Prof. André de Freitas Barbosa Análise literária
MINHA VIDA DE MENINA
(1942)
Helena Morley
[pseud. de Alice Dayrell Caldeira Brant]
Considerações gerais
Diamantina
é uma cidade situada 280 km ao norte de
Belo Horizonte, a mais de 1200 metros de altitude, e teve
seu esplendor econômico no século XVIII. Na década de
1890, a cidade conhecia uma nova relação entre as classes
sociais, com a
escravidão recém-abolida. O universo de
Helena, assim, não se limitava à família: é um quadro de
toda a sociedade de seu tempo, que inclui a convivência
com ricos, pobres, escravos e crianças.
O universo social da menina Helena Morley
Minha vida de menina
é o
diário
de uma adolescente,
escrito entre 1893 e 1895, quando ela tinha de 13 a 15
anos. Já adulta, a autora publicou os escritos, para mostrar
“às meninas de hoje a diferença entre a vida atual e a
Em nota à 1ª edição, a autora esclarece os motivos que
a estimularam a escrever:
“Em pequena meu pai me fez tomar o hábito de
escrever o que sucedia comigo. Na Escola Normal o
professor
de
Português
exigia
das
alunas
uma
composição quase diária.”
“
Segunda-feira, 13 de março
– Este ano saiu à rua a
procissão de Cinzas que há muitos anos não havia. (...) Eu
gostei muito da procissão, mas meu pai disse que parecia
mais um carnaval e mamãe achou que era um grande
pecado meu pai dizer isso.”
“
Terça-feira, 14 de março
– O assunto da cidade é o
ladrão misterioso; na Chácara de vovó não se fala de outra
coisa. (...) Nós todos só poderemos ter sossego quando se
pegar esse ladrão misterioso.”
O coloquialismo da prosa é fiel aos acontecimentos, muitas vezes cômicos. É o caso do “nosso pobre professor Seu Leivas que em todas as festas acaba sempre bicudo [embriagado]”. No aniversário de Siá Aninha, ele encheu a boca de cerveja, que esguichou pelas narinas sobre a comida.
A lógica questionadora da menina funciona para os populares “conselhos médicos” que a tradição consagrou. Por exemplo: a mãe a proíbe de entrar na água após o almoço, porque faz mal – que, no entanto, ninguém sabe explicar. Por que, então, o “mal” não ocorre com os mineiros, que ficam n’água o dia todo buscando diamantes? A resposta dos adultos é que eles estariam acostumados. A conclusão de Helena é que os adultos não têm lógica, apenas repetem o que lhes falam e o aceitam como verdade inquestionável – isto, é claro, não combina com a curiosidade natural de Helena.
Helena
é vista pelos adultos como uma menina
“impaciente, rebelde, respondona, passeadeira, incapaz
de obedecer”. De personalidade agitada, não entende o
desejo de “sossego” que os outros têm: “Eu acho
engraçado na nossa família a mania de sossego que todos
têm. Meu pai, vovó e todos só pedem a Deus sossego.”
ALGUNS PERSONAGENS E SUAS AÇÕES
A
avó
,
Teodora
, é para a menina a melhor pessoa do
mundo (Helena é a neta preferida), enquanto os
tios
são
geralmente descritos como invejosos e egoístas. Dos tios da
família da mãe, apenas
Agostinha
gosta de Helena.
Tio
Conrado
e
tia Aurélia
são ricos e, apesar das duras regras
de sua casa, as festas são abundantes em guloseimas. Os
primos
são estudiosos e admirados, mas Helena não quer
viver como eles.
Em alguns momentos, as pequenas infrações de
Helena soam perversas, como em seu aniversário. Ela
convence a irmã a gastar as próprias economias para
pagar
um
jantar,
que
atrairia
convidadas
e,
consequentemente, renderia muitos presentes, que
seriam divididos entre as duas. A divisão foi injusta
para
Luisinha
, mas a lógica de Helena eliminou
remorsos: ela precisava mais dos presentes, porque
saía muito em passeios, enquanto a comportada irmã
ficava sempre em casa...
Tia Madge
, representante da família inglesa, pode
ensinar a sobrinha a se comportar com etiqueta.
Helena gosta muito dela, apesar de sua formalidade,
mas não vê sentido prático em seus ensinamentos.
O PRAGMATISMO DE HELENA
Tudo o que cerca Helena deve apresentar uma
finalidade
prática ou prazerosa
. É o caso da escola, que representa
para ela, inicialmente, a possibilidade de ganhar dinheiro e
tirar o pai da lavra (sua intenção era, após formada no
curso Normal, “dar escola”). Porém, quando passa pela
experiência de reger uma classe, a jovem entra em pânico e
descarta qualquer possibilidade de voltar ao ensino.
Embora a família de Helena pareça feliz, ela é marcada,
na visão da menina, pela
falta de sorte
ou
incompetência
nos negócios
, a começar pelo início da carreira de
minerador do pai, quando ele perdeu uma sociedade com o
cunhado por interferência da mulher, que recebeu um
suposto “sinal” de Santo Antônio. O santo se enganou e a
lavra
produziu
grande
quantidade
de
diamante,
enriquecendo
tio Geraldo
.
Há diversas inversões das categorias conhecidas como “bom e ruim” ou “certo e errado”. Num episódio, Helena fala dos comentários maldosos sobre sua conduta por ocasião da morte de uma tia desconhecida que morava longe. Helena vai a um baile e dança no dia da morte da parenta. Para a sociedade, a menina estava errada, mas, segundo a adolescente, dançar era tão bom que não havia motivo para deixar de se divertir... Quando furta da gaveta da mãe um broche para vender e mandar fazer um vestido, Helena chega a hesitar sobre sua culpa, mas conclui que o ato não é errado, pois a ideia lhe foi sugerida pela própria Nossa Senhora!
Uma peculiaridade das mulheres da família são os frouxos de riso. A intenção não é ironizar os outros, mas rir da própria vida. O riso, porém, espanta hóspedes, estraga as visitas de pêsames e acentua a timidez do irmão Renato. Difícil é ficar sem rir, porque
“riso comprimido deve fazer mal”. Para Helena, a única maneira
de não rir, quando a situação não o permite, é pensar em coisas tristes, como a irmã colocada num caixão.
a. Condição de menina-mulher
Helena faz uma breve referência à condição feminina
quando raciocina que em determinados momentos ser
mulher apresenta algumas vantagens práticas sobre ser
homem, como o fato de os irmãos terem que levar os
animais para o pasto num dia muito frio enquanto ela
fica no calor da cama. A possibilidade de desenvolver
relacionamentos
com
um
homem
é
prontamente
rejeitada: “Eu vou dizendo a todas que não quero ter
namorado, que não gosto de ninguém e que me deixem
em paz”. O amor é regulado pela providência divina, e
não
deve
constituir
preocupação
das
pessoas:
“Casamento e mortalha no céu se talha”.
b. Trabalho e religião
A religião traz um misto de beleza, mistério e terror. Os rituais têm grande importância nas impressões da menina: a procissão, a festa do divino, a festa da Igreja do Rosário...
O trabalho é outro componente importante na vida de Helena e sua família. A mãe e o pai transmitem aos filhos, com exemplos pessoais, a necessidade do trabalho. O final dos relatos é marcado pela morte da avó e por uma ligeira mudança na vida do pai. Dona Teodora havia deixado uma pequena herança, que propiciou ao pai de Helena saldar as dívidas. Ele consegue um emprego mais estável na Companhia Boa Vista e a vida melhora. A bondade da avó seria responsável pela mudança favorável:
“Meu pai entrou para a Companhia Boa Vista e tudo dos estrangeiros é só com ele, porque é o único que fala inglês e conhece bem as lavras. Agora não vamos sofrer mais faltas, graças a Deus. Não é mesmo proteção de vovó lá do céu?”
Minha vida de menina no contexto modernista
A produção modernista aproximou a linguagem escrita à
fala do povo
, reivindicando uma
gramática brasileira
. A
oralidade popular
, por exemplo, é uma constante na obra:
“
Os home pegaro
no caixão,
tava
muito pesado e eles
deixaro ele
caí de novo pra pegar de jeito. [...] O susto dela
vivê
foi
maió
que o da morte. A
mulhé
já foi acordando e
brigando com
as irmã
e mandando
todas saí
de casa
porque disse que elas,
si havia de chorá
a morte dela,
ficaro
só brigando por causa das coisas dela”.
Minha vida de menina
insere-se num contexto no qual
se pretendia reler o passado, construindo uma nova
história, que deveria ser
n
acional e coletiva
: as
memórias
pessoais
da menina Helena são, mais que um documento
pessoal,
a imagem do passado de determinado meio social
.
Prof. André de Freitas Barbosa Análise literária
Graciliano Ramos
(1892-1953)VIDAS SECAS
(1938)-
Espaço
– semiárido nordestino, sem indicação
precisa de município ou vilarejo. Vale muito mais o
papel opressor exercido por tal cenário do que o
cenário em si.
Dados estruturais
-
Narrador
– 3ª pessoa onisciente, com recorrências
ao discurso indireto livre.
-
Tempo
– predomina um enredo circular e, por
assim, dizer, atemporal.
-
Sobre as personagens
– como pouco falam, o autor
utiliza o discurso indireto livre:
“Então porque um sem-vergonha desordeiro se arrelia, bota-se um cabra na cadeia, dá-bota-se pancada nele?”
Vidas secas
(1938) pertence a um gênero
intermediário entre o
romance
e o
conto
.
Não são as personagens que se ressaltam,
mas o
narrador
(
discurso indireto livre
),
sempre objetivo e enxuto.
A
obra
possui
13
capítulos
quase
autônomos, ligados pela repetição de alguns
temas e situações, como a
paisagem árida
, a
opressão
exercida pelos poderosos e a
Personagens principais
Fabiano – chefe da família de retirantes, homem rude, grosseiro, embrutecido, quase incapaz de expressar seu pensamento com palavras;
Sinhá Vitória – mulher de Fabiano. Possui inteligência superior à do marido, que a admira por isso;
Menino mais novo – quer realizar algo notável para ser igual ao pai e despertar a admiração do irmão e da cachorra Baleia;
Menino mais velho – sente curiosidade pela palavra “inferno” e procura se esclarecer com a mãe, já que o pai é incapaz; o menino é um deslocado no mundo ao seu redor;
A cachorra Baleia completa o grupo de retirantes. Representando a sociedade local, há o soldado amarelo, corrupto e covarde. Tomás da Bolandeira (referido em memórias) era um conhecido da família, homem culto, que sabia empregar as palavras.
Capítulo 1 – Mudança
Temos a descrição da terra árida e do sofrimento da família de Fabiano. As personagens não se comunicam; apenas o pai, irritado com um dos filhos, xinga-o. A escassez de diálogos permanece por todo o livro, como também a intenção de não dar nome às crianças. Fabiano e Sinhá Vitória, porém, sonham com uma vida melhor:
“Sinhá Vitória
vestiria
uma saia larga de
ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória
remoçaria
, as nádegas bambas de sinhá
Vitória
engrossariam
(...) Os meninos se
espojariam
na terra fofa (...). A caatinga
ficaria
verde.”
“Fabiano
ia
satisfeito.
Sim
senhor,
arrumara-se. Chegara naquele estado, com a
família morrendo de fome (...).
- Fabiano, você é
um homem
, exclamou em
voz alta.
Conteve-se, notou que os meninos estavam
perto, com certeza iam admirar-se ouvindo-o
falar só. E, pensando bem, ele não era
homem: era apenas
um cabra
ocupado em
guardar coisas dos outros.”
Capítulo 2 - Fabiano
Mostra o homem embrutecido, mas ainda capaz de analisar a si próprio. Fabiano tem consciência de sua animalização: ele mal consegue se comunicar com as outras pessoas.
Capítulo 3 - Cadeia
Aparece o soldado amarelo (autoridade governamental). Também se insinua a ideia de que não é somente a seca que oprime a pobre família. Fabiano é preso injustamente e passa a analisar sua situação de homem-bicho. Mas desta vez não tem mais coragem de sonhar com um futuro melhor.
Capítulo 4 - Sinhá Vitória
Se as aspirações do marido resumem-se em saber usar as palavras adequadas, as de Sinhá Vitória se limitam a uma cama de couro, igual à de Tomás da Bolandeira. Essa desejada cama será um motivo diversas vezes repetido no decorrer da narrativa.
Capítulo 5 - O Menino Mais Novo
Ele também possui um ideal: ser igual ao pai. O início do capítulo já diz: “Naquele momento Fabiano lhe causava grande
Capítulo 6 - O Menino Mais Velho
O nível dos desejos dos membros da família decresce cada vez mais. O ideal do menino mais velho é o de ter um amigo. A amizade da cachorra Baleia já lhe servia.
Capítulo 7 - Inverno
Temos a descrição de uma noite chuvosa e os temores que desperta na família de Fabiano. A chuva inundava tudo, quase invadia a casa deles; porém, todos sabiam que dentro em pouco a seca tomaria conta de suas vidas novamente.
Capítulo 8 - Festa
Apresenta os preparativos da família, em casa, para ir às comemorações de Natal na cidade e, em seguida, a família se dirigindo à festa. É um dos capítulos mais melancólicos do livro: as personagens centrais, em contato com outras pessoas, sentem-se mais humilhadas e ridículas. Percebem a distância a que se encontram dos demais seres.
Capítulo 9 - Baleia
Narra a sofrida morte da cachorra. Ela estava só pele e ossos, o corpo se enchera de feridas. Fabiano resolve matá-la para aliviar os sofrimentos. Os filhos, magoados, percebem a situação: “Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três,
para bem dizer não se diferenciavam.”
Já ferida e delirante, Baleia espera a morte:
“Baleia
queria
dormir.
Acordaria
feliz,
num mundo cheio de preás. E
lamberia
as
mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As
crianças se
espojariam
com ela,
rolariam
com ela num pátio enorme, num chiqueiro
enorme. O mundo
ficaria
todo cheio de preás
gordos, enormes.”
Capítulo 10 - Contas
São duas as reações de Fabiano ao se notar roubado pelo patrão: primeiro, revolta, depois conformismo. Vale a pena ressaltar um fato: é a esperta Sinhá Vitória quem percebe os erros nas contas do patrão.
Capítulo 11 - O Soldado Amarelo
Temos uma descrição mais profunda desta personagem. Observa-se que, fisicamente, é muito mais fraco que Fabiano; moralmente é uma pessoa corrupta, enquanto Fabiano é honesto; contudo, é por este respeitado e temido, por ocupar o lugar de representante do governo:
“- Governo é governo.
[Fabiano] tirou o chapéu de couro, curvou-se e
Capítulo 12 - O Mundo Coberto de Penas
A seca está para voltar, anunciando mais miséria.
Fabiano faz um resumo de todas as desgraças que
têm marcado sua vida. Há muito tempo não sonha
mais. Seus problemas agora são livrar-se de certo
sentimento de culpa por ter matado Baleia e,
finalmente, fugir de novo.
Capítulo 13 - Fuga
Continua a análise de Fabiano a respeito de sua
vida. A esposa junta-se a ele e refletem juntos pela
primeira vez. Sinhá Vitória é mais otimista e
consegue transmitir-lhe um pouco de paz e esperança
por algum tempo. E, numa mistura de sonhos,
descrenças e frustrações, termina a narrativa.
Vidas secas
começa por uma fuga e termina com
outra (assim, a narrativa é
cíclica
). No início, Fabiano e
sua família fogem da seca:
O capítulo
Fuga
descreve cena semelhante:
“Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato (...). Só lhe restava jogar-se ao mundo, como negro fugido.”
O
romance decorre entre duas situações
idênticas: a vida do sertanejo se organiza como um
retorno perpétuo.
“Entrava dia e saía dia. (...) Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram-se as suas desgraças e os seus pavores.” (cap.1 – Mudança)