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1.3 DE REMÉDIO A VENENO: CONSEQUÊNCIAS ADVERSAS DA
A expansão sem precedentes do consumo e da comercialização de substân- cias comestíveis e até mesmo psicoativas ao redor do mundo proporcionou a aquisi- ção de novos hábitos, gostos e costumes no início do século XX. De acordo com Car- neiro (2005), plantas com sabores e efeitos exóticos, com as quais os europeus não guardavam nenhuma identidade cultural, eram constantemente utilizadas, estudadas e manipuladas, no intento de extrair seus princípios ativos e potencializar seus efeitos. Como o autor afirma, uma espécie de “entorpecimento” se fazia necessário para lidar
com as infindáveis mudanças na transição para a vida urbana e industrializada, tor- nando-se frequentes os excessos no emprego destas substâncias.
Do outro lado do oceano outra substância psicoativa, o ópio, tinha uma influên- cia crescente no mercado e também passava a ser alvo de controvérsias por sua crescente utilização. Neste âmbito, um dos fatos marcantes do início do século XIX foi a Inglaterra, em plena Revolução Industrial, quando buscava avidamente mercados consumidores para seus produtos industrializados, ter esbarrado em medidas prote- cionistas que dificultavam o acesso dos britânicos ao amplo mercado consumidor chi- nês. Como forma de ampliar o comércio de mercadorias com este país, os ingleses passaram a vender ilegalmente para os chineses o ópio cultivado na Índia (que na- quele período era uma colônia britânica).
Segundo Frèches (2008), os ingleses passaram a vender toneladas de ópio para a China e seu consumo se alastrava com consequências bastante danosas para a população. Na tentativa de coibir este comércio ilegal, o governo imperial chinês determinou a destruição de um carregamento de ópio inglês em 1839. Por considerar o ataque uma grande afronta, o governo britânico ordenou uma invasão armada à China e, assim, deu início à Primeira Guerra do Ópio. A China foi derrotada em 1842, quando se impôs o Tratado de Nanquim, o qual a obrigava a abrir cinco portos ao livre comércio com a Inglaterra e pagar indenização de guerra. A China também teve de ceder a posse do território de Hong Kong aos britânicos. Tal concessão perdurou até 1997.
De acordo com Frèches (2008), em virtude dos chineses não respeitarem algu- mas cláusulas do Tratado de Nanquim, entre os anos de 1856 e 1860 aconteceu a Segunda Guerra do Ópio, ocasião em que os britânicos resolveram atacar novamente, desta vez com a ajuda de aliados franceses e irlandeses. Mais uma vez, em 1860, a China foi derrotada e teve de se submeter ao Tratado de Tianjin, que estipulava a abertura de dez portos chineses ao comércio internacional; a liberdade de estrangei- ros para viajar e fazer comércio na China; a garantia de liberdade religiosa aos cristãos em território chinês e o pagamento de pesadas indenizações de guerra para Inglaterra e França.
Na virada do século XX, diante da liberalização forçada do comércio de ópio na China, grande porcentagem da população masculina deste país tinha problemas rela- cionados ao consumo desta substância, a qual, por suas propriedades entorpecentes,
levava a população a uma apatia e consequente sujeição aos ditames europeus. Em- bora o incentivo ao uso de ópio na China tenha aberto um extenso mercado consumi- dor, passou a provocar reações negativas na política e na opinião pública mundial, sendo este comércio desaprovado até mesmo entre os membros da própria sociedade inglesa.
Em todas as sociedades existem formas de controle do uso de substâncias psicoativas, no entanto enquadrar o hábito como patologia e tipificar sua comerciali- zação como ilegal foi um fenômeno relativamente recente na história da humanidade. Como refere Scheerer (1993), no início do século XX existia um conflito geopolítico entre os Estados Unidos e a Inglaterra, ainda mais acirrado no extremo Oriente pela questão do ópio. Estes países tanto divergiam no estilo político-econômico, com o colonialismo tradicional de um lado e o capitalismo moderno do outro, como no tocante aos interesses no controle internacional dos lucros pertinentes ao ópio e seus produ- tos derivados como a morfina.
Os Estados Unidos tentavam adentrar o restrito rol das nações industrializadas, e ao vencer a Guerra Hispano-Americana em 1898, obteve como recompensa a posse dos territórios de Cuba e Porto Rico do Caribe e das Filipinas na Ásia. Quando assu- miram a administração das Filipinas, os americanos ficaram alarmados com o con- sumo local de ópio. Neste sentido, em 1915, aprovaram uma lei que impedia toda importação e venda de ópio, com fins não medicinais, pelo período transitório de três anos naquele país.
Segundo Rodrigues (2008), esta lei era mais rígida do que as que vigoravam em território norte-americano, pois somente em 1906 foi promulgada uma lei ameri- cana intitulada Pure Food and Drug Act. Esta foi a primeira lei federal americana a regulamentar alimentos e medicamentos, exigindo a rotulagem de medicamentos pa- tenteados que continham substâncias consideradas “perigosas”, tais como álcool, morfina e ópio. Mencionada lei, contudo, não chegava a proibir a comercialização des- tas substâncias, apenas tentava regular a oferta desses produtos em seu território.
A iniciativa americana de proibição da comercialização de ópio nas Filipinas entusiasmou as autoridades chinesas, de modo a iniciar as conversações entre os dois países. A partir destes interesses recíprocos foram traçadas as primeiras regula- mentações internacionais acerca da comercialização de opiáceos. De acordo com Ro- drigues (2008), foram criadas a Comissão Filipina do Ópio em 1903 e a Comissão de
Xangai de 1909, ambas precursoras das atuais convenções internacionais voltadas a erradicar ou diminuir significativamente a produção e consumo de drogas psicoativas no mundo, exceto para uso médico e científico. Em 1909, a Comissão Internacional do Ópio orientou os demais países a tomar medidas drásticas em seu território para o controle da produção, da venda e da distribuição do ópio e seus derivados, em espe- cial a morfina, cujo consumo alastrava-se no período.
No ano de 1909, claramente, o governo dos Estados Unidos foi conclamado pela delegação chinesa em Xangai para liderar “a grande cruzada moral do século XX” em nome da “eterna lei do céu”, assim como da “consciência cristã”, posicionando-se pela imediata e total proibição do uso não médico do ópio (WISSLER, 1931 apud SCHEERER, 1993, p. 172).
Os encontros realizados em Xangai se limitaram a um acordo internacional para interromper as exportações anglo-indianas de ópio para a China e seus vizinhos, libe- rando o mercado chinês do monopólio inglês de comercialização de ópio e morfina. Foi um encontro com recomendações genéricas e de caráter não compulsório, no en- tanto, eram marcantes as características embrionárias do proibicionismo, ou seja, a promoção da ideia de ilegalidade do uso de substâncias com fins recreativos, ritualís- ticos, terapêuticos ou tradicionais, enfatizando a defesa da sua utilização restrita ao uso médico-científico.
No intuito de oficializar as resoluções adotadas em Xangai, o governo ameri- cano lançou a proposta da Conferência de Haia, na Holanda em 1912. Conforme Ro- drigues (2008), esta foi a primeira conferência internacional de caráter compulsório, tendo como prioridade a discussão sobre o ópio e seus derivados. Neste período a cruzada moral liderada pelos Estados Unidos maculou seriamente a reputação inglesa nos círculos diplomáticos e na opinião pública mundial. Deste modo, foi rechaçado o comércio do ópio na China.
Como afirma Scheerer (1993), na perspectiva de amenizar a imagem negativa de comercializar um produto prejudicial a milhares de pessoas, a Inglaterra conseguiu incluir na discussão da Conferência de Haia a proposta de proibição de outros alca- loides industrializados, dentre estes a cocaína. Com tal acréscimo na pauta da Con- ferência de Haia, os debates mais importantes passaram a orbitar em torno dos alca- loides em geral, superando a discussão sobre o ópio e o povo chinês. Diante desta engenhosa manobra política a Inglaterra conseguiu amenizar sua culpa e dividir seu estigma com as demais nações industrializadas.
Forçada pela Inglaterra, a inclusão na agenda da proibição dos alcaloides in- dustrializados ameaçou interesses das indústrias farmacêuticas, sobretudo na Alema- nha, principal rival econômico da Inglaterra e que lucrava com a exportação de produ- tos farmacêuticos. O Império Alemão orgulhava-se da sua indústria química, sendo o maior exportador de cocaína nos anos que precederam a Primeira Guerra Mundial, “com uma produção média de cocaína de 9.000 kg, comparada a uma produção de 1.220 kg da Holanda e menos de 500 kg da França e Inglaterra” (WISSER, 1931 apud SCHEERER, 1993, p. 174).
Naquela época, a Alemanha não estava às voltas com problemas advindos do uso da cocaína e nem promovia qualquer obstrução interna a este comércio, pois a cocaína e a morfina eram reconhecidas como medicamentos e gozavam de uma ima- gem imaculada na Europa. Esta situação mudou quando a Alemanha foi derrotada na Primeira Grande Guerra Mundial, ocorrida entre os anos de 1914 e 1918, tendo de se submeter aos ditames da Convenção Internacional do Ópio (assinada em Haia em 1912 e posta em vigor em 1919). Neste período a Alemanha perdeu força política para se contrapor às imposições internacionais de proibição da cocaína.
Por sua vez, os americanos elegiam algumas substâncias e seus usuários como problemáticos, associando o uso de determinadas drogas aos trabalhadores pobres, de minorias éticas. Segundo Rodrigues (2008), o estigma foi atribuído inicial- mente aos imigrantes chineses, trabalhadores da construção de estradas de ferro no oeste dos Estados Unidos que consumiam ópio. Já o hábito de fumar marijuana ou maconha era atribuído aos latinos, geralmente mexicanos que imigravam em massa para os Estados Unidos, e o hábito de consumir bebidas alcoólicas aos imigrantes irlandeses. Também o hábito de cheirar cocaína foi propalado nos jornais americanos como um estímulo para a prática de crimes. Entre 1900 e 1920, publicou-se uma série de reportagens associando o uso de cocaína a crimes hediondos cometidos por ne- gros. O hábito de cheirar ou aspirar a substância era considerado restrito aos negros, os quais por não disporem de recursos suficientes para comprar seringas, faziam uso diferenciado dos médicos e advogados, que utilizavam a droga de forma injetável.
A discussão sobre a proibição do uso de substâncias psicoativas nos Estados Unidos era acalorada entre grupos sociais e religiosos que vislumbravam o fecha- mento dos bares e saloons, espaços que concentravam jogo, prostituição e consumo de álcool e outras substâncias, sendo o álcool um dos principais alvos das cruzadas
puritanas. Segundo Rodrigues (2008, p. 93), o maior objetivo era a defesa da morali- zação do país e com tal objetivo eram necessárias “medidas legais que pusessem em marcha políticas de repressão às práticas tidas como imorais ou corruptoras das vir- tudes puritanas: comedimento, castidade, sobriedade e religiosidade”.
De acordo com Rodrigues (2008), por pressões destes influentes grupos e com base na conferência internacional capitaneada pelos Estados Unidos, foi aprovado em 1914 o Harrison Narcotic Tax Act, lei federal americana que regulamentava e tributava a produção, importação e distribuição de ópio e folhas de coca, seus sais e derivados. Neste período a cocaína tinha status legal quanto à sua distribuição e comercialização entre profissionais, empresas e corporações, desde que fosse cadastrada e tributada. Médicos, dentistas e veterinários deveriam manter um registro dos medicamentos uti- lizados e das pessoas que os utilizavam pelo período de dois anos.
O controle e regulamentação do uso de drogas foi parte fundamental da con- solidação da autoridade médica no século XIX e princípio do XX, período em que se cristaliza no ocidente quais são os usos legítimos (pois baseados na ciência médica ocidental) e quais são os ilegítimos (práticas tradicionais ou que escapem, de algum modo, aos cânones médicos). Quando o Estado en- tra nesse debate, a fixação de leis define o “cientificamente legítimo” como legal e o “cientificamente ilegítimo” como ilegal (RODRIGUES, 2008, p. 97).
Durante aquele tempo, a palavra “narcótico”, referente às substâncias que fa- zem adormecer ou entorpecer, passou a ser um termo genérico atribuído às diversas substâncias proibidas ou que poderiam ser usadas somente com prescrição médica. Vale salientar que a cocaína não tem características entorpecentes; ao contrário, é um estimulante do sistema nervoso central que passou a ser juridicamente referido como narcótico, independente das suas propriedades farmacológicas.
Nas primeiras décadas do século XX, com a expansão sem precedentes da industrialização e da modernização do capitalismo, o novo crime de tráfico e consumo de drogas ilegais como a cocaína e a morfina foi automaticamente relacionado às crescentes populações urbanas, em geral pobres e imigrantes, acusadas de uso ex- cessivo de álcool e outras drogas, de insubmissão, de falta de higiene e de degene- ração moral e física. Com o incremento do uso e comercialização ilegais o problema das drogas ganhou relevância no âmbito da saúde pública, passando a ser entendido como um problema de saúde e, consequentemente, como um caso de polícia, con- clamando os saberes médicos, policiais e jurídicos.
Na Europa, EUA ou Brasil essa massa amedrontadora era conformada por negros, imigrantes e migrantes rurais, socialistas, anarquistas, ladrões, pros- titutas, operários, mulheres, homens e crianças de “hábitos exóticos e não
civilizados”; eram eles a antítese do progresso e das maravilhas do mundo moderno. (RODRIGUES, 2008, p. 96).
O Estado moderno assume como função primordial o controle destes contin- gentes populacionais urbanos. Neste sentido, existe historicamente uma seletividade na criminalização do uso e da venda de drogas, atingindo principalmente determina- das pessoas, etnias e grupos sociais. Então a periculosidade atribuída às substâncias passa a ser imputada às pessoas, como forma de discriminação e afirmação de uma suposta superioridade racial, fundamentada cientificamente pela aliança entre teorias eugênicas europeias e o racismo.
Neste âmbito, o novo crime do uso de drogas passa a ser uma potente estra- tégia de controle social, visto ser um consentimento submeter a população à vigilância constante e intensiva. Assim, a criminalização dos usuários e comerciantes de dro- gas é uma maneira eficiente de invadir a privacidade, fomentando a admissão no sis- tema penitenciário, e posteriormente nos hospitais psiquiátricos, das pessoas que não se adequassem às exigências do sistema capitalista moderno.
Pensar a questão da droga como sinônimo de ilegalidade, vinculada aos efei- tos positivos das drogas legais, contribuindo para o processo normativo de vida social, é revelar a integração entre o jurídico, o policial, o médico, o far- macológico como complexo industrial de manutenção de uma ordem que visa superar os conflitos pela integração dos mesmos (PASSETTI, 1991, p. 46).
Tal como o que ocorreu nos Estados Unidos e se expandiu como modelo mun- dial, o controle das populações ainda constitui uma poderosa estratégia de manuten- ção de processos discriminatórios na sociedade. No entanto, o objetivo de erradicar as drogas e os seus mercados foi assinalado desde o início pela falta de êxito, de- monstrado na expansão de um vigoroso mercado ilícito.
O processo histórico permite entender os conceitos estruturantes do proibicio- nismo e sua organização em prol da manutenção do status quo e da desigualdade social. Amparados em preceitos morais e religiosos da busca da abstinência como ideal, respaldados pelos saberes médico e jurídico, ou mesmo na utopia de um mundo livre das drogas, estes grupos ocupam-se em controlar a circulação de substâncias psicoativas e dos seus usuários. Então, o uso destas substâncias passa a ser enca- rado como crime, as pessoas começam a ter sua privacidade invadida e o Estado se estabelece como agente provedor de segurança pública.
O que era conhecido como o “Problema do Ópio” expandiu-se lentamente com relação ao número de substâncias sob um controle internacional com-
pulsório cooperativo, que se intensificou em termos dos mecanismos de pro- ibição utilizados e gerou o que agora é conhecido como “Guerra às drogas”. (SCHEERER, 1993, p. 170).
Como evidenciado, as leis que estabeleceram a interdição sobre as drogas e seus mercados, idealizadas principalmente pelos Estados Unidos, foram formalizadas nas convenções internacionais durante todo o século XX e se expandiram, sobretudo nos países ocidentais, fazendo com que a política proibicionista se instituísse ao redor do mundo. Neste prisma, a guerra às drogas pode ser atualmente pensada, de acordo com Wacquant (2004), nos marcos deste fortalecimento de um Estado que deixou de ser de “bem-estar” e passa a ser “penal”, criminalizando explicitamente os mais po- bres.
Com a pressão moralista e os ditames jurídicos contra as drogas criou-se uma regulamentação que, ao invés de erradicar hábitos, potencializou uma extensa comer- cialização ilegal destas substâncias. Esta dinâmica repressiva remete à reflexão de como a criminalização de um comportamento pode gerar prejuízos mais intensos que o comportamento em si.