I N F L U Ê N C I A DO E S T A D O N U T R I C I O N A L SOBRE A D U R A Ç Ã O DO CICLO E S T R A L D E R A T A S
Hisako Kajiyama * Leda Ulson Mattos * * Ivan Fernandes da Silva * * * Nelson Francisco Annunciato ****
Márcia Regina Marques * * * *
K A J I Y A M A , H . ; M A T T O S , L. U . ; S I L V A , I. h.; A N N U N C I A T O , N . F.; M A R Q U E S , M.R. Influência do estado nutricional sobre a duração do ciclo estral de ratas.
Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, / 6 ( 1 ) : 2 7 - 3 5 , 1982.
Os autores estudaram a duração do ciclo estral em dois grupos de ratas submetidas à desnutrição proteica provocada por uma dieta que continha 4% de
proteína, ad libitum, ou por uma dieta que continha 20% de proteína em quantidade
restrita, de maneira que os dois grupos tivessem em média o mesmo crescimento.
I N T R O D U Ç Ã O
As condições ou estímulos responsáveis pela aparição da menarca não são conhecidos, mas sabe-se que existem vários fatores que a afe-tam. Assim, qualquer condição ou desordem que provoque atraso na idade somática, retardará a menstruação. A s meninas cuja idade somá-tica está acima da idade cronológica, quer como resultado de precocidade sexual, quer simplesmente em conseqüêcia de sua maturidade precoce, menstruam mais cedo (BASTOS & T O U R I N H O , 1977).
A carência alimentar na infância e meninice poderá conduzir à insu-ficiência hipofisiária, acarretando uma série de problemas, que influem sobre o crescimento, maturação somática e sexual, prejudicando o eclodir normal da puberdade (BASTOS & T O U R I N H O , 1977).
Várias investigações têm demonstrado que, durante os últimos 70 anos, a menarca vem-se antecipando (BOAS, 1930; MICHELSON, 1944; F L U H M A N , 1956; T A N N E R , 1962) em decorrência de melhores con-dições alimentares.
A relação entre o peso corporal e a amenorréia primária e secun-dária tem sido abordada por vários autores. F R I S H & M c A R T H U R
* P r o f e s s o r A s s i s t e n t e d o D e p a r t a m e n t o d e E n f e r m a g e m M a t e r n o - I n f a n t i l e P s i q u i á t r i c a d a E s c o l a d e E n f e r m a g e m d a U S P — d i s c i p l i n a E n f e r m a g e m G i n e c o l ó g i c a , O b s t é t r i c a e N e o n a t a l . M e s t r e e m E n f e r m a g e m . ( E n f e r m e i r a e O b s t e t r i z ) .
* * P r o f e s s o r T i t u l a r d o D e p a r t a m e n t o d e E n f e r m a g e m M é d i c o C i r ú r g i c a d a E s c o l a d e E n -f e r m a g e m d a U S P — d i s c i p l i n a N u t r i ç ã o e D i e t é t i c a A p l i c a d a a E n -f e r m a g e m . V i c e - D i r e t o r d a E s c o l a d e E n f e r m a g e m d a U S P .
* * * M é d i c o A s s i s t e n t e d a C l í n i c a G i n e c o l ó g i c a d o H o s p i t a l d a s C l i n i c a s d a F a c u l d a d e d e M e d i c i n a d a U S P , n a é p o c a d a e l a b o r a ç ã o d o t r a b a l h o .
(1974) sugeriram que há um peso específico a ser atingido para que ocorra a menarca e um peso abaixo do qual aparece a amenorréia secun-dária. N o entanto, ainda não foi comprovado que o peso absoluto da mulher seja o fator determinante da amenorréia primária ou secundária. Para alguns autores, como K N U T H et alii (1977), G R A H A M et alii (1979) e W E N T Z (1980), mais importante do que o peso absoluto no aparecimento da amenorréia secundária é a perda de peso. K N U T H et alii (1977) diagnosticaram amenorréia secundária por perda de peso em 39 de 170 pacientes estudados.
W E N T Z (1980) postula que o início e a manutenção de ciclos mens-truais regulares depende da manutenção de um peso corporal específico em relação à altura, que aparentemente representa a gordura arma-zenada. Isto implica que uma determinada composição corporal pode ser importante na capacidade reprodutiva da mulher.
Não encontramos muitos trabalhos que correlacionem, em animais, dieta e duração do ciclo estral. E V A N S & BISHOP (1922) mostraram que a desnutrição induzida pela restrição alimentar interfere na ma-turidade sexual e na ovulação de ratas, tendo observado que há parada de ovulação quando a restrição é proteica.
GUILBERT & GOSS (1932) verificaram que ratas alimentadas com dieta adequada até 55 dias de idade, tendo já apresentado 2 ou 3 estros, quando submetidas a uma dieta que continha 7% de proteína perdiam 1 a 3 períodos de estro e quando passavam a receber 3,5% de proteína, 50% das ratas tinham períodos longos de estro ou não o atingiam.
A maioria dos trabalhos publicados referem-se ao desenvolvimento sexual de ratas recebendo dietas restritas em quantidade de alimento. Embora estes animais vivam mais tempo que os alimentados ad libitum
com dieta controle, permanecem sexualmente imaturos ( A S D E L L & CROWELL, 1935; K E N N E D Y & M I T R A , 1963). C A R R et alii (1949), estudando a vida reprodutiva de camondongas em uma dieta restrita em calorias, verificaram que há um aumento de vida e do período repro-dutivo; as fêmeas, normalmente estéreis com 11 ou 12 meses de idade, ainda eram férteis com a idade de 21 meses quando voltaram a receber dieta ad libitum, embora não conseguissem amamentar a prole.
A grande maioria dos estudos realizados são dirigidos no sentido de provocar a desnutrição por meio da restrição alimentar e verificar como esta afeta a maturidade sexual e a fertilidade dos animais. Con-tinuando nossos trabalhos ( M A T T O S et alii, 1979), nos propusemos a estudar a duração do ciclo estral de ratas submetidas a dietas hipo-protéicas, ministradas ad libitum, e de ratas com dietas que continham
20% de proteínas em quantidade restrita, de maneira que os 2 grupos cresçam com a mesma velocidade.
M A T E R I A L E MÉTODO
Material
Como animais de experiência foram utilizados 45 ratos (Rattus nor-vegicus, albinus, Wistar), fêmeas recém-desmamadas com 21 dias, cria-das no biotério da Escola de Enfermagem da USP.
A temperatura do biotério foi mantida entre 24 e 26° C e as luzes apagadas no período das 18 h às 7 h da manhã.
As dietas utilizadas foram calculadas a fornecerem 4%, 20% de proteína e 388, 381 calorias por 100 g de dieta, respectivamente.
A composição das dietas encontra-se no Quadro I.
QUADRO I
Composição percentual das dietas utilizadas.
Dietas
4% de 20% de Componentes proteína proteína
Caseína * 5,3 26,8
Mistura de sais minerais * * 3,2 3,2
Mistura de vitaminas * * * 1,6 1,6
óleo de algodão 6,0 6,0
óleo de fígado de bacalhau 1,6 1,6
Amido 62,3 40,8
Açúcar 20,0 20,0
* t e o r d a c a s e í n a 75,6%
Procedimentos experimentais
Os animais foram distribuídos aleatoriamente em 3 grupos: grupo controle ( A ) , grupo ( B ) e ( C ) .
Os animais dos grupos A e B receberam dietas que continham 20% e 4% de proteína respectivamente, ad libitum, e os do modelo C, dieta que continha 20% de proteína em quantidade restrita, de maneira que os animais deste grupo mantivessem a mesma velocidade de cres-cimento que os do grupo B.
O peso dos animais e o alimento ingerido foram registrados dia-riamente.
O dia da abertura da vagina e o peso do animal nesse dia, foram anotados.
Para determinar o início do 1* estro e a duração dos ciclos estrais foi colhido material vaginal diariamente, desde o dia da abertura da vagina até o 59 estro.
Técnica de colheita de material
O material vaginal foi colhido introduzindo na vagina da rata uma "escovinha" fina, de pêlo de algodão, utilizado para limpeza de ca-chimbo. O material colhido foi estendido levemente na lâmina, ante-riormente identificada com a letra do grupo, o número da rata, a data, e a lâmina colocada rapidamente no líquido fixador. O fixador é uma mistura de álcool etílico a 96% e éter, em partes iguais.
Para colorir as lâminas, utilizamos o método de SHORR ( R O -DRIGUES, 1954). Para determinar os estros, fez-se a leitura das lâmi-nas dos esfregaços vaginais corados, obedecendo ao esquema apresen-tado por N I C H O L A S (1949), que considera que o estro é atingido quando forem encontrados nos esfregaços células corneificadas. O esfregaço apresenta um aspecto limpo, com células isoladas, poligonais e anucleadas, de coloração vermelho-alaranjada.
Analise Estatística
Os dados obtidos foram analisados utilizando os testes de Student no nível de significancia de 1% e o de correlação simples (SOUNIS, 1972).
RESULTADOS E DISCUSSÃO A abertura da vagina e o l9
estro foram observados em 100% das ratas do grupo controle entre 27 e 33 dias de idade, coincidindo a abertura da vagina com o l9
N o grupo experimental B, a abertura da vagina ocorreu entre 71 e 126 dias (96,6 ± 23,4 dias) e o l ' estro, entre 71 e 141 dias (112,0 ± 22,6 dias), com uma diferença significativa, ao nível de 1%, de 15 dias entre os dois eventos (tabela 1 ) .
Nas ratas do grupo C, de restrição alimentar, a abetrura da vagina ocorreu em média com a idade de 45,7 ± 13,5 dias (variação entre 27 e 66 dias) e o 1?
estro com 108,8 ± 26,9 dias (variação entre 54 e 142 dias). A diferença entre a abertura da vagina e o l9
estro foi de 63,1 dias. Apesar de uma rata deste grupo ter atingido o lv
estro com 54 dias, as restantes só o atingiram com mais de 100 dias.
Entre as ratas do grupo B, três ( 3 ) morreram após o 3" estro, duas ( 2 ) após o primeiro e uma não atingiu estro até o dia em que as restantes atingiram o 49
estro (150 dias). Figura 1. A duração do ciclo estral, das ratas que tiveram 4 estros, variou de 5 a 14 dias (7,9 ± 3,1 dias), mais curtos e regulares do que as do grupo C de restrição alimentar, que variou de 7 a 22 dias (18,0 ± 8,4 dias) tabela 1 e figura 1. A média de duração do ciclo estral dos animais do grupo C foi signifi-cativamente diferente ao nível de 1% das dos animais do grupo-controle e grupo B.
T A B E L A 1 Idade das ratas no dia da abertura da vagina e l9
estro, e duração (dias) do lç
, 29
, 3Ç
e 4« ciclo estral.
Idade (dias) Duração do ciclo (dias)
G R U P O G R U P O
Abertura vagina 1» estro 1» ciclo 2» ciclo 3'
ciclo ciclo Média
A 30,0
± 2,6 30,3 ± 2,2 8,7 ± 2,7 5,4 ± 1,2 6,0 ± 1,5 6,7 ± 2,4 6,7 ± 1,9
B 96,6*
±23,4 112,0* ±22,6 8,2 ± 3,4 7,9 ± 2,1 8,2 ± 3,8 7,3 ± 3sl 7,9 ± 3,1
C 45,7*+
±13,5 108,8* ±26,6 22,0*+ ±11,5 18,9*+ ± 4,4 13,3*+ ± 7,0 18,1*+ ±10,5 18,0*+ ± 8,4
Grupo C
Grupo B
t
30 60 90
1 abtrtura da vagiria
-I » -I • « I T I I
120 150 180
. « estro + Borte do animal
F i g . 1 Idade doa anína is na época da abertura da va&i
na e dos 5 prims iros estros.
Grupo A
Os animais do grupo controle e grupo B ingeriram dieta ad libitum
e os do grupo C, em quantidade restrita. As ratas do grupo B inge-riram em média 7,4 gramas de alimento por dia e 0,3 g/dia de proteína e as do grupo C 4,2 g/dia de alimento e 0,85 g/dia de proteína, respec-tivamente 14 e 40% da proteína ingerida pelo grupo controle (2,1 g / d i a ) .
T A B E L A 2
Alimento ingerido, proteína ingerida e calorias consumidas pelos animais dos 3 grupos.
Alimento Proteína Calorias
G R U P O ingerido ingerida consumidas
g*/dia/rato g / d i a / r a t o cal./dia/rato
10,6 2,1 41,3
A
± 1,6 ± 0,3 ± 6,4
7,4* 0,3* 28,8*
B
± 0,2 x 0,03 ± 0,6
4,2* + 0,8* + 16,5* +
C
± 0,3 ± 0,06 ± 1,2
* P < 0,01 d o s g r u p o s B e C e m r e l a ç ã o a o g r u p o c o n t r o l e A + P < 0,01 d o g r u p o C e m r e l a ç ã o a o B
Os animais do grupo C, ingerindo pequena quantidade de alimento, ingeriram-no todo de uma só vez, ficando em jejum 24 horas. Este tipo de freqüência alimentar impõe ao animal um "stress", que o obriga a adaptar-se para sobreviver e a alterar o seu procedimento metabólico. ( L E V E I L L E & H A N S O N , 1965; L E V E I L L E & O'HEA, 1967; L E V E I L -LE, 1970).
Pode ser que a alteração no desenvolvimento sexual das ratas deste grupo, que apresentam ciclos estrais longos e irregulares, seja provo-cada não só pelo menor teor de proteína e caloria (60% restrita em relação ao controle) mas também pela freqüência alimentar que acar-reta um jejum prolongado.
CONCLUSŐES
1 — A abertura da vagina dos animais do grupo A (30 dias) e grupo C (45,7 dias) foi mais precoce do que a dos animais do grupo B
2 — A abertura da vagina e o l « estro coincidiu nos animais do grupo controle ( A ) , mas diferiu significativamente no grupo C, havendo ocorrido uma diferença de 63,1 dias entre os dois eventos. Já no grupo B a diferença foi de 15,4 dias, diferença não significativa ao nível de 1%.
3 — A duração dos ciclos estrais não diferiu significativamente entre as ratas dos grupos A e B, alimentadas ad libitum, embora com
dietas com teores diferentes de proteína. A duração dos ciclos estrais das ratas do grupo C diferiu significativamente dos gru-pos A e B.
K A J I Y A M A , H .: M A T T O S , L. U . ; S I L V A , I. F.; A N N U N C I A T O , N . F.; M A R Q U E S , M . R. T h e influence of nutrition on variation in length of estrous cycle in female rats. Rev. Esc. Enf. USP, São Paulo, / 6 ( 1 ) : 2 7 - 3 5 , 1982.
The present studies were performed to determine the variation in length of the estrous cycle of undernourished female rats. The two groups studied received 4%
and 8% protein diets, the first one group ad libitum and the second one controlled
in quantity> so that the animals of the two groups have the same growth rate.
R E F E R Ê N C I A S B I B L I O G R Á F I C A S
A S D E L L , S. A . & C R O W E L L , M . F . T h e e f f e c t o f r e t a r d e d g r o w t h u p o n t h e s e x u a l d e v e l o p -m e n t o f r a t s . J . N u t r . P h l a d e l p h i a 1 0 ( 1 ) : 1 3 - 2 4 , 1935.
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