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Constructo Flatline: preservação histórica e atual do bairro da Ribeira

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE ARTES BACHARELADO EM DESIGN

ANDERSON DE ARAÚJO SILVINO

CONSTRUCTO FLATLINE: PRESERVAÇÃO HISTÓRICA E ATUAL DO BAIRRO DA RIBEIRA

NATAL- RN 2019

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES

DEPARTAMENTO DE ARTES BACHARELADO EM DESIGN

ANDERSON DE ARAÚJO SILVINO

CONSTRUCTO FLATLINE: PRESERVAÇÃO HISTÓRICA E ATUAL DO BAIRRO DA RIBEIRA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do título de Bacharel em Design pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

ORIENTADORA: Prof. Helena Rugai Bastos

NATAL- RN 2019

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ANDERSON DE ARAÚJO SILVINO

CONSTRUCTO FLATLINE: PRESERVAÇÃO HISTÓRICA E ATUAL DO BAIRRO DA RIBEIRA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do título de Bacharel em Design pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

ORIENTADORA: Prof. Helena Rugai Bastos

Aprovado em: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

_______________________________________________ Prof. Helena Rugai Bastos

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

_______________________________________________ Prof. Elizabeth Romani

Membro

Universidade Federal do Rio Grande do Norte

_______________________________________________ Prof. Lorena Gomes Torres de Oliveira

Membro

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RESUMO

Este trabalho propõe a criação de um conceito para um aplicativo mobile, que disponha de informações atuais e históricas, sobre o bairro da Ribeira. Mostrando o seu valor como opção turística, da Cidade do Natal, além de buscar explicitar a sua importância e valor histórico, para a cidade.

Palavras chave: Aplicativo mobile; design da informação; resgate histórico; bairro da Ribeira; turismo; turismo urbano; vida noturna.

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ABSTRACT

This monography proposes the creation of a concept for a mobile application, which has current and historical information about the neighborhood of Ribeira in Natal / RN. Showing its value as a tourist option for the City of Natal, in addition to seeking to explain its importance and historical value to the city.

Keywords: Mobile application; information design; historical rescue; neighborhood of Ribeira; tourism; urban tourism; Night life

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LISTA DE FIGURAS

Figura 01 - Delimitação original da Cidade do Natal……….p. 15 Figura 02 - Antiga Rua do Commercio e seus armazéns……….p. 17 Figura 03 - Cinema Polytheama e loja Paris em Natal……….p. 19 Figura 04 - Detalhe da Praça Augusto Severo………...p. 20 Figura 05 - Cerimônia de inauguração da Coluna Capitolina, no cais do Porto da Ribeira………...p. 21 Figura 06 - Instalações da Panair na antiga base de hidroaviões………...p. 22 Figura 07 - Militares americanos marchando na Ribeira em frente ao atual PROCON………..p. 24 Figura 08 - Militares americanos descansando na varanda do Grande Hotel na Ribeira………....p.26 Figura 09 - Beco da Quarentena, reduto marginalizado da Ribeira por conter diversos cabarés em sua extensão………...p.26 Figura 10 - Casarão da Rua Chile………....p. 27 Figura 11 - Espaço Cultural Casa da Ribeira………..p. 29 Figura 12 - Vista aérea do Porto de Natal………...p. 33 Figura 13 - Área pertencente à antiga Comunidade do Maruim que será anexada ao porto………...p. 35 Figura 14 - Área desativada da Transpetro que será utilizada na ampliação do Porto de Natal………...p. 35 Figura 15 - Simulação 3d do Terminal de Passageiros do Porto de Natal………….p. 36

Figura 16 - Show da Virada Cultural Ribeira de 2014………...p. 39 Figura 17 - Layout Foursquare 01……….p. 60 Figura 18 - Página inicial do Foursquare……….p. 61 Figura 19 - Tela de comentários do Foursquare……….p. 62

Figura 20 - Tela do menu sobreposto………...p. 63

Figura 21 - Tela de mapa………...p. 64 Figura 22 - Tela de estabelecimento……….p. 65

Figura 23 - Layout do AroundMe………..p. 66 Figura 24 - Detalhe dos ícones utilizados no AroundMe………..p. 67 Figura 25 - Comentários dos usuários……….p. 68 Figura 26 - Menu pop-up………....p. 69 Figura 27 - Tela de filtros de pesquisa do AroundMe………....p. 70

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Figura 28 - Tela Mapa AroundMe………..p. 71

Figura 29 - Tela de categorias do Time Out………. p. 72

Figura 30 - Parte dos ícones utilizados no Time Out……….p. 72 Figura 31 - Menu sobreposto do Time Out………...p. 73 Figura 31 - Tela locais do Time Out………...p. 74 Figura 32 - Tela de filtros do Time Out………...p. 74 Figura 33 - Tela de criação de conta………..p. 75 Figura 34 - Esboço da página inicial e menus………..p. 77 Figura 35 - Esboço das telas de locais ou estabelecimentos………....p. 78 Figura 36 - Esboço da tela de mapa e rotas……….p. 78 Figura 37 - Esboço das telas de linha do tempo………..p. 79 Figura 38 - Esboço das telas da galeria………....p. 80 Figura 39 - Esboços das telas de QR code………..p. 80 Figura 40 - Primeira parte do fluxo de páginas………....p. 81 Figura 41 - Segunda parte do fluxo de páginas………...p. 82

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LISTA DE TABELAS

Tabela 01 - Evolução Demográfica (1991 - 2012)...p. 31 Tabela 02 - Número de Domicílios Particulares Permanentes………..p. 31 Tabela 03 - Média de moradores por domicílio (2010)...p. 31 Tabela 04 - Histórico da movimentação geral de cargas no porto de Natal entre 2011 e 2017 (em toneladas)...p. 33 Tabela 05 - Ações a ser realizadas pelo PAC das Cidades Históricas em Natal/RN………..p. 42 Tabela 06 - Acervo arquitetônico da Ribeira selecionado pelo PAC Cidades Históricas………....p. 43 Tabela 07 - Comparação entre as metodologias………..p. 47 Tabela 08: Metodologia adotada pelo projeto………...p. 51 Tabela 09: Análise de semelhantes………....p 75

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LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 01: Resposta ao questionário 01………..p. 52 Gráfico 02: Resposta ao questionário 02………..p. 53 Gráfico 03: Resposta ao questionário 03………..p. 54 Gráfico 04: Resposta ao questionário 04………..p. 55 Gráfico 05: Resposta ao questionário 05………..p. 56 Gráfico 06: Resposta ao questionário 06………..p. 57 Gráfico 07: Resposta ao questionário 07………..p. 57 Gráfico 08: Resposta ao questionário 08………..p. 58

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 10 2 OBJETIVOS 13 2.1 OBJETIVO GERAL 13 2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS 13 3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 14 3.1 CONTEXTO HISTÓRICO 14

3.1.1 Fundação da Cidade do Natal 14

3.1.2 Belle Époque natalense 17

3.1.3 Ribeira e sua importância para a aviação mundial 20

3.1.4 Segunda Guerra Mundial 22

3.1.5 Natal pós Segunda Guerra Mundial 23

3.2. CONTEXTO ATUAL 30

3.2.1 Dados demográficos 30

3.2.2 Porto de Natal 32

3.2.3 Boêmia atual da Ribeira 38

3.2.4 PAC Cidades Históricas 40

3.2.4.1 Acervo arquitetônico da Ribeira atendido pelo PAC Cidades

Históricas 42

3.3 DESIGN DE SERVIÇOS E DESIGN DA INFORMAÇÃO 44

4 METODOLOGIA 46 4.1 DESIGN DA INFORMAÇÃO 46 4.2 METODOLOGIA PROJETUAL 50 4.3 ANÁLISE DE SEMELHANTES 59 4.4 DESENVOLVIMENTO 76 6 CONSIDERAÇÕES 83 REFERÊNCIAS 84

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1 INTRODUÇÃO

O bairro da Ribeira, localizado na zona Leste de Natal, que outrora foi lar de personagens históricos importantes tais como: Café Filho, Câmara Cascudo, Henrique Castriciano, Newton Navarro, entre outros. Atualmente encontra-se posto sob uma sombra de descaso e esquecimento pelo Poder Público e população.

Berço histórico e cultural da cidade de Natal e peça importante em grandes momentos históricos, como a ocupação americana durante a Segunda Guerra Mundial, o bairro da Ribeira vem, nos dias de hoje, enfrentando uma dura batalha contra o desgaste e a ação do tempo. Sem a manutenção necessária, alguns dos seus prédios e monumentos encontram-se em péssimas condições de conservação, transmitindo uma imagem de abandono para a população e turistas.

No que diz respeito a Ribeira, seriam necessárias desde intervenções arquitetônicas nas edificações e monumentos até mesmo de políticas públicas como a manutenção da rede de iluminação pública e, principalmente, a criação de atividades para a população moradora, visando manter a vida e cultura original do bairro. É preciso respeitar o limite entre o histórico e o atual, não apenas tentar emular os aspectos arquitetônicos que supostamente existiam em determinada época. Isso evitaria que a Ribeira acabasse tendo um aspecto semelhante a uma cidade cenográfica após o processo de restauração dos seus monumentos e edificações.

Temendo que essa intervenção demore a ocorrer, ou até mesmo que não ocorra, e prezando pela preservação da riqueza cultural e histórica deste bairro sempre presente na vida de muitos natalenses, o trabalho propõe a criação de um conceito de aplicativo mobile, que transmita informações históricas e atuais do local onde os usuários estejam visitando naquele momento, utilizando de recursos multimídia como, imagens, áudios e infográficos para transmitir essas informações. Visando relembrar para a população a importância desse tão querido bairro, proporcionando assim uma maior visibilidade e valorização para a Ribeira.

Além de proporcionar uma maior visibilidade para o bairro, e recuperação de seu valor, a criação de um aplicativo nesses moldes para a Ribeira iria também

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auxiliar na preservação histórica do local, relembrando para a população a real importância que o seu bairro teve, e ainda tem, para a história de Natal e do Rio Grande do Norte. Além de mostrar mais opções de passeios e locais à ser visitados pelos turistas, mostrando que a Ribeira, com suas belas construções históricas e agitada vida noturna, poderia servir como opção para a tão utilizada, e já desgastada, imagem do turismo “sol e mar”, trazendo uma opção diferenciada de lazer, auxiliando, também, para a revitalização do turismo da cidade.

Retomando o seu valor, seria mais fácil a Ribeira receber investimentos tanto para obras e reformas, preservando monumentos e proporcionando uma melhoria na qualidade de vida dos moradores, quanto para novos eventos culturais que já acontecem no bairro com certa frequência.

Ao explicar o conceito de tectônica Cardoso (2011) aponta uma interessante questão sobre a forma e os significados transmitidos por um determinado objeto ou artefato através do tempo. Não existe uma verdade absoluta sobre como um local era na sua forma original. Durante todo o seu período de existência um mesmo local sofre mudanças constantes, tanto na sua estrutura quanto em como o mesmo é visto pela sociedade. O autor usa um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro, os Arcos da Lapa, como exemplo de como um monumento histórico pode ser visto de formas diferentes dependendo da época em que for observado. Sobre essa dificuldade de se definir como um local ou edificação era na sua forma original, o autor fala:

Quando falamos na feição original dos Arcos, referimo-nos exatamente a quê? Ninguém que é vivo hoje pôde observar o local cem ou duzentos ou trezentos anos atrás. Os mais velhos entre nós talvez se recordem dos Arcos como eles aparecem na capa do disco O famoso Trio de Ouro, de 1955, onde ainda se vê um dos grandes arcos, posteriormente restaurado. Na memória dessas pessoas, a feição original dos Arcos era essa, diferente da aparência atual. Será que podemos qualificar como original aquilo que é apenas uma etapa transitória de um longo processo de existência? Certamente que não (CARDOSO, 2011, P 52 - 55).

A citação expõe a complexidade de se tratar temas que envolvem a memória e visão da população sobre um mesmo local ou monumento. Pessoas nascidas em épocas distintas se lembram de um mesmo local de forma também diferente.

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Torna-se impossível definir qual dessas visões e memórias são as mais corretas ou importantes, qual época ou período histórico merece um maior ou menor destaque.

Em razão das diversas mudanças estruturais e funcionais enfrentadas pelos imóveis do bairro da Ribeira no decorrer das décadas, é impossível representar com fidelidade suas cores e formas originais. Mesmo mudanças no entorno de um imóvel modifica a percepção que um observador pode ter de tal edificação. Um prédio considerado grande e moderno outrora, mesmo com sua forma estrutural preservada, pode ser entendido como pequeno e antiquado nos dias atuais devido apenas ao surgimento de outros imóveis maiores em seu entorno (CARDOSO, 2011).

Se ater apenas a um período ou momento histórico seria equivocado, resultando em uma visão falsa e artificial do espaço urbano com estruturas deslocadas de sua época original. Causando confusão e não representando plenamente os residentes atuais do bairro.

É importante levar em consideração os diversos períodos e momentos históricos vividos pela Ribeira, desde os tempos de outrora e passando por seus anos de luxo, boêmia e efervescência cultural. Além das suas diversas metamorfoses, tanto físicas quanto culturais, para formar uma imagem da verdadeira Ribeira presente na mente de seus residentes e frequentadores.

Por esses motivos o trabalho opta por uma abordagem diferenciada, não se atendo apenas ao passado ou em um determinado período histórico. Levando em consideração diversas épocas e momentos históricos é possível montar um extenso panorama sobre a Ribeira, representando de forma completa.

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2 OBJETIVOS

2.1 OBJETIVO GERAL

O trabalho propõe a criação de um conceito para um aplicativo com informações sobre o bairro da Ribeira, buscando explicitar a sua importância e valor histórico e atual.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

● Realizar um levantamento de dados sobre a história da Ribeira;

● Realizar um levantamento de dados sobre a situação atual da Ribeira;

● Realizar um estudo acerca dos conceitos de design de serviços, para auxiliar na criação da metodologia a ser utilizada no desenvolvimento do projeto;

● Realizar um levantamento de dados sobre sites e aplicativos destinados a expor a história de locais (países, cidades etc), ou destinados a divulgar o turismo de algum local;

● Projetar um conceito de um aplicativo que contenha dados sobre a história de certos pontos do bairro da Ribeira, além de informações atuais sobre o bairro, tais como, eventos e locais a serem visitados pelos turistas e população.

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3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Por possuir uma grande importância para o projeto, faz-se necessário realizar um levantamento de dados sobre a história do bairro da Ribeira, informações que serão de grande importância durante o desenvolvimento do site/aplicativo nos estágios mais avançados do trabalho.

3.1 CONTEXTO HISTÓRICO

Por manter relações tão fortes e por ter sofrido um grande processo de expansão, se torna impossível descrever a história da Ribeira sem citar momentos históricos de outros bairros que surgiram ou se expandiram em seu entorno como, por exemplo, o da Cidade Alta e principalmente o das Rocas, cuja proximidade com a Ribeira, tanto física quanto cultural, é tamanha que se torna difícil até mesmo para os seus residentes definir com exatidão os limites que separam os bairros.

Além disso, a história da Ribeira está intimamente atrelada à própria fundação da cidade de Natal, tornando-se impossível falar da Ribeira sem citar importantes acontecimentos históricos da própria cidade. Faz-se necessário então, a abertura de um parêntese contando o capítulo de origem da cidade, para melhor situar a fundação dos bairros da Ribeira e Cidade Alta.

3.1.1 Fundação da Cidade do Natal

Em 06 de janeiro de 1598 a então Capitania do Rio Grande inaugura a sua primeira e mais icônica instalação militar, a Fortaleza dos Reis Magos, construída para proteger o território dos constantes ataques de piratas oriundos da França que tinham como objetivo saquear e contrabandear o Pau-Brasil.

Apesar dessa construção, a cidade de Natal só surge oficialmente quase dois anos depois, em 25 de dezembro de 1599, fundada por João Rodrigues Colaço,

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primeiro capitão-mor da então Capitania do Rio Grande. Essa demora talvez tenha atiçado a pressa dos governantes da época, pois Natal já foi fundada com status de cidade mesmo sem antes ser denominada de povoado, vila ou quaisquer outros títulos comumente utilizados nessas ocasiões (MELO & SILVA FILHO, 2007 apud TINÔCO, 2014).

Sua delimitação inicial foi demarcada através de duas cruzes fincadas em direções opostas entre si. A primeira foi posta nas imediações do Rio do Baldo, já a segunda foi cravada na que foi nomeada de Rua da Cruz, atual Avenida Junqueira Ayres (OLIVEIRA, 1999 apud ARAÚJO, L. M., 2003). A cidade teve seu marco zero1 na atual Praça André de Albuquerque, no bairro de Cidade Alta.

Figura 01 - Delimitação original da Cidade do Natal.

Fonte: SEMURB, 2008, p 15. Adaptado pelo autor.

O bairro da Ribeira, desde a sua fundação, sempre teve fortes características comerciais. As razões para tal inclinação podem ser apontadas pela sua proximidade estratégica com o Rio Potengi. Tal proximidade com o rio explica a escolha acertada do bairro da Ribeira para receber o porto de Natal, que até hoje é considerado como o mais importante do estado.

Segundo Cascudo (1999), percebe-se que até os anos iniciais do século XIX, o bairro da Ribeira ainda era considerado como sendo uma região periférica e pobre, sofrendo com diversas doenças causadas pela precária infraestrutura do bairro tendo que lidar com as constantes cheias do Rio Potengi, que chegava até depois do local onde, em dias atuais, se encontra o Teatro Alberto Maranhão.

1 Podendo também ser encontrada em alguns documentos como “Junqueira Aires” como exposto no acordo ortográfico de 1911 (Portal da Língua Portuguesa. Acordo Ortográfico ​Formulário Ortográfico de 1911. s.d.).

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Essa proximidade com o Potengi se devia principalmente por ser dele que os moradores retiravam a maior parte do seu sustento através da atividade pesqueira. Essa afinidade com a pesca ainda pode ser percebida nos dias atuais em localidades como o Canto do Mangue, situado no limite entre Rocas e Ribeira, cuja pesca e criação de caranguejos ainda se configura como principal sustento de famílias inteiras residentes nesta localidade.

O pescado era algo tão importante e presente no dia-a-dia do natalense de outrora, que se fazia presente até mesmo na rivalidade que existia entre os residentes da Cidade Alta e Ribeira. Cascudo (1974) aponta uma interessante curiosidade. Segundo o autor, os moradores de um bairro costumavam apelidar os do bairro “rival” de forma depreciativa utilizando como inspiração justamente o peixe que se acreditava aparecer mais frequentemente na dieta dos residentes de cada bairro, os da Cidade Alta eram chamados de Xarias por causa do Xaréu, pescado considerado mais nobre e mais caro encontrado principalmente na margem alta do Potengi, já os da Ribeira eram conhecidos como Canguleiros por causa do Cangulo mais comumente encontrado nas margens baixas do Potengi.

Desde sua fundação o bairro da Ribeira teve uma notável inclinação comercial, isso pode ser comprovado pela Rua do Commercio , atual Rua Chile, localizada na2 Ribeira, que foi o principal ponto comercial da Cidade do Natal até as primeiras décadas do século XX. Possuía em sua extensão diversos galpões e armazéns ocupados, principalmente, por cargas de açúcar, algodão e peixe seco, principais mercadorias exportadas pelo porto da cidade, localizado na Ribeira bem próximo da Rua Chile (CUNHA, 2014).

2 Podendo também ser encontrada em alguns documentos como “Rua do Comércio” como exposto no acordo ortográfico de 1943 (Portal da Língua Portuguesa. Acordo Ortográfico ​Formulário Ortográfico de 1943. s.d.).

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Figura 02 - Antiga Rua do Commercio e seus armazéns.

Fonte: Autor desconhecido, s.d.

Além de ter uma importância significativa na economia da cidade, o porto, localizado na Ribeira, contribuiu de forma importante, também, no desenvolvimento cultural do bairro. Servindo de porta que ligava a cidade ao resto do país e do mundo. O porto além das mercadorias também transportava ideias, em um intenso fluxo de troca de informações, contribuindo para a evolução e efervescência cultural encontrada na Ribeira no início do século XX (CORDEIRO, 2011).

3.1.2 ​Belle Époque​ natalense

Apesar de todo avanço que foi alcançado durante e após a Segunda Guerra Mundial, seria equivocado considerar que o bairro da Ribeira apenas se desenvolveu ou recebeu mudanças significativas durante esse período. O bairro, desde a sua fundação, teve uma forte dose de pioneirismo, experimentando novidades antes do restante da cidade (PEDREIRA, 2005, apud CUNHA, 2014). Esse espírito de pioneirismo pode ser encontrado em diversos momentos da história da Ribeira, com destaque para as décadas iniciais do século XX.

A ​Belle Époque natalense foi o período onde a cidade, e principalmente a Ribeira, mais se desenvolveu. Tentando fugir da imagem antiquada de cidade

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colonial, e tomando como inspiração as mudanças alcançadas por cidades européias, como Londres e principalmente Paris durante o período da ​Belle Époque européia3 (TINÔCO, 2014).

Em Natal a ​Belle Époque se manifestou principalmente na Ribeira, nas primeiras décadas do século XX, o bairro passou por um período de grande efervescência cultural, com a construção de teatros, cinemas, lojas de produtos importados e reforma de seus logradouros públicos.

Segundo Anchieta Fernandes 1992 (apud PINHEIRO & PINHEIRO, 2017), a primeira exibição cinematográfica da Cidade do Natal foi realizada na então Rua do Commercio - Atual Rua Chile - ainda no século XIX, em 16 de abril de 1898. A projeção foi realizada nas paredes de um armazém de açúcar localizado nesta rua, utilizando-se de um cinematógrafo lumeriano transportado de Fortaleza.

As exibições de filmes ocorriam assim, de forma improvisada na cidade do Natal, até que em 1909 o Teatro Carlos Gomes - atual Teatro Alberto Maranhão - passou a exibir sessões de filmes com certa frequência. Nessa época o teatro passou a ser conhecido popularmente como Cinema Natal (PINHEIRO & PINHEIRO, 2017).

Em 1911, é inaugurado o primeiro cinema propriamente dito de Natal. Chamado de Cine Polytheama , localizava-se no largo da Praça Augusto Severo, na4 Ribeira. Além do espaço para a exibição das películas, contava também com um palco para apresentações e shows, um espaço com bar e lanchonete além de um espaçoso terraço ao ar livre com diversas mesas e cadeiras à disposição dos frequentadores. A título de curiosidade, a primeira geladeira industrial da cidade era de propriedade do Polytheama, lá eram vendidos aos frequentadores os chamados “polis”, sobremesa gelada semelhante aos atuais picolés (PINHEIRO & PINHEIRO, 2017).

3 Segunda metade do século XIX até meados de 1914.

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Figura 03 - Cinema Polytheama e loja Paris em Natal.

Fonte: CD Rom Natal 400 anos

Em 1928, o Teatro Carlos Gomes substituiu o seu equipamento de projeção por um modelo mais moderno, passando a funcionar exclusivamente como cinema durante alguns anos, era chamado de “Cine-Theatro Carlos Gomes” nesta época. Apesar de, em certos dias, dispor de sessões de exibição gratuitas, os cinemas de Natal eram majoritariamente frequentados pela chamada elite da cidade, que costumava se vestir a rigor para as exibições, seguindo a moda dos atores e atrizes observados na tela, inclusive, as principais alfaiatarias e lojas da cidade estavam localizadas no entorno do Polytheama (PINHEIRO & PINHEIRO, 2017).

A Praça Augusto Severo se tornou um importante símbolo da modernização alcançada pela Ribeira durante o período da ​Belle Époque natalense, especialmente após as reformas realizadas no ano de 1904. Foram realizados o ajardinamento e aterro de todo o logradouro, tornando-o um dos principais passeios público e local de convívio social da Cidade do Natal nas primeiras décadas dos século XX (TINÔCO, 2014).

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Figura 04 - Detalhe da Praça Augusto Severo.

Fonte: Autor desconhecido, s.d.

A Ribeira inclusive foi o primeiro bairro a dispor de iluminação pública na cidade, sendo agraciada com esse benefício em 1905 (SILVA, 2002). Este é apenas um dos símbolos da modernização e pioneirismo alcançados pelo bairro nesse período.

3.1.3 Ribeira e sua importância para a aviação mundial

Apesar do Porto de Natal ter sido inaugurado apenas em 1932 as águas do Rio Potengi, desde a década de 20, eram movimentadas por um outro tipo de veículo, totalmente diferente dos grandes navios cargueiros, frequentadores do futuro porto. Esse veículo era o hidroavião.

O primeiro pouso que se tem conhecimento de uma aeronave em território natalense, se deu em 1922. O hidroavião pilotado pelo cearense Euclides Pinto Martins , acompanhado do piloto americano Walter Hinton, participava de um5 ​raid6 aéreo partindo de Nova York e com destino à capital do Rio de Janeiro, realizando

5 Pioneiro cearense da aviação, passou grande parte de sua infância morando com sua família no estado do Rio Grande do Norte. Em 1952, após lei sancionada no congresso pelo então Presidente Café Filho, o aeroporto internacional de Fortaleza passou a ser nomeado em sua homenagem (STUDART, 2011).

6 Também podendo ser encontrado como “raide” em alguns documentos, denotando “​Voo de longo percurso, executado por um ou vários aparelhos”, seguindo a definição do ​Dicionário Priberam da Língua Portuguesa online.

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diversas paradas durante seu percurso (PINHEIRO & PINHEIRO, 2017). Esta foi apenas a primeira ocasião em que Natal foi figura importante no cenário da aviação mundial e, definitivamente, não a última.

Um dos episódios mais significativos na história dos ​raids transatlânticos ocorreu em 5 de julho de 1928, quando os aviadores italianos Carlo del Prete e Arturo Ferrarin, realizaram um pouso no litoral norte-rio-grandense, nas proximidades da Praia de Touros. Esse​raid se tornou notável pela quebra do recorde mundial de voo mais longo sem escalas. Partindo de Roma, pousando no litoral potiguar, após percorrerem aproximadamente 7.158 km em mais de 48 horas de voo (MEDEIROS, 2011, online).

Em agradecimento à hospitalidade e boa acolhida prestada aos pilotos italianos pela população natalense, a Itália, sob comando d ​o então Primeiro Ministro Benito Mussolini, presenteou a cidade do Natal com um monumento de grande valor histórico, uma Coluna Capitolina. ​Erguida em 8 de Janeiro de 1931 na Esplanada do Cais do Porto na Ribeira, foi posteriormente derrubada, durante o levante da Intentona Comunista em 1935, por ser considerada monumento de origem fascista. Chegou a ser reerguida nas praças João Tibúrcio e Carlos Gomes, ambas localizadas na Cidade Alta. Encontra-se atualmente erguida no largo do Instituto Histórico e Geográfico na Praça André de Albuquerque, no bairro Cidade Alta, Natal, RN (PAIVA, 2016, online).

Figura 05 - Cerimônia de inauguração da Coluna Capitolina, no cais do Porto da Ribeira.

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3.1.4 Segunda Guerra Mundial

A localização geográfica privilegiada da cidade do Natal, por ser o ponto de menor distância entre a América do Sul e o continente Africano, sempre teve destacada a sua importância como ponto estratégico para a aviação mundial. Além de importante ponto de apoio para os aviadores pioneiros nas realizações dos ​raids aéreos, tão comuns durante a primeira metade do século XX, a partir de meados da década de 1920, Natal passa a figurar como peça importante no cenário da aviação comercial internacional.

A história da Base da Rampa teve início ainda na década de 1930. Suas instalações, inicialmente, eram utilizadas pela empresa alemã Syndicato Condor e7 pela empresa estadunidense Panair - subsidiária da Pan Am no Brasil -, como ponto de apoio para suas rotas comerciais (POR QUE “Rampa”, s.d., online).

Figura 06 - Instalações da Panair na antiga base de hidroaviões.

Fonte: CD Rom Natal 400 Anos.

Com sua entrada definitiva na Segunda Guerra Mundial - após o ataque à base de Pearl Harbour perpetrado pelo Japão em 7 de dezembro de 1941 -, e com o apoio brasileiro aos países aliados, os Estados Unidos puderam iniciar as obras de expansão de sua base naval de hidroaviões em território norte-rio-grandense, na Ribeira, além de realizar as obras do campo de Parnamirim (POR QUE “Rampa”, s.d., online).

As edificações da Base da Rampa contavam com um amplo hangar,

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dormitórios, enfermaria, sala de comando e escritórios, semelhantes às existentes nas instalações da base de Parnamirim Field. A base contava também com dois geradores elétricos para casos de emergência, além de ter capacidade para acondicionar mais de 70 mil galões de combustível, divididos entre 14 tanques subterrâneos (POR QUE “Rampa”, s.d., online).

A Base da Rampa e também a base de Parnamirim Field, funcionaram em conjunto como a maior base estadunidense fora do território americano durante a Segunda Guerra Mundial, tornando clara a importância estratégica que a cidade do Natal exerc​ia no cenário internacional durante a Segunda Guerra Mundial ​(POR QUE “Rampa”, s.d., online).

3.1.5 Natal pós Segunda Guerra Mundial

É inegável que o conflito da Segunda Guerra Mundial foi um evento de suma importância para a história de todo o século XX. Este conflito foi o responsável por causar diversas metamorfoses em todo o cenário socioeconômico e geopolítico mundial. Essas mudanças acabaram acontecendo igualmente na cidade do Natal, levando em conta a escala da cidade.

O apoio que a Cidade do Natal prestou aos países Aliados durante o conflito da Segunda Guerra Mundial, proporcionou diversas mudanças na cidade. A presença americana em Natal, deixou um legado significativo de mudanças e melhorias estruturais na cidade.

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Figura 07 - Militares americanos marchando na Ribeira em frente ao atual PROCON.

Fonte: Hart Preston/Time Life, 1941.

Após a construção da base de ​Parnamirim Field​, que se localizava à aproximadamente 20 km de distância da Cidade do Natal, percebeu-se a necessidade também da construção de vias de acesso mais modernas entre Natal e Parnamirim. Cerca de 20 km de estradas foram construídas e pavimentadas entre a cidade e a base estadunidense, proporcionando melhorias significativas, antes das estradas esse percurso levava cerca de três horas para ser realizado, após a finalização das obras o tempo gasto foi diminuído para apenas vinte minutos (LIVRAMENTO apud SILVA, 2002).

A implantação das estradas não foi algo apenas importante por encurtar as distâncias e melhorar o deslocamento dentro da cidade, as pistas mais modernas acabaram proporcionando a expansão dos bairros existentes, além do surgimento de novos bairros em seu entorno, expandindo assim o território ocupado pela cidade. Bairros como Tirol, Lagoa Seca e Lagoa Nova, surgiram nesse período, aparecendo e se expandindo no entorno de bairros já existentes, como a Ribeira, Alecrim e Cidade Alta (MIRANDA, 1999 apud MEDEIROS & LUNA 2012).

Todo esse investimento recebido por Natal acabou por chamar a atenção dos moradores do interior e de outros estados. Em meados de 1941 estima-se que a população da cidade fosse de aproximadamente 55 mil habitantes, dois anos após, em 1943, a população já estava na casa dos 85 mil habitantes. Esse crescimento

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acentuado, justifica-se pelo grande montante de militares estadunidenses que ficaram baseados na Cidade do Natal, de aproximadamente dez mil soldados. Além disso a grande oferta de empregos na capital norte-rio-grandense, causada pela construção das bases da Rampa e de Parnamirim, foi um fator importante nesse êxodo de trabalhadores provenientes do interior e de estados vizinhos (BORBA, 2007 apud MEDEIROS & LUNA, 2012).

Apesar de todas essas metamorfoses de ordem estrutural sofridas pela Cidade do Natal durante a Segunda Guerra Mundial, seria equivocado deixar de lado as mudanças sócio comportamentais vividas pela população de Natal durante esse importante período histórico.

O período da Segunda Guerra foi de grande importância para a evolução cultural de Natal que, de cidade provinciana, se viu afetada por uma cultura diferente, se tornando uma cidade agitada e de vanguarda cultural. Apesar da modernização alcançada, a cidade acabou sofrendo também com problemas antes inexistentes ou de vulto não significativo como, por exemplo, o aumento da prostituição, das DSTs e a inflação causada pelo grande volume de dólares injetados pelos americanos no comércio da cidade, problemas encontrados principalmente na Ribeira (MACEDO, 2004 apud TINÔCO, 2014).

Houve mudanças significativas de comportamento entre os bairros existentes da cidade. Por sua proximidade com a Base da Rampa, além de ter o Grande Hotel, principal hotel da cidade dentro dos seus limites, o bairro da Ribeira foi notavelmente o mais frequentado pelos militares americanos durante o período do conflito.

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Figura 08 - Militares americanos descansando na varanda do Grande Hotel na Ribeira.

Fonte: Hart Preston/Time Life, 1941.

A mudança da Ribeira, de bairro comercial para bairro noturno e boêmio, se deu principalmente pela alta concentração de bares e bordéis estabelecidos em seu território durante esses anos. Isso acabou impulsionando o êxodo de famílias para outros bairros da cidade, como Tirol, Cidade Alta e Petrópolis, ocasionados pela procura de bairros mais familiares e tranquilos (CUNHA, 2014).

Figura 09 - Beco da Quarentena, reduto marginalizado da Ribeira por conter diversos cabarés em sua extensão.

Fonte CD Rom Natal 400 Anos.

Pode se traçar um paralelo entre a separação da sociedade de outrora e pela situação atual da cidade. Apesar de a clássica rivalidade entre a Cidade-Alta representada outrora pelos Xarias e a Ribeira representada pelos Canguleiros, ter se

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dissipado muitas décadas atrás, ainda existe atualmente uma diferenciação bastante nítida entre esses dois bairros.

A Cidade Alta foi gradativamente crescendo conforme o centro comercial da cidade foi sendo transferido da Ribeira para as áreas adjacentes, principalmente após a criação do bairro do Alecrim. Igualmente, a concentração de estabelecimentos comerciais e de serviços na Avenida Rio Branco e em parte do bairro de Petrópolis diminuiu a importância da Ribeira no setor comercial (CUNHA, 2014).

Essa mudança de ares já podia ser notada em menor intensidade desde o período da Segunda Guerra Mundial, apesar do grande investimento recebido pela Ribeira e, consequentemente, as Rocas com as melhorias na Base da Rampa, a Ribeira ainda assim passou a ter uma imagem de local boêmio e marginal devido principalmente aos diversos bares e bordéis que eram comumente frequentados pelos combatentes americanos nesse período.

O fim da Segunda Guerra Mundial acabou sendo um duro golpe para o bairro da Ribeira, com a saída de seus principais frequentadores - os militares americanos - as atividades boêmias do bairro foram, aos poucos, perdendo suas forças. Boates e bares acabaram fechando, e seus prédios passaram a ser utilizados para outros fins.

Levando em consideração o que foi exposto por Cardoso (2011), o casarão situado na então Rua do Commercio, renomeada de Rua Chile em 1º de Agosto de 1932 mantendo essa alcunha até os dias atuais, serve como exemplo da ressignificação que um imóvel pode sofrer durante o decorrer das décadas.

Figura 10 - Casarão da Rua Chile.

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O prédio funcionou durante anos como principal armazém do bairro da Ribeira onde eram acondicionadas e comercializadas diversas mercadorias que circulavam por meio do porto de Natal. Foi durante décadas considerado o maior e mais imponente exemplo arquitetônico da Cidade do Natal, funcionando como sede do poder executivo do Rio Grande do Norte durante os anos de 1869 a 1902. Foi o local onde, em 17 de novembro de 1889, foi anunciada a proclamação da República ao povo natalense, por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, primeiro governador do Estado. (CUNHA, 2014).

Este mesmo casarão abrigou décadas depois em seus pisos superiores o Wonder Bar que, junto do Arpege, foi uma das principais boates frequentadas pelos8 militares americanos na época da Segunda Guerra Mundial, servindo como bar e também cabaré mas ainda sendo considerado um estabelecimento elitizado. (CUNHA, 2014). O casarão abriga atualmente a Escola de Danças do Teatro Alberto Maranhão (EDTAM), e é um dos edifícios que receberá investimentos para restauração e revitalização, disponibilizados pelo PAC das Cidades Históricas. 9

Atualmente os bairros que compõem o centro histórico da Cidade do Natal, Cidade Alta e Ribeira principalmente, apresentam um uso diversificado de seu acervo arquitetônico. São bairros de caráter predominantemente comercial e de serviços, reunindo uma forte concentração de órgãos públicos em seus limites (MEDEIROS & LUNA, 2012).

A Ribeira foi o primeiro bairro de Natal, escolhido para receber investimentos destinados à revitalização urbana de centros históricos (SILVA, 2002).

Um fato interessante recai na escolha da Ribeira e não da Cidade Alta, berço da Cidade do Natal, para receber os investimentos e obras iniciais voltadas para e restauração de bairros de caráter histórico. Isso pode ser explicado pelo motivo da Ribeira ter mantido grande parte das suas características arquitetônicas históricas, apesar de suas edificações se encontrarem desgastadas e subutilizadas. Diferente do acervo arquitetônico encontrado na Cidade Alta, que apesar de se encontrar em

8 Podendo também ser encontrado como​ “Wunder Bar”​ em alguns documentos devido a discordâncias entre alguns autores sobre a grafia utilizada para o nome desse estabelecimento.

9 Programa de Aceleração do Crescimento, iniciado em 2007, visando a retomada do planejamento e execução de grandes obras de infraestrutura social, urbana, logística e energética do país. Fonte:

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melhores condições de conservação, acabou perdendo gradativamente as suas características históricas (SILVA, 2002).

Apesar das ações que visam revitalizar a Ribeira, percebe-se ainda problemas comumente encontrados em áreas centrais deterioradas, contando com um mal uso de seu acervo de prédios históricos, falta de segurança pública, espaços públicos mal conservados, além de um baixo índice de moradias ocupadas (SILVA, 2002).

Apesar disso, existe uma presença significativa de ações, coordenadas pela própria população, visando a revitalização do bairro da Ribeira, para a realização de eventos de caráter social e cultural (SILVA, 2002).

Localizada na Rua Frei Miguelinho, a criação do espaço cultural Casa da Ribeira foi uma iniciativa encabeçada pelos artistas potiguares do grupo Clowns de Shakespeare. O grupo restaurou e revitalizou um antigo casarão do bairro da Ribeira, construindo uma sala de espetáculos com capacidade para 150 espectadores. Atualmente, o espaço conta, também, com um áreas para exposições, um café cultural, além de uma biblioteca com um vasto acervo de cerca de 1.400 títulos (HISTÓRIA, s.d., online).

Figura 11 - Espaço Cultural Casa da Ribeira.

Fonte: Acervo SEMURB.

O projeto “Fachadas da Rua Chile”, que teve início em 1996. Coordenado pelo arquiteto Haroldo Maranhão, foi pioneiro em realizar a revitalização de uma área

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histórica degradada na Cidade do Natal. Esta ação promoveu a restauração das fachadas de 45 edificações localizadas na Rua Chile e no seu largo (SILVA, 2002).

Após o levantamento de dados realizado no trabalho, se torna evidente a importância histórica que o bairro da Ribeira ainda tem.

Considerado como pobre e periférico em seus anos iniciais, passou a ser considerado como um bairro de elite nas primeiras décadas do século XX, quando viveu um período de importante efervescência cultural. Importante no cenário da aviação mundial, serviu de ponto de apoio para diversos pioneiros da aviação que utilizavam das margens do Rio Potengi como parada obrigatória em seu ​raids​. Importante também, junto com Parnamirim, como uma das maiores bases estadunidenses fora de território ​yankee​, durante o conflito da Segunda Guerra Mundial.

3.2. CONTEXTO ATUAL

Apesar de toda sua bagagem histórica, para se montar um panorama completo da Ribeira, faz-se necessário um levantamento de dados atual, visando entender e representar da forma mais eficaz possível, tanto as visões de outrora quanto as atuais. O trabalho realiza agora uma pesquisa que exemplifica as dinâmicas e comportamento atual do bairro da Ribeira.

3.2.1 Dados demográficos

Para entender melhor como o bairro da Ribeira se comporta atualmente, foi realizada inicialmente uma pesquisa demográfica sobre a sua população, além de levar em consideração alguns bairros fronteiriços. Isso torna possível traçar um perfil sobre o bairro, entendendo suas peculiaridades e como ele funciona.

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Tabela 01 - Evolução Demográfica (1991 - 2012). Ano 1991 1996 2000 2007 2010 2012 Nº de habitantes Ribeira 1.826 1.839 2.110 1.966 2.222 2.231 Nº de habitantes Rocas 12.316 10.833 10.525 10.849 10.452 10.430 Nº de habitantes Santos Reis 7.480 6.633 6.820 6.071 5.641 5.489 Nº de Habitantes Cidade Alta 7.548 6.254 6.692 7.247 7.123 7.194

Fonte: SEMURB, 2012. Adaptado pelo autor.

Tabela 02 - Número de Domicílios Particulares Permanentes.

Bairro Lei de Criação Área (Ha)

Domicílios Particulares Permanentes (2000) Domicílios Particulares Permanentes (2010) Taxa de Crescimento (2000 - 2010) Ribeira 4.330/93 94,39 581 764 2,78 Rocas 4.330/93 66,01 2.557 3.067 1,84 Santos Reis 4.330/93 222,09 1.504 1.531 0,18 Cidade Alta 4.330/93 116.41 1.809 2.259 2,25

Fonte: SEMURB, 2012. Adaptado pelo autor.

Tabela 03 - Média de moradores por domicílio (2010).

Bairro Domicílios Particulares Permanentes Número de Moradores Média de Moradores por Domicílio

Ribeira 764 2.222 2.91

Rocas 3.067 10.408 3.39

Santos Reis 1.531 5.638 3.68

Cidade Alta 2.259 6.886 3.05

Fonte: SEMURB, 2012. Adaptado pelo autor.

Atualmente a Ribeira é um bairro predominantemente de serviços, o que explica a sua taxa de moradores ser menor do que nos bairros em seu entorno. Comparando os dados atuais com os do primeiro censo realizado na cidade,

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publicado na edição de 5 de fevereiro de 1897, percebe-se uma diminuição da população moradora do bairro, que caiu de cerca de 2.800 moradores no censo inicial, para pouco mais de 2.200 moradores no ano de 2012.

Apesar disso, a Ribeira é um dos bairros mais frequentados da cidade, em razão de se encontrarem nela diversos órgãos de serviço público. Estão em seus limites, o Banco do Brasil, o ITEP, a sede dos Correios, o Procon, entre outros. Isso promove um grande fluxo de pessoas na Ribeira, em busca de seus diversos serviços prestados.

A seguir o trabalho expõe alguns pontos importantes para traçar um panorama atual da Ribeira, exemplificando o funcionamento de áreas de interesse comercial, como o porto, além de mostrar algumas das ações de teor social e cultural que acontecem no bairro, eventos e ações governamentais que já acontecem e que irão acontecer no futuro.

3.2.2 Porto de Natal

Atualmente o porto de Natal é administrado pela Companhia Docas do Rio Grande do Norte, CODERN, companhia também responsável pela administração do Terminal Salineiro de Areia Branca, RN, e pelo Porto de Maceió, AL (CODERN, 2010).

O Porto de Natal é do tipo estuário, estabelecido na margem direita do Rio Potengi a 3 km de distância da sua foz. Sua área de influência compreende os estados da Paraíba, Ceará e Pernambuco, além de ter uma linha direta para a europa com paradas na Espanha, Inglaterra e Holanda (CODERN, 2010).

Possui uma área de acostagem que se estende por um total de 544 metros, divididos entre 3 berços. Possui uma área descoberta com cerca de 29 mil m² dividida em quatro pátios, utilizados para armazenamento de contêineres de carga, contando inclusive com diversas caixas de tomadas para a alimentação de contêineres frigorificados (CODERN, 2010).

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Figura 12 - Vista aérea do Porto de Natal.

Fonte: Autor desconhecido, s.d.

Em 2014, o Porto de Natal realizou a movimentação de cerca de 456 mil toneladas de carga. Deste total quase 280 mil t foram representadas por cargas gerais e cerca de 176 mil t de carga composta por granéis sólidos, exclusivamente trigo (CODERN, s.d. apud SEP/PR, UFSC & LabTrans, 2015).

Tabela 04 - Histórico da movimentação geral de cargas no porto de Natal entre 2011 e 2017 (em toneladas). Meses/Anos 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 Janeiro 45.932 30.520 33.776 48.700 42.398 50.881 62.798 Fevereiro 13.936 42.924 54.827 42.347 42.118 87.446 71.700 Março 23.458 27.070 24.932 21.720 48.220 94.171 56.971 Abril 51.386 20.230 29.115 38.192 35.195 25.070 55.190 Maio 22.014 20.190 28.443 9.757 34.308 30.309 42.983 Junho 13.000 30.102 22.763 26.495 19.012 53.069 34.648 Julho 11.053 13.867 36.800 12.619 38.867 12.607 37.665 Agosto 20.466 29.324 11.796 28.347 32.005 39.379 58.813 Setembro 23.181 65.909 53.948 34.847 59.469 97.911 Outubro 23.715 53.737 45.829 63.815 64.082 65.278 Novembro 23.238 32.268 59.544 50.669 85.949 97.360 Dezembro 26.669 46.704 65.191 80.608 68.877 61.339 Total 301.075 412.845 466.964 458.116 570.500 714.820 420.768

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Analisando a tabela é possível perceber que, mesmo com uma pequena queda na movimentação de cargas entre os anos 2013 e 2014 - cerca de 1.89% -, o Porto de Natal teve um constante aumento na procura pelos seus serviços. Isso pode ser percebido pela variação de cargas transportadas, que mais que dobrou se compararmos os anos de 2011 e 2016. É necessário, igualmente, destacar o ano de 2017 em que, apenas nos primeiros 8 meses, movimentou uma carga superior à movimentada durante todo o ano de 2012.

Por estar localizada em um ponto considerado estratégico, a esquina do continente, faz-se necessária uma melhoria na acessibilidade do porto, o que deve possibilitar uma maior eficiência e segurança, aumentando, assim, o fluxo de cargueiros estrangeiros.

Em razão do constante aumento na demanda prevista, a CODERN desenvolveu um projeto para a expansão do Porto de Natal com o intuito de aumentar a capacidade de armazenagem do porto. O projeto inicial prevê a expansão do pátio norte, com a apropriação de parte do terreno ocupado pela comunidade do Maruim nas Rocas, além da construção de um quarto berço de atracação no local onde encontra-se os terminais desativados da Transpetro (CODERN, 2010).

As obras de expansão do porto com a desapropriação do terreno da comunidade do Maruim, são as que se encontram em fase mais adiantada. O Residencial São Pedro, condomínio construído para receber as famílias oriundas da comunidade do Maruim, teve suas obras iniciadas em meados de agosto de 2014 e foi inaugurado oficialmente em junho de 2016. Essa desapropriação deixou livre um terreno com cerca de 15 mil m², que será dividido entre a CODERN e a Prefeitura. Cerca de 7,6 mil m² serão destinados para a ampliação do porto e os 7,4 mil m² restantes serão destinados para a urbanização e requalificação da comunidade do Maruim. Este projeto tem como objetivo a construção de um centro comercial de descasque de camarões, além de quiosques para serem utilizados pelas famílias oriundas do Maruim. Também prevê o alargamento da via que passa pelo local, além da ampliação da Praça do Pôr-do-Sol, localizada no Canto do Mangue, nas Rocas. O

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projeto custará cerca de R$ 4,3 milhões aos cofres públicos (ENTRAVE Jurídico Atrasa Início das Obras de Requalificação do Maruim, 2017, online).

Figura 13 - Área pertencente à antiga Comunidade do Maruim que será anexada ao porto.

Fonte: CODERN, 2010, p 89.

Apesar da desapropriação do terreno já ter sido quase que totalmente concluída, tanto as obras de ampliação do porto quanto as de requalificação da comunidade do Maruim não foram iniciadas. Esse atraso é resultante principalmente de um entrave jurídico provocado por algumas famílias, que se recusam a deixar suas moradias na comunidade do Maruim e serem realocadas para o Residencial São Pedro (ENTRAVE Jurídico Atrasa Início das Obras de Requalificação do Maruim, 2017, online).

O projeto do quarto berço de atracação prevê a construção de um novo cais, com cerca de 220 metros de comprimento por 21,5 metros de largura. O espaço a ser ocupado pelo novo berço era utilizado antes como dolfins de atracação da Transpetro, utilizados para o embarque e desembarque de combustível. Esse terminal foi desativado em 2014, permanecendo sem uso desde então (CODERN, 2010).

Figura 14 - Área desativada da Transpetro que será utilizada na ampliação do Porto de Natal.

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Além disso, a CODERN ainda enfrenta dificuldades em receber os investimentos destinados a companhia. Desde 2014 a CODERN recebeu R$ 100 mil, apenas 0,1% dos R$ 100 milhões em recursos aprovados para a empresa (CECI, 2017, online).

Em comparação com a movimentação de cargas, e apesar de ser uma cidade com grande representação turística, o Porto de Natal tem uma fraca movimentação de passageiros. A cidade recebe apenas cerca de 14 mil passageiros por ano que desembarcam no Porto de Natal (CODERN, 2010).

Por consequência disso, desde 2014 foram iniciadas obras para a demolição do galpão frigorífico, e construção de um terminal adequado para recepção dos passageiros oriundos de cruzeiros (PORTAL BRASIL, 2014, online).

Figura 15 - Simulação 3d do Terminal de Passageiros do Porto de Natal.

Fonte: CODERN, 2010, p 90.

Nos primeiros quatro anos de atuação, o terminal de passageiros do Porto de Natal recebeu apenas 25 navios de cruzeiro, todos eles internacionais, muito aquém do esperado para um terminal que custou cerca de R$74 milhões para a sua construção. Para evitar que a estrutura ficasse longos períodos de tempo sem ser utilizada, já que o terminal apenas é utilizado durante as temporadas de cruzeiros, a Codern tomou a decisão de disponibilizar as áreas do Terminal Marítimo de Passageiros para a realização de eventos, com os aluguéis variando entre R$ 4 mil e R$ 30 mil.

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Entre agosto e novembro de 2018, cerca de três eventos foram realizados no novo terminal, o espaço também foi cogitado por pelo menos três empresas de organização de eventos para a realização das festividades do ​réveillon​ daquele ano.

Essa nova função do terminal de passageiros representa uma importante ferramenta para a revitalização do bairro da Ribeira, atraindo turistas e moradores para esses eventos, aumentando a movimentação de dinheiro no bairro e também gerando lucro para o Porto de Natal (TERMINAL abre para eventos e reforça caixa, 2018, online).

Apesar de o Terminal Marítimo de Passageiros finalmente ter encontrado sua função, o início de 2019 representou um período de grande prejuízo para o Porto de Natal.

Mesmo passados três meses da condenação pela Justiça Estadual, as defensas da Ponte Newton Navarro ainda não foram instaladas pelo Governo do Rio Grande do Norte. Além do prejuízo causado pela multa de R$ 2 milhões, a Codern ainda sofre com as restrições acarretadas pela faltas das defensas. Navios são impedidos de adentrarem em Natal por debaixo da ponte, podendo atracar no porto apenas durante o dia, o que diminui significativamente o volume de cargas que poderiam ser transportadas pela cidade (GOVERNO não tem dinheiro para defensas, 2019, online).

Além de todos essas dificuldades enfrentadas pelo Porto de Natal, um novo caso trouxe uma atenção negativa para o porto e a Codern. Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, diversas apreensões de cocaína foram realizadas tanto pela polícia brasileira quanto pela holandesa. Totalizando um montante de mais de dez toneladas da droga transportadas apenas nesses quatro meses. A cocaína foi encontrada dentro de contêineres utilizados para o transporte de frutas até a Holanda.

Novamente a falta de recursos financeiros para a Codern acaba prejudicando seriamente o funcionamento do porto. Desde 2010 a empresa tem pretendido comprar um aparelho de scanner de contêiner que custa R$ 10 milhões. Apesar de importante, o pedido de compra ainda não foi atendido, isso acaba facilitando a operação dessas organizações criminosas (HOLANDA faz nova apreensão de cocaína; rota de Natal movimentou 10 toneladas em quatro meses, 2019, online).

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3.2.3 Boêmia atual da Ribeira

As reformas realizadas durante o projeto Fachadas da Rua Chile, proporcionaram as condições necessárias para o desenvolvimento de uma cena musical e cultural no bairro da Ribeira. A escolha da Rua Chile para receber esse tipo de intervenção, denota não apenas uma preocupação em preservar os bens históricos do bairro, mas principalmente a revitalização e embelezamento de um local que pudesse ser utilizado como atrativo e comercial da cidade, pois a Rua Chile possui uma vasta área aberta, o seu “largo”, que poderia ser usado como apoio para a realização de eventos, servindo de espaço para a instalação de palcos e também como estacionamento para os frequentadores (CUNHA, 2014).

Apesar da revitalização realizada na Ribeira, mais precisamente na Rua Chile, que trouxe uma maior visibilidade para o bairro, com o aparecimento, até mesmo de uma cena musical e cultural própria do bairro, impulsionada pela criação de diversas casas de show e realização de eventos culturais no largo da Rua Chile, percebeu-se que não houve um crescimento significativo no número de moradores na Ribeira (CUNHA, 2014).

Essa nova cena cultural encontrada na Ribeira é impulsionada, principalmente, pela iniciativa privada de moradores da cidade e entusiastas do bairro, que realizam eventos culturais com o intuito de uma maior valorização da Ribeira, bairro de grande importância histórica.

Um dos projetos culturais de maior visibilidade e importância, seria o Circuito Cultural Ribeira. O Circuito, como é conhecido pelos natalenses, nasceu em 2011, fruto da parceria firmada entre o Espaço Cultural Casa da Ribeira e o Centro Cultural DoSol, no seu primeiro ano foram realizadas oito edições do evento, sempre no primeiro domingo de cada mês. Recebeu apoio governamental pela Lei Câmara Cascudo, além de patrocínio de empresas privadas (CIRCUITO Cultural Ribeira, s.d., online).

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Figura 16 - Show da Virada Cultural Ribeira de 2014.

Fonte: DoSol, 2014.

A época de boemia e efervescência cultural da Ribeira é sempre relembrada e revisitada nos vários eventos que acontecem com certa frequência no bairro.

Esses eventos englobam desde shows musicais, apresentações teatrais, feiras literárias e festivais gastronômicos, sempre denotando a importância que a Ribeira tem no cenário histórico e cultural da cidade.

A época de boemia e efervescência cultural da Ribeira é sempre relembrada e revisitada nos vários eventos que acontecem com certa frequência no bairro.

Durante o início do mês de março de 2019 aconteceram diversos encontros e eventos musicais e culturais no bairro da Ribeira. Parte das comemorações do Carnaval de Natal, que dividiu a cidade em seis pólos de festas recebendo cerca de 1.800 artistas nacionais e locais.

O pólo Centro Histórico, do qual a Ribeira faz parte, recebeu nos dias de carnaval diversos artistas potiguares e nacionais (UM carnaval para sacudir Natal, 2019, online)

Além dos diversos shows, o bairro da Ribeira também foi palco do tradicional desfile das escolas de samba de Natal. Nos dias 02 e 03 de março, onze escolas de samba da capital desfilaram pela Avenida Duque de Caxias (PREFEITURA define cronograma do desfile das escolas de samba, 2019, online).

No dia 07 de março de 2019, a escola Balanço do Morro, com sede no bairro das Rocas, sagrou-se tetracampeã do carnaval de Natal, seguida de perto pela sua

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principal concorrente a Malandros do Samba (ESCOLA de samba Balanço do Morro é campeã do carnaval de Natal 2019, 2019, online).

Apesar do trabalho ser focado no bairro da Ribeira, o projeto será pensado de forma a não restringir seu uso apenas a esse bairro podendo, num futuro, ser expandido para outras áreas da cidade.

Apesar de localizar-se no bairro vizinho da Cidade Alta, é interessante para o trabalho destacar o projeto de revitalização do Beco da Lama, pensado pela Prefeitura da cidade e realizado por cerca de quarenta artistas potiguares coordenados pelo artista paulista DicesarLove, conhecido internacionalmente e que participou anteriormente da Revitalização do Beco do Batman em São Paulo (OS encantos do Beco da Lama, 2019, online)

O projeto foi pensado com o intuito de revitalizar áreas do centro histórico da cidade, reforçando sua imagem cultural, trazendo a população novamente para esses lugares. O projeto da prefeitura também almeja a inserção do centro histórico no circuito de turismo da cidade, apostando no apelo cultural que essa região carrega consigo (PREFEITURA do Natal finaliza primeira etapa de revitalização do Beco da Lama, 2019, online).

Durante o evento de conclusão da intervenção no Beco da Lama, o prefeito Álvaro Dias deu algumas entrevistas sobre o projeto, é interessante destacar uns dos trechos onde o prefeito diz que: “[...] Estamos fazendo esta revitalização para deixar o Beco da Lama mais bonito e moderno, para que o Centro seja, cada vez mais agradável, chamativo e convidativo ​para o povo de Natal e para os turistas que nos visitarem​”. (PREFEITURA do Natal finaliza primeira etapa de revitalização do Beco da Lama, 2019, online) “grifo nosso”. Essa frase é interessante pois se assemelha bastante com um dos objetivos principais do atual trabalho, mostrando que existe a intenção de investir mais no turismo urbano da cidade.

3.2.4 PAC Cidades Históricas

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) concebido pelo Governo Federal e coordenado pelo Ministério do Planejamento, foi criado em 2007 com o

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intuito de promover o início e a retomada de grandes obras de infraestrutura, social, urbana, logística e energética do Brasil (PAC Cidades Históricas, s.d., online).

Entrou em sua segunda fase em 2011, permanecendo com o mesmo pensamento estratégico, aliado com a experiência alcançada pelos anos iniciais do projeto, além de maiores recursos e parcerias estaduais e municipais (PAC Cidades Históricas, s.d., online).

Em 2013 o Ministério do Planejamento realizou uma ação inédita nas políticas de preservação, autorizando a criação de uma linha de crédito, destinada exclusivamente a auxiliar na preservação dos centros históricos urbanos, protegidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional [Iphan]. Esse projeto foi nomeado de PAC das Cidades Históricas (PAC Cidades Históricas, s.d., online).

A concepção do programa, tal como a escolha dos sítios e monumentos históricos contemplados, acabou ficando a cargo do Iphan, contando ainda com o apoio de diversas outras instituições municipais e federais (PAC Cidades Históricas, s.d., online).

O Programa está sendo implantado atualmente em 44 cidades de 20 estados, contando com o investimento inicial de R$ 1,9 bilhão, para a realização de 425 ações de restauração e preservação de edificações e logradouros públicos (PAC Cidades Históricas, s.d., online).

Por possuir um centro histórico de importância e valor inestimável, Natal foi a única cidade do estado do Rio Grande do Norte a ser atendida pelo PAC das Cidades Históricas.

Vale ressaltar que 10 das 425 ações pretendidas pelo Programa, irão promover a revitalização e reabilitação de 9 edificações e 13 logradouros públicos de importante valor histórico e cultural, na cidade do Natal. Assim, foram destinados para a cidade cerca de R$ 43 milhões, para serem utilizados na restauração dos prédios e espaços públicos espalhados pelos bairros Ribeira, Cidade Alta, Rocas e Praia do Meio.

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Tabela 05 - Ações a ser realizadas pelo PAC das Cidades Históricas em Natal/RN. N° da

Ação Intervenção Órgão Executor Valor Bairro

348 Restauração do Forte dos Reis Magos Iphan R$ 8,5 milhões Praia do Meio

349 Restauração do Palácio Felipe Camarão Prefeitura do Natal R$ 1,5 Milhão Cidade Alta

350 Requalificação das Praças do Centro Histórico Governo do Estado R$ 9,9 milhões Ribeira, Rocas e Cidade Alta

351 Restauração do Casarão do Arquivo Arquidiocesano Iphan R$ 1,5 milhão Cidade Alta

352

Restauração do Casarão da Escola de Danças do Teatro Alberto Maranhão

Governo do

Estado R$ 11 milhões Ribeira

353

Restauração do Antigo Grupo Escolar Augusto Severo - Núcleo de extensão UFRN

UFRN R$ 2,6 milhões Ribeira

354

Reabilitação do Antigo Hotel Central - habitação de interesse social

Prefeitura do

Natal R$ 610 mil Ribeira

355

Restauração do Antigo Armazém Real da Capitania - Casa do Patrimônio

Iphan R$ 1,1 milhão Cidade Alta

356 Restauração do edifício da SEMUT UFRN R$ 3,3 milhões Cidade Alta

357 Restauração do Teatro Alberto Maranhão Governo do Estado R$ 4 milhões Ribeira

Fonte: Prefeitura do Natal & IPHAN, 2015, adaptado pelo autor.

3.2.4.1 Acervo arquitetônico da Ribeira atendido pelo PAC Cidades Históricas

Por possuir um importante acervo histórico e arquitetônico, a Ribeira está inclusa no PAC Cidades Históricas, que irá revitalizar quatro edifícios do bairro, além

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de um logradouro público, totalizando cinco ações a serem realizadas visando a preservação, revitalização e reutilização desses espaços.

Tabela 06 - Acervo arquitetônico da Ribeira selecionado pelo PAC Cidades Históricas. Teatro Alberto Maranhão: ​originalmente nomeado de Teatro Carlos Gomes, foi inaugurado em 1904 no entorno da Praça Augusto Severo. Passou por uma grande reforma, sendo reinaugurado em 1912. Funcionou como cinema entre os anos de 1928 e 1930, e como Câmara Municipal de 1952 a 1954 (SEMURB, 2008).

Casarão da Rua Chile:​ foi a 5ª sede do Poder Executivo do Rio Grande do Norte entre os anos de 1870 e 1902 (SEMURB, 2008). Após ser vendido foi transformado no Wonder Bar, importante recanto boêmio da Ribeira, bastante frequentado pelos militares americanos durante a Segunda Guerra Mundial (MELO, 1999 apud SEMURB 2008). Atualmente abriga a EDTAM, Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão.

Antigo Grupo Escolar Augusto Severo: ​construído no início do século XX no entorno da Praça Augusto Severo, funcionou o Grupo Escolar Augusto Severo. Considerada Escola-Modelo desde 1909, por ser pioneira no estado na reformulação do modelo educacional da época. Entre 1952 e 1954, funcionou como Atheneu Norte-rio-grandense. Funcionou, também, como Faculdade de Direito de 1956 a 1974 (SEMURB, 2008).

Antigo Hotel Central: ​um dos hotéis mais movimentados durante o período da ocupação estadunidense em Natal, o Hotel Central foi reinaugurado em 2011,passou a funcionar como o Albergue Municipal José Augusto da Costa. Foi desativado em 2013 e, desde então, está sob a responsabilidade da Semurb, que aguarda os recursos do Governo Federal serem liberados para a realização das obras de revitalização do imóvel (ARAÚJO, R., 2017).

Praça Augusto Severo: ​conhecida originalmente como Praça da República, fundada em dezembro de 1905. Localizada no centro da Ribeira, possui em seu entorno o Teatro Alberto Maranhão e a antiga Rodoviária - atual Museu da Cultura Popular - (SEMURB, 2008).

Fonte: SEMURB, 2008; José Aldenir, 2011. Adaptado pelo autor.

Percebe-se que o bairro de Ribeira continua sendo um movimentado pólo cultural da Cidade do Natal, recebendo ações governamentais que exemplificam o

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seu valor histórico, além de receber diversos eventos culturais, mostrando estar ainda na memória dos natalenses e no imaginário dos turistas. O bairro, ainda hoje, é sinônimo de boemia, cultura e história, além de importante para a economia do estado por possuir em seu território seu principal porto.

O trabalho irá exemplificar, nos itens subsequentes, a importância do design, e possibilidades de projeto com a criação de um conceito de aplicativo com informações históricas e atuais sobre o bairro da Ribeira.

3.3 DESIGN DE SERVIÇOS E DESIGN DA INFORMAÇÃO

Com o passar dos anos percebeu-se um grande aumento na oferta de produtos para o consumidor, sejam eles bens físicos, como peças de vestuário ou intangíveis, como os filmes e séries disponíveis via serviço de ​streaming​. Essa enorme variedade de opções fez com que o mercado buscasse cada vez mais a inovação, empresas passaram a tentar se distanciar dos seus concorrentes, apresentando diferenciais que tornassem os seus produtos mais atrativos para os seus clientes.

Os consumidores, cada vez mais exigentes, passaram a se tornar de fato o foco das empresas, que passaram a investir em pesquisas que tinham como intuito entender como os clientes pensam e, principalmente, o que eles esperam e desejam que as empresas ofereçam para eles.

Stickdorn e Schneider deixam claro essa mudança de mentalidade encarada pelas empresas no seguinte trecho:

Com a constante renovação de tecnologias e equipamentos, aliadas ao novo modelo de perfil do consumidor, a cada dia mais consciente, engajado e ativo, as empresas buscam constantemente trilhar novos caminhos na oferta de produtos e serviços. (STICKDORN & SCHNEIDER, 2010, p. 12).

Podemos considerar que hoje as empresas não vendem mais apenas seus produtos, mas sim toda uma experiência que o consumidor irá ter, desde antes da compra - como o cliente é atendido, tempo de entrega, entre outros - até após a compra, com um bom serviço de assistência técnica, por exemplo.

Atualmente está mais difícil diferenciar os conceitos de produto e de serviço. Na nova lógica de mercado, tudo ou quase tudo, pode ser considerado como sendo um serviço. (STICKDORN & SCHNEIDER, 2010, p. 12).

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Em vista dessa nova realidade de mercado, popularizou-se o conceito de design de serviços, um processo que se preocupa com toda a experiência do usuário, tentando trazer a solução mais adequada para cada situação.

Uma abordagem de design de serviços não é um processo exatamente linear, devendo suas ferramentas e processos ser utilizados com o intuito de se adequar às necessidades cada projeto.

Após a realização da revisão bibliográfica sobre a situação atual do bairro da Ribeira, foram encontradas algumas oportunidades de projeto. Apesar dos problemas existentes, percebeu-se que existe uma grande valorização da história e cultura do bairro, existe um interesse em promover uma revitalização de todo o centro histórico de Natal - projetos como o PAC das Cidades Históricas, encabeçado pelo Governo Federal, além de projetos culturais desenvolvidos por uma parcela da população, como a Fundação Casa da Ribeira, comprovam esse interesse.

O mais adequado para o atual trabalho seria utilizar de uma abordagem voltada

para o design da informação em conjunto com algumas ferramentas do design de serviços. Essa decisão foi tomada por proporcionar uma maior aproximação com o usuário, sendo ideal para projetos nos quais a definição dos problemas é mais difícil ou quando lidamos com problemas muito amplos.

O produto final do projeto, seria um conceito de aplicativo mobile, que traz para os seus usuários, informações históricas e atuais sobre o bairro da Ribeira. Para projetar algo que se adequasse da melhor forma possível aos usuários, fez-se necessária a realização de uma pesquisa sobre metodologias de projeto voltadas para design da informação.

Este levantamento de dados teve como intuito conhecer diferentes tipos de ferramentas e abordagens metodológicas. Entender cada método e avaliar suas etapas, tornou possível a criação de uma metodologia que melhor se adaptasse às necessidades do projeto atual, entregando um produto final adequado aos seus usuários.

Referências

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