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O COLAPSO DO COMUNISMO. Do povo para o povo.

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O COLAPSO DO COMUNISMO

NA EUROPA

0 Cidadão Triunfante

N

a manhã de 10 de novembro de 1989, o presidente da Alemanha Ocidental, Richard von Weizsãcker, deu um passo sobre uma fenda no Muro de Berlim, perto do Portão de Brandenburgo, e entrou numa terra de ninguém. Do outro lado, um tenente armado da guarda da fronteira da Alemanha Oriental seguiu na direção dele. O presidente e o grupo que o acompanhava detiveram-se quando o oficial aproximou-se. O tenente hesitou, mas bateu con-tinência, dizendo: "Bem-vindo, senhor presidente, tudo está indo conforme o planejado, sem relatos de qualquer perturbação."1

Esse encontro surpreendente ocorreu na manhã seguinte à queda do Muro de Berlim. Era, em pequena escala, o reconheci-mento de que a autoridade do Ocidente deparava-se agora com o Oriente, de que o sistema comunista de governo morrera de forma extraordinariamente tranqüila.

De 1945 a 1989, a Europa fora dividida entre um Ocidente demo-crático (com as exceções observadas no capítulo 12) e um Oriente

OSBORNE, Roger.

Do povo para o povo: uma nova história da democracia.

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comunista, com a fronteira passando aproximadamente pela linha em que as forças soviéticas e anglo-americanas encontraram-se na primavera de 1945. Qualquer noção de um Estado de trabalha-dores felizes foi abafada, de início, com o nascimento da opressão brutal em todo o Leste Europeu. Viver na Alemanha Oriental, na Polônia, na Tchecoslováquia, na Romênia ou na Bulgária era viver com medo e aceitar uma vida de rígida conformidade. Os cidadãos eram incentivados a espionar uns aos outros e a se tornar parte do sistema imenso e sofisticado de vigilância secreta. Memórias, romances e peças de escritores dissidentes retratavam sociedades dominadas e fatigadas pela paranóia constante - um cenário con-firmado pela descoberta posterior de milhões de arquivos do ser-viço secreto. Também ficou cada vez mais claro que o comunismo estava deixando de fornecer a prosperidade material que existia no Ocidente: a Europa Oriental estava apagada; sua arquitetura

e espaços públicos, desumanos e sem vida. Se alguém tivesse

dúvidas sobre o valor da democracia, lá estava a resposta - esse era o aspecto da sociedade sem democracia.

Embora os regimes comunistas seguissem o modelo soviético de totalitarismo implacável, às vezes apareciam brechas. A repressão ao levante húngaro de 1956 por forças soviéticas revelou que o comu-nismo estava sendo mantido por força, não pela vontade do povo. As medidas necessárias para manter o sistema também ficaram muito claras em agosto de 1961, quando os berlinenses despertaram ao barulho de centenas de caminhões entrando na cidade. Operários da construção do setor oriental começavam então a tarefa de cons-truir uma cerca de arame de 15 quilômetros, com altura média de 3,6 metros, que logo seria substituída por um muro sólido. O Muro de Berlim era a admissão do fracasso disfarçada de vitória. Antes

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de sua construção, cerca de 1.500 pessoas por dia fugiam do setor controlado pelos soviéticos da cidade para Berlim Ocidental. O muro foi construído para que as pessoas não saíssem. Até mesmo os cerca de 60 mil berlinenses orientais que iam todos os dias tra-balhar no setor ocidental foram proibidos de atravessar a fronteira. Berlim Ocidental, um enclave dentro da República Democrática Alemã comunista, passou a ser a fronteira entre dois blocos ideoló-gicos. Quando o presidente Kennedy visitou a cidade em junho de 1963, fez uma declaração que ficou famosa: "Dois mil anos atrás, o maior motivo de orgulho era civis Romanus sum. Hoje, no mundo da liberdade, o maior motivo de orgulho é Ich bin ein Berliner' [...] Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim e, portanto, como um homem livre, eu me orgulho das palavras Ich bin ein Berliner." Durante os 27 anos de existência do muro, estima-se que 5 mil alemães orientais tenham conseguido atravessar a fronteira para o Ocidente. Supõe-se que cem tenham levado tiros dos guardas na tentativa.

A repressão do levante húngaro e a construção do Muro de Berlim contiveram a dissidência no bloco oriental - mas apenas de forma temporária. Na chamada Primavera de Praga, em 1968, cidadãos tchccos começaram a exigir liberdades políticas. O novo líder do governo comunista, Alexander Dubcek, começou a introduzir reformas que incluíam maior liberdade de expressão, economias pública e privada mistas e a promessa de alguma demo-cratização. Usando a expressão "socialismo de rosto humano", Dubcek e seus aliados argumentaram que as políticas anteriores tinham simplesmente durado mais que seus propósitos e que era hora de mudar. Em resposta, na noite de 20 de agosto de 1968,

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tropas de 200 mil soldados do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia. O totalitarismo foi restabelecido à força.

A Hungria em 1956 e a Tchecoslováquia em 1968 deram indi-cações do desejo de mudança do povo e do poder dos governos comunistas para a resistência. A dissidência foi forçada à clan-destinidade em todo o bloco oriental, mas, na década de 1980, o monólito comunista começou a desmoronar. Os primeiros sinais de mudança apareceram na Polônia, onde aconteceram greves importantes no início da década de 1970, quando o governo intro-duziu reformas econômicas que incluíam altas exorbitantes nos preços. Uma greve geral levou Moscou a substituir o presidente Wladyslaw Gomulka, então enfermo, pelo mais dinâmico Edward Gierek em dezembro de 1970. Assim como outros líderes europeus orientais, Gierek expandiu a economia solicitando empréstimos do Ocidente, o que estava em harmonia com a "Neue Ostpolitik" do chanceler da Alemanha Ocidental, Willy Brandt. Ainda que isso tenha impulsionado a economia em curto prazo, em longo prazo, foi desastroso, acumulando dívidas para proteger a indústria polo-nesa da modernização de que ela precisava desesperadamente. Em 1980, 80% dos lucros da exportação polonesa eram usados para pagar os juros da dívida externa. Um resultado da abordagem mais flexível de Gierek foi o crescimento de uma indústria editorial clandestina, além de um contato maior com o Ocidente. Ao fim da década de 1970, um vago movimento de oposição estabelecera-se em torno do Comitê para a Defesa dos Trabalhadores (KOR). Um desdobramento crucial se deu em outubro de 1978, quando Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, foi eleito Papa, adotando o nome de João Paulo II. A Igreja Católica havia sido oprimida de forma vigorosa e, apesar disso, a Polônia continuou sendo um país

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predominantemente católico. Ignorando os conselhos de cautela, João Paulo II fez uma visita histórica à Polônia em junho de 1979, na qual pregou uma mensagem de direitos humanos e nacionais para congregações que totalizavam 6 milhões de pessoas. O povo polonês sentiu que o mundo finalmente estava do seu lado.

No verão de 1980, com a economia em crise, os trabalhadores dos estaleiros de Gdansk e das minas de carvão da Silésia organi-zaram uma série de greves e ocupações de fábricas. Em setembro, os trabalhadores formaram um único sindicato nacional, chamado Solidariedade, sob a liderança astuta de um eletricista chamado Lech Walesa. Com uma quantidade imensa de afiliados - che-gando a 10 milhões em 1981 -, o Solidariedade tornou-se uma referência para todos aqueles que batalhavam por reformas polí-ticas democrápolí-ticas.

A declaração da lei marcial em 1981 e a prisão dos líderes do Solidariedade não ajudaram em nada a resolver os pro-blemas da Polônia. Manteve-se um impasse durante a década de 1980, e, junto com o restante do bloco ocidental, o país tinha a economia estagnada, enquanto o Ocidente, depois de sobreviver à turbulência econômica da década de 1970, gozava de um cresci-mento súbito gerado pelo consumidor. Em 1988, o PIB per capita da Polônia era de 1.800 dólares, enquanto, na França, era de 18 mil dólares.

Em 1988 , o Solidariedade exigia reforma política completa. Uma série de greves no verão levou o governo à mesa de negociações, quando o novo presidente, Mikhail Gorbachev, indicava o fim da "Brezhnev doctrine", que justificara a intervenção militar soviética na Europa Oriental. Mas, a essa altura, a Polônia era apenas um elemento no drama que se revelava no bloco soviético. As eleições

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dc junho de 1989 foram um desastre para o partido Comunista e representaram o primeiro sinal tangível da emergência de uma nova ordem da Europa Oriental. Em 3 de julho, o representante soviético na Polônia anunciou que o país deveria estar no controle do próprio destino.

Assim como seus países-satélites, a União Soviética passou por um longo período de estagnação econômica durante as décadas de 1970 e 80. A expansão histórica da indústria pesada na década de 1920, repetida na Segunda Guerra Mundial, simbolizara o impulso da revolução, mostrando um país dinâmico que avançava para um futuro comunista. Porém, na década de 1970, as dificul-dades para organizar uma economia sofisticada que satisfizesse as necessidades de 290 milhões de pessoas por meio de um aparelho estatal centralizado ficaram calamitosamente aparentes. Os bens essenciais simplesmente desapareciam do mercado, enquanto outros só podiam ser obtidos no mercado negro com moeda forte. A União Soviética, um dia grande produtora, transformou-se numa nação de lojas vazias.

A economia soviética tivera um declínio gradual na taxa de crescimento de cerca de 5%, em 1960, para cerca de 2,7%, em 1978, seguido de uma parada completa. A guerra desastrosa e cara no Afeganistão, que começou em 1979, e uma queda no preço do petróleo - importante produto de exportação soviético - do pico do fim da década de 1970, contribuíram para a depressão e para um sentimento crescente de letargia.

Foi nessa atmosfera que o jovem e dinâmico Mikhail Gorbachev muito de repente se viu eleito para o cargo de secretário-geral do partido Comunista, chefe efetivo do governo. A ascensão

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de Gorbachev dentro do partido fora constante, mas ele se bene-ficiara das mortes, em rápida sucessão, de Leonid Brezhnev (novembro de 1982), Yuri Andropov (fevereiro de 1984) e Konstantin Chernenko (março de 1985). Gorbachev já deixara sua marca no Ocidente quando, como chefe das delegações sovié-ticas no Canadá em 1983 e na Grã-Bretanha em 1984, apresentou um tom notadamente diferente do de seus austeros predecessores. É famosa a declaração de Margaret Thatcher de que Gorbachev era "alguém com quem podíamos fazer negócio".

Assim que assumiu o poder em março de 1985, Gorbachev propôs reformas para movimentar a economia estagnada. Ele decidiu que o ímpeto econômico somente viria de reformas sociopolíticas. Seu programa de perestroika, ou reestruturação, pre-tendia dar permissão ou incentivo para que os cidadãos fossem mais criativos e tomassem iniciativas para melhorar a atividade econômica; mas isso só poderia ser realizado se o próprio sistema, que era amplamente reconhecido por sua rigidez e corrupção, pudesse passar por uma abertura - daí o outro famoso conceito: a glasnost.

Porém, a glasnostexpôs subitamente que a União Soviética estava à beira da falência, com seu povo vivendo no nível da subsistência. A imagem do país como superpotência militar foi revelada como um ato prolongado de vangloria, mantido apenas pelo desvio de uma proporção maciça da riqueza nacional para a defesa. O caráter invulnerável do Exército Vermelho fora desmentido durante a Guerra Afegã (que foi terminada por Gorbachev), e a idéia de que o Exército Vermelho estava pronto para acabar com a Europa ao primeiro sinal de fraqueza da OTAN, por tanto tempo a plata-forma central do pensamento militar ocidental, foi refutada como

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uma ilusão. Além disso, a explosão da usina nuclear de Chernobyl em abril de 1986 fez o mundo duvidar das declarações soviéticas de ser uma potência de alta tecnologia.

Gorbachev mostrou ser um reformador corajoso, libertando prisioneiros políticos e reabilitando vítimas dos expurgos de Stalin. Em janeiro de 1987, reformas políticas apresentadas ao Plenário do partido incluíam eleições com vários candidatos e a nomeação de não comunistas a cargos de autoridade. Ele também propôs a injeção de empreendimentos privados no sistema estatal com a permissão para que cooperativas dirigissem os negócios pela pri-meira vez desde as reformas efêmeras de Lenin na década de 1920. A abertura de cafés e lojas em sistema de cooperativa em Moscou no verão de 1988 marcou uma mudança extraordinária para um país em que tudo era possuído e administrado pelo Estado havia setenta anos.

A democracia foi finalmente introduzida na União Soviética em março e abril de 1989, quando se realizaram eleições para um novo Congresso de Deputados do Povo com 2.250 cadeiras. Um terço dos deputados representava círculos eleitorais comuns; um terço, grandes círculos eleitorais regionais nacionais; e um terço, órgãos públicos - cem dessas cadeiras foram reservadas para o partido Comunista. O Comitê Central podia nomear indivíduos; eles não tinham de concorrer em eleições, mas precisavam de um apoio de 50% dos eleitores. Mais de 80% do eleitorado foi às urnas na pri-mavera de 1989. O futuro presidente russo, Boris Yeltsin, ganhou sua cadeira ao concorrer à vaga regional nacional de Moscou, com o número recorde de 5 milhões de votos. Yeltsin era o ex-primeiro secretário do partido Comunista da Cidade de Moscou e perdera o cargo elevado no partido depois de criticar o Politburo de Moscou.

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Embora 90% dos deputados fossem membros do partido Comunista, houve uma separação entre reformadores e conserva-dores. Os novos partidos estavam apenas começando a se formar, mas um novo bloco de quatrocentos deputados influentes reuniu-se para pressionar por mais reformas. O Congresso reuniu-se em maio. Sua primeira tarefa era eleger representantes para o corpo governamental, o Soviete Supremo. Mikhail Gorbachev se tornou seu presidente e, em 15 de março de 1990, foi eleito sem oposição o primeiro presidente da União Soviética.

Em julho de 1989, Gorbachev fez um discurso histórico no Conselho da Europa, em Estrasburgo. Falou de "uma casa comum europeia" e acrescentou: "A ordem sociopolítica de alguns países mudou no passado e pode mudar no futuro também, mas isso é totalmente uma questão a ser decidida pelos povos. Qualquer interferência nas questões internas ou qualquer tentativa de limitar a soberania de outro Estado, amigo, aliado ou outro, seria inadmissível."2 Foi esse chamado para um "retorno à Europa" que

teve o maior apelo emocional e peso inspirador para as pessoas do bloco comunista.

Gorbachev ainda acreditava que o comunismo tinha muito a oferecer — sua visão da Europa incluía Estados socialistas vivendo com satisfação ao lado de países capitalistas. Sua convicção de que o comunismo deveria e poderia existir num sistema democrático estava por trás das reformas na União Soviética, onde ele planejava construir uma sociedade que fosse essencialmente socialista. Com o partido Comunista ainda no controle, mas com liberdade de expressão, pluralismo político e economia mista. As contradições de seu sistema logo ficaram claras, e os reformadores, liderados por Yeltsin, estavam ávidos por explorar as falhas nos argumentos

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de Gorbachev. Uma vez que Gorbachev abriu concessões para o pluralismo político, a liberdade de expressão e as eleições livres, ficou impossível para o partido Comunista manter sua posição especial.

As sessões do Congresso foram televisionadas, dando aos espec-tadores soviéticos a primeira oportunidade de experimentar uma discussão política aberta na qual seus líderes políticos sofreram críticas acirradas. Os canais de televisão, a maioria apoiando a reforma, começaram a transmitir programas que incluíam debates virulentos: programas como Vigladt 600 Seconds tornaram-se conhe-cidos por desenterrarem escândalos dentro da elite governante. Num dos programas, Margaret Thatcher explicou que a Grã-Bretanha mantinha seu arsenal nuclear por medo de agressão por parte do Exército Vermelho. A maior parte da audiência soviética tinha medo do Ocidente e nunca se deparara com a visão oposta.

Komsmol Pravda, o jornal oficial da organização comunista jovem,

tornou-se a voz da reforma, ao lado do recém-fundado Nezavisimaya

gazeta (Diário Independente) e da reconhecida revista investigativa Ogonyok. O jornal Argumenty i Fakty (Argumentos e Fatos) afirmava

ter uma circulação recorde mundial de 35 milhões em 1990, reve-lando um vasto apetite do público por notícias políticas. Em con-traste, a tiragem do Pravda, o jornal oficial do partido Comunista, caiu bruscamente de 12 milhões, em meados da década de 1980, para apenas 1 milhão, em 1991.3 O problema para Gorbachev era

que o debate ficou centrado na incompetência e na corrupção dos poderes já existentes.

Boris Yeltsin tirou total proveito das oportunidades de falar abertamente, ganhando reputação nacional ao atacar Gorbachev sempre que tivesse a chance. No verão de 1990, Yeltsin foi eleito

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presidente do Soviete Supremo da República Russa. A relação entre o centro soviético e suas repúblicas constituintes entrou em crise. Em março de 1990, a Lituânia declarou sua independência, seguida da Latávia em maio - embora nenhuma das declarações tenha sido aceita por Moscou.4 Em julho de 1990, Yeltsin deixou o

partido Comunista, e o Congresso Russo de Deputados do Povo votou para sair da União Soviética. Em março de 1991, 98,9% dos cidadãos da Geórgia votaram pela independência. Em junho, Yeltsin candidatou-se nas primeiras eleições democráticas para presidente da Rússia e recebeu 57% dos votos. Ele proibiu de imediato os partidos políticos de fábricas e locais de trabalho - as bases de poder tradicionais do partido Comunista. Um novo tratado foi redigido, transformando a União Soviética numa federação das repúblicas remanescentes - cada uma delas prometendo uma Constituição democrática - com disposições externas e de segurança comuns. O tratado deveria ser assinado pelas repúblicas individuais e pelo cada vez mais marginalizado Mikhail Gorbachev em 20 de agosto de 1991.

A velha guarda, relutante em deixar a União Soviética desmo-ronar e desaparecer, tentou um último lance dramático. Enquanto Mikhail Gorbachev estava de férias na Crimeia, Vladimir Kryuchkov, chefe da KGB, pôs um plano em ação. Um grupo de personalidades eminentes do partido Comunista foi à Crimeia no dia 18 de agosto de 1991 e ordenou que Gorbachev revertesse suas políticas declarando estado de emergência ou renunciasse. Ele recusou as duas opções. Quando os conspiradores voltaram a Moscou, o estado de emergência foi declarado, a televisão, o rádio e os jornais foram fechados, e tanques e tropas foram levados ao centro da cidade.

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Ao saber das notícias, Boris Yeltsin foi imediatamente à Casa Branca, sua residência oficial de presidente da Rússia, e chegou às nove horas da manhã do dia 19 de agosto. Com os meios de radio-difusão sob o controle dos líderes do golpe, os defensores de Yeltsin distribuíram panfletos pela cidade, solicitando que os cidadãos e o Exército não apoiassem o golpe "reacionário" e, em vez disso, fizessem uma greve geral. Yeltsin também solicitou que Gorbachev tivesse permissão para se dirigir à nação. O mundo assistiu, fasci-nado, ao destino de uma superpotência mundial desenrolar-se nas ruas de Moscou.

A Casa Branca tornou-se o foco da resistência, com os defensores de Yeltsin armando barricadas, enquanto o comandante da divisão de tanques enviado para "proteger" a Casa Branca declarou sua lealdade à Rússia e ao presidente. O momento decisivo do drama ocorreu quando Yeltsin fez um discurso de mobilização em cima de um tanque do Exército Vermelho. Ele acusou o golpe de ser uma reação contra a democracia e disse à multidão por que o golpe não teria êxito: "Apesar de todas as dificuldades e as provações severas que o povo enfrentava, o processo democrático do país vem adqui-rindo um alcance cada vez mais amplo e um caráter irreversível."5

No dia seguinte, uma tentativa apática de tomar a Casa Branca foi abandonada, e os líderes do golpe foram forçados a voltar à Crimeia para negociarem uma resolução com Gorbachev. Quando ele se recusou a cooperar mais uma vez, os conspiradores retor-naram a Moscou, onde foram presos.

O partido Comunista era agora visto como um perigo para a nova democracia, e Yeltsin estatizou imediatamente todos os bens do partido na Rússia e assumiu o controle de seus arquivos. Gorbachev renunciou ao cargo de secretário-geral, e, três meses

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depois, o partido foi banido na Rússia. Depois, em dezembro, Gorbachev assinou o tratado que formava a Comunidade dos Estados Independentes e dissolveu formalmente a URSS. Após seis anos tumultuosos como líder de seu país, ele renunciou ao cargo de presidente soviético em 25 de dezembro, e as bandeiras com a foice e o martelo foram baixadas dos mastros do Kremlin. De maneira quase milagrosa, a União Soviética conseguira uma transição praticamente sem derramamento de sangue de um totali-tarismo comunista para uma democracia pluralista. A liberalização da União Soviética conduzida por Gorbachev fora bem-sucedida, mas sua visão de uma sociedade que combinasse um comunismo financiado pelo Estado com uma democracia liberal revelou-se uma miragem. A democracia é imprevisível e ingrata e, como Churchill poderia ter lhe dito, é capaz de fazer os líderes de bobos.

Em resposta às mudanças na União Soviética, os países comunistas da Europa Oriental começaram a avançar na direção da demo-cracia. Em maio de 1988, o líder intransigente da Hungria, János Kádár, foi forçado a abandonar o cargo, e um regime reformador, embora ainda comunista, entrou em vigor com Károly Grósz. O novo governo afrouxou as restrições para viagens ao exterior e, seguindo os passos de Gorbachev, anunciou planos para eleições multipartidárias em fevereiro de 1989. Uma multidão de mais de 300 mil compareceu, em junho, para ver Imre Nagy, o herói do levante de 1956, adentrar outra vez na praça dos Heróis no centro de Budapeste. A essa altura, a Hungria começara a retirar a cerca de arame ao longo da fronteira com a Áustria - A Cortina de Ferro estava sendo arrancada.

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Em setembro de 1989, o ministro das Relações Exteriores, Gyula Horn, anunciou que qualquer alemão oriental que buscasse refúgio na Hungria não seria repatriado, ficando livre para viajar para o Ocidente. De acordo com a lei da Alemanha Ocidental, os ale-mães orientais que chegassem ao país recebiam automaticamente a cidadania plena. Em setembro de 1989, aproximadamente 13 mil cidadãos da Alemanha Oriental foram para a Hungria e sim-plesmente atravessaram a fronteira para a Áustria. A grande linha divisória simbólica entre a democracia liberal e o comunismo, o Muro de Berlim, transformara-se em algo irrelevante.

A Alemanha Oriental sempre fora garota-propaganda do comu-nismo de estilo soviético, sua economia florescendo em compa-ração com os outros países comunistas, mas, no fim da década de 1980, ficara muito atrás de sua vizinha extraordinariamente bem-sucedida e próspera a oeste. No outono de 1989, havia manifes-tações por toda a Alemanha Oriental, durante as quais o clima começou a mudar. Nos primeiros protestos em massa, as pessoas tinham como objetivo a fuga e cantavam: "Queremos ir embora." No fim de setembro, chegar ao Ocidente não era mais o objetivo; em vez disso, os alemães orientais queriam mudar seu próprio país e cantavam: "Vamos ficar."

Em 18 de outubro, Erich Honecker, líder de longa data da Alemanha Oriental, renunciou, e, em 4 de novembro, meio milhão de pessoas reuniram-se numa manifestação na Alexanderplatz, em Berlim Oriental. O novo governo, chefiado por Egon Krenz, primeiro permitiu que seus cidadãos fossem para o lado ocidental através da Tchecoslováquia, depois decidiu, em 9 de novembro, abrir suas próprias fronteiras. A data determinada de 17 de novembro perdeu-se na confusão do anúncio, e a notícia de que a fronteira para o Ocidente estava aberta espalhou-se rapidamente por Berlim.

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"À minha direita está uma multidão em festa", informou o repórter da BBC, Tim Weber, no Portão de Brandenburgo, na noite de 9 de novembro, "dançando, cantando, bebendo cham-panhe e se divertindo como nunca. À minha esquerda, uma fileira estreita de homens armados, segurando com nervosismo seus rifles de assalto Kalashnikov, remexendo-se com desconforto. Os dois lados estão separados por um muro". As pessoas do lado oriental e do ocidental logo começaram a subir no muro e a destruí-lo com martelos e picaretas. No dia seguinte, berlinenses orientais trans-bordavam pelos pontos de passagem da fronteira. Quando Tim Weber passou para o outro lado, encontrou "uma cidade fantasma, com alguns policiais solitários vagando pelas calçadas vazias".

Pouco mais de uma semana depois, uma série de manifestações na Tchecoslováquia atingiu o auge quando meio milhão de pessoas reuniram-se na praça Wenceslas, em Praga, para exigir mudanças políticas. Uma greve geral de duas horas, em 27 de novembro, fez o país parar, e, no dia seguinte, o governo comunista anunciou que renunciaria e providenciaria eleições livres. Em 10 de dezembro, um governo não comunista foi nomeado, e o último líder comu-nista, Gustáv Husák, renunciou. Em 28 de dezembro, Alexander Dubcek, líder da Primavera de Praga, de 1968, foi eleito orador do Parlamento federal. No dia seguinte, o dramaturgo dissidente e herói nacional Václav Havei tornou-se o presidente. As eleições gerais, em junho de 1990, resultaram no apoio democrático ao governo de Havei.

Na Bulgária, também o líder de longa data, Todor Zhivkov,

e seu vice foram afastados em novembro de 1989 e substituídos

pelo reformista Andrey Lukanov. O partido Comunista deixou o monopólio, permitindo que eleições multipartidárias ocorressem

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em junho de 1990, apesar de o país continuar impregnado pela corrupção que fora endêmica no regime anterior.

O ato final das revoluções democráticas no Leste Europeu acon-teceu na Romênia. Além de ser um Estado totalitário, durante vinte anos, a Romênia fora o feudo pessoal do presidente Nicolae Ceauçescu e de sua família próxima. O absurdo do autoengran-decimento e da humilhação final de Ceauçescu não deveria nos desviar da natureza aterrorizante de seu regime, no qual a tortura e o assassinato eram armas políticas comuns e que mantiveram a população numa pobreza no nível da subsistência. Embora fosse stalinista em seu governo, Ceauçescu permanecera mais indepen-dente de Moscou que seus vizinhos e não viu nenhuma necessi-dade de seguir o exemplo de Gorbachev. Assim, ao contrário de outros líderes comunistas, Ceauçescu recusou-se a renunciar após a queda do Muro de Berlim. A rebelião romena começou na cidade de Timiçoara, em 16 de dezembro, como um protesto contra o despejo de um padre húngaro. Durante os quatro dias seguintes, os manifestantes saquearam a sede do partido Comunista local. Quando o governo levou trabalhadores armados com porretes para baterem nos manifestantes, a maioria acabou se juntando ao protesto. Em 20 de dezembro, Ceauçescu voltou de uma viagem ao Irã e fez um pronunciamento pela TV à nação. Um comício foi marcado para o dia seguinte, no qual o líder discursaria para seu povo e condenaria a interferência estrangeira, que, segundo ele, era responsável pela perturbação no país.

O drama que se desenrolou na sacada da sede do partido Comunista Romeno em 21 de dezembro de 1989 é, junto com a demolição do Muro de Berlim, uma das imagens emblemáticas do colapso do comunismo na Europa. Pouco depois que Ceauçescu

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iniciou seu discurso sem brilho para mais de 100 mil pessoas, citando as conquistas do comunismo. Grupos na multidão come-çaram a assobiar, vaiar, zombar e rir, enquanto se ouviam sons de tiro de fora da praça. Ceauçescu entendeu de modo totalmente equi-vocado o que estava acontecendo e começou a prometer aumentos salariais para os trabalhadores, até que hesitou e parou de falar. Ouviram-se gritos de "Morte ao assassino!" e "Abaixo o ditador!" Enquanto sua esposa insistia que ele continuasse falando, os dois foram levados para dentro para sua própria segurança. Foi um final desonroso para um governo desonroso. As batalhas prosseguiram nas ruas até a madrugada, e na manhã seguinte outros milhares de manifestantes juntaram-se em desacato a uma ordem que limi-tava agrupamentos a cinco pessoas. O recém-nomeado ministro da Defesa ordenou que as tropas retornassem aos quartéis, e, quando os manifestantes invadiam o prédio do Comitê Central, Ceauçesc.u e a esposa conseguiram fugir de helicóptero. O piloto e a tripu-lação logo entenderam a mudança da situação, e os Ceauçescu foram abandonados à beira de uma estrada perto de Pitesti com seus guarda-costas da polícia secreta. A polícia levou-os de volta a Bucareste, onde, em 25 de dezembro, receberam um julgamento de duas horas, foram considerados culpados e condenados à morte. Foram retirados imediatamente e executados a tiros.

Ceauçescu não foi exatamente o último ditador do Leste Europeu a ser removido do cargo. Essa distinção cabe a Slobodan Milosevic, que se aproveitou da desintegração da Iugoslávia para tentar uma tomada sérvia do território vizinho de etnias mistas da Bósnia e Herzegovina. A guerra resultante durou de 1992 a 1995 e foi o conflito mais sangrento do continente europeu depois da Segunda Guerra Mundial. O poder de Milosevic entrou em declínio após

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o fim da guerra e acabou com sua prisão em 2001 sob acusações de corrupção e abuso do poder.6 A Iugoslávia estava então

divi-dida em seus Estados constituintes, cada qual dando passos rumo à democracia liberal.

Como esses países se saíram como democracias? Os cidadãos do Leste Europeu queriam liberdades políticas por seus próprios benefícios, mas também porque acreditavam que a democracia propiciaria uma vida mais próspera. Dadas as grandes dificuldades encaradas por todos os países do bloco oriental nos anos logo após 1989, é importante mencionar que todos eles se mantiveram, ainda que com variações, num caminho totalmente democrático. A transição de uma economia centralizada e planificada para uma mistura de iniciativas públicas e privadas - a recompensa da demo-cracia era o requisito para que os cidadãos adotassem uma eco-nomia de mercado - foi particularmente traumática, porque, no Ocidente, influentes líderes neoliberais, instituições e economistas eram a favor de retirar o Estado de praticamente toda atividade econômica. A privatização e a venda de empresas e patrimônios do Estado - de empresas aéreas e telecomunicações ao abasteci-mento de gás e água - haviam se tornado o pilar do modelo eco-nômico anglo-saxão. Os empréstimos e subsídios que os antigos países comunistas receberam de órgãos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial foram essenciais em Estados que concordavam em vender suas indústrias e serviços. Os resultados variaram de traumáticos a catastróficos.

Gorbachev tentara gradualmente adaptar a economia planifi-cada por meio de uma série de medidas, mas, assim que Boris Yeltsin tornou-se presidente da Rússia, esse processo gradual

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de transformação da economia foi abandonado. Economistas e con-sultores políticos acreditavam que os diferentes setores estavam tão interligados que somente um abandono completo da propriedade estatal funcionaria. No início de 1992, Yeltsin anunciou seus planos de uma economia de mercado para a Rússia, incluindo a fixação livre de preços, a privatização de indústrias e propriedades, bancos, lojas particulares de varejo e livre comércio com o resto do mundo. Ao mesmo tempo, um plano de austeridade foi acompanhado de um aumento nas taxas de juros para abafar a inflação e cortes severos nos gastos do governo com previdência social e outros ser-viços. O PIB da Rússia caiu pelos quatro anos após 1990, 13%, 19%, 12% e 15%, sucessivamente. Os ativos estatais foram com-prados em negociações questionáveis por mediadores influentes que enriqueceram enormemente no processo. As reformas econô-micas estavam, na superfície, alinhadas com os preceitos da demo-cracia: dar poder e liberdade ao indivíduo e remover as restrições impostas pelo Estado. Mas as reformas democráticas na Rússia pegaram um Estado centralizado das mãos de um pequeno grupo de líderes comunistas e entregaram a um pequeno grupo che-fiado por um presidente eleito. Para funcionar de forma efetiva, a democracia requer instituições, como o Judiciário, o Parlamento, a imprensa livre e uma sociedade civil forte para moderar o poder do governo. Apesar da euforia do fim da década de 1980, todos esses fatores ainda eram extremamente fracos se comparados ao poder do Estado russo. Em vez de uma democracia, o governo de Yeltsin tornou-se uma oligarquia em que homens poderosos enriqueciam e ficavam mais poderosos no processo.

No fim dos anos 1990, as políticas econômicas de Yeltsin com-provaram ser desastrosas. A Rússia não conseguira desenvolver

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uma economia de produção, contando com commodities, como petróleo, gás e metais, em 80% de suas exportações. Quando a crise financeira asiática foi desencadeada, em 1998, e o preço do petróleo caiu, a confiança na economia russa se esgotou; as dívidas se acumularam, os trabalhadores ficaram sem salários e a inflação chegou a 84%. O valor do rubro afundou em relação ao dólar, e a economia russa foi amplamente considerada um caso perdido, enquanto seus cidadãos viam suas economias desaparecerem e seus salários perderem o valor de forma dramática. Habitantes de Moscou e de outras cidades começaram a passar fome. O povo russo respondeu à adversidade com sua combinação costumeira de estoicismo e ingenuidade. Habituados a confiar em seus próprios esforços, os moscovitas se tornaram produtores extraordinários de alimentos para que eles e o país sobrevivessem ao inverno de 1998. A crise foi amenizada quando o preço do petróleo subiu novamente nos mercados internacionais.

Quando Vladimir Putin assumiu o poder (foi nomeado primeiro-ministro em 1999 e eleito presidente em 2000), o Estado começou a recuperar o controle de indústrias essenciais, e os cha-mados oligarcas tiveram de prestar contas. A democracia, porém, estava seriamente contida, a liberdade de expressão sofria restrições, com jornalistas sendo perseguidos e até assassinados, enquanto o espaço para o debate aberto sobre as políticas era eliminado. A reimposição de um Estado forte, que tem boa aceitação entre os russos que sentem que o país está recuperando o prestígio após a humilhação de 1998, também levou a um desenvolvimento muito lento da economia. A Rússia permanece uma fornecedora de

commodities para economias de produção, em vez de uma produtora

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As razões para a situação calamitosa da Rússia foram numerosas e complexas, mas, na essência, o desenvolvimento de uma economia mista e de uma democracia pluralista depende de certas relações de confiança. Uma economia moderna sofisticada não pode funcionar sem que as pessoas — investidores, administradores, trabalhadores, consumidores — tenham confiança num sistema financeiro robusto, em seus fornecedores, em seus clientes e na integridade do sistema judiciário. É inteiramente compreensível, ainda que perturbador,

que o povo russo, depois de experiências com um sistema comu-nista corrupto seguidas de um período desastroso de iniciativas privadas de abordagem laissez-faire em que suas poupanças foram aniquiladas, tivesse pouca confiança em quaisquer desses ele-mentos. O problema persistente é que as estruturas e os conceitos político-econômicos foram aplicados à Rússia - pelo FMI, pelo Banco Mundial, pelo governo russo - como se ela fosse um labo-ratório, não um país, com uma cultura e uma história profundas e duradouras. De fato, a cultura russa foi vista como um obstáculo para a liberdade, não como a parte mais preciosa e significativa da vida das pessoas. Ao reconhecer isso, Putin ganhou populari-dade entre os russos, mesmo à custa de uma sociepopulari-dade mais aberta. O principal objetivo de sua liderança tem sido restaurar a reputação do Estado russo, sem a qual pouco pode ser realizado. Isso, porém, simplesmente nos leva de volta ao eterno problema de quem con-trola o Estado, e como.

Outros países sofreram alguns dos choques sofridos pela Rússia — em especial a Polônia, em 2002, quando seus estaleiros foram privatizados e depois fechados pelos próprios donos, até serem novamente estatizados. Alguns foram protegidos dos piores efeitos da mudança repentina causada pela entrada na União Européia.

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Ainda que não se responsabilize pela política pluralista nem pela prosperidade, a UE propicia mecanismos de investimento, além de fácil acesso aos mercados mais ricos do mundo. As condições para se fazer parte dela estimulam a implementação de instituições e práticas democráticas; em parte em conseqüência disso, todos os países da Europa tornaram-se democracias.

Todos os países que eram comunistas entraram no mundo democrático na nova era da globalização. Isso significou que, além de seguirem certos planos de ação político-econômicos, eles pas-saram a fazer parte da rede global de comércio na qual todo país, fraco ou forte, concluiu ser necessário unir-se em torno de uma causa comum e cooperar para conseguir o que quer ou precisa. A UE propicia uma aliança conveniente e poderosa para alguns, mas aqueles que estão fora de seus muros dourados têm tido difi-culdades.

As antigas repúblicas da União Soviética escolheram caminhos diferentes, com a garantia da Rússia de manter o controle daquelas que fazem fronteira com seu território, de modo que países como a Ucrânia e a Geórgia se encontram espremidos entre os apelos do Ocidente e a vigilância zelosa da Rússia. Ao mesmo tempo, a rápida expansão da UE atraiu outras nações, com destaque para a Turquia, para o seu círculo de aspirantes a membros. A Turquia tem participado de encontros informais com a UE para tratar de sua inclusão há décadas e melhorou suas credenciais democráticas. As reformas de Mikhail Gorbachev também tiveram impacto na China, o país mais populoso do mundo. Embora ainda seja um Estado comunista e não democrático, a China merece ser men-cionada aqui porque sua situação de superpotência econômica

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em expansão levanta questões fundamentais sobre a relação entre liberdade econômica e política. Primeiro, precisamos retroceder para ver que o comunismo chinês se desenvolveu de um modo bastante diferente do comunismo da União Soviética de Stalin. Historiadores observaram que o comunismo chinês, conforme defendido por Mao Tsé-tung e outros, sempre se contrapôs aos dogmas centrais do comunismo stalinista, que se baseava na cen-tralização, na coletivização e na indústria pesada. Enquanto Stalin acreditava que uma sociedade verdadeiramente socialista, no sen-tido marxista, eliminara todas as contradições, Mao sempre argu-mentou que haveria diferenças entre o povo e seus governantes, e que elas não deveriam ser suprimidas porque isso seria "abolir a política". Mao acreditava no progresso, não na inércia, e o pro-gresso resultava de contradições constantes, conforme descreveu Marx em sua teoria da dialética. Isso pode soar extravagante, mas nasceu das diferenças básicas entre a cultura russa e a chinesa, e seus efeitos práticos foram profundos.

Após o êxito soviético na Segunda Guerra Mundial, a visão stalinista da agricultura e da indústria foi tida pela maioria dos comunistas como um paradigma para o desenvolvimento. Os cam-poneses têm de ser forçados a produzir o máximo possível com o menor gasto possível para alimentar os operários industriais, que reforçariam a capacidade de o país se tornar uma grande potência. Quando os comunistas chineses chegaram ao poder em 1949, Mao viu as coisas de forma diferente, acreditando que empobrecer os camponeses iria, no longo prazo, desestabilizar o país. Em vez disso, as aldeias receberam algum grau de autonomia e a permissão para usar seu trabalho excedente para produzir mercadorias exce-dentes. Aumentar o poder de compra dos camponeses beneficiaria

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a todos no longo prazo, fornecendo consumidores para produtos industriais. Mao acreditava até mesmo num Exército descentrali-zado que possibilitaria à China defender-se por meio da guerrilha. "Centralizar apenas o que deve ser centralizado e deixar o resto em paz", escreveu.7 Ao contrário de Stalin, Mao acreditava que as

instituições deveriam ser constantemente renovadas e substituídas de acordo com as circunstâncias. Essa diferença essencial entre o desenvolvimento gradual e a mudança contínua é o que separou as experiências da China e da União Soviética.

Porém, se Mao defendia tanto a devolução do poder ao povo, por que suas políticas tiveram um efeito desastroso na população chinesa? No Grande Salto para a Frente, da década de 1950, os líderes do partido Comunista defenderam a liberdade dos campo-neses, mas continuaram exigindo que eles entregassem mais de sua produção. O resultado foi a fome no interior, levando à morte de milhões. Em outra ação movida pela ideologia pessoal de Mao, os camponeses foram forçados a deixar a agricultura para trabalhar numa produção de aço em pequena escala e nenhum valor real. Enquanto isso, projetos de infraestrutura de potencial benefício fracassaram por causa da falta de experiência, quando engenheiros treinados, junto com trabalhadores qualificados de qualquer tipo, foram eliminados. E na Revolução Cultural da década de 1960, a fúria dos jovens descontentes transformou a idéia de uma reno-vação contínua num desastre brutal e caótico.

O próprio Mao tem de ser culpado pelos resultados de suas ações e pelas punições infligidas a dezenas de milhares de "direi-tistas". Se ele tivesse simplesmente encorajado a descentrali-zação, as iniciativas do povo e a crítica à liderança, o povo chinês não teria sofrido ao ponto que sofreu, mas Mao era teórico, não

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um administrador prático. Sua ideologia o levou a acreditar que, se todos fossem igualmente bons, até as pessoas treinadas em áreas cruciais, como engenharia, agronomia, produção e construção, seriam sempre substituíveis. De fato, qualquer um que afirmasse possuir um conhecimento útil em determinada área era suspeito, de modo que professores, cientistas e técnicos foram enviados para o exílio interno, como forma de punição, deixando o país despro-vido de trabalhadores especializados e instruídos.

Quando a China entrou na década de 1980, portanto, tinha um histórico diferente da sociedade soviética que Gorbachev e Yeltsin buscaram reformar. A China começara a ensaiar alguns passos para a reforma com a morte de Mao em 1976. Embora o tenha feito inicialmente num nível inferior, o governo chinês começou a incentivar iniciativas em pequena escala e a dar recompensas a oficiais regionais por estimularem a indústria em suas áreas. Essa abordagem por etapas desenvolveu-se durante as décadas de 1980 e 90 e era uma rejeição deliberada da crescente convicção do Ocidente de que todas as iniciativas públicas devem ser mantidas no controle do Estado ou privatizadas por completo. Embora não tivesse havido nenhum colapso do tipo visto na Rússia no início da década de 1990, a abordagem gradativa causou alguns problemas. O setor agrícola, por exemplo, em que produtores individuais ainda comercializavam com órgãos públicos regionais, ficou mais empobrecido à medida que a indústria e o comércio avançaram, aumentando os preços que os agricultores tinham de pagar por equipamentos, enquanto o Estado mantinha baixos os preços dos alimentos. De fato, a fixação de preços dos produtos tornou-se a principal dificuldade para um sistema que, na época de Mao, valo-rizava o trabalho de uma forma totalmente diferente. Permitir que

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as iniciativas tivessem lucros e, assim, criassem desigualdade num sistema comunista é contraditório na teoria, mas realizável na prá-tica - pelo menos até agora. O que, então, isso significou para a democracia?

A morte de Mao em 1976 fora seguida pela emergência de Deng Xiaoping como a figura mais poderosa da China. Quase de ime-diato, Deng e Hua Guofeng, sucessor protegido de Mao, fizeram discursos clamando por uma atitude pragmática e não idealística em relação ao futuro da China. Os jornais começaram a debater a necessidade da capacidade de se elegerem e removerem oficiais públicos. Em outubro de 1978, um grupo de estudantes começou a colar artigos de jornais, cartazes e depois mensagens pessoais num muro vazio numa das principais vias públicas de Pequim. O chamado Muro da Democracia teve o incentivo de Deng, em parte porque muitos cartazes condenavam seus rivais, a mal-afamada Gangue dos Quatro, e reforçou sua posição, impulsio-nando as reformas por meio da máquina do partido.

No entanto, o próprio Deng tornou-se o alvo de ataques, uma vez que cartazes e artigos continham reivindicações, como: "Quando as pessoas pedem democracia, estão apenas pedindo o que é delas por direito... Não é legítimo que elas tomem o poder de seus senhores?" E essas contribuições tampouco erarn anô-nimas. Nesse caso, o autor era Wei Jingsheng, editor do jornal

Explorações. Chen Erjin, um camponês que se tornou professor,

publicou um jornal chamado Socialismo de Encruzilhada, que defendia que a opressão não tinha origem nas tradições da China (que Mao sempre buscara eliminar), mas do próprio sistema comunista. Chen usou os próprios ensinamentos de Mao para defender uma segunda revolução que trouxesse uma democracia completa - não

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a democracia insuficiente do Ocidente, mas uma que abarcasse todas as áreas da vida, incluindo as fábricas e as comunas, assim como o governo - sem deixar de garantir direitos civis e separação de poderes. Enquanto o Socialismo de Encruzilhada era o mais proemi-nente e influente, tipos semelhantes de jornais surgiram em cidades de toda a China durante o ano de 1978, junto com manifestações que exigiam "liberdade e democracia". Em março de 1979, as auto-ridades já haviam perdido o controle da situação. Deng mudou sua visão a respeito do Muro da Democracia, que teve todo o seu material removido, e os redatores e editores dos novos jornais polí-ticos foram detidos e presos. Esse estímulo à abertura seguido de opressão tornou-se a marca da liderança de Deng.

Dez anos depois do Muro da Democracia, o movimento pela democracia ressurgiu de forma ainda mais dramática. A morte de Hu Yaobang, um proeminente ex-secretário-geral do partido Comunista, em abril de 1989, acabou sendo um catalisador para encontros na praça Tiananmen, em Pequim. Dois anos antes, a renúncia forçada de Hu representara um revés para chineses de mentalidade reformista. Eles agora pretendiam usar o funeral para demonstrar seu apoio ininterrupto à reforma democrática. Cerca de 100 mil pessoas reuniram-se na praça na véspera do funeral, em 21 de abril. Alguns fizeram discursos em frente ao Grande Salão do Povo, enquanto outros cantavam músicas que clamavam por mudança e renovação. Não era um movimento uniforme -enquanto os estudantes queriam mais reformas, os trabalhadores protestavam contra a inflação e a corrupção que as reformas eco-nômicas haviam gerado. Havia, contudo, um sentimento geral de insatisfação em relação a uma liderança que era imune às críticas e às dificuldades enfrentadas pelas pessoas comuns.

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Os protestos se intensificaram no período que antecedeu uma visita planejada de Mikhail Gorbachev a Pequim. Para a liderança chinesa, as dificuldades econômicas da Rússia eram uma adver-tência sobre o que poderia acontecer na China caso a liberalização andasse rápido demais. No dia 13 de maio, dois dias antes da visita de Gorbachev, um grupo de estudantes acampados na praça entrou em greve de fome em protesto pela recusa da liderança em negociar. Centenas de pessoas juntaram-se a eles à medida que o protesto se tornava o foco de interesse no mundo todo. Estudantes da Academia de Belas-Artes fizeram uma estátua de 10 metros de altura da "Deusa da Democracia", de frente para o retrato do pre-sidente Mao que ficava do outro lado da praça.

O protesto causou profundas divergências dentro da liderança do partido Comunista.8 O primeiro-ministro queria reprimir a rebelião,

ao passo que o secretário-geral, Zhao Ziyang, pretendia convencer os estudantes a terminarem o protesto, e estava preparado para conceder algumas das demandas. Deng Xiaoping, que continuava sendo a figura mais poderosa, não tinha certeza de como proceder nas primeiras semanas. Ele via a reforma como o caminho futuro para a China, mas, ao mesmo tempo, queria controlar o ritmo e a abrangência desde o início. Uma visão generosa levaria em conta que a geração de Deng vivera o caos da Revolução Cultural e temia uma revolta semelhante caso os estudantes conseguissem o que queriam; mas, ao mesmo tempo, Deng contentava-se em restringir o acesso ao poder e manter o controle da China.

Deng finalmente foi para o lado de Li Peng. Zhao Ziyang foi colo-cado em prisão domiciliar e, em 4 de junho de 1989, as tropas rece-beram ordens de esvaziar a praça Tiananmen. Há alguns indícios de que a liderança não pretendia realizar uma repreensão brutal

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que sempre votava de forma unânime, agora eventualmente vota contra medidas enviadas pelo Conselho de Estado.

Em vez de tentarem prever aonde tudo isso vai dar, os histo-riadores e analistas políticos estão inclinados a perguntar que pre-condições para a democracia existem na China. Várias dessas são favoráveis e têm ecos em situações históricas em que a democracia surgiu e se manteve. Então, por exemplo, a China tem uma popu-lação bastante homogênea, e embora haja diferenças religiosas e étnicas, nenhuma delas — com a exceção, talvez, do Tibete — ameaça a unidade do país. Divisões de classe significativas e a política da deferência tampouco constituem um grande fator na sociedade chinesa. A cultura chinesa favorece as soluções para con-flitos em que cada parte mantém sua dignidade, uma precondição para a formação de oposição leal. E enquanto o governo chinês tem a sua parcela de corrupção, ele administrou a transição econô-mica de forma competente em quase todos os níveis. O governo também possui controle efetivo de seu território, ainda que em níveis regionais costume ser inadequado devido à falta de transpa-rência democrática e de prestação de contas.

Ao mesmo tempo, intelectuais chineses, de acordo com analistas ocidentais, geralmente não conseguem criar articulações entre os reformadores democráticos e a população em geral. No entanto, a mudança econômica gerou uma liberalização maior da sociedade; a economia é efetivamente pluralista, com milhões de indivíduos e instituições tomando decisões em que, pela primeira vez, tudo era controlado a partir do centro. O desenvolvimento econômico tem causado a rápida evolução de um sistema jurídico em que os contratos podem ser firmados e executados por intermédio de uma autoridade reconhecida. E, embora o crescimento de uma classe

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média afluente não tenha, em si, propiciado demandas por demo-cracia, a China desenvolveu uma sociedade civil florescente que segue em paralelo com o funcionalismo. Enquanto isso, a China ainda prende dissidentes e executa mais gente do que todos os outros países do mundo juntos.

Referências

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