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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ - UFC UNIVERSIDADE ESTADUAL DO CEARÁ - UECE
UNIVERSIDADE DE FORTALEZA - UNIFOR
DOUTORADO EM SAÚDE COLETIVA COM ASSOCIAÇÃO DE IES AMPLA AA
REGINA CLÁUDIA BARROSO CAVALCANTE
CONTEXTO DO CONSUMO DE CRACK: HETEROGENEIDADE DOS USUÁRIOS E DAS CENAS PÚBLICAS EM FORTALEZA-CE
REGINA CLÁUDIA BARROSO CAVALCANTE
CONTEXTO DO CONSUMO DE CRACK: HETEROGENEIDADE DOS USUÁRIOS E DAS CENAS PÚBLICAS EM FORTALEZA-CE
Tese apresentada ao Doutorado em Saúde Coletiva - Associação Ampla de IES da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Universidade de Fortaleza (UNIFOR) como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva.
Orientadora: Profa. Dra. Ligia Regina Franco Sansigolo Kerr.
REGINA CLÁUDIA BARROSO CAVALCANTE
CONTEXTO DO CONSUMO DE CRACK: HETEROGENEIDADE DOS USUÁRIOS E DAS CENAS PÚBLICAS EM FORTALEZA-CE
Tese apresentada ao Doutorado em Saúde Coletiva - Associação Ampla de IES da Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Universidade de Fortaleza (UNIFOR) como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Saúde Coletiva.
Orientadora: Profa. Dra. Ligia Regina Franco Sansigolo Kerr.
Aprovado em: 22/01/2016.
Fênix nasço e renasço das minhas próprias cinzas cotidianas... Encontro devagar em cada espaço o substrato total da coisa pura; não envelheço ou envileço no meu passo, porque nasço e renasço a cada novo instante e passo a vida resumidamente, ensaiando sempre o primeiro passo.
Tirzah Ribeiro
A pedra, o distraído nela tropeçou...
O bruto a usou como projétil.
O empreendedor, usando-a construiu.
O camponês, cansado da lida, dela fez assento.
Para meninos, foi brinquedo.
Drumond a poetizou.
Já David matou Golias, e Michelangelo extraiu-lhe a mais bela escultura...
E em todos esses casos, a diferença não esteve na pedra, mas no homem.
Não existe pedra no seu caminho que você não possa aproveitá-la para seu próprio crescimento.
Das oportunidades saiba tirar o melhor proveito,
talvez não tenhamos outra chance.
AGRADECIMENTOS
À Profa. Dra. Ligia Kerr, pela confiança e oportunidade ímpar de defrontar este grande desafio profissional.
À Coordenação de Pessoal de Aperfeiçoamento de Nível Superior (CAPES), pelo apoio financeiro com a manutenção da bolsa de estudos durante o curso de douto-rado.
A toda a equipe da pesquisa, pelo empenho, competência e coragem de encarar este surpreendente e instigante campo. Minha admiração e agradecimento para Jaína, Pa-trícia, Carlão, Janaína Dantas, Ellen, Eduardo, Alexandre, Ana Karine, Yara, Rubens, Sergio, Paulo Sergio, Ercílio, João Pedro, Jonnata, Andressa, George, Alisson, Jaga, João Rômulo, Renara, Janaína Patrício, Bruna, José Pinguim, Andressa, Flávio e Wa-nessa.
Aos colegas de trabalho do Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS do Ceará (GAPA-CE) pelo caloroso acolhimento das atividades da pesquisa em sua sede, em especial ao amigo Rogério Gondim pelo exemplo de ativismo e serena liderança.
Aos professores, coordenadores e colegas de turma do Doutorado em Saúde Coletiva em Associação Ampla de IES, pela troca de experiências e aprendizagens, e em par-ticular aos professores participantes da banca examinadora de qualificação e de de-fesa desta tese.
Aos gestores municipais de Fortaleza que contribuíram sobremaneira para a concre-tização deste trabalho, Raimunda Felix, Renata Mota, Cyntia Studart, Lúcia Bertini, Heloisa Gurgel, Julieta Narsia, Nei Robson, representando outros solícitos gestores e trabalhadores municipais.
Ao professor Francisco Inácio Bastos, coordenador da pesquisa nacional, por balizar em diversas circunstâncias os trabalhos de campo e escritos deste estudo. Também à Maria do Céu que fez da revisão uma lapidação!
Às secretárias do doutorado Zenaide Queiroz, Mairla Alencar e Dominique, pelo im-prescindível apoio nesta caminhada.
Aos poucos amigos que estiveram próximos neste período que exige maior recolhi-mento e reflexão, sobretudo à Daiane Nobre, pelo companheirismo, paciência e apoio nesta jornada.
RESUMO
substância. O contexto social marcado por vulnerabilidades, pobreza e violência de-monstrou ser de grande influência nos padrões mais danosos de uso de crack. Tam-bém foi possível identificar dificuldades de acesso dos usuários aos serviços preven-tivos e assistenciais em saúde, demonstrando a fragilidade estrutural das redes de atenção psicossocial em fazer a interface entre poder público e os usuários mais vul-neráveis. Os dados, relatos e experiências do trabalho de campo propiciam indicativos de que as políticas públicas intersetoriais têm o potencial de atingir maior efetividade ao defrontar as diversas demandas sociais e de saúde dos usuários de crack nos seus próprios territórios de consumo e socialização.
ABSTRACT
between government and these most vulnerable users. The data, reports and experi-ence of fieldwork provide indications that inter-sectoral public policies could be more effective if they addressed the varied health and social demands of crack users. In their own neighborhoods, in the context of vulnerability, marked by poverty and vio-lence, may be of great influence in some of the more harmful patterns of crack use.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AAS AIDS CAB CAPS CEBRID CEO CEP CEMJA CNM CRAS CREAS CRR CT CTA DEA DST ERB ESF ESP FC FIOCRUZ FMUSP GREA HCV IBGE IDH IDHM IES IJF IMESC
Amostra Aleatória Simples
Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida Célula de Atenção Básica
Centro de Atenção Psicossocial
Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas Centro de Especialidades Odontológicas
Comitê de Ética em Pesquisa
Centro de Especialidades Médicas José de Alencar Confederação Nacional de Municípios
Centros de Referência de Assistência Social
Centros de Referência Especializados de Assistência Social Centro de Referência Regional
Comunidades Terapêuticas
Centro de Testagem e Aconselhamento Departamento de Entorpecentes Americano Doenças Sexualmente Transmissíveis Estrato Resto do Brasil
Estratégia Saúde da Família Escola de Saúde Pública Folha de Coleta
Fundação Oswaldo Cruz
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas Vírus da Hepatite C
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Índice de Desenvolvimento Humano
Índice de Desenvolvimento Humano do Município Instituição de Ensino Superior
Instituto José Frota
INPAD LENAD LILACS MARP MEDLINE NASF OMS ONG ONU OPAS PIB PF PPT PRF PSF PRONASCI RAPS RAR RAR RDS SAMU SciELO SDH SECEL SEMAS SENAD SER SMS SMSE TCLE TLS UBASF UECE
Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas Levantamento Nacional de Álcool e Drogas
Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde Most-at-risk Populations
Medical Literature Analysis and Retrieval System Online Núcleo de Apoio à Saúde da Família
Organização Mundial da Saúde Organização não Governamental Organização das Nações Unidas Organização Pan-americana de Saúde Produto Interno Bruto
Polícia Federal
Probabilidade Proporcional ao Tamanho Polícia Rodoviária Federal
Programa de Saúde da Família
Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania Rede de Atenção Psicossocial
Rapid Assessment and Response Avaliação Rápida e Pronta Resposta Respondent Driven Sampling
Serviço de Atendimento Móvel de Urgência Scientific Electronic Library Online
Secretaria de Direitos Humanos
Secretaria dos Esportes da Cultura e do Lazer de Fortaleza Secretaria Municipal de Assistência Social
Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas Secretarias Executivas Regionais
Secretaria Municipal de Saúde Sistema Municipal de Saúde Escola
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido Time Location Sampling
UFC UNIFESP UNIFOR UNODC UPA USA USP UTA VDT
Universidade Federal do Ceará Universidade Federal de São Paulo Universidade de Fortaleza
Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime Unidade Primária de Amostragem
Unidade Secundária de Amostragem Universidade de São Paulo
LISTA DE MAPAS
Mapa 1 – Região Metropolitana de Fortaleza - RMF ... 79
Mapa 2 – Mapa das Regionais de Fortaleza. ... 97
Mapa 3 – Cenas de uso de crack e similares – Fortaleza-CE ... 122
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 18
1 DA COCA AO CRACK: DE REMÉDIO A VENENO ... 26
1.1 AMÉRICA LATINA: UM NOVO MUNDO DE RIQUEZAS VEGETAIS E MINERAIS ... 26
1.2 COCAÍNA: O REMÉDIO PARA TODOS OS MALES ... 31
1.3 DE REMÉDIO A VENENO: CONSEQUÊNCIAS ADVERSAS DA PROIBIÇÃO À COCAÍNA ... 35
1.4 GUERRA REVERSA: CONTRACULTURA, DROGAS E PSICODELIA ... 42
1.5 NARCOTRÁFICO: OURO BRANCO NO MERCADO NEGRO ... 46
2 ESTUDOS RELACIONADOS AO CONSUMO DE COCAÍNA E CRACK ... 55
2.1 RELATÓRIOS MUNDIAIS E PESQUISAS BRASILEIRAS QUE ABORDAM O CONSUMO DE COCAÍNA E CRACK ... 55
2.2 REVISÃO INTEGRATIVA SOBRE SAÚDE E CONTEXTO DE USO DE CRACK NO BRASIL ... 65
2.2.1 Metodologia da revisão integrativa ... 66
2.2.2 Territorialidade e exclusão social ... 68
2.2.3 Mudanças no padrão de consumo de crack e estratégias de redução de danos ... 70
2.2.4 Vulnerabilidade acrescida entre a população feminina usuária de crack... ... 71
2.2.5 Demandas de saúde dos usuários de crack ... 72
2.2.6 Considerações sobre o contexto de vida e de uso de crack ... 74
3 PERCURSO METODOLÓGICO ... 77
3.1 LOCAL DO ESTUDO ... 78
3.3 PESQUISA NACIONAL SOBRE O PERFIL DO USUÁRIO DE CRACK:
METODOLOGIA TIME LOCATION SAMPLING ... 85
3.4 DESCRIÇÃO DO PROCESSO DE MAPEAMENTO E GEOPROCESSAMENTO DAS CENAS PÚBLICAS DE USO DE CRACK EM FORTALEZA -CE ... 92
3.5 DESCRIÇÃO DO PROCESSO DE INQUÉRITO EPIDEMIOLÓGICO E APLICAÇÃO DA METODOLOGIA TLS EM FORTALEZA - CE ... 99
3.5.1 Composição da equipe de recrutadores, entrevistadores e coletadores para aplicação do inquérito epidemiológico ... 100
3.5.2 Recrutadores: instrumentos e procedimentos em campo ... 102
3.5.3 Entrevistadores: procedimentos e instrumentos utilizados durante o inquérito epidemiológico ... 109
3.5.4 Coletadores: procedimentos e instrumentos para realização de testes para detecção dos vírus HIV, HCV e TB ... 113
3.6 ANÁLISE DE CONTEÚDO DOS DADOS QUALITATIVOS DOS CADERNOS DE CAMPO E DA ENTREVISTA SOBRE AS CENAS DE USO DE CRACK EM FORTALEZA -CE ... 116
4 PERCURSOS URBANOS: CONTEXTO LOCAL DE USO DE CRACK ... 120
4.1 RESULTADOS DO MAPEAMENTO E GEOPROCESSAMENTO DAS CENAS PÚBLICAS DE USO DE CRACK EM FORTALEZA – CE ... 120
4.2 DINÂMICA DAS CENAS PÚBLICAS DE USO DO CRACK EM FORTALEZA – CE ... 124
4.3 QUEM SÃO OS USUÁRIOS DE CRACK E EM QUAL CONTEXTO SE DÁ O SEU USO? ... 142
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 159
REFERÊNCIAS ... 167
APÊNDICES ... 179
APÊNDICE A – Revisão integrativa ... 179
APÊNDICE C – Caderno de campo – Pesquisa crack ... Erro! Indicador não definido.
INTRODUÇÃO
O maior estudo nacional acerca de uma única substância psicoativa, a pesquisa intitulada “Perfil dos usuários de crack nas 26 capitais, DF, 09 regiões metropolitanas e Brasil” foi desenvolvida em todas as capitais brasileiras, regiões metropolitanas e em uma amostra de municípios de pequeno e médio porte, entre os anos de 2010 e 2013. A coordenação central da pesquisa ficou a cargo da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) em parceria com universidades públicas de todos os estados brasileiros e recebeu apoio financeiro da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (SE-NAD).
Realizado em duas etapas distintas, este estudo de natureza qualiquantitativa utilizou metodologias diferenciadas em cada uma destas etapas. Na primeira etapa contemplou-se um mapeamento dos locais públicos onde ocorria o uso de crack, as denominadas “cenas de uso”, por meio de técnicas etnográficas e mediante aplicação da metodologia Rapid Assessment and Response (RAR). Na segunda etapa empre-gou-se uma adaptação da metodologia Time Location Sampling (TLS) para seleção de uma amostra de cenas de uso (dentre todas as cenas que foram mapeadas na primeira etapa) e para aplicação in loco do inquérito epidemiológico, além da disponi-bilização de testes rápidos para detecção dos vírus HIV, HBV e do bacilo da tubercu-lose entre usuários de crack.
Como ambiente da pesquisa nacional constaram as 26 capitais, o Distrito Fe-deral, municípios das nove regiões metropolitanas definidas por lei federal e uma amostra correspondente a municípios de médio e pequeno porte em todo o Brasil, denominado Estrato Resto do Brasil (ERB). No estado do Ceará a primeira etapa da pesquisa envolveu a capital Fortaleza, quinze municípios da Região Metropolitana e três municípios de pequeno porte no interior do estado. Após o mapeamento destes municípios, permaneceram na amostra para aplicação do inquérito epidemiológico os municípios de Fortaleza, Maracanaú, Caucaia, Guaiuba, Pacatuba, Maranguape, Pi-quet Carneiro e Senador Pompeu.
no acolhimento das atividades da pesquisa, tais como aplicação de questionários, tes-tes, orientações e encaminhamentos. Como desafio adicional o contato e acesso aos usuários de crack ocorreu em seus próprios locais de uso da substância, propiciando a aproximação deste público com serviços públicos e organizações da sociedade civil que participaram direta ou indiretamente das atividades da pesquisa, nos diversos municípios integrantes do estudo.
Na condição de supervisora da pesquisa no estado do Ceará, apresentei um recorte local deste estudo como projeto de pesquisa para inserção no Doutorado em Saúde Coletiva pela Associação Ampla de Instituições de Ensino Superior composta pelas Universidade Estadual do Ceará (UECE), Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Universidade Federal do Ceará (UFC), à qual me encontro vinculada. O município de Fortaleza foi estrategicamente escolhido dentre os demais da amostra estadual para esta análise por sua importância no contexto social e econômico brasileiro. Com a população estimada em 2.571.896 habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Ge-ografia e Estatística (IBGE, 2015), Fortaleza atualmente é o quinto município mais populoso do Brasil e a décima maior economia brasileira. Fortaleza, assim como as demais metrópoles brasileiras, apresenta diversas questões sociais e de saúde rela-cionadas ao consumo abusivo de crack e outras drogas.
Esta tese constitui um recorte local da pesquisa nacional sobre o perfil do usu-ário de crack. Trata-se de um estudo qualitativo, descritivo-exploratório, tendo como objetivo geral compreender o contexto de uso de crack com base nas cenas públicas acessadas pelo estudo no município de Fortaleza -CE. Apresenta como objetivos específicos: 1. Descrever as metodologias empregadas na pesquisa nacional, desta-cando os alcances e limites da sua aplicabilidade no município de Fortaleza -CE; 2. Compreender o contexto de uso de crack nas cenas de uso público acessadas pelo estudo; 3. Identificar a estruturação das redes de saúde e assistência social que pres-tam atenção psicossocial aos usuários de crack na cidade de Fortaleza.
incluída na defesa desta tese. Neste sentido, esta tese esteve centrada numa descri-ção densa dos processos vivenciados durante os trabalhos de campo no município de Fortaleza, retratando o contexto de uso público de crack sob perspectiva crítica e re-flexiva.
Como ressalta Minayo (2006), a emergência da questão social, marcada pelos processos de exclusão e pela elevação da consciência dos direitos dos diferentes atores sociais, justifica o crescimento da produção científica empregando a aborda-gem qualitativa. Nesta ótica, a integração dos métodos quantitativos e qualitativos na consecução do estudo nacional e local possibilita a apreensão do fenômeno do uso de crack em sua diversidade e complexidade.
De acordo com MacRae (2004), a escolha de diferentes metodologias é um reflexo da natureza específica do problema, do nível de conhecimento e do grau de abstração a se alcançar acerca de determinado assunto. Sob este prisma, as ativida-des de natureza qualiquantitativas e interdisciplinares conduzidas neste estudo per-mitiram um acúmulo de dados para além dos resultados do inquérito epidemiológico e dos testes para detecção do HIV, HCV e TB. Deste modo, agregaram informações relacionadas à dinâmica dos locais de uso público de crack. Também possibilitaram ampliar os conhecimentos acerca das instituições e serviços de atenção aos usuários de crack localizados nestes territórios, o que proporcionou abrangência e profundi-dade ímpar a este estudo.
Nas pesquisas sobre o uso de substâncias psicoativas, a epidemiologia, por exemplo, pode chamar a atenção para o tamanho e as implicações para a saúde pública de determinadas práticas. A seguir, técnicas qualitativas po-dem ser usadas para explorar melhor os significados culturais atribuídos a essas práticas, oferecendo sugestões para sua normatização, prevenção de consequências indesejáveis ou tratamento. Tais sugestões podem então em-basar programas voltados para a população que podem, em seguida, ser mo-nitorados e avaliados a partir de perspectivas quantitativas (MACRAE, 2004, p. 14).
Dividiu-se a tese em quatro capítulos, além da introdução e das considerações finais. O primeiro capítulo é composto por uma pesquisa bibliográfica sobre a utiliza-ção de substâncias derivadas das folhas de coca ao longo da história. Abordam-se a compreensão acerca dos padrões e representações de uso da planta Erythroxylum coca e de seus derivados, assim como o registro de seus diferentes empregos, tais como produtos alimentícios, bebidas, medicamentos ou mesmo substâncias psicoati-vas. Consoante tais achados evidenciam, a caracterização ilícita do uso e de comer-cialização dos produtos derivados da coca varia de acordo com os valores morais ou conveniências econômicas, engendradas em determinados períodos históricos. Este capítulo específico remete à elaboração de um corpus de conhecimentos que extra-polam as experiências de trabalho de campo, na perspectiva de compreensão do uso e comercialização de cocaína, crack e similares como um fenômeno global com ex-tensas repercussões e impactos na saúde pública.
Na tentativa de reconstituição deste tema foram selecionados e analisados cri-ticamente livros e artigos que remetem aos usos medicinais tradicionais de folhas de coca na cultura incaica, passando pelo apogeu do uso medicinal da cocaína na Eu-ropa no final do século XIX, pela proibição da comercialização desta e seus derivados e, consequentemente, o surgimento do narcotráfico na década de 1980, até os dias atuais, quando o consumo de crack representa um relevante problema social e de saúde pública. A narrativa com foco na história e processos sociais da América Latina constituiu o estágio final desta pesquisa bibliográfica, que pretende, como afirma Pa-dilha (2006, p. 577), “lançar luzes sobre o passado para clarear o presente e melhorar a percepção de algumas questões futuras”.
Concluindo esta retrospectiva de literatura sobre o tema, ou estado da arte, na segunda seção do segundo capítulo apresenta-se uma revisão integrativa dos artigos brasileiros sobre a cultura de uso de crack, com enfoque nas pesquisas relacionadas ao contexto de vida dos usuários. Foram consultadas as bases eletrônicas de dados Medline, Lilacs e Scielo, utilizando-se os descritores: crack, crackcocaine, Brazil. Di-ante de critérios de inclusão e exclusão preestabelecidos, foram selecionados e ana-lisados artigos pertinentes à temática, no período compreendido entre os anos de 2005 e 2015.
Os artigos selecionados para a revisão integrativa foram agrupados para aná-lise em quatro subtemas: territorialidade e exclusão social; mudanças no padrão de consumo de crack e estratégias de sobrevivência; vulnerabilidade acrescida entre a população feminina usuária de crack; e demandas de saúde dos usuários de crack. Esta revisão integrativa visou ampliar a compreensão acerca das redes de sociabili-dade dos usuários de crack, além de tecer conhecimentos sobre o contexto de vida, práticas pertinentes à obtenção da droga, rituais de consumo e estratégias formuladas pelos próprios usuários na redução de riscos e danos associados ao uso desta subs-tância.
Portanto, os dois primeiros capítulos da tese combinam dados oriundos de di-ferentes fontes escritas sobre o crack, desde fontes primárias como estatísticas ofici-ais e relatórios governamentofici-ais, até artigos, livros, teses, dissertações e matérias jor-nalísticas que retratam e revelam o tema sob diversos ângulos e abordagens. Este resgate de literatura permite preencher uma lacuna de conhecimentos acerca do pro-cesso de criminalização e estigmatização dos usuários de drogas ilegais, com desta-que para os usuários de crack. Mediante a análise do contexto do narcotráfico na América Latina torna-se possível ampliar o entendimento de como o Brasil se tornou, nas duas últimas décadas, um dos maiores mercados consumidores de cocaína e crack do mundo. Ampliou-se a percepção de como o uso e o tráfico de crack ganhou vinculação direta com a violência e sobre as consequências danosas do consumo de crack na área de saúde pública brasileira.
propõe que “toda investigação social precisa registrar a historicidade humana, respei-tando a especificidade da cultura que traz em si e, de forma complexa, os traços dos acontecimentos de curta, média e longa duração, expressos em seus bens materiais e simbólicos”.
Mediante compreensão do contexto global inerente ao uso da cocaína e do crack, partiu-se para uma descrição acerca da operacionalização e dos procedimentos locais da pesquisa nacional sobre o perfil dos usuários de crack. No terceiro capítulo fez-se uma descrição minuciosa da metodologia aplicada aos trabalhos de campo na cidade de Fortaleza, entre os anos de 2011 a 2013. Acerca da primeira fase da pes-quisa descrevem-se como foi realizado o mapeamento das cenas de uso de crack, processo que permitiu identificar os territórios onde existe maior intensidade do uso público de crack em Fortaleza e, portanto, os locais que mais necessitariam de ações e serviços direcionados à atenção integral destes usuários.
Durante esta primeira fase foram acessados gestores e trabalhadores dos equi-pamentos públicos de saúde, assistência social e direitos humanos, além de organi-zações não governamentais e até mesmo usuários de drogas, com o objetivo de iden-tificar locais onde ocorria o uso de crack em espaços públicos da cidade de Fortaleza. Por meio destes contatos também foi possível averiguar dados relativos ao processo de implantação e implementação das redes de saúde e de assistência social do mu-nicípio e vislumbrar algumas lacunas na estruturação destas redes.
Vale ressaltar, porém: o objetivo da pesquisa nacional não está voltado para a avaliação de diferentes políticas públicas implementadas no país, e sim para o conhe-cimento do perfil dos usuários de crack e para a análise de algumas características das cenas da amostra. No entanto, para efeito desta tese, procurou-se correlacionar os achados da pesquisa de campo ao contexto local de implementação de políticas públicas, tentando assim contribuir para a aplicabilidade do estudo e para a efetividade nas práticas de atenção psicossocial na cidade de Fortaleza.
executados durante a fase do inquérito epidemiológico na cidade de Fortaleza, tais como seleção da equipe, funções específicas dos recrutadores, pesquisadores e co-letadores, técnicas, instrumentais, aspectos éticos e demais detalhes do trabalho de campo.
No quarto capítulo constam os resultados da análise de entrevista com 22 inte-grantes da equipe de campo de Fortaleza, realizada no período da finalização dos trabalhos do inquérito epidemiológico no município. Esta entrevista foi aplicada nos moldes de um debriefing, o qual consiste em técnicas utilizadas por pesquisadores qualitativos como forma de aperfeiçoamento dos processos de trabalho e se destinam a compreender algumas demandas e/ou superar dificuldades encontradas pelos pes-quisadores durante as atividades de campo. Tal processo reflexivo acerca das práti-cas de campo foi importante para melhor orientar as atividades da pesquisa que pros-seguiriam em cinco municípios da Região Metropolitana e em dois municípios de pe-queno porte do estado do Ceará.
O objetivo principal desta entrevista semiestruturada é reconhecer, com base no “ponto de vista de quem está investigando”, qual seria realmente o perfil do usuário de crack na realidade de Fortaleza. Entender como os pesquisadores os identificavam antes e depois das entrevistas e qual era a realidade destas cenas de uso de crack no período da pesquisa. Para complementar este capítulo também foram analisadas as informações contidas nos cadernos de campo, instrumental preenchido pelos re-crutadores durante o período de uma hora de observação que precedia a aplicação dos questionários e testes do inquérito epidemiológico, cujo objetivo era descrever cada uma das cenas da amostra de Fortaleza.
1 DA COCA AO CRACK: DE REMÉDIO A VENENO
1.1 AMÉRICA LATINA: UM NOVO MUNDO DE RIQUEZAS VEGETAIS E MINERAIS
Impulsionada pelas grandes navegações, a descoberta do continente latino-americano no século XVI expandiu as fronteiras e riquezas europeias, sobretudo pela exploração colonialista de diversificados produtos vegetais e minerais. No tocante es-pecificamente às substâncias psicoativas, a fartura e exuberância da vegetação nativa constituíram verdadeiras dádivas aos viajantes e botânicos que se aventuraram no desbravamento deste novo mundo.
Os conquistadores encontraram verdadeiros tesouros botânicos em relação às drogas, somente na América foram encontradas aproximadamente 100 espécies de plantas alucinógenas, enquanto na Europa e Ásia juntas encon-trou-se apenas 10. Esta desproporção surpreendeu os etnobotânicos (CAR-NEIRO, 1994 apudTOSCANO JR 2001, p. 07).
Segundo Carneiro (2002), durante os séculos de colonização da América Latina algumas substâncias passaram a ser extraídas ou cultivadas em elevada quantidade, sendo rapidamente assimiladas pela cultura europeia e difundidas por todo o mundo. Dentre elas sobressaem o açúcar, o tabaco e o café. Ainda segundo o autor, os colo-nizadores europeus na América Latina desenvolveram um sistema de exploração con-tinuada para garantir a produção e comercialização destas mercadorias, valendo-se do “tráfico, da pirataria, do saque e do extermínio genocida e do renascimento da escravização” (CARNEIRO, 2002, p. 120).
Os principais interesses econômicos europeus giravam em torno dos metais preciosos como o ouro e a prata, seguidos pelas vantagens na extração e cultivo de espécies vegetais. No entanto, como afirma Escohotado (1998, v.I),
as folhas de coca a princípio não tiveram a mesma aceitação que o café e o tabaco na Europa, provavelmente porque durante as longas viagens marítimas, em sua forma natural, estas folhas perdiam potência e consequentemente seu valor comercial. Em-bora as folhas de coca fossem reconhecidas por suas propriedades estimulantes, como não provocavam alterações na consciência eram consideradas um alimento.
Quando os espanhóis conquistaram os povos Incas perceberam ter esta planta um valor especial para a população nativa, pois estava ligada a costumes religiosos indígenas. Como demonstram indícios arqueológicos, o hábito de mascar coca existia há cerca de 3.000 a 1.500 a.C. entre a população indígena que habitava as montanhas dos Andes, tendo como evidências esculturas antigas de indígenas transportando bol-sas com estas folhas ou com bochechas salientes pelo uso de coca (JOHANSON, 1998).
De acordo com Henman (2008), os atributos nutricionais, medicinais e espiritu-ais da coca têm sido apreciados há milhares de anos na cultura inca. De geração em geração passa-se a noção de uso comedido desta planta considerada “mestra”, utili-zada primordialmente em rituais religiosos, momentos de discussões políticas e oca-siões especiais de socialização.
Pela tradição indígena, foi o primeiro inca, Manco Capac, quem presenteou as sementes desta planta divina a uma população oprimida, para torná-la capaz de su-portar a fome e a fadiga.
Uma lenda afirmava que Manco Capac, o divino filho do sol, havia descido dos penhascos do lago Titicaca em tempos primevos, trazendo a luz de seu pai para os infelizes habitantes do país; que lhes trouxera o conhecimento dos deuses, lhes ensinara as artes úteis e lhes dera as folhas de coca, esta planta divina que sacia os famintos, dá força aos débeis e faz com que es-queçam os seus infortúnios (FREUD, 1989, p.66).
Segundo Galeano (2014), o centro do Império dos incas se localizava na atual cidade de Cuzco no Peru e foi estendido por diversos territórios, tais como os que correspondem atualmente à Bolívia, ao Equador e partes da Colômbia, do Chile e da Argentina. Esta civilização destacou-se dos demais povos indígenas americanos por seus avançados sistemas de irrigação, pelas técnicas de construção em pedras vistas pelos ocidentais como enigmáticas, pelo trabalho com metais como o cobre, o bronze e os metais preciosos, além da utilização de formas singulares de comunicação.
Na ótica de Freud (1989), os espanhóis encontraram evidências do consumo desta erva no cotidiano da população indígena, pois era comum ver os índios trans-portarem um feixe de folhas de coca chamado chuspa, bem como um frasco com cinza da planta, a llicta. Conforme o autor, os indígenas moldavam na boca uma bola de folhas e a furavam várias vezes com um espinho mergulhado nesta cinza, masca-vam lentamente e, salivando bastante, chegamasca-vam a mascar cerca de 85 a 115g de folhas por dia.
Os indígenas também utilizavam a coca de forma adivinhatória, na cura e prevenção de diversos males e para amenizar dores. Entre suas proprieda-des benéficas estavam a facilitação na digestão dos alimentos, auxílio na res-piração, a prevenção de doenças nos dentes e gengivas, alívio das dores reumáticas e de cabeça e também alívio nas dores causadas por ferimentos externos (SOMOZA, 1990, p. 18).
É importante ressaltar que o conhecimento sobre o emprego medicinal das plantas constitui o resultado de tradições milenares, difundidas através de gerações. Estas tradições configuram, em muitos casos, símbolos de identidade social. De acordo com Abreu (1992), estas plantas, consideradas sagradas, foram utilizadas am-plamente como veículos que conduzem o homem ao mundo dos espíritos ou sobre-natural, em busca da cura ou mesmo de distanciamento no tocante ao seu cotidiano, com vistas ao ingresso num estado de consciência propício à concentração e à reve-lação.
Diante da amplitude de usos da coca e em virtude de a principal estratégia de conquista dos povos indígenas consistir no rompimento das bases daquela civilização, os espanhóis tiveram atitudes controversas em relação ao uso da coca no período de colonização. Como era sabido, toda iniciativa para destituir hábitos e minar a cultura local seria relevante na imposição de uma nova língua, religião e supremacia da cul-tura hispânica. Ademais era marcante o interesse em consolidar o uso da coca entre as populações indígenas locais, tanto por ser um dos meios mais acessíveis de nutri-ção da populanutri-ção quanto por ser um produto com grandes possibilidades de comer-cialização interna.
Durante a Idade Média a Igreja católica tinha a tradição de coibir veemente-mente a utilização de plantas e ervas de efeitos medicinais e psicoativos. Deste modo, imprimia uma verdadeira reversão de valores que substituiu a concepção de “plantas sagradas”, presente em várias culturas, pela ideia de plantas “diabólicas”, associando-as à feitiçaria e ao pecado.
A Idade Média acumulou todo um saber herbário, alquímico e secreto, além de uma prática popular sobre plantas. Eram sobretudo as bruxas que deti-nham estas práticas, muitas delas com caráter iniciático feminino. Alquimia, saber erudito, filosofia natural e magia estavam inter-relacionadas [...] mas a mentalidade inquisitorial concebia uma relação entre drogas, luxúria e bruxa-ria de maneira completamente estereotipada (TOSCANO JR, 2001, p. 10).
Como assevera Escohotado (1998, v. I), ao longo da Idade Média, os cristãos perseguiram comerciantes e conhecedores de plantas medicinais, curandeiros, xa-mãs e as bruxas. Foram condenados todos que lidavam diretamente com as ervas consideradas pelos cristãos como maléficas, sem nenhuma distinção entre as que se constituíam como medicamento. Segundo o autor, foram coibidos a produção e o uso destas plantas. Também se verificou a prática generalizada de queima de bibliotecas, templos e escolas vistas como pagãs, pois todo conhecimento acumulado de outros credos, incluindo os conhecimentos herbáceos, representavam ameaça à consolida-ção do poder da fé cristã.
Ainda conforme Escohotado (1998, v.I), neste período milhares de pessoas fo-ram assassinadas nos tribunais de Inquisição por acusação de bruxaria, enquanto outras centenas de milhares morreram acometidas por pestes e pragas, como a peste negra ou bubônica que dizimou cerca de um terço da população europeia ao longo da Idade Média. Neste contexto perdurou o primeiro sistema ocidental extensivo de in-terdição ao uso de plantas medicinais, evidenciando ter sido um erro histórico se con-trapor ao acúmulo secular de conhecimentos e práticas curativas, frutos da interseção cultural de vários povos que influenciaram a constituição da rica medicina tradicional na Europa Medieval.
existiam cerca de 70 milhões de índios nas Américas na época da chegada dos colo-nizadores europeus e que um século e meio depois restavam apenas 3,5 milhões.
Esta situação de subjugação dos índios na América Latina foi agravada com a descoberta da mina de prata em Potosí, na atual Bolívia, primeira entre várias outras minas de ouro e prata exploradas pelos conquistadores espanhóis e portugueses du-rante os primeiros séculos de colonização da América Latina. A imposição da econo-mia mineira gerou a desorganização dos sistemas coletivos de cultivos alimentares e provocam grandes deslocamentos da população indígena, submetida bruscamente à servidão nas minas de ouro e prata descobertas em terras incas. Como explicita Ga-leano (2014), centenas de índios que exerciam funções qualificadas como escultores, arquitetos e agricultores que desenvolviam técnicas avançadas de cultivo tornaram-se escravos e tiveram de trabalhar forçadamente na extração de minérios junto a ou-tros milhares de indígenas. Este fato repercutiu em dificuldades de manutenção dos plantios de milho, mandioca, feijão e outros produtos agrícolas.
Por ser imprescindível contar com o trabalho forçado da população indígena e no intuito de facilitar o recrutamento e submissão dos índios para o trabalho nas minas de ouro e prata, onde as condições de trabalho eram brutais, o clima e altitude adver-sos e os alimentos limitados, era inevitável a permissão do cultivo e do uso da coca. Nas palavras de Bastos (1992, p. 27), “o pragmatismo e o desejo de lucro rapidamente arbitraram a disputa metafísica em favor do retorno ao trabalho compulsório, com o alento garantido pelo mascar das folhas de coca”.
Essa grande massa de trabalhadorescravos tinha de ser mantida pela es-trutura estatal colonial e a coca revelou-se o produto mais econômico, devido as suas características nutritivas e vitamínicas. Então, consumida em larga escala, permitia manter os mineiros vivos e com uma pequena porção de ba-tatas e feijões, pelo menos durante o período útil de sua vida, isto é, dez a quinze anos (SOMOZA, 1990, p. 19).
Espanhola no século XVII e a Igreja católica expandiu suas riquezas graças ao reco-lhimento de 10% das colheitas de coca. Nesta época a produção de coca chegou a 300 mil cestos, ou seja, cerca de 2,7 mil toneladas.
A descoberta e exploração das jazidas de ouro e prata da América Latina, pro-piciou à Europa gozar de riquezas nunca dantes tão abundantes, sendo a América Latina o baluarte de toda esta prosperidade. Galeno (2014, p 44) afirma que “entre 1503 e 1670, desembarcaram no porto de Sevilha 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata”. Em pouco mais de um século e meio a prata levada para a Espa-nha originada da América Latina triplicou o total das reservas europeias, sem contar com a somatória inestimável do contrabando.
Estes foram os primeiros registros de proibição e posterior liberação do uso de folhas de coca e de produtos alimentícios à base deste vegetal, evidenciando que as normas referentes à sua comercialização variam de acordo com as conveniências econômicas e morais vigentes em determinados períodos históricos. Desde modo, como se percebe, a essência de atos proibitivos se encontra subordinada às vanta-gens comerciais decorrentes da liberação ou proibição do uso e comércio desta e de outras substâncias psicoativas.
1.2 COCAÍNA: O REMÉDIO PARA TODOS OS MALES
A comercialização de produtos derivados das folhas de coca ganhou impulso na Europa somente no século XIX, quando em torno de 1859 o químico alemão Albert Niemann, da Universidade de Göttingen na Alemanha, isolou o seu princípio ativo e o denominou cocaína. Seu alcaloide foi isolado por meio de um procedimento no qual se empregavam basicamente álcool, ácido sulfúrico, bicarbonato de sódio e éter. Neste período, a descoberta da cocaína ou o cloridrato de cocaína, sob forma de pe-quenos cristais, passou a constituir um elemento importantíssimo na medicina e no desenvolvimento da indústria farmacêutica.
Com a descoberta da cocaína, muitos derivados da folha de coca foram produ-zidos e passaram a incrementar o comércio desta substância, principalmente na Eu-ropa e nos Estados Unidos. Segundo Escohotado (1998, v. II), o primeiro produto de coca a fazer sucesso na Europa foi um elixir medicinal, criado pelo químico ítalo-fran-cês Ange Mariani, no ano de 1863. Chamava-se Vinho Mariani e continha vinho Bor-deaux misturado a um extrato de folhas de coca. A bebida foi reconhecida por suas propriedades medicinais e estimulantes, tais como aumento da energia física, inibição da fome, elevação do humor e da potência sexual. Algumas propagandas do produto afirmavam que o vinho era saudável, forte, energético, vital e sem nenhuma contrain-dicação. Mariani também desenvolveu outros elixires, pastilhas e infusões com folhas de coca, mas o Vinho Mariani foi o mais popular entre artistas e intelectuais europeus da época.
Mariani levou para a tumba o segredo de seu extrato. Mariani sempre insistiu que a diferença entre coca e cocaína não é a que existe entre a substância e seu concentrado, mas sim a que há entre um conjunto de substâncias e uma só. As propriedades da coca são desvirtuadas quando reduzidas a este alca-lóide. (ESCOHOTADO, 1998, vol. II, p. 67).
Muitas bebidas alcoólicas e não alcoólicas foram produzidas a partir da cocaína ou dos extratos de coca. Consoante Escohotado (1998, v. II), uma das mais populares foi o Pemberton’s French Wine Coca. Criada em 1885, sua fórmulaera muito seme-lhante à do Vinho Mariani, mas após mudança de alguns dos ingredientes, passou a constituira versão original da Coca-Cola. Dentre os ingredientes originais desta be-bida encontravam-se a cocaína misturada com álcool, no entanto, com o puritanismo religioso em alta e o início do movimento contra o álcool nos Estados Unidos, houve modificações em sua fórmula original. Suprimiu-se o álcool e acrescentaram-se o ex-trato de noz de coca, cafeína e água com gás. Como estratégia comercial, o produto passou a ser anunciado como uma bebida ideal para intelectuais e abstêmios. Seu criador foi o botânico John Pemberton que divulgava as propriedades benéficas da bebida para doença nos nervos, histeria, melancolia, problemas gástricos, constipa-ção, dor de cabeça e impotência e cura do vício em morfina, entre outros males.
Nas últimas décadas do século XIX inicia-se um período intenso de experiên-cias com esta substância, considerada revolucionária no tratamento de diversas en-fermidades e problemas. Byck (1989) afirma que além de vinhos, tônicos, elixires e outras beberagens, foram fabricados inúmeros produtos à base de cocaína para o mercado farmacêutico como unguentos, supositórios, bálsamos, spray para a gar-ganta e pastilhas. Estes produtos eram tidos como eficazes na cura de distintos pro-blemas de saúde, incluindo alcoolismo, morfinismo, asma, eczemas, neuralgias e até doenças venéreas. Propagandeada como o remédio para diversas enfermidades, a cocaína posteriormente passou a ser considerada por alguns cientistas como uma panaceia.
De acordo com Byck (1989), o laboratório americano Parke Davis & Co. foi o principal produtor de derivados de coca. Fabricava o extrato fluido de coca, o vinho de coca e o cordial de coca para administração oral; as soluções de sais, para utilização tópica e hipodérmica com fins anestésicos; o oleato de cocaína no tratamento de ne-vralgia de nervos periféricos ou na anestesia para obturação de dentes sensíveis; os charutos e cigarros de coca e o inalante de cocaína nas afecções do trato respiratório, tosse espasmódica, bronquite, entre outras.
Um dos maiores entusiastas do seu uso pela medicina foi o médico e criador da psicanálise, Sigmund Freud, que no começo da sua carreira conheceu e se encan-tou com as propriedades terapêuticas da cocaína. Freud trabalhou com a substância purificada, adquirida do laboratório alemão E. Merck, e fez registros minuciosos de suas experiências quando autoaplicava a substância. Realizou descrições precisas de humor e percepção verificadas em decorrência da ação desta droga no organismo. Estes ensaios, escritos com base na descrição de suas experiências sob efeito da cocaína, iniciaram uma tradição de análise pormenorizada dos efeitos psicológicos produzidos mediante uso de substâncias psicoativas, introduzindo uma metodologia científica sistemática para o estudo dos psicoativos.
Para este estudioso, a principal vantagem da coca seria a de aumentar a capa-cidade física do corpo por determinado e curto período de tempo, da mesma maneira como há muitos séculos a substância vinha sendo empregada pelos índios latino-americanos. Seria especialmente útil em circunstâncias nas quais não é possível con-tar com o descanso e alimentação, essenciais em situações de grande esforço, como guerras, viagens e prática de alpinismo. Como médico neurologista, Freud nutria re-levante interesse em explorar estas propriedades da planta e encontrar um tratamento para a psicose e para a depressão. Conforme acreditava, os efeitos estimulantes da coca deveriam ser investigados em profundidade para o tratamento de casos de de-bilidade nervosa e psíquica.
É um fato notório que os psiquiatras dispõem de um farto suprimento de dro-gas para reduzir a excitação dos centros nervosos, mas nenhum que possa servir para aumentar o funcionamento reduzido dos centros nervosos. Por conseguinte, a coca tem sido prescrita para os mais diversos tipos de debili-dade psíquica – histeria, hipocondria, inibição melancólica, estupor e enfer-midades semelhantes (FREUD, 1989, p. 79).
Freud tinha interesse também no estudo da utilização da cocaína para trata-mento de distúrbios digestivos e doenças que causassem degeneração do corpo como anemia grave, tuberculose pulmonar, doenças febris de longa duração, pneu-monia, asma e até mesmo a sífilis. Ressaltou, ainda, os atributos do uso da coca como afrodisíaco, relacionando o aumento da excitação sexual, o efeito estimulante desta sobre a genitália e a elevação da potência sexual dos usuários do produto.
Entusiasmado com as propriedades desta substância, em um encontro informal com um amigo oftalmologista, Freud demonstrou como a cocaína, usada de forma tópica, tinha efeito anestésico. Para sua surpresa foi o amigo Karl Koller o primeiro cientista a escrever especificamente sobre o tema, publicou um artigo sobre anestesia ocular em 1884, primeiro estudo a obter o reconhecimento da comunidade científica sobre as propriedades anestésicas da cocaína. Tal fato deixou Freud bastante con-trariado. Segundo Byck (1989), no mesmo ano o conceituado cirurgião William Hals-ted, da Universidade Johns Hopkins, ao ler o relatório de Karl Koller, percebeu que a cocaína poderia ser um excelente anestésico local. Conforme demonstrou, a cocaína, quando injetada em um nervo, poderia produzir anestesia local segura e eficaz. Sua descoberta foi uma importante contribuição para os processos de anestesia em cirur-gias, as quais passaram a ser realizadas com o auxílio da cocaína
em suas recomendações foi o emprego desta substância para o tratamento do morfi-nismo. Segundo as pesquisas de Freud, os preparados de coca teriam o poder de eliminar a ânsia pela morfina em usuários habituais e também de reduzir os graves sintomas de abstinência manifestados quando o paciente interrompe o hábito da mor-fina. No entanto, ao prescrever cocaína ao seu amigo Fleisch, no intuito de curá-lo do morfinismo, em curto período de tempo este tornou-se dependente também da coca-ína e teve morte prematura. Tal fato abalou muito o jovem Freud.
A aceitação e mesmo a admiração pelas propriedades medicinais da cocaína foram diminuindo em face da constatação de alguns efeitos colaterais indesejáveis e da observação clínica dos sérios danos em decorrência do uso continuado desta subs-tância. Diante de pressões externas e de experiências comprovadas do aumento da tolerância ao uso de cocaína em pacientes que já tinham problemas com a morfina, Freud escreveu um artigo no qual se retratava e admitia seu erro ao recomendar este uso para tais pacientes.
Apesar da rejeição da comunidade acadêmica à utilização da cocaína em de-terminados casos ou situações e da posterior proibição da comercialização, cogita-se que o uso e o estudo continuado das propriedades e efeitos da cocaína por Freud teriam contribuído para uma das mais célebres conquistas científicas do mundo.
Cogita-se a influência do uso de cocaína na gênese da psicanálise, visto que os primeiros sonhos interpretados meticulosamente por Freud coincidiram com o período em que ele tomava mais cocaína, tanto em via subcutânea como oral. “Tal como as culturas primitivas se serviam de drogas para pôr os indivíduos em contato com o numinoso, Freud havia usado a cocaína para entrar em contato com o inconsciente” (ESCOHOTADO, 1998, p. 72).
1.3 DE REMÉDIO A VENENO: CONSEQUÊNCIAS ADVERSAS DA PROIBIÇÃO À COCAÍNA
com as infindáveis mudanças na transição para a vida urbana e industrializada, tor-nando-se frequentes os excessos no emprego destas substâncias.
Do outro lado do oceano outra substância psicoativa, o ópio, tinha uma influên-cia crescente no mercado e também passava a ser alvo de controvérsias por sua crescente utilização. Neste âmbito, um dos fatos marcantes do início do século XIX foi a Inglaterra, em plena Revolução Industrial, quando buscava avidamente mercados consumidores para seus produtos industrializados, ter esbarrado em medidas prote-cionistas que dificultavam o acesso dos britânicos ao amplo mercado consumidor chi-nês. Como forma de ampliar o comércio de mercadorias com este país, os ingleses passaram a vender ilegalmente para os chineses o ópio cultivado na Índia (que na-quele período era uma colônia britânica).
Segundo Frèches (2008), os ingleses passaram a vender toneladas de ópio para a China e seu consumo se alastrava com consequências bastante danosas para a população. Na tentativa de coibir este comércio ilegal, o governo imperial chinês determinou a destruição de um carregamento de ópio inglês em 1839. Por considerar o ataque uma grande afronta, o governo britânico ordenou uma invasão armada à China e, assim, deu início à Primeira Guerra do Ópio. A China foi derrotada em 1842, quando se impôs o Tratado de Nanquim, o qual a obrigava a abrir cinco portos ao livre comércio com a Inglaterra e pagar indenização de guerra. A China também teve de ceder a posse do território de Hong Kong aos britânicos. Tal concessão perdurou até 1997.
De acordo com Frèches (2008), em virtude dos chineses não respeitarem algu-mas cláusulas do Tratado de Nanquim, entre os anos de 1856 e 1860 aconteceu a Segunda Guerra do Ópio, ocasião em que os britânicos resolveram atacar novamente, desta vez com a ajuda de aliados franceses e irlandeses. Mais uma vez, em 1860, a China foi derrotada e teve de se submeter ao Tratado de Tianjin, que estipulava a abertura de dez portos chineses ao comércio internacional; a liberdade de estrangei-ros para viajar e fazer comércio na China; a garantia de liberdade religiosa aos cristãos em território chinês e o pagamento de pesadas indenizações de guerra para Inglaterra e França.
levava a população a uma apatia e consequente sujeição aos ditames europeus. Em-bora o incentivo ao uso de ópio na China tenha aberto um extenso mercado consumi-dor, passou a provocar reações negativas na política e na opinião pública mundial, sendo este comércio desaprovado até mesmo entre os membros da própria sociedade inglesa.
Em todas as sociedades existem formas de controle do uso de substâncias psicoativas, no entanto enquadrar o hábito como patologia e tipificar sua comerciali-zação como ilegal foi um fenômeno relativamente recente na história da humanidade. Como refere Scheerer (1993), no início do século XX existia um conflito geopolítico entre os Estados Unidos e a Inglaterra, ainda mais acirrado no extremo Oriente pela questão do ópio. Estes países tanto divergiam no estilo político-econômico, com o colonialismo tradicional de um lado e o capitalismo moderno do outro, como no tocante aos interesses no controle internacional dos lucros pertinentes ao ópio e seus produ-tos derivados como a morfina.
Os Estados Unidos tentavam adentrar o restrito rol das nações industrializadas, e ao vencer a Guerra Hispano-Americana em 1898, obteve como recompensa a posse dos territórios de Cuba e Porto Rico do Caribe e das Filipinas na Ásia. Quando assu-miram a administração das Filipinas, os americanos ficaram alarmados com o con-sumo local de ópio. Neste sentido, em 1915, aprovaram uma lei que impedia toda importação e venda de ópio, com fins não medicinais, pelo período transitório de três anos naquele país.
Segundo Rodrigues (2008), esta lei era mais rígida do que as que vigoravam em território norte-americano, pois somente em 1906 foi promulgada uma lei ameri-cana intitulada Pure Food and Drug Act. Esta foi a primeira lei federal americana a regulamentar alimentos e medicamentos, exigindo a rotulagem de medicamentos pa-tenteados que continham substâncias consideradas “perigosas”, tais como álcool, morfina e ópio. Mencionada lei, contudo, não chegava a proibir a comercialização des-tas substâncias, apenas tentava regular a oferta desses produtos em seu território.
Xangai de 1909, ambas precursoras das atuais convenções internacionais voltadas a erradicar ou diminuir significativamente a produção e consumo de drogas psicoativas no mundo, exceto para uso médico e científico. Em 1909, a Comissão Internacional do Ópio orientou os demais países a tomar medidas drásticas em seu território para o controle da produção, da venda e da distribuição do ópio e seus derivados, em espe-cial a morfina, cujo consumo alastrava-se no período.
No ano de 1909, claramente, o governo dos Estados Unidos foi conclamado pela delegação chinesa em Xangai para liderar “a grande cruzada moral do século XX” em nome da “eterna lei do céu”, assim como da “consciência cristã”, posicionando-se pela imediata e total proibição do uso não médico do ópio (WISSLER, 1931 apud SCHEERER, 1993, p. 172).
Os encontros realizados em Xangai se limitaram a um acordo internacional para interromper as exportações anglo-indianas de ópio para a China e seus vizinhos, libe-rando o mercado chinês do monopólio inglês de comercialização de ópio e morfina. Foi um encontro com recomendações genéricas e de caráter não compulsório, no en-tanto, eram marcantes as características embrionárias do proibicionismo, ou seja, a promoção da ideia de ilegalidade do uso de substâncias com fins recreativos, ritualís-ticos, terapêuticos ou tradicionais, enfatizando a defesa da sua utilização restrita ao uso médico-científico.
No intuito de oficializar as resoluções adotadas em Xangai, o governo ameri-cano lançou a proposta da Conferência de Haia, na Holanda em 1912. Conforme Ro-drigues (2008), esta foi a primeira conferência internacional de caráter compulsório, tendo como prioridade a discussão sobre o ópio e seus derivados. Neste período a cruzada moral liderada pelos Estados Unidos maculou seriamente a reputação inglesa nos círculos diplomáticos e na opinião pública mundial. Deste modo, foi rechaçado o comércio do ópio na China.
Forçada pela Inglaterra, a inclusão na agenda da proibição dos alcaloides in-dustrializados ameaçou interesses das indústrias farmacêuticas, sobretudo na Alema-nha, principal rival econômico da Inglaterra e que lucrava com a exportação de produ-tos farmacêuticos. O Império Alemão orgulhava-se da sua indústria química, sendo o maior exportador de cocaína nos anos que precederam a Primeira Guerra Mundial, “com uma produção média de cocaína de 9.000 kg, comparada a uma produção de 1.220 kg da Holanda e menos de 500 kg da França e Inglaterra” (WISSER, 1931 apud SCHEERER, 1993, p. 174).
Naquela época, a Alemanha não estava às voltas com problemas advindos do uso da cocaína e nem promovia qualquer obstrução interna a este comércio, pois a cocaína e a morfina eram reconhecidas como medicamentos e gozavam de uma ima-gem imaculada na Europa. Esta situação mudou quando a Alemanha foi derrotada na Primeira Grande Guerra Mundial, ocorrida entre os anos de 1914 e 1918, tendo de se submeter aos ditames da Convenção Internacional do Ópio (assinada em Haia em 1912 e posta em vigor em 1919). Neste período a Alemanha perdeu força política para se contrapor às imposições internacionais de proibição da cocaína.
Por sua vez, os americanos elegiam algumas substâncias e seus usuários como problemáticos, associando o uso de determinadas drogas aos trabalhadores pobres, de minorias éticas. Segundo Rodrigues (2008), o estigma foi atribuído inicial-mente aos imigrantes chineses, trabalhadores da construção de estradas de ferro no oeste dos Estados Unidos que consumiam ópio. Já o hábito de fumar marijuana ou maconha era atribuído aos latinos, geralmente mexicanos que imigravam em massa para os Estados Unidos, e o hábito de consumir bebidas alcoólicas aos imigrantes irlandeses. Também o hábito de cheirar cocaína foi propalado nos jornais americanos como um estímulo para a prática de crimes. Entre 1900 e 1920, publicou-se uma série de reportagens associando o uso de cocaína a crimes hediondos cometidos por ne-gros. O hábito de cheirar ou aspirar a substância era considerado restrito aos negros, os quais por não disporem de recursos suficientes para comprar seringas, faziam uso diferenciado dos médicos e advogados, que utilizavam a droga de forma injetável.
puritanas. Segundo Rodrigues (2008, p. 93), o maior objetivo era a defesa da morali-zação do país e com tal objetivo eram necessárias “medidas legais que pusessem em marcha políticas de repressão às práticas tidas como imorais ou corruptoras das vir-tudes puritanas: comedimento, castidade, sobriedade e religiosidade”.
De acordo com Rodrigues (2008), por pressões destes influentes grupos e com base na conferência internacional capitaneada pelos Estados Unidos, foi aprovado em 1914 o Harrison Narcotic Tax Act, lei federal americana que regulamentava e tributava a produção, importação e distribuição de ópio e folhas de coca, seus sais e derivados. Neste período a cocaína tinha status legal quanto à sua distribuição e comercialização entre profissionais, empresas e corporações, desde que fosse cadastrada e tributada. Médicos, dentistas e veterinários deveriam manter um registro dos medicamentos uti-lizados e das pessoas que os utilizavam pelo período de dois anos.
O controle e regulamentação do uso de drogas foi parte fundamental da con-solidação da autoridade médica no século XIX e princípio do XX, período em que se cristaliza no ocidente quais são os usos legítimos (pois baseados na ciência médica ocidental) e quais são os ilegítimos (práticas tradicionais ou que escapem, de algum modo, aos cânones médicos). Quando o Estado en-tra nesse debate, a fixação de leis define o “cientificamente legítimo” como legal e o “cientificamente ilegítimo” como ilegal (RODRIGUES, 2008, p. 97).
Durante aquele tempo, a palavra “narcótico”, referente às substâncias que fa-zem adormecer ou entorpecer, passou a ser um termo genérico atribuído às diversas substâncias proibidas ou que poderiam ser usadas somente com prescrição médica. Vale salientar que a cocaína não tem características entorpecentes; ao contrário, é um estimulante do sistema nervoso central que passou a ser juridicamente referido como narcótico, independente das suas propriedades farmacológicas.
Nas primeiras décadas do século XX, com a expansão sem precedentes da industrialização e da modernização do capitalismo, o novo crime de tráfico e consumo de drogas ilegais como a cocaína e a morfina foi automaticamente relacionado às crescentes populações urbanas, em geral pobres e imigrantes, acusadas de uso ex-cessivo de álcool e outras drogas, de insubmissão, de falta de higiene e de degene-ração moral e física. Com o incremento do uso e comercialização ilegais o problema das drogas ganhou relevância no âmbito da saúde pública, passando a ser entendido como um problema de saúde e, consequentemente, como um caso de polícia, con-clamando os saberes médicos, policiais e jurídicos.
civilizados”; eram eles a antítese do progresso e das maravilhas do mundo moderno. (RODRIGUES, 2008, p. 96).
O Estado moderno assume como função primordial o controle destes contin-gentes populacionais urbanos. Neste sentido, existe historicamente uma seletividade na criminalização do uso e da venda de drogas, atingindo principalmente determina-das pessoas, etnias e grupos sociais. Então a periculosidade atribuída às substâncias passa a ser imputada às pessoas, como forma de discriminação e afirmação de uma suposta superioridade racial, fundamentada cientificamente pela aliança entre teorias eugênicas europeias e o racismo.
Neste âmbito, o novo crime do uso de drogas passa a ser uma potente estra-tégia de controle social, visto ser um consentimento submeter a população à vigilância constante e intensiva. Assim, a criminalização dos usuários e comerciantes de dro-gas é uma maneira eficiente de invadir a privacidade, fomentando a admissão no sis-tema penitenciário, e posteriormente nos hospitais psiquiátricos, das pessoas que não se adequassem às exigências do sistema capitalista moderno.
Pensar a questão da droga como sinônimo de ilegalidade, vinculada aos efei-tos positivos das drogas legais, contribuindo para o processo normativo de vida social, é revelar a integração entre o jurídico, o policial, o médico, o far-macológico como complexo industrial de manutenção de uma ordem que visa superar os conflitos pela integração dos mesmos (PASSETTI, 1991, p. 46).
Tal como o que ocorreu nos Estados Unidos e se expandiu como modelo mun-dial, o controle das populações ainda constitui uma poderosa estratégia de manuten-ção de processos discriminatórios na sociedade. No entanto, o objetivo de erradicar as drogas e os seus mercados foi assinalado desde o início pela falta de êxito, de-monstrado na expansão de um vigoroso mercado ilícito.
O processo histórico permite entender os conceitos estruturantes do proibicio-nismo e sua organização em prol da manutenção do status quo e da desigualdade social. Amparados em preceitos morais e religiosos da busca da abstinência como ideal, respaldados pelos saberes médico e jurídico, ou mesmo na utopia de um mundo livre das drogas, estes grupos ocupam-se em controlar a circulação de substâncias psicoativas e dos seus usuários. Então, o uso destas substâncias passa a ser enca-rado como crime, as pessoas começam a ter sua privacidade invadida e o Estado se estabelece como agente provedor de segurança pública.
com-pulsório cooperativo, que se intensificou em termos dos mecanismos de pro-ibição utilizados e gerou o que agora é conhecido como “Guerra às drogas”. (SCHEERER, 1993, p. 170).
Como evidenciado, as leis que estabeleceram a interdição sobre as drogas e seus mercados, idealizadas principalmente pelos Estados Unidos, foram formalizadas nas convenções internacionais durante todo o século XX e se expandiram, sobretudo nos países ocidentais, fazendo com que a política proibicionista se instituísse ao redor do mundo. Neste prisma, a guerra às drogas pode ser atualmente pensada, de acordo com Wacquant (2004), nos marcos deste fortalecimento de um Estado que deixou de ser de “bem-estar” e passa a ser “penal”, criminalizando explicitamente os mais po-bres.
Com a pressão moralista e os ditames jurídicos contra as drogas criou-se uma regulamentação que, ao invés de erradicar hábitos, potencializou uma extensa comer-cialização ilegal destas substâncias. Esta dinâmica repressiva remete à reflexão de como a criminalização de um comportamento pode gerar prejuízos mais intensos que o comportamento em si.
1.4 GUERRA REVERSA: CONTRACULTURA, DROGAS E PSICODELIA
O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi marcado pelo avanço sem precedentes de novas tecnologias armamentistas e pela superioridade econômica dos Estados Unidos, em detrimento da maioria das nações. Tanto a “conquista do espaço” quanto o aprimoramento da tecnologia nuclear tiveram forte influência no advento da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, ao demarcar simbolicamente a superioridade destes dois países e a divisão mundial entre países desenvolvidos do hemisfério norte e países subdesenvolvidos do hemisfério sul.
Apesar da supremacia alcançada pela expansão produtiva e econômica, o con-sumismo exagerado e o moralismo rígido da sociedade americana causaram reações dos jovens contra este modelo de sociedade. De acordo com Guimarães (1997), transformações abruptas eclodiram mediante a insatisfação com o sistema capitalista ocidental, ou mesmo diante da percepção da opressão e da burocratização do modelo antagônico, o socialismo tradicional. Numa perspectiva contrária ao comportamento conservador, houve o crescimento do movimento feminista, homossexual e negro, marcando o posicionamento destes segmentos a favor da expansão dos direitos civis das minorias e promovendo a aproximação com as populações marginalizadas da sociedade americana.
Conforme Paes (2004), na década de 1960 começam a eclodir os movimentos contraculturais beat e hippie, que entendiam a experiência de uso de substâncias psi-coativas como forma de contestação às normas e valores vigentes na época, princi-palmente na sociedade americana. Eram movimentos que promoviam a liberdade de expressão e a liberdade sexual como modo de se contrapor a valores autoritários da classe média, tais como ascensão social, racismo, moralismo e patriotismo. Como observado, a expressa recusa aos valores tradicionais da sociedade americana pro-vocou uma verdadeira revolução nos costumes e nos comportamentos individuais.
Desta forma o jovem se rebelou através daquilo que ele tinha o máximo de controle possível: do seu próprio corpo, de seus ideais, da sua forma de vestir e se comportar perante o mundo. Um dos movimentos em que esta revolução é mais evidente é o movimento hippie, que surge nos Estados Unidos na dé-cada de 1960, junto a outras manifestações artísticas, como festivais, shows em praças públicas, reivindicações culturais contra a guerra, etc. Os seus adeptos usavam do prazer momentâneo como forma de rebeldia: o uso em demasia de drogas e o sexo livre (GUIMARÃES, 1997, p. 8).
A busca de conhecimento de si mesmo e a possibilidade de convivência com pessoas de culturas diversas propiciou uma nova percepção da realidade e potencia-lizou a expressão de diversas artes. Vários tipos de drogas passaram a ser utilizados pelos jovens da época. Como mais populares estavam a maconha e o haxixe, segui-das do ácido lisérgico ou LSD que tem efeitos alucinógenos e proporciona aos usuá-rios um estado geral de euforia e liberdade, sentimentos harmônicos com a transfor-mação de valores desta época.
mercado americano, que por meio de empresas multinacionais divulgava esta cultura para países do mundo inteiro através dos discos, do rádio, da televisão e do cinema. Neste período, o consumo de drogas como maconha, LSD, anfetaminas, mes-calina, cocaína e mesmo heroína gozou de alta expressiva e gerou o aumento do mercado ilícito de drogas nos Estados Unidos e em outros países da Europa e da América Latina. Diante deste aumento substancial do uso e comercialização de dro-gas ao redor do mundo elaborou-se um conjunto de regras e normas internacionais, sistematizadas no documento da Convenção Única da Organização das Nações Uni-das (ONU) sobre as drogas, realizada em Nova York em 1961. De acordo com dados do IMESC (2015), esta convenção teve como objetivo combater o uso, a produção e a comercialização de drogas, por meio de ações internacionais coordenadas e do es-tabelecimento de medidas de controle e fiscalização. Previa sanções penais para posse e tráfico de drogas e recomendava que o tratamento médico fosse ampliado de modo a estimular a reabilitação dos ditos toxicômanos.
A convenção de 1961 foi complementada pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971, que estabelece um sistema internacional de controle, em res-posta à expansão e diversificação do número de substâncias psicoativas então co-mercializadas. Esta convenção cria formas de controle sobre as drogas sintéticas e as classifica com base em suas propriedades terapêuticas e em seu potencial de gerar dependência (IMESC, 2015). Neste prisma, a força política destas duas convenções consagrou o proibicionismo como forma primordial ao lidar com a questão das drogas e serviu como sustentáculo de uma série de mecanismos de repressão ao tráfico nos Estados Unidos e nos demais países signatários destas convenções. Confirmando este posicionamento foi realizada em 1988, na cidade de Viena, a Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e de Substâncias Psicotrópicas.
O recurso da legitimidade médica era utilizado como justificativa para conde-nar e lançar no mercado ilegal substâncias psicoativas procuradas principal-mente por motivos lúdicos ou hedonistas. Com isso, uma faixa da população dos EUA, composta por contestadores, pacifistas e adeptos em geral da psi-codelia, ficou vulnerável à ação repressiva do Estado (RODRIGUES, 2012, p.35).
à opressão de determinados estratos sociais, ou seja, drogas que estavam associadas a modos de vida alternativos à sociedade de consumo.
Em oposição aos ideais igualitários destes membros da contracultura, liberais e segmentos da esquerda, a partir dos anos 1970, consolidaram-se os parâmetros da economia pautada na primazia do mercado financeiro e do comércio e indústria trans-nacional. Mediante fortalecimento das indústrias e empresas multinacionais, os países ricos resolviam seus problemas básicos de falta de mão de obra e de matéria-prima, desencadeando um processo que diminuiu expressivamente a autonomia dos países pobres em relação aos seus projetos de crescimento político, social e econômico.
Surge daí o movimento yuppie, ligado ao consumismo e à busca de uma rápida ascensão social. Atrelado ao ritmo frenético dos circuitos do mercado financeiro, este movimento fez ressurgir o interesse em uma droga propagada por aumentar a capa-cidade intelectual e diminuir o cansaço. Nas palavras de Rodrigues (2012, p. 44), “considerada a droga yuppie, a cocaína agia como uma super droga da sobriedade, substância adequada para uma ética do trabalho que exigia energia, jovialidade e pro-dutividade”. Este tipo de droga estimulante demonstrava se encaixar com precisão à voracidade e velocidade do mercado financeiro.
A figura do “yuppie’’ especulando destemidamente com vista a ganhos fabu-losos e, sobretudo, imediatos, contrasta assim singularmente com a figura bucólica do “hippie”, da mesma forma que os efeitos da cocaína contrastam com aqueles da maconha, para citar apenas estas duas drogas paradigmáti-cas (BUCHER, 1992, p. 117).
Entre os anos 1970 e os 1980 a cocaína passou a ser também uma droga de grande interesse da sociedade americana nos primeiros tempos do proibicionismo. Considerada o “champanhe” ou o “caviar” das drogas, reapareceu como a substância psicoativa de preferência das elites americanas, como músicos, atores de cinema e de teatro, profissionais de comunicação, além de empresários, executivos e políticos em busca de prazer e prestígio.