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Os “nós” familiares

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Academic year: 2021

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Os “nós” familiares

Idione Mary Gonzaga Martins Luciana Helena Mussi

história infantil “Nós”, da escritora Eva Furnari (2003), conta que na pequena cidade de Pamonhas vivia uma menina de nome Mel. Ali, todas as pessoas nasciam de repolhos, mas Mel havia nascido de um repolho esquisito, mofado, um repolho repolhudo. Por conta disso, a pequena menina vivia rodeada de borboletas e era alvo de brincadeiras e chacotas por parte dos demais moradores da cidade. Todos achavam graça naquela criança estranha, e Mel simplesmente ficava triste, abaixava a cabeça e jurava para si mesma que não iria chorar.

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Um dia ela sentiu um repuxo e ao chegar em casa percebeu que os dedos do seu pé haviam dado um nó. Sim, um nó.

Infelizmente as coisas não pararam por aí, e Mel ficava com o corpo cheio de nós, de tanto segurar o choro e colecionar mágoas. A cada repuxo aparecia um nó, até que surgiu o sétimo nó, e no nariz.

Então, concluiu que os moradores de Pamonhas não eram verdadeiros amigos e decidiu abandonar a cidade, disfarçada de geladeira.

Depois de muito caminhar, cruzar montanhas e rios, e conversar com árvores e estrelas, encontrou um garoto que lhe disse: “Meu Deus, como você é linda, como são lindas as suas borboletas!”.

A princípio não acreditou nas palavras do garoto, mas quando percebeu que elas eram verdadeiras, teve uma crise de choro... E chorou, chorou, chorou... De repente, o nó que tinha na garganta desapareceu e assim descobriu que ela podia desfazer seus próprios nós. Ela chorava, chorava, mas não era de tristeza, e sim de alegria.

Atendendo ao convite do garoto, que tinha um nó no fura-bolo, a pequena menina foi morar na cidade de Merengue e descobriu que lá todos os habitantes tinham algum tipo de nó: nos braços, no pescoço, nas pernas, nas orelhas e também nasciam de repolhos repolhudos. Lá isso era coisa normal, da vida. Assim, o garoto a ensinou a desatar os seus nós; ela compartilhou com ele as suas borboletas e viveram felizes para sempre.

Os nós de todos nós

Quem de nós não guarda as lembranças da infância? Para uns, “recuerdos” calorosos, para outros, “pesadelos” amargos. Falaremos dos dois lados da moeda que apelidarei de “os nós familiares” ou “os nós de todos nós”.

Quando somos crianças e, por que não dizer, os adultos que somos hoje, tendemos a idealizar muitos dos nossos familiares. Exemplo: fulano é bonito e tímido e se completa com uma esposa gentil e filhos lindos e saudáveis. Bem, como nem tudo são flores e festa, apresentamos agora o lado sombrio da complexa “moeda familiar”.

Os pais normalmente são rigorosos, levam os filhos “no riscado”, o que quer dizer que pregam uma educação baseada dos princípios éticos e morais, do “tipo puritano”. Não perdoam pequenos deslizes dos filhos e não os poupam de boas surras.

Nesse cenário, há a avó e sua delicada relação com os filhos. Como julgar? Aqui, de fora, com nossos intrépidos olhos de juízes formados e pós-graduados, avaliamos o certo e o errado das ações de ambas as partes. “Isso é

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abuso, exploração da pobre ‘velhinha’ que construiu sua vida com sacrifício e dor”, gritamos bravamente, indignados com filhos ingratos e até perversos. Perguntamos: como lidar com ressentimentos guardados há tanto tempo? É difícil admitir o óbvio; relações familiares são sempre repletas de meandros, esconderijos, atalhos inexplorados que com os anos se potencializam em emoções tempestuosas, tornando o convívio ou a simples visita semanal um momento indigesto de olhares e falas com duplo sentido.

O dinheiro, o maldito cifrão que faz tudo piorar, aquilo que poderia ser o “descanso dos justos”, a herança deixada pelos “hoje ausentes”, passa a ser o mote para a grande crise. Novamente, perguntamos: como julgar o desconhecido das relações familiares? Os não ditos que envolvem conversas, confidências, explosões sentimentais?

Nas famílias somos todos mestres em evitar conflitos, devemos sempre manter o “status quo”, o equilíbrio do sistema. Discordar jamais. Quais palavras usaríamos que não aquelas dos extremos das emoções? Impossível!

Confortável para muitos é ver os problemas, ficar calados, tristes, magoados e se entupir de calmantes e antidepressivos. Afinal de contas, quem diz o que pensa nem sempre é querido por todos.

Mas atenção, sempre há uma maneira de “dizer” que não seja ofensiva e desrespeitosa, e ela está em algum lugar dentro de nós. Basta olhar com calma e dizer, com certa delicadeza e tolerância (algo um pouco fora de moda nos dias atuais).

E assim, os anos passam e nós, todos nós, membros de tantas famílias, sentimos os próprios “repuxos e nos enchendo de nós”. Se vocês perguntarem em que lugar se esconde os meus, os seus e os nossos, diríamos: nos pensamentos, talvez na garganta, costumeiramente nas pernas e quase sempre na alma.

Como agir para mudar o sistema?

Muitas são as respostas, a depender da experiência familiar vivida por todos e do que você realmente é. Precipitações como “é isso aí, vai em frente, alguém tem que fazer alguma coisa”, podem desembocar em mares revoltos e nervosos.

Saberíamos nadar em águas tão agitadas? Sobreviveríamos aos “nós salgados, intensos, inevitáveis”, e que , muito bem, inviabilizariam as relações futuras?

Pense que em pleno mar aberto não há quem nos socorra; quantos “repuxos” sentimos nesses dias, quantos “nós” emergem e se instalam nos nossos corpos frágeis e sedentos de apoio.

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E o que fazer com nossos “velhinhos”?

“Morar o tempo todo, não. Para passar uma temporada, tudo bem, mas viver o tempo todo, NÃO.” Muitos dizem: “exaustivo demais”. Temos que considerar essas frases, todas possíveis e que ouvimos todos os dias. Com isso, perguntamos pela terceira vez: como julgar?

Sofremos aquilo que chamamos de “decepções”, e assim nascem nós; nos meus, nos seus, nos nossos ouvidos e corações.

Para amenizar o impacto avassalador dos “nós”, choramos no ombro dos amigos, no escuro da nossa própria solidão, e continuamos fazendo o que “julgamos” estar ao nosso alcance. Mas sabemos o que está ao alcance do Outro?

Quando a demência chega à alma e ao corpo de “nossos velhinhos”, o nó familiar se torna tão forte que fugimos uns dos outros, usando interlocutores que possam mediar as discussões, um quase debate, uma disputa num ringue, em que as partes normalmente se devoram.

Passamos a discordar de praticamente tudo o que se refere aos cuidados dispensados aos mais velhos, desde como cuidar das escaras, dos remédios, das orientações à cuidadora, das comidas etc. Cada um cuida à sua maneira, sempre criticando o “oponente”.

Será que um dia os tais “nós familiares” serão desfeitos? Acreditamos que não, talvez seja a matéria-prima das relações, aquilo que as alimenta e as torna “humanas”, falíveis.

Faces da violência

Diversos são os tipos de violência contra a pessoa idosa. Dados do Módulo Idoso do Disque Direitos Humanos – DDH 100 do governo federal mostram que no período de janeiro a novembro de 2012 foram registradas denúncias na seguinte proporção: 68,7% de violações por negligência; 59,3% de violência psicológica; 40,1% de abuso financeiro/econômico e violência patrimonial, sendo para essa população o maior índice dessa violação, e 34% de violência física.

Pesquisa feita em maio/13 pelo SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) indicou que os idosos são os brasileiros mais endividados: 25,96% dos inadimplentes têm mais de 65 anos.

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Em geral, o endividamento ocorre por falta de planejamento financeiro, por maiores gastos com alimentação e saúde, especialmente com plano médico e remédios, baixa correção da aposentadoria e facilidade para obtenção de empréstimos consignados, muitas vezes feitos para familiares.

Segundo Flávio Borges, gerente financeiro do SPC Brasil, a ajuda financeira aos familiares e amigos é uma das causas da alta inadimplência dos aposentados. “Ao perceberem que a oferta de crédito é mais agressiva para esse público, as pessoas, quando precisam de dinheiro, pedem o nome do idoso emprestado”, assinala.

A questão é que nem todos os idosos sabem lidar com o mercado financeiro e acabam se tornando presas fáceis para instituições bancárias e financeiras. Outro agravante é que nem todos têm coragem de negar ajuda a um familiar, especialmente a um filho. Em nome do amor e da união da família, se endividam e até mesmo sustentam outros familiares com sua aposentadoria/pensão, à semelhança do que foi descrito no exemplo acima. É certo que nem todos os casos são iguais, que nem todos os idosos são ou se sentem lesados. É possível supor que parte desses idosos deve obter enorme prazer em ser útil, ainda que seja por meios financeiros.

O que chama a atenção é o endividamento crescente, que prejudica o individuo, mas que no extremo comprometeria a economia nacional, em função de uma possível inadimplência.

As estatísticas ajudam a perceber que não estamos sozinhos no mundo, que os nossos problemas não são únicos e, nesse caso especificamente, que o abuso financeiro é muito mais comum do que se imagina e possivelmente um grande desfazedor de laços familiares.

A pergunta que fica é: como prevenir que ocorram situações como essa?

Não há dúvida que órgãos de proteção ao idoso, como as defensorias públicas, por exemplo, são sempre bem-vindos; entretanto, quando um caso chega à justiça, os nós familiares já estão constituídos e nada, ou quase nada, é possível fazer para torná-los novamente laços esplendorosos, cheios de afeto e confiança.

À semelhança da menina da história, todos temos os nossos nós. Não é razoável pensar em uma vida inteira sem gerar nós em nós mesmos e nos

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demais, porque todos somos seres imperfeitos, nascidos de um universo complexo e “repolhudo”.

Não é que seja impossível desatar um nó, mas todos hão de convir que, dependendo da técnica e força utilizadas, trata-se de tarefa árdua. O melhor mesmo seria que contássemos com as borboletas, com os nossos melhores e mais bonitos recursos, favorecendo o diálogo, a compreensão, a solidariedade e a formação de laços familiares de proteção ao idoso.

Referências

FURNARI, E. (2003, 5ª ed.). Nós. São Paulo: Editora Global.

BRASILCON (2012). Presidência da República. Secretaria de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção de Defesa dos Direitos Humanos. Coordenação Geral dos Direitos do Idoso. Dados sobre o envelhecimento no

Brasil. Disponíveis em

http://brasilcon.org.br/noticias/Mulheres+e+idosos+s%C3%A3o+os+mais+endiv idados,+revela+pesquisa

Data de recebimento: 18/09/2013; Data de aceite: 22/10/2013. ________________

Idione Mary Gonzaga Martins – Graduada em Serviço Social pela PUC/SP,

graduada em Administração de Recursos Humanos pela FAAP/SP e pós-graduanda em Gerontologia pela PUC/SP. Email: [email protected]

Luciana Helena Mussi - Engenheira, psicóloga e mestre em Gerontologia pela

PUC/SP. Doutoranda em Psicologia Social PUC/SP. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. Email: [email protected]

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