cidade, mercantil,contente:Madeiras, aguas, multidões, telhados!
Negrejam os quintaes, enxugaa alvenaria;
Em
arco,sem as nuvens fluctuantes,O
ceu renova a tinta corredia;E
os charcos brilhamtanto, que eu diriaEu
tudo encontro alegremente exacto.Lavo,refresco,limpo osmeussentidos.
E
tangem-me, excitados, sacudidos,O
tacto, a vista,o ouvido, o gosto, o olfacto!Pede-me o corpointeiro esforços na friagem
De
tão lavadae egual temperatura!Os
ares, o caminho, aluz reagem; Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.
Mal encarado e negro,
um
pára emquanto eu passoDoisassobiam, altas asmarretas
Possantes, grossas,temperadas d’aço;
E
um
gordo, o mestre,com
um
arralaçoE
manso,tira o nivel das valletas.Homens
de carga! Assim asbestas vão curvadas!Que
vida tão custosa!Que
diabo!E
os cavadorespousam
as enxadas,E
cospem nascallosasmãos
gretadas,Para que nãolhes escorregue ocabo.
Povo
!No
panno crurasgado das camizasUma
bandeira pensoque transluz!Com
ella soffres,bebes, agonisas:Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
36
D’escuro,bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge
um
perfil direito que se aguça;E
ar matinaldequem
sahiu datoca,Uma
figura fina, desemboca,Toda
abafadan'um casaco árussa.D’onde ella
vem
!A
actriz quetanto comprimentoE
aquem, á noite naplateia, attraioOs
olhoslizoscomo
polimento!Com
seu rostinho estreito,friorento,Caminha agora para o seu ensaio.
E
aos outros eu admiro os dorsos, os costadosComo
lajões.Os
bons trabalhadores!Os
filhos das lezírias,dos montados:Os
dasplanícies, altos,aprumados;Os
dasmontanhas,baixos,trepadores!Mas
finadefeições,o queixo hostil, distincto, Furtiva atiritarem
suas pelles,Espanta-me a actrizitaque hoje pinto,
N’este dezembro energico, succinto,
E
n’estes sitios suburbanos, reles!Como
animaescommuns,
queuma
picada esquente.Elles, bovinos,másculos, ossudos,
Encaram-n’asanguínea,brutamente:
E
ella vacilla,hesita, impacienteSem
queinda o publico a passagem abra,O
demonico arrisca-se, atravessaCovas, entulhos,lamaçaes, depressa,
38
NOITES GÉLIDAS
MERINA
Rosto comprido, airosa,angelical,macia,
Porvezes, a allemã que eu sigo e que
me
agrada,Maisalva que o luarde inverno que
me
esfria, Nas ruas a queo gaz dá noitesdebailada;Sob
os abafos bons que o Norte escolheria,Com
seu passinho curto eem
suaslás forrada, Recorda-me a elegancia,a graça,a galhardiaSARDENTA
Tu, nesse corpo completo,
O
lacteavirgem doirada,Tens o lymphatico aspecto
40
FLORES
VELHAS
Fui hontemvisitar o jardimzinho agreste,
Aonde
tanta vez a luz nos beijou,E
em
tudo vi sorrir oamor
que tume
deste, Soberbacomo
um
sol, serenacomo
um
vôo.Em
tudo scintillava o limpidopoema
Com
osculos rimado ás luzes dosplanetas;A
abelha inda zumbiaem
torno da alfazema;E
ondulava o matiz das leves borboletas.Em
tudo eu pude ver ainda a tuaimagem,A
imagem
queinspirava os castos madrigaes;E
as virações, o rio,os astros, a paizagem,Traziam-me á
memória
idylliosimmortaes.Diziam-me que tu,no floridopassado,
Detinhas sobre mim, ao pé d’aquellas rosas, Aquelle teu olharmoroso e delicado,
Que
fala de languor e d’emoções mimosas;E, ó pallida Clarisse, ó almaardente epura,
Que
nãome
desgostounem uma
vez sequer,Eu
não sabiahaurir do calix da ventura4i
Falou-me tudo, tudo,
em
tons commovedores,Do
nosso amor,queuniu asalmasde dois entes;As
falas quasiirmãsdo ventocom
as floresE
a molle exhalação das varzeas rescendentes.Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
No
ninho de affeições creado para ti,Por entreo risoclaro, e as vozes das creanças,
E
as nuvens que esbocei, e ossonhos que nutri.Lembrei-me muito, muito,ó symbolodassantas,
Do
tempoem
que eu soltava asnotas inspiradas,E
sob aquelleceo e sobreaquellas plantasBebemos
o elixir das tardes perfumadas.E
nossobom
romance escripto n’um desterro,Com
beijossem
ruidoem
noites sem luar,Fizeram-m’o reler,mais tristesque
um
enterro,Os
goivos, a baunilha e as rosas de toucar.Mas
tuagora nunca, ah! nunca mais tesentasNos
bancos detijoloem
musgo
atapetados,E
eu não te beijarei, ás horas somnolentas,Os dedos de marfim,polidos e delgados..
Eu, pornão tersabido amaros movimentos
Da
estrophe mais ideal das harmoniasmudas,Eu
sinto as decepções eos grandes desalentos42
E
tudo emfim passou,passoucomo
uma
penna,Que
o marlevano dorso exposto aosvendavaes,E
aquelladoce vida,aquella vida amena,Ah!
nunca maisvirá,meu
lyrio, nunca mais!O
minha boa amiga, óminha meigaamante!Quando
hontem eu pisei,bem magro
ebem
curvado,A
areiaem
que rangia a saiaroçagante,Que
foina minhavida oceo aurirosado,Eu
tinha tão impresso ocunho da saudade,Que
as ondas queformei das suas illusões Fizeram-me enganar na minha soledadeE
as azas irabrindo ás minhasimpressões.Soltei
com
devoçãolembranças indaescravas,No
espaço construi phantasticoscastellos,No
tanque debrucei-meem
que tedebruçavas,E
onde o luarparava os raios amarellos.Cuideiaté sentir,mais doce que
uma
prece,Suster aminha fé, n’um veo consolador,
O
teu divino olharque as pedrasamollece,E
ha muitome
prendeu nos cárceres do amor.Osteus pequenos pés,aquellespés suaves,
Julguei-os esconderpor entre as minhas mãos,
E
imaginei ouvirao conversar das avesE
o teu perfumeforte, o teu perfume doce.Agonisava o sol gostosa elentamente,
Um
sino quetangia, austero ecom
vagar,Vestia detristeza esta paixãovehemente,
Esta doença, emfim,que a morte ha de curar.
E
quando m’ envolveu a noite,noitefria,Eu
trouxe do jardim duas saudadesroxas,E
vim a meditarem
quem
me
cerraria,Depois de eu
me
morrer, as palpebrasjá frouxas.Pois que,minha adorada, eu peçoque não creias
Que
euamo
esta existência e nãolhequeiraum
fimHa
tempos que não sinto o sangue pelas veiasE
acampa
talvezseja affavel paramim.Portanto,eu, que não cedo ásattracções do goso,
Sem
custo hei dedeixar asmagoas d’este mundo,E, ó pallida mulher, delongo olhar piedoso,
Em
breve te olharei calado e moribundo.Mas
querosó fugirdas coisas edos seres, Só quero abandonaravida triste emá
Na
vesperado diaem
quetambém
morreres,44
E
não virás,chorosa, aos rústicos tapetes,Com
lagrimas regar as plantaçõesruins;E
esperarão porti, naquelles alegretes,42
NOITE
FECHADA
(U
Lembras-te tu dosabbado passado,
Do
passeio que dêmos, devagar,Entre
um
saudoso gaz amarelladoE
as caricias leitosas doluar?Bem me
lembrodas altasruasinhas,Que
ambos nós percorremos demãos
dadas:As
janellas palravam as visinhas;Tinham
lividasluzesas fachadas.Não
me
esqueço das cousasque disseste, Anteum
pesadotemplocom
recortes;E
os cemitériosricos, e ocypresteQue
vive de gorduras e demortesNós saíramos proximoao sol-posto,
Mas
seguíamos cheiosde demoras;Não
me
esqueceuainda omeu
desgostoNem
o sino rachado que deu horas.Tenho
ainda gravadono sentido,Porque tu caminhavas
com
prazer,Cararapada, gordo e presumido,
O
padre que paroupara te ver.Como
uma
mitra a cúpula da egrejaCobriaparte do ventoso largo;
E
essaboccaviçosa de cereja, Torcia risoscom
saboramargo.A
lua dava tremulas brancuras,Eu
iacada vez mais magoado;Vi
um
jardimcom
arvores escuras,Como
uma
jaulatodo gradeado!E
parate seguir entreicomtigoN’um
pateo velho que erad'um canteiro,E
onde,talvez,sefaça inda ojazigoEm
que euirei apodrecer primeiro!Eu
sinto ainda a flôr da tua pelle,Tua
luva,teu veu, o que tués!Não
sei quetentação éque te impelleOs
pequeninose cançadospés.Sei que
em
tudo attentavas,tudo vias!
Eu
pormim
tinha pena dos marçanos,Como
ratos,nas gordas mercearias,Encafurnadospor immensos annos!
Tu
sorriras de tudo: Os carvoeiros,Que
apparecemaofundo d’umas minas,E
á crualuz os pallidosbarbeiros47
Fins desemana!
Que
misériaem
bandoO
povo folga, estúpido e grisalho!E
os artistas d’officioiam passando,Com
asferias,ralados do trabalho.O
quadro interior,d’um que ácandêa, Ensina a filha a ler, metteu-medó! Gosto mais do plebeu quecambalea,Do
bêbadofeliz quefalia sóDe
súbito,na voltadeuma
esquina,Sob
um
bico de gazque abriaem
leque,Vimos
um
militar, debarretinaE
galões marciaes de pechisbeque,E
em
quanto elle fallava ao seunamoro,Que
morava n’um prédio de azulejo,Nos nossoslábiosretinio sonoro
Um
vigoroso e formidávelbeijo!E
assim aomeu
caprichoabandonada,Errámos portravessas,por viellas,
E
passámos por péduma
tapadaE
um
palacio realcom
sentinellas.E
eu que busco a moderna e fina arte, Sobre a umbrosa calçada sepulchral,Tivea rude intenção de violentar-te
48
Mas
ao rumordos ramos e d’aragem,Como
longiquos bosques muito ermos,Tu
queriasno meio dafolhagemUm
ninhoenorme para nós vivermos.E
ao passo que eu te ouvia abstractamente,Ó
grandepomba
tépida que arrulha,Vinham
batendo omacadam
fremente,As
patadassonoras da patrulha,E
atraveza immortal cidadesinha,Nós fomos ter ásportas, ásbarreiras,
Em
queuma
negra multidão se apinhaDe
tecelões,de fumos, decaldeiras.Mas
anoite dormente eesbranquiçadaEra
uma
esteiralúcida d’amor;O
jovialsenhora perfumada,O
terrívelcreança!Que
esplendor!E
alicomeçaria omeu
desterro!...
Eodoso o rio, e glacial,corria ;
Sentámos-nos,os dois,
num
novo aterroNa
muralha dos caes de cantaria.Nunca
mais amarei,já que não amas,E
é preciso, decerto, queme
deixes!Toda
amaré luzidacomo
escamas,A
perder-me de ti porquem
existo,Eu
fuipassar aocampo
aquella noiteE
andei léguas apé, pensando nisto.E
tu que nãoserás sómente minha,Ás
carícias leitosas do luar,Recolheste-te, pallida e sósinha
5o
MANHANS
BRUMOSAS
Aquella, cujo
amor
me
causa alguma pena,Põe o chapeo aolado, abre o cabello á banda,
E com
a forte voz cantadacom
que ordena,Lembra-me, de manhan, quandonas praias anda,
Por entre o
campo
e o mar,bucólica,morena,Uma
pastora audaz da religiosa Irlanda.Que
linguas fala?A
ouvir-lhe asinflexões inglezas,—
Na
nevoa azul, a caça, aspescas, os rebanhos!—
Sigo-lhe osaltos pés por estas asperezas;
E
omeu
desejo nadaem
epoca de banhos,E, avede arribação,elle enche de surprezas
Seus olhos deperdiz, redondose castanhos.
As
irlandezas teem soberbos desmazelos!Ella descobre assim,
com
lentidões ufanas,Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E
como
aquellas são marítimas, serranas,Suggere-me o naufragio, asmusicas, os gelos
Traz
um
vestido claroa comprimir-lhe osflancos, Botões a tiracollo e applicaçõesvermelhas;E
á roda,num
paiz de prados e barrancos,Se as minhas maguasvão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdens,
como
vitellosbrancos.E
aquella, cujoamor
me
causaalguma pena,Põeo chapeo aolado,abre o cabello ábanda,
E
com
a forte voz cantadacom
que ordena,Lembra-me, demanhan, quandonas praias anda,
Por entre o
campo
e o mar,catholica,morena,52
FRIGIDA
I
Balzac é
meu
rival,minha senhora ingleza!
Eu
quero-aporque odeio ascarnações redondas!Mas
elle eternisou-lhe a singular bellezaE
eu turbo-me aodeter seus olhos côr das ondas.II
Admiro-a.
A
sualonga e placidaestaturaExpõe
a magestade austera dosinvernos.Não
córano seutodo a timidacandura;Dansam
a paz dos ceos eo assombro dosinfernos.III
Eu
vejo-a caminhar,íleugmatica, irritante,N’uma
dasmãos
franzindoum
lenço de cambraia!...Ninguém
me
prende assim,fúnebre, extravagante,Quando
arregaça e ondula apreguiçosasaia! IVOuso
esperar,talvez, que o seuamor
me
acoite,Mas
nunca a fitarei d’umamaneirafranca;Traz o esplendordo Dia e a pallidez daNoite, E,
como
o Sol,dourada, e,como
aLua, branca!53
V
Podesse-me euprostrar,
num
meditado impulso,O
gélida mulherbizarramente estranha,E
tremulo deporoslábios no seu pulso,Entre a macialuva e o
punho
de bretanha!..VI
Scintilla noseu rosto a lucidez das joias.
Ao
encararcomsigo aphantasiapasma;Pausadamente lembra o silvodas giboias
E
amarcha demoradaemuda
d’umphantasma.VII
Túetallica visão que Charles Baudelaire
Sonhou epresentiu nosseus delírios mornos, Permitta que eu lhe adule a distincção quefere,
As
curvas da magreza e o lustre dos adornos!VIII
Deslise
como
um
astro,um
astro que declina;Tão
descançada e firme é queme
desvaria,E
tem a lentidãoduma
corveta finaQue
nobremente vánum
mar
de calmaria.IX
Não
me
imagineum
doido.Eu
vivocomo
um
monge,No
bosque das ficções,ó grande flor do Norte!E, aoperseguil-a, pensoacompanharde longe
54
X
O
seuvagar occultauma
elasticidadeQue
deve darum
gostoamargo e deleitoso,E
a suaglacial impassibilidadeExalta o
meu
desejo e irrita omeu
nervoso.XI
Porem, não arderei aos seuscontactosfrios,
E
nãome
enroscará nos serpentinosbraços: Receio supportar febrões e calefrios;Adoro
no seucorpo os movimentoslassos.XII
E
seuma
vezme
abrisse o collotransparente,E me
osculasse, emfim,flexivel e submissa,Eu
julgariaouvir alguém, agudamente,DE
VERÃO
oAEduardoCoelho
I
No
campo; eu acho n’elleamusa queme
anima:A
claridade, a robustez, a acção.Esta manhã,saí
com
minhaprima,Em
quem
eu noto amaissincera estimaE
amais completa e séria educação.II
Creança encantadora!
Eu
mal esboço o quadroDa
lyrica excursão,dãntimidade.Não
pinto a velha ermidacom
seu adro;Sei só desenho de compasso e esquadro, Respiro industria,paz, salubridade.
III
Andam
cantando aos bois;vamos
cortando asleiras;E
tu dizias: «Fumas?E
as fagulhas?Apaga
o teu cachimbo juntoás eiras; Colhe-meuns brincosrubros nas ginjeiras! Quandome
alegra acalmadasdebulhas!»56
IV
E
perguntavas sobreos últimosinventosAgrícolas.
Que
aldeias tãolavadas!Bons ares! Boa luz! Bonsalimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como
nos fazem grandes barretadas!V
Voltemos.
Na
ribeiraabundam
as ramagensDosolivaes escuros.
Onde
irás?Regressam osrebanhos das pastagens;
Ondeiam
milhos,nuvens e miragens, E,silencioso,eu fico paratraz.VI
N’uma
collina azul brilhaum
logar caiado.Bello!
E
arrimada ao cabo da sombrinha,Com
teu chapéo depalha, desabado,Tu
continuas na azinhaga; ao ladoVerdeja,vicejante, a nossa vinha.
VII
N’isto,parando,
como
alguém que se analysa,Sem
desprender do chão teus olhoscastos,Tu
começaste,harmônica,indecisa,A
arregaçar a chita,alegree lisaEspreitam-te, por cima,as frestas dos celleiros
O
sol abrasa asterras jáceifadas,E
alvejam-te,na sombra dospinheiros,Sobre os teus pésdecentes, verdadeiros,
As
saiascurtas, frescas, engommadas.IX
E,
como
quem
saltasse, extravagantemente,Um
rego d’aguasemse enxovalhar,Tu,a austera,a gentil, a intelligente,
Depois de
bem
composta,deste á frenteUma
pernada cômica,vulgar!X
Exótica!
E
cheguei-me ao pé de ti.Que
vejo!No
atalho enxuto, e branco das espigasCaidas das carradasno salmejo,
Esguio e a negrejar
em
um
cortejo,Destaca-se
um
carreiro deformigas.XI
Elias,
em
sociedade, espertas, diligentes,Na
natureza trémula de sede,Arrastambichos, uvase sementes;
E
atulham,porinstincto, previdentes,5S
XII
E
eu desatei a rircomo
qualquer macaco!«Tu
não asesmagares contra o solo!»E
ria-me, eu ocioso,inútil,fraco,Eu
dejasmim na casado casacoE
d’oculo deitado a tiracolo!XIII
«Asladras da colheita!
Eu
se trouxesse agoraUm
sublimado corrosivo, uns pósDe
solimão, eu,sem maior demora,Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
Preferes o romântico ao feroz.
XIV
Que
compaixão! Julgava até que matariasEssesinsectos importunos! Basta. Merecem-te espantosas sympathias?
Eu
felicito suas senhorias,Que
honrastecom
um
pulo de gymnasta!»XV
E
emfim calei-me.Os
teus cabellos muitoloirosLuziam,
com
doçura,honestamente;De
longeo trigoem
monte,e os calcadoiros,Lembravam-me
fusõesdbmmensos
oiros,Vibravam, na campina,as chocasda manada;
Vinham
uns carros agemer no outeiro,E
finalmente, energica, zangada,Tu
indaassim bastante envergonhada, Volveste-me,apontando o formigueiro:XVII
«Não
me
incommode, não,com
ditos detestáveis!Não
sejasimplesmenteum
zombador! Estas mineiras negras, incançaveis,Sáo mais economistas,mais notáveis,
6o
O SENTIMENTO
D’UM
OCCIDENTAL
aiGuerra Junqueiro
I
AVE MARIAS
Nas nossas ruas,ao anoitecer,
Ha
tal soturnidade,ha talmelancholia,Que
assombras, o bulicio, o Tejo, a maresiaDespertam-me
um
desejo absurdode soffrer.O
ceu parece baixo e deneblina,0
gaz extravasado enjôa-me, perturba;E
os edifícios,com
aschaminés, e aturbaToldam-se
duma
côrmonotona
elondrina.Batem
os carros d’aluguer,ao fundo,Levando ávia ferreaos que se vão. Felizes
!
Occorrem-me
em
revista exposições, paizes:Madrid, Paris,Berlim, S. Petersburgo,o
mundo
Semelham-sea gaiolas,
com
viveiros,As
edificações sómente emmadeiradas: