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Revista
Brasileira
de
CIÊNCIAS
DO
ESPORTE
ARTIGO
ORIGINAL
Entre
a
composic
¸ão
e
a
tarefa:
estudo
de
caso
sobre
a
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¸ão
da
educac
¸ão
física
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¸o
de
saúde
mental
Luiz
Alberto
dos
Santos
Ferreira
a,
José
Geraldo
Soares
Damico
be
Alex
Branco
Fraga
c,∗aUniversidadedoValedoRiodosSinos(Unisinos),FaculdadedeEducac¸ãoFísica,CentrodeEsporteeLazer,SãoLeopoldo,RS,
Brasil
bUniversidadeFederaldoRioGrandedoSul(UFGRS),ProgramadePós-Graduac¸ãoemSaúdeColetiva,DepartamentodeEducac¸ão
Física,FisioterapiaeDanc¸a,PortoAlegre,RS,Brasil
cUniversidadeFederaldoRioGrandedoSul(UFGRS),ProgramadePós-Graduac¸ãoemCiênciasdoMovimentoHumano,
DepartamentodeEducac¸ãoFísica,FisioterapiaeDanc¸a,PortoAlegre,RS,Brasil
Recebidoem20deagostode2015;aceitoem5defevereirode2017 DisponívelnaInternetem13deabrilde2017
PALAVRAS-CHAVE
Saúdemental; Equipe
multiprofissional; Educac¸ãofísica; Estudodecaso
Resumo Estudodecasosobreoprocessodeinserc¸ãodostrabalhadoresdeeducac¸ãofísicano cotidianodeumaequipemultiprofissionaldesaúdemental.Ascategoriastarefeiroecompositor foramusadaspara analisar asposic¸ões queum trabalhadordeeducac¸ãofísica ocupanesse servic¸o.Aempiriafoiproduzidaapartirdeoitoentrevistassemiestruturadascomdiferentes profissionais deum centro de atenc¸ãopsicossocial. Asanálises indicaram queaposic¸ãoda educac¸ãofísicanaequipedependedatrajetóriadecadaumdosprofissionaisedomodocomo otrabalhadordeeducac¸ãofísicasecoloca.Concluímosqueotrabalhopautadopelacomposic¸ão favorecepráticasdecuidadoquepotencializamaintervenc¸ãoantimanicomialeavidado‘‘lado defora’’dosservic¸os.
©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´e umartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](A.B.Fraga). http://dx.doi.org/10.1016/j.rbce.2017.02.002
KEYWORDS
Mentalhealth; Multi-professional team;
PhysicalEducation; Casestudy
Betweenthecompositionandthetask:acasestudyontheinclusionofPhysical Edu-cationinamentalhealthservice
Abstract ThisisacasestudyontheprocessofintegrationofPhysicalEducationworkersinthe contextofamulti-professionalmentalhealthteam.Thecategories‘‘doer’’and‘‘composer’’ wereusedtoanalyzethepositionsthataPhysicalEducationworkeroccupiesinthisservice.The empiricism wasproduced fromeightsemi-structuredinterviewswith differentprofessionals inaPsychosocial CareCenter. Analysisindicated thattheposition ofPhysical Education on theteamdependsonthetrajectoryofeachprofessionalandthewaythePhysicalEducation workerestablisheshimself/herself.Weconcludethattheworkruledbycompositionfavorscare practicesthatenhancetheanti-asyluminterventionandthelife‘‘outside’’theservices. ©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublishedbyElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
PALABRASCLAVE
SaludMental; Equipo
multiprofesional; EducaciónFísica; Estudiodecaso
Entre la composisiónyla tarea: estudiodecaso sobrela insercióndelaeducación físicaenunserviciodesaludmental
Resumen Setratadeunestudiodecasosobreelprocesodeinsercióndetrabajadoresde educaciónfísica eneltrabajocotidiano deunequipo multiprofesional desaludmental.Se utilizaron lascategorías del«emprendedor»y el«compositor»paraanalizar lospuestosque
untrabajadordeeducaciónfísicaocupaeneseservicio.Laprácticaempíricasellevóacabo conocho(8)entrevistassemiestructuradascondiferentesprofesionalesdeuncentrode aten-ciónpsicosocial.Losanálisisindicaronqueellugarqueocupalaeducaciónfísicaenelequipo dependedelatrayectoriadecadaunodelosprofesionalesydelmodoenqueeltrabajadorde educaciónfísicaseposiciona.Concluimosqueeltrabajodesarrolladoapartirdeesta composi-ciónfavoreceprácticasdecuidadoquepotencializanlaintervenciónantimanicomialylavida del«ladoexterno»delosservicios.
©2017Col´egioBrasileirodeCiˆenciasdoEsporte.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Estees unart´ıculoOpenAccessbajolalicenciaCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
Otrabalhoemequipemultiprofissionalétidocomoum prin-cípioorientador e organizadordo cuidadonos servic¸osde saúdee,nesse sentido,fundamentalna definic¸ãodas for-masdeagircoletivamentesobreo processosaúde-doenc¸a dapopulac¸ão.Cabesalientarqueaconfigurac¸ão das tipo-logias e finalidades, os modelosde organizac¸ão e do agir dasequipesemsaúde,têmsetornadoobjetodeestudoe discussãoparamuitosautores (Peduzzi,2000,2001; Silva, 2004,Ceccim,2004,CardosoeHennington,2011,Furtado etal.,2015),principalmentenoqueserefereaosproblemas elimitesdacomplexarelac¸ãoentreasac¸õeseàinterac¸ão entreosparticipantesdasequipesdesaúdenocotidianodo trabalho.
Partindo de nossasexperiências anteriores em servic¸os de saúde, observamos que os desafios a serem supera-dos são muitos: hegemonia da racionalidade biomédica, queconstituieimplicahierarquizac¸õesdesaberes/fazeres; múltiplasrepresentac¸õesdosignificadosocialdecada pro-fissão,demandas encomendadasconformeo fazertécnico instrumentaldosprofissionaisdasaúde,desvalorizac¸ãodos aspectoséticoseestéticosdaprópriaexperiênciaedo pro-cessohistóricodaconstruc¸ãodossaberesefazeresdecada profissão.
No campo da saúde mental tais desafios ganham um contorno específico, pois a construc¸ão de um modelo assistencial em saúde proposto pela reforma psiquiátrica brasileira, pautado pela atenc¸ão integral aos sujeitos em sofrimento,exigedostrabalhadoresemgeraledaeducac¸ão física em especial um compromisso ético e político, principalmente em termos de enfrentamento das lógicas medicalizantesehospitalocêntricasque barramavanc¸ose alimentam retrocessos como a internac¸ão compulsória, a reduc¸ão do investimento em equipamentos e dispositivos substitutivosea ampliac¸ãode recursosparacomunidades terapêuticasdecunhoreligioso.
Paracontribuirdemodocircunstancialparao enfrenta-mentodessesdesafios,nospropomosaanalisarnesteartigo osprocessosdetrabalhoemequipedeumservic¸odesaúde mental,maisespecificamentecomoaequipeanalisao pro-cessodeincorporac¸ãodostrabalhadoresdeeducac¸ãofísica nocotidianodetrabalhoemumCentrodeAtenc¸ão Psicos-socialÁlcooleDrogas(CapsAd)naRegiãoMetropolitanado RioGrandedoSul.
ocasionaiseacomposic¸ãodeafazerescoletivosinspirados nasingularidadedasdemandasdosusuários(Peduzzi,2001). Énodiaadia dosservic¸osdesaúdementalqueos traba-lhadoressãoconstantementeconvidadosairaoencontrodo inusitado,asedeixaremafetarpelossaberesconstruídosno cotidianodoatodocuidadoemsaúde,airalémdasamarras daformac¸ãoinicialespecializadaeacomporcomosdemais trabalhadores,aconstruirnovaspossibilidadesdetrabalho pautadasnasdemandasenegociac¸õescomoterritório.
Deummodogeral,partimosdopressupostoqueo pro-cessodeinserc¸ãodostrabalhadoresdeeducac¸ãofísicaem equipesmultiprofissionaisdesaúdementalsedáapartirde umaduplanoc¸ãosobreosmodosde estarem equipe:(1) modotarefeiro, que secaracteriza porumtipode saber--fazerquetendeasefixarnaexecuc¸ãodetarefasocasionais maisarticuladascomasdemandastradicionaisoriundasda formac¸ão profissional do núcleo; e (2) modo compositor, caracterizadoporumarelac¸ãodeinterac¸ãoprofissionalque ultrapassaoslimitesdisciplinaresdaformac¸ãoinicial,visaa operarcomsaberesepráticaspredominantemente centra-dasnasdemandasdousuáriodoservic¸odesaúde.
Afimdedarcontadosobjetivostrac¸ados,oartigoestá organizadodoseguintemodo:umaprimeirasec¸ãoemque apresentamos as noc¸ões de campo e núcleo,cuidado em saúde, cuidado psicossocial e trabalho em equipe. Uma segundasec¸ão na qualdescrevemosasprincipais escolhas metodológicaseinformac¸õessobreocampodepesquisa.E umaterceirasec¸ãonaqualaempiriaétrazidaàtonapara sustentarodesenvolvimentodaparteanalítica.Porúltimo, apresentamosasconsiderac¸õesfinaisacercadoestudo.
Saberes
e
afazeres
em
saúde
mental
coletiva
Para localizar o escopo da discussão deste artigo é fun-damental apresentar os conceitos de campo e núcleo formuladosporGastãoWagnerdeSouzaCampos(2000).Para esseautor,campoéumespac¸odeatuac¸ãomaisabrangente, sem limites precisos, e núcleo demarca um determinado saberoupráticaprofissionaldentrodessecampo.Ambosos conceitosajudama posicionarosafazeresprofissionais na produc¸ãodocuidadoemsaúdeemduasdimensões articula-dasentresi,masnãofechadasemdoispolosestanques.
Neste texto, tratamos como campo a saúde mental e como núcleo a educac¸ão física, pois pretendemos esta-belecer uma maior aproximac¸ão entre um e outro para tentar dialogar com a realidade concreta do trabalhador de educac¸ão física na saúde mental. No que se refere à educac¸ãofísica,entendemoscomonúcleoseuacúmulo his-tórico,especialmenteasmanifestac¸õesdaculturacorporal demovimentoe osdiversosconhecimentosaelas associa-dos.Ecomocampoossaberesepráticasemsaúdemental, taiscomoasoficinasemgruposterapêuticos,escutas, aco-lhimento,gestãoerelac¸õesmultiprofissionais,entreoutras possibilidades.Osconceitosdecampoenúcleoformamuma primeira camada de entendimento sobre a complexidade queenvolveoprocessodecomposic¸ãodossaberesem equi-pesmultiprofissionais,portanto,sãofundamentaisparauma primeiramovimentac¸ãoanalíticanestetrabalho.
Outro conceito demarcador no processo de operacionalizac¸ão da análise da pesquisa é o de cui-dadoem saúde,queimplica pensaro trabalhoemequipe
dentrodeumalógicamaisabrangente,quedemanda inves-timentocoletivointegradodosdiferentessaberesefazeres em saúde, e nãoapenas omanejo segmentado de proce-dimentose técnicascentradosna‘‘purgac¸ão’’dadoenc¸a. Essemododeentenderoprocessosaúde-doenc¸acomec¸aa sedesenharcomaemergênciadamedicinacomunitáriana décadade1960eseexpandecomaampliac¸ãodaatenc¸ão àsaúdenadécadade1970,levaàinovac¸ãodosprocessos de trabalho e ao desenvolvimento de novos dispositivos (Nunes, 2006). Trata-se de um movimento que inspira propostas de produc¸ão de cuidado e impulsiona projetos inovadoresdeformac¸ãodostrabalhadoresemsaúde(Fraga etal.,2012;Capozzoloet.al.,2013),centradosmuitomais noatodeconstruirocuidadodiretamentenoterritóriodo que apenas reproduzir técnicas, independentemente do sujeitoparaoqualsãodestinadas.
RoseniPinheiro(2008,p. 110),porsuavez,afirma que cuidado ‘‘é um modo de fazer na vida cotidiana, que se caracterizapelaatenc¸ão,responsabilidade,zeloedesvelo, compessoasecoisas,emlugaresetemposdistintosdesua realizac¸ão’’.A autoratambémdestaca que o cuidadoem saúdenãoéapenasaatenc¸ãodosistemadesaúdeouum procedimentotécnicoemsaúde,massimumaac¸ãointegral queremeteacompreensãodasaúdecomo‘‘direitodeser’’, poiscuidaremsaúdeérespeitaradiferenc¸a,asingularidade dosujeito,torná-loagentedoseuprópriocuidadoaponto deelemesmotercondic¸õesdeescolherquais dispositivos queracessar.
Taismudanc¸as nosmodosdeverelidarcomo cuidado impactaramosmaisdiferentesrecantosdocampodasaúde, fizeramemergirumnovorepertórioconceitualparaa com-preensão dessa rede cada vez mais extensa e complexa (Carvalho,2007).Entraramemcenaoutrasformasdecuidar, taiscomoescutas,oficinaseoutraspropostasterapêuticas maisespecíficasquedizemrespeitoaac¸õesmateriaise ima-teriaisdosprocessosdetrabalhoemsaúde,nãocentradas emequipamentosoumaquinarias,massimnasingularidade dossujeitos(Schraiberetal.,2006).
Entreasdimensõesdocuidadopsicossocialqueganharam centralidade no campo da saúde mental coletiva pós--reforma psiquiátrica, e que pauta nossos interesses de estudo, está o contexto da vida dos sujeitos, suas redes deinterac¸ão,seusvínculoscomunitáriosnumdado territó-rio.Énoterritório,espac¸osocialdeconstruc¸ãodesaúdee constituic¸ãodacidadania,queaspessoasvivem,celebram seusencontros.Por isso,é elementofundamental parase pensare produzirdiferentesmodosdecuidado (Mendese Donato,2003).
Aoperabilidadedaatenc¸ãoemumCapsAd,talcomo pre-conizaocuidadopsicossocial,dependedeumethosacerca dessaproduc¸ão,ouseja,omodocomoessecuidadoé cons-truídoemtermosdeumaequipemultiprofissional.Trata-se, emúltimainstância,dodesenvolvimentoereflexãoacerca docenáriodeencontrosentretrabalhadoreseusuáriosea disponibilidadeparafazeracomposic¸ãoemrede,de cuida-dosdesiedecuidadosparacomooutro.
agrupamento’’. Ambas são equipes que se caracterizam pela multiprofissionalidade,mas a primeira ‘‘seconfigura narelac¸ãorecíprocaentreasmúltiplasintervenc¸ões técni-caseaintervenc¸ãodediversosagentesdediferentesáreas profissionais’’(Peduzzi,2001,p.108).Naequipeintegrac¸ão sãofeitosprojetosassistenciaiscomunsetrabalhocoletivo pautado na composic¸ãode saberes nummesmo horizonte ético.Jáaequipeagrupamentofuncionanumaperspectiva técnicaindividual,naqualcadamembrodocoletivo desen-volvesuatarefacompoucacomunicac¸ãointernanoprocesso detrabalho,caracteriza-seumemaranhadodesaberescom poucarelac¸ãoentresi.
Essa formulac¸ão de Peduzzi nos auxilia a enlac¸ar a ideiadotrabalhadordeeducac¸ãofísicacompositor(equipe integrac¸ão)emrelac¸ãoaotarefeiro(equipeagrupamento) noâmbitodasaúdemental, maisespecificamenteno con-textodeumCapsAdnaRegiãoMetropolitanadoRioGrande doSul.
Características
metodológicas
do
estudo
Por se tratar de uma investigac¸ão sobre o processo de inserc¸ão deumatrabalhadorade educac¸ão físicano coti-diano de uma equipe multiprofissional de um Caps Ad específico,usamoscomoferramentametodológicaoestudo decasodecaráterqualitativo.ParaAlves-Mazzotti(2006,p. 650),oestudodecasotratapredominantementedetemas contemporâneoseemergentes,caracteriza-secomo‘‘uma investigac¸ão de uma unidade específica, situada em um contexto, selecionada segundocritérios pré-determinados eusandomúltiplasfontesdedados,quesepropõea ofere-cerumavisãoholísticadofenômenoestudado’’.Namesma linha,RosaneMolina(2004,p.104)afirmaqueumestudode casoganhaconsistênciaquandopensadocomo‘‘ummundo ondemuitoscasossesintamrepresentados’’.
Julgamos que a equipe de trabalho do Caps Ad se encaixavanessascaracterísticasemfunc¸ãodoseguinte con-texto:todosostrabalhadoresdenívelsuperiordessaequipe haviamfeitoresidênciaemsaúdementalcoletivaem dife-rentesinstituic¸õesformadoras;oCapsAdestudadoerauma forte referênciacomo cenáriode práticaparaosestágios nasresidênciasmultiprofissionais;tantoqueoseditaispara ingressovia concursoexigiamdosprofissionais talnívelde formac¸ão;atrabalhadoradeeducac¸ãofísica,alémdo vín-culoprofissionalexclusivocomoreferidoCapsAd,àépoca das entrevistas também coordenava a equipe; e o grupo detrabalhadores que participou dosestudosatuava junto naquelemesmoservic¸ohaviatrêsanos.
Paradarmaterialidadeàproduc¸ãoempíricadoestudode caso,usamosaentrevistasemiestruturada.Oroteirode per-guntasestavacentradonosprocessosdetrabalhocoletivono Caps,comespecialatenc¸ãoparaaespecificidadedonúcleo educac¸ão físicanessa relac¸ão. Apenasuma dasperguntas desse roteiro foi elaborada e enderec¸ada exclusivamente paraatrabalhadoradeeducac¸ãofísica.
Oito trabalhadoresdaequipeforamentrevistados:dois técnicos de enfermagem (apenas esses profissionais, um homem e uma mulher, foram entrevistados em dupla por indicac¸ão do servic¸o), dois psicólogos (um homem e uma mulher),umaterapeutaocupacional,umaenfermeira,uma médicapsiquiatraeatrabalhadoradeeducac¸ãofísica.
Asentrevistasforamfeitasem diasalternados aolongo deduassemanase ocorreramem locale turnosdistintos, em salas reservadas, de acordo com o combinado com a coordenadoradaequipee adisponibilidade doservic¸o no momento.Aequipesecolocouàdisposic¸ãoparaapenasuma rodadadeentrevista,algoquefoirespeitadodurantetodo oprocesso.
Salientamos, por fim, que o estudo a partir do qual o presenteartigofoielaboradoobteveaprovac¸ãodoComitê deÉticaemPesquisadaUFRGS,constanaPlataformaBrasil soboCAAEn◦ 14149613.8.0000.5347.
Entre
expectativas
e
demandas
para
a
educac
¸ão
física
Asexpectativas em relac¸ãoà participac¸ãodo trabalhador deeducac¸ãofísicanasequipesdesaúdementalsãomuitas: conduc¸ão de oficinas e grupos terapêuticosque envolvam diferentesmanifestac¸õesdaculturacorporaldemovimento (ginástica,esporte,lutas,danc¸aetc.),acolhimentodenovos usuários,o exercício dafunc¸ão detécnico de referência, feituradeatendimentosindividuais,planejamento atendi-mentoemrede,participac¸ãoemconselhoseassembleiasno territórioentreoutras.
Apesardeaequipecolaboradoradapesquisater experi-ência com o trabalho multiprofissional,e a coordenadora geral da equipe ser formada em educac¸ão física, as representac¸ões sobre as possibilidades de atuac¸ão de um trabalhadordessenúcleonaqueleCapsAd,pelomenosem umprimeiromomento,estavammaiscapturadaspelalógica dereproduc¸ãodedemandaspré-estabelecidas.As expecta-tivasem relac¸ãoaosafazeres daeducac¸ão físicaestavam maisvinculadasaoquesepresumiaseratribuic¸ãoexclusiva donúcleo,comoépossívelpercebernafalaaseguir:
Ofazerespecíficodaeducac¸ãofísicamesmo:exercícios, bola.Eutinhaessavisãoassim[...]achavaqueessaera
acontribuic¸ãodaeducac¸ãofísica(Psicóloga).
Aprópriatrabalhadoradeeducac¸ão físicaentrevistada contaqueaochegarnoCapsAd‘‘herdou’’umaoficina con-duzidapeloseuantecessordenúcleo,poisnoentenderda equipesetratavadeuma‘‘passagemdebastão’’:
Quandoeuchegueieurecebiumademanda,ogrupode adolescentes é teu: já que era o educador físico que fazia, então tem uma oficina deatividade, nemnome ela tinha, que fazia atividade física com eles. Só que aíaequipefoimudandoeagentefoiconstruindouma outraforma(Trabalhadoradeeducac¸ãofísica).
Já a técnicade enfermagemcomenta que suas expec-tativas em relac¸ão à educac¸ão física, antes de ter a oportunidadedecontar comumtrabalhador dessenúcleo na equipe, estavam centradas em um perfil de formac¸ão voltadopara umcampodeatuac¸ão que considerava mais bemdelimitado:
coordenadospormédicoeenfermeiros,atéminha enfer-meiraestásobresupervisãodela,todomundoestásobre supervisãodela(Técnicadeenfermagem).
Osexcertosacimaindicamquesoavaestranhoum traba-lhadordeeducac¸ãofísicaseenvolvercomtarefasquenão fossemaquelastidascomoespecíficasdasuaárea, especi-almenteocuparolugardecoordenac¸ãodeumaequipeem umservic¸odesaúdecomooCapsAd.
Frequentementeostrabalhadoresdeeducac¸ãofísicase deparam nos servic¸os de saúde mental com um conjunto dedemandaspré-concebidas,ancoradasemrepresentac¸ões históricas sobre saberes e afazeres que deveriam lhe ser pertinentes.Apesar denãotermospresenciado algonessa linhanoCapsAdestudado,nãoédifícilencontrarservic¸os desaúdequemontam, apriori, oficinasde futeboloude danc¸asemteremsidodemandadaspelosusuáriosdoservic¸o. Issopodefazercomque otrabalhador deeducac¸ãofísica seja, logo no primeiro contato e mesmo contra sua von-tade,posicionadonafunc¸ãodeumexecutordetarefasque desempenhaumafunc¸ãodesconectadadacomplexidadedo cuidadopsicossocial.
Quandoasexpectativasdosoutrosnúcleosprofissionais sãotransformadasemencomendasmuitoeventuais,coma consequenteorganizac¸ãodoprocessodetrabalhoapartirde tarefaspreviamentedefinidas,muitasvezesos trabalhado-resdaeducac¸ãofísicaacabamafastadosderotinascoletivas dentrodasequipes,taiscomovisitasdomiciliares,discussão decasoseelaborac¸ãodeprojetoterapêutico, jáqueboa partedesuacargahoráriaficacomprometidacomo desen-volvimentodeoficinasligadasaoqueseconsideratradic¸ão donúcleo.
Apesar denão ter sido diretamente mencionada pelos trabalhadores entrevistados, outra forma de posicionar a educac¸ãofísicaquefavorecealógicatarefeiraéaalocac¸ão dostrabalhadoresdessenúcleoemdiversosservic¸osdentro deummesmocontrato detrabalho. Porexemplo, em um turnocumprepartedacargahoráriaeconduzuma determi-nadaoficinanoCaps‘‘X’’enooutroturnodesenvolveuma oficinadefutebolnoCaps‘‘Y’’.
Talsituac¸ão,àprimeiravista, podeparecerpouco pro-blemática,afinaldecontasessetipodetarefadizrespeito asuaformac¸ãoinicialeosusuáriossebeneficiamdas ati-vidades oferecidas,das quais geralmente gostam. Porém, desdobraracargahoráriaem diversoslocaiseem territó-riosdiferentesacabapordiminuirovínculodotrabalhador dessenúcleocomequipeseusuáriosdosservic¸os,dificulta suacapacidadedecomposic¸ãoemumdeterminadocenário deprática.
Éimportantefrisarqueotrabalhoemcomposic¸ãoexige umconjuntodehabilidadesgrupaiseinterpessoaisquevai além das fronteiras disciplinares e profissionais. As mais importantestalvezsejamaconfianc¸aentreosmembrosda equipe,oentendimentodequeaconstituic¸ãoderedesna comunidadeéumatarefacoletivaedequeaescutado usuá-rioemsuasingularidadeécondic¸ãobásicanaproduc¸ãodo cuidado.Essashabilidadestransversaisaocampodasaúde sósãoadquiridasem meioaumárduotrabalhoartesanal, quetomaoimprovisoe acriatividadecomopotênciasdos diferentesmodosdecuidar.
Apesardeatéaquitermosdesenvolvidoargumentos no sentidodedarvisibilidadeaummododeotrabalhadorde
educac¸ãofísicaseposicionar(ouserposicionado)naequipe, ora mais na linha do ‘‘compositor’’ e ora mais na linha do‘‘tarefeiro’’,nãoacreditamosqueessasposic¸õessejam estanques,estáveisouimutáveis.Atodoinstanteos traba-lhadoresdaeducac¸ãofísicanasaúde,assimcomoosdemais núcleosprofissionais,transitamentrelugaresquetantolhe demandamcomposic¸ãoquantoexecuc¸ãodetarefas.Eisso emsinãoéumproblema,desdequehajaacordoentreos coletivosdetrabalhoeosatoresenvolvidosnoprocesso sai-bamqueaposic¸ãoqueocupaméprovisóriaeoutrosarranjos sãosemprepossíveis.
Osespac¸osde troca entre trabalhadores dediferentes núcleossãoextremamentepotentesparaacomposic¸ãoda equipe,poiséaliqueoapoiomútuoseefetiva,éaliquese afirmam processosefetivamente coletivosdetrabalho.Na perspectivadoparticipantepsicólogo,
osprocessosdetrabalhodeumpsicólogosãobem pareci-doscomosdosdemaismembrosdaequipe,nocampoda saúdementalosnúcleossedesfazemmuitofácil,agente acabaseaproximandonomundodosfazeres(Psicólogo).
Nocampo dasaúde mental muitas vezes asdemandas fazemcomqueasfronteirasdossaberesdosnúcleossejam ‘‘rasuradas’’pelosafazeresmultiprofissionaiseelas convo-camostrabalhadores àconstruc¸ãodesaberes relativosao campo.Nessamesmalinha, paraaparticipanteterapeuta ocupacionalosafazeresse‘‘misturam’’quandooprocesso detrabalhoécoletivo:
Omeuprocessodetrabalhonãoésómeu,digamosassim, agentetrabalhaemequipe,entãotemmuitacoisaque eufac¸oquemeuscolegastambémfazem,éumprocesso coletivo,agentetentadecidirtodosjuntoscomoéque vaisedaresse processo,nahora datarefaprescrita e datarefareal.Eaíqueeuentro,comminhaformade executaratarefa(Terapeutaocupacional).
Aparticipantepsiquiatracorroboraafalaacimae acres-centa que os fazeres se misturam a tal ponto que não dependemmaisdeumnúcleoespecíficoparapoder aconte-cer.
Não é um trabalho no qual cada um faz o seu traba-lho separadamente, acho que a gente conseguiu uma boacombinac¸ão,nãoédemagogia.Nãoéparaparecer bonitinho.Euachoqueaequipepodeprescindirdeum profissionalqueorestovaidarconta,nãoprecisadeum médicoparaqueacoisafuncione,nãoprecisatera pro-fessoradeeducac¸ãofísicaparaqueacoisafuncione,não precisaterenfermeira.Temumentrosamentonesse sen-tido.Alémdaspolíticas,dependemuitodaspessoasque estãotrabalhando,queestãointeragindo(Psiquiatra).
Percebe-se que há uma maior abertura ao trabalho de campo na equipe, isso não significa negar os saberes específicos de uma determinada área de conhecimento, especialmente quando os usuários demandam temas con-siderados clássicos de um determinado núcleo. Como mencionaatrabalhadoradaeducac¸ãofísicaparticipanteda pesquisa:
pessoa éque tu aprendes a estabelecerasrelac¸ões lá fora[...]comoéqueeleestabeleceredeláfora,vaiser
nosespac¸osdelazer,vaiserpensar,eutrabalhomuito isso,oquetufazesláforadebom,pensandonousuário dedrogas,oquetemdelazer,ousodadrogaasvezeséo únicolazerqueelestêm,eentãooquetemdebom;que outrascoisaseupossofazerquetambémmedêprazer, senãotuavidaficavazia.Entãoeuvejoquetem práti-casquetêmumsignificadopessoaldevidaparaaquelas pessoas,quenãoseja,aíelevaidizersevaiseresporte, caminhada,grupodeconvivência,aívaiseroquecada umtem(Trabalhadoradeeducac¸ãofísica).
Aousaraexpressão‘‘relac¸õesdofora’’acolaboradora acabaporsintetizarummododeincorporarossaberesdo núcleo, no caso aqui da educac¸ão física, dentro de uma perspectivadecuidadoqueprocura conectaro usuárioao ‘‘mundodavida’’,comtudoqueocorreforadoservic¸o, pro-cura levarousuário a percorrernovoscaminhose, assim, encontrarsentidonessetrânsitopelacidade.Pautaro tra-balho nas ‘‘relac¸ões do fora’’ é um modo de colocar a atenc¸ãoemmovimento,paraalémdosmurosdeumadada instituic¸ãoterapêutica,nocasoaquioCapsAd,rumoao res-tabelecimentodoslac¸osdeconvivênciaemespac¸oaberto.
Aodizeremseguidaquenãoconsegueverotrabalhador deeducac¸ãofísicadoCapsAd‘‘comoalguémquevaifazer atividadee seencerrar em si’’,a colaboradoraressalta a importânciadeseevitar introduzirpráticasdenúcleoque reforcem a ideia do Caps como um ‘‘minicômio’’. Certa-mente haveráanecessidadedeseorganizarboaparte do trabalho com os usuários dentro da estrutura doservic¸o, issonãohádúvida,masésempreimportantebuscar cons-truirumplanoterapêuticosingularqueestejavoltadopara ressignificac¸ão das relac¸ões no território, lá onde a vida acontece(MendeseDonato,2003).
Percorrer comousuário oscaminhosdacidade, poten-cializaraconexãocomaculturalocal,aautonomianoseu cuidado,orestabelecimentodedireitossociaisehumanos, incentivarcriac¸ão de novosarranjos deredes de cuidado e sociais, são alguns dos objetivos gerais de um projeto terapêuticosingularem umCapsAdqueforammuitobem sintetizadosnaexpressão‘‘pensarasrelac¸õesdofora’’, pro-ferida pela trabalhadorade educac¸ão físicaentrevistada. Agir nessa direc¸ão é uma das formas, entre tantas,de o núcleodeeducac¸ãofísicaaportarsaberesecomporcomo campodasaúdemental(Damico,2007).
Considerac
¸ões
finais
Quandoescolhemosestudaroprocessodeinserc¸ãodeuma trabalhadora deeducac¸ão física na equipe multiprofissio-naldeumCapsAdna RegiãoMetropolitanadoRioGrande doSul,nossaintenc¸ãoeraadeproduzirumaanálisesobre umcasoparticularquepudessepotencializaroutrosestudos dessanaturezaemcontextossimilares. Semqualquer pre-tensãouniversalista,aideiaeradarcontade‘‘ummundo ondemuitoscasossesintamrepresentados’’(Molina,2004, p.104).
Apesardaexperiênciacomotrabalhomultiprofissional, percebemos que a equipe do Caps Ad estudado tam-bémentendia, pelo menosatéa entradadatrabalhadora de educac¸ão físicaentrevistada, que aspossibilidades de
atuac¸ãodestenúcleoemumCapsAdestavammaisrestritas àlógica‘‘tarefeira’’.Peloquesepodepercebernas diferen-tesfalasdosentrevistados,opaulatinoenvolvimentodessa trabalhadoradeeducac¸ãofísicacomafazerestransversais docampodasaúdementalfezcomqueosdemaisnúcleos profissionais ficassemexpostos aoutros modosde agir na viadacomposic¸ãoemequipe,especialmenteaquelesquesó podemserproduzidospormeiodoencontroentreocuidador eousuário.
A incorporac¸ão do dispositivo do cuidado psicossocial mexenasentranhas do instituído,traz incertezase exige torc¸ões constantes na produc¸ão do cuidado em saúde. E quandoeleéefetivamentecolocadoemato,comofoi possí-velpercebernoCapsAdestudado,podelevaràreinvenc¸ão eàcomposic¸ãocomopotênciasdevidaedesaúde(Damico, 2011).Paraestruturarumtrabalhonessalinha,demanda-se umtrabalhadordeeducac¸ãofísica,assimcomodosdemais trabalhadores, que componha com a equipe em todas as dimensões do trabalho no Caps, e não apenas se atenha àstarefasquesãoconsideradasespecíficasasuaformac¸ão profissional.
Cabeaindadestacarareferênciaqueatrabalhadorade educac¸ãofísicaaoqueelachamoude‘‘ladodefora’’.Por meiodessaexpressão,elacaptouumapreocupac¸ãoquede certomodo paira sobrea organizac¸ão dotrabalho de um Caps:oretornodepráticasdecuidadomanicomiais,aquelas voltadas para dentro das paredes dos servic¸os substituti-vosdesaúdemental,aquichamadode‘‘minicômio’’,que sematerializa em cada tarefa feitade formaestanque e repetitiva.
Éotrabalhoemequipenaperspectivadacomposic¸ãoque podefuncionar como umaferramenta potente para gerar redes inclusivas e, assim, produzir novos sentidos para o vivernoâmbitosocial.É,finalmente,adivulgac¸ãode traba-lhosdentrodeumalógicacompositora,focoargumentativo destetexto,quepoderápotencializarumasériede experi-ênciasexitosasespalhadasBrasilaforaeajudaratrincaras paredesdos‘‘minicômios’’.
Financiamento
Coordenac¸ãodeAperfeic¸oamentodePessoaldeNível Supe-rior(Capes)sobaformadebolsaparaoprimeiroautor.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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