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Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos

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Academic year: 2021

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(1)Tradução & Comunicação Revista Brasileira de Tradutores Nº. 25, Ano 2012. VALORAÇÃO, COMPROMETIMENTO E MÉRITO: CONTINUANDO UM 'IMPROVÁVEL' DIÁLOGO DE SURDOS Appraisal, engagement and valuation: sustaining an 'unlikely' dialogue of the deaf. Ladjane Maria Farias de Souza Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC [email protected]. RESUMO Este artigo constitui uma tréplica a Vian Jr (2012) e se propõe a dar continuidade ao diálogo entre linguistas sistêmico-funcionais e pesquisadores de tradução, no que concerne à tradução para o português brasileiro de termos de recentes desenvolvimentos da linguística sistêmico-funcional, particularmente os relativos ao modelo de valoração, proposto em Martin e White (2005). Para tanto, são retomadas e respondidas as críticas a Souza (2011), na ordem em que aparecem no texto de Vian Jr. Cada uma das 5 seções recebe como título uma breve citação de um trecho da respectiva seção no texto de Vian Jr, de modo a chamar a atenção para as contradições do autor e para pontos em que há possibilidade de convergência. Os argumentos oferecidos pelo autor para justificar suas preferências de tradução são refutados, a partir do esclarecimento tanto de noções básicas das teorias em questão quanto do uso de termos no português brasileiro. Palavras-Chave: tradução de termos; modelo de valoração; linguística sistêmico-funcional.. ABSTRACT This article is a rejoinder to Vian Jr (2012) and it proposes to maintain the dialogue between systemic-functional linguists and translation studies scholars in what concerns the translation, into Brazilian Portuguese, of terms belonging in recent developements of systemicfunctional linguistics, particularly the appraisal framework proposed in Martin & White (2005). To that end, it responds to criticism addressed to Souza (2011), in the same order they appear in Vian Jr (2012). Each of the original 5 sections receive as a title a short quotation from the respective section in Vian Jr (2012) as a way to spotlight contradictions in his text but also possible convergences. Vian Jr's arguments in favour of his translation choices are rebutted by means of a reddressing of fundamental concepts in the theories concerned as well as of the use of terms in current Brazilian Portuguese. Anhanguera Educacional Ltda. Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 4266 Valinhos, São Paulo CEP 13.278-181 [email protected]. Keywords: translation of terms; appraisal framework, systemic-functional linguistics.. Coordenação Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Debate Recebido em: 14/02/2013 Avaliado em: 26/02/2013 Publicação: 11 de abril de 2013. 121.

(2) 122. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. 1.. INTRODUÇÃO1 Este artigo constitui uma tréplica a Vian Jr (2012) e se propõe a dar continuidade ao que o autor chama “diálogo improvável” e, preconceituosamente, “diálogo de surdos” entre linguistas sistêmico-funcionais e pesquisadores de tradução, no contexto brasileiro. Tratase de um diálogo relevante, dada a impossibilidade de se fazer uso de qualquer teoria estrangeira independentemente de sua tradução para a língua/cultura que a importa. Trata-se também de uma oportunidade rara de discutir a tradução de termos de uma teoria estrangeira com uma comunidade que se dedica ao estudo da tradução. Além do mais, o momento é propício a esse debate, uma vez que as teorias são recentes e recémchegadas ao Brasil. Se os termos em questão tivessem um “uso já consagrado”, como pretende Vian Jr (2012, p. 107), eles não fariam parte de uma “lista de discussão” e não precisaríamos gastar nosso escasso tempo escrevendo artigos como este. Para continuar o diálogo proposto, respondo a seguir às críticas de Vian Jr (2012) na ordem em que aparecem em seu texto. Considerarei, portanto, sua divisão em 5 seções. Cada seção traz como título uma breve citação de um trecho da respectiva seção no texto de Vian Jr (2012). Essas citações-título chamam a atenção para contradições no texto do autor e para pontos em que há possibilidade de convergência. No final de cada seção, essas citações-título são retomadas e comentadas.. 2.. “SUPOSTAS VISÕES DE TRADUÇÕES [SIC] (...) NÃO ESTÃO RELACIONADAS QUER AO FOCO DO TEXTO, À LSF, À AVALIATIVIDADE OU À INSTANCIAÇÃO” (VIAN JR, 2012, P. 107) Em sua Seção 1, Vian Jr (2012) revela não ter percebido a relevância de considerar a 'visão de tradução' de quem traduz ao discutir determinada tradução. Mais especificamente, ele não entende por que, para discutir suas escolhas de tradução, em Souza (2011), parto de uma leitura da visão de tradução que levou Vian Jr (2009) a se posicionar com relação ao uso de termos da LSF no Brasil e a fazer suas sugestões. A resposta a tal indagação já se encontra no resumo em que Souza (2011) define o “foco” do artigo: abordar “a questão da tradução para o português brasileiro de termos do appraisal framework” por meio de um diálogo com Vian Jr (2009) baseado na ideia de que “existe uma relação intrínseca entre o ato de traduzir, a visão do que é tradução e a visão do que é língua” (SOUZA 2011: 73). Ou seja, tais visões não apenas estão. 1. Agradeço a Markus Weininger pela leitura do manuscrito.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(3) Ladjane Maria Farias de Souza. 123. relacionadas mas constituem o foco do artigo, que considera que quem traduz (e VIAN Jr (2009) se propõe a traduzir os termos em questão) o faz a partir de sua visão do que é traduzir. E, sendo a tradução primariamente uma operação entre línguas, quem traduz o faz também a partir de sua visão do que é língua (e VIAN Jr (2009) se propõe a adotar a visão sistêmico-funcional (SF) de língua). Na realidade, as visões de tradução e de língua, nesse caso, tornam-se ainda mais relevantes para a discussão proposta, uma vez que a tradução diz respeito a termos da teoria que embasa a visão de língua, isto é, a LSF. Também no resumo já está a referência ao modelo teórico no qual está ancorada a reflexão sobre as críticas e propostas feitas em Vian Jr (2009) - o modelo de tradução como re-instanciação interlingual. Ao contrário do que afirma o autor, apesar de ainda não muito divulgado esse modelo não é inédito. Ele: 1) foi proposto em minha tese de doutorado (SOUZA, 2010), orientada pelo professor Jim Martin da Universidade de Sidney; 2) constituiu o tema exclusivo de um curso ministrado em 2011 na pós-graduação em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina, e 3) foi apresentado como palestra plenária convidada no 39° International Systemic Functional Conference [Conferência Internacional de Linguística Sistêmico-Funcional2] realizado em Sidney em julho de 2012. Segundo esse modelo as visões de tradução e de língua fazem parte do repertório3 de quem traduz. Em outras palavras, a tradução é nele concebida como uma renegociação de significados proposta pelo(a) tradutor(a) segundo seus repertórios nas línguas/culturas envolvidas. Vian Jr (2012) afirma também que esse modelo não é apresentado ao leitor “em momento algum” (p. 107, 110), o que mostra o quão truncada foi sua leitura, pois saltou toda a Seção 1.1 (páginas 74 a 77) na qual o modelo é brevemente descrito. Ao contrário do que indica a citação-título desta seção, a visão de tradução e a de língua de quem traduz estão diretamente relacionadas ao foco do artigo Souza (2011), aos termos “LSF”, “avaliatividade” e “instanciação” e às teorias que eles nomeiam. Quanto a estes, pelo simples fato de que são termos traduzidos de teorias importadas. No final da Seção 1, Vian Jr (2012) aponta seus 2 objetivos: “(1) reforçar os argumentos apresentados em Vian Jr (2009) e (2) apontar as posturas com caráter. Salvo indicação em contrário, todas as traduções a partir do inglês, acrescentadas entre colchetes, são de minha autoria. O conceito de repertório foi proposto pelo sociólogo Basil Bernstein como “o conjunto de estratégias e seu potencial analógico possuído por qualquer indivíduo” (BERNSTEIN 2000 [1996]: 158). Esse conjunto compreende “regras de reconhecimento”, que são as habilidades do falante de reconhecer contextos (por exemplo, que está em uma aula de sociologia), e “regras de realização”, que são as habilidades do falante de produzir textos adequados a cada contexto específico (por exemplo, textos no contexto da sociologia). Cf. MARTIN 2010: 24. 2 3. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(4) 124. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. colonialistas [sic] e enviesadas [sic] da autora” (p. 108). A seguir, passo a analisar o modo pelo qual ele buscou fazer isso.. 3.. “PARA QUE ESTE PONTO FIQUE CLARO...” (VIAN JR 2009: 109) Na Seção 2, Vian Jr (2012) se propõe a discutir a noção de instanciação, uma vez que ela “está diretamente relacionada às questões debatidas” em Vian Jr (2009) e em Souza (2011). Seu objetivo parece ser “que se compreenda a noção de instanciação da LSF” (p. 108). Digo 'parece' porque, ainda que afirme isso, o que oferece é, principalmente, uma miscelânea de: a) referências a textos de autores de destaque na LSF, principalmente Halliday; b) referências a seu texto de 2009, principalmente ao que diz ter sido seu ponto de partida - o “fenômeno” observado em “muitos dos estudos em LSF no Brasil” de “não levar em conta a visão estratificada da LSF” (ibid.) e ao “objetivo” do texto - “explorar o potencial da teoria sistêmica para a língua portuguesa” (ibid.) c) críticas ao texto de Souza (2011) - a seu método, sua legibilidade, sua leitura de Vian Jr (2009). Mais para o fim da Seção 2, o autor volta a se referir à noção de instanciação ao apontar supostas “impropriedades” de minha leitura de seu texto. Tal impropriedade se refere ao fato de Souza (2011) ter apontado a confusão de Vian Jr (2009) entre a escala de instanciação de Halliday e Matthiessen (1999, 2004), composta de 3 níveis - sistema, registro/tipo de texto e texto (cf. HALLIDAY e MATTHIESSEN 2004: 28), e a de Martin e colegas, composta de 5 níveis - sistema, gênero/registro, tipo de texto, texto e leitura (cf. Martin e White 2005: 25). Em sua defesa, Vian Jr (2012) enfatiza que o modelo de instanciação proposto por Martin e colegas é derivado do de Halliday e Matthiessen, aparentemente contra-argumentando que tais modelos se sobrepõem e que tanto faz citar um ou outro. Segundo Vian Jr (2012), “Martin & White estão usando o que já fora proposto na teoria sistêmico-funcional” e o que Souza (2011) chama de o modelo de instanciação desses autores não passaria de uma mera “releitura ampliada e crítica (...) do que fora proposto anteriormente” (p. 111). Entretanto, ainda que derivada de Halliday e Matthiessen, a escala de Martin e colegas dela se distingue principalmente por: a) acrescentar a noção de gênero como um subpotencial e posicioná-lo no mesmo nível que o registro, e b) acrescentar um nível além do nível do texto, o da leitura, que passa a ser o polo extremo da escala. Essas mudanças são bastante significativas e representam um avanço na teorização e aplicação do conceito de instanciação na LSF. Segundo Martin (2010, p. 19), trata-se de uma hierarquia “severelly undertheorized” [severamente sub-. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(5) Ladjane Maria Farias de Souza. 125. teorizada] quando comparada à hierarquia de realização. E uma das principais vantagens da “releitura” de Martin é a de possibilitar uma mudança no foco de pesquisa da LSF - do sistema, estudado e teorizado nas 6 últimas décadas, para os usos e usuários da língua (cf. MARTIN, 2009, p. 555, 556). Como se essa confusão não fosse bastante, Vian Jr (2012) continua a defender a Figura 1 (v. Figura 1 abaixo), que ofereceu em 2009 como a representação de duas “escalas” - a da língua e a do texto (p. 103, 104). Ele agora descreve-a como sendo “a justaposição da Tabela 4.1, apresentada em Martin e White na página 163 e a Tabela 4.2 da página 164” (2001: 111). Porém, até onde sei, nem esses autores nem qualquer outro sistemicista distingue duas escalas, uma da língua e outra do texto. Nem poderiam, uma vez que a noção de instanciação é a da existência de um continuum entre sistema e texto em que tudo é um só fenômeno - a língua. O que varia é a percepção do pesquisador de acordo com seu ponto de observação na escala - tomará a língua como sistema, ou como gênero/registro, ou como tipo de texto, como texto ou como leitura. A suposta justaposição entre as tabelas oferecidas por Martin e White (2005) é algo inviável, uma vez que a Tabela 4.2 (v. Tabela 1 abaixo) é já uma sobreposição - entre, de um lado, os níveis da escala de instanciação proposta por esses autores na Tabela 4.1, e, de outro, o sistema de valoração como potencial global, como subpotenciais e como significado avaliativo subjetivado. A Tabela 4.2 é, na realidade, a escala de instanciação “as it applies for evaluation” [enquanto aplicada à valoração] (MARTIN e WHITE 2005: 163). Vian Jr (2012) afirma que os termos de sua figura “não foram propostos por Vian Jr, são a tradução para o português do que apresentam os autores” (p. 111). Confrontemos, pois, a tradução de Vian Jr (2009, 2012) e a Tabela 4.2 de Martin e White (2005) (v. Figura 1 e Tabela 1). LÍNGUA. TEXTO. Sistema. Avaliatividade. Registro. Seleção. Tipo de texto. Posicionamento. Instância. Avaliação. Leitura. Reação. Figura 1. A Figura 1 em Vian Jr (2009) cuja legenda é: “Escala de instanciação: do Sistema para a leitura e da Avaliatividade para a Reação” (p. 104). Além da diferença relativa à especificação do significado dos termos escolhidos para nomear os níveis da escala em português e em inglês (esses últimos levando vantagem por oferecer 'termo + descrição'), chamo a atenção para o fato de que as duas Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(6) 126. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. representações propiciam construções bastante diferentes do que seria a escala de instanciação aplicada à valoração. Como visto acima, Vian Jr (2009, 2012) propõe um desmembramento da escala de Martin e White em duas escalas - uma da língua e uma do texto, de modo que o texto que em Martin e White encontrava-se no nível da instância - a avaliação sendo definida como a “instantiation of evaluative options in a text” [instanciação de opções avaliativas em um texto] - agora está não apenas nesse nível mas em todos os outros, constituindo outra escala paralela!!! Tabela 1. Escala de instanciação aplicada à valoração segundo MARTIN e WHITE (2005, p. 164) Cline of instantiation - evaluation 1. appraisal (system) - the global potential of the language for making evaluative meanings, eg for activating positive/negative viewpoints, graduating force/focus, negotiating intersubjective stance 2. key (register) - situational variants or sub-selections of the global evaluative meaning making potential - typically reconfiguration of the probabilities for the occurrence of particular evaluative meaning-making options or for the co-occurrence of options 3. stance (text type) - sub-selections of evaluative options eithin text; patterns of use of evaluative options within a given 'key' associated with particular rhetorical objectives and the construction of authorial personae 4. evaluation (instance) - instantiation of evaluative options in a text 5. reaction (reading) - the take-up of evaluative meanings in a text according to the lestener/reader's subjectively determined reading position; the attitudinal positions activated by the reader as a result of their interaction within the text. Mas o pior é o(a) leitor(a) desse texto se perguntar a essa altura: o que é que o autor acredita ter provado com essa figura inusitada? Que o termo “avaliatividade” é mais adequado para traduzir o termo appraisal, no nível do sistema da escala de Martin e White (2005), porque esse termo 'asseguraria' a qualquer usuário dessa teoria, mesmo e principalmente o iniciante, um entendimento imediato de que se trata de “todo o potencial que a língua oferece para realizarmos significados avaliativos” (p. 103)? E, de modo análogo, que o termo “avaliação” remete 'claramente' à “instanciação das opções avaliativas (...) no texto” (ibid.)? Além de não haver nenhuma conexão semântica imediata no português entre os pares de termos avaliatividade e sistema, e avaliação e texto, tal conexão fica ainda mais remota quando a Figura 1 coloca o potencial de significados avaliativos no que Vian Jr (2009) chama de a “escala do texto”. Para finalizar a Seção 2, Vian Jr (2012) passa a defender a metáfora alternativa que usou para explicar o conceito de instanciação - a relação entre a farinha e os pães no contexto de uma padaria. Essa metáfora, a meu ver, simplifica em excesso a relação entre sistema e texto tornando-se contraproducente. O autor justifica seu uso remetendo à suposta limitação daqueles que “iniciam seus estudos em LSF” (p. 112), no contexto do Nordeste brasileiro, com relação ao entendimento da relação entre clima e tempo,. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(7) Ladjane Maria Farias de Souza. 127. metáfora proposta por Halliday. Tal limitação se deveria ao fato de que, nesse contexto, “há mínima variação climática, pois o clima é praticamente o mesmo o ano todo” (ibid.). Porém, ainda que tal limitação existisse, sua metáfora não constitui, como acredita Vian Jr (2012) uma 'nova' maneira de se compreender o conceito, mas, sim, uma maneira de representar um conceito diferente (se é que se pode dizer isso!) de instanciação. Se seguirmos as implicações da nova metáfora, concluiremos que sistema e texto não constituem “the same phenomenon seen from different standpoints of the observer” [o mesmo fenômeno visto de diferentes pontos de vista do observador] (HALLIDAY E MATTHIESSEN, 2004: 26, 27), que é a ideia subjacente ao conceito em questão. O pão nessa metáfora já é uma generalização, do mesmo modo que a farinha. Não se poderia ver um pão como farinha apenas se distanciando dele em termos de generalidade, que é a base da noção de instanciação (cf. MARTIN 2010: 17). A farinha não é um pão em um nível máximo de generalidade. Nem o pão, uma farinha em um nível máximo de especificidade. Com relação à suposta dificuldade de se usar a metáfora proposta por Halliday clima/tempo - no contexto de ensino de Vian Jr, o que importa para o entendimento do conceito de instanciação por meio dela não é a quantidade de variação no clima, mas sim o fato de que há variação, por mínima que seja. Talvez uma variação menor seja até mais propícia ao entendimento da relação entre clima (sistema) e texto (tempo), uma vez que a variação só poderá ser percebida a longo prazo. Por exemplo, quando visitei o Forte dos Três Reis Magos em Natal/RN, o guia turístico brincou a respeito do clima da cidade: seriam 4 as estações por lá: “verão, quentura, calor e mormaço”. Porém, apontou, de imediato, a mínima recorde de 15° em junho de 1959. Nesse cenário, poderíamos dizer que o clima (sistema) é caracterizado como “quente” porque dentre todas as temperaturas diárias durante o ano (textos), considerando-se um longo período (décadas, séculos), muito poucas estiveram abaixo do que é considerado quente. E é a partir do clima (sistema), isto é, dos padrões que se tem definido através dos séculos, que as previsões são feitas (v. Tabela 2). Mas isso não quer dizer que não houve dias atípicos (textos). Esses dias entram também na contabilidade e, caso eles venham a se tornar mais frequentes (alterando o padrão climático), talvez daqui a muitos anos, os guias sintam a necessidade de contar outra piada.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(8) 128. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. Tabela 2. Escala de instanciação aplicada à valoração segundo MARTIN e WHITE (2005, p. 164). CLIMA (o que se espera segundo os padrões climáticos) máxima recorde para o mês mínima recorde para o mês 38° 20° média das máximas média das mínimas 31° 23° média diária para o mês 27° previsão para 08/fev/2013: ensolarado, mínima 25° máxima 32° TEMPO (o que acontece) dia 08/fev/2013. ensolarado 30° às 17:34 mínima 25° máxima 31°. Ao contrário do que indica a citação-título dessa seção, Vian Jr (2012) não consegue deixar clara a noção de instanciação a partir de seu texto, suas citações, metáforas e figuras.. 4.. “É ESSA A POSTURA QUE ADOTO PARA DISCUSSÃO DAS TEORIAS PROPOSTAS EM LÍNGUA INGLESA (...) UMA POSTURA PÓS-COLONIAL E PÓS-CRÍTICA (...) COMO TEM SIDO FEITO NA APLICAÇÃO DOS PRECEITOS DA LSF EM LÍNGUA PORTUGUESA” (VIAN JR, 2012, P. 113) Na Seção 3, Vian Jr (2012) aponta sua suposta postura “pós-colonial e pós-crítica” com relação à teoria de Martin e White (2005) (p. 113) e me acusa de adotar uma postura “colonialista extremada” em que eu estaria colocando “a teoria em um patamar de dogma, não passível de ser discutida ou questionada” (p. 112). Para distinguir tais posições diametralmente opostas com relação às teorias da LSF e, particularmente de Martin e White (2005), Vian Jr (2012) toma do antropólogo García-Canclini (1995) os conceitos de “hibridização”, “descoleção” e “desterritorialização”. Aparentemente, o autor acredita que seu artigo de 2009 constitui uma teoria híbrida, uma LSF brasileira, um novo modelo para os recursos de valoração, uma vez que, para ele, “descolecionar” significa aceitar/usar essas teorias de modo crítico e “desterritorializar” significa posicioná-las em um novo “contexto socio-cultural” (cf. p. 113). No entanto, além de suas palavras, que evidências o autor oferece dessa sua posição “pós-colonial e pós-crítica”? Que crítica ele faz ao modelo de língua em questão? Que elementos de sua cultura Vian Jr (2009) usa para apresentar e discutir os conceitos propostos? A metáfora “farinha-pão”?! Caso se encontrassem respostas convincentes para essas perguntas, eu perguntaria, então, se Vian Jr (2012) está de fato propondo outra teoria “híbrida”, porque então sua preocupação com a tradução de termos da teoria proposta por Martin e White (2005)?. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(9) Ladjane Maria Farias de Souza. 129. Em 2011, apontei para a possibilidade de se concluir que Vian Jr (2009) estaria usando o termo “Avaliatividade” para se referir a algo diferente do sistema que Martin e White (2005) chamam de “appraisal”, quando ele descreve tal sistema como “três tipos de recursos à nossa disposição para indicarmos as realizações léxico-gramaticais em subsistemas (...)” (p. 114). Seria um sistema léxico-gramatical? Essa interpretação é corroborada pelo que vem em seguida: “O que se observa na proposta de Martin e White (2005) é que os autores pretendem desenvolver um sistema semântico-discursivo para a avaliatividade (...) (VIAN Jr 2009: 114). Ora, um sistema léxico-gramatical estaria talvez (?) a caminho de uma possível hibridização da teoria estrangeira. No entanto, essa interpretação se invalida diante das várias vezes em que o autor se refere ao sistema de avaliatividade como sendo “proposto” ou “estabelecido” ou “sugerido” por Martin e White (2005), portanto, o termo é mesmo uma sugestão de tradução do termo appraisal e não o nome de um outro sistema. Bem, até agora, nenhuma evidência da postura “pós colonial e pós-crítica” de Vian Jr (2012). Vamos tentar por outro lado. O autor me acusa de estar no polo oposto - o de um “colonialismo extremado” (p. 112). A evidência que ele oferece disso é Souza (2011) ter citado e sublinhado os trechos que acabei de citar e sublinhar novamente. Ao invés de perceber a intenção de mostrar que os trechos dão margem à interpretação de que o sistema de Vian Jr (2009) e o de Martin e White (2005) estariam em estratos diferentes, Vian Jr (2012) entendeu a segunda citação e a ênfase acrescentada como se eu estivesse indicando o meu incômodo com a expressão “pretendem”. Souza (2011), que estaria tratando a teoria como um “dogma”, como “a verdade absoluta, que não deve ser questionada” (p. 113), estaria demonstrando seu “claro incômodo” (p. 113) com o fato de Vian Jr (2009) estar apontando (por meio do uso de “pretendem”) que a teoria de Martin & White (2005) não é algo acabado. O autor afirma que A postura colonialista de Souza é reforçada pelo seu claro incômodo (Souza, 2011: 82) em relação à afirmação de Vian Jr (2009: 114) de que os autores “pretendem” desenvolver um sistema. Ora, se uma teoria está em construção há algum tempo, se os autores procedem a mudanças em seu modelo, se propõem novos termos para outros outrora utilizados, é sinal de que eles “pretendem” construir uma teoria, que está em constante evolução (VIAN JR, 2012: 113).. É essa a evidência apresentada por Vian Jr (2012) para sua posição “póscolonialista” em contraste com a minha posição “colonialista extremada”? É no uso de “pretendem” ou na sua suposta rejeição que se evidenciam as posturas? Ainda que supuséssemos ser essa mesma a situação, será que Garcia-Canclini (1995) aceitaria esse critério? Quanto ao uso de “pretender” definido por Vian Jr, eu me pergunto por que ele não diz que Halliday “pretende” desenvolver tal conceito ou teoria, uma vez que também Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(10) 130. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. a LSF está em desenvolvimento, como atesta sua disposição em “explorar o potencial da teoria sistêmica” (p. 109), seguindo o conselho do próprio Halliday? Ao invés disso, Vian Jr prefere dizer “como preceitua a teoria sistêmico-funcional de Halliday (...)” (2009: 113); “o que preceitua Halliday (1994)” (p. 114). Preceituar? Preceito? Dogma? Mas isso parece estar resvalando para uma postura “colonialista extremada”!! A propósito, uma vez que Vian Jr (2012) se mostra tão conhecedor dos “preceitos” da LSF, eu gostaria que ele esclarecesse em que trecho da gramática funcional eu posso encontrar: 1). “todos os princípios de uma teoria funcional de linguagem” (p. 115, acredito que ele se refere à LSF!) que ensinam o modo correto de se usar uma teoria ao invés de se tratá-la como algo “totêmico, intocável” (p. 115);. 2). os “princípios do funcionalismo” referentes à proibição do uso do dicionário na tradução. Vian Jr (2009) também fere esses princípios quando aponta o sentido do termo 'valorar' em português (p. 102) e quando elenca os sinônimos de 'avaliar' em português (p. 124) ao defender suas escolhas de tradução?. 3). Halliday ou qualquer outro sistemicista afirmando que a palavra do dicionário é uma “palavra morta” (p. 116).. Com relação à Seção 3, eu só pediria mais um esclarecimento: insistir tanto na ideia de que ser pós-colonialista é perceber as teorias como algo inacabado e passível de críticas e reformulações e em seguida afirmar que (...) não se podem discutir termos, quaisquer que sejam, a partir de visões pessoais ou preferências a este ou àquele termo sem levar em conta o consenso da comunidade e, em uma comunidade, mesmo havendo divergências, um pode eventualmente dominar (VIAN JR, 2012, p. 116, minha ênfase). A comunidade procura sim um termo ideal, independentemente de alguns aprovarem a opção feita ou não. Com a experiência, aprendemos que não é uma questão de gostar ou não, mas de aceitar o que é consensual, quando se encontra um consenso (VIAN JR, 2012, p. 117, minha ênfase).. é contraditório ou é simplesmente mais uma faceta da postura pós-colonialista de Vian Jr (2009, 2012)? Que comunidade “pós-colonialista” é a de Vian Jr (2012) que não aceita sugestões de “neófitos”, mas apenas de autoridades, isto é, “membros da comunidade (...) familiarizados com a teoria e com sua aplicação” (p. 106). Ou seja, Vian Jr pode se incomodar e dar sugestões, outros não. A propósito, observemos o modo como o autor justifica seu artigo de 2009: Tendo esse cenário como pano de fundo [as listas de discussão de termos da LSF], e incomodado com o uso do termo appraisal em português, produzi em 2009 (...) o texto em que defendo o uso do termo avaliatividade como possível correspondente em língua portuguesa, em detrimento de outros que estavam sendo usados (VIAN JR, 2009, p. 106).. Isso tudo me leva a refletir: será que os adjetivos “colonialista, enviesado, intransigente e monoglóssico” que o autor atribui ao posicionamento de Souza (2011) não estariam mais adequados a descrever a comunidade construída em Vian Jr (2012) como Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(11) Ladjane Maria Farias de Souza. 131. evidenciam os trechos acima? Digo a 'comunidade construída' em seu texto porque outra comunidade de pesquisadores, da qual faço parte, deu um exemplo ímpar de abertura e inclusão ao convidar para apresentar conferências plenárias em seu principal evento anual (a International Systemic Functional Conference [Conferência Internacional de Lingúistica Sistêmico-Funcional]) jovens pesquisadores desenvolvendo pesquisas de ponta nos diversos contextos de aplicação da LSF. Entre eles(as), estava Souza (2012), que aceitou o convite e apresentou seu modelo SF de tradução. Quanto ao meu posicionamento em Souza (2011), tenho mais uma pergunta: se eu não levasse em conta a comunidade “em LSF no Brasil” (VIAN Jr, 2012, p. 116), ou se fosse possível, a mim ou a quem quer que seja, “impingir” ou “impor” (cf id., p. 116, 117) escolhas de tradução a toda uma comunidade de pesquisadores de LSF, por que eu estaria escrevendo artigos? Bastaria um simples decreto! Dizer que Souza (2011) é “monoglóssico” é não ter a menor noção do que o termo significa. Meu texto usaria recursos de monoglossia se ele ignorasse quaisquer outras vozes, outras possibilidades de tradução. Para facilitar o entendimento das implicações de tal adjetivo, tomemos o resumo de Souza (2011). Se ele fosse monoglóssico se reduziria apenas a: “Este artigo aborda a questão da tradução para o português brasileiro de termos do appraisal framework proposto por Martin e colegas, no começo dos anos 2000, no âmbito da linguística sistêmico-funcional (LSF)”. Todo o restante do resumo, como o artigo do qual faz parte, é heteroglóssico, uma vez que traz para dentro de si muitas outras vozes. E, se considerarmos que não só retoma mas rejeita as propostas de Vian Jr (2009), teremos que caracterizá-lo não apenas como heteroglóssico mas posicioná-lo no mais alto grau de heteroglossia - o do distanciamento (cf. SOUZA, 2011, p. 86; MARTIN e WHITE, 2005, p. 103, 104, 113; SOUZA 2010, p. 49, 51). Em suma, ao contrário do que indica a citação-título dessa seção, Vian Jr (2012) não adota uma postura “pós-colonial” e “pós-crítica”, segundo suas próprias definições, uma vez que ele nem “descoleciona”, isto é, critica as teorias que vêm de fora, nem as “desterritorializa”, isto é, posiciona-as em um novo contexto cultural. Ao tentar defender suas escolhas de tradução, ele sequer segue o exemplo que oferece de tal postura - as pesquisas sobre “as diferenças entre o português e o inglês no que diz respeito a tema/rema” (p. 113). Tais pesquisas, como em tese toda aplicação das ferramentas de descrição e análise oferecidas pela LSF a sistemas linguísticos/culturais que não o inglês, apontam diferenças/semelhanças entre sistemas e, em geral, propõem modificações ou “extensões” aos sistemas de escolhas propostos para o inglês. Isso não representa nenhuma “hibridização” da teoria, mas antes a confirmação de sua estabilidade e. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(12) 132. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. flexibilidade. Em outras palavras, nenhum conceito da LSF foi alterado ou substituído por conceitos “brasileiros” nessas pesquisas. E nem mesmo semelhante “confirmação” é realizada por Vian Jr (2009, 2012) em sua discussão da tradução para o português de termos do sistema proposto em Martin e White (2005). É difícil imaginar como isso ocorreria, uma vez que Vian Jr não se propôs a discutir possibilidades de tradução a partir de descrições do inglês e do português, nem a partir de análises SF de textos.. 5.. “TAIS ESCOLHAS NÃO FORAM FEITAS POR MERO CAPRICHO OU DE MODO ALEATÓRIO. ELAS LEVARAM EM CONTA OS PRINCÍPIOS DA LSF DE HALLIDAY, OS ESTUDOS DE DISCURSO DE MARTIN (1992), MARTIN E ROSE (2003, 2005) E MARTIN E WHITE (2005)” (VIAN JR, 2012, P. 118) Na Seção 4, Vian Jr (2012) finalmente passa a tratar de seu primeiro objetivo, anunciado na sua Seção 1: “(1) reforçar os argumentos apresentados em Vian Jr (2009)” em favor de suas escolhas de tradução (p. 108). Na realidade, o autor apresenta como argumento um suposto “axioma geral do funcionalismo”, proposto por Malinowski (2009, p. 161) e “transposto” por Vian Jr para a LSF, segundo o qual “a cultura” é um conjunto uno em que os vários elementos são interdependentes” (apud VIAN JR, 2009, p. 117). O que Vian Jr (2012) considera como transpor esse “axioma” para a LSF é considerar as relações entre os diversos sistemas da língua. Ou seja, para Vian Jr (2012), o sistema de Martin e White (2005) possui relação de interdependência com engajamento que, por sua vez, tem relação de interdependência com valoração, sendo que todos fazem parte de um único sistema discursivo, o sistema de avaliatividade, que, por sua vez, funciona em harmonia com os outros cinco sistemas discursivos (VIAN JR, 2012, p. 117, 118).. Note-se que o que Vian Jr (2012) está chamando de “engajamento” e “valoração” aí corresponde ao que Martin e White chamam de engagement e valuation. Para tentar entender o que seria, segundo Vian Jr no trecho acima, uma relação de interdependência entre sistemas no âmbito da LSF, cito Halliday (2009), quando define os tipos de relação entre sistemas. Para Halliday, the network recognizes only two states for the relationship between a pair of associated systems: either one system is fully dependent on the other (...) or the two are simultaneous but fully independent (...) [a rede reconhece apenas dois estados para a relação entre um par de sistemas associados: ou um sistema é totalmente dependente do outro (...) ou os dois são simultâneos porém totalmente independentes (...)] (HALLIDAY 2009, p. 69).. Os dois tipos de relação mencionados por Halliday são representados na Figura 2. Tomando as definições de Halliday (2009), concluiremos, primeiramente, que entre sistemas não existem relações de “interdependência”, o que implicaria a situação em que. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(13) Ladjane Maria Farias de Souza. 133. ambos os sistemas constituiriam ponto de entrada para o outro! Ou seja, escolhas do sistema a dependeriam de escolhas do sistema b e vice-versa!! Mas, e se Vian Jr (2012) apenas se expressou mal e queria dizer relação de dependência? Vejamos. Então, o sistema de Martin e White seria dependente do sistema de “engajamento” que, por sua vez, seria dependente do sistema de “valoração”. Comparemos isso com a representação do sistema oferecida em Martin e White (2005, pp. 38, 56). De acordo com a Figura 3, o sistema de appraisal é composto por três sistemas simultâneos. Podemos dizer também que cada um dos três sistemas, entre os quais o de engagement é dependente do de appraisal, isto é, se um usuário escolhe construir um enunciado avaliativo, ele terá três opções mais gerais para fazê-lo. Isso é o inverso do que diz Vian Jr (2012)! Quanto ao sistema de valuation, ele é dependente do de appreciation, que é dependente do de attitude, que é dependente do de appraisal. Portanto, mais uma vez, observa-se o contrário do que diz Vian Jr - o sistema de engagement não é dependente do sistema de valuation. Os dois sistemas são independentes um do outro.. a. a. x há um sistema x/y com condição de entrada a [se a, então x ou y]. y x y. há dois sistemas "simultâneos x/y e m/n ambos com condição de entrada a [se a, então ambos (i) x ou y e (ii) m ou n]. m. n Figura 2. Sistemas dependentes e sistemas simultâneos4 (cf HALLIDAY 2009, p. 84). 4. Minha tradução. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(14) 134. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. ENGAGEMENT. monogloss heterogloss. APPRAISAL. AFFECT ATTITUDE . JUDGEMENT. REACTION. APPRECIATION. COMPOSITION VALUATION. GRADUATION. FORCE FOCUS. Figura 3. O sistema proposto por Martin e White (2005, baseada na Figura 1.18, p. 38 e Tabela 2.8, p. 56). Bem, mas talvez Vian Jr (2012) esteja apenas argumentando que todos esses sistemas estão correlacionados enquanto partes de sistemas cada vez mais abrangentes. Se é isso, podemos concordar que é importante considerar o todo ao traduzir os termos referentes às partes para que não haja confusão, principalmente quando o texto de partida já usa termos sinônimos ou pertencentes a um mesmo campo semântico. No entanto, isso não evidencia a suposta vantagem do termo proposto sobre outras alternativas para nomear o sistema de Martin e White (2005). Não é simplesmente porque esse sistema foi desenvolvido a partir do arcabouço da LSF e está correlacionado a outros sistemas que o termo sugerido se torna o mais adequado! Ao contrário do que afirma a citação-título desta seção, ao que tudo indica, Vian Jr (2012) não baseia suas escolhas de tradução em princípios teóricos encontrados nos autores citados mas sim em um suposto “axioma geral do funcionalismo” que teria sido “transposto” por ele para a teoria sistêmico-funcional. Tal “axioma”, como visto acima, não é válido como argumento em favor das escolhas de Vian Jr.. 5.1. “isso basta para explicar minha escolha...” (VIAN JR, 2012, p. 119) Na Seção 4.1, Vian Jr (2012) confirma minha suspeita de que o termo “avaliatividade” foi cunhado a partir de “transitividade” [transitivity]. Na LSF, transitividade é o nome do sistema de escolhas de significados ideacionais no estrato léxico-gramatical, que possibilita aos falantes organizarem o fluxo de eventos do mundo da experiência em combinações. de. Processos,. Participantes. e. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143. Circunstâncias. (cf.. HALLIDAY. E.

(15) Ladjane Maria Farias de Souza. 135. MATTHIESSEN, 2004: 170). Tal termo foi adotado na LSF a partir da gramática tradicional. Segundo Hopper e Thompson (1980), Transitivity is traditionally understood as a global property of an entire clause, such that an activity is 'carried over' or 'transferred' from an agent to a patient [A transitividade é tradicionalmente entendida como uma propriedade global de toda uma oração, de modo que uma atividade é 'transportada' ou 'transferida' de um agente a um paciente] (HOPPER e THOMPSON, 1980, p. 251).. A LSF toma a noção, originalmente definida a partir dos Processos materiais, e propõe um sistema de escolhas que compreende diversos tipos de Processo5 e seus respectivos modelos “for construing a particular domain of experience” [para a construção (linguística) de uma determinada área da experiência] (cf. HALLIDAY e MATTHIESSEN, 2004, p. 170, 171). Em outras palavras, a ideia por trás do termo e do sistema que ele nomeia é a de que o Processo é o elemento primordial na construção de orações, uma vez que a partir dele é que são determinadas as escolhas possíveis de outros elementos que vão, em conjunto, permitir a construção de um “going-on” [evento] ou “quantum of change” [quantum de variação] da experiência vivida como um arranjo linguístico ou 'figura' (cf. ibid.).. Transitividade, portanto, refere-se ao “trânsito” do. significado entre os elementos da oração, ao modo pelo qual cada tipo de Processo estabelece articulações com outros elementos específicos para que o significado flua e se complete. Cada Processo será “transitivo” de um modo particular, isto é, exigindo determinados outros itens para moldar linguisticamente determinado evento. Voltando à sugestão de Vian Jr (2009, 2012), e considerando o exposto acima, podemos afirmar que um sistema chamado “avaliatividade” pressuporia um elemento básico no nível da oração (comparável ao Processo) em torno do qual tal sistema se organizaria. Esse elemento seria talvez o ponto de entrada para as diversas opções de construção de orações avaliativas. E, à semelhança do Processo no sistema de transitividade, cada um de tais elementos seria “avaliativo” de um modo particular. Infelizmente, essa correlação não é viável devido a diferenças entre o sistema de transitividade e o sistema proposto em Martin e White (2005) com relação a três aspectos (v. Tabela 3). Enquanto o sistema de transitividade é um sistema de significados ideacionais, no estrato da léxico-gramática, e se realiza por meio de estrutura particulada, o de “appraisal” é um sistema de significados interpessoais, no estrato da semântica do discurso, e se realiza por meio de estrutura prosódica.. 5 São 6 os tipos de processo na língua inglesa: material, mental, relacional, comportamental, verbal e existencial (cf. HALLIDAY e MATTHIESEN, 2004, p. 172).. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(16) 136. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. Tabela 3. Diferenças entre os sistemas de transitividade e de appraisal. diferenças. transitividade. appraisal. metafunção. significados ideacionais. significados interpessoais. estrato. léxico-gramatical. semântico-discursivo. estrutura. particulada. prosódica. Promover a confusão entre metafunções, estratos e estruturas não é muito recomendável em uma disciplina que já tem a fama de ser complicada! Mas, na realidade, após reconhecer que sua sugestão se baseou em “transitividade”, Vian Jr (2012) aponta para o fato de que, na realidade, ele não se baseou exatamente no nome do sistema de “transitividade” na LSF, mas sim no uso do sufixo inglês -ity/-ty em outros termos da LSF, sufixo esse que ele toma como equivalente a -(i)dade no português. Ele toma esse sufixo como formador de “substantivos e adjetivos” e usado “para denotar ação, estado ou qualidade” (VIAN Jr 2012, p. 119), contrariamente a gramáticas e dicionários da língua portuguesa nos quais esse sufixo forma apenas substantivos (como aliás, os exemplos que Vian Jr (2012) oferece) com o sentido de 'qualidade', 'característica', 'propriedade'. Ao contrário do que afirma Vian Jr (2012) na citação-título desta seção, não é suficiente apontar o uso dos sufixos -ity/ty no inglês e -(i)dade no português para justificar a escolha do termo que propõe para traduzir “appraisal”.. 5.2. “Como atestam as ocorrência [sic] no Google...” (Vian Jr, 2012, p. 121) Na Seção 4.2, Vian Jr (2012) discute as alternativas para a tradução do termo “engagement”. O autor começa rebatendo a afirmação de Souza (2011) de que o significado de “engage” no inglês como “envolver(se) em um diálogo” não corresponde a nenhum dos significados de “engajar(-se)” no português (p. 87). Vian Jr (2012) oferece como evidência do oposto uma busca no Google por “engajar* conversação” na qual o autor teria obtido 980.000 resultados. Considerando a suposição de Vian Jr de ser o Google um instrumento de pesquisa tão confiável e representativo dos significados correntes da língua portuguesa, refiz a busca por “engajar* conversação” em 12 de fevereiro de 2013 e encontrei 717.000 resultados. Decidi então verificar os 10 resultados da primeira página: Dos 10 primeiros resultados obtidos, A. 3 são traduções do inglês: š (i) é uma página do Linguee e a ocorrência é tradução de “engage in back-and-forth conversations”;. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(17) Ladjane Maria Farias de Souza. 137. š (vi) é uma citação de Kaufman (1983) em um artigo de teologia em português que não oferece o texto de partida; š (vii) é, muito provavelmente, uma tradução automática dada a miscelânea de itens do inglês e do português de Portugal e a ausência de concordância; B.. 3 são trabalhos acadêmicos do campo da psicologia (iii, v e viii): um deles repetido;. C. 2 são trabalhos acadêmicos do campo da linguística (ii e ix): um deles, o próprio Vian Jr (2012); D. 1 é um trabalho acadêmico do campo da educação (iv); e E.. 1 é um trabalho acadêmico do campo da economia (x).. Esses exemplos de ocorrência de “engajar* conversação” e, muito provavelmente, os outros semelhantes que seguem nas outras 9 páginas de resultados constituiriam o que Vian Jr (2012) chama de “evidências” do “uso corrente” de “engajar” com o sentido de 'envolver em diálogo' no português. No entanto, o que eles indicam, no máximo, é uma tendência do português usado nos registros aí representados (em especial as ciências humanas) a fazer um empréstimo semântico do inglês “engage in conversation”. Esse tipo de empréstimo é um fenômeno conhecido dos linguistas e estudiosos da tradução no contexto brasileiro, sendo esse apenas um entre outros exemplos como: “realizar” = “se dar conta, perceber”; “jogar um papel” = “desempenhar um papel”; “isso vai sem eu dizer” = “nem precisa dizer”; e “não mais x” = “chega de x”. Esse uso de “engajar” está longe de constituir um “uso corrente nas mais diversas esferas culturais” da língua portuguesa usada no Brasil” (VIAN Jr, 2012, p. 121). Além do argumento de que “engajar em conversação” constitui uso corrente no português, Vian Jr (2012) lança mão do argumento de que o termo “engajamento” é mais adequado para traduzir “engagement” na teoria de appraisal do que “comprometimento” porque comprometer-se não implica a possibilidade de orquestração de vozes, de nuances, de diferenças, posicionamentos de diferentes vozes, sem que estas estejam comprometidas, mas apenas engajadas. (VIAN JR, 2012, p. 121). É bem difícil de entender o que ele tentou dizer aí. Vejamos: comprometer-se só implica a possibilidade de orquestração de vozes (...) se essas vozes estiverem comprometidas? Não, se estiverem apenas engajadas (??). Quem sabe o parágrafo seguinte ajude: Um sistema de comprometimento não deixa abertas possibilidades para mudança de posicionamento, ao passo que podemos nos engajar a algo e nos desvencilhar quando assim o decidirmos. Um sistema que é usado para essas funções não pode usar comprometimento mas somente engajamento, mudando nosso posicionamento discursivo (VIAN JR, 2012, p. 121).. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(18) 138. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. Juntando tudo, parece que Vian Jr (2012) está propondo que o termo “engajamento”, que no repertório dele significa “envolver(se) em diálogo, conversar”6, seja usado como tradução do nome do sistema de engagement, porque esse sistema seria usado para possibilitar ao usuário da língua manter um posicionamento/uma conversa ou 'se desvencilhar dele/a' quando quiser. Espera aí, mas ele não está então confundindo posicionamento e conversa e, desse modo, já entrando no domínio de outro sistema semântico chamado “negociação” (cf. MARTIN e ROSE 2008, cap. 7)? Voltando a tentar levar o texto de Vian Jr (2012) a fazer sentido, podemos considerar que sua intenção teria sido a de dizer que o sistema de engagement possibilita ao usuário “mudar de posicionamento” ao longo de uma conversa. Vejamos. O sistema oferece opções diferentes de posicionamento dialógico com relação a um ponto de vista sobre algo em determinada proposição. Posicionamento dialógico diz respeito ao reconhecimento ou não de posições alternativas (outras vozes) por parte de um enunciado e, caso a opção seja reconhecer tais posições ou vozes, ao grau de abertura, isto é, de inclusão dessas outras vozes (cf. MARTIN e WHITE 2005, p. 99-102). Essas opções de posicionamento dialógico podem ser usadas no decorrer de uma só conversa ou de um só texto escrito ou nas mais variadas conversas/textos escritos que o usuário da língua venha a produzir. Concordo que o sistema possibilita ao usuário adotar posições dialógicas diferentes ao longo de uma conversa, mas por que esse fato justificaria a opção de nomear o sistema como engajamento, ainda que significasse “envolver-se em diálogo”? Vian Jr (2012) usa ainda outro argumento contra o uso de comprometimento para traduzir engagement - o fato de que “existem outras palavras na língua inglesa que tem o significado de comprometimento, que não foram usadas pelos autores [Martin e White]” (p. 121). Ledo engano, o próprio termo “engagement” já tem, além da acepção de “envolver(-se) em diálogo com”, a de “to pledge one's word; assume an obligation” [empenhar a própria palavra; assumir uma obrigação] (Cf. Dictionary.com). O modelo tira partido dessas duas acepções. As opções mais gerais do sistema (monoglossia e heteroglossia) se distinguem a partir da primeira acepção - trata-se de ignorar a natureza dialógica de todo discurso ou de reconhecê-la e envolver-se em diálogo. Uma vez escolhida a segunda opção, as subcategorias passam a se distinguir a partir da segunda acepção - trata-se agora de contrair ou expandir o espaço dialógico, isto é, de assumir parcial ou totalmente a responsabilidade pela valoração feita ou de rejeitá-la (v. Souza, 2001, Quadro 1, p. 86). Evidência disso é o fato de Martin e White (2005) usarem, diversas vezes, o termo “investment” [investimento] para explicar as categorias de heteroglossia.. 6. Fico imaginando Jô Soares em seu programa concluindo uma entrevista assim: “eu me engajei em conversação com o. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(19) Ladjane Maria Farias de Souza. 139. As categorias de 'contração' dialógica são aquelas em que o falante indica um “heightened investment” [alto investimento] na proposição defendida (cf. p. 103). A mesma noção de investimento pessoal é também usada para definir opções em cada um desses subsistemas, por exemplo: š Contração: “pronouncement” [pronunciamento] Here we observe the writer interpolating himself explicitly into the text in order to indicate his maximal investment in the current proposition. More crucially, the textual voice doesn't indicate this heightened personal investment in a vacuum. Rather, it does so against some opposed dialogic alternative (...) [Aqui observamos o escritor interpolando a si mesmo explicitamente no texto, a fim de indicar seu investimento máximo na atual proposição. Mais fundamentalmente, a voz textual não indica esse investimento pessoal elevado no vácuo. Ao invés disso, ela o faz contra uma alternativa dialógica oposta] (MARTIN E WHITE, 2005, p. 129).. š Expansão: “entertainment” [ponderação] the authorial voice presents itself as invested in this proposition while at the same time acknowledging that the value position being advanced is contingent (...) [a voz autoral se apresenta como investindo nessa proposição enquanto ao mesmo tempo reconhece que a posição defendida é contingente] (MARTIN E WHITE, 2005, p. 106).. š Expansão: “acknowledgement” [reconhecimento] the reader interprets the writer in such instances as having nothing invested in the position being advanced in the reported material (...) [o leitor interpreta o escritor em tais instâncias como não tendo investido nada na posição defendida no material a que se refere] (MARTIN E WHITE, 2005, p. 115). O que é “investido” ou não nos exemplos acima é o testemunho próprio de quem fala, isto é, a própria palavra. Posicionar-se dialogicamente é, portanto, aceitar ou não assumir (total ou parcialmente) a responsabilidade pelo que está sendo proposto como válido. Aceitar somar a própria voz às da comunidade de valores em questão ou buscar afastar-se dela. No português, algumas opções para construir essa ideia em um substantivo apto a nomear o sistema proposto por Martin e White (2005) seriam, como apontei em 2011, “empenho (da palavra)”, “envolvimento (pessoal)”, “comprometimento”. Minha escolha recaiu sobre este último pela maior precisão e economia de palavras. Tendo demonstrado que os autores de fato usaram o significado de “comprometimento”, quero agora retomar o argumento de Vian Jr (2012) de que se os autores estrangeiros não usaram nenhum termo que tenha o significado x, também não devemos usar tal significado na tradução'. Por esse mesmo raciocínio, não usaríamos o termo avaliatividade, pois os autores também não usaram algo como “evaluativity” ou “evaluativeness” para nomear o sistema de “appraisal”. Ao contrário do que Vian Jr (2012) sugere na citação-título desta seção, as ocorrências do Google para “engajar* conversação” não atestam um uso corrente de. escritor...”!! Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(20) 140. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. “engajar(se)” com o sentido de “envolver(se) em um diálogo” no português brasileiro. Esse argumento, portanto, não serve para justificar a escolha de “engajamento” como tradução para “engagement”.. 5.3. “ao passo que os estudos avancem, sofrerão novas alterações, como é de se esperar” (VIAN JR, 2012, p. 123) Na Seção 4.3, Vian Jr (2012) se propõe a retomar a discussão da tradução do termo “valuation”. Antes, porém, ele ainda oferece outro argumento para traduzir engagement como “engajamento”. Outro argumento? Bem, ele bate mais uma vez na mesma tecla referente ao suposto “axioma geral” da LSF segundo o qual os sistemas são interdependentes (v. Seção 4.0 acima). Para ele, a escolha do termo “engajamento” se justificaria pelo simples fato de que o sistema proposto por Martin e White (2005) “está coarticulado com dois outros sistemas - negociação e envolvimento” e também porque as avaliações estão “relacionados a questões de poder e solidariedade” (p. 122). Do mesmo modo que esse suposto argumento não serve para justificar a escolha de “avaliatividade” em detrimento de outras alternativas (v. Seção 5), ele também não serve aqui. Incansável porém, Vian Jr (2012) segue oferecendo o mesmo “argumento” para justificar também sua escolha do termo “valoração” para traduzir “valuation” ao invés de “valor social” como propus em 2011. Para ele, o termo valoração é mais adequado para traduzir valuation simplesmente porque “a valoração é um dos tipos de apreciação, juntamente com reação e composição” (p. 123)! Eu me pergunto quantos milhões de resultados teria uma busca no Google por “valoração * tipo de apreciação”.... Vian Jr (2012) argumenta contra o uso de “valor social” para traduzir “valuation” com base na ideia de que esse subsistema de apreciação abrange, além de valores sociais, valores “individuais, econômicos, financeiros, estéticos, artísticos, e toda e qualquer área em que nos imbuímos da tarefa de apreciar algo” (VIAN Jr, 2012, p. 123). Confesso que minha escolha em 2011 foi bastante influenciada pelo uso de expressões como “social valuation” (MARTIN e WHITE, 2005, p. 172 e 185) e “valuation (social significance)” (id. p. 175 e 176), além de “social value” (COFFIN, 2002). Nesses autores, que criaram o termo, estava clara a especificação. Mas, concordo com Vian Jr (2012) que seria, talvez, mais adequado usar um termo mais geral. Como o termo valoração é a minha opção para nomear o sistema como um todo, isto é, para traduzir “appraisal”, sugiro algo que não me havia ocorrido antes: “mérito”. O sistema de mérito corresponderia, então, à ideia de avaliar coisas e eventos quanto ao seu significado no contexto em questão, seja social, econômico, etc. A pergunta proposta em Martin e White (2005) para definir essa categoria. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(21) Ladjane Maria Farias de Souza. 141. de apreciação faz sentido para esse termo: o que está sendo avaliado “vale a pena ou não?”, isto é, “tem mérito ou não?”. Como afirma Vian Jr (2012) na citação-título desta seção, é de se esperar que haja alterações nos estudos de base sistêmico-funcional, como aliás em quaisquer outros. Não há como um modelo teórico abarcar de uma vez por todas a complexidade e a dinâmica da língua em uso. Entretanto, o autor precisa estender essa noção de evolução contínua das teorias à terminologia, principalmente a traduzida, e rever seu posicionamento quanto às possíveis contribuições de novos membros da comunidade discursiva.. 6.. “QUE DEBATAMOS DE MODO ABERTO OS TEMAS CONTROVERSOS E QUE CHEGUEMOS A ACORDOS” (VIAN JR, 2012, P. 124) Em suas “Considerações finais”, Vian Jr (2012) afirma que não pertence à comunidade de tradutores e que não se propôs a discutir questões de tradução, mas sim do status da pesquisa em LSF no Brasil a partir do momento em que não parece haver consenso entre os pesquisadores sobre quais termos devem ser usados, o que pode causar transtorno aos pesquisadores iniciantes (VIAN JR, 2012, p. 124).. Isso é um total contrassenso, pois A. Vian Jr (2009) de fato se propôs a discutir questões de tradução como apontam as 15 ocorrências de tradu* em trechos como os destacados abaixo This paper aims to discuss, from Halliday's systemic functional grammar perspective (...), the problems related to the translation of the term appraisal into Portuguese (...) [Esse artigo visa discutir, a partir da perspectiva da gramática sistêmico-funcional (...), os problemas relativos à tradução do termo appraisal para o português (...)] (VIAN JR, 2009, Abstract, p. 99); (...) agradeço a ... pelas discussões nas traduções de alguns termos (VIAN JR, 2009, nota, p. 99) Paralelamente a tais questões, encaminhamos o início de uma discussão sobre a questão da tradução de alguns termos do sistema de (...) (VIAN JR, 2009, p. 101) (...) o termo inglês valuation (...) também poderia ser traduzido por (...) (VIAN JR, 2009, p. 102) Embora o termo valoração tenha sido incorporado à lista de termos traduzidos para o português como correspondente a (...) (VIAN JR, 2009, p. 102).. B. Vian Jr aparece como tradutor do prefácio (escrito em inglês por Jim Martin) do livro “A linguagem da avaliação em língua portuguesa”, por ele editado em 2011; além disso, em seus artigos, ele traduz as citações e as figuras de autores estrangeiros da LSF, como se observa no trecho a abaixo:. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

(22) 142. Valoração, comprometimento e mérito: continuando um 'improvável' diálogo de surdos. Em suas [de Halliday] palavras, traduzidas livremente por mim: “O tempo é o texto” é o que (...)” (VIAN JR, 2009, p. 110).. Nessa última seção, além de apresentar suas contradições finais, Vian Jr (2012) faz também suas acusações finais. Ele me acusa de: I.. II. III. IV.. š. š š. “Tratar do que postulam Martin e White como se as propostas dos autores não estivessem umbilicalmente ligadas à teoria hallidayana” (p. 124) (v. Seção 2.0 acima). Gostaria de saber que evidências disso ele encontrou no meu texto; “passar ao largo” da noção de dialogismo (p. 125). Peço-lhe que leia atentamente a Seção 3.2 de Souza 2011 (pp. 85 a 87); deixar claro que o que apresento em meu texto é “a verdade absoluta” sobre a LSF e a tradução. Daria para alguém, por favor, localizar o trecho em que faço isso? de ser “inexperiente com a prática da teoria”, de ser uma pesquisadora “neófita”, de “agir de modo monoglóssico” e de “adotar posturas arredias em relação à comunidade da qual pretend[o] fazer parte”(p. 125). Vamos por partes: Inexperiente? Trabalho com o modelo de Martin e White (2005) desde o mestrado (2004-2006). Fui uma das primeiras a ter acesso ao livro de Martin e White (2005); Agir de modo monoglóssico? Por favor, leia a Seção 3.0 acima; Neófita? Arredia em relação à comunidade “da qual pretendo fazer parte”? Além do que já disse na Seção 3.0 acima, acrescento que minha visão de “comunidade acadêmica” difere bastante da visão de Vian Jr. A comunidade da qual já faço parte, pelo simples fato de usar, valorizar e contribuir para a divulgação e desenvolvimento das teorias em questão, é uma comunidade “sólida” que já desenvolveu e oferece um leque abrangente de ferramentas teóricas a pesquisadores de diversas áreas, mas que, nem por isso se fecha impondo “regras” ou “códigos” ou “conhecimentos tácitos”. É uma comunidade que dá muito valor a quem quer que se disponha a usar seu tempo para conhecer bem a concepção sistêmico-funcional de língua e continuar a desenvolvê-la ao aplicá-la, seja recém-chegado ou não.. Concordando com o que Vian Jr (2012) afirma na citação-título desta seção, isto é, que os estudos baseados na LSF no Brasil requerem “que debatamos de modo aberto os temas controversos e que cheguemos a acordos” (p. 124), concluo este artigo reforçando meu posicionamento favorável ao diálogo com os linguistas sistêmico-funcionais brasileiros e com outros pesquisadores de tradução interessados na interface com a LSF, no que concerne à tradução de termos, não apenas da teoria proposta em Martin e White (2005), mas também de outras teorias mais recentes com as quais tenho trabalhado, como por exemplo as teorias relativas às hierarquias de instanciação e de individuação. A propósito, na lista “Termos de gramática sistêmico-funcional em português” oferecida em Vian Jr (nota 9, p. 124), a traducão de “appraisal” é ”valoração”.. Tradução & Comunicação: Revista Brasileira de Tradutores š Nº. 25, Ano 2012 š p. 121-143.

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