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Institute

(5)
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(8)
(9)

1873-18*6

o

a-A

O

Tubiiçadopor

SILVA

PINTO

(10)
(11)
(12)

Tiragem

de 200 exemplares

(13)
(14)
(15)

DE

CESARIO

VERDE

Sê6

I

LISBOA

TTPOGRAFH

,A

ELZEVIRIASA

BuadoInstitui industrial

,23 a

(16)
(17)

DE

CESARIO

VERDE

1873-1886

LISBOA

TYPOGRAPHIA

ELZEYIRIANA

Rua doInstitutoIndustrial,23 a 31

(18)
(19)
(20)
(21)

C4

JORGE VERDE

Aqui deponho

em

suas mãosedebaixo dos seus

lá-bios o livrodeseu irmão.

A

minha «obra» terminou

no dia

em

que ellesaiu da nossadoceamiqade para

a7iossaterrívelamargura:morri,

meu

queridoJorge

deixe-me chamar assim ao irmãodo

meu

querido

Cesario;

morriparaas alegriasdotrabalho,para

as esperanças dos enganosdoces!

O

desmoronamento

-se, a

um

tempo, no espirito e no coração!

Dos

restos do passado deixe-meofferecer-lhea dedicação

extremada:peça-me o sacrificio;e, quando no

decor-rerda vida, se lembrar denós,tenhaestepensamento

consolador

A

grande alma de

meu

irmão soube

impor-sea

um

coração endurecido;etenhaesteoutro

pensamento

Mas

não estava de todo endurecidoo

coração que soubeamai-a.

Adeus,

meu

queridoJorge

(22)
(23)
(24)
(25)

20 dejulhode 1886.

Encontrámo-nospela primeira veznoCurso

Supe-rior de Lettras. Foi

em

i8y3. Cesario Verde

matri-culara-se no Curso

em

homenagem

ás Lettras,

como

se as Lettrasláestivessem

noCurso.

Eu

matricula-ra-me,

com

a esperança de habilitar-me

um

dia á

conquista de

uma

cadeira disponível.Encontrámo-nos e ficámos amigos

paraa vida e paraa morte.

Paraa vidae para amorte.

Tenho

de fallar de mim, se eu pretendo fallar de CesarioVerde.Elle náo teve, desde aquelledia

ha

treze annos

maior amigo do que eu fui; e sobre

esta mesa onde eu estou escrevendo,ás 10 horas da

noite d’este formidável dia glacial

20 dejulho de

1886, diadoseu enterro,

sobre esta mesa ondeeu

estou escrevendo tenho estas palavras suas de ha

poucos dias:

«E

como

sedê o caso de tuseres o mais dedicado dos

meus

amigos...»

Tenho

aqui

essas palavras: ellas constituem a justificação dos

meus

soluços de ha poucas horas,alli, nocemiterio

visinho onde elle dorme

o Cesario!

a sua

(26)

XII

Eu

fui, pois,a luctarnas grandesbatalhas da

Des-graça, naquelle anno para

mim

terrivel de 1874.

Fui-me, a dezenas de léguas de Lisboa. Elle ficou.

E

no dia

em

que eu medi forças

com

asavançadas do

meu

destino,a inquietação invadiu o espirito eo

co-ração de Cesario Verde, por

modo

que já eu

asso-berbara

com

o

meu

desprezo adesventurapertinaze ainda elle não vingára libertar-se do peso de seus

cuidadoseafflições. Durante annos escreveu-me

cen-tenares de paginas

commentarios sobre os

meus

infortúnios, conselhos do seu espirito lucidíssimo,

sobresaltos do seu coração fraternal.

Um

dia,

trocá-mos

estas palavras:

«Como

tu tens tempo,

meu

amigo, para soffrer tanto!»

«Como

tu tens tempo,

meu

amigo, para

me

acompanhar no soffrimento!»

É

indispensávelter conhecido intimamente Cesario

Verdepara conhecel-o

um

pouco.

Os

que apenaslhe

ouviram a phrase rapida, imperiosa,dogmatica, mal

podem

imaginar o fundo de tolerância espectante

d'aquelle bello e poderoso espirito. Elletinhaofuror

dadiscussão

atodaahora.

Eu

careçode

preparar-me

durante horas para a simplescomprehensão

As

exigências do

meu

caro polemista irritavam-me.

Eu

respondia ao acaso;

mas

acontecia por vezesque o

sorriso ligeiramente ironicodoperseguidor

expandia-se n’um

bom

e largo sorriso de convencido; e então

meu

querido amigo!

meu

santo poeta!

elle

saudava

com

um

enthusiasmo de creança amoravel

o que elle chamava o

meu

triumpho!

Não

hesitava

em

confessar-sevencido; econgratulava-se

commigo

porque eu o vencera inconscientemente.

A

(27)

XIII

Os

campos, a verdurados prados edos montes, a

liberdade do

homem em

meio da natureza livre: os

seus sonhos amados, as suas realidades amadas!

Quando

aquelleartistadelicado,quandoaquellepoeta de primeira grandeza julgava

em

raros

momentos

sacrificar a Arte aos seus gostos de lavrador e de

homem

pratico, succedia que ascousasdo campo,da

vida pratica assimilavam afecundanteseiva artística

dopoeta:e entáodosfructosalevantavam-searomas

quedisputavamfórosde poesia aosaromas dasfiôres.

O

mesmo

sopro bondoso e potente agitava e

fecun-dava os milharaes e as violetas eos trigaes e as

ro-sas!

A

bondade

summa

estánopoeta,

maisvisivel,

pelo menos, do que

em

Deus.

Artista

e de alta plana!

Eu

pude vêl-o ciosode

seus direitos e reivindicando-os

com

tanto de

inge-nuidadequanto devigor.

E

poisque

um

ligeiroesboço,

precedendo mais detido trabalho, estou elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella

individuali-dade, não

me

dispensarei d’estaindiscripção

Ha

doismezesescrevia-me CesarioVerde:

«O

dou-tor SousaMartins perguntou-me qual era a minha occupaçáo habitual.

Eu

respondi-lhe naturalmente:

Empregado

no commercio. Depois, elle referiu-se á minha vida trabalhosa que

me

distrahia,etc. Ora,

meu

querido amigo, o que eute peço é que, conver-sando

com

o dr. Sousa Martins, lhe dês aperceber

queeunãosou osr. Verde,empregadonocommercio.

Eu

nãoposso

bem

explicar-te; masa tuamuita ami-zade comprehende os meus escrúpulos: sim?...»

E

eu fui á beira de Sousa Martinse perguntei-lhe

se o poeta Cesario Verde podiaser salvo.

O

grande

(28)

XIV

em

pleno peito:

Que

o poeta Cesario Verde

es-tava irremediavelmente perdido!

Meu

poeta!

Meu

amigo!

Tu

estavas

condemnado

no tribunal superior, quando eu te mentia e ao

pu-blico e a

mim

proprio: estavas condemnado,

meu

santo!

Mas

podia viver tranquillo o teu orgulho de

artista: oteu medicosabiaqueoposla Cesario Verde

erastu proprio,

meu

pallido agonisante illudido!

A

esthesia, o processoartistico e a individualidade

d’este admiravel e originalíssimo poeta

merecem

á

Critica independente

uma

attençáodesvelada.

Eu

não

hesito

em

vincular o

meu nome

á promessa de

um

tributoqueaobra de CesarioVerdeestá reclamando.

E

todavia,não pódeo

meu

espirito evadir-seáidéa

consoladora de que é

um

sonho isto que o

entene-brece!

Não

pódes evadir-te, ó

meu

espirito

amargu-rado!

mas

eu voulibertar-te para adôr!

Foi ás cinco horas da tarde

ainda agora. Caía

o sol a

prumo

sobre a estrada do Lumiare nós

ví-nhamos

arrastando a nossamiséria,

nós os vivos;

o morto arrastavaasuaindifferença.Chegámos,

com

duas horas de amargura,alli ao porto deabrigo ede descanço. Veio o ceremonial trágico, o latim,o

en-cerramento. Caso de

uma

eloquênciaterrivel: Entre

algumas dezenas de

homens

nãohouve

uma

phrase indifferente

e

em

dado

momento

explosiram

solu-ços

num

enternecimento que ageitava a loira cabeça

do cadaver lá adentrodo caixão

como

as

mãos

da

mãe

lh’a ageitaram infantil, no travesseiro, havinte

equatro annos,e moribundahavinteequatrohoras!

(29)

XV

fui-meachorarvelhaslagrimasdegelo,avocadas por

lagrimas de fogo recemnascidas.Fui-me por entreos

tumulos,a pedirao

meu

Deusdehatrintaannosque

que

me

désseforça,que

me

desse força nova,

pois

que se prolonga o captiveiro!

E

asós,caminhando

por entre os tumulos, ao cair da noite,pareceu-me

comprehender que nós recebemosforçanova

em

cada

novadôr,para soffrermos denovo

do

mesmo modo

que o alcatruz de

uma

nóra se despejapara

encher-se, paradespejar-se

sem saber porque..

20 deagosto.

A

morada nova do Cesario é de pedrae tem

uma

porta de ferro,

com

um

respiradouro

em

cruz;

rua n.°6 do cemiterio dosPrazeres.

A

porta está

um

arbustodafamiliadoscyprestes

um

brinde ao

meu

querido morto.

Eu

offerecera

uma

palmeira que o vento esgarçou ao terceiro dia, e tive de escolher

uma

especie resistente, cá da minharaça

fúnebre

e resistente. Está verdejante e vigorosa apequenina

arvore,e de longe é

uma

sentinellaperdidadaminha

doce amizadereligiosa.

De

longevoujá perguntando á nossa arvore:

Está

bom

o nosso amigo?...

E

ella inclina os pequeninos troncos,

com

a

gravi-dade do cypreste:

Bem;

não houvenovidade

em

toda anoite..

E

que eu vou pelastardes visital-o; e saber

como

ellepassouétodo

um

meu

cuidado,

como

étodaa

mi-nha alegria o bem-estar d’aquella hora

em

quenão

ha risos.

Não

fomos risonhos

o Cesario e eu.

As

(30)

XVI

Depois da morte do Cesario eu deixei de vivernos domínios onde elle sentira consolações, alentos,

es-peranças, onde elle imaginára renascimentos,

hori-sontes, claridades novas.

Nunca

mais publiquei

uma

palavra que se lhe não consagrasse

ao

meu

que-rido morto.

Em

face d’aquelle cadaver eusenti alas-trar-seno

meu

pobreser fatigado o

bem-amado

des-prezo da vida.

O

meu

santo está alli,

está resi-gnado: é tudo. Vós todos, que o amastes, sabei que

elle está resignado

o nosso queridomorto

impas-sível! >

E

n’uma d'essas tardes, alguns diasdepois da sua morte, eu aproximei da porta de ferro a minha po-bre cabeça esbrazeada e olhei para dentro do jazigo, involuntariamente; e então,

como

querque euvisse

láadentrodojazigoalguns caixõesarrumados,e

como

eu acertasse

em

descobrir o caixão do Cesario, os

soluços despedaçaram-se contra a minha garganta,

n’uma afflicção

immensa

e cruel.

E

foi entãoque a

voz rouca e enfraquecida do Cesario

lembram-se

da vozd’elle?

pronuncioudistinctamenteláadentro

do caixão:

«Sê natural,

meu

amigo; sênatural!»

Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e

doce, ó

meu

sagrado horror inconsciente!

Debrucei-me

contra a porta do jazigo e suppliquein’uma

an-gustia:

«Falia!Dize!Falia,outravez,

meu

amigo!»

Não

se reproduziu o doloroso encanto.Apenas

uma

especie demarulho brando,

um

arrastar defolhagem

resequida

e o morto napaz da Morte!

Vão

já decorridos dezannos sobre

um

periodo de alguns mezesserenos daminhaviadolorosa.

Eu

viera

a conquistar a certeza de que não havia luz

miseri-cordiosa para a noite que

me

vem

acompanhando e

(31)

XVII

torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepul-tura redemptora. Cheguei aqui, á cidade maldita da

minha primeira hora e trazia o sonho de

uma

aurora pacifica de vidanova no

meu

pobre espirito illudido.

A

aurora fez-se

com

um

desabamentodeesperanças:

a crueldade bestial que se debruçára sobre o

meu

primeiro dia não estava arrependida,

nem

fatigada: a perseguição renasceu.

E

quando eu,nosingular

des-espero dos esmagados

em

sua crença, pensei na

Morte

como

no abrigo antecipado

querido abrigo

inevitável!

a voz do Cesario foi a voz evocadora

para a continuação do soffrimento

do soffrimento

amparado e protegido..

Protegido!

A

protecçãofoiamaior da grande alma

serena para a pobre alma abatida: foi de lagrimas

que se confundiram

com

as minhas lagrimas; foi

aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás

minhas amarguras,

que para o Cesario não foram

mysteriosas; foi o aperto de

mão

robusto, na

verti-gem

do combate; foi a voz firme e severa na hora

dosdesfallecimentos; foi oreflexo permanentequea

minha angustiaencontrou na sua.

Ah, santo! Ah,

meu

santo! Ah,

meu

puro e

meu

grande! Ah,

meu

forte! Vae-se nacorrente, desfalle-cido, se nos nãotroveja nos ouvidosa voz reanima-dora! Vae-se na corrente,

que o sei eu!

Mas

tu,

depois do gritosalvador, tinhas

um

applauso vibrante

lá do fundo da tua grandeza e datua generosidade.

E

tu sabiasque

me

salvara a tuamão,a tua palavra,

a tua alma de justo, a tua face que eu não quizera

vêr, contrahida e severa, retraindo-seperante o qua-dro da minha fraqueza!

Tu

bem

o sabias,

forte,

(32)

XVIII

bom,generoso, nobre,sempre

bom

etodaviasempre

justo

!

A

crise mais feroz atravessei-a, pois,abrigado,

abrigado pela sua voz amiga.

Eu

tive de luctar

com

alenda de rebellião,

com

adesconfiança dos

homens

práticos,

com

o odio dos pequeninosmalvados

offen-didos

em

seus orgulhos e desmascarados

em

suas

hypocrisias: conseguintemente,

com

a suppressão do

trabalho,

do pão,

com

a calumnia,

com

a intriga,

com

todas as armadilhas á minha cólera,

com

todas

as ciladas á minha fé... Ah, perdidos

em

paiz de

Cafres! Mal conceberieis o horror de

uma

lucta

como

aquella, de todos os dias de dez annos,

em

paiz de

conta abertano bazar daCivilisação!

Hoje, o

meu

santoamigoestáalli

em

baixo,na sua

morada nova, esperando... Espera que eu vá

dizer-lhe dos horisontes novos abertos á consciência dos

justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da

Justiça absoluta

da Justiça illuminada e serena;

espera que eu vá dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, daSciencia, da Sinceridade, do

Amor:

os

homens

reconciliados, esclarecidos, aNatureza

con-vertida

em

Progresso,Deus explicado, o Futuro

illu-minado, a Vida possível, aMulher fortalecida, o

Ho-mem

abrandado, as luctas supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se

em

harmonias reconhe-cidas, a Bondade convertida

em

nórma,os Direitos e

os Deveres supprimidos pela Igualdade: os seus

so-nhos, a suafé, o seu horisonte, o seu amor!

Está alli

em

baixo, esperando... Eu, mensageiro

triste,nãosaberei dizer-lhe o ascendêr dosespíritos,

(33)

demons-amargura d’estes últimosdias,

d’estas ultimas

ho-ras. As visõesdopoetahãode emmurchecer

confun-didas

com

as ultimas rozas que a minha pobre

mão

tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os

restos da minha féhão-de misturar-se

com

o pó

ac-cumulado á entradado seutumulopelo Nordéste

menos

frio do queaminha alma succumbida!

(34)
(35)
(36)

/

/ .

(37)

DESLUMBRAMENTOS

Milady,é perigoso contemplal-a,

Quando

passa aromatica e normal,

Com

seu typo tãonobre e tão de sala,

Com

seus gestos de neve e de metal.

Sem

quen’isso adesgoste oudesenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu

vejo-a,

com

realsolemnidade,

Irimpondotoilettes complicadas!..

Em

situdo

me

attrae

como

um

thesoiro

O

seu ar pensativo esenhoril,

A

sua vozquetem

um

timbrede oiro

E

o seunevado e lúcido perfil!

Ah!

Como

m’estontêa e

me

fascina..

E

é,na graçadistinctado seu porte,

Como

a

Moda

supérfluae feminina,

(38)

4

Eu

hontem encontrei-a, quandovinha,

Britannica, efazendo-me assombrar;

Grande

dama

fatal,sempre sósinha,

E

com

firmeza e musicano andar!

O

seu olharpossue, n’um jogoardente,

Um

archanjo e

um

demonio a illuminal-o;

Como

um

florete,fere agudamente,

E

afaga

como

o pello

dum

regalo!

Pois bem. Conserve o gelo poresposo,

E

mostre, se eu beijar-lhe asbrancas mãos,

O

modo

diplomático eorgulhoso

Que

Anna

d'Austria mostrava aos cortezãos.

E

emfim prosigaaltiva

como

aFama,

Sem

sorrisos,dramatica, cortante;

Que

eu procuro fundir naminha

chamma

Seu

ermo

coração,

como

um

brilhante.

Mas

cuidado, milady,não se afoite,

Que

hão-de acabar os barbarosreaes;

E

ospovos humilhados, pelanoite, Para a vingançaaguçamospunhaes.

E

um

dia,ó flor do Luxo, nas estradas,

Sobo setim do Azul e asandorinhas,

Eu

hei-de ver errar, allucinadas,

E

arrastando farrapos

asrainhas !

(39)

SEPTENTRIONAL

Talvez já te esquecesses, ó bonina,

Que

viveste no

campo

sócommigo,

Que

teosculei a bocca purpurina,

E

que fuio teusol e o teu abrigo.

Que

fugiste

commigo

da Babel,

Mulher

como

não ha

nem

na Circassia,

Que

bebemos, nós dois,do

mesmo

fel,

E

regámos

com

prantos

uma

acacia.

Talvez já te nãolembres

com

desgosto

'

D’aquellasbrancasnoitesde mysterio,

Em

que a lua sorria no teurosto

E

nas lagesque estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça,

como

um

manto,

Os

teus cabellos d’ambardesmanchados,

Se prendiam nas folhasd’um acantho,

Ou

nos bicos agrestes dossilvados,

E

eu ia desprendel-os,

como

um

pagem

Que

a cauda solevasse aos teus vestidos;

E

ouvia

murmurar

á doce aragem Uns delíriosd’amor, entristecidos;

(40)

6

Quando

eu via,invejoso,

mas

sem queixas,

Pousaremborboletas doudejantes

Nastuas formosíssimas madeixas,

D’aquella côrdas messes lourejantes,

E

no pomar,nós dois,

hombro

com

hombro,

Caminhavamos

sós e de

mãos

dadas,

Beijando os nossosrostos

sem

assombro,

E

colorindo as faces desbotadas;

Quando

ao nascer d'aurora,unidos

ambos

Num

amor

grande

como

um

mar sem

praias,

Ouvíamos os meigos dithyrambos,

Que

osrouxinoes teciam nas olaias,

E,afastados da aldeia e doscasaes,

Eu

comtigo, abraçado

como

as heras,

Escondidos nas ondas dos trigaes,

Devolvia-teos beijos que

me

déras;

Quando,se havia lama no caminho,

Eu

te levava aocollo sobrea greda,

E

o teucorpo nevado

como

arminho Pesava

menos

que

um

papel de seda..

.

E

foste sepultar-te,ó seraphim,

No

claustro dasFieis emparedadas,

Escondeste oteu rosto de marfim

No

véu negro das freirasresignadas.

(41)

N’estavelha cidadetáo sombria,

Chorando afflictamente a minha sorte

E

prelibando o calix daagonia.

E,tristíssimaHelena,

com

verdade,

Se podéra naterraachar supplicios,

Eu também

me

faria gordo frade

(42)

8

MERIDIONAL

CABELLOS

O

vagas de cabello esparsas longamente,

Que

sois o vasto espelho onde eu

me

vou mirar,

E

tendes o crystald’um lago refulgente

E

a rude escuridão d’um largo enegro mar;

Cabellos torrenciaes d’aquella quem’enleva,

Deixae-me mergulhar as

mãos

e os braços nús

No

barathro febril da vossa grande treva,

Que

tem scintillações emeigos ceos deluz.

Deixae-menavegar,morosamente, a remos,

Quando

elle estiverbrandoe livre de tufões,

E, aoplácido luar, ó vagas,marulhemos

E

enchamos de harmoniaas amplas solidões.

Daixae-me naufragarnocimo dos cachopos

Occultos n'esse

abysmo

ebanico etão

bom

Como

um

licorrhenano afermentar nos copos,

Abysmo

que s’espraia

em

rendas de Alençon!

E

6 magicamulher, ó minhaInegualavel,

Que

tens o

immenso

bem

deter cabellos taes,

E

os pisas desdenhosa,altiva,imperturbável,

(43)

Que

exhalasda cabeça erguida

com

fulgor, Perfume queestontêa

um

millionario avaro

E

faz morrerde febre

um

louco sonhador.

Eu

seique tu possues balsâmicos desejos,

E

vaes nadirecção constante do querer,

Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,

Que

fazem mansamente amar e elanguescer.

E

atua cabelleira, errante pelascostas,

Supponho

queteserve,

em

noitesdeverão,

De

flaccido espaldar aonde te recostas

Sesentes o abandono e a

morna

prostração.

E

ella hade,ella hade,

um

dia,

em

turbilhõesinsanos

Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor

Que

antigamentedeu, nos circosdos romanos,

Um

oleo paraungir o corpo aogladiador.

Ó

mantosde veludo esplendido e sombrio,

Na

vossa vastidão posso talvez morrer!

Masvinde-me aquecer,que eu tenho muitofrio

E

quero asphyxiar-me

em

ondas de prazer.

(44)

10

IRONIAS

DO DESGOSTO

«Onde é que tenasceu»

dizia-meella ásvezes

«O

horror caladoe tristeás cousas sepulcraes?

«Porque é quenáo possues a verve dosFrancezes

«E aspiras,

em

silencio, os frascosdos

meus

saes?

«Porque é que tensno olhar, moroso epersistente,

«As sombrasd’umjazigo e as fundas abstracções,

«E abrigas tanto fel nopeito, que não sente

«O

abalo feminildasminhas expansões?

«Ha

quem

tejulgue

um

velho.

O

teu sorriso é falso;

«Mas quandotentasrirparece então,

meu

bem,

«Que estão edificando

um

negrocadafalso

«E ou vae alguém morrer ouvão matar alguém

!

«Eu vim

nfio sabes tu?

para gosar

em

maio,

«No campo,a quietaçãobanhada deprazer!

«Náo vês,ó descorado, as vestes

com

quesaio, «E osjúbilos, que abril acaba de trazer?

«Náo vês

como

a campina étoda embalsamada

«E

como

nos alegra

em

cada nova flor?

«E entãoporque é que tensnafronte consternada

(45)

E

eu só lherespondia:

«Escuta-me. Conforme

«Tu vibras os crystaes da boccamusical,

«Vae-nos minando o tempo, o tempo

o cancroenorme

«Que

teha de corromper o corpode vestal.

«E eu calmamente sei,na dôrque

me

amortalha,

«Quea tua cabecinha ornada á Rabagas,

«A

pouco e pouco ha de irtornando-se grisalha

«E

em

breve ao quente sol e ao gaz alvejará

«E euque daria

um

rei por cadateu suspiro,

«Eu que

amo

a mocidade e asmodasfúteis, vans.

«Eumorro depezar, talvez,porque prefiro

(46)

12

HUMILHAÇÕES

('Delodo o coracão

aSilvaPinto

J

Esta aborrece

quem

é pobre. Eu, quasi Job, Acceitoos seus desdens, seus odios idolatro-os;

E

espero-a nos salõesdos principaes theatros,

Todas as noites, ignoradoe só.

cança-me o rangerda seda, aorchestra, o gaz;

As damas, aochegar,

gemem

nos espartilhos,

E

emquanto vão passandoas cortejanse os brilhos,

Eu

analyso as peças no cartaz.

Na

representação d’um

drama

deFeuillet,

Eu

aguardava, junto á porta, na penumbra,

Quando

amulher nervosa e van que

me

deslumbra

Saltousoberba o estribo do coupé.

Como

ellamarcha!

Lembra

um

magnetisador.

Roçavam

noveludoas guarniçõesdasrendas

;

E, muito emboratu, burguez,

me

não entendas,

Fiqueibatendo os dentes deterror.

Sim! Porque não podia abandonal-a

em

paz!

O

minha pobre bolsa,amortalhou-se a idéa

De

vel-a aproximar, sentado naplatéa,

(47)

Cada contratadordizia

em

vozrouquenha:

Quem

compra algum bilhete ou vende algumasenha?

E

ouviam-se cá fóra as ovações.

Que

desvanecimento!

A

pérolado

Tom

!

As

outras ao pé d’ellaimitam de bonecas;

Tem

menos

melodia as harpas e asrabecas,

Nos grandes espectáculos do Som.

Ao mesmo

tempo, eu não deixavadea abranger; Vi-asubir, direita, a larga escadaria

E

entrar no camarote. Antesestimaria

Que

o chão seabrisse para

me

abater.

Saí; mas aosairsenti-me atropellar.

Era

um

municipal sobre

um

cavallo.

A

guarda Espanca o povo.Irei-me; e eu, que detesto a farda,

Cresci

com

raiva contra omilitar.

De

súbito, fanhosa, infecta, rota, ma', Pôz-se na minha frente

uma

velhinha suja,

E

disse-me,piscandoos olhosde coruja:

Meu

bom

senhor!

Dá-me

um

cigarro? Dá?...

(48)

14

/

RESPONSO

I

N’um

castello desertoe solitário,

Toda

depreto, ás horassilenciosas,

Envolve-se nas pregasd'um sudário

E

chora

como

as grandes criminosas.

Podesse euser o lenço de Bruxellas

Em

que ella escondeas lagrimassingellas,

II

E

loura

como

as docesescocezas,

Duma

belleza ideal,quasi indecisa;

Circumda-se de luto e detristezas

E

excedeamelancólica Artemisa.

Fosse euos seus vestidos afogados

(49)

1

III

Altanoite,os planetas argentados

Deslisam

um

olharmacio e vago

Nosseus olhosde pranto marejados

E

nas aguas mansíssimasdo lago

Podesse euser a lua,a lua terna,

E

faria quea noite fosse eterna.

IV

E

os abutrese os corvos fazem giros

De

roda dasameias e dos pegos,

E

nas salas resoamuns suspiros

Dolentes

como

as supplicas doscegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem

E

cercara-lhe a fronte,

em

homenagem.

V

E

ella vaga naspraias rumorosas,

Triste

como

as rainhas desthronadas,

A

contemplaras gondolas airosas,

Que

passam, a gionioilluminadas.

Podesse eu sero rude gondoleiro

(50)

i6

VI

De

dia, entre osveludos e entre assedas,

Murmurando

palavras afflictivas,

Vagueia nasumbrosasalamedas

E

acarinha,de leve,as sensitivas.

Fosse euaquellas arvores frondosas

E

prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou

domina,a rezar, no pavimento

Da

capellaonde outhorase ouviumissa,

A

musica dulcíssimado vento

E

o susurro do mar,que s’espreguiça.

Podesse eu sero mar e os meus desejos

Eram

irborrifar-lhe os pés,

com

beijos.

VIII

E

ás horas do crepúsculo saudosas,

Nos parques

com

tapetes cultivados,

Quando

ellapassa curvam-seamorosas

As

estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu

também

granito e aminha vida

(51)

No

palacio isolado

como

um

monge,

Erram

asvelhas almas dosprecitos,

E

nas noitesde invernoouvem-seao longe

Os

lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter

também

uma

procella

E

as lentasagonias ao pé d’ella!

X

E

ás lages,nosilencio dosmosteiros,

Ella conta o seu drama negregado,

E

o vasto carmesim dos resposteiros

Ondula

como

um

mar

ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapeçarias

Nossas mortalhas quentese sombrias.

XI

E

assim passa, chorando,as noitesbellas, Sonhandounstristes sonhosdoloridos,

E

a reflectirnas gothicas janellas

As

estrellasdos ceus desconhecidos.

Podesse eu irsonhar

também

comtigo

E

ter as

mesmas

pedrasno jazigo!

(52)

Mergulha-se

em

angustias lacrimosas

Nos ermos d’um castello abandonado,

E

as próximasflorestastenebrosas

Repercutem

um

choro amargurado.

Uníssemos, nós dois,as nossas covas,

Ó

doce castellã dasminhastrovas !

(53)
(54)
(55)

CONTRARIEDADES

Eu

hoje estou cruel, frenetico, exigente;

Nem

posso toleraros livrosmais bizarros.

Incrível! Já fumei tres massos decigarros

Consecutivamente.

Doe-me

a cabeça.Abafo uns desesperos mudos: Tantadepravação nos usos,nos costumes!

Amo,

insensatamente, os ácidos, os

gumes

E

osângulos agudos.

Sentei-me á secretaria. Alli defrontemóra

Uma

infeliz, sem peito,os dois pulmõesdoentes

Soffre de faltas d’ar,morreram-lhe osparentes

E engomma

parafóra.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas

Táo

livida!

O

doutordeixou-a. Mortifica.

Lidando sempre!

E

deve a conta á botica

(56)

22

O

obstáculo estimula,torna-nos perversos;

Agora sinto-me eu cheio de raivasfrias,

Por causa d’umjornal

me

regeitar,ha dias,

Um

folhetim de versos.

Que

mau

humor! Rasguei

uma

epopeiamorta

No

fundo da gaveta.

O

queproduz o estudo?

Mais

duma

redacção,das que elogiamtudo,

Me

tem fechado a porta.

A

critica segundo o methodo deTaine

Ignoram-n'a.Juntei n’umafogueira immensa

Muitíssimos papeis inéditos.

A

imprensa Vale

um

desdem solemne.

Com

raras excepçõesmerece-me oepigramma.

Deu

meia-noite; e

em

pazpela calçada abaixo,

Um

sol-e-dó. Chovisca.

O

populacho

Diverte-se nalama.

Eu

nunca dediqueipoemas ásfortunas,

Mas

sim, pordeferencia a amigos oua artistas.

Independente! Só porisso osjornalistas

Me

negam

as columnas.

Receiam que o assignante ingênuo osabandone, Se forem publicartaes cousas,taes auctores.

Arteí

Não

lhes convem,visto que os seusleitores Deliram por Zaccone.

(57)

Um

prosador qualquerdesfructa famahonrosa,

Obtem

dinheiro, arranja asua «coterie»;

E

amim, náo ha questãoquemais

me

contrarie

Do

que escrever

em

prosa.

A

adulação repugna aossentimentosfinos;

Eu

raramente faloaos nossoslitteratos,

E

apuro-me

em

lançar originaese exactos,

Os

meus

alexandrinos..

E

a tisica?Fechada, e

com

o ferro acceso Ignora que aasphyxíaa combustão das brazas,

Não

fogedo estendalque lhehumedece as casas,

E

fina-se ao desprezo!

Mantem-se a chá e pão! Antes entrarnacova.

Esvae-se; e todavia, átarde, fracamente,

Oiço-a cantarolar

uma

canção plangente

D’uma

operetanova!

Perfeitamente.

Vou

findar

sem

azedume.

Quem

sabe se depois,eu rico en'outros climas,

Conseguirei releressas antigas rimas,

Impressas

em

volume?

Nas lettraseu conheço

um

campo

de manobras; Emprega-se a réclame,a intriga,oannuncio,ablague,

E

estapoesia pede

um

editorque pague

(58)

24

E

estoumelhor; passou-mea cólera.

E

a visinha

A

pobre engommadeirair-se-hadeitar

sem

ceia?

Vejo-lheluzno quarto.Indatrabalha.

E

feia.. .

(59)

A

DEBIL

Eu, que soufeio, solido,leal,

A

ti, que és bella,frágil,assustada,

Quero

estimar-te,sempre, recatada

N’uma

existência honesta,de crystal.

Sentadoámesa d’um café devasso,

Ao

avistar-te,ha pouco, fraca eloura,

N’esta Babel tãovelha e corruptora,

Tive tenções de offerecer-teo braço.

E, quandosoccorreste

um

miserável,

Eu,quebebiacálices d’absintho,

Mandeiira garrafa,porquesinto

Que

me

tornas prestante,bom,saudavel.

«Ella ahi

vem

!» disse eu para osdemais;

E

puz-me a olhar, véxado esuspirando,

O

teu corpo que pulsa,alegre e brando,

Na

frescura doslinhosmatinaes.

Via-te pelaporta envidraçada;

E

invejava,

talvez queo não suspeites

Essevestido simples,sem enfeites,

(60)

26

Ia passando, a quatro, o patriarcha.

Triste eusahi. Doía-me a cabeça;

Uma

turba ruidosa, negra, espessa,

Voltava das exequias

dum

monarcha.

Adorável!

Tu

muitonatural

Seguias a pensarno teu bordado; Avultava, ííumlargo arborisado,

Uma

estatua de rei n’um pedestal.

Sorriam nos seus trens ostitulares;

E

ao claro sol,guardava-te, noemtanto,

A

tua boamãe, que te

ama

tanto,

Que

não te morrerásem te casares!

Soberbo dia!

Impunha-me

respeito

A

limpidez doteusemblante grego;

E

uma

familia,

um

ninho de socego, Desejava beijarsobre o teupeito.

Com

elegancia e

sem

ostentação,

Atravessavas branca,esvelta e fina,

Uma

chusma de padres debatina,

E

d’altos funccionariosda nação.

«Mas se a atropellao povo turbulento!

Se fosse, poracaso, alli pisada!»

De

repente,paraste embaraçada

Ao

pé d’um numeroso ajuntamento.

(61)

Julgueivêr,

com

a vistade poeta,

Uma

pombinha timida e quieta

N’um

bandoameaçadorde corvos pretos.

E

foi,então, que eu

homem

varonil,

Quizdedicar-teaminha pobrevida,

A

ti, que éstenue,docil, recolhida,

(62)

28

N’UM

BAIRRO

MODERNO

oAManuelRibeiro

Dezhoras da

manha;

ostransparentes

Matizam

uma

casa apalaçada;

Pelosjardins estancam-se os nascentes,

E

fere a vista,

com

brancuras quentes,

A

larga rua macadamisada.

Rej-de-chaussée repousam socegados, Abriram-se, iValguns, aspersianas,

E

d’um ou d’outro,

em

quartos estucados,

Ou

entre a

rama

dospapeis pintados,

Reluzem,n’um almoço,as porcelanas.

Como

é saudavel ter o seuconchego,

E

a sua vida facil!

Eu

descia,

Sem

muitapressa, para o

meu

emprego,

Aonde

agora quasisempre chego

Com

as tonturas

duma

apoplexia.

E

rota,pequenina, azafamada, Notei decostas

uma

rapariga,

Que

noxadrez

marmoreo

duma

escada,

Como

um

retalho de horta agglomerada,

(63)

29

E

eu,apezar do sol,examinei-a: Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;

E

abre-se-lhe o algodão azulda meia,

Seella se curva, esguedelhada,feia,

E

pendurandoos seus bracinhos brancos.

Do

patamar responde-lhe

um

criado

«Se teconvém, despacha;não converses.

Eu

não doumais.»

E

muito descançado,

Atira

um

cobrelivido, oxidado,

Que

vem

baternasfaces d’uns alperces.

Subitamente,

que visão de artista!

Se eu transformasse os simples vegetaes,

A

luz do sol,o intenso colorista,

Num

ser

humano

que se

mova

e exista

Cheio debellasproporções carnaes?!

Boiam

aromas,fumos de cozinha;

Com

o cabaz ás costas, e vergando,

Sobem

padeiros, claros defarinha;

E

ás portas,

uma

ou outracampainha

Toca, frenetica,de vez

em

quando.

E

eu recompunha, por anatomia,

Um

novo corpo orgânico, aosbocados.

Achavaos tons e asfôrmas. Descobria

Uma

cabeça

numa

melancia,

E

n’unsrepolhos seiosinjectados.

(64)

3o

As azeitonas, quenos dáo o azeite,

Negras e unidas, entreverdes folhos,

São trançasd’um cabello que se ageite;

E

osnabos

ossos nus, da côrdoleite,

E

oscachos d’uvas

os rosários d’olhos.

Ha

collos,hombros,boccas,

um

semblante

Nas posiçõesde certos fructos.

E

entre

As

hortaliças,túmido, fragrante,

Como

d’alguem que tudo aquillo jante, Surge

um

melão,que

me

lembrou

um

ventre.

E,

como

um

feto, emfim, que se dilate, Vi nos legumes carnes tentadoras,

Sangue na ginja vivida, escarlate, Bons corações pulsandono tomate

E

dedos hirtos,rubros, nas cenouras.

O

sol dourava o céo.

E

a regateira,

Como

vendera a sua fresca alface

E

déra o

ramo

dehortelã quecheira,

Voltando-se,gritou-me prazenteira:

«Nãopassa mais ninguém!..

.

Se

me

ajudasse

Eu

acerquei-me d’ella,semdesprezo;

E, pelas duas azas a quebrar,

Nós levantámos todo aquelle peso

Que

aochão de pedra resistiapreso,

(65)

Que

brotam d'um excesso de virtude

Ou

d’umadigestão desconhecida.

E em

quanto sigo parao lado opposto,

E

ao longe

rodam

umas

carruagens,

A

pobreafasta-se, ao calorde agosto,

Descolorida nas maçãs do rosto,

E

sem quadrisna saia de ramagens.

Um

pequerrucho rega a trepadeira

Duma

janella azul; e,

com

o ralo

Do

regador,parece quejoeira

Ou

queborrifaestrellas; e a poeira

Que

eleva nuvens alvas aincensal-o.

Chegam

do gigo emanaçõessadias,

Oiço

um

canario

que infantilchilrada

Lidam

ménagesentre as gelosias,

E

o solestende, pelasfrontarias,

Seusraios de laranjadistillada.

E

pittoresca e audaz, na sua chita,

O

peito erguido, os pulsos nasilhargas,

D’uma

desgraça alegre que

me

incita,

Ella apregoa, magra, enfezadita,

(66)

32

E

como

as grossas pernas

dum

gigante,

Sem

tronco,mas athleticas, inteiras,

Carregam sobrea pobre caminhante, Sobreaverdura rústica,abundante,

(67)

33

CRYSTALISAÇÕES

a4BittencourtRodrigues

Faz frio. Mas, depoisd’uns diasde aguaceiros.

Vibra

uma

immensa

claridade crua.

De

cocaras,

em

linha os calceteiros,

Com

lentidão,terrosos e grosseiros,

Calcam de ladoa lado a longa rua.

Como

as elevações seccaram do relento,

E

odescoberto sol abafa e cria

A

frialdade exige o movimento;

E

aspoças d’agua,

como

em

chão vidrento,

Reflectem a molhada casaria.

Em

pé e perna, dando aos rins que a marchaagita, Disseminadas, gritam aspeixeiras;

Luzem,

aquecem

na

manhã

bonita,

Uns barracões de gente pobresita.

E

uns quintalorios velhos

com

parreiras.

Não

se

ouvem

aves;

nem

o choro d’umanora!

Tomam

por outra parte os viandantes;

E

oferro e a pedra

que união sonora!

Retinem altopelo espaço fóra,

(68)

34

Bom

tempo.

E

os rapagões, morosos, duros, baços,

Cuja columna nunca se endireita, Partempenedos; cruzam-se estilhaços.

Pesam

enormemente osgrossos maços,

Com

queoutrosbatem a calçada feita.

A

sua barba agreste!

A

lã dos seus barretes!

Que

espessos forros!

Numa

das regueiras

Acamam-se

asjaponas, os colletes:

E

elles descalçam

com

os picaretes,

Que

ferem lume sobre pederneiras.

E

n'esse rude mez,que não consenteas flores,

Fundeam,

como

a esquadra

em

fria paz,

As

arvoresdespidas. Sóbrias côres!

Mastros,enxarcias,vergas! Valladores

Atiram terra

com

as largaspás.

Eu

julgo-me noNorte, aofrio

o grande agente!

Carros de mão, que chiam carregados,

Conduzem

saibro, vagarosamente; Vê-se a cidade, mercantil,contente:

Madeiras, aguas, multidões, telhados!

Negrejam os quintaes, enxugaa alvenaria;

Em

arco,sem as nuvens fluctuantes,

O

ceu renova a tinta corredia;

E

os charcos brilhamtanto, que eu diria

(69)

Eu

tudo encontro alegremente exacto.

Lavo,refresco,limpo osmeussentidos.

E

tangem-me, excitados, sacudidos,

O

tacto, a vista,o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpointeiro esforços na friagem

De

tão lavadae egual temperatura!

Os

ares, o caminho, aluz reagem; Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;

Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro,

um

pára emquanto eu passo

Doisassobiam, altas asmarretas

Possantes, grossas,temperadas d’aço;

E

um

gordo, o mestre,

com

um

arralaço

E

manso,tira o nivel das valletas.

Homens

de carga! Assim asbestas vão curvadas!

Que

vida tão custosa!

Que

diabo!

E

os cavadores

pousam

as enxadas,

E

cospem nascallosas

mãos

gretadas,

Para que nãolhes escorregue ocabo.

Povo

!

No

panno crurasgado das camizas

Uma

bandeira pensoque transluz!

Com

ella soffres,bebes, agonisas:

Listrões de vinho lançam-lhe divisas,

(70)

36

D’escuro,bruscamente, ao cimo da barroca,

Surge

um

perfil direito que se aguça;

E

ar matinalde

quem

sahiu datoca,

Uma

figura fina, desemboca,

Toda

abafadan'um casaco árussa.

D’onde ella

vem

!

A

actriz quetanto comprimento

E

aquem, á noite naplateia, attraio

Os

olhoslizos

como

polimento!

Com

seu rostinho estreito,friorento,

Caminha agora para o seu ensaio.

E

aos outros eu admiro os dorsos, os costados

Como

lajões.

Os

bons trabalhadores!

Os

filhos das lezírias,dos montados:

Os

dasplanícies, altos,aprumados;

Os

dasmontanhas,baixos,trepadores!

Mas

finadefeições,o queixo hostil, distincto, Furtiva atiritar

em

suas pelles,

Espanta-me a actrizitaque hoje pinto,

N’este dezembro energico, succinto,

E

n’estes sitios suburbanos, reles!

Como

animaes

communs,

que

uma

picada esquente.

Elles, bovinos,másculos, ossudos,

Encaram-n’asanguínea,brutamente:

E

ella vacilla,hesita, impaciente

(71)

Sem

queinda o publico a passagem abra,

O

demonico arrisca-se, atravessa

Covas, entulhos,lamaçaes, depressa,

(72)

38

NOITES GÉLIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa,angelical,macia,

Porvezes, a allemã que eu sigo e que

me

agrada,

Maisalva que o luarde inverno que

me

esfria, Nas ruas a queo gaz dá noitesdebailada;

Sob

os abafos bons que o Norte escolheria,

Com

seu passinho curto e

em

suaslás forrada, Recorda-me a elegancia,a graça,a galhardia

(73)

SARDENTA

Tu, nesse corpo completo,

O

lacteavirgem doirada,

Tens o lymphatico aspecto

(74)

40

FLORES

VELHAS

Fui hontemvisitar o jardimzinho agreste,

Aonde

tanta vez a luz nos beijou,

E

em

tudo vi sorrir o

amor

que tu

me

deste, Soberba

como

um

sol, serena

como

um

vôo.

Em

tudo scintillava o limpido

poema

Com

osculos rimado ás luzes dosplanetas;

A

abelha inda zumbia

em

torno da alfazema;

E

ondulava o matiz das leves borboletas.

Em

tudo eu pude ver ainda a tuaimagem,

A

imagem

queinspirava os castos madrigaes;

E

as virações, o rio,os astros, a paizagem,

Traziam-me á

memória

idylliosimmortaes.

Diziam-me que tu,no floridopassado,

Detinhas sobre mim, ao pé d’aquellas rosas, Aquelle teu olharmoroso e delicado,

Que

fala de languor e d’emoções mimosas;

E, ó pallida Clarisse, ó almaardente epura,

Que

não

me

desgostou

nem uma

vez sequer,

Eu

não sabiahaurir do calix da ventura

(75)

4i

Falou-me tudo, tudo,

em

tons commovedores,

Do

nosso amor,queuniu asalmasde dois entes;

As

falas quasiirmãsdo vento

com

as flores

E

a molle exhalação das varzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas

No

ninho de affeições creado para ti,

Por entreo risoclaro, e as vozes das creanças,

E

as nuvens que esbocei, e ossonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito,ó symbolodassantas,

Do

tempo

em

que eu soltava asnotas inspiradas,

E

sob aquelleceo e sobreaquellas plantas

Bebemos

o elixir das tardes perfumadas.

E

nosso

bom

romance escripto n’um desterro,

Com

beijos

sem

ruido

em

noites sem luar,

Fizeram-m’o reler,mais tristesque

um

enterro,

Os

goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas

tuagora nunca, ah! nunca mais tesentas

Nos

bancos detijolo

em

musgo

atapetados,

E

eu não te beijarei, ás horas somnolentas,

Os dedos de marfim,polidos e delgados..

Eu, pornão tersabido amaros movimentos

Da

estrophe mais ideal das harmoniasmudas,

Eu

sinto as decepções eos grandes desalentos

(76)

42

E

tudo emfim passou,passou

como

uma

penna,

Que

o marlevano dorso exposto aosvendavaes,

E

aquelladoce vida,aquella vida amena,

Ah!

nunca maisvirá,

meu

lyrio, nunca mais!

O

minha boa amiga, óminha meigaamante!

Quando

hontem eu pisei,

bem magro

e

bem

curvado,

A

areia

em

que rangia a saiaroçagante,

Que

foina minhavida oceo aurirosado,

Eu

tinha tão impresso ocunho da saudade,

Que

as ondas queformei das suas illusões Fizeram-me enganar na minha soledade

E

as azas irabrindo ás minhasimpressões.

Soltei

com

devoçãolembranças indaescravas,

No

espaço construi phantasticoscastellos,

No

tanque debrucei-me

em

que tedebruçavas,

E

onde o luarparava os raios amarellos.

Cuideiaté sentir,mais doce que

uma

prece,

Suster aminha fé, n’um veo consolador,

O

teu divino olharque as pedrasamollece,

E

ha muito

me

prendeu nos cárceres do amor.

Osteus pequenos pés,aquellespés suaves,

Julguei-os esconderpor entre as minhas mãos,

E

imaginei ouvirao conversar das aves

(77)

E

o teu perfumeforte, o teu perfume doce.

Agonisava o sol gostosa elentamente,

Um

sino quetangia, austero e

com

vagar,

Vestia detristeza esta paixãovehemente,

Esta doença, emfim,que a morte ha de curar.

E

quando m’ envolveu a noite,noitefria,

Eu

trouxe do jardim duas saudadesroxas,

E

vim a meditar

em

quem

me

cerraria,

Depois de eu

me

morrer, as palpebrasjá frouxas.

Pois que,minha adorada, eu peçoque não creias

Que

eu

amo

esta existência e nãolhequeira

um

fim

Ha

tempos que não sinto o sangue pelas veias

E

a

campa

talvezseja affavel paramim.

Portanto,eu, que não cedo ásattracções do goso,

Sem

custo hei dedeixar asmagoas d’este mundo,

E, ó pallida mulher, delongo olhar piedoso,

Em

breve te olharei calado e moribundo.

Mas

querosó fugirdas coisas edos seres, Só quero abandonaravida triste e

Na

vesperado dia

em

que

também

morreres,

(78)

44

E

não virás,chorosa, aos rústicos tapetes,

Com

lagrimas regar as plantaçõesruins;

E

esperarão porti, naquelles alegretes,

(79)

42

NOITE

FECHADA

(U

Lembras-te tu dosabbado passado,

Do

passeio que dêmos, devagar,

Entre

um

saudoso gaz amarellado

E

as caricias leitosas doluar?

Bem me

lembrodas altasruasinhas,

Que

ambos nós percorremos de

mãos

dadas:

As

janellas palravam as visinhas;

Tinham

lividasluzesas fachadas.

Não

me

esqueço das cousasque disseste, Ante

um

pesadotemplo

com

recortes;

E

os cemitériosricos, e ocypreste

Que

vive de gorduras e demortes

Nós saíramos proximoao sol-posto,

Mas

seguíamos cheiosde demoras;

Não

me

esqueceuainda o

meu

desgosto

Nem

o sino rachado que deu horas.

Tenho

ainda gravadono sentido,

Porque tu caminhavas

com

prazer,

Cararapada, gordo e presumido,

O

padre que paroupara te ver.

(80)

Como

uma

mitra a cúpula da egreja

Cobriaparte do ventoso largo;

E

essaboccaviçosa de cereja, Torcia risos

com

saboramargo.

A

lua dava tremulas brancuras,

Eu

iacada vez mais magoado;

Vi

um

jardim

com

arvores escuras,

Como

uma

jaulatodo gradeado!

E

parate seguir entreicomtigo

N’um

pateo velho que erad'um canteiro,

E

onde,talvez,sefaça inda ojazigo

Em

que euirei apodrecer primeiro!

Eu

sinto ainda a flôr da tua pelle,

Tua

luva,teu veu, o que tués!

Não

sei quetentação éque te impelle

Os

pequeninose cançadospés.

Sei que

em

tudo attentavas,tudo vias

!

Eu

por

mim

tinha pena dos marçanos,

Como

ratos,nas gordas mercearias,

Encafurnadospor immensos annos!

Tu

sorriras de tudo: Os carvoeiros,

Que

apparecemaofundo d’umas minas,

E

á crualuz os pallidosbarbeiros

(81)

47

Fins desemana!

Que

miséria

em

bando

O

povo folga, estúpido e grisalho!

E

os artistas d’officioiam passando,

Com

asferias,ralados do trabalho.

O

quadro interior,d’um que ácandêa, Ensina a filha a ler, metteu-medó! Gosto mais do plebeu quecambalea,

Do

bêbadofeliz quefalia só

De

súbito,na voltade

uma

esquina,

Sob

um

bico de gazque abria

em

leque,

Vimos

um

militar, debarretina

E

galões marciaes de pechisbeque,

E

em

quanto elle fallava ao seunamoro,

Que

morava n’um prédio de azulejo,

Nos nossoslábiosretinio sonoro

Um

vigoroso e formidávelbeijo!

E

assim ao

meu

caprichoabandonada,

Errámos portravessas,por viellas,

E

passámos por pé

duma

tapada

E

um

palacio real

com

sentinellas.

E

eu que busco a moderna e fina arte, Sobre a umbrosa calçada sepulchral,

Tivea rude intenção de violentar-te

(82)

48

Mas

ao rumordos ramos e d’aragem,

Como

longiquos bosques muito ermos,

Tu

queriasno meio dafolhagem

Um

ninhoenorme para nós vivermos.

E

ao passo que eu te ouvia abstractamente,

Ó

grande

pomba

tépida que arrulha,

Vinham

batendo o

macadam

fremente,

As

patadassonoras da patrulha,

E

atraveza immortal cidadesinha,

Nós fomos ter ásportas, ásbarreiras,

Em

que

uma

negra multidão se apinha

De

tecelões,de fumos, decaldeiras.

Mas

anoite dormente eesbranquiçada

Era

uma

esteiralúcida d’amor;

O

jovialsenhora perfumada,

O

terrívelcreança!

Que

esplendor!

E

alicomeçaria o

meu

desterro!..

.

Eodoso o rio, e glacial,corria ;

Sentámos-nos,os dois,

num

novo aterro

Na

muralha dos caes de cantaria.

Nunca

mais amarei,já que não amas,

E

é preciso, decerto, que

me

deixes!

Toda

amaré luzida

como

escamas,

(83)

A

perder-me de ti por

quem

existo,

Eu

fuipassar ao

campo

aquella noite

E

andei léguas apé, pensando nisto.

E

tu que nãoserás sómente minha,

Ás

carícias leitosas do luar,

Recolheste-te, pallida e sósinha

(84)

5o

MANHANS

BRUMOSAS

Aquella, cujo

amor

me

causa alguma pena,

Põe o chapeo aolado, abre o cabello á banda,

E com

a forte voz cantada

com

que ordena,

Lembra-me, de manhan, quandonas praias anda,

Por entre o

campo

e o mar,bucólica,morena,

Uma

pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que

linguas fala?

A

ouvir-lhe asinflexões inglezas,

Na

nevoa azul, a caça, aspescas, os rebanhos!

Sigo-lhe osaltos pés por estas asperezas;

E

o

meu

desejo nada

em

epoca de banhos,

E, avede arribação,elle enche de surprezas

Seus olhos deperdiz, redondose castanhos.

As

irlandezas teem soberbos desmazelos!

Ella descobre assim,

com

lentidões ufanas,

Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;

E

como

aquellas são marítimas, serranas,

Suggere-me o naufragio, asmusicas, os gelos

(85)

Traz

um

vestido claroa comprimir-lhe osflancos, Botões a tiracollo e applicaçõesvermelhas;

E

á roda,

num

paiz de prados e barrancos,

Se as minhas maguasvão, mansíssimas ovelhas,

Correm os seus desdens,

como

vitellosbrancos.

E

aquella, cujo

amor

me

causaalguma pena,

Põeo chapeo aolado,abre o cabello ábanda,

E

com

a forte voz cantada

com

que ordena,

Lembra-me, demanhan, quandonas praias anda,

Por entre o

campo

e o mar,catholica,morena,

(86)

52

FRIGIDA

I

Balzac é

meu

rival,minha senhora ingleza

!

Eu

quero-aporque odeio ascarnações redondas!

Mas

elle eternisou-lhe a singular belleza

E

eu turbo-me aodeter seus olhos côr das ondas.

II

Admiro-a.

A

sualonga e placidaestatura

Expõe

a magestade austera dosinvernos.

Não

córano seutodo a timidacandura;

Dansam

a paz dos ceos eo assombro dosinfernos.

III

Eu

vejo-a caminhar,íleugmatica, irritante,

N’uma

das

mãos

franzindo

um

lenço de cambraia!...

Ninguém

me

prende assim,fúnebre, extravagante,

Quando

arregaça e ondula apreguiçosasaia! IV

Ouso

esperar,talvez, que o seu

amor

me

acoite,

Mas

nunca a fitarei d’umamaneirafranca;

Traz o esplendordo Dia e a pallidez daNoite, E,

como

o Sol,dourada, e,

como

aLua, branca!

(87)

53

V

Podesse-me euprostrar,

num

meditado impulso,

O

gélida mulherbizarramente estranha,

E

tremulo deporoslábios no seu pulso,

Entre a macialuva e o

punho

de bretanha!..

VI

Scintilla noseu rosto a lucidez das joias.

Ao

encararcomsigo aphantasiapasma;

Pausadamente lembra o silvodas giboias

E

amarcha demoradae

muda

d’umphantasma.

VII

Túetallica visão que Charles Baudelaire

Sonhou epresentiu nosseus delírios mornos, Permitta que eu lhe adule a distincção quefere,

As

curvas da magreza e o lustre dos adornos!

VIII

Deslise

como

um

astro,

um

astro que declina;

Tão

descançada e firme é que

me

desvaria,

E

tem a lentidão

duma

corveta fina

Que

nobremente vá

num

mar

de calmaria.

IX

Não

me

imagine

um

doido.

Eu

vivo

como

um

monge,

No

bosque das ficções,ó grande flor do Norte!

E, aoperseguil-a, pensoacompanharde longe

(88)

54

X

O

seuvagar occulta

uma

elasticidade

Que

deve dar

um

gostoamargo e deleitoso,

E

a suaglacial impassibilidade

Exalta o

meu

desejo e irrita o

meu

nervoso.

XI

Porem, não arderei aos seuscontactosfrios,

E

não

me

enroscará nos serpentinosbraços: Receio supportar febrões e calefrios;

Adoro

no seucorpo os movimentoslassos.

XII

E

se

uma

vez

me

abrisse o collotransparente,

E me

osculasse, emfim,flexivel e submissa,

Eu

julgariaouvir alguém, agudamente,

(89)

DE

VERÃO

oAEduardoCoelho

I

No

campo; eu acho n’elleamusa que

me

anima:

A

claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã,saí

com

minhaprima,

Em

quem

eu noto amaissincera estima

E

amais completa e séria educação.

II

Creança encantadora!

Eu

mal esboço o quadro

Da

lyrica excursão,dãntimidade.

Não

pinto a velha ermida

com

seu adro;

Sei só desenho de compasso e esquadro, Respiro industria,paz, salubridade.

III

Andam

cantando aos bois;

vamos

cortando asleiras;

E

tu dizias: «Fumas?

E

as fagulhas?

Apaga

o teu cachimbo juntoás eiras; Colhe-meuns brincosrubros nas ginjeiras! Quando

me

alegra acalmadasdebulhas!»

(90)

56

IV

E

perguntavas sobreos últimosinventos

Agrícolas.

Que

aldeias tãolavadas!

Bons ares! Boa luz! Bonsalimentos!

Olha: Os saloios vivos, corpulentos,

Como

nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos.

Na

ribeira

abundam

as ramagens

Dosolivaes escuros.

Onde

irás?

Regressam osrebanhos das pastagens;

Ondeiam

milhos,nuvens e miragens, E,silencioso,eu fico paratraz.

VI

N’uma

collina azul brilha

um

logar caiado.

Bello!

E

arrimada ao cabo da sombrinha,

Com

teu chapéo depalha, desabado,

Tu

continuas na azinhaga; ao lado

Verdeja,vicejante, a nossa vinha.

VII

N’isto,parando,

como

alguém que se analysa,

Sem

desprender do chão teus olhoscastos,

Tu

começaste,harmônica,indecisa,

A

arregaçar a chita,alegree lisa

(91)

Espreitam-te, por cima,as frestas dos celleiros

O

sol abrasa asterras jáceifadas,

E

alvejam-te,na sombra dospinheiros,

Sobre os teus pésdecentes, verdadeiros,

As

saiascurtas, frescas, engommadas.

IX

E,

como

quem

saltasse, extravagantemente,

Um

rego d’aguasemse enxovalhar,

Tu,a austera,a gentil, a intelligente,

Depois de

bem

composta,deste á frente

Uma

pernada cômica,vulgar!

X

Exótica!

E

cheguei-me ao pé de ti.

Que

vejo!

No

atalho enxuto, e branco das espigas

Caidas das carradasno salmejo,

Esguio e a negrejar

em

um

cortejo,

Destaca-se

um

carreiro deformigas.

XI

Elias,

em

sociedade, espertas, diligentes,

Na

natureza trémula de sede,

Arrastambichos, uvase sementes;

E

atulham,porinstincto, previdentes,

(92)

5S

XII

E

eu desatei a rir

como

qualquer macaco!

«Tu

não asesmagares contra o solo!»

E

ria-me, eu ocioso,inútil,fraco,

Eu

dejasmim na casado casaco

E

d’oculo deitado a tiracolo!

XIII

«Asladras da colheita!

Eu

se trouxesse agora

Um

sublimado corrosivo, uns pós

De

solimão, eu,sem maior demora,

Envenenal-as-hia! Tu, por ora,

Preferes o romântico ao feroz.

XIV

Que

compaixão! Julgava até que matarias

Essesinsectos importunos! Basta. Merecem-te espantosas sympathias?

Eu

felicito suas senhorias,

Que

honraste

com

um

pulo de gymnasta!»

XV

E

emfim calei-me.

Os

teus cabellos muitoloiros

Luziam,

com

doçura,honestamente;

De

longeo trigo

em

monte,e os calcadoiros,

Lembravam-me

fusões

dbmmensos

oiros,

(93)

Vibravam, na campina,as chocasda manada;

Vinham

uns carros agemer no outeiro,

E

finalmente, energica, zangada,

Tu

indaassim bastante envergonhada, Volveste-me,apontando o formigueiro:

XVII

«Não

me

incommode, não,

com

ditos detestáveis!

Não

sejasimplesmente

um

zombador! Estas mineiras negras, incançaveis,

Sáo mais economistas,mais notáveis,

(94)

6o

O SENTIMENTO

D’UM

OCCIDENTAL

aiGuerra Junqueiro

I

AVE MARIAS

Nas nossas ruas,ao anoitecer,

Ha

tal soturnidade,ha talmelancholia,

Que

assombras, o bulicio, o Tejo, a maresia

Despertam-me

um

desejo absurdode soffrer.

O

ceu parece baixo e deneblina,

0

gaz extravasado enjôa-me, perturba;

E

os edifícios,

com

aschaminés, e aturba

Toldam-se

duma

côr

monotona

elondrina.

Batem

os carros d’aluguer,ao fundo,

Levando ávia ferreaos que se vão. Felizes

!

Occorrem-me

em

revista exposições, paizes:

Madrid, Paris,Berlim, S. Petersburgo,o

mundo

Semelham-sea gaiolas,

com

viveiros,

As

edificações sómente emmadeiradas

:

Como

morcegos, ao cair das badaladas,

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