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GUERRA REVERSA: CONTRACULTURA, DROGAS E PSICODELIA

Mapa 4 – Rendimento mensal médio – Fortaleza-CE

1.4 GUERRA REVERSA: CONTRACULTURA, DROGAS E PSICODELIA

O período posterior à Segunda Guerra Mundial foi marcado pelo avanço sem precedentes de novas tecnologias armamentistas e pela superioridade econômica dos Estados Unidos, em detrimento da maioria das nações. Tanto a “conquista do espaço” quanto o aprimoramento da tecnologia nuclear tiveram forte influência no advento da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, ao demarcar simbolicamente a superioridade destes dois países e a divisão mundial entre países desenvolvidos do hemisfério norte e países subdesenvolvidos do hemisfério sul.

Para além destes conflitos indiretos, em face da inviabilidade de vitória em uma batalha nuclear, o apoio técnico e financeiro às diversas ditaduras militares na Amé- rica Latina e a Guerra do Vietnã são exemplos de conflitos armados que impulsiona- ram uma rápida ascensão dos Estados Unidos como potência política, militar e eco- nômica. Segundo Guimarães (1997, p. 07), o sentimento de patriotismo americano era intensamente propagado pela mídia, influenciando “guerras travestidas de mis- sões civilizatórias e a expansão do capitalismo travestida de missão desenvolvimen- tista e anticomunista”.

Apesar da supremacia alcançada pela expansão produtiva e econômica, o con- sumismo exagerado e o moralismo rígido da sociedade americana causaram reações dos jovens contra este modelo de sociedade. De acordo com Guimarães (1997), transformações abruptas eclodiram mediante a insatisfação com o sistema capitalista ocidental, ou mesmo diante da percepção da opressão e da burocratização do modelo antagônico, o socialismo tradicional. Numa perspectiva contrária ao comportamento conservador, houve o crescimento do movimento feminista, homossexual e negro, marcando o posicionamento destes segmentos a favor da expansão dos direitos civis das minorias e promovendo a aproximação com as populações marginalizadas da sociedade americana.

Conforme Paes (2004), na década de 1960 começam a eclodir os movimentos contraculturais beat e hippie, que entendiam a experiência de uso de substâncias psi- coativas como forma de contestação às normas e valores vigentes na época, princi- palmente na sociedade americana. Eram movimentos que promoviam a liberdade de expressão e a liberdade sexual como modo de se contrapor a valores autoritários da classe média, tais como ascensão social, racismo, moralismo e patriotismo. Como observado, a expressa recusa aos valores tradicionais da sociedade americana pro- vocou uma verdadeira revolução nos costumes e nos comportamentos individuais.

Desta forma o jovem se rebelou através daquilo que ele tinha o máximo de controle possível: do seu próprio corpo, de seus ideais, da sua forma de vestir e se comportar perante o mundo. Um dos movimentos em que esta revolução é mais evidente é o movimento hippie, que surge nos Estados Unidos na dé- cada de 1960, junto a outras manifestações artísticas, como festivais, shows em praças públicas, reivindicações culturais contra a guerra, etc. Os seus adeptos usavam do prazer momentâneo como forma de rebeldia: o uso em demasia de drogas e o sexo livre (GUIMARÃES, 1997, p. 8).

A busca de conhecimento de si mesmo e a possibilidade de convivência com pessoas de culturas diversas propiciou uma nova percepção da realidade e potencia- lizou a expressão de diversas artes. Vários tipos de drogas passaram a ser utilizados pelos jovens da época. Como mais populares estavam a maconha e o haxixe, segui- das do ácido lisérgico ou LSD que tem efeitos alucinógenos e proporciona aos usuá- rios um estado geral de euforia e liberdade, sentimentos harmônicos com a transfor- mação de valores desta época.

No ápice dos movimentos contraculturais, os estilos de vestir, as artes, as mú- sicas e todo o contexto de reivindicação foram apropriados pelos grandes meios de comunicação, os quais passaram a veicular e “vender” esta imagem estereotipada da juventude. Em poucos anos este estilo de vida tornou-se objeto de lucratividade no

mercado americano, que por meio de empresas multinacionais divulgava esta cultura para países do mundo inteiro através dos discos, do rádio, da televisão e do cinema. Neste período, o consumo de drogas como maconha, LSD, anfetaminas, mes- calina, cocaína e mesmo heroína gozou de alta expressiva e gerou o aumento do mercado ilícito de drogas nos Estados Unidos e em outros países da Europa e da América Latina. Diante deste aumento substancial do uso e comercialização de dro- gas ao redor do mundo elaborou-se um conjunto de regras e normas internacionais, sistematizadas no documento da Convenção Única da Organização das Nações Uni- das (ONU) sobre as drogas, realizada em Nova York em 1961. De acordo com dados do IMESC (2015), esta convenção teve como objetivo combater o uso, a produção e a comercialização de drogas, por meio de ações internacionais coordenadas e do es- tabelecimento de medidas de controle e fiscalização. Previa sanções penais para posse e tráfico de drogas e recomendava que o tratamento médico fosse ampliado de modo a estimular a reabilitação dos ditos toxicômanos.

A convenção de 1961 foi complementada pela Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971, que estabelece um sistema internacional de controle, em res- posta à expansão e diversificação do número de substâncias psicoativas então co- mercializadas. Esta convenção cria formas de controle sobre as drogas sintéticas e as classifica com base em suas propriedades terapêuticas e em seu potencial de gerar dependência (IMESC, 2015). Neste prisma, a força política destas duas convenções consagrou o proibicionismo como forma primordial ao lidar com a questão das drogas e serviu como sustentáculo de uma série de mecanismos de repressão ao tráfico nos Estados Unidos e nos demais países signatários destas convenções. Confirmando este posicionamento foi realizada em 1988, na cidade de Viena, a Convenção contra o Tráfico Ilícito de Entorpecentes e de Substâncias Psicotrópicas.

O recurso da legitimidade médica era utilizado como justificativa para conde- nar e lançar no mercado ilegal substâncias psicoativas procuradas principal- mente por motivos lúdicos ou hedonistas. Com isso, uma faixa da população dos EUA, composta por contestadores, pacifistas e adeptos em geral da psi- codelia, ficou vulnerável à ação repressiva do Estado (RODRIGUES, 2012, p.35).

Como evidenciado, as primeiras preocupações do Departamento de Entorpe- centes Americano (DEA) focalizaram o mercado dos alucinógenos e maconha, cujo uso era muito difundido na época entre os jovens. Estas substâncias psicoativas es- tavam associadas às ideias de comunhão com a natureza, busca do autoconheci- mento, arte, espiritualidade, paz e união, no âmbito de um movimento de contestação

à opressão de determinados estratos sociais, ou seja, drogas que estavam associadas a modos de vida alternativos à sociedade de consumo.

Em oposição aos ideais igualitários destes membros da contracultura, liberais e segmentos da esquerda, a partir dos anos 1970, consolidaram-se os parâmetros da economia pautada na primazia do mercado financeiro e do comércio e indústria trans- nacional. Mediante fortalecimento das indústrias e empresas multinacionais, os países ricos resolviam seus problemas básicos de falta de mão de obra e de matéria-prima, desencadeando um processo que diminuiu expressivamente a autonomia dos países pobres em relação aos seus projetos de crescimento político, social e econômico.

Surge daí o movimento yuppie, ligado ao consumismo e à busca de uma rápida ascensão social. Atrelado ao ritmo frenético dos circuitos do mercado financeiro, este movimento fez ressurgir o interesse em uma droga propagada por aumentar a capa- cidade intelectual e diminuir o cansaço. Nas palavras de Rodrigues (2012, p. 44), “considerada a droga yuppie, a cocaína agia como uma super droga da sobriedade, substância adequada para uma ética do trabalho que exigia energia, jovialidade e pro- dutividade”. Este tipo de droga estimulante demonstrava se encaixar com precisão à voracidade e velocidade do mercado financeiro.

A figura do “yuppie’’ especulando destemidamente com vista a ganhos fabu- losos e, sobretudo, imediatos, contrasta assim singularmente com a figura bucólica do “hippie”, da mesma forma que os efeitos da cocaína contrastam com aqueles da maconha, para citar apenas estas duas drogas paradigmáti- cas (BUCHER, 1992, p. 117).

Entre os anos 1970 e os 1980 a cocaína passou a ser também uma droga de grande interesse da sociedade americana nos primeiros tempos do proibicionismo. Considerada o “champanhe” ou o “caviar” das drogas, reapareceu como a substância psicoativa de preferência das elites americanas, como músicos, atores de cinema e de teatro, profissionais de comunicação, além de empresários, executivos e políticos em busca de prazer e prestígio.

A imagem da cocaína como uma droga discreta e elegante começava a circular em revistas, livros e filmes, e seu consumo era disseminado como um símbolo de êxito. Olmo (1990) refere o surgimento da indústria ligada à “parafernália” da cocaína, visto que objetos utilizados para facilitar o consumo, como colherinhas, cigarros, ba- lanças, foram difundidos em diversos meios de comunicação e viraram fetiche, contri- buindo para o aumento da demanda e consequente expansão da produção e maior organização do mercado.

Por ter conquistado o status de “droga das elites”, a cocaína tornou-se um pro- duto bastante desejado. Usada de forma social ou recreacional, era considerada uma “droga leve”, um estimulante que aparentemente não causava prejuízos à saúde de seus consumidores. De modo geral, esta substância costuma provocar um efeito de agitação intensa e euforia, deixando os usuários autoconfiantes e desejosos de se movimentar, falar, trabalhar e produzir.

A cocaína é um estimulante poderoso que deixa o sistema nervoso central em estado de alerta, comparável a um estado de alta-tensão – em oposição ao stress da vida cotidiana, comparável a um estado de baixa-tensão, desar- mando o indivíduo e inibindo uma série de iniciativas das quais dependem o seu desempenho, o seu sucesso, a sua carreira (BUCHER, 1992, p. 116).

A cocaína volta com força total ao mercado americano, e passa a representar um objeto de fetiche, marcado subjetivamente pela satisfação imediata de desejos. Droga que simboliza em última instância riqueza e pujança das elites americanas, atrelada à imagem de prosperidade e à busca hedonista do prazer. Neste sentido, era vista como uma substância totalmente integrada ao sistema de produção, propiciando autoestima, estímulo à ambição e energia para as pessoas bem-sucedidas. Esta situ- ação é abordada por Gonçalves (2013, p. 65), quando remete à relação intrínseca entre drogas e consumo, tendo em vista “ o discurso capitalista e sua promessa de obtenção de gozo irrestrito através do consumo de objetos, que devem estar a todo tempo disponíveis, acessíveis”.