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Análise funcional das construções correlatas alternativas

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE LETRAS

MESTRADO EM ESTUDOS DE LINGUAGEM

JOVANA MAURICIO ACOSTA DE OLIVEIRA

ANÁLISE FUNCIONAL DAS CONSTRUÇÕES CORRELATAS ALTERNATIVAS

NITERÓI 2016

(2)

JOVANA MAURICIO ACOSTA DE OLIVEIRA

ANÁLISE FUNCIONAL DAS CONSTRUÇÕES CORRELATAS ALTERNATIVAS

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem, da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Estudos de Linguagem.

ORIENTADOR: Prof. Dr. Ivo da Costa do Rosário

NITERÓI

(3)

3 A185 Acosta, Jovana Mauricio.

Análise funcional das construções correlatas alternativas / Jovana Mauricio Acosta. – 2016.

97 f. ; il.

Orientador: Ivo da Costa do Rosário.

Dissertação (Mestrado em Estudos de Linguagem) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras, 2016.

Bibliografia: f. 93-97.

1. Correlação. 2. Disjunção. 3. Construção. I. Rosário, Ivo da Costa do. II. Universidade Federal Fluminense, Instituto de Letras. III. Título.

(4)

JOVANA MAURICIO ACOSTA DE OLIVEIRA

ANÁLISE FUNCIONAL DAS CONSTRUÇÕES CORRELATAS ALTERNATIVAS

Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras, da Universidade Federal Fluminense, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Letras. Área de concentração: Estudos de Linguagem.

BANCA EXAMINADORA

______________________________________________________________________

Prof. Dr. IVO DA COSTA DO ROSÁRIO (UFF)

______________________________________________________________________

Profª. Drª. VIOLETA VIRGINIA RODRIGUES (UFRJ)

______________________________________________________________________

Profª. Drª. EDILA VIANNA DA SILVA (UFF)

______________________________________________________________________

Profª. Drª ANA CLÁUDIA MACHADO TEIXEIRA (UFF)

______________________________________________________________________

(5)

NITERÓI

2016

À minha mãe, ao meu marido e ao meu filho pelo amor e dedicação e por sempre acreditarem e investirem em meus sonhos.

(6)

AGRADECIMENTOS

A Deus, por estar sempre presente em minha vida, conduzindo os meus passos.

À minha mãe, pela dedicação de uma vida inteira e por sempre me mostrar o valor do estudo.

Ao meu marido, pelo companheirismo, amor e incentivo de sempre, o que fizeram com que este trabalho fosse possível. Por estar sempre ao meu lado, em todos os momentos da minha vida.

Ao meu filho Pedro, por despertar em mim um amor que me faz querer ser melhor sempre e que, sem dúvida, motiva o meu crescimento.

À minha tia Diva, pelo incentivo e por me ajudar nos cuidados com meu filho durante as aulas do mestrado.

Ao meu amigo Tharlles, pela companhia, parceria e amizade no mestrado e na vida. E por compartilhar sempre comigo conhecimentos, textos e ideias que contribuem para o meu crescimento profissional e pessoal.

À minha amiga Letícia, pela companhia, risadas e amizade que tornaram os meus momentos de estudos mais divertidos.

Ao professor Ivo, meu orientador, por sua paciência, dedicação e por ser para mim um exemplo de profissional que motiva não só a minha carreira profissional, mas também a minha vida.

À professora e amiga Violeta, minha orientadora na graduação, por sempre acreditar e valorizar o meu esforço e dedicação, acreditando no meu potencial.

Aos membros titulares e suplentes desta banca, por gentilmente aceitarem o convite de participar desta etapa tão importante em minha vida acadêmica.

(7)

A todos vocês, meu muito obrigada!

RESUMO

Este trabalho tem como objetivo observar os padrões de uso das construções correlatas alternativas à luz da Linguística Funcional Centrada no Uso, reunindo tanto pressupostos funcionalistas quanto construcionistas. Essa teoria parte do princípio de que a língua emerge a partir de seu uso e vai sendo moldada por meio de sua própriainstabilidade. A partir dessa premissa, nossa pesquisa observa os usos e os contextos em que estão inseridas as construções correlatas alternativas. Pretendemos analisar o comportamento semântico e sintático que envolve esse tipo de construção dentro do quadro da correlação. Pretendemos, ainda, observar os valores sintáticos e semânticos de cada type correlativo encontrado. Com base na constatação de Fillenbaum (1986) de que algumas orações disjuntivas podem assumir um valor condicional, observamos se há sobreposição de valores semânticos nas construções correlatas alternativas analisadas e quais os fatores motivadores para esse fenômeno. O objeto em análise é tratado como construção, por aderirmos à proposta atual da Gramática de Construções nos modelos de Croft (2007), Goldberg e Jackendoff (2004) e Trousdale (2008). Nessa perspectiva, a gramática é vista de forma holística, ou seja, nenhum nível é central. Ademais, forma e significado são pareados como iguais e passam a funcionar, nesta teoria, como unidades básicas e centrais da língua, operando em diferentes níveis da gramática. O corpus utilizado é composto por textos retirados de versões eletrônicas da Revista Veja (http://www.veja.abril.com.br)

(8)

ABSTRACT

This study aims to observe the usage patterns of the alternatives related buildings in the light of Linguistics Centered Functional in use, bringing together both functionalist assumptions as constructionist. This theory assumes that language emerges from its use and is being shaped by its instability. From this premise, our research will observe the uses and contexts in which they operate alternative constructions. We intend to analyze the semantic and syntactic behavior involving this type of construction within the correlation table. It is intended to also observe the syntactic and semantic value of each correlative type found. Based on the finding Fillenbaum (1986) that some disjunctive prayers can take a conditional value, we will see if there is overlap of semantic values in the alternatives considered related buildings and what the motivating factors for this phenomenon. The object in question will be treated as construction, by adhering to the current proposal of construction of grammar in Croft models (2007), Goldberg and Jackendoff (2004) and Trousdale (2008). From this perspective, the grammar is viewed holistically, that is, no level is central. Moreover, form and meaning are paired as equals and will function in this theory, as basic units and language centers, operating at different levels of grammar. The corpus used is composed of texts taken from electronic versions of the magazine Veja (http://www.veja.abril.com.br)

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 11

1. A CORRELAÇAO 13

1.1 A construção alternativa 24

2. PRESUPOSTOS TEÓRICOS 32

2.1. A Linguística Funcional Centrada no Uso 32

2.2. Gramática de Construções 34

2.3. Neonálise e analogização 40

2.4. Construcionalização e Mudança construcional 41

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 43

3.1. Caracterização do corpus 44

3.2. Fatores de análise 45

3.2.1. Correlatores espelhados e não-espelhados 46

3.2.2. Interdependência 46

3.2.3. Ordem das construções correlatas 47

3.2.4. Padrões oracionais e não-oracionais 48

3.2.5. Sobreposição de valores semânticos 49

3.2.6. Sequências tipológicas 50

3.2.7. Leitura semântica de exclusão ou inclusão 51

4. ANÁLISE DE DADOS 53

4.1. Correlatores espelhados 55

4.1.1 Correlatores de base conjuncional 56

4.1.1.1. Construções com ou...ou 57

4.1.1.2. Construções com nem...nem 66

4.1.2. Correlatores de base verbal 70

4.1.2.1. As construções com seja...seja 70

4.1.2.2. As construções com quer...quer 75

4.1.3. Correlatores de base substantiva 77

4.1.3.1. As construções com ora...ora 78

4.2. Correlatores não-espelhados 82

(10)

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 87

6. REFERÊNCIAS 92

LISTA DE QUADROS Quadro 1 - Definições de coordenação...15

Quadro 2 - Definições de subordinação... 16

Quadro 3 - Correlação nas gramáticas tradicionais...18

Quadro 4 - Tipos de orações correlatas... 26

Quadro 5 - Oração alternativa nas gramáticas tradicionais... 27

Quadro 6 - Conjunções alternativas... 28

Quadro 7 - Diferenças entre construção coordenada e construção correlata... 90

(11)

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Primeiros resultados... 47

Tabela 2 - Dados de jan/2013 a fev/2014... 54

Tabela 3 - Types de construções correlatas alternativas... 55

Tabela 4 - Types de construções correlatas alternativas espelhadas... 56

Tabela 5 - Ordem das construções com ou...ou... 62

Tabela 6 - Sobreposição semântica das construções com ou...ou... 63

Tabela 7 - Padrão oracional das construções com ou...ou... 65

Tabela 8 - Padrão oracional das construções com seja...seja... 71

Tabela 9 - Sequências tipológicas das construções com seja...seja... 74

Tabela 10 - Padrão oracional das construções com seja...seja... 80

Tabela 11 - Sequências tipológicas das construções com ora...ora... 81

Tabela 12 - Types de construções correlatas alternativas não-espelhadas... 82

Tabela 13 - Sequências tipológicas das construções com seja...ou... 84

Tabela 14 - Possibilidade de inversão das constuções alternativas... 88

Tabela 15 - Padrão oracional das construções alternativas... 89

(12)

INTRODUÇÃO

A correlação destaca-se por sua importância dentro dos estudos da estruturação do período e no âmbito de toda a sintaxe. A presente pesquisa pretende contribuir para que o estudo desse fenômeno, no campo da alternância/disjunção, ganhe maior notoriedade, atraindo mais pesquisas sobre o tema.

Este trabalho faz parte de um projeto maior desenvolvido pelo Prof. Dr. Ivo da Costa do Rosário, orientador desta dissertação, no âmbito do Grupo de Pesquisa sobre Conectivos e Conexão de Orações (CCO), que pretende, dentre outras atividades, realizar uma descrição de todo o quadro da correlação no português. Diante disso, para esta investigação científica, selecionamos as construções correlatas

alternativas, tradicionalmente conhecidas pela gramática tradicional como orações

coordenadas alternativas. Esse é o recorte a ser analisado neste estudo.

Pautados na Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU), que leva em conta as inovações e as mudanças apresentadas na língua em uso, consideramos aqui todos os correlatores1 que estabelecem a noção de alternância, ou seja, os prescritos e os não prescritos pelas gramáticas tradicionais2. Sendo assim, a partir do corpus selecionado para esta pesquisa, analisamos os correlatores mais comuns (ou...ou, seja...seja, quer...quer, nem...nem, ora...ora), bem como algumas variações não canônicas desses pares: seja...ou, nem... ou. etc.

A hipótese central que motivou a nossa pesquisa é a de que a construção correlata alternativa é uma construção diferente da coordenada alternativa, apesar de comumente serem apresentadas de forma intercambiável por vários compêndios. Para tentarmos comprovar a nossa hipótese, os objetivos traçados são:

1 O termo correlatores foi criado por Rosário (2012), em analogia a coordenadores e subordinadores,

para referir-se aos articuladores sintáticos responsáveis pela correlação.

2 Consideramos Gramática Tradicional o modelo utilizado como base para a abordagem e ensino da

língua portuguesa nas escolas. Tem origem em uma tradição de estudos de base filosófica que se iniciou na Grécia Antiga, e está consubstanciada nas obras de Rocha Lima (1999), Cunha & Cintra (2001) , Luft (2000), Kury (2003), dentre outros.

(13)

 Demonstrar que as construções correlatas alternativas apresentam características que as diferenciam das típicas coordenadas.

 Analisar o comportamento semântico e sintático que envolve esse tipo de construção dentro do quadro da correlação.

 Observar se há sobreposição de valores semânticos nas construções correlatas alternativas analisadas e quais os fatores motivadores para esse fenômeno.

No capítulo 1, apresentamos as definições de coordenação e subordinação adotadas por alguns autores, com o intuito de observamos como o assunto é abordado pelos principais gramáticos. Em seguida, traçamos um breve panorama sobre os estudos da correlação e definimos o nosso objeto de estudo: a correlação alternativa. Nesse ponto do trabalho, discorremos com mais detalhes sobre as hipóteses que impulsionam esta pesquisa.

No capítulo 2, apresentamos os pressupostos teóricos que norteiam a nossa pesquisa: a LFCU e a Gramática de Construções. Além de apresentarmos brevemente a teoria linguística adotada, destacamos o conceito de construção adotado por autores como Croft (2007) e Goldberg (1995), dentre outros, abordando também alguns conceitos relacionados a mudança linguística que igualmente servem como aporte teórico para nossa análise.

No capítulo 3, apresentamos o corpus, detalhadamente, e os procedimentos metodológicos utilizados nesta pesquisa, demonstrando quais critérios foram adotados em nossa análise e a relevância de cada um para o desenvolvimento da pesquisa.

No capítulo 4, procedemos à análise dos dados, em que são explicitados os resultados e todos os types3 de construções alternativas encontrados, com um breve comentário acerca do valor semântico apresentado para cada um. Apresentamos também os critérios delimitados para análise dos dados e o resultado da aplicação de cada critério selecionado.

Por fim, no capítulo 5, apreciamos as considerações finais que constarão de uma breve síntese das descobertas e conclusões obtidas a partir da análise de dados.

3 Types são construções individuais, também conhecidos como microconstruções (cf. TRAUGOTT;

(14)

Neste último capítulo, procuramos responder também os questionamentos surgidos ao longo da pesquisa.

1. A CORRELAÇÃO

Neste capítulo, apresentamos as diferentes visões adotadas pelos autores em relação à correlação. Trata-se de um dos processos de estruturação do período que tem sido colocado à margem em vários estudos de sintaxe. De fato, a maioria das gramáticas não aborda esse fenômeno sintático e, quando o assunto é abordado, não recebe o tratamento adequado, sendo apresentado de forma abreviada.

Em 1952, Oiticica propôs quatro tipos de estruturação do período: coordenação, subordinação, correlação e justaposição, demonstrando que a correlação apresentava especificidades em relação aos demais processos. Em obra intitulada Teoria da Correlação, Oiticica afirma que “esse processo de composição do período [a correlação] sempre andou confundido com o da subordinação em todas as gramáticas brasileiras ou estrangeiras.” (cf. OITICICA, 1952, p. 13) enfatizando, ainda, o diferencial sintático apresentado pela correlação: a interdependência.

Apesar de haver alguns estudos já clássicos sobre o tema, esse fenômeno ainda é alvo de enorme discordância entre os linguistas e mesmo entre os gramáticos. Como vermos adiante, alguns autores analisam a correlação como um subtipo da subordinação e da coordenação. Outros acreditam ser este um processo à parte, por apresentar características próprias em relação aos processos canônicos de ligação de orações.

De acordo com as gramáticas tradicionais, as aqui chamadas construções correlatas alternativas são tratadas no âmbito das orações coordenadas alternativas. No entanto, acreditamos que a construção correlata apresenta características particulares que a diferenciam das coordenadas. Como o nosso objeto de estudo é tradicionalmente classificado dentro da coordenação, mas como citou Oiticica (1952), é muitas vezes confundido com a subordinação, veremos como alguns autores abordam esses dois processos mais canônicos.

(15)

Quadro 1 – Definições de coordenação4

COORDENAÇÃO Cunha e Cintra

(2001, p. 593-594)

Segundo palavras de Cunha & Cintra, as orações coordenadas são estruturas da mesma natureza, autônomas, independentes, isto é, cada uma tem sentido próprio. Elas não funcionam como termos de outra oração, nem a eles se referem: apenas uma pode enriquecer com o seu sentido a totalidade da outra.

Rocha Lima (1999, p. 260)

Comunicação de um pensamento em sua integridade, pela sucessão de orações gramaticalmente independentes – eis o que constitui o período composto por coordenação.

Luft (2000, p. 47 e 51)

Coordenadas são as orações de igual função, ligadas entre si por meio de conjunções coordenativas, ou por justaposição (assíndeton) na expressão daquelas. [...] As orações do período ‘composto por coordenação’, independentes, levam o nome de coordenadas.

Melo (1978, p.

146-147)

Coordenação é o paralelismo de funções ou valores sintáticos idênticos. Oração coordenada é a que está posta ao lado de outra, de igual natureza e igual função. Almeida, N.

(2004, p. 523)

Oração coordenada é a que vem ligada a outra de igual função, ou seja, as coordenadas entre si podem estar quer independentes, quer subordinadas, quer principais.

Ribeiro, M. (2004, p. 307)

Na coordenação, ocorre uma independência sintática: cada oração coordenada tem seus próprios termos. Coordenação é a sequência de orações em que uma não exerce função sintática de outra.

Bueno (1963, p. 140)

Quando ambas as proposições exercem a mesma função no período, de tal modo que uma pode ser separada de outra, mantendo a sua perfeita significação, serão coordenadas.

Said Ali (1966, p. 130)

A combinação coordenativa é formada de uma oração inicial e uma ou mais orações sequentes ou coordenadas que se caracterizam por alguma das partículas e, mas, ou, portanto, logo, porquanto, etc.

Kury (2003, p. 62)

Se todas as orações de um período são independentes, isto é, têm sentido por si mesmas, e poderiam, por isso, constituir cada uma um período, o período se diz composto por coordenação.

Pereira, E. (1943, p. 206)

A coordenação consiste na combinação de palavras e frases da mesma função gramatical, e, ainda, de termos que se prendem por concordância, como o predicado e o sujeito, o atributo e o substantivo.

Maciel

(16)

(1931, p.

357-358) As proposições coordenadas exprimem pensamentos independentes, relacionados apenas pelo sentido ou por conjunção coordenativa.

Bechara (1999, p. 48)

Consiste a parataxe na propriedade mediante a qual duas ou mais unidades de um mesmo estrato funcional podem combinar-se nesse mesmo nível para constituir, no mesmo estrato, uma nova unidade suscetível de contrair relações sintagmáticas próprias das unidades simples deste estrato. Portanto, o que caracteriza a parataxe é a circunstância de que unidades combinadas são equivalentes do ponto de vista gramatical, isto é, uma não determina a outra, de modo que a unidade resultante da combinação é também gramaticalmente equivalente às unidades combinadas. Não sobem a estrato de estruturação superior.

Quadro 2 – Definições de subordinação

SUBORDINAÇÃO

Cunha e Cintra (2001, p. 594.600)

Orações subordinadas são orações sem autonomia gramatical, isto é, funcionam como termos essenciais, integrantes ou acessórios de outra oração. O período composto por subordinação é, na essência, equivalente a um período simples. Distingue-os apenas o fato de os termos (essenciais, integrantes e acessórios) deste serem representados naqueles por orações.

Rocha Lima (1999, p.

261-622)

No período composto por subordinação, há uma oração principal, que traz presa a si, como dependente, outra ou outras. Dependentes, porque cada uma tem seu papel como um dos termos da oração principal.

Luft (2000, p. 48 e 53)

Subordinada é aquela que depende de uma principal. É uma oração regida por outra, ou por um termo desta. [...] Onde há uma oração subordinada há também uma principal; são termos correlativos: não há principal sem subordinada, nem subordinada sem principal.

Melo (1978, p.

148-149)

Subordinação é a relação de dependência entre as funções sintáticas. Em toda oração normalmente constituída há necessariamente pelo menos um elo subordinativo, o que prende ao sujeito o predicado. [...] Oração subordinada é aquela que exerce em outra uma função ou subfunção, e que por isso não tem autonomia, não vale por si, é parte de outra oração, chamada principal.

Almeida, N. (2004, p. 524)

Oração subordinada é a que completa o sentido de outra de que depende, chamada principal, à qual se prende por conjunções subordinativas ou pelas formas nominais do verbo.

Ribeiro, M.

(2004, p. 308) Oração subordinada é a que desempenha o papel de termo de uma oração principal.

Bueno

(1963, p. 140) Se no período lógico, uma oração não pode ser separada de outra porque ficará incompleta em sua significação, haverá orações subordinadas.

Said Ali (1966, p. 130)

A combinação subordinativa consta de uma oração principal e uma ou mais secundárias ou subordinadas. Orações secundárias são desdobramentos do sujeito, do complemento ou dos determinantes atributivos ou adverbiais em novas orações.

Pereira, E.

(1943, p. 207) A subordinação dá-se quando uma palavra ou frase se combina ou relaciona com um outro termo de diferente função sintática.

Maciel (1931, p. 360)

Os termos da proposição simples expandem-se, desenvolvem-se, ligando proposições acessórias mediante conectivos subordinantes, isto é, pronomes relativos, conjunções subordinativas, e às vezes os adjetivos ou os pronomes indefinidos.

(17)

Bechara (1999, p. 47)

A hipotaxe é a propriedade oposta à hipertaxe: consiste na possibilidade de uma unidade correspondente a um estrato superior poder funcionar num estrato inferior, ou em estratos inferiores. É o caso de uma oração passar a funcionar como “membro” de outra oração, particularidade muito conhecida em gramática.

Podemos observar, a partir dos quadros apresentados, que várias definições apresentam divergências em alguns pontos: em algumas definições, por exemplo, subentende-se que a coordenação e a subordinação só ocorrem no período composto. Em outros casos, há inconsistência com relação ao termo (in)dependência, não deixando claro se esse conceito se refere a um traço de natureza semântica ou sintática, dentre outros problemas. Como foi observado por Rosário (2012), para autores como Rocha Lima (1999) e Ribeiro (2004), por exemplo, a subordinação exibe uma relação de dependência sintática. Para Almeida (2004) e Bueno (1963), por outro lado, trata-se de uma relação de dependência semântica.

Percebemos que caracterizar coordenação simplesmente como independência de elementos e subordinação como dependência de um elemento a outro é algo inconsistente, pois isso dá margem a inúmeros questionamentos. Rosário (2012, p.10) afirma que:

os critérios semântico e sintático estão presentes na maioria das definições apresentadas, juntamente com o conceito de dependência, mas não são bem definidos, gerando incompreensões e falta de clareza nas exposições teóricas. Essa heterogeneidade evidencia a carência de uma posição precisa por parte dos gramáticos de orientação tradicional e dificulta uma análise gramatical criteriosa.

A divergência que ocorre em torno dos processos de coordenação e subordinação já foi abordada por diversos autores. De fato, a forma como esses processos são apresentados pela Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) dá margem a diversos debates e questionamentos, por gerarem definições inconsistentes e instáveis. As questões debatidas pelos autores são muitas e envolvem vários aspectos, e essas divergências crescem quando nos referimos aos processos de justaposição e de correlação, que não são abordados adequadamente, como já dissemos, pela maioria das gramáticas tradicionais.

(18)

As construções alternativas costumam ser abordadas dentro da coordenação. Por essa razão, vejamos, nos parágrafos seguintes, duas definições de coordenação apresentadas por autores mais modernos.

Segundo Pezatti e Longhin-Thomazi (2008, p. 865), “construção coordenada consiste em dois ou mais membros, funcionalmente equivalentes, combinados no mesmo nível estrutural por meio de mecanismos de ligação”. Com isso, as autoras ressaltam a independência sintática da coordenação, afirmando que nenhum membro da construção coordenada é dependente dos demais, destacando, ainda, a sua equivalência funcional, ou seja, os membros devem ter as mesmas funções semânticas, sintáticas e pragmáticas.

Ramat e Mauri (2011, p.1) consideram como coordenação entre duas cláusulas qualquer relação estabelecida entre estados de coisas funcionalmente equivalentes, com a mesma função semântica e perfis cognitivos autônomos, “sendo ambos codificados por declarações caracterizadas pela presença de alguma força ilocucional.”

Observamos que os autores citados ressaltam, principalmente, a independência e a equivalência funcional como propriedades intrínsecas da coordenação. Nesse sentido, assemelham-se bastante aos autores tradicionais apresentados nos quadros 1 e 2, ou seja, não há diferença substancial entre eles.

A seguir, apresentamos as visões de alguns autores que focalizam a correlação.

Quadro- 3- Correlação nas gramáticas tradicionais

(Dias, 1970, p. 252)

De dar realce à pluralidade dos objetos serve (entre membros de uma oração) tanto [assim] – como (que substitui o latim et-et). Ex: “offeyro.. todo huherdamento de Crexemil, assi us das sestas como todo u outro herdamento (Doc.de 1193)” (Dias, 1970, p. 252).

Rocha Lima (1999, p. 261) Para dar mais vigor à coordenação, valemo-nos de uma fórmula correlativa (não só...mas também; não só...mas ainda; não só...senão também; não só...senão que).

Luft (2000, p.51)

Alternativas enfáticas correlatas: ora lê, ora escreve.

Uchôa (2004, p.111)

Já no terceiro tipo da alegada ‘correlação’, o que se tem na realidade é uma coordenação aditiva

enfática.

(19)

Por meio do quadro 3, notamos que os autores, ao fazerem referência ao processo da correlação, utilizam palavras como vigor, ênfase e realce para defini-lo, ressaltando, assim, o caráter argumentativo e persuasivo presente na correlação. Esse dado é muito importante, pois é destacado um fator de ordem pragmática.

Alguns gramáticos estrangeiros também ressaltaram o caráter persuasivo da correlação. Quirk et al. (1985), por exemplo, afirmam que a correlação apresenta uma argumentação mais persuasiva e mais formal, sendo utilizada quando se quer ressaltar a

força do pensamento. Autores como Eastwood (1985) e Berndt et al. (1983, apud

Rosário, 2012) concordam com Quirk et al.(1985) e ressaltam o uso enfático da correlação.

De fato, notamos que a maioria dos autores associa correlação a argumentação. Esse parece ser um ponto bastante pacífico. Entretanto, não há essa mesma harmonia quando a questão está ligada ao status de processo de estruturação do período ou não. Em outras palavras, a correlação está no mesmo nível da subordinação e da coordenação?

Alguns autores, como Azeredo (1979) e Câmara Jr. (1981), dentre outros, defendem a existência de apenas dois processos de estruturação do período: coordenação e subordinação. De acordo com esses autores, a correlação deve ser vista apenas como um subtipo dos processos já existentes. Câmara Jr. (1981, p. 87) reconhece que a correlação apresenta um arranjo sintático diferenciado, entretanto não concorda que seja um processo autônomo em relação aos demais.

Luft (2002) concorda com os autores citados, afirmando que a correlação não passa de um tipo especial de conexão que se estabelece dentro da coordenação, e não deve ser vista como um processo independente dos demais. Carone (2006, p.36), à maneira de Luft (2002), afirma que:

As relações estabelecidas entre orações podem apresentar, por vezes, características de realização que as distinguem do usual, o que tem levado alguns gramáticos a ver nisso outros tantos procedimentos sintáticos. Trata-se da correlação e da justaposição, variantes formais dos processos (de subordinação e de coordenação). Não nos deteremos na justaposição e na correlação porque são variantes formais de subordinação ou coordenação: aquela, com omissão do instrumento gramatical (conjunção); esta, com significados descontínuos (ex: seja...seja, não só...mas também).

(20)

Podemos observar que a maioria dos gramáticos prefere não considerar a correlação como um terceiro processo de estruturação sintática. No entanto, não apresentam justificativas claras e contundentes que justifiquem tal escolha. Ao contrário desses autores, alguns pesquisadores como Melo (1978), Rodrigues (2007) e Rosário (2012), dentre outros, defendem que a correlação apresenta especificidades em relação aos outros processos e não deve ser classificada como um subtipo da coordenação ou da subordinação, mas como um processo autônomo.

Segundo Rodrigues (2007), a correlação é um mecanismo de estruturação sintática ou procedimento sintático em que uma sentença estabelece uma relação de interdependência com a outra no nível estrutural. Sendo assim, nesse processo, uma oração não existiria sem a outra, por serem interdependentes. Ainda de acordo com a autora, a conexão na correlação é estabelecida por “conectores correlatos” que tem cada uma de suas partes em orações diferentes. Com isso, ela diferencia os processos de estruturação da seguinte forma:

- Subordinação – processo de hierarquização de estruturas em que as orações são sintaticamente dependentes. (cf. RODRIGUES, 2007, p. 227).

- Coordenação – processo em que as orações são sintaticamente independentes uma das outras, caracterizando-se pelo fato de implicarem paralelismo de funções ou valores sintáticos idênticos. (cf. RODRIGUES, 2007, p. 227).

- Correlação – processo em que “duas orações são formalmente interdependentes, relação materializada por meio de expressões correlatas”. (cf. RODRIGUES, 2007, p. 231).

Rodrigues (2007, p. 232-233) apresenta uma proposta de classificação para as correlatas, subdividindo-as, em português, em 5 grupos: correlação aditiva, correlação alternativa, correlação comparativa, correlação proporcional e correlação consecutiva. Ademais, estabelece uma distinção entre orações correlatas e não correlatas:

a) a correlação apresenta conectores que vêm aos pares, cada elemento do par em uma oração;

(21)

b) no período composto por correlação, as orações não podem ter sua ordem invertida, isto é, não apresentam a mobilidade posicional típica das subordinadas adverbiais que funcionam como adjuntos;

c) as correlatas não podem ser consideradas parte constituinte de outra, como ocorre com as substantivas e as adjetivas restritivas.

A autora faz ainda uma importante ressalva em relação à proposta apresentada: afirma que as correlatas aditivas não apresentam um comportamento homogêneo e, por isso, não se encaixam em todos os critérios apresentados, já que prototípicamente é uma construção que admite a inversão.

Ressaltamos que o nosso objeto de estudo, as construções correlatas alternativas, também não se encaixam plenamente em todos os critérios apontados por Rodrigues (2007), pois, assim como as aditivas, prototipicamente também admitem a inversão por apresentarem mobilidade: Vejamos um dado do corpus de pesquisa5:

PRÓTASE APÓDADE

(1) “Além das montanhas” tem ainda uma dimensão interna poderosa (no relacionamento cheio de pulsões das duas

amigas), uma psicóloga (no contraste entre os enquadramentos)

ora ordenados, ora caóticos

Revista Veja on-line, ed. 09/01/2013, pág. 99

Notamos que, se invertêssemos a ordem das construçõess, não traríamos grande prejuízo em relação à primeira informação que se desejava transmitir (ora caóticos, ora ordenados). Assim, a inversão é possível tanto do ponto de vista sintático (por resultar em um enunciado gramatical) como do ponto de vista semântico (por conservar a essência do sentido veiculado, sem grande alteração no conteúdo).

Melo (1978, p.152) também cultiva uma visão semelhante a Rodrigues (2007) e Rosário (2012) ao considerar a correlação como um terceiro processo de estruturação sintática, distinto da subordinação e da coordenação. Vejamos:

(22)

“(a correlação) é um processo sintático irredutível a qualquer dos outros dois (subordinação ou coordenação), um processo mais complexo, em que há, de certo modo, interdependência. Nele, dá-se a intensificação de um dos membros da frase, ou de toda a frase, intensificação que pede um termo”.

Notamos que o autor também admite, assim como considerado neste trabalho, que a correlação pode ser estabelecida não só entre orações, mas também entre termos da oração, ressaltando, ainda, a intensificação presente nas construções correlatas.

Módolo (2011) também considera a correlação como um processo distinto da coordenação e da subordinação. Em artigo acerca do tema em que propõe “uma tipologia sintática para as sentenças correlatas”, o autor considera a correlação aditiva (não só ... como também, etc.), alternativa (nem ... nem, ou ... ou, quer... quer, seja ... seja, ora ... ora, etc.), consecutiva (tão ... como, tão ... quanto, etc.) e comparativa (mais/ menos/ antes ... do que, tanto ... quanto, quanto mais ... mais, quanto menos ... menos, quanto mais ... menos, quanto menos ... mais, etc). Vejamos:

a correlação conjuncional pode ser caracterizada de modo geral como um tipo de conexão sintática de uso relativamente frequente, particularmente útil para emprestar vigor a um raciocínio, estabelecendo uma coesão forte entre sentenças ou sintagmas, e aparecendo principalmente nos textos apologéticos e enfáticos. A correlação exerce aí um papel importante, pois concorre para que se destaquem as opiniões expressas, a defesa de posições, a busca de apoio, muito mais do que por informarem com objetividade os acontecimentos. (MÓDOLO, 2011, p.462)

Observamos que Módolo (2011), assim como Melo (1978), ressalta o caráter enfático da construção correlata e seu importante papel de destacar a opinião que se quer defender e de persuadir o leitor.

Rosário (2012), em tese de doutorado realizada acerca das construções correlatas aditivas, não só defende a correlação como um processo autônomo, mas reafirma o estatuto particular das correlatas aditivas em relação às coordenadas aditivas. O autor demonstra que aquelas são diferentes não só na forma, por apresentarem conectivos que vêm aos pares, mas por serem permeadas por uma interdependência que acarreta uma ligação mais forte entre as partes da construção.

(23)

O autor justifica a sua escolha, afirmando que, diante da necessidade de maior expressividade ou de um tipo de argumentação mais formal ou enfática, houve a necessidade de criação de um arranjo sintático formal diferente dos já tradicionais esquemas subordinativos ou coordenativos. Com isso, o autor chama a atenção para o diferencial pragmático das correlatas, demonstrando que essas construções são diferentes discursivamente, por apresentarem uma carga enfática que interfere nas relações discursivas. Vejamos os exemplos a seguir:

a. O menino trabalha ou estuda. b. O menino ou trabalha ou estuda.6

Os exemplos citados em (a) e (b), à primeira vista apresentam similaridade. No entanto, são construções diferentes: em (a), temos uma construção coordenada prototípica que estabelece a alternância entre duas cláusulas por meio do conector7 ou. Já em (b), temos uma construção correlata alternativa, com dois conectores, ou...ou estabelecendo também a noção de alternância. Veremos ao longo deste trabalho que essas construções apresentam diferenças que ultrapassam a forma. As duas construções servem a necessidades comunicativas diferentes.

De fato, veremos a seguir que, assim como constatado por Rosário (2012) em relação às aditivas, também aqui, a construção correlata alternativa apresenta, de fato, um conteúdo pragmático particular que certamente a faz diferente da coordenada alternativa, não só na forma, mas em sua função comunicativa.

Manna (1984, p. 31 e 180) apud Rosário (2012) concorda com os autores citados em relação à apresentação de características particulares da correlação, e assevera que algumas estruturas existentes na língua, definidas pelo autor como correlacionais, não se encaixam nos padrões descritos até o momento, ressaltando a presença da interdependência contida nas correlatas e sua função inerente no desencadeamento do termo seguinte:

6 Os exemplos a e b foram criados para explicitar, com melhor exatidão, o diferencial pragmático

existente entre correlação e coordenação altenativa.

7 Reconhecemos a divergência no tocante ao assunto, especialmente por conta das filiações teóricas a que

os conceitos estão ligados, mas, nesta dissertação, tomamos os termos conector e conectivo como sinônimos.

(24)

Nem todos os processos estruturais da língua podem ser reduzidos aos padrões descritos até agora. Há relações combinatórias que não se enquadram nem no tipo determinado/determinante [...] nem no tipo unidades ou conjugados independentes entre si. [...] Pode acontecer que os termos considerados se vinculem numa relação de interdependência para a expressão, no plano considerado. Ora, em tais casos, ter-se-á de admitir que o processo é distinto dos demais. Chamamos-lhe, portanto, valendo-nos de nomenclatura já consagrada, ‘estrutura correlacional’. [...] O padrão estrutural de que se cogita agora não responde a nenhuma de tais características (da subordinação e da coordenação), já que os seus constituintes, ou membros, são interdependentes, ou seja, a expressão de um deles desencadeia necessariamente o aparecimento do outro.

Pauliukonis (1995), apud Rodrigues (2007), em defesa da correlação como terceiro processo, salienta, assim como Oiticica, que a correlação está em nível diferente da coordenação e da subordinação e realça o teor argumentativo presente na correlação através de “termos indissociáveis”.

Assim como os últimos autores citados, Castilho (2010, p.387) concorda com a ideia de que a correlação também deve ser vista como um “terceiro processo de relações intersentenciais”. De acordo com o autor, a correlação é um relacionamento simultâneo formado por conjunções complexas que seriam resultantes de um processo de redobramento sintático.

Percebemos que os argumentos em defesa da correlação como um terceiro processo de estruturação sintática são bem fundamentados e convincentes. Neste trabalho, concordamos com, Rodrigues (2007), Castilho (2010) e Rosário (2012), dentre outros, e assumimos a posição de que a correlação é um processo autônomo em relação à coordenação e à subordinação.

Após a apresentação da visão de vários autores sobre o tema da correlação, podemos decidir pela adoção de um conceito para esse fenômeno. Assim, com base em Rosário (2012), entendemos por correlação uma “construção sintática prototipicamente composta por duas partes interdependentes e relacionadas entre si, encabeçadas por correlatores de tal sorte que a enunciação de uma (prótase) prepara a enunciação de outra (apódose).” Vejamos alguns tokens8 a seguir:

8 Tokens são instância de uso proferidas pelo falante em uma ocasião especial. De acordo com Traugott e

Troudale (2013), tokens são constructos empiricamente comprovados. É conhecido como o locus da mudança.

(25)

PRÓTASE APÓDOSE (2) Sabe-se que a capacidade de aceitação

pela sociedade de situações absurdas tem limites

ou a Argentina passa a

levar em consideração tal aspecto

ou não sai do lugar.

Revista Veja on-line, ed. 02/01/2013, pág. 26

PRÓTASE APÓDODE

(3) Musicalmente, o brega não cultiva nem a tradição, nem a modernidade.

Revista Veja on-line, ed. 01/01/2014, pág. 14

Verificamos no exemplo (2) que, na prótase Ou a Argentina passa a levar em consideração tal aspecto, cria-se uma expectativa para o que será explicitado pela apódose ou não sai do lugar. É como se a primeira oração servisse como elemento focalizador para anunciar o que será apresentado na segunda oração. No exemplo (3), verificamos que, assim como ocorre em (2), a prótase nem a tradição prepara a anunciação da apódose nem a modernidade. Prótase e apódose são, de fato, duas partes relacionadas entre si, intimamente ligadas uma à outra.

Uma vez definido o conceito e exemplificado o fenômeno, façamos um breve estudo da noção de alternância/disjunção.

1.1 A construção alternativa

Assim como ocorre com a correlação como um todo, observamos que há algumas divergências envolvendo a classificação das construções alternativas. Alguns autores como Castilho (2010), Módolo (2011) e Melo (1978), por exemplo, as classificam dentro do quadro das correlatas. Outros preferem sua classificação dentro das coordenadas. Essa discussão torna-se aparente na afirmativa de Câmara Jr, em obra organizada por Uchôa (2004, p.111):

Os adeptos da correlação, à força de explorar o conceito, chegaram à demonstração por absurdo de que ele é falso, quando criaram a ‘correlação alternativa’ como faz Gladstone Chaves de Melo atendendo a uma sugestão do jovem professor Maximiano de Carvalho. Assim, dois professores excelentes (e Gladstone Chaves de Melo é uma pessoa que muito admiro, como já frisei mais de uma vez) aboliram a coordenação alternativa com –‘ou...ou...’, ‘quer... quer...’ sob alegação de que uma oração de ‘ou’ ou ‘quer’ não se justifica sem

(26)

a outra. Mas isso é normal em toda coordenação: na adversativa, na explicativa, na conclusiva e até na aditiva, em que cada oração se compreende em função da anterior: ‘mas preguiçoso’, ‘preguiçoso pois’ e assim por diante não formam ‘sentido completo’. A ser válido o raciocínio dos dois dignos professores, não há coordenação, e em seu lugar teremos a correlação.

Discordamos da argumentação apresentada pelo autor supracitado em alguns aspectos. Considerar a existência de correlatas alternativas não necessariamente implica a abolição da coordenação alternativa, pois, como apresentamos neste trabalho, trata-se de construções diferentes.

Com respeito à inclusão das alternativas no campo das correlatas (em se tratando dos autores que admitem a existência da correlação), há quase um consenso. Vejamos, no quadro a seguir, como isso ocorrem em cinco obras distintas.

Quadro 4- Tipos de orações correlatas9

Melo (1978) Melo (1997) Luft (2000) Castilho (2004) Uchôa (2004) Aditivas Aditivas Aditivas Aditivas Aditivas Comparativas Comparativas Comparativas Comparativas Comparativas

Consecutivas Consecutivas Consecutivas Consecutivas Consecutivas Alternativas Alternativas Alternativas Alternativas _

_ _ Equiparativas10 _ _

Proporcionais _ _ _ _

_ _ _ Paralelísticas _

Verificamos, a partir do quadro anterior, que há consenso quanto às aditivas, comparativas e consecutivas, no entanto, os autores divergem em relação às equiparativas, proporcionais, paralelísticas e alternativas. Diante dessas divergências envolvendo a correlação, fica evidente a necessidade de mais estudos que contribuam para que a análise dos processos de estruturação sintática se torne mais estável.

9 Quadro extraído de Rosário (2012).

10 A correlação equiparativa, segundo Melo (1978), ocorre quando queremos estabelecer igualdade ou

equivalência para o segundo termo, que vem fechar um pensamento deixado em aberto ou em suspenso no primeiro termo.

(27)

Ademais, o fato de Uchôa (2004) não considerar as construções alternativas dentro do quadro da correlação revela-se como bastante intrigante. A nossa hipótese para isso está ligada à visão demonstrada pelo autor anteriormente. Como vimos, ele acredita que, ao considerar as alternativas dentro do quadro da correlação, a coordenação alternativa seria abolida.

Observamos que Uchôa (2004), ao defender sua posição de não concordância com a ideia de que a correlação e justaposição são processos que estejam no mesmo nível da coordenação e da correlação, vale-se, a todo momento, de questões referentes a dependência. No entanto, o autor desconsidera que a correlação apresenta outros aspectos, sendo a interdependência uma das mais marcantes.

A seguir, apresentamos uma breve pesquisa com relação ao tratamento dado à oração alternativa em algumas gramáticas, demonstrando que, muitas vezes, as definições são pautadas a partir de suas conjunções. Vejamos:

Quadro 5- Oração alternativa nas gramáticas

Oração alternativa

Melo (1978, p. 147)

As orações sindéticas tomam o nome da conjunção que as encabeça. Teremos, assim, coordenadas sindéticas, aditivas, alternativas, adversativas

conclusivas e explicativas. Rocha Lima

(1999, p. 260)

As orações coordenadas sindéticas recebem o nome das conjunções que as iniciam, classificando-se, portanto, em: aditivas, adversativas, alternativas,

conclusivas e explicativas.

Luft (2000, p. 51)

A coordenação entre as orações se faz por meio de umas das conjunções coordenativas, caso em que são sindéticas e recebem o nome da respectiva

conjunção. Alternativas: Lê ou escreves. Cunha

(2001, p. 597) Coordenada sindética alternativa, se a conjunção é alternativa.

Bechara (2003, p. 350)

São três as relações semânticas marcadas pelas conjunções coordenativas ou conectores: aditiva, adversativa e alternativa:

Estudas ou brincas Henriques

(2003, p. 97)

Alternativas- conjunção-base: ou

Exs: Nossa vista está embaraçada ou isso é neblina? Ora os políticos dizem uma coisa, ora dizem outra. Kury

(2003, p. 68)

Alternativas: As várias orações exprimem pensamentos que se alternam, ou se excluem.

(28)

Mateus et alii (2003, p. 591)

Os períodos coordenados podem estruturar-se por conjunções ou conectores:

Por conjunções: a) copulativa ou aditiva

b) disjuntivas ou alternativas (ou...ou; nem.. .nem; ora.. ora: quer... quer) Esta noite, ou vamos ao teatro, ou ao cinema

c) adversativas ou contrajuntivas. Castilho

(2010, p. 133)

Coordenação disjuntiva ou alternativa: essa coordenação é marcada pela conjunção ou. O que é dito para o primeiro termo não vale para o

segundo.

Fonte: a autora, 2016

Como observamos a partir do quadro anterior, as definições calcadas apenas nas conjunções não é didática, pois o leitor precisa ter um conhecimento prévio das conjunções alternativas para compreender o significado de coordenação alternativa. São definições circulares, portanto.

A opção pela definição das orações coordenadas a partir de suas conjunções é adotado pela maioria das gramáticas tradicionais. Notamos que apenas alguns autores como Castilho (2010) e Kury (2003) discutem o viés semântico dessa estrutura.

Visto que há essa forte associação (conjunções e orações), vejamos as definições de conjunções alternativas apresentadas por algumas obras, observando como tais gramáticas abordam essa questão. Igualmente importante é atentarmos para como os gramáticos apresentam os conectivos correlativos.

Quadro 6- Conjunções alternativas

Bechara (1999, p. 321)

Enlaçam as unidades coordenadas matizando-as de um valor alternativo, quer para exprimir a incompatibilidade dos conceitos envolvidos, quer para exprimir a equivalência deles.

Ou...ou, quer...quer. seja...seja, ora...ora Rocha Lima

(1999, p. 185)

As conjunções alternativas relacionam pensamentos que se excluem. O tipo é ou, que pode repetir-se, ou não, antes

de todos os elementos coordenados. ou...ou, ora...ora, seja...seja, quer...quer, já...já.

Cunha e cintra (2001, p.580)

As conjunções alternativas ligam dois termos ou orações de sentido distinto, indicando que, ao cumprir-se um fato, o outro

não se cumpre. São as conjunções ou (repetida ou não) e,

quando repetidas: ora...ora, quer...quer, etc.

Carvalho (2011, p. 365)

As conjunções alternativas justapõem pensamentos que se excluem: ou...ou...já...já, quer...quer, ora...ora, seja...seja.

Neves (2011, p. 593)

A conjunção coordenativa com ou marca disjunção ou alternância entre o elemento coordenado no qual ocorre e o

(29)

Verificamos, no quadro anterior, que algumas gramáticas referem-se às aqui chamadas correlatas alternativas como estruturas instanciadas por conjunções em repetição (ou conjunções duplicadas). Além disso, não fazem nenhuma referência específica à correlação, com exceção de Neves (2011), que cita a correlação com ou ao tratar da disjunção exclusiva.

Em relação aos correlatores, observamos que alguns abordados nessa pesquisa, como seja..ou, não são mencionados pelos autores citados, provavelmente por não serem canônicos, ou seja, esses pares são desconsiderados por não integrarem o padrão normativo da língua, apesar de seu uso corrente (como se verá na análise de dados). Apenas Bechara (1999) cita o correlator sejam..sejam, desconsiderando, no entanto, o uso de seja..ou. O autor, diferentemente dos outros aqui apresentados, não considera os correlatores seja...seja , quer...quer e ora...ora como conectores, apontando para uma nova divergência presente no estudo das construções alternativas . Observemos:

A numeração distributiva que matiza a ideia de alternância leva a que se empreguem neste significado advérbios como já, bem, ora (repetidos ou não) ou formas verbais imobilizadas como quer...quer, seja...seja. Tais unidades não são conectores e, por isso, as orações enlaçadas se devem considerar justapostas. (BECHARA, 1999, p. 321).

Como podemos observar, Bechara (1999) não considera as conjunções citadas acima como conectores, desprezando, assim, o processo de gramaticalização sofrido por essas conjunções. Com isso, neste aspecto, o autor ignora a evolução e a mudança da língua e o fato de que as palavras das quais as conjunções se originaram perderam características, adquirindo uma nova função. A seguir, trataremos mais detalhadamente dos correlatores quer...quer e seja...seja. Observaremos também como a correlação e a relação de disjunção são abordadas por outros gramáticos e linguistas mais modernos.

Carvalho (2011, p. 365) apresenta o correlator seja...seja como conjunção, no entanto, condena o uso da conjunção flexionada (do tipo sejam...sejam). Vejamos:

A conjunção seja, por ser conjunção é invariável. Está, portanto, corretíssima a seguinte passagem da coluna “coisas de política”, de Rosângela Bittar (Jornal do Brasil, 24-12-96): “Portanto ficam sem

(30)

fundamento as interpretações de recentes declarações do presidente sobre o plebiscito, seja as feitas a deputados (...), seja as expostas em entrevistas (...) A tendência do usuário da língua seria pôr no plural as duas ocorrências de seja (grifo nosso).

Notamos que Carvalho classifica como um “erro” o uso flexionado da conjunção seja...seja. No entanto, veremos no decorrer do nosso trabalho que encontramos em nosso corpus, que é representativo da língua padrão, alguns dados da conjunção seja flexionada. O autor condena também o uso de conjunções não-espelhadas11. Vejamos:

O falante é livre para escolher uma conjunção alternativa entre várias ao seu dispor. Uma vez escolhida, a conjunção deve manter-se a mesma até o fim do período composto. Evitem-se, portanto, construções como: “Ele sairá quer você queira ou não (queira)”. Ele ficou triste seja porque você o ofendeu, ou porque não gostou do que você disse” (Na primeira ocorrência, ou deve ser substituído por quer: quer não queira; na segunda ocorrência , ou deve ser substituído por seja: seja porque não gostou...Em ambos os casos, a correção visa manter um principio de paralelismo de construção).(CARVALHO 2011, p.365).

Percebemos que o autor, além de condenar o uso das conjunções não-espelhadas, afirma que estas devem ser substituídas pela conjunção equivalente para não “ferir” o paralelismo das construções, desconsiderando que a escolha do falante vai muito além do paralelismo formal envolvido no discurso.

Notamos, ainda, a partir do quadro anterior, que Rocha Lima (1999) e Cunha e Cintra (2001) apesentam uma noção equivocada de alternância, pois desconsideram o fato de que a alternância nem sempre indica exclusão, podendo indicar também inclusão, como veremos ao longo deste trabalho.

Mateus et alii (2003, p. 563) englobam a correlação dentro da coordenação e afirmam que a coordenação pode ser estabelecida por meio de conjunções simples ou correlativas:

As conjunções podem ocorrer isoladamente, como e, nem, ou ,mas. Podem, contudo exigir a presença de um correlato no primeiro

(31)

membro de coordenação. No primeiro caso, as estruturas de coordenação mobilizam uma conjunção simples; no último caso, locuções conjuncionais assumem a forma de uma expressão descontínua, as chamadas conjunções correlativas.

Pezatti e Longhin-Thomazi (2008, p.898), ao referir-se à relação de disjunção, afirmam que esta pode ser efetuada por meio da conjunção ou, simples e dupla. Essa obra, por ter como objetivo uma análise do português em uso, é uma das poucas que fazem referência à correlação instanciada por seja...ou. As autoras afirmam que esses correlatores, diferentemente do que “preveem as convenções normativas”, apresenta duas conjunções distintas para estabelecer a ligação de prótase e apódose:

A ocorrência de seja…seja manifesta , na realidade, uma forma de repetição do predicado verbal, que parece estar se gramaticalizando como conjunção e cuja associação com ou é frequentemente licenciada, com valor concessivo, como é possível verificar numa sentença como “Sejam os réus ricos ou pobres, a justiça tem que aplicar-se”.

Raposo et alii (2013, p. 1777) admitem existir dois tipos de coordenação: a coordenação simples e a correlativa, que pode ser feita “por duas conjunções ou locuções, cada uma delas introduzindo um dos termos (e a segunda articulando o primeiro com o segundo)”. Os autores ressaltam que os dois elementos que formam a coordenação correlativa são, na verdade, um só e devem ser considerados como uma única “conjunção de natureza complexa”. Com isso, os autores consideram dois tipos de conectores correlativos:

- Aquele em que cada parte do conector é formada por uma conjunção simples e o todo formado pelo seu redobro, como quer...quer, ou..ou, ora...ora, nem...nem.

- E o caso em que o conector é formado por um ou mais elementos de natureza adverbial, como não só...mas também, não só... como (também).

Percebe-se, por meio dos conectores apresentados, que Raposo et alii (2013) também não fazem referência a outros correlatores que serão mencionados neste trabalho como o seja...ou, por exemplo. Aliás, não apresentam qualquer característica que os encaixem nos dois tipos de conjunções apresentadas, já que não apresentam conjunções repetidas nem são de base adverbial.

(32)

Embora Raposo et alii (2013) não tenham enquadrado o correlator seja...seja junto aos outros mencionados, ele é citado pelos autores em nota de página. Afirmam os autores: “A forma verbal seja também pode ser usada como conjunção correlativa, como em seja o Antônio, seja o Manuel”.

Os autores destacam, ainda, a relação de interdependência estabelecida pelas conjunções correlativas, formando, assim, uma “unidade estrutural” em que nenhuma das partes pode ser omitida. (RAPOSO et alii 2003, p. 1778).

É importante ressaltarmos, no entanto, que essa gramática portuguesa prestigia o padrão culto da língua, por isso não menciona alguns correlatores encontrados em nossa pesquisa. Ressaltamos também que, embora os autores tenham mencionado a correlação, eles não a consideram como um fenômeno independente dos outros processos de estruturação do período.

Langacker (2008) afirma que a coordenação com ou, definida pelo autor como “combinação”, é mais elaborada e mais difícil de ser caracterizada, por exemplo, do que a combinação com e. O autor explica que, enquanto na combinação com e temos uma justaposição mental simples em que apenas uma imagem é invocada, na combinação com ou duas imagens são invocadas para que uma exclua a outra.

O autor ressalta que, apesar de a disjunção evocar dois espaços mentais, ambos são equivalentes. Assim sendo, a simetria se mantém, já que os conjuntos (sintagmas) participantes são gramaticalmente equivalentes e paralelos, assim como na adição. Entretanto, o autor chama a atenção para o fato de que a equivalência e a simetria COMPLETAS nunca podem ser alcançadas na prática e é justamente por isso, segundo Langacker (2008), que a coordenação com ou é comumente descrita como disjunção, e não conjunção. É importante ressaltarmos que o autor considera apenas a alternância exclusiva, e não a inclusiva.

Ramat e Mauri (2011), em trabalho sobre a gramaticalização da coordenação, trazem uma importante contribuição para uma melhor compreensão da relação disjuntiva. Os autores apontam que a disjunção é um dos principais tipos de relações presentes na coordenação, separando os tipos de relações coordenativas em dois grupos: a) conectivos conjuntivos e disjuntivos e b) conectivos adversativos.

De acordo com os autores, os conectores disjuntivos são menos gramaticalizados que os adversativos, por serem menos renováveis ao longo do tempo, ou seja, serem mais estáticos. Seriam mais estáticos no sentido de serem menos utilizados pelos usuários da língua do que os adversativos, por exemplo.

(33)

Outra razão apresentada para tal fato é que conectivos disjuntivos são caracterizados por um menor grau de intersubjetividade, que, por sua vez, determinam uma necessidade menos urgente de expressividade e renovação.

Feita a revisão da bibliografia, no capítulo seguinte, apresentamos os pressupostos teóricos que balizam a presente pesquisa.

2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

Este capítulo está dividido em quatro seções. Na primeira, apresentamos a Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) em linhas gerais. Na segunda seção, delineamos os pressupostos centrais da Gramática de Construções, que se revela como aporte teórico fundamental para essa pesquisa. Em seguida, tratamos de dois conceitos fundamentais para a compreensão de um dos aspectos do fenômeno que estamos investigando: a neoanálise e a analogização. Por fim, trataremos dos processos de construcionalização e mudanças construcionais, igualmente basilares para essa pesquisa.

2.1 A Linguística Funcional Centrada no Uso

Neste capítulo, apresentamos a base teórica central que norteia a análise das construções correlatas alternativas contempladas nesta pesquisa. A Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU) representa a união de pressupostos teórico-metodológicos da Linguística Funcional de vertente norte-americana nos modelos de Talmy Givón, Paul Hopper, Christian Lehmann, entre outros com a Linguística Cognitiva, na linha de Willian Croft, George Lakof, Adele Goldberg, entre outros.

A Linguística Funcional norte-americana ganha destaque na década de 70 e prioriza o contexto linguístico e a situação comunicativa na análise da estrutura da língua. Com isso, a língua passa a ser investigada em seus contextos efetivos de comunicação e como um instrumento de interação social. Nessa perspectiva, discurso e gramática tornam-se indissociáveis, ou seja, ambos interagem causando influência um

(34)

sobre o outro.

De acordo com Furtado da Cunha (2013, p. 9), na Linguística Funcional,

a sintaxe é compreendida como uma estrutura em constante mutação em consequência das vicissitudes do discurso, ao qual se molda. Ou seja, há uma forte vinculação entre discurso e gramática : a sintaxe tem a forma que tem em razão das estratégias de organização da informação empregadas pelos falantes no momento na interação discursiva.

Sendo assim, o falante reorganiza a gramática em função do uso e da sua necessidade comunicativa, ou seja, a gramática é afetada pelas experiências dos usuários com a língua.

A Linguística Cognitiva surge na década de 70, a partir dos trabalhos de George Lakoff e Charles Filmore como uma reação aos estudos de base gerativista, principalmente no que diz respeito à concepção tradicional do gerativismo, de que os humanos apresentam capacidades inatas específicas para aprender as línguas naturais.

De acordo com os cognitivistas, o estudo da linguagem não é independente de outras faculdades mentais. O comportamento linguístico é visto como reflexo de capacidades cognitivas, e a estrutura da linguagem é concebida como uma manifestação de capacidades cognitivas gerais, de princípios de categorização, de mecanismos de processamento e da experiência cultural, social e individual.

Ronald Langacker (1991) afirma que a gramática constitui um conjunto de princípios dinâmicos que se associam a rotinas cognitivas que são moldadas, mantidas e modificadas pelo uso. Com isso, a construção do significado é negociada pelo falante no discurso.

Sendo assim, nessa abordagem, as categorias linguísticas são calcadas na experiência social do indivíduo, ou seja, elas nascem a partir da experiência que o indivíduo adquire socialmente. Nesse sentido, as construções linguísticas são vistas como esquemas cognitivos relativamente automatizados comunicativamente.

Verificamos, dessa forma, que essas duas correntes compartilham vários pressupostos, os quais são assumidos pela LFCU:

Rejeição à autonomia da sintaxe e incorporação da semântica e da pragmática às análises; não distinção estrita entre léxico e sintaxe; relação estreita entre estruturas das línguas e o uso que os falantes fazem delas nos contextos reais de comunicação; entendimento de que

(35)

os dados para análise linguística são enunciados que ocorrem no discurso natural. (FURTADO DA CUNHA, 2012, p.29)

Observamos que, a partir dessa fusão, a gramática passa a ser concebida como uma representação da experiência dos indivíduos com a língua, considerando, ainda, que há padrões regulares de uso e formas emergentes ao mesmo tempo, ou seja, a estrutura da língua emerge à proporção de seu uso, e a gramática é compreendida como em constante adaptação em consequência do discurso.

De acordo com Furtado da Cunha (2012), pode-se dizer que a língua é vista como instrumento de comunicação não-autônomo e está submetida às pressões comunicativas do meio no qual se insere, ou seja, ao uso, o que é refletido diretamente sobre sua estrutura linguística. As aparentes instabilidades são motivadas e modeladas pelas práticas discursivas dos usuários da língua em seu cotidiano. Ainda de acordo com a autora, a LFCU procura explicar os fatos linguísticos levando em conta suas funções semântico-cognitivas e discursivo-pragmáticas.

Tomasello (1998, p. 15), apud Funtado da Cunha (2012) ressalta a importância que essa teoria confere à interação verbal:

De acordo com essa visão, as línguas são moldadas pela interação complexa de princípios cognitivos e interacionais que desempenham um papel crucial na mudança linguística, na aquisição e no uso da língua. Assim, a lingua(gem) constitui um mosaico complexo de atividades comunicativas, cognitivas e sociais estreitamente integradas a outros aspectos da psicologia humana.

Observa-se que a concepção de sintaxe adotada pela LFCU corresponde às noções de “gramática emergente” de Hopper (1987). O autor entende a gramática da língua como um estatuto que vai sendo negociado na fala e que não pode ser separado das estratégias de construção do discurso. Com isso, a gramática não pode ser vista como um produto acabado, mas em constante transformação, sendo compreendida, ainda, como esquemas simbólicos que são utilizados na produção do discurso, motivada não só por fatores comunicativos, mas também por fatores cognitivos.

Referências

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