Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 737.824 - CE (2005/0034186-5)
RELATORA : MINISTRA LAURITA VAZ
RECORRENTE : ELIEZER DE OLIVEIRA MOTA (PRESO)
ADVOGADO : FRANCISCO APRIGIO DA SILVA
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ EMENTA
RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSUAL PENAL.
HOMICÍDIO QUALIFICADO. DIVERGÊNCIA NÃO COMPROVADA.
TRIBUNAL DO JÚRI. PLENITUDE DE DEFESA. ART. 482 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. RÉU NÃO APRESENTOU TESE DE LEGÍTIMA DEFESA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. IRREGULARIDADE NA QUESITAÇÃO. MOMENTO OPORTUNO APÓS AS EXPLICITAÇÕES DO JUIZ-PRESIDENTE. PRECLUSÃO.
1. A sugerida divergência não foi demonstrada na forma preconizada nos arts. 541, parágrafo único, do Código de Processo Civil e 255, §§ 1.º e 2.º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça.
2. O direito à plenitude de defesa é garantido aos Réus submetidos ao Tribunal do Júri, cabendo ao magistrado incluir no questionário tese levantada pelo Réu no momento de seu interrogatório, ainda que não apresentada pela defesa técnica, sob pena de nulidade, nos termos do art. 484, inciso III, do Código de Processo Penal (com redação anterior à vigência da Lei n.º 11.689/2008) e por força do art. 482, parágrafo único, do referido estatuto.
3. No entanto, no caso em comento, não se observa do interrogatório do Réu qualquer tese relativa à legítima defesa, o que afasta a impugnação de nulidade por ausência de quesito obrigatório.
4. Hipótese em que as demais alegações relativas à formulação dos quesitos constituiriam mera irregularidade sem aparente prejuízo para a defesa e, como não foram suscitadas no momento oportuno, tornaram-se preclusas.
5. Recurso parcialmente conhecido e, nessa parte, desprovido.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, conhecer parcialmente do recurso e, nessa parte, negar-lhe provimento. Os Srs. Ministros Arnaldo Esteves Lima, Jorge Mussi e Felix Fischer votaram com a Sra. Ministra Relatora.
Ausente, justificadamente, o Sr. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho.
Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Jorge Mussi.
Brasília (DF), 19 de novembro de 2009 (Data do Julgamento)
MINISTRA LAURITA VAZ
Relatora
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 737.824 - CE (2005/0034186-5)
RECORRENTE : ELIEZER DE OLIVEIRA MOTA (PRESO)
ADVOGADO : FRANCISCO APRIGIO DA SILVA
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO CEARÁ RELATÓRIO
A EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ:
Trata-se de recurso especial interposto por ELIEZER DE OLIVEIRA MOTA, com fundamento no art. 105, inciso III, alíneas a e c, da Constituição Federal, em face de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Ceará.
Extrai-se dos autos que o Ministério Público Estadual denunciou o ora Recorrente, sob a acusação de, no dia 10/04/1995, ter efetuado disparos de arma de fogo, de forma inesperada e por motivo torpe, contra Kleber Cavalcante Nasar, namorado de sua filha, causando-lhe a morte (fls. 05/06), como se vê dos seguintes trechos:
"Na manhã do evento, a vítima se encontrava nas proximidades de um telefone público, com a finalidade da fazer uma ligação, nas imediações da mercearia de dona Inês de Oliveira Gomes, quando ali surge o denunciado, já de arma em punho, e afirmando para KLEBER: 'taqui o que eu lhe prometi', cachorro, e incontinenti desfechando o primeiro balázio, oportunidade em que o lesionado gritou: 'aí meu Deus, o que é isso?', procurando correr, mas ELIEZER fez outro disparo, acertando-lhe mortalmente.
A inditosa vítima veio a falecer no interior de outra mercearia próxima da que se encontrava.
O motivo do homicídio reside no fato da vítima namorar com uma filha do denunciado, o que não era de seu gosto." (fl. 06)
Em seguida, o Réu foi pronunciado como incurso no art. 121, § 2.º, incisos I (motivo torpe) e IV (surpresa), do Código Penal (fls. 170/173).
Por sua vez, o Conselho de Jurados acatou a tese defensiva de violenta emoção e condenou o réu por homicídio privilegiado. A pena privativa de liberdade restou fixada em 03 (três) anos e 08 (oito) meses, em regime aberto (fls. 266/267).
Inconformado, o Parquet apelou, alegando que o julgamento foi contrário às provas dos autos. O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, por unanimidade, deu provimento ao recurso para anular o julgamento e determinar a realização de novo júri, como se verifica da seguinte ementa:
"PROCESSUAL PENA - APELAÇÃO CRIME - JULGAMENTO
Superior Tribunal de Justiça
PROFERIDO CONTRA A PROVA DOS AUTOS. OCORRÊNCIA.
I - Vítima pega de surpresa no momento em que se encontrava na fila de um telefone público e que ao perceber o perigo imediato tenta escapar correndo, mas alcançada e morta, esboçando como atitude defensiva 'clamar por Deus', afasta a possibilidade do crime ter ocorrido a pretexto da violenta emoção, máxime pela falta de imediatidade entre a ação do apelado e os fatos pretéritos alentadores do raptus emocional invocado, circunstância que aparta a incidência do privilégio acolhido pelo desavisado Conselho de Sentença.
II - Apelo desprovido. Acórdão Unânime." (fl. 316)
Por ocasião da nova Sessão de Julgamento pelo 2.º Tribunal do Júri da Comarca de Fortaleza/CE - Fórum Clóvis Beviláqua, o Réu foi condenado à pena de 13 anos de reclusão, como incurso no art. 121, § 2.º, incisos I e IV, do Código Penal.
A defesa apelou, pleiteando que o Réu fosse submetido a um novo julgamento, o que restou desprovido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, em decisão assim ementada:
"PROCESSUAL PENAL. JÚRI. NULIDADE POSTERIOR À PRONÚNCIA. NULIDADE DE QUESITOS. INEXISTÊNCIA. NULIDADE RELATIVA. PROTESTO OPORTUNO. INOCORRÊNCIA. PRECLUSÃO.
INEXISTÊNCIA DE PREJUÍZO. DECISÃO MANTIDA.
I - Os quesitos a serem formulados ao Conselho de Sentença devem ser aqueles relativos às teses defensivas apresentadas pelo defensor em Plenário, sendo vedado ao Juiz-Presidente formular quesito, de ofício, relativo à tese de defesa decorrente apenas das declarações do réu quando de seu interrogatório.
II - Todas as demais nulidades levantadas não causaram perplexidades nas respostas dos jurados, nem sequer prejuízo à defesa, vez que não houve influência na verdade substancial e reflexo na decisão da causa, bem como, em princípio, as nulidades relativas ou até mesmo as meras irregularidades devem ser suscitadas na própria sessão do Tribunal do Júri, logo após ocorrerem, sob pena de preclusão (art. 571, VIII do CPP).
III - Apelo conhecido, mas improvido. Decisão mantida.
IV - Unânime." (fl. 411)
Em face do julgamento, a defesa interpôs o presente recurso especial.
Sustenta, em suma, violação aos arts. 121, § 2.º, do Código Penal; 564, parágrafo único e 593, inciso III, alíneas a, b, c e d, ambos do Código de Processo Penal, além de dissídio jurisprudencial.
Alega, em primeiro lugar, que "embora em sede e autodefesa tivesse reiterado
suas declarações anteriores, tocante ao primeiro julgamento em plenário (fls. 328/330), no
Superior Tribunal de Justiça
qual alegava legítima defesa de terceiro, agora, por ocasião do segundo interrogatório, também em plenário, Sua Excelência o Juiz-Presidente, achou desnecessário qualquer quesitação a respeito. Como é de pública sabença o interrogatório constitui um dos momentos mais expressivos a autodefesa, e se o acusado, nesse ato, manifesta alguma posição defensiva, é evidente que o Juiz-Presidente deve levá-la em conta mesmo em face da inércia ou da omissão da defesa técnica" (fl. 424).
O segundo argumento refere-se à formulação dos quesitos, pois o magistrado
"ao perguntar a estes, no quesito número três, se 'o réu agiu sob o domínio de violenta emoção logo em seguida à injusta provocação da vítima?', deslembrou-se de formular o quesito alternativo 'ou sob influência de violenta emoção, provocada por ato injusto da vítima": É que tratando-se de circunstâncias subjetivas, a mesma afastaria a qualificadora do motivo torpe, por sua vez, também é de natureza subjetiva" (fl. 426, sic).
Argumenta que o quesito n.º 04, acerca do motivo torpe, deve ser anulado, já que não se explicitou o conceito jurídico do termo para o Júri Popular. Da mesma forma, alega o quesito n.º 05 seria deficiente, pois "não se pergunta aos jurados 'se o réu agiu de surpresa...! Está se afirmando que o réu agiu de surpresa', para após questionar 'se este recurso impossibilitou a defesa da vítima'" (fl. 428).
Questiona, ainda, o motivo de não ter sido aplicada a atenuante prevista no art.
66 do Código Penal, já que a perseguição sofrida pelo Réu e pela sua família deve ser considerada atenuante genérica-inominada.
Por fim, apesar da sentença afirmar que as teses defensivas foram refutadas, aponta que a pretensa desclassificação para homicídio simples não foi objeto de quesitação, nem a possibilidade de classificar o homicídio como privilegiado-qualificado.
Dessa forma, pleiteia a anulação do julgamento, devendo o Réu ser submetido a novo Tribunal do Júri.
Sem Contrarrazões (fl. 440).
O Ministério Público Federal, muito embora na ementa tenha se manifestado equivocadamente pelo provimento do inconformismo, ao final de seu seu parecer à fl. 461, opinou pelo desprovimento do recurso especial. Confira-se a ementa do parecer:
"RECURSO ESPECIAL. CRIMINAL. DISSÍDIO
JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADO. NÃO CONHECIMENTO PELA ALÍNEA “C”. ARTIGO 593, INCISO III, ALÍNEAS “B”, “C” E “D”.
AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. JÚRI. NULIDADE APÓS A
Superior Tribunal de Justiça
PRONÚNCIA. PRECLUSÃO. DEFICIÊNCIA DOS QUESITOS. NÃO
OCORRÊNCIA. TESE LEVANTADA SOMENTE PELO RÉU NO
INTERROGATÓRIO. DESNECESSIDADE DE INCLUSÃO NOS QUESITOS FORMULADOS PELO JUIZ-PRESIDENTE. PELO CONHECIMENTO PARCIAL E, NESSA EXTENSÃO, PELO PROVIMENTO.
- Não merece conhecimento, pela alínea “c” do permissivo constitucional, o recurso especial que não demonstra o dissídio jurisprudencial existente, nos moldes previstos no Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça.
- Se a tese referente à violação ao artigo 593, inciso III, alíneas “b”,
“c” e “d”, não foi enfrentada sequer implicitamente pelo Tribunal a quo, o recurso não pode ser conhecido pela ausência de prequestionamento.
Incidência das Súmulas n.º 282 e 356 do STF, aplicáveis à espécie.
- A nulidade ocorrida após a pronúncia do réu, em relação às irregularidades na formulação dos quesitos, deve ser argüida, pela defesa, após a leitura destes na Sessão de Julgamento do Tribunal do Júri, sob pena de preclusão.
- Não é necessário a formulação de quesitos ao Júri acerca da tese levantada pelo réu exclusivamente no seu interrogatório, sendo indispensável, apenas, a quesitação acerca das teses apresentadas pela defesa técnica, em Plenário do Júri. Precedentes do STJ e do STF.
- Não procede a alegação de nulidade dos quesitos formulados pelo Juiz-Presidente, porquanto eventual defeito na quesitação não influenciou a decisão dos jurados.
- Parecer pelo conhecimento parcial do recurso e, nessa extensão, pelo provimento." (fl. 453)
É o relatório.
Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 737.824 - CE (2005/0034186-5)
EMENTA
RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSUAL PENAL.
HOMICÍDIO QUALIFICADO. DIVERGÊNCIA NÃO COMPROVADA.
TRIBUNAL DO JÚRI. PLENITUDE DE DEFESA. ART. 482 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. RÉU NÃO APRESENTOU TESE DE LEGÍTIMA DEFESA. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. IRREGULARIDADE NA QUESITAÇÃO. MOMENTO OPORTUNO APÓS AS EXPLICITAÇÕES DO JUIZ-PRESIDENTE. PRECLUSÃO.
1. A sugerida divergência não foi demonstrada na forma preconizada nos arts. 541, parágrafo único, do Código de Processo Civil e 255, §§ 1.º e 2.º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça.
2. O direito à plenitude de defesa é garantido aos Réus submetidos ao Tribunal do Júri, cabendo ao magistrado incluir no questionário tese levantada pelo Réu no momento de seu interrogatório, ainda que não apresentada pela defesa técnica, sob pena de nulidade, nos termos do art. 484, inciso III, do Código de Processo Penal (com redação anterior à vigência da Lei n.º 11.689/2008) e por força do art. 482, parágrafo único, do referido estatuto.
3. No entanto, no caso em comento, não se observa do interrogatório do Réu qualquer tese relativa à legítima defesa, o que afasta a impugnação de nulidade por ausência de quesito obrigatório.
4. Hipótese em que as demais alegações relativas à formulação dos quesitos constituiriam mera irregularidade sem aparente prejuízo para a defesa e, como não foram suscitadas no momento oportuno, tornaram-se preclusas.
5. Recurso parcialmente conhecido e, nessa parte, desprovido.
VOTO
A EXMA. SRA. MINISTRA LAURITA VAZ (RELATORA):
De início, verifica-se a tempestividade do especial, o cabimento de sua interposição com amparo no dispositivo constitucional, o interesse recursal, a legitimidade e o devido prequestionamento.
No tocante à alínea c do permissivo constitucional, não obstante a tese de dissenso pretoriano, o cotejo analítico não foi efetuado nos moldes legais e regimentais, ou seja, com a transcrição de trechos do acórdão recorrido e paradigma que demonstrem a identidade de situações e a diferente interpretação dada à lei federal, em desobediência aos arts. 541, parágrafo único, do Código de Processo Civil, e 255, §§ 1.º e 2.º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça.
Cinge-se a principal controvérsia acerca da possibilidade do Juiz-Presidente
Superior Tribunal de Justiça
formular quesito relativo à tese defensiva apresentada tão-somente no momento de autodefesa, isto é, no interrogatório do Réu.
Cumpre esclarecer que no Tribunal do Júri prevalece o direito à plenitude de defesa preconizada no art. 5.º, inciso XXXVIII, alínea a, da Carta Maior, in verbis:
"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
omissis
XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados:
a) a plenitude de defesa; "
Como se vê, mais do que a ampla defesa, ao Réu submetido ao Tribunal Popular é assegurada a plenitude de defesa, que abrange defesa técnica, mas também abarca a autodefesa.
Dessa forma, deve-se garantir ao Réu a possibilidade de se defender, ainda que a defesa técnica não tenha se manifestado a respeito da pretensa tese ventilada pelo Réu, é o que se extraía da redação do art. 484, inciso III, do Código de Processo Penal (com a redação dada antes da entrada em vigor da Lei n.º 11.689/2008), verbatim et literatim :
"Art. 484. Os quesitos serão formulados com observância das seguintes regras:
[...]
III – se o réu apresentar, na sua defesa, ou alegar, nos debates, qualquer fato ou circunstância que por lei isente de pena ou exclua o crime, ou o desclassifique, o juiz formulará os quesitos correspondentes, imediatamente depois dos relativos ao fato principal;"
Na antiga redação do artigo, no momento de formulação dos quesitos que seriam apresentados ao Conselho de Sentença, o magistrado deveria se ater às imputações oferecidas no libelo-acusatório, às teses aduzidas pela defesa técnica e pela autodefesa.
Com a vigência da Lei n.º 11.689, 09 de junho de 2008, o art. 482 do estatuto processual passou a tratar do tema, deixando claro, em seu parágrafo único, que os quesitos devem estar vinculados aos termos da pronúncia ou equivalente, do interrogatório e das demais alegações das partes.
Eis a redação do mencionado artigo:
Art. 482. O Conselho de Sentença será questionado sobre matéria de
Superior Tribunal de Justiça
fato e se o acusado deve ser absolvido. (Redação dada pela Lei nº 11.689, de 2008)
Parágrafo único. Os quesitos serão redigidos em proposições afirmativas, simples e distintas, de modo que cada um deles possa ser respondido com suficiente clareza e necessária precisão. Na sua elaboração, o presidente levará em conta os termos da pronúncia ou das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, do interrogatório e das alegações das partes.
Corrobora esse entendimento, o escólio do professor Guilherme de Souza Nucci, que já defendia a formulação dos quesitos com base no interrogatório antes da vigência da Lei n.º 11.689/2008, em trecho transcrito a seguir:
"É preciso ressaltar, novamente, ter o réu direito - dentro da plenitude de defesa que a Constituição lhe assegura - tanto à autodefesa, quanto à defesa técnica. A primeira é exposta no seu interrogatório, diante dos jurados, em grande parte das vezes fruto das anteriores narrativas feitas ao delegado (fase policial) e ao juiz (fase de instrução). A segunda diz respeito às teses levantadas por seu advogado, transformando em linguagem técnica aquilo que representa os fatos alegados pelo réu. Não é demais observar poder haver discrepância entre o aventado pelo réu e por seu defensor técnico. Este não é obrigado a sustentar uma tese que julgue incoerente, somente porque o réu a levantou em seu interrogatório. Fazendo as necessárias retificações, explanará aos jurados o que entende cabível para proporcionar ao seu cliente plena defesa. Entretanto, por outro lado, o alegado pelo acusado não pode ser deixado de lado, sem a menor atenção. Ele também tem direito de ser ouvido pelo juiz presidente e suas alegações precisam transformar-se em quesitos para os jurados apreciarem. Não é porque, à primeira vista, sua narrativa é incoerente com a prova que merece ser desprezada. O defensor, jamais desacreditando ou ofendendo seu próprio patrocinado, pode explicar aos jurados a diferença entre autodefesa e defesa técnica, permitindo diga o réu o que bem entender, na sua ótica, em sua defesa. O magistrado, por seu turno, quesitará o aventado tanto pelo defensor quanto pelo réu." (in Código de Processo Penal. 3.ª ed., RT, 2004, p. 745).
Assim, após a vigência da Lei n.º 11.689/2008, com mais propriedade o doutrinador Guilherme Nucci reafirmou seu posicionamento, como se observa do seguinte fragmento:
"Finalmente, a Lei 11.689/2008 deixou clara a real necessidade de
se levar em consideração o alegado pelo réu em seu interrogatório, como
manifestação legítima e indispensável da sua autodefesa, parcela de um
contexto maior, que é a plenitude de defesa . havia discussão doutrinária e
jurisprudencial se o magistrado deveria incluir no questionário a tese
levantada pelo réu, mas não ratificada pelo defensor. Sempre defendemos que
sim, pois a autodefesa é, também, parte do direito de defesa. Agora, não resta
mais dúvida." (in Código de Processo Penal. 8.ª ed., RT, 2008, p. 810; grifei).
Superior Tribunal de Justiça
Aliás, vale destacar o comentário de Rui Stoco acerca do tema:
"Lembre-se que na redação anterior do CPP, a fonte dos quesitos era: a) o libelo-crime e a acusação oral; b) a contrariedade ao libelo; c) a defesa oral e os debates.
Contudo essas regras constituíam criação doutrinária e jurisprudencial, mas não encontravam previsão expressa no Código de Processo Penal. Ou seja, foram criadas de lege ferenda e, portanto, sujeitas a disceptações.
No atual sistema do Júri, o art. 482, parágrafo único, é expresso em apontar a fonte dos quesitos ao afirmar que, 'na sua elaboração, o presidente levará em conta os termos da pronúncia, ou das decisões posteriores que julgaram admissível a acusação, do interrogatório e das alegações das partes'. Reafirma-se, portanto, que o interrogatório é peça de defesa e meio através do qual o acusado busca exculpar-se.
O notável jurista Alberto Franco obtemperou, em resposta a entendimento contrário, que: "O interrogatório constitui um dos momentos mais expressivos da autodefesa, e se o acusado, nesse ato, manifesta alguma posição defensiva. é evidente que o Juiz-Presidente deve levá-la em conta, mesmo em face da inércia ou da omissão da defesa técnica. Constitui, desse modo, dever inafastável do Juiz-Presidente a formulação de quesitos com base no interrogatório do réu, sob pena de nulidade absoluta do julgamento .'" (STOCO, Rui. Os quesitos no procedimento relativo aos processos da competência do tribunal do Júri (Lei n.º 11.689, de 09.06.2008, que alterou dispositivos do Código de Processo Penal). Revista Jurídica. ano 56, n.º 369, julho de 2008, p. 123; grifei)
No caso em comento, analisa-se o segundo julgamento realizado pelo 2.º Tribunal do Júri da Comarca de Fortaleza/CE, que condenou o Réu pela prática de homicídio qualificado.
Conforme se verifica do auto de interrogatório às fls. 329/330, o Réu respondeu algumas perguntas, mas ratificou na íntegra o interrogatório do primeiro julgamento prestado no dia 11 de outubro de 2000, que foi lido em Plenário, in verbis:
"Depois de cientificado da acusação, foi interrogado de
conformidade com os n.º I e seguintes do mencionado art. 188, respondeu às
perguntas formuladas como se segue: Que, no dia e hora do fato realmente se
encontrava no local descrito na denúncia; que somente teve notícia da
infração quando compareceu a delegacia do 11.] DP, dois dias depois do
fato; que só conhece uma testemunha que é contra o interrogando; que o
restante desconhece das provas já apuradas neste processo; que não conhece
nenhuma das testemunhas arroladas na denúncia, salvo sua filha Daniela; que
somente a testemunha Maria Nazaré do Nascimento está contra o interrogado,
a qual para depor em Juízo foi preciso ser conduzida; que conhecia a vítima
de quem era amiga; que conhece a arma com que foi praticada a infração
Superior Tribunal de Justiça
trata-se um revólver calibre 38 Rossi de sua propriedade, cuja arma desapareceu após a prática delituosa; que é verdadeira a imputação que lhe está sendo feita no processo, que ratifica em todos os termos o seu interrogatório prestado em Juízo, no dia 11 de outubro de 2000, constante de fls. 259/261, o qual foi lido no julgamento de hoje." (fl. 329)
Segundo consta do primeiro interrogatório realizado perante o 2.º Tribunal do Júri da Comarca de Fortaleza/CE, o Réu Eliezer de Oliveira Mota, de forma confusa, confessou a prática do delito, conforme se extrai dos seguintes fragmentos:
"Que é verdadeira a imputação que lhe é feita; que na época do fato o interrogado trabalhava como encarregado da Estação Ferroviária de Couto Fernandes, nesta Capital; que mais precisamente no dia do evento estava trabalhando no horário de dez e trinta foi avisado por um garoto o qual veio até a Estação lhe dizer que sua filha Daniele não estava passando bem; que na Estação onde se encontrava a uma distância de vinte metros visualizou sua filha cercada de vário colegas [...]; que ao se aproximar de Daniele esta disse:
'cuidado papai' apontando para a mercearia; que em aí chegando a vítima se encontrava dentro da referida mercearia; que sem que o interrogando falasse a vítima foi dizendo: 'agora eu ti pego'; que como se encontrava armado o interrogando não esperou e desferiu um tiro na direção da vítima; que a vítima ainda correu na direção de Daniele; que nessa ocasião o interrogando não se lembra mais, no entanto fez outros disparos contra a vítima, que atordoado não percebeu onde a vítima tenha tombado; que a vítima havia anteriormente estuprado sua filha Daniele; que ultimamente a vítima estava vivendo com Daniele numa situação forçada [...] " (fls. 260/261, sic)
Em plenário, a defesa técnica apresentou a tese de violenta emoção e a desclassificação para homicídio simples, que foram refutadas, sendo o ora Recorrente condenado à pena 13 (treze) anos de reclusão por homicídio qualificado.
A defesa interpôs apelação, sustentando, entre outras teses, nulidade do julgamento pela ausência de quesito obrigatório - legítima defesa de terceiro -, que teria sido apontada no interrogatório do Réu (fls. 375/376).
O Tribunal de Justiça do Estado do Ceará refutou a mencionada nulidade.
Confira-se, a propósito, a argumentação no voto-condutor do aresto hostilizado:
"No que se refere a suposta nulidade de inexistência de formulação
do quesito da legítima defesa esboçada pelo réu no interrogatório em plenário
do Júri, ainda que não requerido pela defesa técnica, não há que ser
considerado, porquanto o acusado em nenhum momento asseverou que havia
agido sob o pálio da legítima defesa, mesmo quando do interrogatório do
primeiro julgamento realizado em 11 de outubro de 2000, embora o defensor
do mesmo tivesse sustentado em plenário sobredita tese.
Superior Tribunal de Justiça
Ademais, não vejo como legal pretendida formulação de quesito, de ofício, pelo juiz-presidente de tese de defesa decorrente das declarações do réu quando de seu interrogatório.
Assim já se manifestou o Tribunal de Justiça de São Paulo, verbis:
TJSP "Júri" Pretendida formulação de quesito, de ofício, pelo juiz-presidente de tese de defesa decorrente das declarações do réu quando de seu interrogatório Inadmissibilidade Quesitação a ser formulada ao Conselho de Sentença que deve ser relativa às teses defensivas apresentadas pelo defensor em plenário. (...) Os quesitos a serem formulados ao Conselho de Sentença devem ser aqueles relativos às teses defensivas apresentadas pelo defensor em Plenário, sendo vedado ao Juiz-Presidente formular quesito, de ofício, relativo à tese de defesa decorrente apenas das declarações do réu quando de seu interrogatório" (RT 778/584)." (fl. 413)
Depreende-se que a fundamentação se baseou em dois argumentos: a inexistência da suposta tese de legítima defesa no interrogatório do Réu e a impossibilidade de formulação de quesito de ofício pelo Juiz-Presidente.
Quanto à primeira justificativa, não se constata do interrogatório que o Réu, ainda que de forma inapropriada, tenha justificado sua conduta a partir da legítima defesa, como bem destacou o acórdão recorrido.
Já no que se refere ao segundo argumento, não assiste razão ao Tribunal de Justiça do Estado do Ceará, pois deve prevalecer a plenitude de defesa.
Conclui-se, portanto, que a quesitação, a ser submetida pelo Conselho de Sentença, deve conter os termos da acusação e todas as teses defensivas apresentadas tanto pela defesa técnica, como pela autodefesa. Todavia, no presente caso, não se observa tese de legítima defesa nas declarações do réu quando de seu interrogatório.
Ademais, irregularidade na formulação de quesitos, no procedimento do Tribunal do Júri, quando não causa perplexidade na votação dos jurados, é de natureza relativa, devendo, por isso, ser suscitada após a leitura e explicitação dos quesitos pelo Juiz Presidente, sob pena de preclusão.
Assim, o suposto erro na formulação dos quesitos n.
os03, 04 e 05, bem como nos quesitos relativos à desclassificação da conduta e existência de circunstância atenuante, constituiria mera irregularidade, sem aparente prejuízo para a defesa. E, como não existe menção na ata de julgamento (fl. 336) a respeito das alegações, é evidente a preclusão, por falta de impugnação da defesa, como bem ressaltou o acórdão recorrido nestes trechos:
"Desta feita, a defeituação na elaboração do quesito referente ao
homicídio privilegiado, porquanto não fora devidamente desmembrado o
quesito alternativo, vez que se trata de circunstância subjetiva, cuja
Superior Tribunal de Justiça
configuração afastaria a qualificadora do motivo torpe, que, por sua vez, também é de natureza subjetiva, nulidade do quesito de n. 04, acerca da qualificadora do motivo torpe, posto que apresentada, sob a fórmula jurídica e não sob a forma de fatos, nulidade também do quesito n.º 05, pois não indagada sob a fórmula fatídica, não consideração de circunstâncias atenuantes do art. 66 do CP e inexistência da quesitação de homicídio simples, deveriam todas serem protestadas em plenário do Júri, logo após a sua ocorrência ." (fl. 414)
Assim, incabível a arguição posterior, porque a matéria está preclusa.
Ante o exposto, CONHEÇO PARCIALMENTE do recurso especial e, nessa parte, NEGO-LHE PROVIMENTO.
É o voto.
MINISTRA LAURITA VAZ Relatora