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IMPACTOS DA REFORMA TRABALHISTA NO MERCADO DE TRABALHO DE SANTA CATARINA

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XVI ENCONTRO NACIONAL DA ABET 3 a 6 de setembro de 2019, UFBA, Salvador (BA)

GT04 - Reconfigurações do trabalho

IMPACTOS DA REFORMA TRABALHISTA NO MERCADO DE TRABALHO DE

SANTA CATARINA

Lauro Mattei (UFSC) Vicente Loeblein Heinen (UFSC)

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IMPACTOS DA REFORMA TRABALHISTA NO MERCADO DE TRABALHO DE SANTA CATARINA

Resumo:

O objetivo principal do artigo é analisar os impactos da reforma trabalhista efetuada no Brasil em 2017 sobre o mercado de trabalho de Santa Catarina. O ponto de partida analítico remonta ao processo de mudanças recentes no mundo do trabalho no âmbito global, bem como ao processo de crise econômica que se estabeleceu no país a partir de 2014. Tal crise encetou a argumentação de setores hegemônicos do capital, juntamente com o governo de plantão à época, de que a solução para o problema do desemprego no Brasil adviria de uma ampla reforma na legislação trabalhista. Tomando como base as informações da PNAD Contínua, serão analisados os possíveis impactos das mudanças na legislação trabalhista sobre os níveis de emprego e de desemprego no estado catarinense.

Palavras-chave: Santa Catarina, Mercado de Trabalho; Reforma Trabalhista.

INTRODUÇÃO

Para analisar adequadamente o comportamento do mercado de trabalho em períodos de crise econômica torna-se necessário, incialmente, situar os parâmetros macroeconômicos dessa crise e seus distintos efeitos. Para tanto, é importante resgatar alguns traços gerais da economia brasileira na presente década como forma de se estabelecer conexões entre os aspectos gerais da crise e seus efeitos particulares. Neste caso, a atenção recairá sobre a evolução e a dinâmica do mercado de trabalho em uma unidade da federação, à luz do comportamento desse mercado no âmbito nacional.

Como é amplamente conhecido, a economia brasileira teve um expressivo surto de crescimento entre 2003 e 2014, com taxa média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,4% ao ano nesse período. Todavia, quando se analisa o período 2011-2014 separadamente (Governo Dilma I), é possível observar que já em 2014 a economia brasileira estava esboçando sinais de crise, a qual se instalaria fortemente nos anos subsequentes. De um lado, a inflação já estava entrando uma fase aceleracionista, ao passar de 5,84% em 2012, para 6,41% em 2014. Por outro lado, a atividade econômica esboçava uma retração, com o PIB apresentando crescimento de apenas 0,5% em 2014. Como o governo continuou ampliando o gasto público, o superávit fiscal caiu de 2,4% do PIB em 2012, para -0,6% em 2014, elevando o déficit em conta corrente como proporção do PIB para 3,2% em 2014.

É neste cenário que Dilma foi reeleita presidente em outubro de 2014 para mais um mandato de 4 anos (2015-2018), o qual foi abreviado pelo Impeachment que ocorreu em 2016 e que alçou seu vice, Michel Temer, à condição de Presidente da República. Na esfera econômica, um dos principais aspectos que culminaram com a deterioração do capital político do Governo Dilma II foi a não aprovação da proposta de ajuste fiscal por parte do Congresso Nacional ao longo de todo ano de 2015. Com isso, o déficit público aumentou, ao mesmo tempo em que o governo emitiu sinais de descontrole do processo inflacionário (inflação atingiu 10,67% em 2015).

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Nesse contexto, a saída encontrada pelo governo foi a troca da equipe econômica ao final de 2015, porém sem esboçar qualquer capacidade de alteração do ambiente econômico que, naquele momento, já estava bastante pessimista. Para controlar a inflação, utilizou-se o mecanismo de elevação contínua da taxa de juros entre os anos de 2015 e 2016, o que afetou o desempenho das empresas. A consequência foi uma forte retração da taxa de investimentos na economia, com aumento da capacidade produtiva ociosa, especialmente no setor industrial. O resultado final se traduziu em uma violenta recessão econômica entre 2015 e 2017, com variação do PIB na ordem dos -3,5% nos dois primeiros anos do período.

Os impactos desse cenário econômico foram expressivos sobre o mercado de trabalho, de modo que os dados da PNAD Contínua revelaram uma forte expansão da taxa de desocupação a partir de 2015, a qual era de apenas 6,5% ao final de 2014, e chegou até 13,7% no primeiro semestre de 2017 (IBGE, 2018). Em termos absolutos, isso significou que aproximadamente 13 milhões de pessoas se encontravam desempregadas ao longo desse ano, acompanhando um crescimento de 80% na taxa de desocupação entre o final de 2014 e o de 2017, período em que a taxa de subutilização da força de trabalho, aliás, cresceu 60%. Registre-se que foi nesse contexto de desemprego elevado, em 2017, que se aprovou a reforma trabalhista.

À luz do contexto nacional, o objetivo deste estudo é analisar os impactos da reforma trabalhista sobre a dinâmica do mercado de trabalho no estado de Santa Catarina, com ênfase no período posterior à aplicação da nova legislação. Para tanto, o artigo está estruturado em mais cinco seções, para além desta breve introdução. A primeira seção analisa brevemente as mudanças contemporâneas do mundo do trabalho visando compreender seus alcances sobre as condições de trabalho no Brasil. A segunda seção sintetiza as principais alterações promovidas pela reforma trabalhista. Buscando contextualizar essas mudanças no cenário estadual, a terceira seção apresenta um panorama recente do mercado de trabalho em Santa Catarina, considerando o período entre 2014 e 2018. Já a quarta seção analisa os impactos da reforma trabalhista sobre o mercado formal de trabalho do estado, articulando particularmente as modalidades do trabalho intermitente e do trabalho parcial. Finalmente, a quinta seção apresenta as considerações finais do estudo, destacando as principais tendências observadas.

1. BREVES NOTAS SOBRE O MUNDO DO TRABALHO NO SÉCULO XXI

No âmbito mundial, a origem das tendências atuais da organização do trabalho data do final da década de 1960, período que marcou o início da transição para uma nova lógica de acumulação do capital, à qual David Harvey (2012) denominou regime de acumulação

flexível. Este regime emergiu da crise das economias de escala e caracterizou-se pelo

confronto direto com a rigidez do fordismo – expressa em elementos como os contratos e as jornadas de trabalho, assim como na própria estrutura e na ação do Estado –, atuando com

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a finalidade de reduzir os custos com mão-de-obra e promover a redução do tempo de giro

do capital para resolver o problema da capacidade produtiva ociosa das economias centrais.

Para resolver a crise do lado da produção, teve início um amplo processo de

reestruturação produtiva, que utilizou de inovações como as dos sistemas informacionais,

comunicacionais e organizacionais para fomentar a substituição do trabalho vivo pelo morto, resultando na tendência global de flexibilização do mercado de trabalho, de ampliação do desemprego e de compressão dos salários1.

Para completar esse processo pelo lado da circulação, a solução passava da crise por deslocar os países latino-americanos de competidores industriais, para mercados consumidores, efeito que seria alcançado, entre outros expedientes, mediante a subordinação das economias periféricas no contexto da "financeirização" da economia global, a partir do qual a acumulação se dá principalmente sob os imperativos da valorização do capital pela via financeira (BRAGA, 2013). Tomando parte do processo de redução da concorrência internacional e da ampliação de mercados, por essa via, as economias centrais – Estados Unidos à frente – reduzem a liquidez internacional na década de 1980, levando à deterioração das contas internas de países – como foi o caso do Brasil – que passam a acumular déficits e que, para financiá-los, exige-se cada vez mais a obtenção de elevados saldos comerciais.

Nessa lógica, a economia nacional adentra em um período de desregulamentação, abertura e internacionalização das finanças, que fazem com que o país fique cada vez mais às margens da concepção de produtos, passando a especializar-se na produção de mercadorias de menor valor agregado. A consequência imediata foi o deslocamento de grande volume de empregos do setor industrial para o de serviços2.

Na esfera política, a reestruturação produtiva foi completada pela difusão do neoliberalismo, que no Brasil significou uma reconfiguração das políticas econômicas a partir da década de 1990. Com isso, ampliaram-se largamente a lógica da privatização de empresas públicas, da liberalização comercial, da valorização de capitais pela via financeira e da consequente “racionalização produtiva” diante do novo padrão de concorrência internacional:

1 Observa-se nesse contexto a ascensão do “desemprego ‘estrutural’ (em oposição a ‘friccional’), rápida destruição e reconstrução de habilidades, ganhos modestos (quando há) de salários reais e o retrocesso do poder sindical, [em consonância com o] crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado” (HARVEY, 2012, p. 141-43).

2 Conforme Ruy Braga, “a tardia integração da estrutura social brasileira à mundialização do capital e ao neoliberalismo serviu para consolidar a dominância daqueles capitais internacionais liberados pela secular tendência à queda da taxa de lucros sobre setores não produtivos da economia nacional, tais como, o setor bancário e as telecomunicações. Ao longo da década de 1990, a visível expansão do setor de serviços que acompanhou o ciclo neoliberal das privatizações desenvolveu-se conforme a lógica da mecanização, da padronização, da especialização e da fragmentação, ou seja, da industrialização da relação de serviço imposta pelo desejo empresarial de assegurar ganhos de escala, promover a extensão da jornada de trabalho por meio do recurso às terceirizações e intensificar o ritmo do trabalho no setor” (2013, p. 145).

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Combinando a flexibilidade produtiva garantida pela informatização com novas configurações entre o centro e a periferia da força de trabalho, as empresas brasileiras entraram, tardia porém decididamente, na era do reporting (prestação de contas aos acionistas), do track recording (histórico de desempenho) e do

downsizing (enxugamento). A estrutura econômica brasileira, não sem conflitos, é

verdade, foi finalmente integrada à mundialização do capital e ao neoliberalismo, transformando -se em uma autêntica plataforma de valorização financeira

internacional (BRAGA, 2013, p. 145).

Uma vez consolidadas essas mudanças estruturais de ampla expansão da

precarização do mercado de trabalho, a economia mundial experimentou um novo ciclo

expansivo. A partir de 2003, a alta no ciclo de liquidez internacional permitiu baixas taxas de juros no mercado de crédito mundial, dando margem para reduções nos juros domésticos. Tendo em vista ainda a reversão da deterioração dos termos de troca no Brasil (provocada sobretudo pelo crescimento da demanda chinesa), essa conjuntura permitiu que o governo ampliasse o gasto público, investindo em infraestrutura e implementando políticas tributárias e de crédito que reforçaram “o ritmo de atividade da economia, contribuindo para a geração de empregos formais e não formais” (BALTAR, 2014, p. 101).

No que tange ao mercado de trabalho, esse foi um período de alterações expressivas. Por um lado, observou-se uma consistente formalização do emprego do país3, com

valorização do salário mínimo e elevação do poder de compra dos trabalhadores. Por outro lado, não houve rompimento efetivo com o padrão exportador de especialização produtiva que se estabeleceu no país desde o processo de reestruturação produtiva (OSORIO, 2012), o que implicou na continuidade da penetração das formas flexíveis de organização do trabalho (BRAGA, 2013).

Com o advento da crise econômica global a partir de 2008, marcada pela forte retração da demanda e pelas altas das taxas de juros no mercado internacional, foi-se degradando gradualmente a conjuntura favorável que sustentava os bons indicadores do mercado de trabalho brasileiro na primeira década do século XXI (MARQUETTI; HOFF; MIEBACH, 2016). Com isso, a partir de 2015 observa-se uma grande expansão do desemprego aberto e oculto, além de uma significativa contração da renda e do estoque de empregos formais (FILGUEIRAS; BISPO; COUTINHO, 2018). Registre-se, a propósito, que esse cenário se transformou na expressão mais visível do mercado de trabalho brasileiro até o momento em que se elabora o presente trabalho.

2. ANÁLISE DA REFORMA TRABALHISTA

O contexto econômico mundial, sob o domínio da globalização e da ordem política neoliberal, recolocou na agenda o tema da regulação do trabalho. Nesse contexto, vários direitos trabalhistas fundamentais que fazem parte da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – e que foram consagrados na Declaração Universal dos Direitos Humanos

3 Segundo os dados da Rais (2018), o estoque de empregos formais cresceu 67,8% no país entre 2003 e 2014.

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das Nações Unidas – estão sendo questionados. Registre-se que esses direitos são relevantes não somente para o trabalho e para a obtenção de bons resultados econômicos, mas porque eles também atuam no sentido de aprimorar os processos de democratização das nações e de garantia da justiça social. É por isso que recentemente a defesa do cumprimento das normas trabalhistas internacionais voltou a ser objeto de preocupação e definição por parte das Nações Unidas4.

Partindo desse contexto geral e afirmando que o problema do desemprego decorria de anomalias existentes na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), o governo Temer encaminhou ao Congresso Nacional, no dia 22 de dezembro de 2016, a primeira proposta de mudanças nas leis trabalhistas denominada de “reforma trabalhista”. Tal proposta pretendia alterar as regulamentações referentes à jornada de trabalho, à negociação entre empresários e trabalhadores, às formas de demissão, ao trabalho temporário e às férias, além de outros fatores caros às condições de trabalho e à própria dinâmica do mercado de trabalho brasileiro.

A partir de então a proposta passou a ser defendida por vários segmentos empresariais, maior parte deles interessada apenas em suas taxas de lucratividade. Afirmando que capital e trabalho precisam se sentar à mesa, sobretudo em momentos de desemprego, várias lideranças empresariais passaram a defender a “flexibilização da legislação trabalhista” como instrumento de combate ao desemprego. Neste cenário emergiram propostas que praticamente recolocariam o país ao tempo dos primórdios da colonização, destacando-se o argumento de que a atual legislação trabalhista somente protege o trabalhador e se esquece das empresas e de seu papel no mundo moderno. Além disso, acadêmicos associados ao credo neoliberal também defenderam a reforma trabalhista por considerarem que o conjunto de leis trabalhistas do país afasta os investimentos e dificulta o conhecimento dos custos de produção das empresas.

É importante registrar, ainda, que a formulação da proposta inicial de reforma foi uma tentativa do governo Temer de se legitimar perante o setor empresarial após o processo de

impeachment. Em reunião de Temer com mais de uma centena de empresários de vários

setores econômicos às vésperas da “tomada do poder definitiva” assumiu-se o compromisso de propor mudanças na legislação trabalhista como forma de obter apoio político do empresariado brasileiro. Tal iniciativa política também teve importantes apoios, com destaque para posicionamentos de ministros do STF e Tribunal Superior do Trabalho (TST).

A proposta de reforma do governo Temer foi aprovada na Câmara Federal no dia 26 de abril de 2017. Na sequência essa proposta da Câmara Federal foi encaminhada ao Senado da República. Após meses de discussões, a reforma foi finalmente aprovada em 11 de julho de 2017, com 50 votos favoráveis, 26 contrários e uma abstenção. De uma forma

4 Na definição dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, por exemplo, duas das metas estão diretamente relacionadas à necessidade de proteção dos direitos trabalhistas.

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sucinta, serão apresentadas a seguir as mais importantes alterações do marco legal, organizadas por por blocos temáticos.

Bloco I – Jornada de Trabalho

a) Jornada de trabalho: a jornada poderá ser de até 12 horas com 36 horas de descanso, dentro do limite semanal de 44 horas. Antes a jornada era limitada a 8 horas diárias.

b) Tempo na empresa: a partir de agora as atividades no âmbito da empresa (descanso, estudo, alimentação, higiene pessoal, troca de uniforme e interação com colegas) não fazem mais parte da jornada de trabalho. Anteriormente, esses quesitos eram considerados como parte da jornada de trabalho.

c) Descanso: ao exercer uma jorna diária de 8 horas até então o trabalhador tinha direito entre uma a duas horas (máximo) de intervalo para alimentação e repouso. A partir de agora esse intervalo deverá ser negociado, porém estabelecendo-se um tempo mínimo de 30 minutos. Caso o empregador não conceder esse intervalo mínimo para almoço, a indenização será de 50% do valor da hora normal de trabalho apenas sobre o tempo não concedido e não do tempo integral do intervalo.

d) Trabalho parcial: a regra atual amplia o período de 25 para 30 horas semanais, mantendo-se a proibição de horas extras semanais. Antes não ser poderia vender dias de férias proporcionais, cujo teto máximo era18 dias. Pela nova legislação, até um terço das férias poderão ser pagas em dinheiro.

e) Transporte: a partir de agora o tempo despendido até o local de trabalho e o tempo de retorno não serão mais computados na jornada de trabalho. Antes o tempo de deslocamento por meio de transporte oferecido pela empresa era contabilizado como parte da jornada de trabalho.

f) Novas modalidades de trabalho: 1ª)Trabalho Intermitente: o trabalhador poderá ser contratado por um determinado tempo (prestação de serviço não contínua), devendo ficar estabelecido o período (horas, dias ou meses). O valor da hora de trabalho deverá ser especificado e não poderá ser inferior ao valor horário do salário mínimo ou à remuneração dos demais trabalhadores que exercem a mesma função. No período de inatividade, esse trabalhador poderá prestar serviços a outras empresas; 2ª) Trabalho Remoto (home office): esse é um contrato de trabalho por tarefas, sendo que todos os gastos para tal, como equipamentos, energia, internet, etc., deverão ser formalizados em contrato entre as partes.

g) Banco de horas: pela nova legislação, o banco de horas pode ser efetivado de forma individual e por escrito, devendo a compensação ser realizada no mesmo mês, não ficando estabelecido nenhum teto de horas diárias, como era anteriormente.

h) Gravidez e locais insalubres: pelas regras anteriores, mulheres grávidas ou lactantes não podiam trabalhar em locais insalubres e, no caso de demissão, não havia limite de tempo para avisar a empresa sobre a gravidez. A nova legislação permite que

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mulheres grávidas trabalhem em locais insalubres, desde que a empresa apresente atestado médico que garanta não haver risco ao bebê e à mãe. Já no caso de demissões, fixou-se um prazo de 30 dias para que as mulheres comuniquem as empresas sobre gravidez.

Bloco II – Formas de remuneração

a) Remuneração por produtividade: pelas regras que estavam em vigor, a remuneração por produtividade não poderia ser inferior à diária correspondente ao piso da categoria ou salário mínimo, sendo que gratificações, comissões e percentagens integravam os salários. Pela nova regra o pagamento do piso ou salário mínimo não será obrigatório na remuneração, sendo que empresas e empregados poderão negociar todas as formas de remuneração que não devem fazer parte do salário.

b) Férias: mediante negociação, a partir de agora poderão ser fracionadas em até três períodos, desde que um dos períodos seja de pelo menos 15 dias corridos. Até então as férias podiam ser fracionadas em até dois períodos, sendo que um deles não poderia ser inferior a 10 dias.

c) Plano de cargos e salários: a partir de agora os planos de cargos e salários poderão ser negociados entre empresas e trabalhadores sem a necessidade de homologação e nem registro em contrato, podendo ser alterados a todo momento. Antes esses planos precisavam ser homologados pelo Ministério do Trabalho.

Bloco III – Negociações Trabalhistas

a) Acordado se sobrepõe ao legislado: anteriormente à reforma, convenções e acordos coletivos podiam estabelecer condições de trabalho distintas das previstas em lei, desde que para elevar o padrão do trabalhador relativamente à legislação. A reforma estabelece que acordos e convenções definidos entre empresas e sindicatos prevalecem sobre a legislação. Por outro lado, acordos individualizados entre empresas e trabalhadores com nível superior e salário mensal igual ou duas vezes superior ao teto de benefícios do INSS (R$ 5.531,31) prevalecerão sobre acordos coletivos.

b) Prazo de validade das normas coletivas: as regras vigentes até a reforma estabeleciam que os acordos ou convenções coletivas só podiam ser modificados por novas negociações, uma vez que passada a validade as regras permaneciam válidas até nova negociação coletiva. Pela nova legislação, empresas poderão manter ou não as cláusulas previstas após o final da vigência da negociação coletiva, uma vez que o negociado não precisa mais ser incorporado ao contrato de trabalho.

c) Rescisão Contratual: pela nova legislação, a rescisão contratual não precisará mais ser homologada pelos sindicatos, podendo ser realizada nas empresas na presença de advogados destas e do empregado.

d) Demissão: este quesito foi totalmente alterado pela nova legislação, uma vez que o contrato de trabalho poderá ser extinto de comum acordo entre as partes, caso em que o

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empregador pagará somente 50% do aviso prévio e metade da multa de 40% sobre o saldo do FGTS, enquanto que o trabalhador não terá direito ao seguro-desemprego.

e) Multas: pelas regras anteriores, as empresas estavam sujeitas ao pagamento de um salário mínimo por empregado não registrado, acrescido de igual valor em cada reincidência. A nova legislação estabeleceu que a multa para cada empregado não registrado será de R$ 3.000,00, caindo para R$ 800,00 para micro e pequenas empresas.

f) Ações na justiça: pelas regras anteriores, os honorários das perícias eram pagos pela União, enquanto que sobre o trabalhador que entrava com a ação não recaía nenhum custo. Pelas novas regras, caso o trabalhador que ingressou com a ação perder, terá de arcar com os custos do processo. Além disso, quem perder a causa terá de pagar entre 5% e 15% do valor da sentença como honorários de sucumbência, que são devidos aos advogados da parte vencedora. Também ficou estabelecida multa de 1% a 10% do valor da causa, mais indenização para parte contrária, a todos aqueles que agirem de má-fé. Finalmente, o empregado que assinar rescisão contratual estará impedido de questioná-la posteriormente na Justiça do Trabalho.

g) Danos morais: anteriormente eram os juízes que estipulavam o valor das ações sobre danos morais. A nova legislação estipulou um teto aos valores pleiteados para vários casos, sendo que ofensas graves cometidas pelos empregadores terão um teto de, no máximo, 50 vezes ao último salário do reivindicante.

Bloco IV – Representação Sindical

a) Representação sindical: a Constituição assegura a representação de um delegado sindical nas empresas com mais de 200 empregados, o qual tinha todos os direitos trabalhistas e estabilidade no emprego por um período de dois anos. Pelas novas regras, os trabalhadores dessas mesmas empresas poderão escolher três funcionários para representa-los nas negociações com os empregadores, não precisando ser sindicalizados.

b) Contribuição Sindical: na lógica da mudança anterior, a nova lei tornou a contribuição sindical opcional. Anteriormente a contribuição era obrigatória, sendo equivalente a um dia de salário do trabalhador.

De uma maneira geral, percebe-se que o Estado – enquanto aparato institucional-legal mediador dos conflitos entre capital e trabalho – perdeu sua importância no processo de reforma. Além disso, busca-se recompor o nível de rendimentos da classe empresarial em detrimento da classe trabalhadora, mobilizando-se diversos instrumentos poderosos: por um lado, foi enfraquecido o papel dos sindicatos e limitado o acesso à Justiça do Trabalho e, por outro, flexibilizam-se as regras relativas à jornada de trabalho e às condições de execução da atividade laboral. Ao mesmo tempo, a legalização do trabalho intermitente permite que o empregador tenha a seu dispor uma determinada força de trabalho em tempo integral, porém remunerando-a apenas pelas horas efetivamente trabalhadas.

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Todos esses aspectos poderão levar a um processo de pauperização de importantes segmentos da classe trabalhadora que, num cenário de desemprego elevado, se vê submetida a essas novas relações trabalhistas. Assim, e de forma bastante resumida, podemos sintetizar a reforma trabalhista da seguinte maneira: o seu eixo central permite que, por diferentes vias, se possa reduzir ou eliminar direitos dos trabalhadores, até mesmo aqueles garantidos constitucionalmente. Com isso, a antiga CLT se tornou, na prática, um arcabouço legal de proteção e a serviço dos empresários e empregadores.

3. PANORAMA RECENTE DO MERCADO DE TRABALHO CATARINENSE

Mesmo diante de algumas especificidades, o estado de Santa Catarina também foi afetado pela dinâmica econômica nacional recente, particularmente em termos da estrutura produtiva e do mercado de trabalho. De uma maneira geral, nota-se que a economia catarinense teve seu desempenho condicionado pelo movimento da economia nacional, cuja marca foi um período de recessão econômica sem precedentes, acompanhado por elevados níveis de desemprego.

Os dados da Tabela 1 revelam que a população em idade ativa (14 ou mais anos de idade) em Santa Catarina cresceu à taxa anual de 1,57% entre 2014 e 2018, enquanto que a força de trabalho cresceu 2,2% ao ano no mesmo período. Com isso, o estado apresentou uma redução da parcela da população em idade de trabalhar incorporada à força de trabalho (63,33% em 2014 para 64,84% em 2018), com destaque às 157 mil pessoas incorporadas em 2017.

Tabela 1: Pessoas de 14 anos ou mais de idade, por condição em relação à força de

trabalho e condição de ocupação, Santa Catarina (mil pessoas, 2014-2018, 3º trimestre de cada ano)

2014 2015 2016 2017 2018 Taxa a.a. (%) (A) Pessoas de 14 ou mais anos de

idade 5.550 5.646 5.727 5.815 5.898 1,57

(B) Força de trabalho 3.515 3.623 3.653 3.810 3.824 2,20 - Força de trabalho ocupada 3.413 3.465 3.420 3.553 3.588 1,28

- Força de trabalho desocupada 102 158 232 257 236 32,84

(A-B) Fora da força de trabalho 2.036 2.023 2.075 2.005 2.074 0,47 (B/A) (%) 63,33 64,17 63,79 65,52 64,84

Fonte: PNADC/T (2019); Elaboração própria.

Tal qual ocorreu no conjunto do país, também em Santa Catarina a crise econômica levou a uma drástica ascensão da desocupação a partir de 2015. Para captar a dimensão desse impacto, cabe notar que o número de desocupados no estado aumentou 2,5 vezes em apenas três anos, subindo de 102 mil pessoas, em 2014, para 257 mil pessoas, em 2017, quando o desemprego atingiu seu ápice. A partir de 2018 a força de trabalho desocupada voltou a cair, estabilizando-se no patamar de 236 mil, que segue sendo muito mais elevado daquele registrado no período anterior à crise. Em termos percentuais,

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verifica-se que a força de trabalho desocupada aumentou 32,84% ao ano no conjunto da série considerada.

Para compreender essa dinâmica, é importante analisar o comportamento das ocupações nos distintos setores de atividade econômica do estado. A partir das informações da Tabela 2, percebe-se que o aumento no desemprego derivou especialmente da contração do setor manufatureiro, atividade que ainda se mantém muito expressiva no estado. Com uma taxa de crescimento de -0,71% ao ano, a indústria geral fechou 25 mil postos de trabalho no conjunto do período analisado, intensificando o processo de desindustrialização relativa que já vinha atingindo o estado mesmo antes de 2014. Com isso, a participação da indústria geral no agregado das ocupações estaduais caiu de 25,9%, em 2014, para 24%, em 2018.

Tabela 2: Força de trabalho ocupada por grupamento de atividade econômica no trabalho

principal, Santa Catarina (mil pessoas, 2014-2018, 3º trimestre de cada ano) 2014 2015 2016 2017 2018 Taxa a.a. (%) Agricultura, pecuária, produção florestal,

pesca e aquicultura

Abs. 325 357 374 347 334 0,69

Rel.(%) 9,5 10,3 11 9,8 9,3 -

Indústria geral Abs. 883 841 822 867 858 -0,71

Rel.(%) 25,9 24,3 24,1 24,5 24 -

Construção Abs. 221 242 251 242 248 3,05

Rel.(%) 6,5 7 7,3 6,8 6,9 - Comércio, reparação de veículos

automotores e motocicletas

Abs. 631 631 604 612 624 -0,28

Rel.(%) 18,5 18,2 17,7 17,2 17,4 - Transporte, armazenagem e correio Abs. 145 149 148 170 156 1,90

Rel.(%) 4,3 4,3 4,3 4,8 4,4 - Informação, comunicação e ativ. financeiras,

imobiliárias, profissionais e administrativas

Abs. 364 364 325 335 365 0,07

Rel.(%) 10,7 10,5 9,5 9,4 10,2 - Alojamento e alimentação Abs. 116 132 123 152 153 7,97

Rel.(%) 3,4 3,8 3,6 4,3 4,3 - Admin. pública, defesa, seguridade social,

educação, saúde humana e serviços sociais

Abs. 468 492 487 511 538 3,74

Rel.(%) 13,7 14,2 14,3 14,4 15 -

Outro serviço Abs. 122 125 132 144 146 4,92

Rel.(%) 3,6 3,6 3,9 4 4,1 -

Serviço doméstico Abs. 131 126 147 165 156 4,77

Rel.(%) 3,8 3,6 4,3 4,6 4,4 -

Total Abs. 3.407 3.458 3.413 3.545 3.580 1,28

Rel.(%) 100 100 100 100 100 -

Fonte: PNADC/T (2019); Elaboração própria.

O grupamento do Comércio, reparação de veículos automotores e motocicletas também apresentou saldo negativo no período, com variação de -0,28% ao ano entre 2014 e 2018. Após forte contração em 2015 e em 2016, esse setor entrou em uma fase de significativa recuperação nos dois últimos anos da série, o que lhe permitiu seguir concentrando a segunda maior parcela da força de trabalho ocupada do estado, ou seja, 17,4% de seu total em 2018.

Mesmo com saldos positivos, ficaram ainda abaixo da taxa de crescimento da força de trabalho agregada os grupamentos de Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas (0,07% ao ano); Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (0,77% ao ano); e Transporte, armazenagem e correio (1,9% ao ano). Quanto à participação desses setores no agregado, vale registrar particularmente o

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forte crescimento que o primeiro desses grupamentos auferiu em 2018, quando retomou a ocupação de 10,2% dos trabalhadores catarinenses.

Apesar do desempenho mais discreto dos grupos supracitados, e do crescimento levemente acima média do grupamento da Construção (3,05% ao ano), via de regra as ocupações continuam se deslocando para o setor de serviços em Santa Catarina. No conjunto do período analisado, as maiores taxas anuais de crescimento foram registradas nos grupamentos de Alojamento e alimentação (7,97%); Outro serviço (4,92%); Serviço doméstico (4,77%); e Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (3,74%). Com tais resultados, esses setores ampliaram sua participação no total das ocupações em 0,9%; 0,5%; 0,6%; e 1,3%, respectivamente, entre 2014 e 2018.

Essas mudanças também se refletiram na posição de ocupação dos trabalhadores, conforme indicado na Tabela 3. Inicialmente verifica-se que a categoria dos empregados apresentou diversas flutuações ao longo da série considerada. Em 2014 essa categoria representava 71,3% das ocupações totais catarinenses. Porém, com as demissões que ocorreram durante o período agudo da crise (2015 e 2016), teve sua participação reduzida para 69,9% em 2016. A partir desse ano voltou a crescer, estabelecendo-se patamar de 70,3% em 2018.

Tabela 3: Posição na ocupação e categoria do emprego no trabalho principal, Santa

Catarina (mil pessoas, 2014-2018, 3º trimestre de cada ano)

Empregado / Emp. com carteira / Emp. sem carteira Empregador Conta própria Trabalhador familiar aux.

Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%)

2014 2.432 71,3 2.116 62,0 316 9,3 172 5,0 707 20,7 101 3,0 2015 2.438 70,4 2.098 60,5 340 9,8 184 5,3 736 21,2 106 3,1 2016 2.391 69,9 2.037 59,6 354 10,4 199 5,8 756 22,1 76 2,2 2017 2.492 70,1 2.091 58,9 401 11,3 203 5,7 797 22,4 61 1,7 2018 2.521 70,3 2.121 59,1 400 11,1 197 5,5 792 22,1 79 2,2 Taxa a.a. (%) 0,91 0,06 6,65 3,63 3,01 -5,45

Fonte: PNADC/T (2019); Elaboração própria.

Esse movimento se manifestou de forma distinta entre os empregados com e sem carteira de trabalho assinada. Por um lado, o emprego informal cresceu 6,65% ao ano entre 2014 e 2018, tendo atingido seu auge em 2017. Por outro lado, o crescimento dos empregados com contratos formais de trabalho foi praticamente nulo no conjunto da série, ocasionando uma queda de cerca de 3% em sua participação no agregado entre 2014 e 2018.

Mesmo assim, nota-se que o grau de formalização do emprego no estado de SC voltou a se elevar no ano de 2018, contrariamente ao comportamento observado no mercado de trabalho do país, cuja informalidade seguiu crescendo ao longo do referido ano. De um modo geral, é possível afirmar que esse comportamento distinto do mercado formal

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de trabalho catarinense pode estar associado ao processo histórico de organização do mesmo, uma vez que o percentual de emprego formal em Santa Catarina sempre se manteve em um patamar superior ao verificado no restante do país. Outro fator explicativo pode estar associado ao papel ainda preponderante exercido pelo setor secundário da economia na geração de postos formais de trabalho, o qual apresentou um nível de recuperação mais acentuado no âmbito estadual no ano de 2018, comparativamente ao comportamento do mesmo setor no restante do país.

Igualmente inseridos no contexto da informalidade, os trabalhadores por conta própria representavam 20,7% da força de trabalho catarinense em 2014. Essa participação atingiu os 22,4% em 2017, mantendo-se num patamar ainda bastante elevado (22,1%) no ano seguinte. Como essa categoria apresentou um crescimento médio de 3,01% ao ano em todo o período considerado, o número dos trabalhadores conta própria chegou a 792 mil em 2018.

Dentre as posições na ocupação menos expressivas no conjunto do mercado de trabalho catarinense, registra-se que os empregadores também apresentaram crescimento significativo no período (3,63% ao ano), ampliando sua participação de 5%, em 2014, para 5,5%, ao final da série. A categoria dos trabalhadores familiares auxiliares, por fim, reduziu-se 5,45% ao ano, passando a reprereduziu-sentar apenas 2,2% do agregado em 2018.

Apresentando a síntese desse movimento, os dados da Tabela 4 revelam que a crise provocou uma elevação expressiva da taxa de desocupação, que saltou de 2,9%, em 2014, para 6,7%, em 2017. Após a incipiente retomada das atividades econômicas no estado, o percentual de desocupação se reduziu para 6,2% em 2018.

A análise da taxa de desocupação da força de trabalho importa para fazer a correlação com a temática da reforma trabalhista, cuja aprovação ocorreu no momento em que o desemprego atingia o seu ápice. Entretanto, essa medida não é suficiente para explicar a dinâmica do mercado de trabalho catarinense nos últimos anos, especialmente durante 2018, primeiro ano de plena vigência da nova legislação trabalhista. Para melhor compreender esse comportamento, cabe analisar as outras duas medidas de subutilização da força de trabalho existentes na PNAD Contínua5.

A primeira delas diz respeito aos Subocupados por insuficiência de horas trabalhadas, que representam um contingente de trabalhadores que procura expandir sua jornada de trabalho vigente, geralmente no intuito de alcançar um patamar de rendimentos que garanta melhorias em seu sustento. Essa categoria apresentou um crescimento médio de 30,98% ao ano no conjunto da série, ajudando a inflar as estatísticas de ocupação do estado, particularmente em 2018, quando o número de subocupados em Santa Catarina chegou a 103 mil, isto é, 2,7% da força de trabalho.

5 Sobre os principais aspectos metodológicos da PNAD Contínua e sua aplicação na análise da conjuntura recente do mercado de trabalho brasileiro, ver Mattei e Heinen (2019).

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Tabela 4: Medidas de subutilização da força de trabalho, Santa Catarina (mil pessoas,

2014-2018, 3º trimestre de cada ano)6

Desocupado Subocupado por insuf. de horas trabalhadas Força de trabalho potencial Força de Trabalho Subutilizada

Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%) Abs. Rel. (%)

2014 102 2,9 46 1,3 34 1,0 182 5,1 2015 158 4,4 68 1,9 39 1,1 265 7,2 2016 232 6,4 62 1,7 67 1,8 361 9,7 2017 257 6,7 82 2,2 86 2,2 425 10,9 2018 236 6,2 103 2,7 98 2,5 437 11,2 Taxa a.a. (%) 32,84 30,98 47,06 35,03

Fonte: PNADC/T (2019); Elaboração própria.

A segunda medida refere-se à Força de Trabalho Potencial, que é composta pelas pessoas que realizaram busca efetiva por trabalho, mas que não estavam disponíveis para trabalhar naquele momento; além dos desalentados, ou seja, as pessoas que estavam disponíveis para trabalhar, mas não realizaram busca efetiva por trabalho. Embora não entre no cômputo da taxa de desocupação, o crescimento médio de 47,06% ao ano da Força de Trabalho Potencial entre 2014 e 2018 também indica uma forte deterioração do mercado de trabalho catarinense, para o que são decisivas a ampliação da condição de desalento7 e a

flexibilização das ocupações que tendem a acompanhá-lo.

Agregando-se essas duas categorias aos desocupados, chega-se à força de trabalho subutilizada. Em 2014, a taxa composta de subutilização da força de trabalho do estado era de apenas 5,1%. Com o avanço da crise econômico, porém, essa taxa passou por um período de forte ascensão, chegando a 11,2% em 2018. Esse movimento levou a um crescimento de 35,03% ao ano na população subutilizada, que passou a abranger 437 mil pessoas no último ano da série. Quanto a isso, é importante ressaltar que a subutilização da força de trabalho seguiu crescendo mesmo após a aprovação da reforma trabalhista, à despeito do esboço de retomada das atividades econômicas no estado. Contrariando o discurso dos defensores da reforma, a incipiente retração do nível de desocupação registrada ao final de 2018 não encontrou paralelo na taxa de subutilização da força de trabalho, que seguiu crescendo no estado como vem ocorrendo ininterruptamente desde 2015.

4. ANÁLISE DOS IMPACTOS DA REFORMA TRABALHISTA SOBRE O MERCADO DE TRABALHO CATARINENSE

As informações analisadas anteriormente permitem afirmar que também em Santa Catarina não está ocorrendo o aumento da geração de empregos prometido pelos

6 Os percentuais da Força de Trabalho Potencial e da Força de Trabalho Subutilizada tiveram a Força de Trabalho Ampliada como denominador (Força de Trabalho + Força de Trabalho Potencial). Nos demais casos, o denominador é apenas a Força de trabalho.

7 A proporção dos desalentados no total da Força de trabalho potencial de Santa Catarina era de 16,5% no terceiro trimestre de 2014, subiu para 39% no mesmo período de 2017 e se estabeleceu na casa dos 32% em 2018, abrangendo aproximadamente 31 mil catarinenses (PNADC/T, 2019).

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defensores da reforma trabalhista. Neste sentido, é importante enfrentar o desafio de tentar dimensionar os impactos da nova legislação no estado, sabendo de antemão das dificuldades que tal intuito encontrará. A principal dificuldade é a de tentar mensurar quantitativamente as diversas e profundas mudanças qualitativas decorrentes da reforma.

Além disso, há um segundo agravante relativo às bases de dados oficiais, uma vez que poucas delas incorporaram em seus registros os novos atributos formais definidos pela reforma, especialmente aqueles referentes aos contratos de trabalho. Até o momento apenas o Ministério do Trabalho incorporou, ao final de 2017, novos indicadores ao Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Há dois pontos elencados na segunda seção deste artigo que passaram a aparecer como indicadores nos registros mensais de movimentações do Caged: o trabalho

intermitente e o trabalho parcial. A despeito de comporem uma pequena parte das

mudanças contidas na nova legislação trabalhista, essas duas modalidades já permitem captar algumas expressões da reforma no mercado de trabalho catarinense, oferecendo indicativos da dispersão e da dimensão de seus impactos.

Para dar início a essa análise, a Tabela 5 apresenta a evolução das movimentações com contratos de trabalho intermitentes e parciais, bem como suas respectivas participações no total das admissões e dos desligamentos em Santa Catarina, ao longo do período de 12 meses completado em março de 2019:

Tabela 5: Participação de contratos de trabalho intermitentes e parciais em admissões e em

desligamentos, Santa Catarina (abril de 2018 a março de 2019).

Trabalho Intermitente Trabalho Parcial Total

Admitidos Desligados Admitidos Desligados

Admitidos Desligados

Abs. Part. (%) Abs. Part. (%) Abs. Part. (%) Abs. Part. (%)

abr/18 147 0,18 68 0,09 437 0,53 151 0,20 82.502 77.180 mai/18 237 0,31 45 0,06 302 0,40 233 0,29 75.650 80.134 jun/18 173 0,26 39 0,05 203 0,30 199 0,28 67.088 71.108 jul/18 218 0,29 56 0,07 327 0,43 364 0,48 75.432 75.673 ago/18 194 0,23 51 0,06 757 0,91 356 0,45 82.938 79.006 set/18 164 0,22 83 0,12 432 0,57 286 0,42 75.515 68.298 out/18 413 0,48 108 0,14 427 0,49 307 0,40 86.493 76.750 nov/18 472 0,59 162 0,23 339 0,43 291 0,41 79.702 70.510 dez/18 540 0,88 136 0,16 154 0,25 321 0,38 61.702 84.318 jan/19 552 0,54 193 0,24 307 0,30 462 0,57 101.378 81.221 fev/19 330 0,30 178 0,21 617 0,56 499 0,58 111.030 85.726 mar/19 499 0,56 204 0,22 651 0,74 425 0,47 88.362 91.338 Acumulado (12 meses) 3.939 0,40 1.323 0,14 4.953 0,50 3.894 0,41 987.792 941.262

Fonte: CAGED (2019); Elaboração própria.

Em termos absolutos, foram admitidos 3.939 vínculos com contratos de trabalho intermitentes e 4.953 com contratos parciais no acumulado dos 12 meses considerados. Do lado dos desligamentos, esses números foram de 1.323 e 3.894, respectivamente. Ambas as modalidades apresentaram resultados líquidos positivos no conjunto do período, sendo

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de aproximadamente 2,6 mil o saldo do trabalho intermitente e de 1,1 mil o do trabalho parcial.

Já em termos relativos, os contratos intermitentes representaram 0,4% do total das admissões e 0,14% dos desligamentos. Essas participações foram levemente inferiores às dos contratos parciais, que atingiram 0,5% das admissões e 0,41% dos desligamentos. Como a participação média das duas modalidades foi superior nas admissões do que nos desligamentos, aufere-se que ambas apresentaram um crescimento relativo no estoque de vínculos formais de trabalho em Santa Catarina, particularmente no caso do trabalho intermitente, para qual essa diferença foi maior8.

Analisando esses dados, nota-se que as participações registradas foram relativamente baixas. À primeira vista, seria plausível supor que essa relação derive da melhor estruturação do mercado de trabalho catarinense, que tende a se concentrar mais em torno de contratos formais típicos, isto é, CLT por tempo indeterminado. Todavia, não é esse o elemento determinante aqui, haja visto que tampouco no agregado nacional os contratos intermitentes e parciais adquiriram grande expressividade até o momento9.

De acordo com Krein et al (2018), para compreender esse fenômeno é preciso ter claro que a flexibilidade no desligamento é uma característica estrutural do mercado de trabalho brasileiro, razão pela qual as formas atípicas de contratação – a exemplo das contratações intermitentes e parciais – não são imprescindíveis às empresas, que já contam com grande liberdade para demitir trabalhadores mesmo com contratos por tempo indeterminado. Ademais, deve-se considerar que a mudança na legislação ainda é recente, de modo que o período analisado se enquadra em uma fase de assimilação das novas modalidades de trabalho por parte dos contratantes. Tendo em vista esses aspectos, o crescimento da parcela dos empregos formais regulados pelas modalidades de trabalho intermitente e parcial – ainda que modesto – torna-se efetivamente preocupante, por representar uma tendência de ampliação do número de trabalhadores que se encontram em ocupações geralmente bastante precárias em Santa Catarina.

A fim de verificar o caráter precário dessas modalidades de trabalho, analisam-se os níveis salariais das mesmas, conforme a Tabela 6. Do ponto de vista do trabalho intermitente, nota-se que 14,2% de todas as admissões não recebiam mais que 0,5 Salário Mínimo (SM); 2,8% recebiam entre 0,51 e 1 SM e o outros 58,3% entre 1,01 e 1,5 SM. A situação é ainda mais grave no caso do trabalho parcial, uma vez que a parcela das

8 A base de dados do Caged permite dar a dimensão da participação dessas modalidades apenas entre os desligamentos e as admissões de um determinado período, não no total dos empregos formais existentes. A base que fornece estes dados é a Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Apesar dessas duas fontes serem, a rigor, incompatíveis, vale estabelecer uma aproximação do crescimento dessa participação a partir do cruzamento delas. Dessa forma, estima-se que a participação do trabalho intermitente tenha se elevado de 0,02% para 0,14%, e do trabalho parcial de 0,33% para 0,37% do total dos empregos formais catarinenses nos 12 meses em análise.

9 Conforme os registros do Caged (2019) a participação do trabalho intermitente no agregado nacional de admissões foi de 0,55%, e do parcial de 0,47% para o mesmo período em painel.

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admissões na faixa de até 0,5 SM foi de 15,2% e entre 0,51 e 1 SM chegou a 65,1% do total dos contratos firmados. Com isso, 80% desses contratos não ultrapassaram o valor de 1 SM.

Tabela 6: Participação das faixas de remuneração média de até 1,5 salário mínimo no total

das admissões por modalidade de contrato, Santa Catarina (% no acumulado em 12 meses, março de 2019).

Até 0,5 SM De 0,51 a 1 SM De 1,01 a 1,5 SM

Trab. Intermitente 14,2 2,8 58,3

Trab. Parcial 15,2 65,1 13,9

Total Admitidos 13,9 0,7 7,3 Fonte: CAGED (2019); Elaboração própria.

Nota: Total utilizado para o cálculo das proporções desconsidera admissões cujas faixas de remuneração não foram declaradas no Caged.

Considerando-se que no agregado de Santa Catarina apenas 0,7% dos admitidos recebiam até 0,5 SM; 7,3% ficavam na faixa de 0,51 a 1 SM; e outros 57,5% na faixa de 1,01 a 1,5 SM, verifica-se uma grande discrepância entre as remunerações das formas de contratação analisadas comparativamente às demais. Enquanto no conjunto do estado as admissões de até 1,5 SM atingiram 65,5% do total, na modalidade de trabalho intermitente essa parcela chegou a 75,3%. Já no caso específico do trabalho parcial, atingiu-se 94,2% das admissões.

Deve-se considerar que essas remunerações reduzidas acompanham, em grande medida, as próprias jornadas de trabalho dos contratos, que tendem a ser bastante curtas. Porém, mesmo que esse fator pudesse explicar as baixas remunerações dos trabalhadores intermitentes, que contaram exclusivamente com contratos de até 12 horas de trabalho por semana no período considerado, tal explicação não valeria para a modalidade do trabalho parcial, uma vez que, na média do período em análise, 47% das admissões para trabalhos parciais em Santa Catarina possuíam jornadas de trabalho entre 21 e 30 horas, sendo que dentro dessa faixa, 77% não recebiam mais do que um salário mínimo (CAGED, 2019).

Além disso, é importante salientar que tampouco o fator renda eliminaria a tendência à precarização. Ainda que os trabalhadores intermitentes e parciais obtivessem um salário/hora semelhante aos dos empregados com jornadas de trabalho integrais, eles continuariam frequentemente subocupados, recebendo remunerações mensais insuficientes para sanar suas necessidades de consumo. Como esses trabalhadores também têm seu acesso à rede de benefícios sociais muito mais limitado do que os demais empregados formais, evidencia-se o caráter essencialmente instável dessas formas de contratação, que ficam ainda mais sujeitas às flutuações econômicas. Assim, a flexibilização promovida pela

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reforma trabalhista vem acompanhada de um impulso pró-cíclico, que tende a aprofundar a precarização do mercado de trabalho, intensificando problemas como o da rotatividade10.

Além dos efeitos sobre o conjunto do mercado de trabalho, as modalidades de contrato fomentadas pela reforma trabalhista também provocam impactos desiguais entre os diversos setores de atividades econômicas. Para dar uma noção dessa influência, a Tabela 7 apresenta os subgrupos de ocupação com maior incidência de contratos intermitentes nas admissões do período analisado, enquanto a Tabela 8 apresenta a mesma relação para os contratos parciais.

Tabela 7: Subgrupos de ocupação com maior participação de contratos de trabalho

intermitentes em admissões, Santa Catarina (acumulado em 12 meses, março de 2019) Subgrupo Intermitente Saldo Trab. Saldo Geral Part. (%) nas admissões desligamentos Part. (%) nos

Técnicos de Nível Médio nas Ciências

Administrativas 161 1.639 2,1 1,3 Trabalhadores da Transformação de

Metais e de Compósitos 157 -777 0,8 0,3 Trabalhadores dos Serviços 673 8.231 0,6 0,2

Fonte: CAGED (2019); Elaboração própria.

Nota: Principais subgrupos da CBO 2002 – exceto subgrupos com participação inferior a 1% no total das admissões no acumulado de 12 meses.

Com participação de 2,1% no total das admissões, e 1,3% nos desligamentos, o subgrupo onde o trabalho intermitente foi mais expressivo foi o dos Técnicos de Nível Médio nas Ciências Administrativas. Essa categoria agrega profissionais com alguma especialização, contratados para serviços tipicamente esporádicos, como operações comerciais, de inspeção ou de fiscalização.

Em seguida, aparecem os Trabalhadores da Transformação de Metais e de Compósitos, subgrupo que inclui montadores de máquinas e mecânicos de manutenção em geral. Nesse caso, a participação nas admissões foi de 0,8%, e de apenas 0,3% nos desligamentos, o que fez com que o saldo do trabalho intermitente do subgrupo fosse positivo (157), apesar da acentuada queda de suas contratações gerais (-777).

Por fim, constam ainda os Trabalhadores dos Serviços, que registraram o maior saldo de vínculos intermitentes (673) no período, valendo-se de sua posição enquanto subgrupo mais expressivo no mercado de trabalho formal do estado. A participação do trabalho intermitente nesse subgrupo foi de 0,8% nas admissões e 0,2% nos desligamentos, com saldos particularmente positivos nos serviços de vigilância, hotelaria e alimentação.

Quanto ao trabalho parcial, percebe-se que o subgrupo mais afetado pela reforma trabalhista foi o dos Profissionais de Ensino, cuja participação nas admissões do período

10 Adaptando o método de cálculo do DIEESE (2016) para os dados do Caged, estima-se que a Taxa de rotatividade global do emprego formal em Santa Catarina tenha ficado em torno dos 42% no período em análise. Na modalidade do trabalho parcial estima-se que essa mesma taxa tenha sido de aproximadamente 50%, e que tenha chegado a até 74% para o trabalho intermitente.

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chegou a 11,2%, contra 6,8% nos desligamentos. Com isso, em apenas um ano Santa Catarina incorporou 603 professores em regime de trabalho parcial. Esse saldo supera inclusive o total de vínculos gerados pelo subgrupo (542) e indica um forte movimento de substituição de professores com contratos típicos por contratações em regime parcial11.

Tabela 8: Subgrupos de atividade econômica com maior participação de contratos de

trabalho parcial em admissões, Santa Catarina (acumulado em 12 meses, março de 2019)

Subgrupo Saldo Trab.

Parcial Saldo Geral Part. (%) nas admissões Part. (%) nos desligamentos Profissionais do Ensino 603 542 11,2 6,8 Vendedores e Prestadores de Serviços do Comércio 190 6.154 0,5 0,3 Trabalhadores de Atendimento ao Público 69 2.720 0,5 0,4 Fonte: CAGED (2019); Elaboração própria.

Nota: Principais subgrupos da CBO 2002 – exceto subgrupos com participação inferior a 1% no total das admissões no acumulado de 12 meses.

Em todos os demais subgrupos, a rigor o trabalho parcial não foi muito expressivo no período analisado. As exceções são algumas ocupações do subgrupo dos Vendedores e Prestadores de Serviços do Comércio e dos Trabalhadores de Atendimento ao Público. Cada um desses subgrupos contou com 0,5% de participação do trabalho parcial no total das admissões, desempenhos que foram puxados essencialmente pelas ocupações de vendedor de comércio varejista, repositor de mercadorias, recepcionistas, operadores de caixa e de telemarketing.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A crise econômica que se instalou no país a partir de 2014 afetou duramente o mercado de trabalho nacional, invertendo a tendência do início do século. Com isso, as taxas de desemprego praticamente dobraram em menos de três anos, porém com efeitos diferenciados regionalmente. Mesmo tendo sido afetado por este cenário econômico recessivo, o estado de Santa Catarina vem conseguindo se manter com as menores taxas de desemprego do país. Em grande medida, o comportamento mais dinâmico do emprego catarinense nesse último período pode estar associado às condições prévias à crise, destacando-se os altos índices de formalização das relações trabalhistas e a existência de um sistema econômico regionalizado e bastante diversificado que impediu efeitos generalizados da crise sobre o mercado de trabalho catarinense.

Do ponto de vista dos setores de atividade, nota-se que o setor industrial (indústria da transformação, particularmente) foi duramente afetado pela crise econômica, ocasionando uma redução de sua participação no conjunto do emprego estadual. Comportamento

11 Esse fenômeno tem se refletido em diversas manifestações do Sindicado dos Professores do Estado de Santa Catarina, que chegou a denunciar processos de demissões em massa no período imediatamente posterior à consumação da reforma trabalhista (SINPROESC, 2017). Ao longo do período, os Profissionais de Ensino representaram 30% de todas as admissões parciais do estado.

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semelhante foi observado no setor do comércio. Ainda assim, esses dois setores seguiram respondendo por mais de 40% de todo emprego gerado no estado. Além disso, o estado também segue uma tendência nacional de concentração dos empregos nos setores de serviços, os quais ampliaram suas participações no total das ocupações. Tal tendência, como se sabe, é marcada por alta rotatividade, níveis de remuneração reduzidos e pouco acesso à rede de benefícios sociais.

Quanto às categorias de ocupação, destaca-se uma pequena redução da participação dos empregados no período, muito embora em 2018 esses ainda respondessem por 70% do total das ocupações. Todavia, o fato relevante a ser observado é que os empregados sem carteira (emprego informal) cresceram 6,65% ao ano entre 2014 e 2018, enquanto os contratos formais de trabalho dessa categoria permaneceram praticamente inalterados. Já a categoria dos trabalhadores por conta própria aumentou sua participação na força de trabalho catarinense, tendo apresentado um crescimento médio de 3,01% ao ano. Este fato, somado ao anterior, indica uma tendência à informalidade, ainda que em níveis menores que os verificados para o país.

Do ponto de vista da ocupação, observa-se que a força de trabalho subutilizada cresceu de 5,1%, em 2014, para 11,2%, em 2018. Esse movimento levou a um crescimento de 35,03% ao ano da população subutilizada, que passou a abranger 437 mil pessoas no último ano da série. Tal tendência se manteve ininterrupta desde o ano de 2015, bem como após a aprovação da reforma trabalhista, à despeito do discurso dos defensores da reforma no sentido oposto.

Tais fatores, todavia, ainda não são suficientes para imputar a tendência de precarização das relações de trabalho derivada apenas da nova legislação trabalhista. Assim, parece que a forma mais evidente pela qual a reforma trabalhista vem afetando o mercado de trabalho diz respeito à intensificação das subocupações, que foram potencializadas em 2018 com a incorporação dos trabalhos intermitente e parcial, modalidades cujos traços já se fazem presentes no mercado formal de trabalho catarinense, uma vez que as admissões médias foram superiores aos desligamentos. Neste caso, a precarização do mercado de trabalho viria, tanto pela expressiva participação das baixas faixas de renda em ambas as modalidades de contratação, como pela instabilidade dessas formas de contratação associada ao limite do acesso, por parte desses trabalhadores, à rede de benefícios sociais, comparativamente aos demais trabalhadores com relações formalizadas integrais.

Assim, é possível concluir que a reforma trabalhista, ao invés de atacar a precarização, acabou facilitando sua extensão para áreas que antes possuíam algum tipo de segurança. Mesmo reconhecendo as desigualdades existentes, a nova legislação acabou legitimando e estimulando a lógica da flexibilização das relações trabalhistas, caminho desejado pelo capital para ampliar suas taxas de lucro, em detrimento dos interesses da

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classe trabalhadora. Neste diapasão, o discurso dos vencedores procura separar os segmentos dos incluídos dos excluídos pelo cinismo de que é impossível atender a todos devido ao excesso de direitos de uma minoria privilegiada.

REFERÊNCIAS

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