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DanielMendesCoutinho

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Academic year: 2021

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AS EMPRESAS DE TORREFAÇÃO E MOAGEM DE CAFÉ NO SUL DE MINAS: AS DIFERENÇAS NO USO DO TERRITÓRIO COMO ABRIGO E

RECURSO.

DANIEL MENDES COUTINHO Discente do curso de Geografía Bacharelado

Universidade Federal de Alfenas-MG e-mail: [email protected]

RESUMO

O território brasileiro é o segundo maior consumidor de café do mundo, possuindo uma importante indústria do grão torrado e moído, responsável pelo abastecimento do mercado interno. Na sua maioria, as empresas torrefadoras caracterizam-se como empresas de pequeno porte e familiares utilizando o território como abrigo (SANTOS & SILVEIRA, 2001), ou seja, dependem, para sua reprodução, da sinergia dos lugares (tradição no consumo de determinada marca, divulgação da marca através da comunicação entre os consumidores etc.). Por outro lado, as empresas de grande porte se caracterizam por utilizar o território como recurso (Id.), com uma atuação em todo o território brasileiro, com o uso intensivo de capital, tecnologia, marketing e uma eficiente logística de distribuição das mercadorias.A partir dessa situação, o objetivo geral deste artigo é analisar a atuação das empresas de torrefação e moagem no Sul de Minas, tanto as que utilizam o território como recurso, quanto aquelas que o usam como abrigo, avaliando a relação entre elas, as diferenças organizacional e tecnológica, o processo de concentração do mercado e as repercussões dessa relação para o circuito espacial produtivo do café e para as cidades envolvidas com a produção.

Palavras chaves: Café, Torrefação, Abrigo, Recurso, Sul de Minas.

INTRODUÇÃO

A principal preocupação desta pesquisa é analisar as transformações ocorridas com as empresas de torrefação e moagem de café a partir da desregulamentação do mercado na década de 1990, e suas repercussões no circuito espacial produtivo e nos municípios do Sul de Minas envolvidos com a produção. Durante as décadas de 1970/80, as indústrias de torrefação e moagem de café eram totalmente regulamentadas pelo Estado. O café era comprado diretamente do Instituto Brasileiro do Café (IBC) que definia os blends a serem feitos, o que inviabilizava a concorrência via diferenciação do produto. Além disso, até o final da década de 80, o IBC concedia a autorização para

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instalar empresas de torrefação e moagem de café no Brasil, além de determinar a cota de produção de cada empresa (BACHA, 1998).

Os preços da matéria-prima e do café torrado e moído eram tabelados pelo Estado. Este praticamente determinava a margem de lucro das empresas, através do tabelamento dos preços da matéria-prima e do produto final e da quantidade de café que podiam ser adquirida e vendida por cada empresa. O Estado objetivava dessa maneira, aumentar o consumo interno de café, por meio do tabelamento do preço, atenuando, assim, os constantes excessos de oferta do produto.

Entretanto, estas medidas inibiam uma maior competitividade entre as empresas. Como os preços auferidos pela venda do café torrado e moído independiam da qualidade do produto, as empresas não eram estimuladas a adquirir um produto de melhor qualidade e investir em inovações tecnológicas. O setor de torrefação não se preocupava em se modernizar, seja em termos de maquinários e instalações, mão-de-obra ou forma de comercialização do seu produto (ANDRADE, 1994).

No início da década de 1990, com o fim do Acordo Internacional do Café (AIC), que estipulava o preço internacional do produto e cotas para os países exportadores, o mercado cafeeiro foi desregulamentado (SOUZA, 2006). Com o fim do AIC, o preço do café passou a ser regulado pelas cotações das Bolsas de Nova Iorque (Café Arábica), Londres (Café Robusta) e Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) de São Paulo (COUTINHO et. al., 1993).

A desregulamentação do mercado mundial do café promoveu uma maior concorrência entre as empresas torrefadoras transnacionais, que passaram a poder decidir quanto, onde e a que preço comprar a matéria-prima. Com o objetivo de tornarem-se mais competitivas, as empresas transnacionais começaram a investir na diferenciação do produto e na busca de preços mais baixos junto aos fornecedores. Atualmente, as empresas de torrefação e moagem brasileiras se caracterizam por um lado, pelo grande número de pequenas empresas, e, por outro, pela concentração do mercado em poder das transnacionais.

Segundo informações do Observatório Social (2002a), apenas cinco empresas transnacionais de torrefação - Nestlé, Kraft Foods, Procter & Gamble, Sara Lee e Tchibo – compram quase a metade da oferta mundial de café em grão. É percebido um grande número de pequenas empresas no Brasil neste setor, isto se dá pela relativa facilidade de se montar uma empresa torrefadora. Os custos iniciais para montagem da fábrica e a tecnologia adotada são relativamente baixos. Estes fatores promoveram o

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surgimento de um grande número de empresas familiares de atuação local e/ou regional. Contudo, com a entrada das grandes empresas transnacionais no mercado brasileiro o número de fusões e aquisições tem aumentado.

Dentre as fusões e aquisições de empresas brasileiras por torrefadoras transnacionais destacam-se: a aquisição das marcas café do Ponto, Seleto, União, Pilão e Caboclo pela empresa americana Sara Lee; a aquisição da empresa Três Corações, pela firma israelense Strauss-Elite e da Torrefadora Nova Suíça pela italiana Segafredo (ROLLO, 2009). Estas empresas, mais a Mellita (capital alemão) controlam cerca de 40% do mercado brasileiro de café torrado e moído. Somente a empresa Sara Lee detém 24% desse mercado, consumindo cerca de 2,2 milhões de sacas de café a.a., com 800 trabalhadores espalhados em três fábricas.

Como aponta Rollo (2009), o objetivo das empresas transnacionais é controlar o mercado brasileiro de café torrado e moído. Nos últimos anos, a Mellita adquiriu a torrefadora Bom Jesus, localizada em Caxias do Sul e líder em torrado e moído no mercado gaúcho. A Sara Lee estabeleceu acordos com o grupo Maratá (terceira maior torrefadora do país) com o objetivo de expandir suas vendas na região Nordeste, além de adquirir a empresa Café Moka (uma das dez maiores torrefadoras do país) localizada na região metropolitana de São Paulo. Além dessas, outras empresas torrefadoras transnacionais como a americana Kraft Foods e a italiana Lavezza, também planejam aquisições e fusões com empresas brasileiras, como a Cia Cacique (quinta maior produtora de torrado do país) (id.).

A entrada das empresas transnacionais e a consequente concentração do mercado tem impacto direto nos produtores e nos lugares. Como demonstra o relatório “Pobreza em sua xícara: o que há por trás da crise do café”, produzido pelo Observatório Social (2002a), as grandes empresas de café torrado e moído forçam para baixo o preço da matéria-prima, atingindo diretamente o produtor. As grandes empresas torrefadoras são responsáveis pela aquisição de grande quantidade de matéria-prima, a concentração do mercado atribui às transnacionais o poder de regular o preço, forçando-os para baixo. Esse seria um dforçando-os fatores a contribuir com a atual crise do café, que se prolonga desde o final da década de 1990 (id. 2002b).

A maioria das torrefadoras é composta por pequenas empresas que processam até 60 mil sacas/mês. Estas empresas localizam-se, sobretudo nas pequenas cidades das principais regiões produtoras de café. No caso do Sul de Minas, maior região produtora

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de café do país, existe mais de 300 torrefadoras, responsáveis pela geração de milhares de empregos.

A concorrência desigual com as transnacionais acaba por levar várias dessas empresas à falência. As pequenas empresas, ao contrário das grandes, são intensivas em trabalho e pouco intensivas em capital e tecnologia. O fechamento de suas fábricas acaba por causar problemas para as pequenas cidades, devido ao aumento do desemprego.

Portanto, analisar as transformações ocorridas nas empresas de torrefação e moagem é de fundamental importância para compreender como se estrutura atualmente o circuito espacial produtivo do café no Sul de Minas (CASTILLO E FREDERICO, 2004; 2009) e a dinâmica dos municípios envolvidos na produção.

PROCEDIMENTOS E TÉCNICAS USADAS NA PESQUISA

Levantamento bibliográfico

 Biblioteca Digital do Café e biblioteca da Universidade Federal de Viçosa;  Biblioteca da Universidade Federal de Lavras;

 Bibliotecas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas e da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo;

 Biblioteca digital de teses e dissertações da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

 Biblioteca da Universidade Federal de Alfenas

Levantamento de dados secundários

 Anuário Brasileiro do Café (Gazeta Grupo de Comunicações);  Cecafé (Confederação dos Exportadores de Café);

 ABIC (Associação Brasileira da Indústria de Café);  Produção Agrícola Municipal (IBGE);

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Estatísticas Coffee Business;

 OIC (Organização Internacional do Café);

 Anuário Estatístico do Crédito Rural (Banco Central do Brasil);

 Ministérios dos Transportes; do Desenvolvimento Indústria e Comércio; da Agricultura, Pecuária e Abastecimento; do Desenvolvimento Agrário;

 Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged);

 Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa);  Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig);  Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA);

 Fundação João Pinheiro (FJP)

 Centro Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café (CBP&D Café);  Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq);  Conselho Nacional do Café (CNC);

Trabalhos de campo e visitas técnicas

 Municípios do estado de Minas Gerais:

 Fazenda e Torrefadora Ipanema (maior produtora nacional de café) (Alfenas);

 Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) (Alfenas)  Produtores de café (Alfenas; Campos Gerais; Machado)  Porto Seco do Sul de Minas (Varginha)

 Pequenas torrefadoras de café (Alfenas, Machado, Poço Fundo, Três Pontas e Varginha);

 Empresa Café Bom Dia (Varginha)  Cooxupé (Guaxupé);

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 CCCMG - Conselho de Comércio de Café de Minas Gerais (varginha)  Associação dos Produtores de Café do Sul de Minas (Varginha).  Empresa Café Três Corações (Três Corações)

Trabalhos técnicos

 Elaboração de quadros, gráficos e tabelas (Windows Office);  Elaboração de mapas temáticos (Mapinfo, Arcgis e Philcarto).

Instalações e equipamentos

 Para o desenvolvimento da pesquisa serão utilizados os laboratórios de Planejamento Urbano e Regional (reuniões, levantamento de dados, impressões e elaboração de tabelas, quadros e gráficos) e de Sensoriamento Remoto (levantamento de dados e elaboração de mapas, gráficos, tabelas e quadros) da Universidade Federal de Alfenas – UNIFAL.

 Os trabalhos de campo serão realizados em veículos disponibilizados pela Universidade Federal de Alfenas.

RESULTADOS

Caracterizações das indústrias torrefadoras e suas diferenças quanto ao uso do território.

O uso do território é diferenciado hierarquicamente, os agentes mais poderosos escolhem os pontos que consideram instrumentais para a sua existência produtiva, enquanto o resto do território torna-se o espaço deixado aos agentes com menor poder. A maior parte da produção de café torrado e moído se concentra em um número pequeno de empresas, que se tornam cada vez mais capazes de utilizar todo o território para suas atividades produtivas e comerciais.

Para melhor compreender a ação desses agentes no território, subdividimos baseados em Santos e Silveira (2001), as empresas torrefadoras em dois grupos: as

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médias e grandes empresas, que usam o território como recurso, escolhendo os lugares mais propícios para a apropriação do excedente; e as pequenas empresas, para as quais o território se apresenta como um abrigo, dependendo das sinergias existentes nos lugares para a sua reprodução.

Os conceitos de uso do território como abrigo e como recurso são centrais em nossa análise. Enquanto o primeiro se resume às empresas de pequeno porte e familiares que apresentam fraco poder financeiro, dependendo, para sua reprodução, da sinergia dos lugares (tradição no consumo de determinada marca, divulgação da marca através da comunicação entre os consumidores etc.). O segundo se refere às empresas de médio e grande porte com atuação em todo o território, com uso intensivo de capital, tecnologia e marketing.

A maioria das torrefadoras utiliza o território como abrigo (Santos, 1997), ou seja, atuam em escalas regionalmente restritas, utilizando-se da divulgação da marca através da comunicação entre seus consumidores e muitas vezes, por causa do forte mercado competitivo, utilizam-se de matéria prima de baixa qualidade e/ou de práticas ilegais, adicionando ao café torrado e moído outros produtos como palha de café, milho, etc.Estas empresas são as que mais sofreram com a abertura do mercado a partir da década de 1990, muitas delas fecharam ou foram adquiridas pelas grandes empresas.

Já as grandes firmas, principalmente, as transnacionais, a produção é capitalizada, com utilização de tecnologia e marketing e com uma forte atuação em todo território, de maneira a utilizá-lo como recurso (id.). Neste tipo de empresa é perceptível a busca pela qualidade em seus produtos, segmentando a produção para diferentes nichos de mercado.

O segmento de torrefação e moagem de café tem sido historicamente considerado bastante tradicional e conservador, por exemplo, de acordo com uma pesquisa realizada pelo trabalho de Mariochi sobre o perfil tecnológico da indústria de café torrado e moído, nas respostas diretas do item administração, 70% dizem respeito à administração familiar; 19% à administração familiar com gerencia contratada; e apenas 7% a gerencia contratada, exclusivamente. Os dois primeiros tipos de administração se encaixam no perfil das pequenas empresas, sendo o terceiro um tipo de gerência viabilizada apenas pela produção de escala de grandes empresas.

É possível encontrarmos com essa diferenciação do uso de território, diferentes tipos de produtos no mercado nacional, que são caracterizados de acordo com sua

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tecnologia de produção, Podemos usar como exemplo três grupos distintos como o café tradicional, o café a vácuo e o café gourmet.

O café tradicional é o produto mais comum encontrado no mercado interno, ele é vendido na embalagem almofada com utilização de matéria prima de qualidade média para inferior. O café á vácuo é uma tecnologia de embalagem que alarga a vida útil do produto, dando condições inclusive para que ele seja comercializado fora da região de produção, porém apesar do maior custo de produção ele não assegura uma maior qualidade da matéria prima. Já os gourmets apresentam uma matéria prima de maior qualidade, sendo isso possibilitado por um processo de torra mais suave e a utilização de moinhos de rolos que são considerados os mais apropriados. Os cafés gourmet são produzidos com 100% de grãos arábicos, espécie de maior qualidade, e com isso com maior custo de produção.

As pequenas empresas, que utilizam o território como abrigo, apresentam uma tecnologia básica que apenas suporta a produção do café tradicional. Já as empresas de pequeno porte que conseguem colocar no mercado um produto com a tecnologia á vácuo, certamente deve se utilizar de uma estrutura locacional alugada, prática comum entre essas empresas, sendo isso inclusive identificado no estudo de caso apresentado nesse trabalho.

Já as grandes e médias empresas, que utilizam o território como recurso, por terem uma produção capitalizada, estas conseguem colocar no mercado produtos de maior qualidade, como os produtos á vácuo e os cafés gourmet, tendo totalmente abandonado a tecnologia de embalagem almofada, esta somente praticada pelas pequenas empresas.

Tabela 1: Diferenciação quanto ao uso do território Uso do território Tamanho da empresa Qualidade de matéria prima Tipo de administração Tipos de produtos Divulgação da marca Escala de mercado

Abrigo Pequena Média e Baixa Apenas familiar ou com gerência contratada Café tradicional Comunicação entre seus consumidores Local e regional Recurso Média e grande Alta e Média Gerência contratada exclusiva Café a vácuo e gourmet Estratégias de marketing Regional, Nacional e internacional.

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A concentração aumenta no setor

No território brasileiro, apesar do grande número de empresas torrefadoras, o mercado se encontra bastante concentrado. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) existem cerca de 1.200 torrefadoras com duas mil marcas diferentes, porém as cinco maiores empresas controlam cerca de 40% do mercado total de café torrado/moído. Se considerarmos as 100 maiores, o controle ultrapassa os 60%. Os dados demonstram a grande concentração da produção desse segmento, que tende a aumentar com a aquisição das pequenas empresas pelas grandes corporações. A concentração também se expressa espacialmente, os estados de São Paulo e Minas Gerais possuem juntos cerca de 50% do número de torrefadoras. Entre as empresas associadas à ABIC, dez torrefadoras respondem por mais de 70% da produção, enquanto as demais 377 empresas respondem por apenas 30%.

Com tudo isso a pesquisa constatou que a concentração do setor vem se acentuando. A Tabela abaixo indica que as 10 maiores empresas concentram 72,90% da produção total das empresas. Enquanto isto, as 315 menores empresas tiveram sua participação quase estabilizada e ao nível de 6,95% da produção total.

Analisadas por grupos e portes, as empresas mostraram um desempenho muito distinto, com as maiores crescendo acentuadamente e as menores estáveis ou decrescendo.

Nesta apuração, manteve-se a hipótese, bastante conservadora, de que as empresas não associadas á ABIC com o consumo não cadastrado (informal e nas fazendas) não cresceram, contribuindo com 0% na média final, ou seja, que o grupo das maiores empresas assumiu parte do mercado das menores. Assim, enquanto os dados das empresas associadas indicam neste grupo um crescimento de 6,28% em relação aos volumes de 2008, o volume total, em função da hipótese assumida acima, reduziu-se para 4,15%.

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Produção e participação por Grupos e Portes de Empresas Associadas á ABIC/2009

Fonte: ABIC

Período de produção considerado: 2008/2009: nov./08 a out/09

Considerado somente café torrado e moído (entre associadas da ABIC)

GRUPO 2008/2009 VOLUME MENSAL (sacas) PARTICIPAÇÃ O (%) NÚMERO DE EMPRESAS 1-999 sacas 68.014 6,95 315 1.000-2.999 sacas 61.028 6,24 33 3.000-9.999 sacas 136.112 13,91 26 Acima de 10.000 sacas 713.147 72,90 10 Total 978.300 100 384

O circuito espacial produtivo do café torrado e moído no Sul de Minas.

O conceito de circuito espacial produtivo se torna operacional no período da globalização, devido ao aumento, frequência e aceleração dos fluxos de toda ordem, que por um lado ampliaram as distâncias entre as etapas da produção (produção, circulação, distribuição e consumo), mas, por outro, tornou-as mais integradas, volvendo mais complexas as inter-relações existentes dentro do processo produtivo. Para Arroyo (2001, p.57), a idéia de circuito espacial produtivo permite “agregar a topologia de diversas empresas em um mesmo movimento; mas, ao mesmo tempo, permite captar uma rede de relações que se dão ao longo do processo produtivo, atingindo uma topografia que abrange uma multiplicidade de lugares e atores”. A intenção em captar o movimento existente entre os lugares que compõem uma dada divisão territorial do trabalho é que fizeram Santos e Silveira (2001) ressaltarem a importância do emprego do conceito, assim como da idéia de círculos de cooperação, compreendida pela circulação imaterial.

Com base em Santos (1988; 1996), Moraes (1991), Arroyo (2001) e Santos & Silveira (2001), podemos afirmar que os circuitos espaciais produtivos “pressupõem a circulação da matéria (fluxos materiais) no encadeamento das instâncias geograficamente separadas da

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produção, distribuição, troca e consumo, de um determinado produto, num movimento permanente; os círculos de cooperação no espaço, por sua vez, tratam da comunicação, consubstanciada na transferência de capitais, ordens, informação (fluxos imateriais), garantindo os níveis de organização necessários para articular lugares e agentes dispersos geograficamente” (Frederico & Castillo, 2004).

Com o aumento exponencial, nas últimas décadas, dos fluxos que perpassam os circuitos espaciais produtivos, a noção de logística, consubstanciada pela circulação corporativa, se tornou vital para diferentes agentes. No circuito espacial produtivo do café existe um número relativamente grande de agentes, como aqueles vinculados à pesquisa e desenvolvimento de novos cultivares, produtores e revendedores de insumos e maquinário agrícola, produtores, corretores, torrefadoras, associações de produtores, cooperativas, empresas exportadoras, transportadores e consumidor final. Os vários agentes que participam do circuito produtivo do café se articulam através de inúmeros fluxos de mercadorias, informações e capital, estando localizados desde as regiões produtoras dos grãos até os locais de controle e consumo da produção.

As empresas localizadas no sul de minas adquirem 50% dos seus grãos nas cooperativas e o restante diretamente dos produtores (20%), empresas exportadoras (18%), armazéns gerais (7%) e corretores (5%). Em 2007, a Associação Brasileira de Indústrias de Café (ABIC) contabilizou 1.222 torrefadoras em todo o território brasileiro, das quais 95% eram micro e pequenas empresas, com mais de 1.800 marcas diferentes de café. Apesar da existência de um grande número de empresas, esse segmento também se apresenta extremamente concentrado, com as cinco maiores (Sara Lee, Santa Clara, Mellita do Brasil, Café Damasco e Café Cacique) processando 38% do total dos grãos, porcentagem que aumenta para 63% se considerarmos as cem maiores.

As torrefadoras de pequeno porte utilizam o território como abrigo(SANTOS, 1997), visto que os consumidores são fiéis às marcas locais e também bastante tradicionalistas na hora de escolher qual café comprar (SAES & FARINA, 1999). Esta característica é um fator limitador para a entrada de novos concorrentes que pretendam construir uma marca nova. Assim, uma forma de superar os entraves é a aquisição de torrefadoras já em operação e a utilização de várias fábricas, em diferentes regiões, prática utilizada pelas grandes indústrias de torrefação e moagem, que possuem a possibilidade de utilizar o território como recurso (SANTOS, 1997). As grandes empresas também estão investindo em embalagens de

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alto-vácuo que permitem uma maior duração do prazo de validade do produto, facilitando a entrada de suas marcas em mercados mais distantes.

Os maiores clientes das empresas torrefadoras são os supermercados, que estão se tornando o principal canal de distribuição do café de consumo doméstico. Nos supermercados, os produtos são diferenciados pela marca, o que limita a ação das pequenas empresas devido ao custo elevado das atividades de marketing.

A garantia da utilização do território como abrigo fica comprometida com as mudanças técnicas associadas aos novos sistemas de embalagem. A escala de produção e comercialização pode ameaçar, também, a vantagem de preços das empresas locais. O que essas tendências sugerem é uma forte concentração do número de empresas, com a aquisição das pequenas empresas locais pelas grandes empresas torrefadoras.

As empresas de torrefação e moagem estão distribuídas por todas as regiões do País. Cada região brasileira possui características próprias relacionadas ao consumo e à industrialização do café. As regiões Sul, Norte e Centro-Oeste são identificadas como regiões importadoras de café industrializado das regiões Sudeste e Nordeste. Isso ocorre porque o consumo interno das primeiras excede a respectiva capacidade de industrialização, enquanto que, nessas últimas, a capacidade de industrialização é maior que seus mercados locais.

Mais da metade das empresas brasileiras de café torrado e moído esta fortemente concentrada na Região Sudeste, sobretudo no Estado de Minas Gerais (maior produtor), com 393 empresas e de São Paulo (maior centro de consumo), com 343 unidades.

Esse comércio entre regiões tende a ser mais intensificado com a introdução de novas tecnologias de embalagem que permitem a conservação do produto por um maior intervalo de tempo, ampliando, dessa forma, a participação das empresas exportadoras em mercados mais distantes. Devido à amplitude da cadeia produtiva do café e à importância que representa para a economia nacional, é necessário que exista uma estrutura específica, capaz de viabilizar a atividade industrial nesse segmento. Assim, órgãos do governo, em conjunto com a iniciativa privada, formam essa estrutura.

O café sob a forma T&M sempre teve um curto canal de comercialização, sobretudo pela pequena agregação de valor e, portanto, de tecnologia.

Quanto à atuação das forças competitivas nesse setor, é possível observar, no que se refere à ameaça de novos entrantes, que o setor conta com algumas barreiras de entrada,

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destacando-se as economias de escala, a diferenciação do produto e as exigências de capital. A utilização de economias de escala é comumente percebida nas empresas maiores como forma de reduzir custos e de manter vendas nas grandes redes de supermercados, funcionando como barreira de entrada pelo fato de impedir que um concorrente potencial venha a ingressar no setor em grande escala ou, então, aceitar uma desvantagem de custo. A diferenciação resultante da identificação com a marca também cria obstáculos à entrada em virtude de forçar os novos concorrentes a vultosos investimentos para superar a lealdade dos clientes. As exigências de capital constituem barreiras à entrada por implicarem gastos significativos com propagandas, créditos aos compradores, manutenção de frota própria ou serviços de terceiros para a distribuição do produto e ainda com despesas na aquisição e transporte da matéria-prima. É importante ressaltar que a movimentação atual observada, envolvendo empresas do setor, não se caracteriza como entrada de novos concorrentes. O que tem ocorrido no mercado brasileiro é a consolidação da tendência à concentração no setor, evidenciada pelo número de aquisições já efetuadas, em sua maioria, por parte de grupos multinacionais.

O poder de negociação dos fornecedores reflete o fato de que a indústria de café caracteriza-se por dispor de fontes alternativas de fornecimento da matéria-prima. As empresas podem adquirir o café cru diretamente dos produtores (considerados a principal fonte), comprar café a exportadores que comercializam apenas o produto tipo exportação e ainda comprar o produto nos leilões dos estoques do governo, mantidos para regular o consumo interno ou em cooperativas formadas por pequenos produtores. Outro aspecto a ser levado em consideração é que as empresas do setor cafeeiro compram grandes volumes do produto. Por isso, o setor é considerado um comprador importante, podendo as empresas escolher o fornecedor que melhor se enquadre nos seus padrões de qualidade e, consequentemente, nas exigências de seus mercados específicos.

O poder de negociação dos compradores nesse setor merece uma apreciação distinta, em virtude de que os supermercados substituíram o varejo tradicional representado pelas padarias e mercearias, fazendo do autosserviço o meio mais comum para a aquisição do café industrializado. Em consequência, hoje a venda em supermercados escoa a maior parte da produção industrial, permitindo que esses canais de distribuição exerçam forte influência sobre as decisões de compra dos consumidores finais. O poder dos supermercados evidencia-se pelo fato de efetuarem compras em grandes volumes e também por disporem de um grande número de empresas fornecedoras de café industrializado.

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O café é uma bebida com características muito específicas relacionadas ao sabor e às formas de consumo. Como fonte de elementos energéticos, existem bebidas isotônicas que oferecem efeitos semelhantes, mas que são comercializadas em faixas de mercado distintas, além de apresentarem preços relativamente mais elevados do que o preço do café. Além disso, o produto conta com um mercado próprio que não reconhece um produto substituto direto, o que faz da ameaça dos substitutos uma força quase sem atuação para a indústria do café. Como o crescimento do setor é relativamente lento, o aumento na parcela de mercado de uma determinada empresa implica a perda de mercado por outra. Assim, a rivalidade se evidencia claramente quando as empresas buscam manter os seus mercados locais e, ao mesmo tempo, procuram entrar em mercados de outras empresas em regiões mais remotos, cuja demanda seja considerada insatisfeita ou com significativo crescimento. A rivalidade nessa indústria é também resultado da força dos canais de distribuição. Estes, devido ao seu poder na negociação de preços, forçam as empresas industrializadoras do café a venderem seus produtos com margens de lucro reduzidas, a fim de que possam ter acesso ao mercado consumidor. Isso desencadeia uma concorrência em preços que ameaça a sobrevivência de todo o setor.

Dessa forma, a estrutura competitiva do segmento indica, como forças competitivas mais intensas, o poder de negociação dos compradores, representado pelo segmento varejista, através da influência que exerce nas decisões de compra dos consumidores finais, e a rivalidade entre os concorrentes.

Esta última exige grandes esforços para manter os mercados locais, compelindo os concorrentes, simultaneamente, a buscarem alternativas de atendimento a nichos de mercados ou a outros mercados mais distantes. A tendência à concentração no setor também tem seus efeitos no estado da competição nessa indústria, podendo, gradativamente, eliminar concorrentes de menor porte e menor capacidade competitiva.

A diferença da logística de produção entre as pequenas e grandes empresas, tomando como estudo de caso as empresas “Que Bom Café” e “Café Bom Dia”.

A empresa “Que Bom Café”, sediada em Alfenas – MG é um exemplo de empresa que utiliza o território como abrigo. Seu café é colhido em Córrego do Ouro, distrito do município de Campos Gerais-MG, sua produção é de 25 mil quilos por mês de café torrado, moído e empacotado, com uma distribuição razoável que abrange a região do Sul de Minas, Belo

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Horizonte, Sete Lagoas, litoral norte de São Paulo e litoral sul do Rio de Janeiro. A empresa torra seu café com 85% de aproveitamento dos grãos, o que não a credencia ao padrão de qualidade da ABIC. O processo de qualificação dos grãos de seu produto é realizado no distrito de Córrego do Ouro pela empresa Ouro Coffee, que realiza a intermediação de compra e venda de grãos, recebendo o café recém-colhido e fazendo a qualificação dos grãos para a revenda, porém seu maquinário para tal atividade é considerado de baixa tecnologia. A “Que Bom Café” utiliza as estruturas da extinta “Café Geração” para todo o processo de torrefação, moagem e empacotamento do seu produto, além de fazer a distribuição do produto com um pequeno automóvel de transporte de cargas.

Diferentemente da empresa “Que Bom Café”, a empresa “Café Bom Dia” com sede em Varginha – MG, considerada uma das maiores do país, utiliza o território como recurso. Seu café é colhido por um grupo de 4800 agricultores no Brasil, principalmente no Sul de Minas, e países como Colômbia, Peru, Costa Rica, Etiópia, Quênia e Sumatra. A produção é enviada para varejistas da América do Sul, América do Norte e Ásia. A empresa trabalha com duas marcas comerciais: a “Café Bom Dia” que é uma das principais marcas do mercado brasileiro, desde 1970, e os cafés Gourmet Marques de Paiva produzido com 100% de grãos Arábica de excelente qualidade e colhido nas mais altas montanhas do Sul de Minas, descafeinado pela SwissWater, localizada em Vancouver, Canadá. A torrefação de seus produtos é realizada no Sul de Minas, em Medelín na Colômbia e em Seattle, Washington nos Estados Unidos.

A pesquisa foi concluída no ano de 2010 como pesquisa de estágio curricular do curso de graduação em Geografia da Universidade Federal de Alfenas-MG, mas já existe uma nova pesquisa de maior abrangência sobre esse tema, já sendo desenvolvida, que esta em processo de aceite pelo programa de pós graduação em Geografia da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” em Rio Claro/SP

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No período da globalização, caracterizado pelo exponencial aumento dos fluxos materiais e informacionais, emerge com muita força e difunde-se rapidamente o conceito de competitividade que pouco a pouco deixa de ser um emblema somente das empresas, perpassa toda a sociedade e torna-se também um atributo dos lugares, das regiões e dos territórios. (CASTILLO, 2008).

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O Sul de Minas se caracteriza como um caso emblemático dessa situação. Ao longo do século XX, essa região se consolidou como a principal região brasileira produtora de café. Para atender às demandas desta produção e se tornar uma região competitiva, foi criada diversos sistemas técnicos e normativos com o intuito de tornar eficiente a logística da produção. Este trabalho teve como objetivo descrever a maneira como o sul de minas se apresentou diante deste período da globalização em relação à produção do café industrializado (torrado e moído).

Com essa descrição, pudemos notar a dificuldade dos pequenos produtores de entrar e até sobreviver dentro deste mercado, isto se deve ao sistema econômico contraditório cujas ferramentas de financiamento de produção são destinadas em sua grande maioria ao grande produtor, deixando o pequeno produtor praticamente sem condições de competir, sendo este condenado a vender sua empresa ou então viver se utilizando de estratégias ilegais.

Já as grandes empresas, com a globalização, passaram a estabelecer estratégias e estruturar suas atividades na escala do planeta, interpretando todos os territórios como um recurso passível de ser explorado (SANTOS & SILVEIRA, 2001). Para se adaptar às constantes inovações e mudanças dos mercados, as firmas mundiais passaram a se estruturar em “rede”. Segundo Delapierre (1996, p.16), a estruturação das empresas em rede é fundamental para a sua sobrevivência e consiste na aquisição-fusão de outras empresas e no desenvolvimento de alianças (cooperação).

A concorrência desigual acaba por levar várias empresas nacionais à falência, principalmente, as pequenas, que ao contrário das grandes, são intensivas em trabalho e pouco intensivas em capital e tecnologia. O fechamento de suas fábricas acaba por causar problemas para as pequenas cidades, como o aumento do desemprego.

Apesar do grande número de empresas torrefadoras, o mercado brasileiro é bastante concentrado, entre as empresas associadas à ABIC, dez torrefadoras respondem por mais de 70% da produção. A concentração também se expressa espacialmente, os estados de São Paulo e Minas Gerais possuem juntos cerca de 50% do número de torrefadoras de todo o território brasileiro.

Portanto, a análise da tipologia das empresas torrefadoras de café do Sul de Minas e de suas diferentes possibilidades de utilizar o território, permite uma melhor compreensão das relações de poder e de mercado estabelecidas entre elas; além de fornecer subsídios para a compreensão das transformações sócio territoriais sofridas pelos municípios do Sul de Minas

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no atual período da Globalização

Com esse trabalho registramos para a comunidade científica uma síntese completa sobre as empresas torrefadoras do sul de minas analisando a atuação das empresas de torrefação e moagem no Sul de Minas, criando uma tipologia para essas empresas classificando-as entre as que utilizam o território como recurso, e aquelas que o usam como abrigo, avaliando a relação entre elas, às diferenças organizacional e tecnológica e o processo de concentração do mercado e as repercussões dessa relação para o circuito espacial produtivo do café.

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